Capítulo 52: Escândalo


Burke estava certo; não demorou muito para que Draco arrumasse o apartamento. Tudo era mais rápido com magia. Ele ficou surpreso ao encontrar emoções contraditórias ao perceber o que estava deixando para trás. A cama era dele. O sofá — irregular como era — estava ficando. Ele se acostumara. A maioria dos pratos era do apartamento, mas toda a comida estava indo para a casa de Hermione. Não de Hermione. A casa deles.

Em pouco tempo, tudo foi embalado e levado para o apartamento de Hermione; a cama foi miniaturizada com um encolhimento. Burke pegou as chaves de Draco e ofereceu um adeus sombrio. Ele não resistiu a uma observação de despedida, ao receber as chaves da mão de Draco.

— Não vai voltar para sua mansão depois de todo esse tempo?

— Acho que não. Adeus, Auror Burke.

Por fim, Draco estava livre para desabar no sofá do apartamento deles. Ele tirou a varinha da manga e convocou uma bebida. Hermione se juntou a ele no sofá, colocando os pés debaixo de seu próprio corpo.

— Quanto tempo você pensa que irá se passar antes que sua mãe perceba que você não vai voltar?

— É difícil dizer. Ela é esperta, mas quando não quer saber de uma coisa, é capaz de ignorá-la completamente.

Ele pensava em voltar em algum momento para pegar sua vassoura, suas melhores roupas... alguns dos confortos de sua casa. Mas não havia pressa. Estava livre para fazer o que quisesse. E o que ele queria era ficar sentado ali com Hermione. Pelo menos durante um tempo.

Ela beijou sua bochecha.

— Podemos começar a fazer planos. Você decidiu o que fazer com seu emprego na biblioteca?

— Eu recuperei minha magia há uma hora... planejaremos em breve. Bem, teremos todo o tempo do mundo agora.

Eles precisariam encontrar um lugar para morar. Ele teria que decidir o que fazer com a biblioteca. Todas as suas vestes estariam fora de moda. E Salazar, ele sentia falta de voar. Havia mil lugares que queria levar Hermione.

—Skeeter perdeu a exclusividade. O que você acha que ela vai fazer? Precisamos estar prontos.

Eles ficaram em silêncio durante algum tempo. Além de buscar outro jornalista e fazer com que escrevessem algo sobre o romance estrelado por Hermione e Draco, havia pouco o que podiam fazer. Qualquer pouca esperança que eles tivessem de que Skeeter não fosse retaliar se transformou em fumaça quando ouviram um barulho de batida na janela.

Draco se levantou para abri-la — nem mesmo pensando no fato de que poderia ter aberto com um simples movimento de sua varinha — e uma coruja com garras pintadas de rosa entrou. Ela derrubou um envelope na cabeça de Draco e saiu sem esperar por alguma resposta. Ele fez uma careta quando abriu e leu o conteúdo.

—Bem? — disse Hermione, levantando-se para dar uma olhada.

— É dela. É o artigo que ela diz que não irá publicar amanhã.

Trouxa? Não mais

Quando o mago chefe anunciou a decisão do conselho, o jovem Draco Malfoy tinha lágrimas nos olhos. Não apenas ele foi considerado digno de retornar ao mundo bruxo como uma pessoa melhor, mas também estava finalmente livre para dar seu coração à bruxa que chamou sua atenção.

Quem poderia imaginar que o que começou como uma rivalidade no pátio da escola ferveria de amor e compreensão algum dia?

Draco não se incomodou em ler o resto. Qual era o objetivo? Era um artigo que não dizia quase nada de ruim sobre Draco ou Hermione. O que quer que estivesse por vir... seria ruim e ele sabia quem iria suportar o peso daquilo. Não seria ele.

Hermione notou o olhar ferido no rosto de Draco.

— Sabíamos que estávamos lidando com uma faca de dois gumes. Ela dificilmente pode dizer algo pior do que já disse antes.

Ele rosnou.

— Tenho minha magia de volta e, na primeira vez em que alguém te ameaça, eu não posso fazer nada.

—Eu a chantageei e a prendi em uma jarra, Draco. Ela está ansiosa pela chance de me perseguir novamente. A única coisa que você não pode fazer é ir até o escritório dela e ameaçá-la, correndo o risco de ser preso. Eles não deixariam essa oportunidade passar. Provavelmente foi por isso que ela fez questão de enviar isso hoje, em vez de nos fazer apenas esperar pelo artigo que será publicado amanhã. Ela está tentando te atrair. — Hermione pegou o pergaminho e rasgou ao meio. Não precisava ver o que mais dizia. —Tudo o que podemos fazer agora é seguir em frente.

Draco ficou irritado por não poder fazer nada enquanto a mulher que amava era ameaçada. Mas tudo o que ele podia fazer era esperar. Desejou que os Malfoy ainda tivessem um jornalista no bolso, mas o seu nome não carregava o peso que costumava carregar.

— Londres trouxa. Vamos ver aquela coisa de Eye. E jantar.

Hermione mordeu o lábio.

— Como a exclusiva dela já se foi... Talvez devêssemos comemorar no mundo bruxo. Onde todos podem nos ver. Isso pode colocar menos peso por trás do que ela escrever amanhã. Se você estiver disposto a fazê-lo.

Não estava exatamente no topo da lista de Draco. Ele preferia voltar silenciosamente ao mundo bruxo em seu próprio ritmo. Parecia que era um pouco tarde demais para isso.

— Precisamos ir à loja de logros. Passar algum tempo no Caldeirão Furado. Eles reabriram a Fortescue? Gringotes. E talvez Madame Malkins.

Ele começou a planejar onde deveriam ser vistos. Não era a forma que imaginara fazer seu retorno. Mas dane-se, eles fariam o que podiam. Pouco tempo depois, stavam vestidos com roupas trouxas e foram para o Beco Diagonal. Hermione se sentiu destacada em um vestido amarelo (transfigurado para a ocasião), mas essa era a ideia. Calças e uma camisa de botão fizeram Draco se destacar muito mais do que vestes. Eles não passariam exatamente despercebidos.

Caminhando do caldeirão de Leakey até a Gemialidades Weasleys, eles fizeram o possível para ignorar os transeuntes. Os dedos de Hermione estavam entrelaçados aos de Draco. Jorge estava atendendo na frente da loja, persuadindo os clientes.

— Não esperava ver vocês dois aqui hoje.

—Depois de toda a agitação que os espelhos mágicos criaram, pensei que hoje seria o dia perfeito para mostrar a loja a Draco, para que ele possa ver como ajudou a revolucionar o mundo bruxo.

—Sim, desculpe-me por isso, eu trouxe a maldição dos telefones celulares para todos nós — disse Draco, sem parecer arrependido.

Jorge a estudou por um momento, sabendo que ela tinha conhecimento de que um sábado de agosto seria um turbilhão absoluto na loja. Ele avaliou a situação e acenou com a cabeça antes de abrir um sorriso, voltando-se para a multidão.

—Senhoras e senhores, temos um presente para vocês hoje. Por mais brilhante e bonito que eu seja, eu não poderia ter criado os espelhos de chamada sozinho. Bem, eu poderia, mas demoraria um pouco mais. Então, quero apresentar a vocês meus parceiros na criação, a incomparável Hermione Granger e Draco Malfoy.

— Hermione Granger... tipo a Hermione Granger? — perguntou um garoto que não poderia ter mais de doze anos. Ele estava com os olhos arregalados.

— Eu sou a única Hermione Granger que conheço.

Eles ficaram na piada por mais algum tempo antes de saírem e começarem a descer a rua. Eles tinham vários lugares para serem vistos. Precisavam ser notícias antigas na manhã do dia seguinte.

Draco rangeu os dentes e fez o possível para parecer amigável. A pior parte era que sua mãe estava certa. Tentar não orquestrar sua própria reinserção no mundo bruxo dera a outra pessoa a chance de fazê-lo. Mas ele nunca admitiria isso para ela.


Hermione acordou com dor nas pernas. Eles andaram por horas no dia anterior. Primeiro, Beco Diagonal e depois um pouco da Londres Trouxa. Eles foram até a London Eye e andaram por eras depois disso. E havia sacolas de compras. Depois de uma viagem a Gringotes, Draco comprara vestes novas e suas poções favoritas para o cabelo.

Embora nem Draco nem Hermione fossem assinantes do Profeta Diário, uma cópia foi lhes entregue no domingo de manhã. Durante um tempo, eles consideraram não lê-lo; mas era melhor saber o que se estava enfrentando. A boa notícia (relativamente falando) era que o artigo de Rita não havia chegado à primeira página.

A primeira página estava dividida entre um artigo sobre um surto de varíola de dragão, um grande acidente de quadribol e um artigo sobre os procedimentos do Ministério em torno da audiência de Draco.

A má notícia foi que encontraram o artigo de Rita na página 3.

Hermione pegou a primeira página e começou a ler. A manchete era promissora. Não entrava em muitos detalhes acerca do acordo de Draco.

Reabilitação vs. Encarceramento, História de Êxito?

Por P. Clearwater

O Ministério realizou uma sessão especial neste sábado para avaliar o sucesso do retorno de uma punição reabilitadora que não era utilizada há muito tempo no lugar do encarceramento. Há muito estudos comprovando que o encarceramento, em vez de gerar mudanças positivas, apenas reforça comportamentos e atitudes negativas quando alguém é libertado.

Devido a circunstâncias peculiares, enquanto muitos outros Comensais da Morte ainda estão presos em suas celas de Azkaban — sem dúvida alimentando sua raiva —, um jovem recebeu a chance de buscar a reabilitação ao invés de ser confinado em uma cela.

É inegável que o jovem em questão cometeu alguns crimes atrozes. Ele também era menor de idade e agiu sob pressão e, quando o empurrão chegou, em um momento em que a guerra poderia ter terminado muito mal para aqueles que defendiam a igualdade, ele desertou dos Comensais da Morte. Caso seus ex-aliados tivessem percebido, isso lhe custaria a vida.

A pedido de misericórdia de Harry Potter, a Suprema Corte dos Bruxos concordou em suspender a prisão desse jovem em favor de um ano de liberdade condicional — sem magia. Dado o histórico de sangue-puro do jovem bruxo, isso foi além de ser apenas uma maneira inconveniente de viver sua vida durante um ano. Seria um choque cultural absoluto, a um nível que somente aqueles leitores que nasceram no mundo trouxa realmente entenderão.

Algumas pessoas elogiaram a decisão — presumivelmente, alguém que viveu e trabalhou ao lado dos trouxas teria uma maior compreensão deles e estaria menos inclinado a acreditar que suas vidas não têm valor, que são descartáveis. O número de mortes de trouxas registradas durante a Guerra são apenas uma estimativa. Acredita-se que muito mais foram torturados e provavelmente mortos do que temos documentação.

Outros acreditam que lançar membros indesejados da sociedade bruxa na população trouxa é injusto para os trouxas desavisados. Afinal, não devemos lidar com nossos próprios problemas?

E há ainda outros que acreditam existir apenas duas opções adequadas para aqueles que violam nossas leis - Azkaban ou morte.

Embora remover a magia de alguém possa não ser uma punição adequada para todos os infratores, vivenciar o lugar de outra pessoa não criaria uma melhor compreensão? Existe uma chance de mudar as mentes arraigadas de preconceitos daqueles que levaram nosso mundo à guerra? E se essa é uma ferramenta útil de reabilitação, outras pessoas deveriam ser retiradas de suas celas e trazidas para as ruas?

Somente o tempo confirmará se este primeiro caso obteve êxito, mas parece que saberemos em breve se a aparente mudança de mente e de coração é duradoura. Draco Malfoy já parece estar construindo pontes em vez de paredes.

Havia uma pequena foto no final do artigo, mas era o suficiente para distinguir Draco e Hermione andando de mãos dadas. Estranhamente, não era do dia anterior. Era de semanas atrás. Aparentemente, Rita Skeeter não tinha sido a única a prestar atenção neles.

— Bem, ele escreveu muito e não disse quase nada — disse Draco. Examinou o artigo novamente. O repórter parecia estar levemente do seu lado, mas sem se comprometer.

— Ela — Hermione corrigiu. — Eu tenho certeza de que isso foi escrito por Penelope Clearwater. Ela era uma corvinal alguns anos à nossa frente. Isso realmente poderia ser muito pior. É a primeira página e propõe a ideia de que o seu caso foi tratado da maneira correta. Pela foto, eu diria que ela está te acompanhando desde antes de fazermos um acordo com Skeeter.

Draco apertou os lábios, perguntando-se como a bruxa o havia encontrado e o que poderia ter sinalizado o interesse dela sobre ele. Pelo menos ela não era uma fofoqueira sensacionalista. Isso já era alguma coisa.

— Pronto para ler o outro?

—Vamos nos sentar primeiro. — Eles puxaram os assentos para si mesmos à mesa. Draco pegou o jornal e passou para a página três.

— Oh, língua de Salazar.

—O que?

—Aliteração dolorosamente horrível.

Ele começou a ler.

Hermione, meretriz sem coração, ataca novamente

Por Rita Skeeter

Existe algo que essa bruxa não faça para colar seus lábios aos de alguém famoso? Ou talvez "notório" seja a melhor palavra, neste caso. As notáveis conquistas anteriores de Hermione Granger incluem o famoso jogador de quadribol Viktor Krum e o próprio garoto que sobreviveu, o primeiro e único Harry Potter. Não contente com um herói bruxo; depois da Guerra, Granger teve um romance com seu amigo de longa data, Ronald Weasley. Quando perguntada sobre o relacionamento, a família de Weasley se recusou a comentar.

O relacionamento deles terminou abruptamente no verão passado, quando Weasley morreu em circunstâncias obscuras.

Como nunca resistiu ao fascínio masculino, Granger pôs os olhos em um novo prêmio. Talvez ela estivesse procurando por frutas proibidas? Ou talvez ela tenha ficado sem opções de colegas de classe da Grifinória. Mas seja qual for o motivo, ela colocou suas garras no antigo príncipe da Sonserina, Draco Malfoy. Granger nunca se contentou com pouco — como regra, ela escolhe bruxos famosos e bonitos, com riqueza e poder. Embora a família Malfoy possa não ter a influência que já teve, a tentação foi muito grande e ela o atacou.

Quanto tempo se divertirá com ele antes de ficar entediada? Ninguém sabe.

Tive a oportunidade de conversar com a mãe do jovem Malfoy e seus olhos estavam cheios de lágrimas não derramadas pelo filho, antecipando o coração partido que ela sabe que virá. Infelizmente, as tentativas de obter comentários do pai do jovem Malfoy sofreram resistência do ferro, já que o Ministério não apoia uma imprensa livre e se recusou a permitir que eu entrasse na atual residência do Malfoy mais velho, em Azkaban. Se eu tivesse conseguido entrar, é possível que as notícias que eu lhe desse sobre o filho me colocassem em perigo. Eu não gostaria de ser Narcisa Malfoy e ter que dar a notícia a Lúcio.

O ar poderia ter estalado.

— Ela cruzou uma linha. — O jornal estava amassado no punho de Draco. O lixo continuava por mais alguns parágrafos, questionando se Hermione poderia tentar atrair Harry novamente quando perdesse o interesse por Draco. — Eu a vi falando com minha mãe no Ministério. Eu deveria ter...

— Não parece que ela conseguiu arrancar alguma coisa dela. Se ela tivesse dito algo que poderia ter sido interpretado como um ataque a você ou a mim, Rita teria usado. Parece que sua mãe e os Weasley não fizeram comentários. Eu não entendo como o editor a deixa escrever dessa forma. Ou por que ele publicaria isso. Não tenho certeza de quem é o editor atualmente. Mas isso é lixo completo... — Ela pegou o papel da mão de Draco e imediatamente o colocou onde seria mais útil - forrando a gaiola de Athena. Respirou fundo. —Devemos ir vê-la?

— Skeeter? Eu não quero ver aquela mulher até que eu possa comprar esse jornal e demiti-la.

O pensamento de que ele não ganharia tanto dinheiro na biblioteca flutuou em sua mente. Voltar ao mundo bruxo poderia ser inevitável. Mas talvez houvesse outras maneiras de destruí-la. Se havia uma coisa para chantageá-la, haveria outras. Pessoas como Skeeter não tinham apenas um segredo. Tinham dezenas.

A voz de Hermione estava mais suave do que ele esperava.

— Não Skeeter. Sua mãe. É melhor acabar logo com isso.

— Eu preciso bolar um plano antes de voltar lá. Precisamos de um plano.

—Ela é sua mãe...

—Eu sei — Ele suspirou.

— Que tal apenas lhe dizer a verdade? Estamos planejando ficar juntos e ela pode fazer parte de nossas vidas ou não.

Draco esfregou as têmporas. Apenas o pensamento de ir ver sua mãe lhe causou dor de cabeça. Ele não podia vê-la até que tomasse algumas decisões. Até que eles tomassem algumas decisões. Sabia como ela era capaz de exercer pressão sobre os pontos que o faziam sofrer.

—Vamos, nós pegaremos o resto de suas coisas, se as quiser, e damos-lhe a opção de nos aceitar ou não. A menos que você pense que dar mais tempo para ela se ajustar seria realmente útil...

Ela o olhou. Não duvidava dele. Não agora. Não depois de tudo. Mas havia mudanças por vir. Eles encontrariam um lugar que fosse deles. Sem nenhum fantasma metafórico nos cantos. Eles tinham uma vida a ser construída.

O loiro suspirou. Tinha cartas para enviar agora que sua coruja estava livre para fazê-lo novamente.

— Nós iremos hoje à tarde.


Obrigada, obrigada, obrigada a todos que lêem e que comentam essa história. Fico contente ao saber que estão gostando!