Disclaimer: Saint Seiya e seus personagens relacionados pertencem à Masami Kurumada e às editoras licenciadas.
Capítulo escrito ao som de "Naufrago", "Ultraviolet", "Electrical Storm", "Bella Ciao" e os temas solo de Aiolos, Melinda e Shura.
Aviso para quem está amando o Aiolos "modo príncipe" desta fic: Este capítulo contém cenas que podem ser prejudiciais aos diabéticos no geral...
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Capítulo XIX
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A conversa foi pesada. Dura, difícil. Por diversas vezes Melinda precisou parar e respirar fundo, ou para que sua voz parasse de soar trêmula. Os olhos ficaram embaçados e cheios de lágrimas o tempo todo. Contara à Aiolos muitas coisas, inclusive sobre si mesma e sua vida, que faziam parte dos motivos de ter aceitado o trabalho com os Stravos. Falou sobre como se sentia e pensava sobre cada membro da família e seus negócios. Mas, apesar do longo desabafo, havia dois pontos de sua história que não mencionou para o inspetor em nenhum momento.
Primeiro, que Violet sabia de sua condição e estaria ao seu lado, quando finalmente revelasse à Saga e os demais sobre sua verdadeira identidade. Segundo, sobre Shura. Ainda sentia muita vergonha do que o espanhol fizera consigo. E medo também. Não tinha coragem suficiente para contar tudo sobre os abusos do espanhol, não ainda.
Aiolos ouviu a tudo entre surpreso e penalizado, pontuando uma ou outra narrativa com suas perguntas. Melinda estava lhe fornecendo dados extremamente importantes sobre os negócios dos Stravos e seus sócios, como funcionava sua estrutura (ou parte dela, não tinha certeza de que a garota conhecia tudo de fato), como operavam... Incluindo um elemento novo nesta equação, do qual não fazia ideia: a participação de um novo grupo nos negócios, mas não conhecia aquele nome dito por Melinda. Irmãos Amamiya. Muito provável, uma família ainda em ascensão no submundo.
Enquanto a garota falava, Aiolos processava toda aquela informação, teria que pensar em uma maneira de como utilizar aqueles dados todos em sua investigação, de maneira que não prejudicasse a ela.
-... E isso é tudo, Aiolos. – ela disse por fim, encarando-o com os olhos vermelhos – O que vai fazer agora?
-Eu? – a pergunta de Melinda o tirou de seu mundo particular em pensamentos, ele a encarou de volta – Eu preciso pensar, Melinda... Como lhe disse, não posso usar nada do que me falou neste quarto em uma investigação oficial, mas... Mas preciso encontrar um meio de prosseguir, sem que seja prejudicada.
-Entendi... Posso lhe pedir um favor, sobre isso?
-Claro.
-Deixe Violet fora disso também, por favor. Eu... Os negócios dela são lícitos e eu... Eu a tenho como uma irmã mais velha.
-Eu... Eu verei o que e como posso fazer, Melinda.
-Confio que fará o melhor, Aiolos... – a garota mal disse essas palavras e não pode conter um bocejo. Relembrar toda aquela história e informações que tinha a haviam deixado cansada.
-Eu vou embora, deixar que descanse... Peça à Marin um vaso para as flores, eu esqueci de procurar por um quando saí para ir ao banheiro àquela hora.
-Pode deixar, não me esquecerei disso... Até amanhã, Aiolos.
O rapaz, já em pé ao lado da cama, aproximou-se da garota para se despedir com um beijo em sua fronte, como sempre fazia ao ir embora. Mas, ao tocar com seus lábios a testa de Melinda, ao mesmo tempo que a abraçava, percebeu algo diferente. Seu coração passou a bater um tanto mais acelerado que o normal, ao passo que sua boca parecia ter ficado mais quente. E Melinda, aconchegada naquele abraço, percebeu a mudança de compasso e temperatura. Estremeceu de imediato, fechando sua mão direita sobre o tecido do paletó de Aiolos, agarrando o mesmo.
Da fronte, Aiolos deslizou sua boca sobre o nariz da garota, beijando a ponta. De maneira natural, ela ergueu o queixo, ele se afastou alguns poucos centímetros, olhos nos olhos por um breve instante... E então... Ele a beijou. Um toque simples, apenas o contato lábios contra lábios. Sem pressão, sem arroubos... Como se continuar pudesse, de alguma maneira, machucar, ferir, envergonhar... E justamente por isso, ele se afastou rápido.
Não queria magoar de maneira alguma aquela garota. Murmurando um pedido de desculpas, Aiolos deixou o quarto. Melinda recostou-se ao travesseiro, fitando de maneira intensa as flores sobre a mesinha de canto. Tinha um leve sorriso nos lábios...
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Pela manhã, Afrodite e Máscara da Morte tomavam seu café da manhã na varanda do apartamento quando o mordomo os procurou, dizendo que um entregador de jornais estava no hall, procurando pelo italiano. Fechando seu roupão, Máscara foi ao encontro do garoto, que relatou a ele as informações que conseguira sobre Edward.
O italiano ouviu a tudo muito atento, com uma expressão que foi da seriedade para a fúria durante o relato. Ao final, muito nervoso, ele pegou um papel e lápis, rabiscou um endereço e entregou ao rapazinho, com ordens expressas para fazer aquele favor de imediato. Junto ao papel, uma nota de 100 dólares.
Voltou rapidamente para a varanda, praguejando e nervoso.
-O que foi, Giovanni? Por que essa cara? – perguntou Afrodite, ao vê-lo nervoso daquele jeito.
-Vista-se rápido e vamos imediatamente para o apartamento do Saga e do Kanon! Tenho notícias sobre o Edward.
-E?
-Não são nada boas...
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Assim que saiu do apartamento de Afrodite, o entregador de jornais seguiu para o endereço de Shura, com um recado de Máscara da Morte: o espanhol deveria ir para o apartamento dos Stravos imediatamente, pois tinhas notícias sobre Edward. Em tempo recorde, o rapaz trocou de roupa e foi para ao encontro dos amigos. Quando chegou, todos já estavam reunidos, incluindo Violet, que fora chamada por Saga para estar presente.
-E então, Máscara, o que descobriu sobre Ed? – perguntou Kanon, ao perceber que a expressão do italiano não era nada boa.
-Bom... De acordo com as informações que meu contato reuniu, Ed foi pego por um patrulheiro de nome Alberich e levado preso para a central há alguns dias.
-O Ed está preso? – Violet questionou, como se quisesse ter certeza de que não ouvira errado.
-Exato. E tem mais... O moleque me disse que houve problemas no momento da abordagem e o tal patrulheiro teve que usar de força, a história que corre entre os entregadores e mensageiros é de que o Ed apanhou ao ser levado.
Ao ouvir aquilo, Shura imediatamente cerrou os punhos, nervoso, sua face começando a ficar vermelha e esquentar. Violet, que estava sentada ao lado de Saga, imediatamente apertou o braço do rapaz, sentiu-se zonza, mas manteve-se firme. Por Deus, precisava pensar em alguma coisa para ajudar Melinda, tirar a garota da central, ela deveria estar morrendo de medo e assustada.
-Merda... – Saga falou, por fim – Preciso pensar em algo, não podemos deixá-lo preso, o garoto é nossa responsabilidade.
-Mas não podemos nos envolver diretamente, Saga... – Afrodite disse, desconcertado com a notícia.
-Eu sei, vou pensar em como faremos para tirá-lo de lá.
-Ao menos essa prisão serviu para lhe provar algo, Afrodite... – Violet disse ao sueco, um tanto nervosa – Se Ed não fosse confiável, certamente já teríamos policiais batendo às suas portas.
O sueco grunhiu, mas ficou quieto em seu canto, a jovem mulher estava certa. Dispensados por Saga, todos se retiraram do apartamento, exceto Violet. Com a face dura e muito séria, Shura não voltou ao seu apartamento. Tinha uma missão própria a cumprir e ele não iria descansar até conseguir o que pretendia.
O tal Alberich iria se arrepender de colocar as mãos em sua "angel".
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-Saga? – Violet chamou o noivo, que ainda estava no escritório do apartamento, pensativo – Podemos conversar, amor?
-Claro... – ele disse, chamando-a para se sentar, ela o fez no braço da poltrona onde ele estava – Sobre o que quer falar?
-Sobre a prisão do Ed... Me deixe ir até a central saber sobre ele e, se for o caso, pagar a fiança para libertá-lo. Posso dizer que se confundiram, que ele na verdade trabalha para mim no hotel, Saga.
-Violet, não acho prudente. Pode ser perigoso para você, não quero te envolver nisso.
-Mas, Saga... – Violet suspirou, havia tomado uma decisão e precisava conversar com o rapaz sobre o assunto – Eu já estou envolvida... Mais do que pensa, na verdade.
-Do que está falando, Violet?
-Só me escute, até o fim...
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-Aiolos! – o irmão chamava pelo inspetor pela quinta vez, sem sucesso – O que deu nele que parece em outro planeta? – voltou-se para Mu, como se o amigo pudesse responder aquela pergunta – Ele mal nos deu bom dia, sentou-se à mesa e por lá ficou. Tenho certeza de que ainda nem virou a página do fichário de relatórios que está fingindo ler.
-Ele está agindo como você quando conheceu a Marin... – Mu disse simplesmente, como se aquilo fosse uma constatação óbvia – Ficou assim por uma semana até tomar coragem para falar com ela e expor seus sentimentos.
-O inspetor, apaixonado? – Isaak e Hyoga ouviram a conversa de sua mesa e se juntaram aos amigos – Está com cara mesmo.
Em sua mesa, Aiolos tinha um fichário de relatórios aberto, mas, como Aiolia dissera, não lia absolutamente nada. Seu corpo estava presente, mas a mente divagava longe dali, perdida em pensamentos e sentimentos. Que diabos tinha na cabeça quando beijou Melinda? Certo, nem dava para considerar o que fizera muito como um beijo, mas a intenção era de um, então... Agora estava ali, sem saber o que faria, diria ou como agiria quando chegasse o fim da tarde e fosse visitá-la novamente. Fingiria que nada aconteceu? Falaria a respeito? Pediria desculpas?
As divagações foram interrompidas porque, de repente, se sentiu estranhamente observado, suas orelhas estavam ficando quentes. Quando levantou as orbes verdes, deu de cara com o irmão e os demais amigos o encarando, como se estivessem estudando sua pessoa.
-O que foi? – ele se ajeitou na cadeira – Não tem trabalho a fazer não?
-Se você não estivesse fingindo ler esse fichário... – Aiolia disse, com um leve sorriso – Teria nos ouvido te chamar diversas vezes para saber da distribuição de tarefas.
-Uma flechada e ficou assim, Aiolos?
O inspetor bufou ao entender a referência que Mu havia feito naquela pergunta nada discreta.
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Violet contou tudo à Saga, toda a verdade sobre Melinda. Sua família, a morte do irmão mais velho, a decisão de tomar o lugar dele e viver como Ed, o medo de que os Stravos descobrissem e a condenassem à morte ou algo do tipo. Falou também de como sentia pena da garota e queria ajudar, fazer algo por ela... De como acabou se tornando uma espécie de irmã mais velha.
O rapaz ouviu tudo muito atento, em um misto de surpresa, indignação, estranheza... Mas, conforme Violet avançava em sua narrativa, começou a pensar também em sua história e de Kanon, em como as circunstâncias ruins e sem expectativas de melhora os havia levado para aquele caminho fora da lei. E Melinda estava se encaminhando para a mesma estrada...
-... Entendeu agora, amor, por que preciso fazer isso? Por favor, me deixe ajudar Melinda...
-Violet... – Saga voltou de seus pensamentos – Eu nunca... Por Deus, como nunca percebi a verdade? Pobre garota... Se eu soubesse, eu jamais teria aceitado que ela viesse trabalhar conosco!
-O que pretende fazer agora, amor?
-Vou deixar que vá à central, Violet... – ele disse, pensativo – Mas eu a levarei e te esperarei no carro. Quando Melinda estiver livre, nós três iremos conversar e então decidiremos juntos o futuro dela a partir de então.
-Obrigada, Saga... – a jovem o beijou – Vou pegar minha bolsa e iremos para a central!
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Assim como Máscara da Morte, Shura também tinha contatos entre os entregadores e mensageiros da cidade, afinal, já tinha sido um deles há alguns anos. Assim, acabou descobrindo que um deles havia sido procurado pelo patrulheiro Alberich para obter informações sobre um garoto chamado Edward Grant. Ao confrontar o rapazinho, conseguiu descobrir em qual região o patrulheiro morava.
Sondando com lojistas da região, em pouco tempo descobriu onde o idiota morava. Era um apartamento pequeno, em um prédio cheio de corredores e portas, todas próximas uma das outras. Antes de bater no número indicado por um quitandeiro, conferiu se a Colt M1911* estava destravada no bolso interno do paletó. Então bateu à porta.
-Quem é? – o patrulheiro perguntou, abrindo apenas uma pequena fresta da porta.
No entanto, Shura não estava a fim de conversa ou diálogo. Com um chute contra a porta, acabou arrebentando a corrente e acertando Alberich ao mesmo tempo, que se desequilibrou e caiu para trás.
-Shura Gonzalez, seu merda... – ele disse, fechando a porta e agarrando o patrulheiro pelo colarinho – E você vai se arrepender de ter se metido com o mensageiro de nome Edward Grant.
-Ei, ficou maluco? – Alberich tentava se soltar, mas a força do espanhol era tamanha que ele só conseguia se sufocar mais – Eu só... Estava verificando... Uma denúncia...
-Que denúncia?
Ao perceber que o homem estava ficando sem ar, Shura o soltou, mas não sem antes lhe dar um soco que o fez cuspir sangue. Alberich cambaleou para trás e o encarou, enxugando a boca com as costas das mãos.
-Uma mulher apareceu na central há alguns dias, para fazer uma denúncia... Disse que sabia de um mensageiro que trabalhava para os Stravos. Eu registrei o boletim e fui atrás do moleque.
-O que fez com ele?
-O levei para a central para averiguação.
Um outro soco no rosto, seguido de um terceiro e mais outro. Shura voltou a segurar o patrulheiro pelo colarinho, a cada palavra dele sentia sua fúria aumentar.
-Quem era a mulher que fez a denúncia? QUEM?
-Eu não sei, tenho certeza de que o nome que ela usou era falso... – Alberich disse, tentando não se engasgar com o próprio sangue – Ela se apresentou com um nome inglês, mas tenho certeza de que era alemã, pelo sotaque.
-Alemã? – Shura afrouxou o aperto um pouco – Como ela era?
-Cabelos compridos e negros, olhos da mesma cor, mas pareciam meio violeta na luz, pele branca...
"Pandora" foi o pensamento do espanhol, ao ouvir a descrição dada pelo patrulheiro. Furioso, Shura soltou Alberich com tudo, jogando-o no chão. E, antes que ele fizesse menção de se levantar ou o que fosse, o espanhol tirou a arma do bolso e disparou dois tiros. Alberich estava morto.
Saiu apressado do prédio, antes que os corredores se enchessem de curiosos. Precisava falar com Afrodite, urgente.
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Com postura firme e altiva, usando roupas sociais bem cortadas, Violet entrou pela central e se dirigiu ao balcão de recepção. Com um sorriso controlado, mas nervosa por dentro, ela falou ao recepcionista de maneira gentil.
-Bom dia... Estou à procura do inspetor Aiolos Kinaros, ele está? – ela perguntou, orientada por Saga a falar com o rapaz.
-Quem o procura?
-Miss Violet Saint-Jhon.
O policial pediu um momento e seguiu para dentro da central. Aiolos, ao ouvir o nome da mulher que o procurava, arqueou uma sobrancelha, mas acompanhou o rapaz até a recepção. Esticando os pescoços para enxergar melhor, Aiolia e Mu viram a jovem mulher aguardando pelo inspetor no balcão.
-Pois não, senhorita? Em que posso ajudar?
-Estou aqui por conta de um equívoco de um patrulheiro, inspetor... – Viole encarou os olhos verdes de Aiolos, muito parecidos com os seus próprios – Há alguns dias um garoto de nome Edward Grant foi preso, acusado de trabalhar como mensageiro para uma família de criminosos...
-Prossiga.
-Mas Edward é, na verdade, um dos mensageiros que trabalham no hotel Phaternom, do qual sou a proprietária. Então, estou aqui para libertá-lo de sua injusta prisão. Se necessário, posso arcar com o valor da fiança.
Aiolos encarou demoradamente a jovem e bela mulher à sua frente, mil pensamentos em polvorosa em sua mente. Não contaria a ela a verdade sobre o ocorrido com Melinda, mas conseguia distinguir bem naqueles olhos a preocupação de Violet com o "mensageiro".
-Eu entendo, senhorita, mas temos um problema aqui... – ele falou e Violet fez menção de dizer algo, mas ele continuou sua fala – O mensageiro estava ferido e eu o levei ao hospital. No entanto, quando aguardava por um médico para examiná-lo, Edward fugiu e ainda não o encontramos.
-O quê? Isso não é possível... Ele... Ele teria me procurado no hotel e não o fez...
-Talvez esteja se sentindo envergonhado pelo ocorrido e não tenha coragem de procurar pela senhorita... – o inspetor por um momento se sentiu mal por mentir para a jovem – Eu continuarei com as buscas, senhorita. Qualquer informação ou novidade, eu mesmo a procurarei no Phaternom.
Agradecendo, mas sentindo seu coração bater acelerado, Violet saiu da central e foi para o carro, onde Saga a aguardava. O rapaz logo achou estranho a noiva sair tão rápido da central e sozinha. Quando ela entrou no veículo, viu que chorava. Preocupado, a abraçou, enquanto ela lhe contava o que Aiolos havia dito.
-Acha que é possível, Saga? Que o inspetor tenha me dito a verdade, que não estava me enganando?
-Violet, amor... – Saga a encarou, fazendo um carinho em seu rosto – Eu acredito no inspetor Kinaros... Eu sinceramente não acho que ele mentiu para você, sinto muito...
-E agora, como vai ser?
-Vamos para o hotel, eu juro que vou pensar em algo para encontrar Melinda...
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No hospital, Marin tinha arranjado um vaso para Melinda poder colocar as flores, a garota, que já conseguia se levantar e se locomover com bem menos dor, era quem havia ajeitado-as no vaso da maneira que achava mais bonito. Enquanto trocava os últimos curativos e ministrava a medicação, a enfermeira não deixou de notar que a paciente parecia em outro mundo, ora pensativa, ora dando risadinhas baixas. Isso sem contar como seu sorriso alargava quando falavam sobre o cunhado.
-Melinda, pra mim já chega... Eu não agüento mais de curiosidade.
-Do que está falando, Marin?
-Você está bem mais alegre que nos outros dias, mais disposta e sorridente. E, além disso, é só eu mencionar o nome do Aiolos que você abre um sorriso e sua mente voa pra longe daqui. Alguma coisa aconteceu ontem, não foi?
-Ah, Marin... – Melinda riu, estava tão na cara assim? – Acho que... Que eu gosto dele. É isso.
-Eu não acho... – a garota a fitou com curiosidade – Eu tenho certeza! E o sentimento é recíproco, dá para perceber quando vejo vocês dois juntos... E tem essas flores também, nem mesmo o Aiolia foi capaz de me dar um buquê tão lindo quanto esse!
Ambas riram, e Melinda voltou a ficar pensativa. Será que Marin tinha razão? Bem, Aiolos a tinha beijado na noite anterior, certo? Apesar de que um beijo não era um indicativo de que se gostava de alguém de fato, ela mesma beijava Shura sem vontade de fazê-lo, mas... Era diferente. Não só pelo fato de que o inspetor não havia avançado com o contato. A maneira como ela própria se sentia era totalmente diferente. Não era um sentimento de pesar ou de invasão, era leveza, era calmaria, era... Afeto. E tantos outros sentimentos e sensações boas.
Um suspiro. Queria que o fim de tarde chegasse logo para vê-lo...
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-Você tem certeza do que está dizendo, Shura?
O espanhol estava no apartamento de Afrodite. Contou a ele o que Alberich lhe dissera, o sueco ouviu tudo em silêncio, montando novos arranjos de rosas, até fazer aquela pergunta. Pandora... Justo a mais requisitada das novas ninfas que trabalhavam para ele...
-Dite, como o canalha disse, ela usou um nome falso para registrar a denúncia, mas pela descrição, só pode ser a Pandora... Ela sabia sobre o Edward.
-Hon kan inte vara en förrädare* - ele disse em sua língua natal, que usava quando estava ficando nervoso - Isso não pode ser...
-Eu sei que é duro acreditar, Dite, mas a chance de ser uma verdade é grande. Eu irei ao casarão hoje, apenas não achei justo fazer isso sem avisá-lo antes.
-Hoje não, Shura... É a noite de folga de Pandora e não sei onde possa encontrá-la... Terá que esperar até amanhã para isso.
-Al infierno, Afrodite...
-Não posso fazer nada sobre isso, du jävla spanska*
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Quando chegou ao hospital, Aiolos estava nervoso. Enquanto caminhava pelo corredor que dava acesso à ala isolada, ficava repassando em sua mente diversas perguntas e tentativas de iniciar um diálogo, mas todas pareciam idiotas ou simplistas demais. A verdade era que não sabia como agir depois do que tinha feito. E, pior, odiava não ter ideia de como Melinda iria agir com relação a ele. Inspirando o ar com força e soltando demoradamente, para se acalmar, ele parou junto à porta do quarto e percebeu que a luz do mesmo estava apagada, era estranho. Será que Melinda havia sido transferida para outro quarto? A resposta veio quando abriu a porta, ela ainda estava lá, mas não deitada sobre a cama. A garota estava em pé junto à janela, observando o movimento no pátio interno do hospital. A tênue claridade que vinha do lado de fora quase não dava conta de iluminar o quarto direito.
-Posso acender a luz? – ele perguntou, para que ela notasse sua presença. Melinda se virou para ele, sorrindo.
-Deixe assim, por favor... A luz acesa estava me deixando agitada, por isso a apaguei.
Aiolos assentiu e foi para perto de Melinda, postando-se ao seu lado, observando o movimento também. Parecia que estava criando coragem para encarar a garota, ou lhe dizer alguma coisa.
-Aiolos? – ouviu ela o chamar e teve que se virar para ela – Está tudo bem?
-Es-Estou... Eu só...
-Só o quê?
Ele não disse nada. A verdade era que, por um momento, ficou perdido naquelas orbes castanhas, que com a claridade que vinha de fora brilhavam em dourado. Até mesmo o olho machucado refletia aquela luz, ele não estava mais inchado, apenas um hematoma esverdeado o rodeava. Com cuidado, tocou o mesmo com a ponta dos dedos.
-Ainda dói?
-Não mais... Só sinto dor na região das costelas, mas só quando faço movimentos muito bruscos.
-É bom saber disso...
Os dedos que tocavam o local machucado foram para a bochecha, em uma leve carícia. Melinda segurou aquela mão com a sua, virando-se levemente para um beijo na palma aberta. Um arrepio percorreu toda a espinha do rapaz, ele a segurou com delicadeza pela cintura, aproximando seu corpo ao dela com cuidado, para não machucá-la ainda mais. E então, fechando seus olhos, ele a beijou novamente.
O mesmo toque de lábios sem forçar algo além. Mas, desta vez, havia um elemento diferente naquele toque. Com sua língua, ele traçou parte do contorno da boca de Melinda, como se estivesse estudando aqueles lábios, talvez para que não se esquecesse de como eram... E assim o fez até perceber que a garota os entreabria, a língua dela buscando a sua, tocando-a ainda de maneira tímida, mas decidida a seguir em frente... Ele baixou sua cabeça um pouco mais, tornando aquele contato mais profundo, Melinda o abraçou pela nuca, correspondendo ao beijo de maneira um pouco mais impetuosa.
Não era uma "invasão", pois sentia em cada movimento da língua e da boca de Aiolos que ele lhe pedia permissão para continuar... Não era uma busca pela própria satisfação, pois ele a abraçava com cuidado para que não se machucasse mais... Não era um meio de dominar a situação, pois ele a deixava tomar as rédeas e comandar o beijo também...
Era como um sonho. Mas, pensou sorrindo por entre o beijo, que era muito melhor que um sonho. Era realidade...
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Continua...
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Ai, eu falei que diabético iria passar mal com esse capítulo... É bom um pouco de romance e calmaria antes de tudo pegar fogo de novo! Pois é, pessoas, o sofrimento vai voltar à carga! Ah, Sheila, deixa essa menina ser feliz, ela só sofre nessa fic! Então... A cota master de sofrimento da Melinda já foi paga, mas... Isso não me impede de um adendo, nesse sentido, nos próximos capítulos!
Bom, por falar em capítulos, estamos em contagem regressiva para o final, logo teremos revelações, bombas finais eclodindo... Aguardem...
* Uma das armas mais utilizadas pela máfia na década de 30, era a preferida do gangster Lucky Luciano. Era compacta e tinha um pente de sete balas, que podia ser trocado de maneira rápida. É considerada a precursora das pistolas automáticas que existem nos dias de hoje.
*"Ela não pode ser uma traidora" e "seu espanhol de merda" em sueco.
Reviews!
Revenge of Queen Anne, primeira parte da vingança concluída com sucesso! Falta agora o cabrito, veremos o que o aguarda... Ah, deixa eu dizer que sua sugestão de para onde Melinda deve ir me fez acrescentar um capítulo na fic, viu? É, porque me deu uma ideia que não tinha como desenvolver em um ou dois parágrafos... E não é que escrevo rápido, é que nesse momento a fic já esta toda escrita, estou apenas revisando cada capítulo antes de postar, para ver se preciso tirar ou acrescentar algo, como aconteceu no caso da sua sugestão... Um grande beijo!
