Disclaimer: Saint Seiya e seus personagens relacionados pertencem à Masami Kurumada e às editoras licenciadas.

E aqui estamos no segundo capítulo... Espero que gostem, o tema sempre me despertou muito interesse, sou tipo "rata" de documentários e filmes sobre a máfia...

E Gemini, claro que lembro de tu, é tão bom ter uma "carinha" conhecida nesse retorno ao ffnet! Bjos!

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Capítulo II

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Um dia nublado nascia na cidade, era outono afinal. Em uma luxuosa suíte do Phaternom, Saga acordava, sentindo que seu corpo todo estava bem relaxado. Devagar, para não acordar a bela dama que dormia em seus braços, ele deixou a cama e foi ao banheiro. Ligou a água quente e encheu a banheira até a metade, jogou alguns sais de banho e enquanto esperava a espuma se acumular, prendeu os cabelos no alto da cabeça. Um banho era tudo que precisava para começar bem seu dia, pensava, com a cabeça recostada na borda.

-Esta banheira tem espaço para dois, sabia? – miss Saint-Jhon disse, parada junto à porta do cômodo, enrolada em um lençol de seda.

Saga abriu os olhos e esticou sua mão em direção à mulher, que largou o lençol ao pé da porta e foi até ele, entrando na banheira com a ajuda do belo homem, recostando-se no peito largo e musculoso, acomodando-se entre suas pernas. Então, ele pegou um sabonete e começou a esfregar os ombros, descendo pela região do colo até chegar aos seios.

-Por que tenho a impressão que vou me atrasar para a reunião do café, com o Kanon?

-Não se preocupe com isso, querido... Eu pedi a um dos mensageiros do hotel que o avisasse.

-Excelente, Violet... – ele disse, beijando o pescoço que ela lhe oferecia, enquanto suas mãos deslizavam pela cintura delgada até alcançarem a região da virilha...

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Na fila para pegar os jornais do dia na gráfica, Edward tentava espantar o sono com um caneco de café. Não havia dormido bem, acordara por diversas vezes assustado com barulho de tiros em sua mente, não conseguia entender porque havia ajudado aquele criminoso. Fora que as palavras deles não saíam de sua cabeça, o que ele queria dizer com "ser bem recompensado"?

-Aqui está Ed, a sua cota de hoje! – um dos supervisores entregou ao rapaz uma pilha de jornais – Sugiro que ates de começar as vendas, pegue o primeiro exemplar e leia o caderno de política, página 3.

Estranhando, Ed assentiu e saiu da fila. Caminhou até um banco em uma calçada a poucas quadras da gráfica e então pegou o primeiro jornal da pilha, abrindo na página indicada pelo supervisor. E viu que havia um bilhete com seu nome escrito.

Ao abrir, não conseguiu determinar se o que sentia ao ler era medo, receio ou mesmo desespero.

"Hoje, 20 horas no hotel Phaternom. Vista-se bem e diga que o aguardam para uma entrevista"

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O dia não estava começando nada bem para Aiolos na delegacia central. O capitão e o promotor de justiça o aguardavam na sala do chefe, com cara de poucos amigos.

-Bom dia, senhores... – disse ao entrar, muito mais por uma questão de educação – Como vai, promotor?

-Estaria melhor se sua operação no cais tivesse tido melhor resultado – o homem falou, e seus olhos azuis triscavam de raiva. Balançando a cabeça, sentou de maneira empertigada na cadeira.

-Conseguimos interceptar o carregamento de cocaína que seria enviado à América Central, ao menos.

-Ah, claro... – Dohko endireitou-se na própria cadeira – E conseguiu também terminar a noite com os cadáveres dos irmãos Shutter no necrotério, cravados de balas e sem provas de que os matou.

-Sabemos que foi Máscara da Morte, senhor.

-Mas sem provas, isso pouco importa! – o promotor estava furioso – Acha que posso acusar o carcamano de assassinato somente pelo que acredita, Aiolos?

-Claro que não, Shaka, por favor! – Aiolos disse, jogando o chapéu que usava sobre a mesa do chefe – Nós iríamos pegá-lo, a informação que tínhamos era quente. Mas temo que possamos ter um traidor, ou um informante que faz jogo duplo entre nós. É a única explicação que encontro para entender como Máscara da Morte sumiu da cena do crime sem ser visto.

-Esta é a grande merda desse trabalho, Shaka. Dinheiro fala mais alto que honestidade para muita gente nesta cidade... – Dohko disse, entre suspiros – Quando buscamos um informante, oferecemos a ele não cumprir pena em troca de informações... E o que os irmãos Stravos oferecem? Dinheiro, conforto, proteção à família! Não é difícil imaginar para quem aceitarão trabalhar de fato.

-Vou iniciar uma investigação não oficial sobre o que pode ter ocorrido, capitão. Pedirei ao Aiolia e ao Mu que cuidem de nossos informantes e determinem qual foi que nos traiu.

-Faça isso, Aiolos.

-E o quanto antes, pois o tempo infelizmente não está a nosso favor. O prefeito já está no encalço da promotoria, quer usar a guerra contra a Máfia como bandeira de sua campanha para a reeleição.

-É, preciso falar com Shion sobre isso, essa pressão em nada nos ajuda.

-Boa sorte com isso, Dohko.

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Quando retornou ao belo e clássico apartamento em que vivia com o irmão no centro de Manhattan, Saga o encontrou sentado em frente à lareira, com um livro de capa azul escura no colo e uma taça de vinho à outra.

-Analisando a contabilidade das casas de Afrodite? – perguntou ele, sentando-se em outra poltrona, à direita do irmão.

-Revisando os números, na reunião de hoje à noite irei discutir com eles alguns novos investimentos. Com o sucesso das casas que já administra, Afrodite acredita que conseguirá contratar novas garotas e até abrir mais uma, em New Jersey.

-Ao menos não precisarão mais atravessar o rio para uma noite de diversão com as famosas ninfas de Afrodite.

-Exato. E o dinheiro que gastavam na travessia, poderão usar na própria casa em bebidas, drogas e outros mimos.

Ambos riram e brindaram, pois Saga também se servira de uma taça de vinho.

-Soube que Máscara da Morte irá trazer um convidado a nossa reunião da noite?

-Não, não sabia disso Kanon. Sabe dizer quem?

-Parece que é um dos informantes que ele mantém nas ruas da cidade. Disse que o moleque o livrou de ser pego pela polícia na madrugada, quando foi tratar do fim do contrato dos irmãos Shutter.

-Como é? – Saga encarou o irmão, com bastante seriedade – Ele quase foi pego?

-Pelo que me contou, ele acredita que algum outro informante o tenha delatado para a polícia. Desta vez ele foi cuidadoso, Saga, não deixou uma carnificina como da última vez, nem qualquer prova de que esteve no local.

-Que seja, mas estou certo de que Aiolos virá atrás de nós como quem não quer nada, só para avisar que está de olho.

-Como sempre.

Terminando o vinho, Saga ainda trocou algumas palavras com o irmão e então se retirou da sala. Logo, a campainha tocou e Shura entrou pela grande sala. Kanon deixou de lado o livro azul e pegou outro sobre a lareira, de capa verde musgo.

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Hora do almoço e Edward já havia terminado todas as entregas. E, ao contrário dos outros dias, não procurou por nenhum bico para ganhar mais algum dinheiro. Com o que conseguira com as entregas de jornais, comprou dois pães, um pouco de leite e foi para seu quartinho no cortiço. Estava desnorteado.

Enquanto comia, trancado em casa, sua cabeça girava de tanto pensar. Certeza de que aquele bilhete era de Máscara da Morte, e o assunto da reunião só poderia ser a tal recompensa que ele lhe dissera. Se fosse dinheiro, não seria nada mal. Mas e se fosse uma armadilha para matá-lo, pois sabia que o italiano havia matado os irmãos Shutter?

Talvez uma oferta de trabalho naquele hotel chique... Isso não seria nada mal, trabalhar ali deveria render um bom salário. Ah não. Estava bem claro que não seria nada disso.

Terminando de comer, o rapazinho limpou a mesa, varreu o chão do quarto e foi até seu baú velho atrás de alguma roupa. Vestir-se bem era outro problema, só tinha uma outra calça cinza e velha, mais duas camisas brancas puídas pelo uso e uma boina. Ah, e um paletó que quase não usava porque era grande para seu tamanho. Mas era o que tinha, o que iria fazer?

Deitou-se na para descansar um pouco, quando fosse por volta das 17 tomaria banho, era um horário que sabia ser tranqüilo. Ficou encarando o teto por um tempo, e considerou que se fosse recompensado com dinheiro, poderia comprar roupas novas e certas para seu tamanho, um novo par de sapatos, uma ou duas boinas... E talvez até mesmo o vestido azul de algodão e cetim, e chapéu combinando, que estava na vitrine da Marcy's...

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-Você há de concordar que a tarefa que seu irmão nos deu é ingrata, Aiolia... – disse um jovem rapaz de traços finos e melenas lilazes a outro, que o encarou com os grandes olhos azuis.

-Você está certo, Mu... Mas é o que temos, o que posso fazer? – ele devolveu ao parceiro, sentado à sua frente na mesa que dividiam na delegacia – Aiolos certamente não se deu conta da infinidade de tipos que esta delegacia tem como informantes.

-Ou justamente por saber nos encarregou disso. – Mu disse, em tom divertido – Afinal, ele sabe o irmão indisciplinado que tem.

-Falou o bom e sábio monge tibetano, senhor da paciência e guardião da disciplina eterna.

-Vai chegar o dia em que essa ironia será tão grande que não vai saber terminar a frase...

-Háháhá... Vai, para de me encher e ajude logo com esse levantamento, senão não terminamos hoje.

-Algum compromisso para estar tão nervoso assim com esse trabalho?

-Prometi levar a Marin ao teatro e depois para jantarmos fora, é aniversário dela.

-É, deixar a noiva na mão no dia do aniversário não é de bom tom. Está certo, me passe uma dessas pastas aí para analisar mais alguns nomes.

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Hotel Phaternom, 20 horas

Agora não adiantava querer voltar ou correr. Como solicitado, lá estava Edward no hotel, segurando com força a boina entre as mãos e tão trêmulo que as ombreiras do paletó chegavam a balançar. De cabeça baixa, foi até o balcão e parou ao lado de um homem, esperando sua vez de ser atendido.

-Pois não?

-Ah, senhorita... – ele se dirigiu à recepcionista, nervoso – Estão me aguardando para uma entrevista.

-É comigo, garoto... – disse-lhe o homem, e então Edward o encarou pela primeira vez – Venha por aqui.

O rapaz prendeu a respiração por um segundo, um tanto em choque. Os olhos negros e felinos do homem pareciam querer enxergar através de suas íris castanhas e aquela voz grossa era tão... Sensual. Seria esta mesmo a palavra? Enquanto o seguia por um corredor na ala restrita aos funcionários, não deixou de reparar em como ele era alto e forte, o andar elegante, assim como o terno bem cortado. Quem quer que fosse, Edward considerou que era um homem que sabia usufruir bem do dinheiro que deveria possuir.

-Chegamos garoto – ele disse, estancando o passo de repente e Edward, distraído, quase trombou às costas do mesmo – Ei, tenha cuidado!

-Desculpe-me senhor.

-Shura Gonzalez. Esqueci-me de perguntar seu nome, me desculpe.

-Edward Grant, senhor.

Shura abriu a porta e quando Edward entrou, todas as atenções do recinto se voltaram para ele. E foi inevitável a surpresa ao ver quem eram as pessoas ali presentes. Máscara da Morte ele já conhecia e esperava encontrar ali, mas Saga e Kanon Stravos, os irmãos que comandavam o submundo em Nova York? Se tivesse joelhos fracos, certamente teria ido ao chão de tanto que suas pernas tremiam.

-De onde surgiu esse pobre garoto? – Afrodite questionou, observando de cima a baixo, com certo ar de desdém – Estas roupas... Parecem ter saído de alguma lata de lixo.

-Um pouco de piedade, Afrodite. O garoto deve ser entregador de jornais ou pães, não deve ganhar mais do que um dólar por dia.

A voz poderosa de Saga, falando em sua defesa, despertou Edward de volta à realidade. Sem jeito, ele viu que o homem lhe indicava uma poltrona e se sentou. Para envergonhar-se novamente quando, pelo movimento, sua barriga roncou.

-Está com fome, garoto?

Ele assentiu e Saga fez um sinal para que Shura procurasse por miss Saint-Jhon, pedindo que acrescentasse um prato ao jantar que seria servido. Edward, sem saber o que fazer ou falar, evitava levantar os olhos e encarar aqueles homens, embora soubesse que todos sem exceção o observavam. Minutos depois, Shura retornou e então Kanon se serviu de um uísque, começando a falar.

-Como se chama garoto?

-Edward Grant, senhor Stravos.

-Me chame de Kanon, se ficar repetindo esse "Sr. Stravos", não saberei se está se referindo a mim ou meu irmão... Então, me diga... O que faz, quantos anos tem...

-Eu trabalho entregando jornais e faço bicos para completar minha renda. E também entrego e recebo recados, principalmente do Sr. Máscara da Morte... – ele falou quase de uma vez, como se tivesse medo de perder a voz – E tenho 19 anos.

-Dezenove? Com esta cara e este corpo de 14, 15 anos no máximo? – Afrodite riu – Só pode estar mentindo para tentar nos impressionar. Ou conseguir uma dose de uísque.

-Não senhor, eu... Há anos que não sei o que ter uma refeição decente, ainda que seja apenas uma por dia. A fome e o trabalho pesado, que faço desde criança, atrasaram meu crescimento, eu acho.

Afrodite calou-se, não esperava uma resposta tão dura e contundente. Máscara da Morte sorriu de canto e então tomou a palavra, no momento em que o jantar chegava. Violet acompanhava seu funcionário e sorriu para Edward, que a acompanhou com o olhar, estarrecido. Como era linda aquela mulher, os dentes brancos e retos, os olhos verdes brilhantes...

-Entre os rapazes que pago como informantes e mensageiros, Edward sem dúvidas é o melhor deles. Ágil, discreto, um excelente observador e esperto. Foi ele quem viu a polícia no cais na madrugada e me alertou... É duro confessar, mas não fui surpreendido por causa da astúcia e rapidez dele.

-Você tem família, Edward? – Shura perguntou, chamando-o à mesa com um gesto. Sem jeito, o rapazinho se sentou, e imediatamente ficou desnorteado com a quantidade de comida para ser , percebendo o embaraço, resolveu ajudá-lo na tarefa.

-Não tenho, Sr. Gonzalez... Não conheci meu pai, minha mãe morreu quando criança. E me... Minha irmã morreu há alguns anos. Fiquei sozinho.

Ao terminar de servir Ed, Violet percebeu a hesitação estranha na fala do garoto, mas nada disse. Desejando bom apetite a todos, saiu da sala e voltou ao seu escritório, pensativa.

-Não vai comer, Edward? – Saga perguntou, ao ver que somente o garoto não o fazia –Disse que estava com fome! Ah não ser que... – ele riu – Se está com vergonha porque não sabe como usar os talheres, não se preocupe. O único aqui que se importa com isso é o Afrodite, e se ele fizer algum comentário, será expulso da reunião.

-Ora, que falta de decoro e elegância, Saga... – Afrodite disse em tom de lamúria, e então voltou-se ao convidado da noite – Onde você mora, garoto? Não é em nenhum buraco ou algo do tipo, não?

-Em um cortiço, na periferia do cais. É o que posso pagar com o que ganho.

-Vamos ter que dar um jeito nisso, então – Kanon falou, servindo-se de mais uísque – E também em suas roupas, Edward. Não poderá trabalhar conosco morando em um lugar tão perigoso quanto um cortiço, ou vestindo esses... Me desculpe, mas são trapos o que está usando.

-O q-quê? – ele se engasgou com a comida – Como assim, trabalho? Com a família Stravos?

-A sua recompensa, garoto... – Máscara da Morte disse, simplesmente – Como disse antes, você é inteligente, ágil e bom observador. Queremos que seja nosso mensageiro exclusivo, para começar... Dependendo de como se sair, poderá conquistar mais coisas.

-Se aceitar... – Saga continuou – Deixará o cortiço, nós o instalaremos em um hotel conhecid, aqui no centro. E claro, compraremos roupas e sapatos novos. Pode ajudar nisso, Shura?

-Claro, eu o levarei à loja de ternos. E se por um acaso se comportar bem, poderá até mesmo conhecer as ninfas que trabalham para Afrodite. – disse por último, arrancando risos de todos os presentes, menos Edward que pareceu não entender.

-Eu... Eu preciso dar uma resposta agora? Posso pensar a respeito?

-Não há muito o que pensar, moleque! – Máscara da Morte disse, muito sério – Acaso pensa que encontrará outra oportunidade com essa na sua vida?

Edward deixou o garfo sobre o guardanapo e encarou os presentes, um por um. Não queria se unir a um bando criminoso, não era esse tipo de ensinamento que sua mãe havia lhe passado. Mas também tinha consciência de que o máximo que conseguiria na vida era deixar de entregar jornais para ser um estivador no porto da cidade, o que não era lá uma grande mudança. Mas o principal problema era outro, aqueles homens eram inteligentes e perigosos, como faria para... Para esconder a verdade sobre quem era de fato?

-Eu... Eu aceito. – disse, por fim, sem muita convicção. Afinal, não havia muito o que fazer. Se não aceitasse, não tinha garantia de que seria deixado em paz, fazendo seu trabalho de costume.

-Ótimo! Vamos comemorar então! O que vai beber conosco?

-Eu nunca bebi, senhores.

-Meu Deus, garoto, você precisa urgentemente conhecer os prazeres da vida... – Kanon disse em meio aos risos – Vamos começar com uma taça de vinho, então.

Um brinde foi feito, Edward tomou o conteúdo de sua taça quase de uma vez, ficando ligeiramente engasgado. Shura deu-lhe uns tapinhas nas costas, rindo do embaraço do garoto.

Estava feito. A partir dali, não haveria volta.

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