N/T: Este foi um capítulo emocionante para traduzir (talvez tenham escorrido uma lágrima ou duas, mas eu jamais admitiria isso a ninguém). A história aqui retorna ao ponto de vista de Draco — lembrando-nos do adolescente desesperado que teve sua vida virada de cabeça para baixo no início dessa história.

Não sei dizer o quanto amei ter todos vocês aqui comigo e o que seu encorajamento a cada capítulo significou para mim. Mesmo durante o tempo que eu fiquei sem postar, sempre recebi uma palavra de apoio. Vocês são incríveis e foram VOCÊS que trouxeram essa versão em português até aqui.

Este é o capítulo final. Ainda haverá um epílogo. E eu já estou com saudade de vir aqui postar...


Capítulo 65: Falando


Draco estremeceu levemente quando se sentou no sofá de sua casa.

— É incrível o quanto uma criança pequena pode pesar quando insiste em ser carregada durante uma noite e um dia.

Hermione se juntou a ele e o beijou. Ele colocou um braço em volta dela.

— Você é surpreendentemente bom nisso.

— Ele me lembra Teddy. Ash não é muito mais velho que Teddy. Teddy tem sorte.

—Ash também terá sorte agora. Eles não o transformaram. Ele ficará bem.

Ele entrelaçou os dedos nos cabelos dela.

— A vida dele já foi difícil.

— E agora vai melhorar. — Reclinou-se contra ele, sentindo seu perfume. — Eu acho que sua mãe vai ser ainda mais valiosa em tudo isso do que esperávamos inicialmente. Antes de sairmos, ela me disse que tem alguns contatos. Há um Medibruxo que ela vai buscar para examinar todos. E alguém para vigiar as crianças que não se transformam, quando for lua cheia.

Ele levantou uma sobrancelha.

— Você sabe que ela tem um objetivo com tudo isso, certo?

— Claro que sei. Imagino que, em algum momento, ela usará suas boas ações como meio para tentar tirar seu pai de Azkaban. Se ela fizer sua parte bem o suficiente em tudo isso... eu até endossarei. — Futuramente. Quando tiver trabalhado um pouco mais em Lúcio. Havia muita leitura a ser feita. Ela ainda precisava obter o seu retorno sobre Anne Frank. — Ainda assim, acho que até vi um pouco de emoção real em seu rosto ontem à noite. Acho que ela tem outra motivação agora.

— Coisas estranhas acontecem.

Se fosse ser sincero, Draco pensava que Hermione estava certa. Havia algo no rosto de sua mãe na noite anterior. Ele não achou que fosse o bolo de chocolate nublando seu julgamento.

— Como você se sentiria? Se ela conseguir tirá-lo de lá?

Draco ficou tenso. Era uma pergunta que ele pensara e deixara de lado mais vezes do que poderia contar. Ainda não sabia o que diria ao homem caso o visse novamente.

— Eu não sei. Pode depender de quanto tempo ainda durará sua pena. Ele merece... — Draco sequer sabia o que seu pai merecia. Punição por tudo o inferno que suas decisões causaram a Draco. Pelas vidas que sua presunção custara. Pelos pesadelos que foram culpa dele. Perdão por não saber como sair quando as coisas ficaram feias? Não. Ele não se sentia indulgente naquele momento.

Sua frase ficou suspensa no ar.

— Eu tenho que voltar para o aprendizado amanhã. Ele disse que, por toda essa confusão na semana passada, devo a ele uma dúzia de poções extras da sua lista de poções extremamente difíceis.

Draco riu.

— Você vai conseguir. E eu começarei na loja de Jorge amanhã. Quase não consigo acreditar que conseguimos fazer isso.

— Há um longo caminho a ser percorrido, mas ... nós os tiramos de lá. E ninguém será capaz de encontrá-los na mansão. — Haveria muitos dias pela frente, preparando as coisas, garantindo que eles tivessem o que precisavam. Hermione dividiria seu tempo entre a mansão e Belby. Mas ela já estava acostumada a fazer muitas coisas. — Eu estava pensando em ir até a Toca e ver se conseguimos mais informações de Arthur. Você está pronto para isso?

— Eu tenho uma escolha?

Ela riu.

— Bem, eu irei. Você pode ficar aqui no sofá.

— Sem chance.

Aparataram na Toca, descobrindo que Arthur havia acabado de chegar do trabalho e Molly estava terminando de arrumar a mesa para o jantar. Com apenas um protesto simbólico de que não era necessário, sentaram-se para jantar. Eles não estavam com muita fome, mas nunca era permitido recusar uma refeição na Toca.

A conversa do jantar foi principalmente sobre os negócios. Arthur confirmou que o homem que atacara Cheryl estava sob custódia do Ministério. Ele não disse em qual departamento. O Ministério mantinha uma linha de controle na área ao redor da colônia de lobisomens, mas eles não poderiam mantê-la para sempre. Arthur não pôde confirmar, mas havia rumores de que a divisão de pesquisa de feitiços estava trabalhando em alguma coisa.

Molly se ofereceu onde quer que fosse necessária durante as próximas semanas — ensinando, cozinhando, cuidando das crianças. Eles realmente precisariam de toda a ajuda que pudessem obter.

Enquanto Hermione e Molly levavam a louça para a pia no final da refeição, Arthur aproximou sua cadeira de Draco.

— Eu recebi sua carta. Demorou um pouco, mas você está liberado para ir. No entanto, precisará marcar uma visita. Quando gostaria de ir?

— Ainda não sei sequer o que quero lhe falar.

Arthur olhou por cima do ombro. Parecia que Molly e Hermione estariam ocupadas durante alguns minutos, fazendo chá e escolhendo a sobremesa. Ele olhou de volta para Draco e não pôde deixar de se impressionar com o quão jovem ele parecia naquele momento. Ele tinha a idade de Rony. A idade que Rony teria... se ainda estivesse ali para conversar com ele. Não haveria mais conversas com Rony.

— Eu não posso te dizer o que falar, filho. Isso é com você. Por qual motivo quer falar com ele?

Draco passou as mãos pelos cabelos em um gesto muito diferente de Draco Malfoy.

— Eu acho que talvez se estivesse na frente dele, saberia o que dizer. Agora, há apenas... muita coisa na minha cabeça. E tudo se contradiz. Eu fico pensando que não quero vê-lo ou dizer qualquer coisa. E então Hermione olha para mim com aqueles olhos. Ela daria tudo para mais uma chance de falar com seus pais. Como posso ficar aqui, sabendo onde meu pai está, e não ir vê-lo?

— É difícil quando há um desentendimento na família. Percy e eu não conversamos por vários meses durante a guerra.

Suas bochechas normalmente pálidas estavam coradas.

— Ele me deixa tão irritado às vezes. E eu nem sei o quão irritado eu posso estar. Ele acreditava estar me dando uma vida boa e fácil. Mas ele permitiu que os monstros entrassem.

Arthur estendeu a mão e deu um tapinha nas costas do filho de Lúcio Malfoy. Eles viveram para ver tempos estranhos, de fato.

— Eu acho que você sabe o que quer dizer. Quando se trata disso, as palavras aparecem. Vou marcar para daqui duas semanas. Dará um pouco mais de tempo a você. Pense nisso. Estarei aqui se precisar conversar antes ou depois.

Draco assentiu, sentindo-se subitamente esgotado.

As mulheres voltaram, tomando chá. Draco pegou o de Hermione e tomou um longo gole, mesmo que estivesse muito quente.

— Você está bem, Draco?

— Na verdade, estou me sentindo um pouco cansado. Podemos encerrar a noite? Obrigado pelo ótimo jantar, Sra. Weasley.

Ela o olhou com uma expressão suave no rosto. Ela criara meninos suficientes para saber quando alguém estava escondendo alguma coisa. Draco não parecia estar bem; ela podia ver Arthur pelo canto do olho e sabia que ele compartilharia com ela mais tarde.

— De nada, querido. Voltem a qualquer momento. Levem alguns biscoitos para mais tarde. E me digam onde precisarão de mim.

Draco assentiu. Ele e Hermione pegaram um saco de biscoitos e saíram para o quintal para desaparatar. Merlin. Se apenas falar sobre conversar com o pai era tão cansativo, como ele conseguiria fazer isso?


A nova rotina tomou conta de suas vidas rapidamente. Hermione dividiu seu tempo entre seu aprendizado com Belby e organizar as coisas na mansão. Eles criaram uma sala de aula para Molly e as crianças. Fiel à sua palavra, Neville fez uma inspeção nos terrenos da mansão e trouxe plantas que seriam necessárias para poções. Olivaras concordou em abrir a loja tarde da noite em um futuro não muito distante para aqueles com idade suficiente para que terem uma varinha e Hermione havia começado a ensinar às mulheres. As coisas estavam melhorando.

O chalé começou a se tornar cada vez mais acolhedor à medida em que se instalavam e aproveitavam seu espaço extra — equipando o laboratório, garantindo que a biblioteca tivesse poltronas confortáveis. Hermione estava satisfeita por poder aparatar e enviar corujas sem se preocupar com a vizinhança. Para imenso alívio de Draco, os vizinhos não pareciam estar nem demasiadamente interessados neles nem sentir desprezo por ele. Havia sorrisos educados e saudações quando foi à loja do outro lado da clareira. Ninguém tentou expulsá-lo do lugar, embora tivesse certeza de que todos sabiam quem ele era.

A casa que parecia um sapato continuou a ser uma tristeza para a mente de Draco, mas o bando de crianças que a habitavam o irritava menos do que esperava. Talvez tenha sido a influência de Teddy. Ou Ash e os outros. Ou talvez fosse porque não precisava chegar perto o suficiente para ficar coberto de marcas de mãos grudentas. Ou talvez ele sentisse falta das crianças da biblioteca. Realmente poderia ser qualquer coisa.

Os longos dias na loja não pareciam tão longos. Por mais que Draco tivesse achado o Weasley irritante ao longo dos anos escolares, seu irmão era diferente. Jorge tinha um senso de humor perverso. E um lado tortuoso. Era quase surpreendente que ele não fosse da Sonserina. Draco realmente se viu ansioso para ir à loja na maioria dos dias. A interação com os clientes ainda não era sua parte favorita; alguns dias ele não estava disposto a estar na frente da loja. Houve um momento constrangedor em que dois ex-alunos da Grifinória do ano da Weasley fêmea chegaram. Eles se lembraram dele de Hogwarts, e as lembranças não eram boas.

Draco estava sozinho na caixa registradora quando eles entraram — Gina estava estocando as prateleiras e Jorge estava nos fundos. Quando os garotos chegaram ao caixa com seus fogos de artifício, encararam Draco.

— Desde quando Jorge tem um traidor trabalhando para ele?

— Eu pensei que Gina estaria trabalhando aqui.

Draco ignorou o comentário e olhou os fogos de artifício que eles selecionaram.

— Serão 13 foices. Isso é junto ou separado?

— Nós não pagaremos um Nuque a você, doninha.

— Comensal da Morte maldito.

Draco respirou fundo.

— Estou trabalhando no caixa. Você pode comprá-los agora ou voltar depois.

— Há algum problema aqui? — Jorge perguntou, saindo dos fundos e cruzando os braços sobre o peito.

— Eu não posso acreditar que você está permitindo que esse Comensal da Morte trabalhe em sua loja. Por que você não o amaldiçoou?

— Ele pagou sua dívida e trabalha aqui agora. Eu acho que você seria um pouco mais amigável com o mago que ajudou a criar os espelhos de chamada. Eu sei que você o usa o tempo todo para conversar com Nancy e Clarissa.

Parecia que as coisas poderiam esquentar. Os meninos mais novos não pareciam estar com disposição para recuar e a última coisa que Draco queria era estar no meio de um confronto, não quando ainda estava andando na corda bamba no mundo bruxo.

Draco olhou para os meninos a sua frente e depois para Jorge.

— Você não comeu todo o chocolate que sua mãe trouxe esta manhã, não é?

Houve o menor indício de uma pausa antes de Jorge responder.

— Quase, mas não exatamente. Vou buscar um pouco. — Jorge desapareceu nos fundos da loja e voltou com dois pedaços de chocolate para seus clientes. — Sinto muito por ter causado tanto transtorno a vocês. Irei me certificar de colocar uma placa "cuidado com as cobras" na próxima vez. E os fogos de artifício são por conta da casa. — Ele estendeu as duas mãos com um pedaço de chocolate em cada e um sorriso desarmante.

Goodkind e Whicher se lembraram dos pacotes que Gina costumava receber em Hogwarts — doces, bolos e biscoitos. Qualquer coisa feita por sua mãe seria deliciosa. Eles aceitaram o chocolate, lançaram um último olhar sujo a Draco e foram embora com seus fogos de artifício gratuitos.

Jorge conseguiu manter a cara séria até a porta se fechar atrás dele e depois se virou para Draco com um olhar avaliador.

— Pensamento rápido o seu.

Gina veio do outro lado da loja, onde estava fazendo o inventário.

— Pensei em enfeitiçá-los, mas você parecia tê-los sob controle. Fudge de febre?

— Melhor ainda. Um produto inédito.

Jorge sorriu.

— Fudge flatulento. Depois de 10 ou 15 minutos, o fedor fará com que as bombas de estrume da Zonko's pareçam não estarem se esforçando o suficiente.

— Nós ainda não o lançamos porque temíamos que fosse muito potente. Mas parecia uma boa ideia — Draco sorriu levemente e deu de ombros.

Havia um sorriso malicioso no rosto de Gina.

— Isso é possivelmente tão bom quanto uma Azaração para Rebater Bicho Papão.

— Eu só espero que eles não peguem o metrô para casa — disse Draco. Ele viu as expressões em branco nos rostos dos ruivos. — Coisa trouxa. Se tiverem sorte, eles vão esperar até chegar em casa para comer aquilo.

— Sabe, eu nunca gostei deles. Eles sempre foram maus com Colin. Não que isso fosse incomum, mas... — Ela encolheu os ombros e sorriu. Tinha a sensação de que os dois não voltariam por um longo tempo.


Outubro estava se esvaindo. Draco estava cada vez mais nervoso. O trabalho estava indo bem. As coisas progrediam na mansão. Ele amava Hermione. Tudo estava indo tão bem. Quanto melhores as coisas ficavam, mais medo ele tinha de que tudo pudesse ser arruinado.

Seus próximos compromissos não ajudavam. Apenas o pensamento de visitar Hogwarts apertava seu peito e a coruja que havia recebido àquela noite de Arthur não ajudara em nada. Ele apertou os lábios e respirou fundo, beliscando a ponta do nariz.

— Temos mais poção do sono sem sonhos?

Hermione olhou para cima, preocupada. Aquela era a terceira vez na semana.

— Estamos sem, mas posso preparar um pouco. O que há de errado?

— Não se preocupe com isso.

— Hogwarts? — Faltavam apenas algumas semanas.

Ele se levantou e foi para a cozinha, pensando em preparar um chá. Talvez isso o acalmasse. Ela o seguiu.

— É... não apenas Hogwarts. Eu tenho que ir ao Ministério amanhã.

Ela fez uma careta. Ele não tinha mencionado isso.

— Você quer companhia?

Ele balançou a cabeça, examinando os saquinhos de chá. Hortelã-pimenta. Hortelã-pimenta poderia ser uma boa ideia. Ele direcionou sua varinha para a chaleira.

— Acho que preciso fazer isso sozinho. Não é algo que eu queira fazer. Mas acho que devo fazê-lo.

Ela colocou os braços em volta da cintura dele, apoiando o queixo no seu ombro.

— Estou aqui, sabe. Sempre que precisar.

— Eu sei. Acho que isso é algo que preciso resolver. — Precisava fazer aquilo. Não sabia o que ia dizer. Mas o que quer que fosse, precisava ser entre os dois, sem pensar em Hermione ou nos pais dela. Aquilo era assunto dos Malfoy. —Amanhã à noite. Vou te contar tudo amanhã à noite.

Ela assentiu. Daria-lhe algum tempo para colocar a cabeça nos trilhos. Certas coisas você precisa fazer por conta própria.

A chaleira já estava fervendo e Draco se serviu de uma xícara, adicionando seu saquinho de chá.

— Acho que irei tentar dormir agora.

Ela assentiu.

— Eu vou daqui a pouco.

Ele a beijou devagar e depois foi para a cama.

Hermione andou pela cozinha. Ela preparou uma xícara de chá. Talvez preparasse uma poção do Sonho sem Sonhos no dia seguinte, caso ele precisasse. E alguma poção calmante, caso ele pedisse. Ela arrumou a mesa e viu a carta. Merlin. Não era de se admirar que Draco estivesse naquele estado. Ela deixou a carta onde estava e foi para o quarto. Não disse nada. Apenas o abraçou até que ambos estivessem dormindo.


Draco vestiu um conjunto comum de vestes. Não queria atrair muita atenção. Nem dentro e nem fora. Olhou-se no espelho, deu um beijo de despedida em Hermione e foi para o Ministério antes que pudesse se convencer do contrário.

Ele fez o possível para evitar qualquer contato visual direto enquanto caminhava pelo local. Para sua surpresa, quando chegou ao escritório específico, Arthur conversava casualmente com o homem atrás da mesa.

Com uma expressão de antipatia, o homem preparou as chaves de portal e leu as regras. Arthur cumprimentou Draco com apenas um aceno de cabeça e pareceu satisfeito quando o homem entregou as chaves de portal a Draco, lembrando-se de algo que precisava fazer em outro escritório e saindo com um pequeno sorriso no rosto.

Draco segurou uma Chave de Portal em cada mão e o bruxo o enviou para uma alcova onde ele poderia desaparecer sem bagunçar qualquer papelada com a implosão de ar. Draco estava sentado na cadeira solitária na alcova, respirando profundamente e esperando sua chave de portal ser ativada. Ele olhou para o relógio. Falta um minuto.

Draco se levantou e se afastou da cadeira. Com a sensação de um gancho no umbigo, ele se foi.

Azkaban era tão desolado como imaginara. Ele tinha quase certeza de que devia haver um feitiço impedindo que algo verde crescesse. Era tão sombrio. Não havia sequer uma erva daninha surgindo através de uma fissura no calçamento.

O guarda de rosto austero demorou-se verificando o horário e confirmando que Draco era quem dizia ser e confiscando sua varinha.

— Era de se pensar que, tendo sorte de não compartilhar uma célula com ele, você ficaria o mais longe possível deste lugar bestial.

Quando Draco partiu em direção à cela de seu pai, o guarda gritou algo para o outro guarda que o escoltava.

— Cuidado para não os trancar juntos acidentalmente ou qualquer coisa do tipo. Não gostaria que eles se despedaçassem.

— Oh Deus, não tinha passado pela minha cabeça...

Draco fez o possível para reprimir um calafrio, mantendo o olhar firme e os ombros erguidos. Um pé na frente do outro. Não demonstraria desconforto na frente deles. Quando se aproximaram da cela, Draco dispensou o homem.

— Acredito que tenho direito a um certo grau de privacidade durante a minha visita?

O homem revirou os olhos, mas se retirou para o fim do corredor.

Draco se aproximou da cela do pai e sentou no banquinho do lado de fora. Ele olhou para o pai, avaliando. Ele parecia mais velho. Sem feitiços de glamour. Sem poções para o cabelo. Havia uma fila de livros usados no chão. Seu cabelo estava escovado. E seu rosto barbeado. Havia círculos sob seus olhos e uma pitada de algo em seu rosto que o qual Draco não podia nomear. Ele parecia estar esperando Draco dar o primeiro passo. Houve uma pausa antes de Draco o cumprimentar.

— Olá Pai.

— Draco. — Sua voz poderia ter oscilado bem levemente. — É bom te ver. Quando soube que receberia uma visita hoje, presumi que fosse sua mãe. Ela vem regularmente desde que voltou do continente.

Draco não disse que era bom vê-lo. O que havia para dizer?

— Eu pensei que era hora de vir aqui, uma vez que você não pode fazer a viagem. Tem algo que gostaria de me dizer?

Sua voz saiu baixa. Ele estava mantendo seu autocontrole o mais firmemente possível. Nunca decidira o que precisava dizer àquele homem.

Lúcio olhou através das grades para o filho. Quantas vezes o imaginara indo vê-lo? — Estou feliz que esteja aqui. Ouvi dizer que você está indo bem... apesar da posição em que te deixei.

— Eu estou. — Draco fez o possível para não se mexer sob o exame do pai. Ele sustentou o olhar. E algo estalou. — Você sabe como é isso? Eu precisarei voltar e ver os colegas com quem falhei. Na verdade, não meus colegas. Os alunos mais jovens. Aqueles que deveriam ter sido capazes de contar com os alunos mais velhos para ajuda-los. Você está trancado aqui. Você não precisa enfrentar ninguém. Eu tenho que ver as pessoas todos os dias. E vejo o julgamento nos olhos deles. E eles não estão errados.

Lúcio apertou os lábios.

— Não. Eu não tenho que ver os olhos deles. Apenas tenho que escutar minha própria voz na minha cabeça, perguntando-me como meu próprio filho não veio me visitar? Você recuperou sua magia há meses.

Draco se levantou, virando as costas para o pai. Ele girou de volta; seu controle se esvaindo.

— Você não sabe o que fez comigo? Os monstros que deixou entrar em nossa casa. O monstro em que eu estava me transformando. Você me deixaria ser esse monstro. Tenho muita sorte que a Suprema Corte te trancou aqui. E eu tenho sorte de que eles me trancaram lá fora no mundo real, sem você. Hermione desfez alguns dos danos que você me causou. E eu levarei uma vida inteira desfazendo o resto. Você fez isso por mim.

Lúcio manteve a cabeça firme.

— Eu queria te dar o mundo. Pensei que estava te dando tudo o que importava. O mundo mudou. Eu te amo, filho. Se eu precisar ficar nesta cela para que você não precise, eu ficarei aqui por quanto tempo for necessário.

Draco odiou bastante seu pai naquele ano. Parte dele ainda estava furiosamente irritado. Jogou-se no banco, esgotado pelas emoções que o inundavam. A raiva era cansativa. Olhou para o chão.

— Acho que devo ir. Pensei que poderia fazer isso. Não posso.

Houve um barulho quando Lúcio se levantou do banquinho e segurou as grades.

— Eu amo você, filho. Simplesmente queria o que era melhor para você. Hermione é uma boa mulher. Cuide dela melhor do que eu cuidei de você e sua mãe.

Os olhos de Draco se voltaram para os livros no chão.

— Hermione trouxe esses?

— Permissão especial. Normalmente os visitantes não podem trazer nada. Ela tem bom gosto. Ela escolheu você, afinal de contas. — Ele fez uma pausa. — Sua mãe me disse que a mansão foi convertida em uma instituição de caridade.

— Para lobisomens. Construímos um refúgio seguro para as pessoas que foram atacadas por Greyback e seus companheiros. Aquela casa é assombrada da pior maneira possível. Mãe e eu não podemos mais morar lá.

O bruxo mais velho assentiu. Se ele conseguisse sair de Azkaban, nada mais seria o mesmo. Talvez retornasse a um mundo melhor do que o que ele deixara. E talvez ficasse preso atrás daquelas grades até que sua pele caísse dos ossos.

— Há uma parte final do meu castigo. Devo voltar a Hogwarts. Como vou olhar todos nos olhos? — Ele estava respirando pesadamente e segurou uma das grades em busca de apoio.

— Da mesma maneira que eu estou olhando nos seus olhos agora. Você dirá a eles que cometeu erros. E que aprendeu com eles.

— Viver com meus próprios erros já é ruim o suficiente. Mas eu tenho que viver com os seus também. Eu recebi essa marca no braço enquanto tentava te deixar orgulhoso. E agora não posso me livrar disso. Eu tenho estado tão enfurecido com você e comigo, por tanto tempo. É cansativo. — Ele respirou fundo, estremecendo. Sua voz tremia. — Eu não tenho energia para aguentar tanto ódio. Então irei te perdoar. E a mim mesmo. Porque preciso seguir em frente com a minha vida. Eu quero ser um homem que Hermione mereça. Um homem que eu possa ter orgulho de ser.

Lúcio olhou para o filho.

Os pais somente podem dar bons conselhos e indicar bons caminhos, mas a formação final do caráter de uma pessoa está em suas próprias mãos. Essas palavras foram escritas por uma jovem há muito tempo. Ela precisou se esconder de monstros, mas eles a encontraram. Me desculpe por não ter te dado bons conselhos. E por ter te colocado no caminho errado. Você parece estar corrigindo isso.

— Essa é a ideia.

Alguém chamou no final do corredor.

— O tempo acabou. Você já terminou?

Draco olhou para o guarda.

— Quase. Segure seus hipogrifos. — Ele estudou o rosto do pai. O homem parecia muito mais vulnerável do que Draco jamais o vira.

— Eu te amo filho.

Draco se recompôs.

— Você também... pai. — Draco não disse outra palavra enquanto o guarda o escoltava com comentários sarcásticos. Ele não disse uma palavra enquanto pegava a Chave de Portal de volta ao Ministério e enquanto voltava para casa.

Hermione estava esperando por ele, preparando poções na cozinha e não no laboratório.

— Eu pensei que você estaria em Belby.

— Eu cancelei hoje. Pensei que você pudesse querer alguma companhia.

Ele a abraçou e ela o abraçou de volta com força.


A lareira no escritório de Harry brilhou com fogo verde quando o visitante chegou. Ele ficou surpreso ao receber a ligação de Draco no espelho, mas prontamente concordara.

Draco olhou ao redor do escritório.

— Nada mal, Potter.

— Obrigado. — Ele não tinha feito muito ainda, mas as cadeiras eram confortáveis. Principalmente conversara com os alunos. Ele não precisava de muitos enfeites. Com certeza não queria nenhum livro com seu rosto.

Draco passou a mão pelos cabelos. Não tinha sido um favor fácil a ser pedido, mas ele não queria se envergonhar na sexta-feira. Respirou fundo, devagar. Hermione se oferecera para lhe acompanhar quando lhe disse que estava indo, mas aquela era mais uma entre as coisas que ele precisava fazer sozinho.

Harry pegou uma capa brilhante e a entregou ao bruxo loiro.

— Cuide bem disso. Não deve haver ninguém por lá essa hora, mas mesmo assim... não se esqueça; você ainda pode ser ouvido e você não é insubstancial.

— Entendi, Potter. Trarei de volta quando terminar. — Ele puxou a capa pelos ombros e o capuz por cima da cabeça. Abriu a porta do escritório de Potter e saiu para os corredores.

Ele caminhou suavemente, mas cada passo parecia ecoar. Ele não visitava o castelo desde a última batalha. Havia manchas em algumas das paredes. Foi até o Salão Principal, onde todas as mesas estavam vazias, os estudantes aconchegados em suas camas. Não havia corpos agora, deitados e esperando serem enterrados ou receberem atenção médica.

Ele seguiu o caminho para os dormitórios da Sonserina. Não conseguiu entrar sem senha. Mas estava tudo bem. Apenas observou a gárgula, imaginando o quanto era mais difícil para os Sonserinos naquele momento do que alguns anos antes. Ser sonserino nunca tinha sido exatamente fácil. Ele se encostou na parede por um momento. Recompôs-se e seguiu em frente.

Vagou pelos corredores. Sala de aula de Poções. Transfiguração. Feitiços. Viu pela janela o campo de quadribol ao longe. E a floresta. Lembrou-se de sua primeira detenção na floresta.

Ele sabia onde seus pés o estavam levando. Manteve a respiração lenta e constante, parando sempre que começava a ficar tenso, lutando contra as vozes que ecoavam em sua cabeça. Durando muito mais tempo do que a caminhada duraria três anos antes, Draco se viu parado na torre de Astronomia.

Ele não tinha certeza de quanto tempo ficou no local. Simplesmente parado até que suas bochechas estavam molhadas e as estrelas embaçadas. Ficou de pé até não estar mais de pé e sim sentado, de costas para a parede. Ele deixara os monstros entrarem naquele lugar. A culpa era dele. Até o muro de pedra estava embaçado.

— Quem está aí? — chamou uma voz. — É melhor não ser Pirraça. Não estou de bom humor — bufou uma voz.

Draco ficou parado. A voz era familiar. Ele se certificou de que sua capa ainda estava no lugar.

— Oh, vamos lá. Helena ouviu você chorando e pensou que um bebê chorão merecia outro. Quem quer que seja, você pode vir chorar no meu banheiro comigo. Você não sabe que a Torre de Astronomia é para apaixonados? — Ouviu uma risadinha feminina.

Ainda assim, Draco hesitou.

— Helena se foi. Sou apenas eu. E ainda posso ouvir você chorando. — Murta flutuou à vista, circulando em torno do topo da torre. — Eu não saio do banheiro para ninguém, sabe.

Draco empurrou o capuz da capa de Harry para trás.

— Murta.

Em um ano em que não se sentia como se tivesse amigos, Murta tentou ser um consolo. Mesmo que sua voz fosse irritante.

Ela se aproximou dele.

— Oh! É você. Voltou para compartilhar meu banheiro, afinal?

Isso quase fez Draco rir. Não foi a primeira vez em que ela fez a oferta.

— Não. Apenas vim aqui para pensar.

O fantasma parecia desapontada.

—Bem, se mudar de ideia... — Ela apoiou os cotovelos nos joelhos e o queixo nas mãos e olhou para ele. — Você é um pouco esquisito sentado aí sem um corpo. Onde está o restante de você?

Ela era um fantasma e estava alegando que ele parecia esquisito? Com uma risada divertida, Draco deixou cair a capa dos ombros.

— Você sabe que terei problemas se mais alguém me pegar aqui, não sabe?

— Ah, não vou contar. Helena também não. Não que ela tenha te visto — sempre posso dizer a ela que não encontrei ninguém aqui em cima ou que Pirraça ou o Barão estava fazendo travessuras.

De alguma forma, ficou mais fácil. Sentado no telhado, conversando com Murta. As bordas do céu começaram a ficar rosa. Os olhos de Draco doíam por causa das lágrimas e por ficar acordado a noite toda.

— Eu preciso ir antes que o castelo comece a acordar.

— Draco colocou a capa de Harry em torno de si e puxou o capuz sobre o rosto. —Obrigado, Murta.

— Visite novamente — ela riu.O fantasma desceu as escadas, procurando algum sinal de atividade e depois acenou para Draco. Ela o deixou no escritório de Harry. Potter estava dormindo em sua mesa. Evidentemente, estava esperando que ele voltar. Draco removeu a capa e a dobrou ordenadamente, encostando as pontas dos dedos no braço de Potter.

O outro bruxo acordou imediatamente e pegou sua varinha.

— Calma, Potter. Sou apenas eu. Obrigado pela capa. É tarde. Ou cedo. Vou sair.

Harry assentiu e piscou algumas vezes, colocando a mão na capa.

— Você conseguiu o que precisava?

— Acho que sim. — Ele seria capaz de sobreviver à sexta-feira.


Draco preparava o café da manhã enquanto Hermione revisava suas anotações. Ele não estava com muita fome e suas anotações não precisavam ser revistas, mas ambos necessitavam de algo para fazer. Em breve iriam para Hogwarts.

Os olhos de Hermione continuaram se afastando de suas anotações e descansando em suas costas. Ele não estava curvado. Sua postura estava intacta. Ele conseguira resolver-se com parte de sua bagagem nas últimas semanas. A inquietação que havia começado àquele mês parecia já ter praticamente desaparecido. Ela sorriu quando ele levitou os pratos para a mesa e empurrou as anotações para o lado.

— Café?

— Sim, um pouco de cafeína seria bom.

Ele trouxe duas xícaras e a beijou.

— Bem, se tudo der errado e eu morrer de vergonha, já existe um cano em U com meu nome. Acho que Murta está realmente esperando por isso. — Ele estremeceu.

— Oh, ela não é uma companhia tão ruim assim. Eu te falei sobre a Poção Polissuco que fabricamos lá, certo?

— Ah, sim, aquela que te transformou em um gato. — Seus lábios se curvaram em um meio sorriso.

— Eu não contei essa parte — disse ela, erguendo uma sobrancelha.

— Murta pode ter mencionado isso em algum momento. — Ele deu um tapinha na mão dela. — Não tenha medo de que eu fuja para viver em um banheiro. Murta não se compara a você.

Ela sorriu.

— Eu suponho que eu gosto muito de você.

Eles terminaram o café da manhã e Draco deu uma última olhada no espelho. Ele cheirava bem. Seu cabelo estava penteado. Os sapatos eram brilhantes. Ele intencionalmente escolhera usar vestes. Ele era um bruxo. E se sentia mais confiante em suas vestes. Aquelas eram um novo conjunto que ele comprara naquele outono.

— Estou pronto.

— Você vai se sair bem.

Ele optara por falar na frente de todo o corpo discente naquele dia. Ele planejara grupos menores em suas duas obrigatórias viagens subsequentes, mas por naquele dia em específico... provavelmente seria mais fácil se não pudesse ver o rosto de alguém muito de perto.

Hermione não se incomodou com o espelho; ela simplesmente penteou os cabelos. Ainda assim, ela usava um belo conjunto de vestes — com uma poção calmante em seu bolso, caso Draco pedisse. Ela não achava que ele pediria. Sua corrida à meia-noite parecia ter sido benéfica. Mas, apenas no caso...

Eles entraram no escritório de McGonagall. Draco ficou consciente dos retratos — Severo, Dumbledore e todos os que vieram antes. Eles pareciam adormecidos, mas duvidava seriamente de que estivessem. Ele se virou e, pelo canto do olho, pensou ter visto Dumbledore com a língua para fora. Ele deveria ter imaginado aquilo.

— Minerva, é bom te ver — disse Hermione, sorrindo para sua antiga diretora de casa.

— Da mesma forma, Hermione, Sr. Malfoy. Você está preparado?

Ela voltou sua atenção para Draco, estudando-o, cautelosamente. Não fazia muito tempo, Hermione a aconselhara de que pedir a Draco para voltar a Hogwarts seria cruel. Ele não parecia estar experimentando nenhum efeito colateral até aquele momento.

— Sim. Bastante preparado.

— Muito bem então. Os alunos foram informados de que a primeira aula do dia foi cancelada e que deveriam permanecer no café da manhã para uma assembleia especial. Se você estiver pronto, iremos para o Salão Principal.

Eles desceram. Havia poucos estudantes nos corredores — um olhar penetrante da diretora os enviou correndo para o Salão Principal. Eles entraram no corredor. Ao contrário da outra noite, as mesas estavam cheias. Alunos usando vestes negras com brasões. A mesa dos funcionários estava quase completa, o assento da diretora visivelmente vazio. Era estranho ver Longbottom e Potter na mesa dos professores; havia uma cadeira ao lado de por Potter. Sem Severo — ele nunca mais se sentaria àquela mesa.

Com um movimento da varinha de McGonagall, um estrado apareceu em frente à mesa dos professores. Ela fez um gesto para que Hermione tomasse o lugar ao lado de Harry — ela apertou a mão de Draco uma vez e se sentou. McGonagall se aproximou do pódio, com Draco a reboque, e lançou um feitiço Sonorus em si mesma.

— Posso ter sua atenção, por favor? — Não era realmente uma pergunta e o burburinho da conversa pós-café da manhã foi substituído pelo silêncio. Ninguém interrompia Minerva McGonagall, se tivesse algum senso de autopreservação. — Todos vocês estão cientes... da Guerra Bruxa que destruiu nosso mundo. A ideologia que pregava que alguns bruxos e bruxas eram melhores que outros, porque suas famílias praticavam magia há mais tempo. A crença que alguns tinham de que os nascidos trouxas eram perigosos aos bruxos "reais", que eles que nos trairiam. Algumas pessoas até acreditam que talvez os trouxas devam ser escravizados, devido a uma inferioridade inata à espécie bruxa. Vidas foram perdidas no salão em que vocês estão agora. Vida de estudantes. E professores. E amigos e família. Eu gostaria de esperar que todos vocês saibam que valorizo cada um de vocês. Que são suas escolhas que determinam quem você é e quem será. Não como você nasceu. O Estatuto do Sigilo existe tanto para nossa própria proteção quanto a dos trouxas. Aqueles entre vocês que são nascidos trouxas sabem como é a transição após descobrir a existência do mundo bruxo. Sentindo sua magia pela primeira vez. Aprendendo sobre um mundo inteiro que você nunca soube que existia. Poucos bruxos e bruxas nascidos em famílias mágicas, no entanto, fazem a jornada oposta — vivendo sem magia e aprendendo sobre trouxas. Um bruxo fez essa jornada recentemente. Acho que todos vocês se beneficiariam de ouvir o que ele tem a dizer hoje. Por favor, prestem sua máxima atenção. Sr. Malfoy?

McGonagall se afastou do estrado e Draco a substituiu, executando seu próprio feitiço Sonorus. Ela sentou-se à mesa dos professores.

— Obrigado, diretora. — Ele espalhou suas anotações a sua frente, mas não as olhou. Decidiu olhar para o mar de rostos. Haviam tantos. Olhou para as anotações e decidiu abandoná-las. — Meu nome é Draco Malfoy. Eu cresci em uma casa como essas que a Diretora descreveu — mágica há 30 gerações. Minha casa era isolada, nenhuma vila trouxa por perto. O que me diziam sobre trouxas e nascidos trouxas... eu acreditava. Meu erro foi não tentar descobrir as coisas por conta própria. Aceitar o que me disseram sobre pessoas que eu não conhecia. Quando alguém me disse que os trouxas eram inferiores a bruxas e bruxos — pois não tinham magia, não conseguiam voar, não podiam ligar para um amigo pela lareira — parecia-me verdadeiro. E se isso era verdade o suficiente para os trouxas, por que não considerar os nascidos trouxas defeituosos da mesma maneira? Eu não conhecia nada melhor. E pior, não me incomodei em descobrir por conta própria. — Seu olhar percorreu as mesas, permanecendo aqui e ali. — Descubram por si mesmos. Não julguem outros grupos de pessoas com base em boatos. Conheça-os. O fato é que os trouxas não têm magia. Mas vocês sabem o quê? Eles voam. Eles lançam máquinas gigantes de metal com centenas de pessoas a bordo no ar por dezenas de vezes por dia em cidades do mundo todo. Não é uma ocasião especial, não é um grande feito com o qual eles lutam. Essa é uma tarefa rotineira. Quando foi a última vez que você viu uma vassoura carregando 300 pessoas? — Ele fez uma pausa; houve algumas risadas. — Quantos de vocês têm os novos espelhos de chamada da Gemialidades Weasley? — Houve quase uma confusão, como se as pessoas estivessem tentando decidir se responderiam. — Esqueçam que eu perguntei isso. Eu imagino que seja contra as regras da escola. Vamos apenas fingir que vocês não os têm, mas que acha que seria muito legal ligar para seus amigos o tempo todo, sem ficar preso à lareira dos seus pais de joelhos. A Gemialidades Weasley apresentou aqueles espelhos de chamadas este verão — inspirados em um dispositivo trouxa conhecido como telefone celular. Os telefones existem há cem anos, e apenas agora os bruxos estão se aproximando disso?

Ele sentiu que as coisas estavam indo bem. Ficou quase surpreso. Ninguém estava jogando frutas podres nele. Alguns deles até mesmo pareciam estar considerando suas palavras. Era o melhor que se poderia esperar em um grande salão cheio de adolescentes.

— Esqueça tudo o que pensam que sabe sobre pessoas que não conhecem. Trouxas. Nascidos-trouxas. Lufanos. Sonserinos. Pobres. Franceses. São apenas palavras. A pessoa mais incrível que conheço é uma nascida-trouxa. Quando eu era adolescente, me esforcei para ser cruel com ela. — Ele respirou fundo. Era uma admissão difícil. Ex-professores e colegas sentados à mesa atrás dele não ajudaram a facilitar a admissão. — Agora eu me arrependo muito disso, arrependerei-me pelo resto da minha vida, pois perdi sete anos sem conhecer alguém realmente incrível. Disseram-me que nascidos-trouxas não eram bruxas e bruxos reais. Que eles eram perigosos. Uma das coisas mais perigosas que existem é quando alguém te convence de que outra pessoa não é uma pessoa — ou pior, de que um grupo inteiro de pessoas não são pessoas. Eu poderia ficar aqui durante muito tempo e dizer a vocês como foi esmagador tentar navegar em um mundo totalmente novo, com novas regras, ferramentas e cultura. Mas não preciso lhes dizer isso — qualquer um de vocês nascidos trouxas já sabe exatamente como é. Você já está fazendo a transição para um novo mundo. Eu poderia lhes dizer como era humilhante descobrir que as pessoas que eu sempre considerava abaixo que eu, acabavam tendo muito mais coisas do que eu jamais lhes dera crédito. — Ele pensou nos Weasley. — Eu não irei aborrecê-lo com todas essas histórias emocionais, sentindo-me desesperado enquanto tentava navegar no metrô de Londres, a miséria de estar doente sem uma Poção Apimentada. Se você quer essas coisas, eu escrevi um diário. Está na biblioteca de Hogwarts e pode ser lido quando e por quem quiser. Tenho certeza de que a Madame Pince pode direcioná-los a ele. Voltarei aqui em janeiro e a diretora garantirá que você saiba onde me encontrar. — Essa era uma parte do discurso original que ele manteve, havia adaptado a maior parte. Isso o salvaria de ter que fazer outra aparição na frente de todo o corpo discente, desde que conseguisse que McGonagall concordasse. Ele poderia tomar suas outras duas doses de desculpas públicas em pequenos grupos que talvez quisessem ouvir o que tinha a dizer. Draco voltou-se para McGonagall com seu sorriso mais encantador. — Obrigado por me dar a oportunidade de falar com seus alunos, diretora.

McGongall só parecia um pouco perturbada com a declaração de como seria o próximo encontro deles. Ela poderia estar levemente divertida, mas apenas se você soubesse onde procurar.

— Obrigado, Sr. Malfoy, por nos dar todo o seu tempo e atenção. Estudantes, por favor, agradeça ao nosso convidado.

Houve um aplauso educado e ela dispensou os alunos de volta às aulas regulares. A multidão se dispersou lentamente e os professores os seguiram. Longbottom e Potter levaram um momento rápido para abraçar Hermione e dar um tapinha nas costas de Draco — eles tinham aulas a serem ensinadas. Em pouco tempo, Draco foi deixado sozinho com Hermione e McGonagall.

— Presumo que estaremos vendo você no próximo ano, então? — Ela disse secamente.

Ele abriu seu melhor sorriso encantador.

— Sim, qualquer data que seja conveniente em janeiro. Pensei que seria melhor tentar um grupo menor, apenas quem estivesse interessado. Mais como uma inscrição voluntária. Os alunos que optarem por vir aproveitarão mais dessa forma, não concorda?

Ela não podia negar a lógica. Mas também não resistiu em acrescentar:

— Talvez para a terceira visita obrigatória, possamos organizar uma viagem de campo. Algo prático para os alunos.

— Tenho certeza de que pensaremos em algo quando chegar a hora. Vamos fazer uma reunião de cada vez.

— Hum. De fato. — Ela olhou de Draco para Hermione novamente. — Eu ainda não consegui convencer nenhum de vocês a assumir um emprego de professor aqui?

Draco quase engasgou.

— Acho que nunca me foi oferecido um.

Houve um pequeno sorriso.

— Você aceitaria se te fosse oferecido?

Ensino? Língua de Salazar. Aquilo nunca havia sido uma possibilidade em sua cabeça. Ele seria colega de trabalho de Potter e Longbottom. E teria que passar o dia todo com adolescentes. E os arranjos de vida — seria um sério desestímulo ao seu relacionamento.

— Receio não ter tempo agora. Estamos bem ocupados com nossos... convidados especiais na mansão e ainda estou trabalhando em tempo integral com o Sr. Weasley.

Houve uma pausa e McGonagall seguiu em frente.

— Lembre-se. Ainda estamos procurando um professor de Estudo dos Trouxas para o programa renovado que esperamos implementar. E você também, Hermione. Existem oportunidades aqui para você. Certos aspectos do trabalho — como moradia — podem ser flexíveis. Não há nada no estatuto de Hogwarts obrigando os professores a morarem no castelo. Desejo o melhor para vocês dois. Vocês usarão a rede de Flu para chegar em casa?

Draco respondeu.

— Acho que vamos dar um passeio pela vila primeiro.

Ensino? Ele rolou a palavra dentro de sua cabeça. Ainda não. Talvez algum dia.

Hermione e Draco se despediram de McGonagall, caminharam pelos jardins e saíram pelo portão. Dois anos antes, os dois jamais teriam andado pelos jardins de mãos dadas. Um ano antes, nenhum dos dois se sentiria confortável andando pelos jardins de Hogwarts — Hermione mal havia conseguido realizar suas breves visitas no outono anterior. A única constante na vida era a mudança. Nada é tão terrível que dure para sempre. E as piores perdas são enfrentadas apenas uma vez. Eles estavam no caminho do que quer que viesse a seguir.