Capítulo 20 - Confissão
Desde a hora que despertei do meu possível "coma" e de Tsunade ter me alertado que eu iria para a escola no outro dia, e de quebra Sasuke ter comunicado que irei conhecer os pais nesse mesmo dia, eu já tinha consciência de que aquele dia seria cheio. Ainda estava anestesiada com as regras dos pais de Sasuke para pensar que aquele dia pudesse ser fechado com chave de ouro. Hinata, grávida? E o pior, do Naruto? O garoto que ela menosprezava e fugia? Eu tentava formar uma lógica para tudo aquilo, mas parecia que nada se encaixava.
Os meus problemas de repente não pareciam tão interessantes como os de Hinata. Eu estava atônita. A sua última frase ecoava na minha cabeça e eu não conseguia reagir, o choque era visível no meu rosto. Abri minha boca várias vezes, mas não consegui formular uma única palavra, nada vinha a minha mente para poder confortá-la. Eu havia ficado assustada, talvez mais assustada quanto ela.
E Hinata havia percebido minha reação incrédula e logo tratou de vestir sua máscara, crispando os lábios, o cenho franzido.
- Sabia que era uma péssima ideia, ninguém pode me ajudar. – Ela havia cuspido aquelas palavras, começando a se afastar de mim.
E isso foi como um tapa para eu poder reagir, segurando seu braço e a impedindo de se afastar. Eu havia agido como uma idiota, e me odiei por isso.
- Me desculpe. – Disse, me sentindo péssima por minha reação. – É que... é que nunca imaginei... me... desculpe...
Minha frase saiu toda cortada, eu estava nervosa tentando consertar o meu erro.
- Eu disse que ninguém podia me ajudar.
- Não fale assim, nós vamos dar um jeito...
Eu havia sido interrompida por um raio cortando o céu acima de nossas cabeças. Eu dei um pulo para trás, e Hinata se encolheu fechando os olhos com o susto que levamos.
- Vamos para minha casa, a tempestade está ficando violenta. – Eu disse, e segurei a mão dela e a puxei, começando a correr.
Hinata não contestou, apenas me seguiu correndo por aquelas ruas molhadas. A minha casa não estava tão longe, levamos apenas cinco minutos correndo quando avistei minha rua.
A casa estava escura quando entrei, Tsunade não havia chegado ainda. Retiramos a roupa ensopada e os sapatos ali na sala perto da porta mesmo. O chão estava todo molhado, depois limparia.
Subimos para o meu quarto, liguei a luz e fui direto para o guarda-roupas. Peguei duas mudas de roupas, uma para mim e outra para Hinata.
- Aqui – estiquei a roupa para ela. – O banheiro é ali na frente. Tome um banho primeiro para não resfriar, depois eu vou.
Hinata apenas assentiu com a cabeça, agarrando a roupa limpa e a toalha e saiu do quarto em seguida. Tirei a blusa ficando só de sutiã, agarrei o resto das minhas roupas molhadas e saí do quarto. O telefone tocava na sala. Desci as escadas com cuidado, pois ela estava molhada e peguei o telefone.
- Alô?
- Sakura? – Era a voz da Tsunade.
- Vó?
- Que bom que está em casa.
- Acabei de chegar, está chovendo muito.
- Aqui também. A pista está fechada por conta do alagamento, e por isso chegarei um pouco tarde em casa. Estou no trabalho ainda e irei esperar abrir a pista para poder ir para casa.
- Nossa – disse, segurando meu cabelo para o lado por conta dele está pingando muito. – Tenha cuidado quando vir para casa. Irei fazer o jantar.
- Não se preocupe. E obrigada por fazer o jantar, mais tarde estou aí.
- Sim.
Desliguei o telefone e fui levar a roupa molhada a lavanderia. Peguei o pano de chão e voltei para sala, secando o molhadeiro que tínhamos feito. Subi as escadas, secando-as também. Assim que entrei no quarto, Hinata já estava lá, vestida com um dos meus moletons. Ela secava os cabelos com a toalha.
- Aonde coloco a roupa molhada? – Ela perguntou quando me viu entrar no quarto secando todo o chão.
- Na lavanderia lá em baixo, depois da cozinha. – Respondi, deixando o pano de chão de lado e pegando minhas roupas secas e a toalha. – Só tome cuidado com o chão que está pouco úmido.
Ela assentiu saindo do quarto, levando as roupas molhadas lá para baixo. Entrei no banheiro e terminei de tirar o resto das roupas molhadas e tomei um banho quente, retirando um pouco do frio e a tensão que sentia no corpo por aquele dia super cheio de surpresas.
Saí do banheiro vestida com meu moletom, e entrei no quarto. Sequei meus cabelos com a toalha e os penteei, deixando-os soltos. Meu celular vibrou dentro da minha bolsa que estava jogada no chão, ao lado da mochila da Hinata. Peguei o celular, era uma ligação de Sasuke.
- Aonde você está?
A sua voz soou do outro lado, havia um tom de preocupação.
- Estou em casa, sã e salva.
- Ainda bem – e suspirou. – Está chovendo muito, eu tive que voltar para a vila com Naruto. Desculpe por não a levar para casa.
- Não se preocupe. Eu estou bem, sei me cuidar. Esqueceu que sou uma bruxa?!
- Uma bruxa linda. – Sua voz agora saiu galante.
Sorri, entrando na sua brincadeira.
- Está flertando comigo, Lycan?
Escutei ele soltar uma risadinha abafada.
- Sempre quando tiver oportunidade.
Mordi o lábio, reprimindo um sorriso enquanto fitava a chuva que molhava o vidro da minha janela.
- Eu te amo. – Confessei baixinho, sentindo meu coração ficar quente com a sensação de conforto por sentir sua voz soar em meu ouvido.
- Eu te amo. – Ele respondeu, no mesmo tom de voz que eu disse, totalmente romântico. – Mais tarde passo aí, quando a chuva acessar.
E foi aí que na sua última frase, algo acendeu em minha memória, me trazendo novamente ao mundo real. Sasuke tinha o poder me de tirar de órbita, me fazendo esquecer dos problemas alheios.
- Não venha. – Disse rápido. – Hinata está aqui comigo.
- Hm.
- Eu vou ter que desligar, amanhã nos falamos.
- Me trocando novamente por essa Hinata.
- Deixa de ser dramático. – Minha voz saiu risonha. – Ela precisa de mim.
- Eu também preciso de você.
- Ela precisa mais. E vou desligar agora.
- Tá legal, mas quero ser recompensado amanhã.
- Você não acha que está muito mimado não?
Ouvi ele sorri.
- Sou egoísta o bastante para ter que dividir você.
- Uau. – Sorri. - Amanhã nós resolvemos isso, agora vou desligar. Tchau.
- Tchau, e boa noite.
- Boa noite.
Suspirei apaixonada jogando meu celular na cama, rindo comigo mesma com o drama carente de Sasuke. Saí do quarto com o resto das roupas molhadas e desci as escadas. Hinata estava de pé na sala fitando o temporal pela janela que caía lá fora.
- Fazia tempo que não chovia tão forte em Konoha. – Ela comentou quando percebeu que me aproximava.
- Eu percebi. A minha vó ligou e disse que chegará tarde hoje por conta do alagamento.
Fui até a área de serviço, peguei toda a roupa molhada minha e de Hinata e jogue dentro da máquina de lavar. E depois de programá-la eu deixei que ela fizesse o seu serviço.
- Você quer comer alguma coisa? – Perguntei quando voltei para sala, a encontrando no mesmo local, parecia perdida em pensamentos.
- Não – ela respondeu, virando-se para mim. – Você está fazendo muito por mim em me abrigar. Prometo que quando a chuva acessar eu vou embora.
- Não se preocupe com isso. Pode ficar aqui o tempo que precisar.
- Eu não entendo do porque você está sendo tão legal comigo mesmo depois de ter sido horrível com você.
- As indiferenças do passado não importam agora. Eu disse que iria te ajudar, e sempre cumpro minhas promessas.
Hinata não disse mais nada e se afastou da janela, sentando-se no sofá. Eu sentei no outro sofá, retomando a conversa que tínhamos na rua:
- Naquela hora quando você disse que estava grávida, eu fiquei surpresa e procurando uma lógica para aquilo... tipo, você e o Naruto... vocês não se davam bem.
Hinata suspirou, parecia cansada de carregar todo aquele peso sozinha.
- É esse lance de marcados que eles têm. – Ela me fitou. - Você sabe tão bem quanto eu.
E como eu sabia. Mas também tinha consciência que a distância era dolorosa para um Lycan e sua companheira de marcação. E eu estava curiosa para saber como que Hinata fez para conseguir ficar longe de Naruto e o seu poder atração.
- É uma situação que não se pode fugir por muito tempo. – Ela continuou. – E odeio isso. Odeio sentir esse sentimento de atração por aquele licantropo. Eu odeio aquela raça. E agora estou esperando um filho de um deles. Isso é uma maldição.
- Eu não entendo. Por que sente tanto ódio dos licantropos?
Os olhos de Hinata ficaram fervorosos de raiva e suas palavras saíram como tiros de magoas e sofrimento.
- Por que a minha mãe foi morta nas mãos de um licantropo.
Meus olhos arregalaram surpresos. Agora as coisas começavam a se encaixar.
- Eu sinto muito. – Murmurei.
- A minha família tem o dom de clarividência e rastreamento, éramos bem famosos no coven polonês. Principalmente minha mãe. Ela era uma das melhores bruxas rastreadoras, e sua fama traziam pessoas que sabiam de seu dom contratar seus serviços. Quando minha irmã mais nova nasceu, a sua saúde ficou desestabilizada e com o tempo foi piorando. Eu era muito pequena para perceber o que acontecia com ela. Para mim ela estava sempre maravilhosa, normal enquanto me ensinava a controlar meus dons.
Ela deu uma pausa.
- Um dia quando caminhávamos nos jardins de nossa casa, um homem apareceu. Lembro-me de minha mãe ficar nervosa, e me mandou entrar dentro de casa. Eu a desobedeci, fingindo entrar, e me escondi por entre os arbustos do jardim e assim pude escutar o que aquele homem queria. Ele queria que minha mãe rastreasse uma pessoa, mas ela negou dizendo que não tinha poder o suficiente para tal feitiço. Ele insistia várias e várias vezes e minha mãe negava. Até que ele se transformou em um lobo. Naquela hora eu me assustei, minhas pernas tremiam, era a primeira vez que eu via um licantropo. E ele atacou minha mãe. Ela tentou se defender, mas ele foi mais rápido e a distância era curta demais. Ele arrancou a cabeça dela.
- Que horror! – Coloquei as mãos na boca.
- Fiquei paralisada de pavor e medo. Não consegui reagir, eu havia entrado em estado de choque. Aquela foi a minha última lembrança dela. Recobrei a consciência uma semana depois. Minha mãe havia sido enterrada, e meu pai havia explicado que ela não havia se defendido como uma bruxa por que ela estava doente e sua magia estava fraca para ser conjurada. Levei meses para me recuperar do trauma, mas nunca esqueci o rosto do assassino de minha mãe. Nunca irei esquecer daqueles olhos castanhos e aquele cabelo vermelho. Um dia irei achá-lo e matá-lo. Irei vingar a morte de minha mãe.
Eu estava surpresa com o passado sombrio de Hinata. Eu pensava que ela havia passado por situações dolorosas, mas não uma coisa grotesca. Ver com os próprios olhos a mãe ser morta, uma morte feia que eu não ousava imaginar como tinha sido àquela carnificina. Eu não tinha palavras para àquilo, e muito menos argumentos para discutir o fato de ela querer vingança.
- Eu sinto muito por sua mãe, de verdade. – Minha voz saiu baixa, aquilo era tudo o que eu conseguia dizer. Sentir muito. – Eu sinto muito por você, mas eu não acho que o Naruto tem culpa.
- Ele é um licantropo, Sakura. Eles matam.
- Duvido que ele tente te matar.
- Ele tentou me matar.
- O quê?
Senti meus olhos arregalarem, e ela continuou a estória:
- Meses depois da morte da minha mãe, meu pai conseguiu entrar em contato com a senhora Tsunade. Ele explicou toda a nossa situação e a situação do coven. A senhora Tsunade aceitou nos ajudar, mas alegou que iriamos entrar no território dos licantropos, e que quando chegássemos tínhamos que entrar em um acordo de paz para que possamos viver em paz. E meu pai sem mais escolhas aceitou contra a gosto. Odiei Konoha. Não sabia a língua nativa, foi difícil para mim e minha família. Na escola nem se fala. Eu era... quer dizer, sou a estranha invisível. Tentei me enturmar, mas nunca deu certo. Meus poderes começaram a evoluir, as minhas visões ficaram frequentes e isso me deixava perturbada. Até que um dia ele veio até mim.
- Naruto. – Conclui baixinho, começando a ficar apta a sua estória.
Seu olhar ficou vago, fitando algo qualquer no chão.
- Ele foi gentil. – Sua voz soou baixinha. - No começo eu não queria ele por perto, mas o Naruto não era de desistir fácil. Não demorou para ficarmos amigos, o único amigo que tive em Konoha. – Ela ergueu os olhos para mim. – Eu tinha consciência de que Konoha era território dos licantropos, mas nunca soube distingui-los. Eu nunca imaginei que Naruto fosse um deles, até aquele dia.
Ela deu mais outro pausa, parecia lembrar das cenas. Eu permaneci calada, esperava pacientemente ela revelar as coisas na hora certa. Hinata estava pela primeira vez, revelando todo o seu passado sombrio, e eu não queria estragar aquele momento.
- O Naruto estava diferente do que o normal, parecia doente, um pouco agressivo. Ele não me contava certas coisas e eu não fazia questão de saber, só a sua amizade me importava. Num dos nossos passeios pela floresta depois da aula, Naruto começou a se contorcer de dor de repente. Eu tentei ajudá-lo, mas ele gritava para eu ir embora. E como sempre faço, não o obedeci e permaneci ao seu lado. E foi aí que aconteceu, ele se transformou num lobo. Fiquei paralisada quando vi. Naquele momento as cenas do licantropo matando minha mãe me veio à cabeça. Naruto era um licantropo. E com a transformação ele me atacou, tentando me matar. Eu fugi e ele me seguiu até um rio no meio da floresta, eu me joguei nele e saí nadando com a correnteza e consegui escapar.
- Algumas semanas depois ele me procurou, me pedindo desculpas. E naquele momento senti algo diferente dentro de mim. Algo que nos unia, uma espécie de fio de conecção. Fiquei assustada com aquilo. E ele insistia avançando para cima de mim com mil e umas explicações que eu não queria escutar, e foi aí que acabei conjurando um dos meus feitiços e o joguei contra uma pedra, eu quase o matei naquele dia.
- E aí? – minha boca estava seca, eu imaginava as cenas.
- A confusão começou. A família dele queria minha família fora de Konoha. A Tsunade interveio na briga, eu tinha contado o que havia acontecido a ela, e assim ela pode ajudar a formar um novo acordo com a condição de que minha família se mantesse longe dos licantropos.
- Mas isso não aconteceu.
- Conforme o tempo passava eu sentia falta do Naruto, e isso aumentava a cada dia. Era agoniante, insuportável.
- Eu sei como é. A ligação de marcação é forte o bastante para um se manter longe do outro.
- E não demorou para que nos envolvermos. Mesmo eu tendo em mente o ódio que sentia por sua raça. Mas com Naruto era diferente. Eu tentei fugir várias vezes, o afastar, mas no final eu sempre acabava em seus braços. E sua insistência sempre complicava as coisas. Até que um dia eu descobri que acônito fazia mal aos licantropos e comecei a usar o perfume. Mas tinha vez que eu esquecia devido as visões ficar insuportáveis e todo o processo de me manter longe do Naruto ia pelo ralo. Mas de uns tempos para cá, eu comecei a me sentir mal quando eu usava e parei.
- O bebê.
Ela assentiu.
- Eu comecei a me sentir mal umas semanas atrás, e minha menstruação estava atrasada. Fiz o teste semana passada e deu positivo.
- A sua família sabe?
- Claro que não. Meu pai não pode nem sonhar que estou grávida de um licantropo, principalmente agora que estou de casamento marcado.
Arregalei os olhos com mais uma de suas revelações.
- O quê? Como assim? Você vai casar?
- A minha família é famosa por casamentos arranjados. E mesmo estando aqui no Japão, meu pai quer manter as tradições. Sou prometida ao filho de um dos bruxos poderosos do coven antes mesmo de eu vir para Konoha.
- O que vai fazer? Você vai se casar com ele?
Ela sorriu sarcástica.
- Se eu consigo fugir de um lobisomem marcado, eu vou me casar obrigada? Nunca. Nem que eu pule de um penhasco com uma pedra amarrada no pescoço e morra. Não vou fazer as vontades do meu pai como meu irmão Neji fez.
- Caramba.
- Eu estou os evitando de todas as formas. Hoje mesmo eu fugi de casa por que o Toneri estava lá para me ver.
- Toneri?
- Meu "noivo"- ela fez aspas com os dedos. – Eu estava fugindo quando trombei com o Naruto e o resto você já sabe. – Seu lábio curvou para o lado, num pequeno sorriso sarcástico. - Agora está satisfeita em saber toda a minha vida de merda? Eu estou realmente lascada.
O que eu havia percebido em Hinata era que ela abusava do sarcasmo para evitar sair chorando pelos cantos com a turbulência que era a sua vida. Ela havia perdido a mãe prematuramente. O pai havia arrumado um casamento arranjado sem amor. Não conseguia controlar suas visões. Não conseguia ficar com seu companheiro marcado por causa do ódio que carrega dos Lycan. E agora estava gravida de um. E tudo que eu consegui dizer foi:
- Você quer passar a noite aqui?
- O quê? – Ela me olhou surpresa.
- Suponho que não tenha um lugar para ir hoje, e pelo jeito você não vai voltar para casa.
Hinata me olhava como se eu fosse um ser alienígena. Eu não podia fazer muito por ela por enquanto, o máximo era convidá-la para dormir àquela noite aqui em casa e deixá-la ter uma boa noite de sono. Naquele momento uma boa noite de sono seria perfeito para a batalha no dia seguinte. Deixaria os problemas para serem resolvidos amanhã.
- Por que você se preocupa tanto comigo? Por que você tem que ser tão boa?
- Eu sempre tive vontade de ser a sua amiga desde a primeira vez que te vi. – Eu estava sendo sincera. – Eu queria falar com você no primeiro dia de aula, mas eu fiquei com medo de ser rejeitada.
Hinata parecia desconcertada, a boca entreaberta.
- Você... queria ser a minha... amiga?
Eu apenas assenti com a cabeça. Levantei-me do sofá e sentei-me ao seu lado.
- Acho que não começamos com o pé direito. Talvez nós possamos começar de novo.
- Não acho que sou uma boa companhia. – E abaixou a cabeça. – Sou toda problemática.
- Todo mundo tem problemas. Uns tem mais, outros tem menos. E ficar sozinha nunca faz bem. É sempre bom ter uma amiga para dividir os problemas. – E sorri. – Garanto a você que sou uma boa ouvinte.
Hinata soltou um pequeno sorriso contido, comprimindo os lábios e olhando para os lados. Ela estava humorada, mas tentava disfarçar para não perder a pose de durona.
- Já que vou passar a noite aqui, nós poderíamos comer alguma coisa, não?
Ela mudou totalmente a rota da nossa conversa. Sorri mais, não conseguindo segurar a felicidade de estar conseguindo aos poucos a confiança dela.
- Ahn, claro. – Dei um pulo do sofá e fiquei de pé, respeitando sua decisão de mudar o rumo da conversa. – Mas digo que temos que cozinhar por que não tem nada pronto.
Hinata apenas deu de ombros e me seguiu até a cozinha.
As próximas horas permanecíamos em silêncio, apenas ao som das panelas no fogo e da chuva que caía lá fora que agora estava mais controlada. Trocávamos algumas palavras em relação aos ingredientes e da receita que tínhamos que fazer para o jantar. O clima estava leve, e gostei de me sentir mais familiarizada com Hinata. Eu podia sentir um vínculo de amizade começar a se formar entre a gente, um pequeno fio de linha.
. . .
Quando Tsunade chegou, estávamos colocando os pratos sobre a mesa, era sete e meia da noite.
- O cheiro está bom. – Sua voz soou lá da sala, e os passos ecoando mais forte enquanto se aproximava da cozinha.
- Oi vó. – Eu disse assim que ela apareceu, estava um pouco molhada e tirava o blazer. Não demorou para que ela notasse Hinata ao meu lado.
- Oh, temos visitas. – Ela sorriu, estranhando a presença de Hinata ali. Tsunade sabia que nossa relação não era tão boa.
- Boa noite senhora Tsunade. – Cumprimentou Hinata, estava um pouco tímida.
- Boa noite.
- Vó, eu convidei a Hinata para dormir aqui hoje.
Ela ergueu as sobrancelhas para cima.
- Tudo bem. Fico feliz que estejam mais amigas.
- Espero que não esteja incomodando. – Retratou Hinata.
- Que isso, Hinata. – Ela abanou com a mão. – Eu gosto tanto de você como gosto da Sakura.
Hinata apenas sorriu comprimido.
- Pensei que a senhora fosse chegar mais tarde. – Comentei.
- A chuva deu uma acessada lá no centro e os bueiros começou a dar vazão a água, e assim a pista foi liberada mais cedo.
- Ah.
- Vou tomar um banho rapidinho e trocar de roupa. Já volto.
Tsunade subiu para o quarto, deixando apenas nós duas na cozinha. Terminamos de arrumar a mesa, Hinata fez um suco de frutas e eu peguei os copos. Não demorou para Tsunade descer já de banho tomado e de roupas trocadas e os cabelos soltos.
O jantar se passou com Tsunade perguntando como tinha sido a aula, como estava a família de Hinata e entre outras coisas. Hinata parecia mais à vontade, conversava de boa com vovó e comigo, o que me deixou feliz. Um tempo depois Hinata se levantou dizendo que iria ao banheiro. Tsunade aproveitou a deixa e perguntou como havia sido com os Lycan.
- Mais ou menos. – Respondi baixinho, enquanto tomava um gole do suco.
- Como assim? – Ela uniu as sobrancelhas levemente.
Por um segundo hesitei em dizer a verdade, mas isso só deixaria as coisas um pouco complicadas se ela descobrisse por bocas alheias.
- Os pais dele me pediram para jurar lealdade a eles.
Tsunade ergueu as sobrancelhas para cima.
- Como é que é? Quem eles pensam que nós somos? Uma fonte de juramento? – E desviou a atenção para o resto de sua comida no prato. – Espero que não tenha aceitado esse absurdo.
- Eu aceitei.
O olhar que Tsunade lançou para mim a seguir me fez sentir que eu havia cometido um grande pecado.
- Você está louca? Como você pode fazer um juramento desses Sakura?
- Eu não fiz o juramento oficialmente, eu só disse que iria jurar... eles vão preparar um ritual na lua cheia, algo parecido...
- Você vai cometer um grande erro. – Ela me interrompeu.
- Vó se eu não jurar, eles vão expulsar o Sasuke da alcateia.
- Que o faça então.
- Vó!
- Sakura, a expulsão é pouco para a gravidade de um juramento a um licantropo. Você acha que eles vão permitir você praticar magia dentro do território deles?
- Mas...
- Você precisa de treinamento para controlar seus poderes, e isso leva muito tempo. O ritual de semanas atrás só foi um meio de desbloqueá-los. E agora vem a parte mais difícil que é controlá-los perfeitamente. Se você fazer esse juramento, eles vão proibi-la de ter contato com mais bruxos, eu vou ficar impossibilitada de ensiná-la mais alguma coisa. E uma bruxa sem o controle de seus poderes é como uma bomba relógio. Tenha como exemplo a Hinata que não teve o devido treinamento e agora sofre com os poderes fora de controle.
Eu não tinha o que contestar, não tinha pensado nisso. O Sr. Uchiha havia dito que iria pensar sobre o assunto que envolve a minha avó, talvez tenha alguma brecha nesse juramento.
- Espero que você pense muito bem antes de fazer essa burrada. – E o som de passos de Hinata soava, fazendo Tsunade mudar de assunto. – Depois conversamos sobre isso.
Terminei o jantar calada, não comi toda a comida, havia ficado sem fome depois daquela pequena conversa com vovó. E agradeci quando subia para o quarto. Eu tentei disfarçar a minha angustia para Hinata, ela tinha problemas demais para ouvir os meus. E eu não estava muito afim de escutar seus argumentos, pois eu sabia que ela iria dizer a mesma coisa que Tsunade.
Arrumei a cama, e peguei mais um lençol extra, Hinata iria dormir comigo na cama. E depois de fazermos a nossa higiene noturna deitamos na cama. E de alguma forma eu não me sentia mais no clima de puxar mais algum assunto com ela, mas Hinata estava pronta para tocar na ferida e assim ela fez:
- Eu ouvi sem querer a sua conversa com a senhora Tsunade. E ela tem razão.
Virei meu rosto e a vi deitada ao meu lado. Ela fitava o teto.
- Vocês não entendem. – Fechei os olhos e suspirei. – É muito mais fácil para nós eu fazer o juramento.
- Se ele realmente quer você, ele que dê um jeito.
Abri os olhos e percebi que ela me olhava, dava para vê-la na pouca claridade do quarto. Ela estava séria.
- Você é tão cruel.
- A questão não é eu ser cruel, é saber que as coisas não são fáceis. Se ele realmente quer você, ele que mude por você, não você mudar por ele. Foi ele que te meteu nessa encrenca, ele que conserte.
Primeiro vovó e agora Hinata, será que elas estavam certas e eu a errada? Parecia que todo o universo estava reunido para me separar do Sasuke. Quando eu pensava que as coisas estavam começando a se encaixar, o destino vinha e nos dava uma rasteira.
- Boa noite. – disse Hinata virando-se para o outro lado, acabando com todas as minhas chances de argumentar contra.
- Boa noite.
