Judy não sabia o que fazer enquanto esperava pela chegada de Nick. Tinha medo das intenções dele em relação a ela. Ela mesma já tinha decidido admitir que talvez tivesse começado a gostar do policial um pouco mais do que só como um amigo. E talvez nessa ideia de ir ao cinema, Nick só estava sendo gentil, se oferecendo para fazê-la se sentir melhor depois de tudo que ela tinha passado, como ele tinha feito desde então. Independente das intenções de Nick, Judy estava conformada em passar um tempo, fazendo uma atividade diferente com um dos seus únicos amigos. Tinha poucos amigos, mas Nick era bom amigo.

Tentou se distrair com o que estava passando na TV, mudou do noticiário, para alguns seriados, sem prestar muita atenção. Só tentava se acalmar e não ficar nervosa quanto ao suposto encontro. Não, não era assim que ela queria ver isso, ela só passaria um tempo com um amigo.

A campainha a despertou do breve devaneio, então se levantou, dando um suspiro, antes de abrir a porta.

-Nick! - a voz de Judy saiu esganiçada por seu nervosismo, o que a deixou meio sem graça.

-Oi, Judy, já está pronta - Nick disse o óbvio como sempre, o que fez Judy sorrir - então, só falta a gente ir...

-Pois é... - ela respondeu, vendo que os dois estavam igualmente sem graça.

Mas por que aquilo tudo se eram amigos? Se viam todos os dias praticamente e sempre conversavam. Ambos decidiram ignorar o constrangimento e apenas andaram em silêncio até o carro. Ao tomarem seus lugares, o ambiente familiar os deixou mais relaxados.

-Então o que quer assistir? - Nick propôs a Judy, sendo um cavalheiro, deixando-a escolher.

-Ah eu pensei que você tinha escolhido, já que você deu a ideia - Judy foi sincera - eu nem sei direito o que está passando agora...

-Eu... Dei uma olhada antes de irmos e... Tem esse chamado Campo de Guerra, eu me interessei por esse,mas se não gostar, podemos ver outra coisa... - disse ele meio hesitante.

-Nick - Judy acabou sorrindo - esqueceu que eu sou uma professora de história? Pelo título, deve ser sobre alguma grande guerra histórica, e eu me interesso por filmes assim.

-Fico feliz que você tenha gostado - o policial sorriu de volta, contente por ter agradado a amiga.

Ficaram mais um tempo em silêncio, até chegarem ao cinema. Enfrentaram uma fila modesta para comprar o ingresso e as pipocas. E então escolheram um bom lugar pra se sentar, apenas ansiosos com o filme, esquecendo-se um pouco da pressão de estarem num encontro. Assim que o filme começou, se atentaram totalmente na história.

Um soldado orc se alista no exército relutantemente, vendo que não tinha outra alternativa, o que ele queria era poder defender a família de perto e não de longe. No entanto, ele encarou se tornar um soldado, sob o comando de um general humano cruel, o que era estranho já que durante certa época o exército dividia suas tropas por raça.
Conforme o filme foi se desenrolando, o orc teve que fazer alianças com soldados de outras raças, já que eles se encontraram encurralados. No fim, todos colocaram suas diferenças de lado e conseguiram vencer seus raptores, fazendo com que o soldado orc voltasse como um herói para casa.

Tanto Judy como Nick tinham suas críticas a fazer ao filme.

-O que achou do filme? - perguntaram os dois ao mesmo tempo, o que os fez rir.

-Fala você primeiro Judy - pediu Nick.

-Está bem, obrigada - ela agradeceu a gentileza dele - achei meio clichê fazerem o humano o vilão, por mais que ainda haja separações não oficiais e seja difícil pra nós, nem todos são assim. Além disso, é um anacronismo um comandante humano numa tropa orc.

-É, eu sei disso, e por mais que ele tenha sido cruel a princípio, você viu que o soldado Hentryz impressionou o comandante no fim das contas, talvez os cineastas fizeram com a intenção de mostrar que orcs são muito mais do que os humanos pensam - contrapôs Nick.

-Não tinha pensado por esse lado Nick, é um bom argumento e uma boa análise - considerou Judy - afinal, o Hentryz realmente voltou pra casa como um herói. E foi essa a impressão que o filme quis passar, mas, parece que não fizeram isso por pura pena do nosso povo.

-Não, não, sei disso, deixei de ser ingênuo sobre essas coisas faz um tempo - confessou o policial.

-Não Nick, ser ingênuo não é sempre sinônimo de ser trouxa, como dizem as crianças... - Judy tentou confortá-lo - você tenta ver o lado bom de tudo, e isso é uma qualidade, só não pode deixar o mal te enganar.

-Não, não deixo, infelizmente eu sei bem o quanto as pessoas podem ser más - ele ainda parecia triste - mas obrigado pelo elogio, isso foi... muito legal você fazer isso.

-Eu disse a verdade - declarou Judy, sem receios, era claro que seus sentimentos por Jakoby guardados até agora estavam transparecendo no momento - você é um grande orc.

-Não, eu não sou tão assim, só tento fazer minha parte - Nick deu de ombros, mas num momento de comoção, fixou seu olhar na srta. Snow.

-E nada fará você desistir de continuar fazendo sua parte - disse Judy baixinho, se aproximando um pouco mais dele.

-Espera, espera por favor, eu... - Nick a interrompeu de repente, a fazendo se assustar por um instante - tem algo que preciso te dizer, e parece que tudo tá conspirando pra que eu diga agora, então, Judy, digo isso com todo respeito, mas eu gosto de você, gosto mesmo, muito mais que uma amiga.

-É verdade? Sério? - a professora começou a perder o fôlego, dando suspiros curtos um atrás do outro - é que... nos últimos dias, eu... tenho pensado muito nisso, e eu acho, que eu, eu tenho os mesmos sentimentos por você.

Houve um entendimento entre ambos, e o beijo que os uniu de vez no momento, foi inevitável.