Sakura já havia perdido a conta de quantos dias estava presa naquela realidade inusitada. Nunca, em toda sua vida de kunoichi, pensou que acabaria tendo algum tipo de convivência prolongada com aquelas pessoas. Não que não tivesse tido surpresas, como quando acabou numa sala de reunião com o Raikage e o mesmo, ríspida e grosseiramente, como ele sempre era, elogiou suas habilidades médicas e a solicitou para ministrar aulas para os ninjas médicos da vila do raio. Ou, então, quando não teve opções senão trabalhar em conjunto com Orochimaru para buscar a cura de uma doença que estava matando milhares de ninjas ao redor do mundo. Uma coisa, no entanto, era estar frente a frente com os vivos, outra era estar olhando os mortos... e mortos não tão mortos assim.
Naquela altura do campeonato já devia estar acostumada; a sensação estranha já devia não ser mais um incômodo. Só que todas as vezes que seus olhos verdes esmeraldas repousavam sobre aqueles indivíduos, algo não clicava dentro de si e ela sentia estranha. Não entendam errado, não que eles fossem feios ou qualquer coisa do tipo, céus, não. Hashirama era bonito, mais do que Sakura havia visto em sua infância nas fotografias. Sua pele meio bronzeada enfeitada com longos cabelos negros; o sorriso natural e sempre presente independente da ocasião. A educação, então, essa era o charme maior. Era possível, pensou a kunoichi de cabelos rosados, que ele a achasse meio idiota, afinal em toda interação e contato entre os dois resultava em Sakura ficando em silêncios alguns segundos até cair na realidade. Obviamente que o primeiro Hokage jamais demonstraria qualquer vestígio desse pensamento sobre ela, ele era educado demais para isso.
E quando olhava para Tobirama, aí é que se sentia mais incomodada. Hashirama era bonito, mas o segundo Hokage era deslumbrante. Não só por sua aparência física: alto, forte, dominância, mas mais pelos traços de personalidade iguais a de um certo Uchiha por quem era apaixonada. Algo em Sakura fazia com que automaticamente ficasse encantada e atraída por pessoas mais sérias, pessoas mais frias, pessoas que visivelmente não abraçaram seu lado emocional ou vulnerável. Talvez fosse só como sua psicologia funcionasse, tendo algo em Tobirama que a lembrasse de algo recalcado. Não conseguia explicar muito bem, a área de saúde mental não era seu forte.
De qualquer forma, estar na presença de lendas, de herois que cresceu ouvindo, era como estar vivendo um sonho. Um bem longo e que ter a consciência de se estar sonhando não significava que o mesmo logo, logo acabaria e ela acordaria. Suspirou fundo. Talvez fundo demais, o que levou Tobirama, sentado logo ao seu lado, a cutucá-la de leve sob a mesa.
- Haruno, tudo bem? – mesmo não se virando para fazer a pergunta, e mesmo sua voz sendo extremamente fria e calma, Sakura sabia que a pergunta era sincera. Ele estava preocupado.
- Ah, sim. Apenas um pouco enjoada. – Sakura respondeu como se fosse nada, mas a verdade é que esse desconforto, que era potencializado pela presença dos Hokages-que-ainda-não-eram-Hokages, havia começado desde que se sentaram na mesa de jantar e foram servidos os drinks de entrada.
Sakura não entendia muito bem do surgimento desse jantar entre os clãs Senju e Uchiha, mesmo que Hashirama, em toda sua paciência e didática, explicasse que era um encontro necessário para fazer a manutenção da paz entre eles. Só que na cabeça da Haruno, pelo menos do que se lembrava da história do surgimento de Konoha, não haviam jantares e coisas do tipo que eram realizados entre os clãs para manter a paz. Inevitavelmente sua cabeça começava a passar por mil pensamentos. Estaria ela interferindo no fluxo correto das coisas? A ideia de foder a história de sua vila e acabar com o futuro em sua totalidade, nas coisas boas e ruins, a deixava ainda mais irritada. Não queria ter nas mãos a responsabilidade de foder com tudo. E talvez até com sua própria existência. Afinal, se algo desse errado e Konoha deixasse de ser fundada, isso significaria que ela mesmo não existiria.
Sabendo que não tinha autoridade alguma para se colocar contra esse jantar, restou a ela apenas acenar e aceitar o convite feito pelos irmãos Senju para que ela participasse. Sua presença parecia uma honra para eles, que desde o surgimento de Sakura ficaram encantados – e espantados – com seus conhecimentos médicos. Ela não sabia quando exatamente, mas a informação de que havia uma mulher de cabelos rosas que era capaz de curar praticamente qualquer problema de saúde se espalhou rapidamente pela região. E o fato de estar ligada a Hashirama e Tobirama de alguma forma aumentou, também, a popularidade dos irmãos e atraiu novos clãs querendo aliança com os Senjus. Yamanakas, Naras, Akimichis, até mesmo Hyuugas e agora os Uchihas. Todos queriam fazer parte da aliança. Isso era bom, mas ao mesmo tempo, porque significava que Sakura estava tendo muito mais relevância do que deveria.
- Se quiser, posso acompanhá-la para tomar um ar fresco. – Tobirama ofereceu, quebrando Sakura de seu transe obsessivo.
- Hm? Oh, não! Não se preocupe, Tobirama! Seria errado da minha parte tirá-lo dessa ocasião. Os Uchihas podem não gostar. – Sakura tentou ser o mais firme possível em sua recusa.
Tobirama era frio, cara de pedra, às vezes ríspido, mas tal qual o irmão era um poço de gentileza (disfarçada). Se por acaso passasse a imagem de que havia algo realmente errado, Sakura sabia que o grisalho faria de tudo para ajudá-la e ela sabia bem que não era o momento adequado para ser ajudada.
Tanto que quando o mesmo ergueu discretamente uma das sobrancelhas, confuso, Sakura sabia que precisava fazer algo. Num movimento suave, a kunoichi pegou sua taça e tomou mais um pouco do vinho, levantando-se logo em seguida. Seu levantar chamou a atenção dos Senjus e Uchihas da mesa, ao que Sakura prontamente informou:
- Com licença, Senhores, preciso me ausentar por um instante. – e se curvou, em respeito.
Antes de se retirar do cômodo, seus olhos encontraram os de Tobirama e ela sorriu simpaticamente, tranquilizando-o. Ele apenas acenou positivamente e voltou para sua tortura, que era estar não só dividindo mesa com Uchihas como sendo obrigado a conversar com os mesmos.
Sakura andou pelo longo corredor que a levaria para fora, mas sentindo que realmente havia algo estranho. Seu enjoo estava um pouco mais forte e sentiu um leve tremor afetar seu corpo todo. Com um pouco de dificuldade, apoiou uma das mãos na parede e parou um pouco para tentar respirar melhor.
- Será que foi algo no vinho? A bebida dessa época é realmente diferente, mas não o suficiente pra me deixar assim... – disse para si mesma voltando o passo.
A cada movimento que seus pés faziam, a Haruno ia sentindo novos sintomas. O corpo começou a esquentar, a vista começou a embaçar de forma intermitente, a respiração ficando mais e mais pesada, uma dificuldade para pensar com clareza. Levou mais alguns segundos até finalmente conseguir chegar na área externa e se sentar numa pedra qualquer. Não era exatamente o lugar mais confortável para se sentar quando se está passando mal, mas naquele momento qualquer coisa servia.
Passados alguns segundos e nenhuma melhora no que sentia, mesmo com a brisa fresca massageando sua face, Sakura conseguiu concluir o que estava acontecendo: havia sido envenenada. Sua experiência médica era longa o suficiente para saber diferenciar um mal-estar dum envenenamento. Inferno! Confusa, ela tentou pensar qual seria o real cenário. Haviam todos sido envenenados? Provavelmente não. Mesmo não estando em seu normal, suas habilidades de observação nunca haviam entrado em pausa, logo ela poderia ter certeza que ninguém mais na mesa havia apresentado algum sinal de desconforto. Então havia sido somente ela. Ok, isso eliminava um problema maior.
Sua mente continuou trabalhando, elaborando mil coisas, quando foi interrompida pela chegada de um servo. Um garoto que aparentava ter seus 15 ou 16 anos, com uma voz mais grossa que denunciava ser alguém muito mais velho.
- Senhorita Haruno. Tudo bem? Precisa de alguma coisa?
- Não precisa. Só preciso de um ar fresco e já retorno. Obrigada! – Sakura respondeu um pouco ofegante.
- Fique tranquila, tome seu tempo. Já avisei aos senhores da mesa que você me pediu para avisá-los que havia decidido ir para seus aposentos. Assim, quando voltar, você pode só dizer que mudou de ideia.
A kunoichi pensou em responder alguma coisa, mas limitou-se a apenas sorrir, agradecendo. Seu corpo parecia piorar a cada instante e ela estava tentando seu melhor para se manter consciente. Sua visão começou a ficar levemente borrada, alternando o borrão com momentos de nitidez. Precisava fazer algo urgentemente. Se desmaiasse ali e a informação chegasse à mesa, pensariam que havia sido alguma tática dos Uchihas e isso poderia por em xeque a aliança. E uma quebra da aliança entre os Senjus e Uchihas poderia ser fatal para o futuro.
- "Merda." – pensou consigo mesma.
Num desses lapsos de nitidez visual, conseguiu perceber que o servo foi se aproximando. Num primeiro momento pensou que ele tentaria ajudá-la a se levantar, mas quando uma lâmina afiada desceu de sua manga e parou entre seus dedos, tudo fez sentido. Era ele o responsável. Momentos antes, ele havia servido o vinho para todos os presentes, então fazia sentido ele também avisar à mesa que ela havia ido embora. Dessa forma, ele poderia eliminá-la e ninguém suspeitaria de nada. Inferno, inferno, inferno!
Quando próximo o suficiente, o garoto tentou atingi-la direto no pescoço. Rápido, prático, fácil, essa era a morte que ele tinha em mente para a rosada. Mesmo envenenada, porém, e com todo seu corpo comprometido, Sakura ainda era uma kunoichi, uma extremamente habilidosa diga-se de passagem. Seus reflexos não dependiam tanto assim da consciência. Seu corpo, então, de forma automática desviou para trás. Talvez não de uma forma habilidosa, muito pelo contrário, totalmente desengonçado. Tanto que caiu da pedra e foi direto pro chão.
A esquiva fez o servo sorrir sarcasticamente.
- Hum, então você não quer morrer fácil.
Sakura não respondeu, apenas com o maior esforço do mundo conseguiu se colocar de pé e tentou se manter firme na medida do possível. Não estava sendo uma tarefa fácil, mas pro inferno aquele garoto se ele acharia que ela iria apenas aceitar morrer rápido assim.
O servo então partiu para o ataque, desferindo uma sequência de golpes. Eles não eram rápidos, muito menos potentes, o que fazia sentido de alguma forma: se sua especialidade era veneno, combates corpo-a-corpo não deviam ser exatamente seu forte. Só que numa luta contra alguém envenenado e bastante debilitado, isso com certeza te coloca numa vantagem absurda. Mesmo que seu nível de taijutsu estivesse no nível de alguém intermediário, no máximo, para Sakura a sensação era de estar lutando contra um especialista.
Sua percepção estava começando a se alterar, os movimentos pareciam estar indo para câmera lenta. E ainda que conseguisse tirar pontos vitais da mira dos ataques laminados, alguns cortes foram feitos em seu corpo.
- D-droga!
- Devo admitir, não esperava que fosse tentar reagir. Você é uma mulher corajosa, mas não é nenhuma ninja. Aceite sua morte!
Num movimento desonesto, fingindo tentar acertá-la nos braços, o servo passou uma rasteira em Sakura e a derrubou no mesmo instante. Sem dificuldade alguma. No chão, a Haruno percebeu que não havia mais como se levantar. Havia perdido para alguém com habilidades básicas e patéticas, mas que havia vencido pelo elemento surpresa. Humilhante. Segundos, no entanto, se passaram e nada de o tal golpe final vir. Na verdade, quando sentiu seu corpo ser tocado, foram por dois braços que tentaram erguê-la. No instinto, ela tentou contra-atacar, mas a voz que ouviu fez com que parasse imediatamente.
- Sakura, para de se mexer.
A voz de Tobirama foi a melhor coisa que poderia ter acontecido naquele momento. Mas... como?
- T-tobirama? O que você tá fazendo aqui? – sua voz saiu meio atrapalhada, mas nada que fosse impossível de compreender.
- O servo demorou para vir repor as bebidas. Olhando para sua taça, meio-vazia, tomei um gole. Nada suficiente para me derrubar, mas o suficiente para saber que era veneno.
- Mas e o jantar?
- Hashirama está cuidando de tudo. – objetivo, como sempre.
Sakura ficou em silêncio. Apenas aproveitou o momento, sentindo os fortes braços de Tobirama carregando seu corpo. Sua cabeça, sem muita força, tombou e apoiou-se em seu peitoral igualmente forte e increvelmente confortável. O cheiro daquele homem adentrou suas narinas e foi bom, muito bom. Ele tinha um cheiro suave, meio doce, desses que você sente numa manhã primaveril. Seria alguma forma distorcida e bizarra de necrofilia se sentir atraída por isso?, pensou ela, afinal ele era um homem morto em sua época. A confusão mental causada pelo veneno estava atingindo novos níveis de loucura.
- Tobirama... ? – ela sussurrou, chamando pelo homem que a carregava.
- Hm? – seus olhos não desviaram do ambiente, afinal a qualquer momento um outro indivíduo poderia surgir para atacá-los, mas Sakura sabia, de alguma forma, que ela tinha a atenção total do grisalho.
- Eu sei lutar, ok? – sua voz soando meio grogue.
O homem pensou em responder, mas era visível o estado de alteração da mulher em seus braços. Por isso, ele apenas limitou-se a bufar, rindo do que havia acabado de ouvir.
- Ok.
Segundos de silêncio.
- Tobirama? – Sakura o chamou de novo, mais grogue.
- Sim? – ele respondeu já com um sorriso tímido no canto da boca.
- Eu teria me virado sozinha, ok?
- Ok...
Mais segundos de silêncio.
- Tobirama... ? – ela o chamou pela terceira vez, ainda mais grogue.
- ... sim? – respondeu, já com um sorriso menos discreto antes mesmo de ouvir o que viria dessa vez.
- Você tem um cheiro bom... cheiro de...
- De... ?
E ela não respondeu mais. Havia finalmente entrando no reino da inconsciência e dos sonhos. Tobirama riu de leve. Algo naquela mulher em seus braços despertava algo em si que ele jamais imaginou que sentiria por alguém; algo naquela mulher passava a sensação de querer construir um futuro melhor; passava a sensação de estar em casa.
Curioso.
- Boa noite, Sakura. – e Tobirama depositou um beijo em sua testa.
