Capítulo 44: Subindo


Draco não pôde deixar de respirar aliviado quando Caffrey e Burke deixaram o apartamento. Aquela tinha sido a inspeção final. Eles viriam buscá-lo no dia da sua audição. A Suprema Corte dos Bruxos revisaria os relatórios que os aurores haviam preenchido ao longo daquele ano. Draco teria permissão para fazer uma declaração em seu próprio nome. A Suprema Corte dos Bruxos anunciaria se considerava sua sentença executada adequadamente e se ele merecia o retorno de sua magia e à sociedade bruxa. Burke havia explicado que a própria audiência (e sua declaração) era realmente mais por formalidade. A Suprema Corte dos Bruxos já teria revisado os relatórios em particular - não que eles compartilhariam seus resultados com ele até a audiência. Burke fez questão de lembrar a Draco para manter seu bom comportamento durante as próximas quatro semanas.

Ele optou por não deixar o emprego na biblioteca. Não havia sentido em desistir até que soubesse o que a Suprema Corte dos Bruxos pretendia fazer com ele. Ele e Hermione haviam tomado a mesma decisão sobre o apartamento. Hermione estava preparada para sublocar seu apartamento para Gina, para que os dois pudessem encontrar outro lugar juntos, mas precisavam se decidir se queriam continuar morando na Londres trouxa ou se queriam encontrar uma pequena casa em algum lugar - talvez perto de Hogsmeade ou de outra vila bruxa. Ficar na Londres trouxa, longe da comunidade bruxa, tinha suas vantagens. Mas também havia algo a ser dito sobre uma casa tranquila no campo.

Era tarde demais para ter dúvidas sobre a entrega de seu livro a McGonagall. Além disso, se calculasse corretamente, só poderia imaginar que aquilo ajudaria seu caso com a Suprema Corte dos Bruxos. Apesar de realmente achar que o livro poderia fazer algo de bom para os outros... poderia também ajudar sua causa.

Servindo-se uma taça de vinho, Draco pensou sobre a surpresa de Hermione. Ele supôs que provavelmente iriam passar a noite em algum outro lugar. Hermione prometera dar-lhe mais alguns detalhes na noite seguinte e o restante na manhã da sexta-feira. Seria a primeira vez em que eles passariam a noite juntos em outro lugar. O Natal na Toca não contava exatamente.

Draco tinha mais um mês sem magia. Seria divertido. Ele realmente não sabia cozinhar com magia, mas poderia cozinhar sem ela. Era algo que nunca pensara em aprender através do caminho mágico. Perguntou-se se Hermione toleraria um elfo doméstico. Ele poderia ter dificuldade em conquistá-la nesse argumento, dada a sua história com os elfos domésticos. Fazer as tarefas da maneira mágica não seria tão terrível quanto fazê-las da maneira trouxa, mas ainda assim... Por que tornar a vida mais difícil do que deveria ser? Ele quase riu. Se queria que a vida fosse fácil, ele não havia escolhido a namorada certa. Tinha certeza de que Hermione o desafiaria. Não o deixaria escapar do caminho mais fácil ou sentir pena de si mesmo. E estava agradecido por isso.

Se ele sairia da cidade com Hermione, não iria carregar suas coisas na velha mochila do Weasley, como havia feito no Natal. Abandonando o vinho pela metade, decidiu ir atrás de uma outra mochila.


Hermione acordou cedo na manhã de sexta-feira para verificar três vezes se ela tinha tudo o que precisariam. Tinha Dramin, no caso de Draco ficar doente. A sua identificação. Roupas. Artigos de higiene pessoal, todos em tamanhos aceitáveis para viagem. Uma coisinha extra que ela comprara, embora estivesse um pouco envergonhada, estava escondida no fundo de sua mala. Ela incluiu o carregador do telefone, não que realmente estivesse esperando qualquer ligação. As passagens estavam em sua bolsa. Comprara vários mapas e guias para a estadia. Trocara sua bolsa de contas por uma bolsa não-encantada para o final de semana. Vestia um cardigã, calças e sapatos confortáveis.

Ela não queria fazer o café da manhã e lavar a louça suja, então desceu as escadas, virou a esquina, pegou alguns cafés e bolinhos e os trouxe de volta ao apartamento de Draco. Até agora, ela havia lhe dito apenas que eles iriam estar fora por duas noites e que ele deveria levar qualquer coisa que pudesse precisar durante esse tempo. Ele perguntou, um pouco desconfortável, se eles iriam viajar através do Nôitibus Andante. Eles não iriam.

Draco estava vestido e pronto quando ela chegou com o café da manhã. Ele a cumprimentou com um sorriso.

— Então, agora eu ficarei sabendo para onde estamos indo e como iremos chegar lá? — perguntou, pegando o café que ela lhe ofereceu.

— Ainda não. Você me fez algumas surpresas, deixe-me fazer as minhas — ela brincou.

— Apenas espere até eu recuperar minha magia, tenho surpresas que deixariam você sem palavras.

— Você não precisa de sua magia para fazer isso.

Eles aproveitaram o café da manhã e, em seguida, Hermione insistiu que descessem com todo o lixo.

— Não é como se fôssemos ficar fora por uma semana, não é? Você disse duas noites.

— Sim, mas é um bom hábito tirar o lixo regularmente.

— Você poderia simplesmente fazê-lo desaparecer — ele resmungou.

— Quero responder com sinceridade, se me perguntado, que não usei magia para ajudá-lo a sobreviver em sua vida como trouxa. Você tem tudo embalado?

Draco apontou para uma pequena mochila ao lado do sofá.

— Roupas suficientes para todos os dias. O carregador do meu telefone, embora Merlin saiba que ninguém mais vai me ligar. Não consigo imaginar que vou precisar de mais alguma coisa. — Ele franziu a testa. — Não preciso levar travesseiros e cobertores ou algo assim, preciso?

— Estaremos hospedados em um hotel, não iremos acampar. Todas as roupas de cama serão fornecidas — prometeu.

— Então suponho que é tudo. Minha identificação está na minha carteira.

Com um pequeno desvio para as latas de lixo, os dois logo estavam a caminho, embarcando no metrô, que os levou em direção ao aeroporto de Heathrow. Quando eles se aproximaram da estação, Draco olhou para Hermione surpreso.

— Iremos ... voando paraonde quer que vamos?

Ela sorriu para ele.

— Surpresa.

Ele se viu segurando a grade um pouco mais forte. Vira trouxas fazerem coisas incríveis naquele ano. Tinha visto aquelas coisas gigantes de metal se lançando no ar havia alguns meses, quando ele e Hermione foram ao aeroporto... Mas ainda assim, não parecia possível que algo tão grande e pesado pudesse se erguer sem magia. Seu rosto normalmente pálido ficou ainda mais pálido.

Hermione percebeu.

— Eu já estive em um avião antes. Você ficará bem.

— Como exatamente eles funcionam? — Ele havia aprendido um pouco mais sobre a tecnologia trouxa nos últimos seis meses, mas como exatamente aquela coisa gigante de metal conseguia subir no ar com sucesso ainda estava um pouco além de sua compreensão.

Hermione fez o possível para explicar. Quando o trem se aproximou da parada, ela perguntou:

— Se você não estiver confortável com isso, podemos ficar em casa.

— Não... vamos fazer isso. Já faz quase um ano que não vejo muito mais do que nossos apartamentos. Sinto falta do céu.

Ele fez o possível para sorrir, mas ainda estava um pouco preocupado em confiar sua vida àquele tipo de tecnologia. De qualquer forma, Hermione confiava naquilo e isso já era alguma coisa.

Eles carregaram suas malas para o terminal e esperaram em uma longa fila, avançando alguns metros por vez até chegarem ao balcão. Hermione falou em voz baixa enquanto se moviam pela fila.

— Nós estamos indo para a França. — Ela o viu ficar um pouco tenso ao ouvir suas palavras e continuou. — Nós não iremos ver sua mãe, apenas aproveitaremos alguns dias de turistas. Ela não faz ideia de que estaremos no mesmo país e, tanto quanto eu sei, nós não estaremos perto dela.

Houve um ligeiro, mas notável alívio da tensão em seu pescoço e ombros.

No balcão, Hermione pegou suas passagens e a mulher no balcão pediu para ver as suas identificações, que eles apresentaram. Hermione rabiscou os endereços deles em etiquetas de bagagem e amarrou-os em torno de sua pequena mala e na mochila de Draco. Eles desapareceram pela esteira e por uma pequena abertura com cortina.

— A segurança estará à sua esquerda, subindo as escadas — explicou a mulher. — Próximo por favor!

Depois de um incentivo de Hermione, Draco virou-se para a esquerda e eles entraram em uma fila lenta. Quando finalmente chegaram à frente, mostraram suas identificações e passagens conforme as instruções e a mulher uniformizada os estudou por um momento, inserindo algo no seu computador.

— Esvazie seus bolsos de qualquer metal: chaves, celulares, moedas e coloque-os na bandeja — ela instruiu.

Draco esvaziou os bolsos na bandeja fornecida e observou Hermione seguir o exemplo. Ele notou silenciosamente que ela não estava carregando sua bolsa habitual e levantou uma sobrancelha. Hermione assentiu uma vez, decidindo guardar sua explicação para quando passassem pelo ponto de verificação de segurança.

Draco seguiu logo atrás. Infelizmente o detector apitou para ele.

— Senhor, você está usando um cinto ou qualquer outro metal?

O herdeiro Malfoy foi forçado a remover o cinto, enviá-lo de volta pela esteira e prosseguir com o scanner novamente. Desta vez, a máquina ficou silenciosa.

— Você pode continuar.

Eles seguiram as placas até o portão, disposto perto de um balcão de ajuda, uma grande janela e uma porta muito sólida.

— E agora?

— Agora, esperamos.

Eles se sentaram em um lugar perto da janela onde podiam assistir os aviões chegando e saindo. Silenciosamente, Hermione explicou as medidas de segurança pelas quais haviam passado: verificação de suas identificações para garantir quem eram, radiografia de seus pertences na esteira transportadora e verificando se não possuíam nenhum objeto metálico — como facas — escondidas em seus corpos.

— Ou cintos — Draco murmurou.

— Ou cintos — disse ela, seus lábios se curvando em um sorriso provocador.

— Esta foi uma das resoluções do seu ano novo.

— Você precisar tirar o cinto em um aeroporto?

— Viajar pelo prazer de viajar. — Ele apertou a mão dela. — Estou feliz por estar fazendo isso com você.

Eles assistiram os aviões taxiando durante um tempo até Draco estar bastante certo de que, se todos os outros aviões conseguiam chegar ao ar com sucesso, certamente as chances estavam a favor deles. Quando eles se levantaram para comer, Draco ficou indignado com os preços do aeroporto por um sanduíche e uma garrafa de água.

— Como não há muitas opções além do ponto de verificação de segurança, eles cobram o que querem — Hermione disse sem humor.

Draco resmungou, mas comer seus sanduíches ajudou a passar o tempo até que um avião chegou e pouco tempo depois a porta robusta se abriu e as pessoas saíram dele.

— Quando todos saírem do avião, ele será reabastecido, as comissárias de bordo farão uma limpeza rápida e nós poderemos embarcar — Hermione disse. — Você ainda tem sua passagem?

Ele fez o possível para não revirar os olhos.

— Eu sou um bruxo, não uma criança — murmurou. — Sim, eu ainda tenho minha passagem.

Particularmente, ele duvidava que os poucos minutos que a tripulação levaria para limpar o avião seriam suficientes para deixá-lo higiênico.

— Você quer algum remédio anti-náusea para o voo? Algumas pessoas ficam enjoadas e vomitam...

— Você realmente acha que eu vou ficar enjoado? — Ele perguntou com uma sobrancelha levantada.

— Vai ser diferente de voar em uma vassoura. Vai subir muito — ressaltou. Ela engoliu um comprimido de Dramin e bebeu sua água. Ela não pretendia ficar enjoada.

Por fim, o fluxo de pessoas saindo do avião cessou e a mulher no balcão anunciou que estava pronto para o embarque. Hermione e Draco se juntaram à fila que se formava. Um atendente uniformizado inspecionou seus cartões de embarque e eles entraram na pista. Ele apertou a mão de Hermione, tentando acalmar seus próprios nervos. Todo mundo parecia embarcar com lentidão agonizante. Finalmente, eles subiram no avião e Draco e Hermione se sentaram. Ela lhe ofereceu a janela e se sentou no assento do meio.

Os assentos eram um pouco apertados, mas não insuportáveis. Draco seguiu as instruções de Hermione com relação ao cinto de segurança e eles esperaram enquanto o resto dos passageiros se acomodava. Olhando pela janela, ele viu pequenos veículos carregando bagagens e assistiu com um estremecimento quando elas foram jogadas para os aviões (caindo no chão mais vezes do que ele pensava que deveria ser permitido para que os homens mantessem seus empregos).

Uma comissária de bordo anunciou que a porta estava se fechando e lembrou-os de todos os procedimentos necessários para decolar - cintos de segurança, braços apoiados, assentos eretos. Ele continuou olhando pela janela e observou o avião lentamente começar a se mover. Nunca sairemos do chão a essa velocidade, pensou.

— Preste atenção — Hermione advertiu, enquanto a aeromoça estava falando novamente.

A boca de Draco ficou um pouco seca quando ela explicou sobre coletes salva-vidas, a importância de manter o cinto de segurança, a consciência dos locais para saídas de emergência, máscaras de oxigênio e outros pensamentos infelizes.

— Tudo isso é realmente necessário? — ele perguntou em voz baixa. — Quão provável é que aconteça?

— Não muito, mas é uma precaução. Se uma emergência acontecer, eles querem que todos saibam como lidar.

— Se uma emergência acontecer, você vai nos aparatar em outro lugar... não é?

Ela deu um tapinha no braço dele tranquilizadoramente. Nada de ruim iria acontecer.

O avião ganhou velocidade pela pista até que finalmente subiu levemente no ar. Pela primeira vez, Draco estava voando sem vassoura. Ele passou os próximos instantes colado à janela, fascinado, rezando fervorosamente — para qualquer poder que pudesse estar ouvindo-o — de que todo o equipamento demonstrado pela aeromoça não fosse necessário e que eles pudessem descer em segurança. À medida que ganhavam altitude, ele pensou que o mundo nunca parecera tão pequeno. Hermione apertou a sua mão e sorriu, contente por ter conseguido o surpreender.

À medida que ganhavam altitude, Draco sentiu uma pressão nos ouvidos e mencionou isso a Hermione.

—Isso é normal?

—Sim. É a pressão da mudança de altitude. Bocejar ajuda.

Para sua surpresa, ele fez. Quando passaram por uma espessa camada de nuvens, não tinha nada a ser visto pela janela. Draco voltou-se para Hermione.

— Receberei informações sobre o resto da viagem ou ainda é uma surpresa?

— Bem, eu estava pensando que nós chegaríamos e iríamos para o nosso hotel e talvez jantássemos e voltássemos para o quarto mais cedo. — Houve uma pequena pausa e Draco não conseguiu ler a expressão no rosto dela. — E então temos um dia de excursões reservadas para nós amanhã. Há um passeio pela cidade e alguns museus. E depois voltamos para casa no domingo. Pensei que seria divertido apenas interpretar um casal de turistas durante alguns dias.

Draco se inclinou e a beijou profundamente nos lábios (o que deixou bastante descontente a senhora idosa do outro lado de Hermione).

— Parece perfeito, amor. — Depois de um tempo, a comissária de bordo apareceu com um carrinho de bebidas e saquinhos de amendoim. A senhora idosa do outro lado de Hermione começou a roncar.

— Não podemos fazer alguma coisa sobre isso?

— Você pode ouvir música.

Hermione pegou os fones de ouvido no bolso do assento na frente deles e demonstrou como poderiam ouvir música.

Um surto de turbulência particularmente ruim durante a descida conseguiu deixá-lo um pouco enjoado, mas ele estava orgulhoso em dizer que o conteúdo de seu estômago ficara onde pertencia. Ele havia decidido — depois de apenas um olhar pela janela que assistir a descida era uma péssima ideia; mergulhar não era ruim quando estava em uma vassoura e poderia controlar o quão rápido estava se movendo e em que ângulo, mas era consideravelmente mais estressante quando um homem que ele nunca conhecera estava no comando e a terra se aproximava rapidamente em relação ao tamanho daquele meio de transporte. Pouco tempo depois, a chegada em Paris foi anunciada.

Pareceu levar um tempo excessivamente longo para que todos reunissem seus pertences e desembarcassem. Draco resmungou um pouco, apenas para não perder o costume.

— Bem, é isso que você ganha com o transporte público — Hermione falou alegremente.

Ela não estava saía do país havia muito tempo. Estava determinada a se divertir naquele fim de semana.

— Existem aviões particulares? — ele perguntou.

— Ah, sim, mas são terrivelmente caros. E não apenas em relação à compra. O custo do combustível por si só é exorbitante. Você pode comprar diferentes classes em um avião como este. Na primeira classe, os assentos são um pouco maiores e oferecem algo um pouco mais substancial do que o amendoim. Mas a primeira classe está um pouco fora do orçamento para um bibliotecário e uma aprendiz de poções.

Quando a fila começou a se mover, os dois saíram do avião e entraram no aeroporto, seguindo a multidão geral em direção às esteiras de bagagem.

Draco afastou os cabelos do rosto.

—Eu prometo, quando eu recuperar minha magia e meu dinheiro, irei te levar a algum lugar...

—Tudo que eu preciso é você.

Ela deixou algumas perguntas para fazer em outro momento, quando não houvesse ouvidos trouxas por perto, como: que tipo de férias mágicas estavam disponíveis? Qual era o método de viagem preferido? Ela sabia que os Weasleys tinham ido ao Egito visitar Gui uma vez, quando ganharam dinheiro suficiente para fazê-lo, mas ela não estava realmente ciente dos detalhes dos preparativos da viagem. Provavelmente era fascinante.

Os dois encontraram sua bagagem circulando a esteira. Eles estavam prontos para ir.

— Precisamos trocar libras por francos. Há uma casa de câmbio por aqui.

— Os trouxas não usam o mesmo dinheiro?

—Varia de acordo com o país.

Hermione se encarregou da troca de dinheiro no balcão e Draco foi surpreendido pelo grande número de moedas listadas. Embora ele soubesse como era a geografia do planeta (no que dizia respeito a todos os continentes) e tivesse estudado um pouco das comunidades mágicas ao redor do mundo, ele nunca havia pensado muito em seus colegas trouxas.

— Existem países onde os bruxos não precisam se esconder dos trouxas? — ele perguntou em voz baixa, enquanto se afastavam.

— Nenhum, até onde eu sei.

—Tantos países e ninguém pode fazer isso funcionar? — Era um pensamento deprimente.

—Eu ainda espero que um dia funcione. Mas... reunindo as sociedades bruxas e licântropa primeiramente. Então irei abordar o resto do mundo.

Ela falou como se estivesse confiante em seu sucesso, mas Draco sabia que era tudo, menos garantido. Ela passou para um tópico mais fácil. Estava determinada a se divertir naquele fim de semana e não pretendia se envolver em pensamentos sobre suas pilhas de trabalho. Teria alguns longos dias na próxima semana para compensar as horas que estava perdendo com Belby. Ela explicou que eles poderiam pegar o trem direto para o centro da cidade e depois seguir para o hotel a partir daí.

Ele a provocou, perguntando se o condutor também lhes ofereceria dicas de sobrevivência no pior cenário possível. Ele não saía da Inglaterra havia algum tempo e, embora o seu francês estivesse um pouco enferrujado por desuso, essa tinha sido uma das aulas que tivera antes de Hogwarts. Para sua surpresa, Hermione também havia estudado francês antes de Hogwarts. Embora ela não o usasse há um bom tempo, tinha estudado um pouco desde que decidira fazer essa viagem.

— Você é alguma coisa, sabia disso?

— Eu posso ser o mais romântica possível — disse ela, sorrindo.

Quando a parada foi anunciada, ela o puxou pela mão e, seguindo a rota sugerida pelo mapa, seguiram para o hotel. Draco observou o atendente no balcão encontrar suas reservas e oferecer dois cartões plásticos planos, que ele insistiu serem as chaves do quarto. Não parecia uma chave, mas como Hermione parecia aceitar, Draco optou por não discutir o assunto.

O hotel era limpo e em boas condições, mas provavelmente não era o hotel mais luxuoso da rua. Eles carregaram suas malas até o quarto, onde Hermione deslizou um dos cartões em uma ranhura na porta. Depois de um segundo, uma luz verde brilhou e Hermione girou a maçaneta.

Eles examinaram o quarto quando entraram. Havia algumas obras de arte bastante entediantes nas paredes, uma cama grande ocupando a maior parte do quarto e uma TV sobre a cômoda. Duas mesas de cabeceira estavam em ambos os lados da cama. Duas portas levavam a um pequeno armário de um lado e um banheiro do outro.

— Bem, é isso. Não é muito chique, mas está localizado na parte certa da cidade.

Ele passou o dedo pelos lábios dela e depois se inclinou para beijá-la.

— Está perfeito.

Ela o beijou de volta com os lábios abertos, suspirando. O corpo dela estava encostado ao dele e eles estavam no meio do quarto, os seios pressionados contra o seu peito. Uma mão brincava com o cabelo dela e a outra estava segurando sua bunda, puxando-a para mais perto, como se não pudesse ter o suficiente dela. Ela não conseguia ter o suficiente dele, tampouco. Ela deixou a cabeça cair para o lado quando ele deixou um rastro de beijos no seu pescoço e no ombro. Ela tinha a sensação de que aquilo deixaria uma marca. Não se importou. Gemendo baixinho, ela se desembaraçou com a maior relutância, respirando pesadamente.

— Em breve.

Ele soltou um som melancólico, sem perceber.

— Eu poderia ficar aqui e te beijar a noite toda...

—Temos reservas para o jantar... reservas para o jantar daqui a pouco. Não muito longe, na estrada. Por favor, Draco, eu planejei esse final de semana.

Afastar-se dele era a última coisa que ela queria fazer, mas ele tinha planejado encontros românticos suficientes para ela, então queria retribuir.

Ele engoliu em seco e tentou pentear os cabelos sem sucesso com os dedos.

—Claro. Eu vou tomar um banho rápido antes do jantar.

Teria que ser um banho frio. Um banho muito frio.

Ela sorriu para ele.

— Vai valer a pena esperar — prometeu. Esperava não decepcioná-lo.

Enquanto Draco pegava sua mochila, indo para o banheiro, Hermione aproveitou a oportunidade para abrir sua mala. Pegou a poção que havia preparado para aquela noite e a tomou. Aquela era a única coisa mágica que trouxera, além de sua varinha. Trocou as calças e o cardigã por um vestido preto. Tinha um pequeno bordado na parte inferior da saia e um pouco no pescoço. Ele era justo, mas não muito colado. Sentiu-se... apresentável. Ela quase nunca usava vestidos. As vestes eram práticas para o trabalho e as calças eram práticas para a maior parte do tempo. Ela sabia que Draco ficaria atrevido com o que estava vestindo. Ela pegou um par de sandálias da mala e colocou-as nos pés. Viu a surpresa que trouxera espreitando por baixo das blusas e meias — verde Sonserina e levemente transparente. Ela teria que guardar no banheiro para mais tarde, depois que Draco saísse.

Inspirou e expirou algumas vezes e depois passou uma escova pelo cabelo, embora não parecesse menos selvagem. Ela se olhou criticamente no espelho, não particularmente impressionada com o resultado geral. Mas teria que servir.

— Linda.

Draco murmurou, saindo do banheiro. Ele parecia impecável, de calça preta e uma camisa branca de botão. Seu cabelo estava molhado, mas penteado para trás.

Não importava quantas vezes Draco a olhasse com aquele olhar, Hermione ainda corava.

— Não é tão ruim?

—Linda — ele insistiu. Pegou a mão dela e beijou. A luz em seus olhos dizia que ele pretendia beijar todo o caminho do seu braço.

— Depois do jantar — ela advertiu. — Só um momento e eu estarei pronta para ir.

Ela carregou a mala para o banheiro e, como não tinha onde colocá-la, colocou-a no chão ao lado da pia.

De braços dados, eles saíram e foram jantar. Fiel ao acordo anterior, fizeram o possível para não conversar sobre trabalho. Hermione contou a ele sobre os passeios que planejara para o dia seguinte e alguns dos pontos turísticos trouxas da cidade. Ela temia que não houvesse tempo suficiente, pois havia muito para ver.

—Vai ficar tudo bem, tenho certeza. Poderemos voltar a qualquer momento. — Ele entrelaçou os dedos aos dela sobre mesa. Os pratos principais haviam sido limpos e o garçom foi buscar a sobremesa. — E o que está em pauta esta noite? Ainda é cedo. Um passeio ao luar pela margem do rio? Observar as estrelas? A torre Eiffel à noite? — Ele tomou um gole de vinho e sorriu.

Hermione sorriu de volta um pouco nervosa.

— Eu pensei que poderíamos voltar para o hotel e... nos entreter. Existem algumas coisas que ainda não exploramos que eu acho que... merecem ser melhor exploradas. Eu pensei que aqui poderia ser um bom lugar...

Draco levou apenas um segundo para entender onde ela queria chegar.

Os dois optaram por encerrar a conta e pular a sobremesa; todos os doces do mundo não poderiam ser mais tentadores do que o pensamento um do outro.


Os cabelos de Hermione estavam espalhados pelo travesseiro e o lençol não estava fazendo um trabalho particularmente bom em esconder seus seios. Não que os dois tivessem algo a esconder um do outro agora. Cicatrizes, Marca Negra e todo o resto haviam sido revelados àquela noite. Ela riu um pouco pesarosa.

— Não acredito que trouxe algo que nem sequer tive a chance de vestir. Pensei que poderia ajudar a definir o clima.

Ele esfregou o polegar na bochecha dela.

—Você não precisa de nada além de si mesma para definir o clima, amor. Embora eu não me oponha a te ver usando o que quer que seja em outra oportunidade. De que cor é?

—Você terá que esperar para descobrir.

—É verde, não é? Ou vermelho? Não, é verde — adivinhou, sorrindo.

Ela estava extremamente tentada a bater nele com um travesseiro, mas se mover parecia esforço demais, então ela simplesmente continuou deitada nos seus braços pelo resto da noite.