Capítulo III
As palavras do recém-chegado não foram nem por um segundo levadas a sério, os dois irmãos estavam ocupados demais se perguntando o motivo de Miroku Hiroshi estar em Kyoto, não que fosse alguma surpresa o primo deles surgir inesperadamente onde eles estavam, pois acontecia com mais frequência que eles gostariam, a dúvida que os rondava era porque razão Inutaisho autorizara a vinda dele a cidade, sabiam muito bem que o pai não arriscaria criar qualquer problema que interferisse em sua investigação, e mais um estranho na cidade poderia atrair atenção desnecessária.
Não tinham ideia das intenções de Inutaisho, e provavelmente não chegariam a descobrir sobre elas, algo que não agradava nenhum pouco os dois irmãos, o pai deles era um homem com muitos segredos, e ambos sabiam o quanto perigoso era esconder segredos, também não estavam livres deles, possuíam segredos dos quais Inutaisho nunca ficara sabendo, ou talvez não demonstrasse saber, não tinham certeza se alguma coisa passava despercebida pelo "onipotente" vampiro. Seja como for, em algum momento seu pai terá que revelar suas intenções e finalmente confiar neles, não estão satisfeitos em se manter no escuro, pois não saber o que os espera os torna vulneráveis, e vulnerabilidade nunca fez parte do que são.
- Se continuarem com essas caras, eu vou começar a acreditar que não sou bem vindo. - falou Miroku, cruzando os braços, com uma expressão descontente no rosto.
- Não seja melodramático, - disse Sesshoumaru, num tom entediado. - não é você, é a sua presença aqui. - replicou com naturalidade.
Miroku franziu as sobrancelhas, e piscou repetidas vezes com o olhar voltado pra cima. - Um momento... Estou tentando descobrir a diferença entre mim e minha presença. - disse com um tom levemente ofendido.
Inuyasha rolou os olhos, enquanto sorria da reação do primo. - Ele está querendo dizer, Miroku, que estamos curiosos sobre a razão de estar aqui. - explicou mais detalhadamente.
- Ah, isso não é nada. - disse despreocupado. - Soube que estavam aqui resolvendo questões importantes, e perguntei ao tio se poderia ajudar em algo, ele disse que talvez sim, e me mandou vir imediatamente.
Sesshoumaru e Inuyasha trocaram olhares confusos.
- Ele simplesmente concordou e pronto? - perguntou Sesshoumaru, se negando a acreditar que fora assim tão simples.
- Exato. - respondeu calmo. - Por que pra vocês tudo tem que ser tão complicado? - perguntou tedioso. - Nem sempre há uma razão pra tudo.
Os irmãos se entreolharam novamente, decidindo por fim aceitar a explicação de Miroku, ao menos por hora, eles estavam acostumados demais com situações complicadas pra se darem por convencidos tão facilmente.
- Tudo bem, vamos deixar pra lá. – propôs Inuyasha, em seguida caminhou até Miroku, e o cumprimentou com um aperto de mão firme e um rápido abraço. – Vai ser bom tê-lo por perto.
- Nós três juntos como nos velhos tempos. - relembrou Miroku, num tom nostálgico.
Sesshoumaru franziu o cenho, em dúvida. - Não sei se significa boa coisa. - disse com um sorriso, também cumprimentando o primo da mesma maneira que Inuyasha fizera.
- Você vai amar a universidade. - comentou Inuyasha, maliciosamente.
Os olhos de Sesshoumaru se estreitaram por um breve segundo, deixando transparecer seu incômodo por Inuyasha tocar em tal assunto, mas aconteceu de modo tão rápido que nenhum dos dois chegou a perceber.
Miroku sorriu entusiasmado. - Não me diga que já tem alguém na mira? - perguntou evidentemente interessado.
Inuyasha direcionou seu olhar pra Sesshoumaru, sorrindo. - Mas é... - a resposta ficou perdida no ar, ao ser interrompido por Inutaisho.
- Ele não vai. - anunciou Inutaisho, de forma clara e inflexível. - Não está nos meus planos que esteja lá, Sesshoumaru e Inuyasha já são suficientes na universidade, preciso de você, Miroku, em outro tipo de situação, na qual poderá transitar livremente.
- Tenho a impressão que será mais divertido que a universidade, tio. - falou Miroku, empolgado.
A parte ruim de ter que frequentar uma universidade, é que nem todos os dias acontecem algo interessante, ao contrário, os dias tendem a ser extremamente tediosos, como se o simples fato de fingir ser humano não fosse o suficiente. Esse era um dia desses, nada além de ter que fingir estar prestando atenção na explicação do professor, que a propósito era seu adorável irmão. E de repente bater o lápis na mesa se tornou a coisa mais interessante que fez o dia inteiro, o último período estava chegando ao fim, e nada de diferente surgiu durante todo o dia, Kagome viera à aula e continuava muito quieta e calada, mais que o dia anterior, teve uma rápida conversa com ela no começo da aula, onde ela passou o endereço da festa que iriam, e perguntou se havia problema em levar Sango.
- Não estamos indo a um encontro, então não vejo porque não. - brincou Inuyasha.
Kagome riu. - Você teria alguém pra levar? - perguntou, e então revirou os olhos. - Alguém que não fosse seu irmão? - reformulou a pergunta fazendo Inuyasha rir.
- Coincidentemente, tenho sim. Meu primo acaba de chegar à cidade, e acredito que ele gostará muito de ir.
- Perfeito. - disse sorrindo. – Nos encontramos lá às dez horas, e não se preocupe, somos pontuais.
Inuyasha sorriu. – Somos pacientes.
Depois disso, ela se despediu e só a viu algumas vezes de relance. Desde que entregou a pulseira a ela, se pegou por diversas vezes pensando nela, de um modo geral, pensando em tudo o que sabia e não sabia dela, chegando à conclusão que não tinha absolutamente nada que a tornasse uma suspeita de verdade, havia somente uma desconfiança sem motivo, foi exatamente por isso que não contaram a Inutaisho que suspeitavam dela, ele mesmo não tinha manifestado nenhuma curiosidade por ela, já a família dela havia o atraído, aparentemente porque ele queria manter as aparências, e se tornar próximo à família mais bem sucedida da cidade era a jogada perfeita.
Por via das dúvidas, Sesshoumaru iria seguir Kagome esta noite, porque desaparecimentos noturnos com certeza são suspeitos, porém não havia como ela simplesmente desaparecer do nada sendo seguida logo atrás por um vampiro, a única explicação pra isso é que Jaken é um inútil e conseguiu se distrair enquanto a perseguia, o que não seria surpresa dado a incompetência de outras vezes.
Não estava muito de acordo que seu irmão mais velho fosse em seu lugar, afinal Sesshoumaru dissera para que ele se aproximasse dela, então porque ele resolvera seguir ela quando isso deveria ser sua responsabilidade. Podia estar enganado, mas algo lhe dizia que o irmão possuía outro interesse por Kagome além de uma simples suspeita, e se assim o for, não será nada bom, pois também estava começando a ter um interesse diferente por ela.
E a mesma história não podia se repetir novamente, não com Kagome. Ela não é igual a ela.
Quando Jaken relatou sobre as saídas noturnas de Kagome, Sesshoumaru não imaginava que essas saídas fossem tão tarde da noite. Já passava das onze quando seu subordinado informou que ela deixara o apartamento, desacompanhada como de costume, não era prudente pra uma mulher andar sozinha tão tarde, principalmente fazendo parte de uma família como a dela, era bastante arriscado, e um descuido da parte dela e de sua família, se é que eles sabiam de tais saídas, - o que provavelmente fosse o caso - isso o levava a pensar que talvez eles não se preocupassem com ela tanto assim, ou quem sabe, não precisassem.
Ele a seguia a distância, cuidadosamente. Quando o assunto era perseguição nenhum vampiro lhe superava, podia seguir facilmente seu próprio pai e ele nunca desconfiaria estar sendo seguido, então encobrir sua presença dela seria moleza, basicamente uma brincadeira de criança. Por todo o caminho que esteve atrás dela, Kagome não se virou uma vez sequer, caminhava a passos rápidos, mas não como se estivesse fugindo de alguém, como se estivesse atrasada pra alguma coisa. Estavam numa parte da cidade pouco frequentada, não existia nenhum lugar em especial que ela pudesse ir, por isso não sabia bem o destino dela, o que tornava tudo ainda mais suspeito. Um movimento repentino atrás de Sesshoumaru o fez se virar, ele olhou ao redor a procura de alguém, porém não encontrou ninguém, podia jurar que viu um vulto.
Lembrou-se de Kagome, e se virou apressadamente na direção que ela seguia, não a encontrando mais em lugar algum, piscou confuso, se perguntando como ela poderia ter sumido em tão poucos instantes, pulou de cima do prédio após se certificar novamente que não havia alguém nas ruas. A não ser que ela tivesse um esconderijo secreto, ela não poderia ter ido tão longe, começou a andar, procurando minuciosamente ao redor. Chegando mais a frente, se deparou com um beco sem saída à direita, seguindo reto existia uma rua com fileiras de casas iguais, e a rua à direita levava a rodovia principal. Suspirou cansado, e decidiu verificar primeiro o lugar mais perto, o beco, ele estava bem iluminado mais não tinha sinal de movimentação, até que percebeu uma porta entreaberta no prédio de lado, Sesshoumaru a empurrou devagar, encontrando atrás dela um tipo de vestiário pra funcionários, com armários embutidos em duas das paredes, e bancos com estofados vermelhos no meio, estava distraindo observando o lugar quando alguém percebeu sua presença parada na porta.
- Desculpe senhor, mas essa entrada é apenas pra funcionários, a entrada principal fica lá na frente.
- Peço desculpa. - disse Sesshoumaru, se afastando, o homem sorriu e então trancou a porta.
Não sabia que tipo de lugar era aquele, mas tinha certeza que Kagome estava dentro dele, mas a questão era o que ela estaria fazendo lá, por que percorrer todo aquele caminho a pé quando estava tão tarde, o que teria de tão importante nesse lugar. Decidindo não levantar teorias infundadas, se locomoveu até a parte da frente do prédio, que não possuía nenhuma placa, ou qualquer outra coisa que indicasse ser um estabelecimento, apenas uma simples porta larga.
Por um segundo esqueceu seu propósito ali, que era segui-la, não sabia o que encontraria lá, mas ao entrar estaria possivelmente jogando fora sua perseguição, ela o veria, porém no momento isso não importava pra ele, correria o risco disso acontecer.
Empurrou uma das partes da porta e entrou, uma melodia calma acompanhada de uma voz terna preencheu seus ouvidos, o lugar misterioso se tratava de um bar, todo em um estilo rústico, cerca de dez mesas redondas de madeira estavam espalhadas pelo salão, a parte do bar ficava a direita no fundo, e a esquerda em frente às mesas existia um pequeno palco, com pouca iluminação, talvez na intenção de deixar as pessoas à vontade, já que parecia ser um palco para amadores e não profissionais.
As mesas estavam todas ocupadas, então seguiu para o bar, onde ainda tinha lugares vazios, pediu uma bebida e se sentou, percorrendo os olhos por todo o lugar a procura de Kagome, não deveria ser tão difícil encontra-la no meio daquelas pessoas. Sesshoumaru tomava um gole da bebida quando algo lhe prendeu a atenção, como não pudera se dar conta de algo que estava diante dele, a voz que preenchia todo o ambiente pertencia a Kagome, lá estava ela sentada num banco alto, suas mãos percorrendo as cordas do violão que repousava em seu colo, enquanto sua voz acompanhava a melodia conforme a letra da música.
She wants go to home, but nobody's home
Ela quer ir pra casa, mas não há ninguém em casa.
That's where she lies, broken inside
É aí que ela se encontra, destroçada por dentro.
Então Sesshoumaru se viu prestando atenção naquilo que ela cantava, em como ela parecia estar perdida na música, havia tanto sentimento em cada palavra que ela pronunciava.
With no place to go, no place to go
Sem ter pra onde ir, sem ter pra onde ir.
To dry her eyes, broken inside
Para secar suas lágrimas, destroçada por dentro.
Ela não parecia estar cantando para as pessoas diante dela, parecia estar cantando para si mesma, como se a letra falasse o que ela estava sentindo.
Her feelling, she hides
Os sentimentos, ela esconde.
Her dream, she can't find
Os sonhos, ela não consegue achar.
She's losing her mind
Ela está perdendo a cabeça.
She's falling behind
Ela ficou pra trás.
She can't find her place
Ela não consegue achar seu lugar.
She's losing her fait
Ela está perdendo sua fé.
She's falling from grace
Ela caiu em desgraça.
She's all over the place
Ela está despedaçada!
E talvez estivesse mesmo falando o que ela sentia, ela parecia estar totalmente perdida. Bem mais que isso, a observou, Kagome parecia muito triste, como se tivessem tirado a vida da pessoa mais importante pra ela, e Sesshoumaru tinha plena certeza que essa pessoa não era Myouga, era outra pessoa, ou outra coisa que havia a deixado assim.
Pensando nisso, a última vez que falou com ela foi durante a dança, depois disso Myouga foi morto, e ela fechou-se, e ao invés de conforta-la, ele a provocou, era realmente excelente afastando as pessoas de si. Então decidiu que ela não deveria encontra-lo ali, pelo menos não dessa forma.
O refrão foi repetido mais uma vez e a música chegou ao fim, Kagome ergueu o rosto, e olhou em direção do bar como se tivesse visto algo diferente, mas não havia nada nem ninguém estranho, com certeza estava sendo paranoica, agradeceu os aplausos e deixou o palco, entregando o instrumento musical a um dos funcionários do local, se dirigiu ao bar e pediu algo forte pra beber, precisava urgentemente colocar a cabeça no lugar, de um jeito ou de outro, não podia ficar lamentando o que aconteceu para sempre, precisava tomar uma atitude, e teria que ser rápido, quanto mais tempo perdesse mais difícil se tornaria.
Depois de ingerir um número indeterminado de bebidas, Kagome saiu do bar, já passava da meia noite, e ela sabia pela quantidade de ligações de Sango em seu celular que a amiga estava surtando. Mandou uma breve mensagem dizendo que estava bem, e que logo estaria em casa.
A noite parecia estar mais fria, e as ruas mais vazias e silenciosas que antes, caminhava a passos lentos, suas mãos enterradas nos bolsos a procura de calor, apesar de ter bebido bastante não estava nem de perto bêbada, antes estivesse. Kagome suspirou lentamente, e observou o céu coberto por nuvens densas, tinha que se apressar e chegar o quanto antes em casa, mas não queria fazer isso.
Normalmente quando andava sozinha tão tarde, raramente encontrava alguém, no entanto, dessa vez havia alguém, a pessoa estava parada a alguns metros à frente, e não existia nenhuma parada de ônibus ou táxi, o que a tornava um tanto quanto suspeita, pois ela parecia estar a esperando, mas isso não a assustara, na realidade despertara sua curiosidade e coragem. Continuou andando, só que mais rápido, e quando estava a uns cinco passos da pessoa, ela parou de imediato, sua expressão era de puro espanto, de todas as pessoas no mundo a única que não esperava encontrar no meio da noite, era ele, por um instante se perguntou se não estava realmente bêbada e tendo alucinações, mas ele continuava lá parado, a olhando de modo inexpressivo.
- Sesshoumaru, - disse ela, num tom cansado. – se tiver algo a me dizer sugiro que o faça, caso contrário estou indo embora.
- Eu não estaria mais aqui se não tivesse. – disse ele, dando um passo à frente.
Kagome o analisou por alguns instantes. – Deve ser importante pra me procurar tão tarde assim. – comentou com uma leve desconfiança.
- Nosso encontro não passa de uma simples casualidade. - a expressão dele continuava imutável. – Mas isso não vem ao caso, assim como a razão de estar perambulando a esta hora.
Ela sorriu satisfeita. – Vamos esquecer os detalhes sórdidos do nosso encontro, e ir ao que interessa.
- Muito bem, - Sesshoumaru abriu um pequeno sorriso. – quero lhe dizer que o sentimento é recíproco.
Kagome riu. – Na verdade não precisava dizer que não gosta de mim, eu sei bem disso.
- Não estou falando de não gostar de você. – retrucou calmo.
Ela ficou em silêncio absorvendo o significado das palavras dele. – Uau! Confesso que agora sim conseguiu me deixar chocada, não esperava que admitisse ter gostado do beijo.
- Nem mesmo eu. – disse ele. – Mas o que eu disse antes ainda prevalece, não sou alguém com quem possa brincar. – alertou.
Kagome o encarou penetrantemente. – Eu também não sou. – avisou. – Não estava brincando com você, eu tinha outros planos em mente quando te beijei, queria fazer com que fosse expulso. – falou sem demonstrar o mínimo de arrependimento.
Ele sorriu mostrando não estar impressionado com isso. – Claro que queria. – riu. – Mas por que desistiu disso?
- Eu não ganharia nada com isso, - suspirou. - estaria apenas perdendo meu tempo... E já perdi tempo demais.
Sesshoumaru estreitou os olhos, confuso sobre o que ela estava se referindo. - Com o que perdeu tempo?
Os olhos dela se arregalaram por um breve momento ao perceber que tinha deixado escapar algo que não devia, estava sendo descuidada, e isso não era bom pra ela.
- Está se referindo a universidade? - questionou ele, de modo insistente.
- Sim, a o que mais eu poderia estar me referindo? – perguntou rolando os olhos.
- Não sei, por que não me diz você.
Kagome o olhou em silêncio, pensando se talvez devesse falar o que tanto a atormentava por dentro. Ele a encarava de volta, esperando novamente que ela falasse alguma coisa, mas ela apenas baixou o olhar e suspirou.
- Sango está me esperando, ela deve estar preocupada com minha demora. – disse tentando seguir adiante, porém Sesshoumaru se colocou a frente dela impedindo que ela prosseguisse. – Sesshoumaru, eu realmente preciso ir, então peço que saia da minha frente. – pediu de modo impaciente.
Ele avançou mais um passo, tornando a distância entre eles menor. - Por que está tentando fugir de mim? – perguntou extremamente sério e talvez um pouco irritado.
Kagome riu sem humor. – Não estou tentando fugir de você, - falou num tom melancólico, e o encarou. – estou fugindo de mim.
Era impressionante como as palavras dela sempre o deixavam confuso, mas principalmente intrigado, como se houvesse um enigma por trás delas, porém não deveria ficar surpreso com isso, porque ela é em si um completo mistério, depois do que viu no bar, soube então que ela não é somente o que aparenta ser, há mais, muito mais por trás de toda a fachada construída por ela.
Novamente cometeu o erro de fixar seus olhos aos dela, eles estavam tão brilhantes como da última vez, porém dessa vez o que via neles era tristeza, e ainda assim não conseguia parar de olhá-la, porque ela parecia estar tão frágil e desprotegida, que foi inevitável não sucumbir ao desejo de tocá-la, não conseguia entender o que estava fazendo nem porque, apenas se deixou levar pela força que o atraia para ela, moveu a mão direita em direção ao rosto dela e o segurou delicadamente, sem nunca deixar de encará-la.
O toque dele a surpreendeu, no entanto ela não conseguiu o afastar, era totalmente impossível o fazer, a forma como ele a olhava fez com que esquecesse que não deveria mais se envolver com ele, que isso a distrairia do que importava, e então as palavras dele fizeram sua expressão se suavizar.
- Nunca fuja de si mesma. – falou num tom baixo e sedutor.
Por um momento eles se esqueceram de tudo, perdidos na intensidade de seus olhares, e também de seus desejos, em questão de instantes suas bocas se uniram, movendo-se lentamente, tentando assim prolongar por mais tempo o contato entre eles, pois quando ele terminasse não existiria mais nada, ambos sabiam disso porque escolheram ser dessa maneira, por mais que quisessem não se envolveriam, eles não podiam, porque a vida que possuíam não permitia esse tipo de envolvimento, mesmo um tão superficial como esse seria.
O beijo foi rompido, e novamente eles se fitavam, mas diferente de segundos atrás seus olhares não transmitiam nada, apenas indiferença ao que acabara de acontecer.
Kagome deu um passo pra trás, se afastando de Sesshoumaru. - O que temos nada mais é que atração física, algo carnal apenas, - falou despreocupadamente, e apertou os lábios. - uma coisa passageira, que logo será esquecida. - garantiu.
Ele sorriu de modo irônico. - Estou certo que sim. - concordou.
- Nos vemos amanhã, professor. - falou voltando à formalidade, e com um breve aceno de cabeça despediu-se, ela passou ao lado dele e seguiu adiante, ficando a cada passo mais longe de onde Sesshoumaru continuava parado.
Ele ouviu atentamente cada passo dela, e quando se certificou que ela já estava suficientemente longe, virou o corpo naquela direção, conseguindo ainda vislumbra-la, ele a observou desaparecer completamente, amaldiçoando cada parte do seu corpo que teimava em deseja-la, nesse momento seu sangue.
O cheiro dela se perdeu em meio ao cheiro da chuva, que começou a cair rapidamente, molhando-o completamente, a chuva provavelmente a alcançou antes que ela chegasse em casa, mas isso não era seu problema, seu trabalho ali havia terminado, e novamente não descobriu nada que a ligasse aos vampiros, nem a caçadores.
Faltando poucas horas para o amanhecer, a informação que três vampiros foram encontrados mortos chegou à mansão Taisho, e como sempre ninguém presenciou nada. Após reunir os dois filhos e o sobrinho, Inutaisho seguiu com eles para o local, queria mostrar para os três exatamente o que estava acontecendo, que tipo de fim os vampiros estavam tendo.
Os corpos foram achados no terraço de uma fábrica horas depois do crime, dois deles se encontravam um do lado do outro, os pescoços foram quebrados e seus corações arrancados do peito, o terceiro corpo estava caído há alguns metros deles, e o destino dele foi ainda pior que o dos outros, teve o coração e a cabeça arrancados do corpo, esse provavelmente ainda tentou fugir, mas não foi rápido o suficiente. Todos os três eram vampiros criados - humanos transformados -, portanto fracos, qualquer um conseguiria os matar facilmente, caçadores de vampiros e principalmente outros vampiros.
- Isso parece obra de um vampiro. – comentou Sesshoumaru, observando os corpos com muita atenção.
- Também chegamos a essa conclusão, - falou Inutaisho, franzindo um pouco as sobrancelhas. - mas acontece que os caçadores também passaram a matar vampiros dessa forma, assim...
- Eles permanecem ocultos. - concluiu Miroku, cruzando os braços. - É algo muito esperto de se fazer, desse jeito não há como saber de suas existências.
- Parece que foi essa a maneira que eles encontraram pra sobreviver. - disse Inuyasha, com um dar de ombros. - Não é de se admirar já que é bastante perigoso ser um caçador nos tempos atuais.
- Mas isso não significa que não seja um vampiro. - retrucou Sesshoumaru.
- Verdade, não significa. - concordou Inutaisho. - Mas o problema é não conseguir identificar quem está por trás disso.
- Que diferença faz ser caçador ou vampiro? - questionou Inuyasha, girando os olhos. – Um inimigo será sempre um inimigo.
Inutaisho olhou pra Inuyasha seriamente, o fazendo recuar diante seu olhar. - Um caçador é bastante perigoso para nós, nunca duvide disso, mas um vampiro é ainda mais, pois só existem dois motivos pra um vampiro se rebelar contra os seus, ou ele está querendo poder ou então... Vingança.
- Pelo que me consta nenhuma dessas opções são boas. - disse Miroku, franzindo o cenho.
- Não são. - disse Inutaisho.
- O que o senhor pensa fazer a respeito? - perguntou Inuyasha, inquieto.
- Por enquanto o que podemos fazer é observar e reunir informações pra encontrar o responsável por tudo. - respondeu Inutaisho.
- E o que será feito dele quando o encontrarmos? - questionou Miroku.
- Ele terá o fim que merece, - respondeu Inutaisho, sem muita emoção. - um bem pior que o desses três infelizes.
Sesshoumaru caminhou até a borda do terraço, e olhou adiante de maneira distraída, o local que os corpos foram encontrados ficava próximo de onde esteve com Kagome, e foi por volta dessa mesma hora que eles foram mortos, pouco tempo depois de vê-la sumir, era impossível que isso fosse só mero acaso, acreditar nisso seria como fechar os olhos diante as suspeitas que tem contra ela, se tivesse razão sobre ela, a teoria de seu pai faria todo sentido, uma caçadora utilizando os métodos de vampiros, e seria tudo tão simples de resolver se não fosse um pormenor, algo que considerou insignificante no momento, mas que agora tinha uma grande importância. Quando seguia Kagome teve a impressão de ter visto um vulto, um movimento tão rápido que nem conseguiu enxergar bem, cometeu o erro de ignorar tal acontecido por estar focado na perseguição, se não tivesse feito isso já teria as respostas que procurava, e também saberia quem estava sendo seguido: Ele ou Kagome.
Não existe nada mais agradável que despertar com o maravilhoso cheiro de comida sendo preparada, só algo assim pra fazê-la abandonar sua cama quente e macia, principalmente depois de ter ido dormir tão tarde, essa situação inusitada cheirava a suborno, sabia perfeitamente que era um truque para fazê-la esquecer da noite passada, mas não se deixaria ser manipulada tão facilmente, não dessa vez. Sango foi conduzida até a cozinha pelo delicioso aroma de café e outros mais, ao chegar se deparou com uma Kagome ocupada, realizando diversas tarefas de uma vez, achava incrível como a amiga conseguia cuidar se tudo com tamanha calma e facilidade, se fosse ela ali a cozinha já estaria em chamas, sentou-se em frente à bancada de mármore a cumprimentando com um preguiçoso bom dia, Kagome parou por um instante o que fazia e a cumprimentou de forma alegre, fazendo com que Sango erguesse uma sobrancelha, não era comum vê-la assim, ainda mais depois do que aconteceu.
- A que se deve esse tão bom humor? - perguntou Sango, maliciosamente, apoiando a cabeça na mão direita.
Kagome riu de leve, enquanto pegava duas canecas no armário. - Por que acha que se deve a alguma coisa?
- Você não fica bem humorada à toa, essa sou eu. - respondeu com um dar de ombros.
- Tem razão, não fico. - concordou rindo, ela desligou o fogo do fogão, e começou a arrumar a comida nos pratos.
- Então, quem morreu pra estar feliz? - perguntou rindo.
Kagome lançou a ela um olhar mortal. - Não seja estraga prazeres! - disse depositando os pratos na bancada, e seguiu até a cafeteira para buscar o café e as canecas que deixou lá. - Mudando de assunto, já sabe o que vai vestir amanhã à noite?
Sango franziu as sobrancelhas. - Amanhã? O que tem amanhã? - perguntou confusa.
- Esqueceu que vamos sair com Inuyasha e o primo dele? - Kagome sentou-se ao lado de Sango na bancada, e se serviu de café.
- Aah! Agora compreendo tudo. - disse maliciosa, enquanto pegava uma torrada do prato.
- Está insinuando alguma coisa por acaso? - questionou erguendo as sobrancelhas, observando a amiga mastigar a torrada.
- Não estou insinuando nada. - garantiu inocentemente. - Mas se estivesse, - falou calmamente, comendo mais um pedaço de torrada antes de continuar. - apostaria que sua felicidade repentina tem a ver com esse Inuyasha.
Kagome girou os olhos. - De onde vem essas ideias sem sentido? - perguntou entediada, e bebeu um gole de café.
- Me enganei? Pensei que tivesse rolando algo entre vocês. - explicou atordoada. - Um clima pelo menos?
- Não, nada. – respondeu a olhando seriamente. - É apenas uma forma de agradecer a ele por devolver minha pulseira, nada demais.
- É uma pena, ele parece alguém legal sabe, acredito que você seria bem feliz com ele.
Kagome riu. - Ah, Sango, ainda tem muito que aprender sobre mim.
- É o que parece, - disse suspirando. - mas que é um desperdício é.
Ela sorriu, divertida. - Se apresse ou vamos chegar atrasadas.
- Na sexta ninguém chega no horário, é tipo uma lei, portanto vou comer tranquilamente se não se importa.
- Quem sou eu pra discordar. – falou rolando os olhos, enquanto se ocupava de comer sua própria refeição.
- E vamos ao Shopping amanhã, pois precisamos escolher uma roupa pra seduzir Inuyasha. – anunciou empolgada.
- Eu não vou...
- Você não vai, mas eu vou! – retrucou sorridente.
Kagome sorriu. – Isso vai ser divertido.
Talvez ele tenha sido enganado. Pelo menos ele sentia-se enganado, a ideia de vir a Kyoto pareceu tão tentadora, quase irrecusável, afinal não tinha nada melhor para fazer, melhor dizendo: estava totalmente entediado. Então se juntar aos seus primos pareceu perfeito, ainda mais quando o assunto parecia ser tão importante, e pelo o que viu essa manhã de fato era sim, algo totalmente intrigante, exatamente o tipo de coisa que costumava despertar seu interesse, um mal de família talvez.
Mas no presente momento a situação não parecia ser tão atraente assim, muito menos importar alguma coisa, agora a Universidade parece bem mais atraente, diferente do almoço que teve que participar junto com o seu tio, não compreendia porque Inutaisho empenhava-se tanto em criar uma imagem perante os humanos, era um pouco cansativo e tedioso isso, mas embora não chegasse a entender, sabia que ele possuía intenções por trás de toda aquela fachada. Nenhum vampiro em toda a história teve força ou inteligência o suficiente para vencê-lo.
Miroku soltou um longo e pesado suspiro. - É bom que meus esforços valam a pena tio.
N/A:
Olá! Segue a continuação dessa fic que tenho muita vontade de concluir, porque existem muitas ideias para ela, muitos mistérios a serem revelados e tudo mais.
Espero que os leitores que acompanhavam voltem para ler, e novos apareçam também é claro :)
Digam o que acharam, estão gostando da história?
Beijos, até o próximo capítulo. (que está sendo produzido já)
P.s: a música que a Kagome canta é Nobody's home da Avril Lavigne.
Bye Kagmarcia ;*
