Disclaimer: Saint Seiya e seus personagens relacionados pertencem à Masami Kurumada e às editoras licenciadas.

Capítulo escrito ao som de "Naufrago", "Ultraviolet", "The power of goodbye", "When the lights gou out" e as canções solo de Afrodite e Máscara da Morte.

E como disse anteriormente que a fic está perto do fim, neste capítulo começam as revelações que citei nas notas finais do anterior... Aliás, teremos a primeira delas logo de cara no capítulo!

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Capítulo XX

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Na central, praticamente toda equipe de Aiolos, assim como o próprio, já havia encerrado expediente e ido para casa. Restavam apenas Hyoga e Isaak, ambos revisando anotações sobre as últimas diligências realizadas. E assim estavam quando um dos detetives da divisão de homicídios apareceu no lugar, com uma expressão muito séria, procurando por alguém.

-Investigadores? – ele chamou a atenção dos dois rapazes, que imediatamente olharam para ele – São da equipe que trabalha junto ao inspetor Kinaros, não?

-Exato... O que deseja?

-Gostaria que dessem uma olhada nisso aqui... – o homem entregou a eles uma folha onde se costumavam fazer as anotações de depoimentos coletados – É um depoimento de um quitandeiro, dono de um comércio próximo ao local onde o patrulheiro Alberich vive.

-E por que este depoimento precisa de nossa atenção? – Hyoga questionou, muito sério.

-Porque o patrulheiro foi assassinado esta tarde, senhores... E, de acordo com o quitandeiro, um homem com a descrição de aparência e sotaque de Shura Gonzalez apareceu pela região, querendo saber onde poderia encontrar Alberich.

A menção ao nome do espanhol fez com que toda atenção dos dois policiais se voltasse para aquela folha de papel.

-Se o tal Shura foi atrás de Alberich e o matou... – Isaak disse, apreensivo – Significa que ele soube que foi o idiota quem efetuou a prisão do mensageiro.

-Sim... E pode ter conseguido tirar dele a identidade de quem fez a denúncia...

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Conforme aqueles quatro amigos cresciam, a sua influência entre as crianças do orfanato e do bairro também se fazia presente, logo haviam se tornado páreo duro para as "gangues" juvenis que praticavam pequenos delitos pela região. Não demorou para que essa fama chegasse aos ouvidos e conhecimento de dois garotos que viviam em um outro orfanato na mesma região, mas que ficava sob os cuidados da igreja católica do bairro. Assim como os Amamiya e seus amigos, eles se sentiam deslocados, como cartas fora do baralho naquele lugar, principalmente o garoto loiro de olhos azuis que tinha ascendência russa, sua seriedade e sotaque eram motivo de piadas. O único que estava sempre ao seu lado era o amigo um pouco mais velho, vindo das terras geladas do norte europeu.

Decididos a fazerem parte daquela turma e serem respeitados, Hyoga e Isaak procuraram pelos outros garotos. Agindo juntos em perfeita sincronia de ações e inteligência, rapidamente conquistaram seu lugar na "gangue" de Ikki e Shun.

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Quanto tempo Aiolos e Melinda se renderam àquele beijo, nenhum dos dois saberia dizer. Acabaram por separar as bocas apenas porque a garota gemeu baixinho, ao sentir uma fisgada em seu abdômen quando o rapaz a abraçou com um pouco mais de força, sem perceber o que fazia.

-Me... Me desculpe... – ele disse, sentindo que estava ficando corado – Eu acho que me excedi...

-Não... – a resposta o deixou confuso – Você não fez nada que eu não tenha permitido, Aiolos...

-Ainda assim não é certo, não com você ainda em tratamento médico.

Melinda sorriu, voltando a beijar o rapaz. E assim ficaram até ela se sentir dolorida e pedir para se sentar na cama, para que ficasse mais confortável. Aiolos estava ajeitando o travesseiro para ela quando a luz foi acesa no quarto e o dr. Aldebaran apareceu, com um grande sorriso no rosto. Mas, o inspetor percebeu, seu olhar demonstrava outra coisa. Pedindo licença para a paciente, o médico o levou para fora do quarto para conversarem.

-O que foi, Aldebaran?

-O médico administrador que fazer uma visita para a Melinda amanhã à tarde, ver como ela está... Aiolos, eu não tenho como impedir que isso aconteça.

-Por Deus... – ele passou uma das mãos pelos cabelos, denotando nervosismo – O que vamos fazer?

-Se Melinda tiver um lugar para ficar, eu posso assinar a alta dela logo pela manhã, ela já está em condições de ir para casa, basta continuar com repouso.

-Então faça isso, não quero correr o risco de alguém descobrir a verdade sobre ela e sua estada aqui... Eu darei um jeito de buscá-la pela manhã...

O médico assentiu e voltou para o corredor, tinha outros pacientes para examinar. Quando Aiolos se aproximou da cama, a garota percebeu que ele tinha uma expressão preocupada no rosto.

-O que foi, Aiolos? Algum problema?

-Não, está tudo bem... – ele disse, sentando-se à beirada da cama – Você terá alta pela manhã.

-Alta? – o sorriso de Melinda morreu em seu rosto – Eu... Eu vou sair daqui? – um leve tom de desespero – Vou ter que voltar para o hotel... Para a minha vida de antes?

O choro veio quase que de imediato. Então ela teria que voltar para o trabalho com os Stravos? Para os abusos de Shura? Aquilo não era justo... Não agora que... Que tinha experimentado aquela sensação tão boa nos braços de Aiolos...

-Acalma-se, Melinda, por favor... – ele se aproximou, enxugando a face da garota com um lenço – Se um dia quiser voltar para sua antiga vida, será uma decisão única e exclusivamente sua. Mas, por agora, eu te levarei para um lugar seguro onde possa se recuperar por completo... Somente então poderá escolher qual caminho irá seguir.

-Pa-para onde vai me-me levar?

-Você vai saber amanhã, por hora fique tranqüila... Veja... – ele apontou para a janelinha da porta do quarto – Aldebaran voltou com seu jantar!

As palavras de Aiolos soavam firmes, então Melinda decidiu que iria confiar no rapaz...

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Em seu quarto de hotel, Pandora estava apreensiva. Já estava à espera de seu convidado a mais de uma hora, alguma coisa grave devia ter acontecido para ele não ter aparecido ainda. O pior era ter que continuar aguardando, pois não poderia ir atrás dele ou de notícias.

A todo momento, espiava a calçada pela janela, na esperança de vê-lo chegar. E, enquanto aguardava se perdendo em sua própria angústia, ela pensava em como podia ainda amar tanto aquele homem, mesmo sabendo de toda incerteza que rondava suas vidas desde que se conheceram...

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Ao fazer 18 anos, os adolescentes tinham que deixar o orfanato e procurar um outro lugar para morar, assim como algum meio de sobreviver. Ikki, por ser o mais velho do grupo, foi o primeiro a experimentar a "vida de adulto". Com o dinheiro que ele e o grupo haviam juntado com os golpes que praticavam, alugou um quartinho próximo ao cais e passou a trabalhar em um dos armazéns. Não que sua intenção fosse se tornar um homem bom e honesto e deixar a "gangue" para trás, não ele... Aprender sobre o trabalho no porto e, principalmente sobre o lado "obscuro" desse trabalho era importante para os objetivos que ele e o irmão tinham em mente.

Na região onde morava, por se tratar de um lugar extremamente pobre, havia todo tipo de gente considerada escória pela sociedade: mendigos, alcoólatras, viciados, prostitutas que se vendiam pelas ruas e ao longo do cais. E, neste último grupo, havia uma jovem mal saída da adolescência, que Ikki estava sempre de olho.

Pandora era seu nome. Uma jovem alemã da mesma idade que a sua, cabelos longos e negros, tão lisos que pareciam artificiais. Olhos da mesma cor, mas que tinham um estranho brilho violeta. Pele muito branca e traços finos, modos educados e um tanto aristocráticos, talvez sua família tivesse descendência nobre... Mas falida, com certeza. Ou, do contrário, que outra explicação teria para que a jovem estivesse ali, vendendo seu corpo em um lugar tão insalubre quanto o cais?

Fato era que, em pouco tempo, acabaram ficando amigos, da amizade para se tornarem amantes foi um pequeno pulo. Ambiciosa e de gênio forte, mas doce na medida certa, a alemã era o par perfeito para o jovem oriental. Inclusive para ajudá-lo a colocar em prática os planos de crescimento e riqueza que ele possuía...

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Ao voltar para a janela, Pandora abriu um enorme sorriso e correu para a porta, ele estava chegando! Estava tão aflita com a demora que sequer esperou Ikki entrar pelo corredor, foi recebê-lo nas escadas de acesso ao andar. Com um pulo, ela logo se enroscou no corpo másculo e quente do amante, que teve uma certa dificuldade para conseguir chegar ao quarto.

-Se toda vez que me atrasar for recebido dessa maneira... – ele começou a dizer, soltando-se da jovem e deitando-a na cama – Farei isso mais vezes.

-Idiota! – ela deu um tapa em seu ombro – Me deixou preocupada, acreditando que estava com problemas.

-Quase isso... – ele a soltou de repente, ficando sentado sobre o colchão. Pandora estranhou e se ajoelhou atrás dele, massageando os ombros fortes do rapaz.

-O que aconteceu, meine liebste?

-Hyoga me procurou um pouco antes de eu sair do escritório, com uma notícia bomba... – um suspiro – O patrulheiro que registrou sua denúncia e fez a prisão do mensageiro foi morto hoje.

-Como é?

-Assassinado, dois tiros... E, de acordo com o depoimento de uma testemunha, um homem com a descrição e o sotaque do Shura Gonzalez pode ter sido a última pessoa a se encontrar com o patrulheiro.

-Se este homem for mesmo o Shura, ele pode ter matado Alberich?

-Não somente isso, Pandie... – Ikki se virou de frente para a jovem, abraçando-a pela cintura – Ele pode ter conseguido arrancar do patrulheiro a identidade de quem fez a denúncia.

-Eu usei um nome falso.

-Sim, eu sei... Mas e se o tal Alberich tiver fornecido a ele uma descrição da mulher que denunciou o mensageiro? Shura a conhece, poderia muito bem ligar os pontos.

-Eu não tinha pensado nisso... – ela disse, sentando-se no colo de Ikki ao ser puxada por ele – O que faremos?

-A sua parte no plano termina aqui, mein hübscher*... Não pode mais se arriscar trabalhando como uma das ninfas do Afrodite. Felizmente, as coisas estão caminhando a nosso favor, podemos seguir sem sua participação.

-Tem certeza? – Ikki assentiu, e a alemã sorriu – Isso será bom para você também, mein mürrisch*, afinal, esse corpinho aqui voltará a ser somente seu...

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Como Melinda teria alta logo pela manhã, Aiolos não ficou muito tempo no hospital. Precisava dar um jeito no lugar onde ela ficaria até se recuperar por completo. Ah, sim, já havia decidido onde ela ficaria, a questão era que o lugar precisava de uma pequena organização e limpeza... Não que fosse um chiqueiro, pelo contrário, o chão estava sempre limpo e não havia uma única grama de poeira sobre os móveis e utensílios, mas... Como era de se esperar para o apartamento de um homem solteiro que trabalha muito, não havia comida na geladeira e armários, assim como as roupas, livros e outras pequenas coisas estavam espalhadas pela sala, cozinha e quarto.

Quarto! A princípio poderia ser um problema, já que o apartamento tinha um único quarto, afinal, ele morava sozinho, para que dois? Na época em que Aiolia era solteiro e não queria tomar bronca da mãe por voltar tarde da noite para casa, ele dormia no sofá do irmão. Bem, enquanto Melinda estivesse ali, o sofá seria a "cama" improvisada dele.

Ah, precisava tomar cuidado também com os vizinhos, embora se desse bem com a maioria, sempre tinha algum mais chegado a bisbilhotar a vida alheia. Se descobrissem que ele havia levado uma garota para morar ali, mesmo que provisoriamente... Estaria lascado!

Ajeitou o que pôde, comprar comida teria que esperar o dia amanhecer para tanto. Por último, deixou para dobrar e guardar suas roupas no armário do quarto, e então teve um estalo em sua mente: Melinda iria precisar de roupas! Bem... Poderia ir ao hotel onde ela se hospedava e pegar algumas e... Não, não era uma boa ideia. O que diria para a recepção para justificar sua ida até lá? E se avisassem aos Stravos, o que faria? Certo, mais um item que teria que esperar até o dia seguinte para resolver. E, neste caso, precisaria de ajuda, falaria com Marin sobre isso.

Droga! Marin lhe lembrou de Aiolia novamente. Vira e mexe o irmão aparecia por ali para ver como estavam as coisas, os pais também... E os três tinham cópias da chave de seu apartamento! E se algum deles resolvesse fazer uma visita quando estivesse fora, como seria? Sentou na cama, dando um suspiro desanimado... A ideia de trazer Melinda para o apartamento estava se tornando mais complicada do que parecia no início...

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Uma reunião foi convocada por Saga para o final da noite, precisava colocar o irmão e os sócios a par das últimas notícias sobre o paradeiro de Melinda. A verdade era que estava sem rumo, sem saber o que fazer ou como agir, pela primeira vez sentia que falhava como líder daquela família. Como todos reunidos na sala que usavam no Phaternom, ele se serviu de uma dose de uísque e foi direto ao assunto, sem rodeios.

-Infelizmente, não tenho boas notícias, senhores... Esta tarde Violet foi até a central para saber sobre o Edward e tentar soltá-lo, mas... – um suspiro, seguido de um longo gole da bebida.

-E o quê? Fale logo, Saga! – Shura estava impaciente, nervoso, parecia a ponto de explodir com qualquer um que estivesse em seu caminho.

-Ele não estava mais na central. De acordo com o inspetor Kinaros, Ed chegou à central muito machucado e foi levado para o hospital... Mas ele fugiu pouco depois de chegar ao local.

-Não é possível... Essa informação é verdadeira, Saga?

-Não há motivo para crer que o inspetor mentiria, Máscara... – Kanon respondeu pelo irmão, conhecedor como era da personalidade e índole de Aiolos.

-Então teremos que traçar alguma estratégia de busca ou algo assim para encontrá-lo nesta cidade.

-Temos outro problema além deste para resolver... – Shura tomou a palavra, e Dite soltou um grunhido insatisfeito – Eu fui atrás do atrás do patrulheiro que fez a prisão, e descobri quem fez a denúncia contra o Ed... – Saga ia falar algo, mas Shura continuou, sabendo o que ele diria – Não se preocupem, eu o apaguei... O fato é que a denúncia foi feita por uma das ninfas de Afrodite.

Todos os olhares da sala foram para o sueco, que bufou, já estava ficando vermelho de raiva também.

-Pandora, a alemã que eu autorizei "servir" ao Edward quando Shura o levou no casarão... E não me olhem assim, como eu poderia saber que ela faria algo para nos prejudicar?

-Ela não pode estar nessa sozinha... – Saga retomou a palavra na reunião – Deve ter feito isso a mando de alguém.

-É o que penso, por isso irei atrás dela amanhã no casarão. De acordo com o Dite, hoje é folga dela e ele não sabe onde encontrá-la.

-Como não sabe?

-Ah, Kanon... Você acredita mesmo que minhas ninfas preenchem uma ficha com dados pessoais e de moradia quando vêm trabalhar comigo? E mesmo que forneçam um endereço, a maioria é falso.

-Essa discussão não irá nos levar a lugar algum... Shura, você e Afrodite irão cuidar desta questão envolvendo a Pandora; Máscara, você continue em contato com os mensageiros e entregadores de jornais para tentar descobrir para onde o Edward pode ter ido, Kanon pode ajudá-lo com isso.

Os quatro assentiram e pouco depois, Saga encerrou a reunião. Subiu de volta para a suíte de Violet, extremamente pensativo. Acreditando ser o único a saber a verdade sobre Melinda, faria ele sua própria "investigação" para encontrar a garota.

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Pela manhã, Melinda foi a primeira paciente que Aldebaran visitou. Fez todos os exames físicos necessários, verificou os curativos com a ajuda de Marin e então decretou que, de fato, a garota estava de alta. Enquanto vestia suas roupas de garoto, que haviam sido lavadas e passadas por Marin em sua casa, ela aguardava por Aiolos.

Ele chegou cerca de uma hora depois, trazendo uma sacola em mãos. Estranhou ao ver Melinda usando as roupas de "Ed', afinal, durante aqueles dias se acostumara a vê-la com uma jovem mulher, não um rapazinho. Ela tentou sorrir ao ver que ele parecia paralisado, logo notou a sacola em suas mãos.

-O que é isso?

-Isso? Ah, eu ... – ele entregou a sacola para ela – Eu passei em uma loja de roupas antes de vir para cá e comprei algo para você, não sabia que o hospital tinha guardado suas roupas.

-Fui eu quem guardou as roupas dela, Aiolos, mas acredito que Melinda vai preferir usar o que comprou. – disse Marin, ao ver o vestido de fundo branco, estampado de pequenas flores azuis, cinto e sapatilhas combinando.

Melina pediu um minuto para se trocar e o fez rapidamente. Quando Aiolos retornou ao quarto, Marin já estava com as roupas masculinas em mãos para se livrar delas de uma vez e a garota... A seu ver, ela estava muito bonita naquele vestido, mesmo com o cabelo curto e desalinhado.

-Vamos? Eu pedi a um taxista que nos esperasse na saída lateral do hospital, é bem menos movimentado por lá.

-Vamos sim, já estou pronta... Obrigada por tudo, Marin. E o senhor também, doutor Aldebaran... – ela disse, ao ver o médico entrando pelo quarto.

-A melhor forma de me agradecer é se cuidando, menina.

Antes de sair, Aiolos chamou Marin e passou a ela um envelope, que a enfermeira descobriu depois conter dinheiro e um bilhete, para que providenciasse mais roupas para Melinda e as levasse ao seu apartamento quando pudesse. Saindo discretamente pela lateral do hospital, entraram pelo táxi e seguiram até o Brooklin, o bairro onde Aiolos morava desde que fora promovido a inspetor da polícia.

-Chegamos, Melinda! – ele disse, ajudando-a a sair do táxi. A garota parou na calçada, observando o prédio e logo percebeu que se tratava de um local residencial, não um hotel.

-Onde estamos, Aiolos?

-No meu prédio, eu moro aqui. Vamos entrar?

Era um prédio baixo, de três andares, que ficava em uma esquina. Subiram as escadas para o último andar, o apartamento do rapaz ficava ao final do corredor. Abriu a porta e deixou Melinda entrar na frente, a garota carregava o vaso de flores que ele havia lhe dado de presente. Deixou-o sobre o balcão que dividia a cozinha e a sala, à sua direita ficavam as portas do quarto e banheiro. Tinha também uma pequena varanda com vários vasos de plantas, Melinda foi até ela e notou que na parede tinha uma escada de ferro.

-Para que esta escada?

-Ela dá acesso ao telhado, tem um pequeno terraço por lá. Quer conhecer?

A garota assentiu e Aiolos a ajudou a subir, temendo que ela fraquejasse por ainda sentir alguma dor nas costelas e abdômen. Mas a subida não foi tão difícil, eles alcançaram o terraço rapidamente e ela sorriu ao ver que ali havia duas espreguiçadeiras de madeira, uma mesinha de ferro e diversos outros vasos de plantas e flores. O lugar parecia bem aconchegante.

Ficaram por ali alguns poucos minutos, afinal, Aiolos ainda precisava ir trabalhar. Ao voltarem para o apartamento, ele mostrou a ela onde guardava os mantimentos (tinha ido fazer comprar assim que o sol nasceu), onde ficavam panelas, pratos, talheres e outros utensílios, além das frutas, legumes e verduras na geladeira.

-Eu tenho uma chave reserva guardada nos fundos da gaveta de talheres... – ele disse, antes de sair – Não ficará "presa", no entanto acho mais prudente você não sair, ao menos por hoje.

-Fique tranqüilo Aiolos, eu não sairei do apartamento.

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Fato é que mal pisou na central, Aiolos percebeu que havia uma movimentação grande, principalmente na divisão de homicídios. Estranhando, ele foi direto à mesa do irmão e Mu questionar o que estava acontecendo, nem deu espaços para que os dois perguntassem sobre seu atraso.

-O que aconteceu? Por que essa agitação toda?

-O patrulheiro Alberich... – Aiolia respondeu logo, querendo na verdade encerrar o assunto, curioso que estava com o atraso do irmão – Foi assassinado ontem, em casa.

-E um dos detetives encarregados do caso entregou ontem para o Hyoga e Isaak uma cópia de um depoimento... Uma testemunha indicou que um homem com a descrição de Shura Gonzalez procurou por Alberich um pouco antes de ele ser morto.

-A divisão de homicídios está trabalhando com a hipótese de que ele seja o assassino?

-Sim, é provável que o detetive responsável pelo caso o procure para mais informações, Aiolos.

-Entendi... Escutem, por falar em Hyoga e Isaak, onde eles estão?

-Hoje é o dia de folga deles, Aiolos... – Mu arqueou uma sobrancelha – Você se esqueceu da folga de parte da sua própria equipe?

O rapaz bufou e então foi para sua mesa, sendo seguido por Aiolia. Estava curioso, afinal, o irmão nunca se atrasava para o trabalho e quando isso acontecia, a primeira coisa que fazia quando chegava à central era procurar por Dohko para justificar o atraso. E mal ele se acomodou em sua mesa, o mais novo iniciou o "interrogatório".

-Onde esteve durante a manhã toda, Aiolos?

-Por que quer saber?

-Você nunca se atrasa para o trabalho. E até o momento, não parou para se justificar sobre isso... O que está acontecendo?

-Não é nada, Olia! Pare de me amolar com isso.

-Não... – ele tinha o semblante sério – Não quer contar, tudo bem, é um direito seu. Mas que vou descobrir por meus próprios meios, pode ter certeza que sim.

Aiolos suspirou, o irmão, quando queria, era extremamente persistente. Mas não contaria nada a ele, pelo menos não no momento. Desconversando, chamou Mu para entregar aos dois uma nova tarefa no trabalho.

-Quero que vocês dois levantem toda informação que conseguirem sobre os irmãos Ikki e Shun Amamiya. Por enquanto, sei que trabalham com exportação de grãos e cereais, mas pode haver algo além em seus negócios.

-Para que isso, Aiolos?

-Uma possível pista sobre os esquemas de trabalho dos Stravos, um contato me passou a informação. Reúnam tudo que puderem sobre esses dois, ok?

Os dois assentiram e foram para sua mesa iniciar o trabalho. Aiolos, pensativo, foi para a copa atrás de uma xícara de café. Durante a noite, enquanto não conciliava o sono, tinha decidido investigar os irmãos mencionados por Melinda. De tudo o que ela lhe contara, era o caminho mais difícil a seguir, pois não tinha nada sobre eles... Mas era também a linha de investigação que levantaria menos suspeitas sobre ela.

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Depois de pensar e conversar com Violet, Saga decidiu que procuraria por Melinda em outros hospitais da cidade e região, ela poderia ter fugido e procurado por atendimento em outro centro médico que fosse mais afastado e com menos chances de ser reconhecida ou pega novamente pela polícia. E, enquanto o rapaz cuidava disso, a jovem mulher retomou seu trabalho no hotel, não podia deixar tudo nas mãos de Camus o tempo todo, embora confiasse no gerente.

Ao descer para sua sala, encontrou a ele e o advogado, Milo, conversando na recepção.

-Violet! – Milo a cumprimentou com um beijo em sua mão – Eu estava a sua procura.

-Vamos para minha sala, Milo.

Os dois entraram no cômodo e o rapaz não deixou de notar que ela parecia cansada e abatida. Camus havia lhe falado que Violet não estava bem nos últimos dias.

-Aconteceu algo? Você está abatida.

-Algumas questões pessoais, mas não se preocupe Milo... E então? O que deseja conversar comigo?

-É sobre as modificações que solicitou em seu testamento... – ele tirou o documento da pasta que carregava – Já estão prontas, só preciso de sua assinatura para registro.

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Melinda passou o dia entre um cochilo e outro, e um livro que havia encontrado na estante de Aiolos e parecia interessante. No entanto, acabou desistindo ao perceber que não entendia quase nada da história escrita ali. Como fazia um certo tempo que não respirava o ar de fora do hospital, ficou a maior parte do tempo no terraço, havia gostado muito do lugar. Só deixou a espreguiçadeira no finzinho da tarde, para tomar um banho e preparar algo para o jantar, calculava que Aiolos chegaria em casa no mesmo horário que a visitava no hospital.

Estava na cozinha decidindo o que faria quando ouviu baterem à porta do apartamento, chegou até mesmo a prender a respiração para que não soubessem que havia gente em casa. Mas logo atendeu ao reconhecer a voz de Marin a chamando.

-Como está, Melinda? – a jovem enfermeira entrou, carregando algumas sacolas – Passou bem o dia?

-Sim, mas o que faz aqui, Marin? Seu turno já acabou?

-Eu pedi para sair um pouco mais cedo hoje, precisava ajudar o Aiolos com isso... – ela entregou as sacolas para a garota – Ele me pediu para lhe comprar algumas roupas.

-Puxa, não precisava se incomodar com isso... Quer ficar para o jantar? Eu já estava começando a preparar alguma coisa.

-Um dia ainda provarei da sua comida, Melinda, mas hoje não posso. Meu irmão vai jantar em casa e como isso é uma raridade, não posso perder a oportunidade.

Despediram-se rapidamente e Melinda foi para o sofá, ver o que Marin tinha comprado. Um novo vestido, algumas saias e blusas, um par de sapatos e diversas faixas e presilhas para os cabelos. Depois iria experimentar tudo, mas, por ora, se ocuparia de fazer o jantar. Não era nenhuma exímia cozinheira, mas também não ficaria parada, sem fazer nada, só dando trabalho e gasto para Aiolos... E quando o rapaz chegou, o cheiro de comida foi a primeira coisa que sentiu assim que abriu a porta do apartamento.

-Melinda? O que está fazendo na cozinha?

-O jantar... Está quase pronto.

-Mas você tem que ficar de repouso! Eu ia comprar o jantar em um restaurante aqui perto.

-Cozinhar não é tanto esforço assim, Aiolos... Considere como um agradecimento por me ajudar.

Acabou por concordar com Melinda. Deixou seu paletó pendurado próximo à porta do apartamento e foi tomar um banho, enquanto ela terminava de cozinhar. Uma comida simples, arroz, batatas cozidas e frango, mas tudo bem temperado e fresco. Ao menos sabia se virar para não morrer de fome, quando tinha algum dinheiro para comprar comida.

-O cheiro está bom... – Aiolos disse, sentando-se junto ao balcão que dividia a sala e a cozinha e usava como mesa. Melinda sorriu ao ver o rapaz tão à vontade, usando apenas uma calça de algodão e camiseta, nem parecia um inspetor de polícia.

-Obrigada, mas vamos ver se o gosto também está.

Comeram em silêncio, Melinda tinha curiosidade de perguntar a ele coisas sobre como tinha sido o dia de trabalho, a família, mas quando abria a boca para tanto, desistia. Para que saber de todas aquelas coisas se, em pouco tempo, era provável que seguiriam cada um por um caminho e mal se veriam novamente.

-A louça deixe que eu lavo... – ela tentou protestar, mas ele recolheu o prato e talheres que ela segurava – Quem cozinha, não lava! Simples assim.

-Está certo então.

Ela deixou que ele cuidasse da louça e foi para a varanda, queria ver a rua e o movimento durante a noite. Por curiosidade, olhou para o relógio na parede da sala, enquanto se encaminhava para fora, e viu que eram 20 horas. Por um momento, sentiu seu corpo estremecer, aquele horário lhe dava um certo arrepio. O horário em que Shura a procurava no hotel, antes de tudo virar de ponta cabeça em sua vida.

Ficou um bom tempo na varanda, abraçando o próprio corpo devido ao vento frio que soprava. Pensava no que Aiolos lhe dissera, que ela quem iria escolher que caminho seguir quando estivesse totalmente recuperada, que o que fazer de sua vida era uma decisão somente dela e mais ninguém. Mas como seguir um caminho diferente do que trilhava, se não tinha recursos para isso? Não tinha estudo, dinheiro, um lugar para morar... Não tinha uma profissão, família, ou amigos a quem recorrer... Mesmo Violet talvez não pudesse ajudá-la, pois tinha as ameaças de Shura.

Percebeu que seus olhos estavam marejados e logos começaria a chorar em silêncio, mas se manteve no mesmo lugar. Será que um dia se livraria do espanhol, de fato? Das lembranças da dor, da vergonha, dos abusos que ele lhe infligira?

-Melinda... – Aiolos a chamou, saindo para a varanda e percebendo que ela parecia estar com a mente longe dali – Se estiver cansada, pode ir dormir, eu troquei a roupa de cama para você.

-Não precisa se preocupar com isso, Aiolos, eu fico com o sofá.

-Se o Aldebaran ao menos desconfiar que eu a coloquei para dormir no sofá, ele vai, no mínimo, me dar um soco... E um soco daquele homem deve ser suficiente para me deixar aleijado o resto da vida.

Ambos riram, mas a garota não saiu do lugar, permaneceu do mesmo jeito, a mesma posição. Até sentir que Aiolos a abraçava pelas costas, os braços dele sobre os seus, cruzados à frente do corpo, o queixo junto à sua nuca. Ficaram ali juntos, sem dizer uma única palavra ou mesmo se mover, apenas sentindo o calor do corpo um do outro.

O instinto investigativo do rapaz lhe dizia que havia alguma coisa errada com a garota, algo que ela não havia lhe contado ainda. Mas não iria pressionar Melinda a falar, deixaria que ela decidisse seu próprio tempo para isso...

Um bocejo por parte de Melinda fez com que ele voltasse sua atenção a ela.

-Você está cansada, é melhor ir dormir... Vamos entrar.

Ele fechou a porta de vidro da varanda e foi com a garota até o quarto, pegou um travesseiro e uma coberta para ir dormir na sala. Ao se virar de volta para Melinda para lhe dar boa noite, o beijo quase foi nos lábios da garota, mas ela... Ela se virou e o mesmo foi em sua bochecha.

-Boa noite, Aiolos...- ela disse, fechando a porta, sem entender muito bem porque havia se desviado daquela maneira do beijo do rapaz...

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No casarão de Afrodite, Shura estava na sala da administração com o sueco, frustrado e nervoso. Tinham chegado mais cedo para encontrar Pandora antes que o trabalho se iniciasse, mas, para decepção de ambos, ela não estava. Misty havia informado que ela não iria trabalhar naquele dia, um mensageiro foi até ele para levar o recado da ninfa.

Praguejando contra a alemã e qualquer um que atravessasse seu caminho, o espanhol foi para a sala de jogos e por lá ficou boa parte da noite.

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Continua...

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Eu disse que teríamos revelações neste capítulo, não disse? Pois é, elas estão preparando o terreno para os acontecimentos finais da fic, a calmaria tá quase acabando... Digam-me, o que seria o final ideal de vocês para cada personagem da fic? Tenho curiosidade em saber, será que o que planejei é muito diferente do que imaginam?

Sobre os irmãos Amamiya e sua trupe, eu sempre quis fazer uma fic com os lendários heróis de bronze puxando para o outro lado. Não necessariamente da vilania, porque não os vejo assim nesta fic, mas como antagonistas... Invertendo as posições deles com os cavaleiros de ouro, gosto disso! E, para mim, Ikki x Pandora é um ship mais interessante e de mais possibilidades que Ikk x Esmeralda...

*"minha princesa" e "meu rabugento" em alemão. Preferi fazer o Ikki usar o alemão ao invés do japonês porque achei a palavra germânica mais bonita que a japonesa.

Reviews...

Gemini Thai, não se iluda com o Shura, ele continua sendo um cabrito escroto, não foi um ato de heroísmo o que ele fez com o Alberich, eu diria que foi mais pelo ego machucado dele, por outro homem ter colocado as mãos em sua "angel", ainda que não da mesma maneira... Quanto ao beijo do Aiolos, foi lindo mesmo né, e amo escrever as cenas dele com o Aiolia, é bem o relacionamento de irmãos que imagino que teriam se ele não tivesse morrido na história original.

Revenge of Queen Anne, eu não sabia da pistola, sou vários zeros à esquerda no quesito games. E faça isso, não louve o Shura porque ele continua um escroto! Até eu que estou escrevendo senti o coração apertar com a Violet, mas calma... Posso dar um spoiler? Ela vai reencontrar a Melinda, elas ainda terão seu momento fofo antes do fim... Quanto ao beijo, eu fiquei bem feliz porque os dois "primeiros beijos" da Melinda foram exatamente como imaginei: Possessivo e erótico com o Shura; romântico e carinhoso com o Aiolos... E quanto à sua sugestão, o capítulo XX que acabou de ler só existe por causa dela!