Beckendorf era um homem de poucas palavras.

Como filho de Hefesto, ele sentia que conseguia se comunicar melhor com máquinas do que com pessoas. Afinal, ele não precisa se preocupar com a interpretação da mensagem ou da resposta que receberia de máquinas; Pessoas possuíam sentimentos, problemas, mágoas, tornando muito difícil conversar. Por isso, Beckendorf não costumava conversar no acampamento.

No entanto, isso não significava que ele não era respeitado - todos os campistas sempre pediam seu conselho e valorizavam sua opinião. Mas sabiam que para ele era mais fácil se esconder na forja e evitar conversas. Construir um novo machado ou um dragão de bronze? Ele não via problema. Conversar com alguém, principalmente uma garota? Ele preferia duelar com Cronos.

Contar a uma filha de Afrodite o que sentia, por exemplo, era impossível.

Quando a viu, ficou sem palavras. Não só por ela ser muito bonita - ela era, de fato, linda - mas por ter os olhos castanhos mais brilhantes que ele já havia visto. Seu cabelo cor de chocolate caía em ondas por suas costas, e seu sorriso era calmo e acolhedor. Ela causou uma sensação estranha nele - ele queria entendê-la, e sentia uma força impelindo-o em sua direção. Ele ficou encantado, e também assustado.

Ele cedeu o seu canto no chalé de Hermes e protegeu seus pertences na única noite em que ela foi uma indeterminada. Quando ela foi reclamada, após um jogo de captura à bandeira, o medo de Charles se tornou realidade. Ele já encontrou diversas armadilhas, mas nunca esteve em uma posição como esta.

O ferreiro já conhecia isso, já vira inúmeras vezes entre seus irmãos - filhos de Hefesto se apaixonaram por filhas de Afrodite. Evidentemente, era de família; Hefesto e Afrodite eram casados, e portanto seus filhos estavam condenados. As filhas de Afrodite consideravam a admiração dos filhos de Hefesto como gentileza, no máximo, e não davam atenção a eles. Pelo que Charles sabia, nunca era recíproco.

O tempo passou e Charles nunca deu nenhum sinal de se interessar por Silena, embora ela fosse à forja constantemente para encontrar algumas amigas do chalé de Hefesto e sempre tentasse conversar com ela. Mas ele se sentia nervoso, e as palavras não saíam do jeito certo.

Alguns meses depois de ser reclamada, era evidente que Silena não estava muito feliz no acampamento - ela se ressentia por não receber atenção da mãe e passava muito tempo sozinha ou chorando próxima ao lago. Ele nunca deixou de observá-la, desejando poder fazer algo que a animasse.

Em um dia particularmente difícil para ela, Charles foi à forja e ao invés de criar uma espada mortífera ou um machado, criou um pequeno e delicado coração de metal, o qual deixou à porta de Afrodite.

O chalé de Afrodite entrou em polvorosa. Mais um coração para eles quebrarem! Um número enorme começou a visitar a forja para tentar descobrir quem era o admirador secreto, até que foram expulsas por Quíron pois distraíam os ferreiros. O presente virou assunto em todo o acampamento, enquanto o ferreiro sentiu um impulso para forjar cada vez mais. Em poucos dias, seu arsenal de guerra deu lugar a flores de metal, ursos de metal e caixas de chocolate - o conteúdo adquirido com os gêmeos Stoll - de metal. Ele culpava Afrodite por esses impulsos insanos enquanto dizia a si mesmo que estava sendo bobo, mas depois de alguns dias começou a escrever "Silena" em suas criações.

Eventualmente, a armadura de Silena foi amassada em um jogo de captura à bandeira, e ela descobriu o remetente de seus presentes - a caligrafia dos "Silena" era a mesma em que Charles Beckendorf assinou uma via de seu pedido de conserto.

Ela teve vergonha de bater à porta da forja, mas ainda assim o fez. Sabia que ele estaria sozinho, pois ele era o único que ficava ali antes da fogueira. Ela ouviu um "Entra!" e entrou fazendo o mínimo de barulho possível.

Charles estava em sua área da forja, suado, com a camisa fina e sem mangas. Os pensamentos de Silena quase se desviaram, porém ela conseguiu ver o colar de coração que ele tentara desesperadamente esconder ao ver quem havia entrado.

"E-então, tem algum problema com a armadura ainda?" Perguntou ele, tentando tirar a atenção dela enquanto tirava o coração do fogo o mais rápido possível.

Ela pulou em seus braços, e o beijou; não era necessário falar.

Lembrando-se daquilo, Charlie apertou uma foto em seu bolso, dos dois juntos, ela segurando uma pequena corrente de ferro, presente de um ano de namoro.

Beckendorf sorriu à morte.

Eu esperarei por você, ele pensou.

O navio do titã explodiu.