Capítulo 46: Skeeter


Os clientes entravam e saíam da loja, mas Hermione estava alheia na sala de trabalho, concentrada no feitiço que lançava. Era uma pequena variação em um dos bigodes zunidores que estavam atualmente em desenvolvimento. Tinha sido ideia de Gina e Hermione não teve coragem de dizer-lhe que não queria fazer aquilo. Ela não esperava que estivessem prestes a criar algo no nível dos espelhos, que eram uma revolução para o mundo bruxo. Mas era uma coisa engraçada, algo que poderia fazer as pessoas rirem. É certo que, se Harry alguma vez usasse um nela, ele teria sorte se vivesse para se arrepender. A lembrança de seu tempo com bigodes em Hogwarts não era algo que gostasse de pensar. Estremeceu. Talvez não devesse estar trabalhando naquela bugiganga em particular.

Uma sombra caiu sobre ela quando terminou a repetição do encantamento. Olhando para cima, viu que Jorge estava encostado na porta, com os braços cruzados e olhando para ela.

— Recebemos um visitante há pouco tempo.

A morena levantou uma sobrancelha.

— Essa é uma loja. Penso que recebermos visitantes é o normal. Clientes entrando e saindo. Comprando. Você sabe, o tipo usual de coisa que mantém os galeões fluindo.

— Ah, mas esse não era o tipo usual de visitante.

Ela esperou que ele elaborasse.

Ele esperou que ela perguntasse.

Suspirando, Hermione cedeu e abriu a boca. Ela não estava disposta a jogos aquela tarde. Seus dias ali estavam contados. Ela tinha outro trabalho que precisava ser feito.

— E o que tinha de incomum nesse visitante?

Com uma voz muito casual, Jorge começou a explicar.

— Bem, veja só, ela não queria comprar nada. Apenas entrou, bisbilhotando, fazendo perguntas, a pena indo uma milha por minuto. Tudo por conta própria.

A percepção surgiu no rosto de Hermione quando sua boca inicialmente caiu, depois se firmou em uma linha fina.

— O que, em nome de Merlin, aquela mulher Skeeter queria?

Jorge deu um pequeno sorriso ao notar Hermione hesitando com a palavra "mulher" como se quisesse chamá-la de outra coisa. Ele não comentou. Aquela não era a hora.

— Ela estava interessada no que você está fazendo aqui... e mais interessada ainda no que está fazendo quando não está aqui.

— Quando eu não estou aqui... — Ela murmurou para si mesma antes de perguntar: — Ela ainda está lá fora?

— Não. Eu disse a ela que a loja era para clientes pagantes e eu posso ter deixado cair algo dentro da sua bolsa quando a empurrei pela porta.

O sorriso malicioso em seu rosto indicava que Rita não iria desfrutar de seu presente grátis.

Hermione tentou respirar firme uma e outra vez.

— Eu ... eu pensei que depois da última vez, eu poderia ter me comprado um pouco de paz. O acordo durou apenas um ano e nós já passamos por isso agora, mas eu esperava que, como ela não escreveu qualquer coisa no verão passado, poderia finalmente ter me deixado em paz.

— Você não estava exatamente disponível no verão passado.

A morena fungou.

— Se alguém diz ou não diz alguma coisa nunca incomodou aquela mulher antes.

— Talvez ela não se atreveu a publicar qualquer coisa desagradável sobre você no verão passado. — Ele não parecia acreditar em suas próprias palavras. — De qualquer forma, pelas perguntas que estava fazendo, acredito que Malfoy pode ser seu alvo dessa vez.

O rosto de Hermione ficou mais pálido.

— Merlin, Circe, Morgana. Sua audiência está chegando, para decidir se ele recuperará sua magia. Se ela escrever alguma coisa...

Com a boca seca, Hermione ficou de pé antes mesmo de perceber. Ela olhou uma vez para a mesa onde seus suprimentos estavam dispostos.

— Vá. Eu vou organizar tudo.

Hermione se foi quase antes que ele chegasse ao final da frase, jogando um sorriso por cima do ombro e se perguntando se deveria parar e pegar um pote de vidro antes de ir ao escritório do Profeta Diário. Ela optou por não pegar. A última coisa que precisava era ameaçar a mulher em seu local de trabalho. Havia maneiras mais sutis de fazer aquilo. Ela cuidaria disso. Hermione pretendia ir ao escritório do Profeta Diário a pé — ao invés de via Flu — para comprar alguns minutos de tempo para pensar, mas nunca chegou até lá.

A menos de três metros do lado de fora da Gemialidades Weasley, ela sentiu um cheiro podre e viu uma sibilante Rita Skeeter, que revirava a própria bolsa na rua.

— Olá, Rita — Hermione disse, uma expressão agradável em seu rosto. — Precisa de uma mão?

Assustada, a mulher a olhou em um momento de franca descrença.

Hermione murmurou o contrafeitiço das bombas fétidas, suspeitando que Jorge as tivesse colocado na bolsa da mulher. Não eliminou o cheiro completamente, mas certamente aliviou.

A loira ajeitou o cabelo de volta ao lugar e começou a devolver seus pertences à bolsa o mais calmamente possível, como se esvaziar a bolsa nas ruas de paralelepípedos fosse uma ocorrência diária.

— Srta. Granger. A que devo o prazer? Não é sempre que você me procura.

— Eu dificilmente chamaria isso de te procurar quando foi você que acabou de sair do meu local de trabalho — ela respondeu, com a voz seca.

— Talvez você prefira continuar essa conversa em outro lugar? Eu ficaria feliz em acompanhá-lo de volta ao meu escritório e deixá-la confortável.

— Seu escritório? Acho que não.

— Território neutro então?

Com algum nível de apreensão, Hermione levou Rita ao Caldeirão Furado. Era perto o suficiente e, desde que ela nunca deixasse nada desprotegido na mesa, duvidava que a mulher pudesse envenenar qualquer coisa com sucesso. Rita tentou conversar algumas vezes, mas a única resposta de Hermione foi um silêncio pedregoso. Ela não disse nada até que estivessem lá dentro. Enquanto caminhavam, pensou se deveria pedir uma sala privada, em vez de estar à solta no pub. Se quisesse testemunhas, teria sido melhor forçar Rita de volta à loja. Tarde demais para isso agora.

— Tom, eu sei que é a curto prazo, mas podemos ocupar a sala privada nos fundos? — Hermione perguntou.

O velho garçom desdentado sorriu para ela.

— Srta. Granger, eu ficaria encantado.

Seria ainda melhor para os negócios se ela ficasse na sala principal, mas a entrada da heroína de guerra era melhor do que nada.

Ele as acompanhou até a sala dos fundos e foi buscar um chá para elas.

Por fim, Hermione virou-se para Skeeter. Os óculos eram exatamente como se lembrava. O rosto tão excessivamente maquiado. Talvez outra linha ou duas estivessem mais visíveis do que haviam estado um ou dois anos antes.

— Eu tenho dificuldade em imaginar por que, dado tudo o que se passou entre nós — todas as mentiras que você escreveu sobre mim — você acharia que seria uma boa ideia me procurar no meu local de trabalho sem ser solicitada.

Ela manteve o tom agradável, mas havia punhais em seus olhos.

— Ainda há muitas perguntas sem resposta, Srta. Granger. O público tem direito a respostas. — Ela pegou seu pergaminho e a Pena de Repetição Rápida. — Você e o Sr. Potter desapareceram após o final da guerra. Você deveria estar perante os olhos do público, trabalhando na reconstrução de Hogwarts, assumindo posições no Ministério... Não é de surpreender que você tenha se consolado com outro depois do trágico acidente do Sr. Weas...

Os punhais foram embora, substituídos por chamas. Se um olhar pudesse matar, Rita teria se tornado uma marca de queimadura contra a parede.

— Rony não morreu em um "acidente trágico". Ele foi assassinado por pessoas que não podiam aceitar que a guerra havia terminado e que a paz e a ordem estava voltando às ruas. Não se atreva a desonrar sua memória, chamando o assassinato de acidente. — Ela respirou fundo. Calma. Calma. Cruzou as mãos no colo para impedir que tremessem. — Guarde a pena e o pergaminho antes que a vela acidentalmente caia sobre eles. Às vezes posso ser bastante desajeitada. Isso sim seria um acidente. E isso não é uma entrevista.

Os olhos de Rita se estreitaram, mas a pena e o pergaminho flutuaram sem varinha em direção a sua bolsa.

— Não, a grande Hermione Granger é claramente importante demais para dar uma entrevista a um jornalista em dificuldades.

— Imagino que você ainda consiga cuspir no papel como sempre, apesar de já ter passado algum tempo desde que recebi o Profeta Diário.

— As assinaturas nunca se recuperaram após a guerra. O jornalismo é uma indústria difícil.

— A distorção da verdade e a publicação de mentiras prejudicou o jornal? Estou chocada.

Quando Tom trouxe o chá, Hermione tomou um gole cuidadosa e lentamente, inalando-o e tentando encontrar a calma. Jogar um bule de chá na cabeça de Rita não tornaria mais fácil lidar com a situação, independentemente de quão boa a ideia parecesse ser naquele momento.

— Eu espero que você e o Sr. Potter tenham conseguido se consolar. Ele quase não foi visto desde o funeral e isso não está certo.

O olhar em seu rosto era para ser de simpatia, mas não enganaria uma criança.

Hermione pigarreou.

— Ter seu melhor amigo assassinado é uma mudança de vida. Todos nós precisamos do nosso tempo para lamentar sem que alguém esteja com uma pena para escrever mentiras e colocá-las em nossas bocas. Ele venceu a guerra. Qualquer tempo que achar necessário se manter longe do mundo bruxo deveria ser compreendido pelas pessoas. Mas eu não estou aqui para falar sobre Harry. E duvido que você esteja aqui para falar sobre mim ou teria feito isso meses atrás, quando eu comecei a voltar a público.

Ela deu à mulher mais velha um olhar franco e nivelado.

A jornalista apertou os lábios, estudando a bruxa mais nova. Ela nunca esquecera seu tempo passado em cativeiro sob o polegar da garota de quatorze anos, embora se orgulhasse de sua resistência. Agora era resiliente e cautelosa. Ela suspeitava de que, se pudesse colocar as coisas sob uma luz que convencesse a garota a cooperar com ela, tudo daria certo. Ela tentou esboçar um sorriso encantador. Flertar era muito mais fácil do que ser encantadora, mas duvidava que flertar fosse exatamente útil nessa situação.

— Você está certa. "Hermione Granger e seus homens" é um tipo de história de quatro anos atrás, não acha? Não, acho que a história que o mundo precisa ouvir agora é muito mais importante. — Seu sorriso exibiu seus dentes enquanto citava supostas manchetes, uma pitada de lascívia em sua voz. — "Draco Malfoy: Saiu impune com muita facilidade?" "Draco Malfoy: redefinindo o estereótipo de bibliotecário sexy." "Draco Malfoy: pronto para voltar à civilização ou perigoso demais para se confiar?" Veja bem, há uma dúzia de maneiras pelas quais eu poderia escrever a história dele. Acho que a minha favorita é "Draco Malfoy: uma mudança de lado ou uma mudança de coração?" Talvez eu esteja ficando sentimental conforme envelheço. Com o que descobri na semana passada, poderia escrever dezenas de histórias entre agora e a hora de sua audiência.

As costas de Hermione se enrijeceram, mas ela tentou não deixar nenhuma emoção aparente em seu rosto.

— Oh, vamos, Srta. Granger. Não faz sentido ser tímida quando eu já vi vocês dois entrelaçados fora do seu apartamento. Saindo juntos. Ele fingindo ser um trouxa comum durante o dia e voltando para casa com uma bruxa à noite. Não sei bem o que a Suprema Corte dos Bruxos tinha em mente para ele com relação à sua sentença. O que nossos leitores pensariam se descobrissem?

— Draco levou uma vida honesta este ano. Ele obedeceu a todos os regulamentos estabelecidos pelo Ministério quando tiraram sua magia.

Rita sorriu. Ela não negara seu envolvimento com o garoto Malfoy. Então, novamente, não precisava negar. Ela os vira juntos.

Hermione respirou fundo, tomando um longo gole de seu chá. Certamente era mais esperta que Skeeter. Apenas precisava enganá-la. Surpreendê-la.

— Certamente, o que você pretende inventar sobre Draco Malfoy será destrutivo e, além disso, você seria capaz de fazê-lo sem conversar comigo, porque nós duas sabemos quão pouco você se importa se as histórias que publica são ou não baseadas na realidade. Então, vamos nos poupar algum tempo aqui e você me diz exatamente por que me procurou hoje, vou te dizer que pode ir para o inferno e nós duas continuaremos nosso dia.

O sorriso de Rita se estendeu pela metade inferior do rosto. O gato tinha o canário.


Draco encontrou Hermione o esperando quando chegou em casa. Havia comida na mesa, ainda embalada para permanecer quente. Pratos e garfos estavam arrumados. Ele levantou uma sobrancelha. Era a sua comida chinesa favorita. Certamente não era a favorita de Hermione e o restaurante não ficava exatamente no seu caminho de casa. Ela parecia estar um pouco estranha.

— Qual é a ocasião? — Perguntou.

— Eu posso ter feito um acordo com o diabo. — Ele levantou uma sobrancelha, indo até onde ela estava sentada e pegando sua mão.

— Como assim?

E as palavras saíram de sua boca.

Parado ali em silêncio, o loiro segurou sua mão, sem nunca soltar, a pressão firme e constante. Ele continuou em silêncio por um longo tempo depois que ela ficou sem palavras. Por fim, soltou um longo suspiro. Então, ele parecia mais irritado do que qualquer outra coisa.

— Eu odeio quando ela está certa.

— Quem? Skeeter?

— Não. Minha mãe. Ela me disse meses atrás que se eu não planejasse minha própria reintrodução ao mundo bruxo, alguém faria isso por mim. — Surgiu uma expressão irônica em seu rosto. — Eu não esperava exatamente que fosse você.

O Draco de alguns anos atrás ficaria bravo e ameaçaria contar ao pai. Aquele Draco se fora há muito tempo; seu pai não tinha mais todas as respostas, nem o poder quase ilimitado para corrigir os menores insultos. No entanto, o homem que ele era hoje sabia que o que quer que acontecesse a ele naquele momento era tarefa dele mesmo resolver. Talvez estivesse ficando mole. Deveria saber que cabia a ele orquestrar algo — não podia esperar permanecer anônimo.

— Três dias.

Ele olhou para os recipientes de comida sem realmente vê-los.

— Jantar primeiro. E então começamos.

Hermione assentiu.

Ele a beijou.

— Considerando todas as coisas ... poderia ser pior.

Ela pegou uma das embalagens e um garfo. Ele estava certo; as coisas poderiam ser piores. Mas poderiam ser melhores. Ela odiava que Narcisa estivesse certa. Eles deveriam ter começado a planejar aquilo meses atrás. Hora de recuperar o tempo perdido.