Capítulo 45: Luz do sol
Quando Hermione acordou de manhã, seu primeiro instinto foi se cobrir. De alguma forma, o lençol se enrolara em sua cintura, ela viu que a luz entrava na sala e começou a tentar desenrolar o lençol e puxá-lo sobre si mesma. Podia sentir suas bochechas ficando um pouco rosadas.
— Não se esconda. Você é linda — Draco disse, sorrindo preguiçosamente.
— Mesmo à luz do dia? — Ela perguntou. Nunca fora fã de sua própria figura e não confiava na gentileza da luz da manhã.
Draco sentou-se na cama, deixando as cobertas escorregarem até os quadris.
— Sempre. — Um sorriso brincou em seus lábios. — Nós poderíamos ficar aqui...
Com uma risada, ela se inclinou e o beijou.
— Boa tentativa, mas temos um cronograma a cumprir. — Decidiu sair da cama sem se enrolar no lençol e Draco a olhou com aprovação enquanto entrava no banheiro para tomar banho.
Em pouco tempo, os dois estavam vestidos, tomando café da manhã e iniciando seu passeio pela cidade. Eles chegaram a uma pequena agência onde Hermione havia feito uma reserva e foram escoltados para um ônibus.
O ônibus de turismo tinha várias vantagens em relação ao Nôitibus Andante. Tudo a bordo permaneceu onde foi colocado, o próprio ônibus não entrou e saiu da atmosfera a um ritmo repugnante e o motorista parecia realmente ter algum entendimento de como dirigir. Draco considerou uma vitória total. O fato de o ônibus os elevar a uma altura decente acima dos carros para ver os marcos da cidade era um bônus.
Hermione havia conseguido lugares no segundo andar, onde eles tinham uma boa visão e podiam ouvir bem o que o guia dizia. A maioria dos outros passageiros parecia ser pelo menos quatro décadas mais velha que o jovem casal. O ônibus trafegava pelas ruas de Paris enquanto o guia explicava animadamente sobre o que estavam vendo e o que estavam prestes a ver.
A morena sussurrou para Draco quando o guia errou algo e ele fez o possível para reprimir seu desejo de rir. Ele pode, no entanto, ter murmurado afetuosamente a sentença "sabe-tudo", mas entre os sussurros de Hermione e a palestra do guia de turismo, mesmo alguém sentado ao lado dele não seria capaz de ter certeza de que tinha ouvido as palavras escorregarem de sua boca. O sorriso, no entanto, era impossível de ser escondido.
O ônibus passou pelo Rio Sena, Notre Dame e pelo Arco do Triunfo, enquanto o guia da excursão continuava em um fluxo constante de palavras, mal parando para respirar.
— Está na hora do almoço?
— Ainda não. Em breve.
Em pouco tempo, o ônibus parou e, a uma palavra do guia, todos começaram a desembarcar. Os outros no ônibus se moveram a um ritmo agonizantemente lento para Draco, embora felizmente eles estivessem apenas atrás de um punhado deles. Toda a manada de pessoas seguiu em frente, atrás do guia turístico. Ele continuou a falar sobre o que eles estavam vendo e levantou uma pequena bandeira para que o seguissem. Havia um sol sorridente na bandeira. Draco nunca imaginou que seguiria uma pequena bandeira de sol pelas ruas de Paris.
Por fim, eles chegaram à base da Torre Eiffel. Hermione olhou em volta. O guia apresentou seus ingressos e, em pouco tempo, Draco, Hermione e os outros estavam subindo de elevador. Ele pegou a mão dela.
Estava lotado quando chegaram à plataforma de observação. Era um dia adorável e os turistas saíam em massa. Demorou alguns momentos antes que Draco e Hermione se encontrassem encostados na beira do parapeito juntos, admirando a vista.
— Todo mundo lá embaixo, vivendo suas vidas.
Draco assentiu ao lado dela, colocando um braço em volta da sua cintura.
— O mesmo aqui como em qualquer outro lugar.
Em voz baixa, de modo que ninguém mais alguém ouvisse, ela perguntou:
— Você acha que algum deles é bruxo?
Ele balançou a cabeça.
— Poucos, se houver. O distrito fica do outro lado da cidade. Estive lá... quando criança.
— Se tivéssemos crescido aqui...
A guerra não os tocaria tão de perto. Hermione não seria a melhor amiga de um garoto com um alvo nas costas. Draco não teria vivido com um louco em sua casa, ameaçando sua família, forçando-o a cometer atos terríveis. Hermione não teria que fazer seus pais esquecerem que ela existia. Um monte de desgosto poderia ter sido evitado. Mas eles também não seriam as pessoas que eram agora. E quem sabia o que teria acontecido com o mundo em geral? Tantos "e se".
Hermione tirou uma câmera trouxa da bolsa e, educadamente, perguntou a uma das mulheres próximas se poderia tirar uma foto deles. A mulher falou sobre o amor jovem e tirou várias fotos antes de devolver a câmera para Hermione. Ela esperava que pelo menos uma saísse boa.
O guia agitou a bandeira para convocá-los todos de volta:
— Por aqui, todo mundo, e poderemos almoçar.
Depois do almoço, o grupo lento de pessoas foi arrastado de volta para o ônibus, pelas ruas da cidade e deixado no Louvre. Hermione ficou grata por ter agendado o passeio, mas as poucas horas que seu grupo de turistas passou no museu não foram suficientes.
— Eu posso ver no seu rosto, sei que voltaremos — Draco ofereceu, divertido. — Talvez na próxima oportunidade eu arranje o transporte.
— Voar não foi tão terrível, foi?
— Não — ele admitiu. — Mas ainda assim. Para que voar quando existem outros meios? — Um sorriso apareceu em seu rosto. — Ou poderíamos voar...
Os olhos de Hermione se arregalaram.
— Você sabe como me sinto sobre vassouras.
E assim o dia passou. No final, Draco estava começando a se sentir tolerante com o pequeno raio de sol na bandeira. Por um dia, os dois foram apenas mais um par de turistas trouxas, visitando a cidade do amor. Eles trocaram de roupa antes do jantar e Hermione pensou que poderia usar sua lingerie àquela noite, afinal.
O voo da volta foi tudo o que o voo da ida não havia sido. No aeroporto, o cinto de Draco acionou o detector de metais novamente, mas desta vez, remover o cinto não foi suficiente. Ele teve que se submeter a uma revista pelo oficial de segurança.
Quando o oficial o libertou, Draco e Hermione foram até o portão. Ele esperou até ficar longe de ouvidos alheios antes de resmungar:
— Depois disso, o mínimo que ele poderia fazer é me pagar o jantar.
— Bem, que tal alguns amendoins ou pretzels minúsculos no avião?
— Oh, alegria.
— Você quer pegar algo para comer?
— Não, nosso voo não vai demorar.
O que seria verdade se eles não tivessem enfrentado um atraso de três horas no voo.
Quando embarcaram no avião, o estômago de Draco estava roncando e até Hermione começava a se sentir um pouco irritada. Finalmente, estavam acomodados em seus assentos. Draco e Hermione se inclinaram um contra o outro, cansados do dia. A primeira parte do voo foi tão bem quanto poderia ser. Cansados de tanto esperar, ficaram apenas sentados em seus lugares, as cabeças encostadas uma na outra. Draco estava no assento do meio e, quando o avião começou a estremecer, ele acordou.
— Não há nada para batermos, por que ele não pode voar direto?
Hermione bocejou, aconchegando-se mais profundamente em seu ombro.
— É apenas turbulência. Nuvens e correntes de ar. Posso explicar isso mais tarde.
Os olhos de Draco se fecharam e ele fez o possível para ignorar a maneira como o avião parecia bater contra absolutamente nada que pudesse ver. Ele poderia ignorar aquilo se fosse o único problema. Hermione estava sentada ao lado dele e era possível sentir o perfume do seu xampu e ouvir sua respiração. Ele poderia ter conseguido se concentrar nela e ignorar o restante do voo se o homem ao seu lado não tivesse ficado enjoado, da maneira mais nociva possível. Draco se pressionou o mais perto possível de Hermione e longe do homem, enquanto ele continuava a perder o almoço em um saco de papel.
Hermione abriu um olho e apertou o botão de chamada do comissário de bordo e disse em voz baixa para Draco:
— Você poderia entregar a sacola de papel do seu assento para ele.
O momento para isso simplesmente não era o correto. O avião passou por outra turbulência quando Draco tentou entregar ao homem o saco de papel. Ele tinha certeza de que ficaria fedendo pelo menos até a semana seguinte. Tudo o que pôde fazer foi cerrar os dentes até que a comissária de bordo viesse ajudar o outro homem e Draco estivesse livre para sair pelo corredor para se limpar no banheiro. Ele ignorou a placa indicando que deveria permanecer sentado. Quando o conteúdo do estômago de outra pessoa estava em suas mãos, realmente importava um pequeno sinal luminoso?
Foi um alívio descer em Heathrow e descobrir que as malas haviam chegado como o esperado. Depois de tudo o que acontecera naquele dia, Draco esperava que elas tivessem sido esquecidas na pista de Paris. Nada mais o surpreenderia naquele momento.
Nada além disso ocorreu, exceto uma mulher loira à espreita do lado de fora do prédio, usando óculos cobertos de strass. Mas, para ser surpreendido por ela, ele teria que notá-la e, francamente, não tinha energia àquela altura. Tudo o que realmente queria era um banho fumegante.
Hermione o beijou quando subiu as escadas do prédio.
— Você toma banho e eu vou providenciar um jantar para nós.
Ele levantou uma sobrancelha, notando que ela não recuou do fedor.
Ela despenteou o cabelo dele de brincadeira, sabendo que o irritava.
— A maior parte está na sua cabeça neste momento. Você lavou. Além disso, eu trabalhei em muitas poções com cheiro horríveis.
Ela sorriu para ele e ele a seguiu.
Mesmo com um final como aquele, Draco precisava admitir, tinha sido um ótimo final de semana.
