Capítulo 22 - Preocupação
Uma semana e meia havia se passado e muitas coisas haviam acontecido. Começando com o meu despertar de um coma pós ritual que me deixou desacordada por duas semanas. Eu estava diferente, sentia-me sensível ao mundo a minha volta. Eu podia ver as auras das pessoas que eu não via antes. Podia sentir a natureza mandar sinais de algo que estar para acontecer, como eu sentia naquele momento enquanto olhava a floresta pela minha janela do quarto.
Uma angustia me apertava o peito como se algo estivesse errado, e meus pensamentos estavam em Hinata. Havia dias que não a via. Ela não atendia minhas ligações, não aparecia mais na escola. Eu estava preocupada. Não fiz muito por Naruto que havia me pedido ajuda desesperadamente dias atrás. Para falar a verdade, eu não havia feito nada a respeito. Hinata parecia deslizar como uma água no rio, era quase que impossível mantê-la por perto. Eu até havia tentado tocar no assunto do Naruto, mas ela havia se fechado novamente, levantando seu muro protetor contra todos e contra mim. Parecia que tudo que havia conquistado para ter sua amizade fora em vão.
E para piorar, havia aquele juramento de lealdade aos licantropos que seria daqui a alguns dias. Eu podia sentir o peso quase que insuportável que estava em minhas costas. Por um lado, o contra de Tsunade, e por outro, a pressão da família de Sasuke. Eu evitava de tocar no assunto quando estávamos juntos, e parecia que Sasuke fazia o mesmo. Um de nós tinha que se sacrificar pelo outro. Um de nós tinha que abandonar o que mais amamos.
Eu estava ansiosa, estressada com tudo aquilo, e o fato das provas finais terem chegado não contribuía para que eu ficasse mais calma. Às vezes eu queria não ter crescido, queria ser criança para sempre, pois as coisas quando crianças são mais fáceis. Por que quando a gente cresce, os problemas aparecem com o processo, desafios que nos testam de todas as formas para provar que somos fortes. Eu tinha que ser forte, as coisas não são fáceis, o mundo real não é fácil.
Suspirei, saindo de frente a janela. Aquele sábado estava demorando para passar, estava entediante. Tsunade havia saído já fazia algum tempo e não tinha hora para voltar. Ela disse que tinha que resolver alguns assuntos do trabalho e depois tinha que resolver um assunto pendente com alguém. Eu estava sozinha, sendo atormentada por meus pensamentos depressivos.
Minha atenção focou no porta-retratos e o peguei em seguida, fitando as imagens dos meus pais. Senti um aperto em meu peito devido a saudade que sentia naquele momento.
- Eu queria que vocês estivessem aqui. – Disse, passando os dedos no rosto de mamãe e papai. – Eu sinto tanta falta de vocês.
Eu podia sentir meus olhos arderem nos primeiros vestígios de lágrimas, mas consegui segurá-las. Chorar agora não iria trazer meus pais de volta, não iria resolver meus problemas. Eu tinha que parar de me lamentar, viver o presente pensando no futuro. Coloquei o porta-retratos no lugar e resolvi fazer algo para acalmar meu interior e esclarecer a minha mente.
Desci até o escritório de vovó e de lá peguei velas e incensos e voltei para o meu quarto, iria meditar. Lembrava que Tsunade dizia; que meditar era um ótimo meio para esclarecer as ideias antes de tomar uma decisão importante, ou fazer algo importante. A meditação ocasiona no equilíbrio físico e mental para conseguir ser quem você é de verdade e conseguir o que deseja. Eu precisava me redescobrir e conseguir forças para lutar pelo o que desejo, sem deixar ninguém machucado com minhas decisões.
Coloquei as velas brancas no chão, eram três no total, acendi o incenso e logo o cheiro de lavanda consumiu todo o meu quarto. Procurei meu grimório que Tsunade havia me dado no dia do ritual, e depois de um tempo eu acabei o achando. Havia me esquecido aonde tinha o guardado.
Sentei-me no chão em volta das velas e abri àquele livro grosso, às páginas amareladas estavam limpas. Com uma caneta em mãos fiz minha primeira anotação. Anotei sobre minhas primeiras pequenas magias e tentei fazer alguns desenhos indicando os processos. Anotei também todo o processo do ritual da lua de sangue, e quando percebi já havia escrivo umas dez páginas. Fiquei surpresa com o tanto de coisas que havia aprendido em tão pouco tempo. Senti algo me animar por dentro, me fazendo esquecer por alguns segundos os meus problemas. A minha última anotação seria Meditação.
Deixei o grimório aberto no chão enquanto erguia minha postura ereta numa posição de lótus, era pouco desconfortável, mas tentava ignorar esse pequeno detalhe. Fechei os olhos e inspirei e suspirei algumas vezes, sentindo o cheiro do incenso de lavanda entrar em minhas narinas, acalmando aos poucos o meu interior.
- Luminaria ignis – baixinho conjurei aquelas palavras. Abri os olhos só para comprovar as três velas que estavam a minha volta acesa.
Animada por tudo está saindo perfeito, voltei a fechar os olhos com o olhar voltados para um ponto entre as sobrancelhas, minhas costas eretas, meu queixo alinhado com o chão, e a ponta da minha língua no meio do céu da minha boca. Respirei profundamente algumas vezes soltando o ar devagar até esvaziar completamente os pulmões. Aos poucos eu sentia meu corpo relaxar, minha mente esvaziando de tudo a minha volta, até chegar ao ponto que eu sentia não fazer mais parte daquela matéria que era o meu corpo. Eu havia chegado no auge do equilíbrio.
Não sei por quanto tempo fiquei daquele jeito, num processo quase que transitivo, mas despertei com pequenos sons vindo da janela. Pedrinhas batendo no vidro. Abri meus olhos sentindo uma leveza em meu corpo. E novamente o som de pedrinhas na janela e um sentimento conhecido me aqueceu o peito, e não precisava pensar muito, pois sabia quem era.
Levantei-me, e fui em direção à janela e abri, sentindo a friagem daquela tarde de sábado invadir meu quarto e pude ver Sasuke lá embaixo. Sorri, dando alguns passos para trás e num pulo Sasuke segurava a beirada da janela e logo mais passava por ela, entrando em meu quarto.
- Sabia que você tem passe livre para usar a porta!? – Questionei assim que ele ergueu seu corpo e me fitava, mas logo desviando a atenção para as minhas coisas jogadas no chão.
- A janela é mais emocionante – e sorriu de lado, voltando a me fitar, e o cenho uniu-se. – O que você está fazendo... e que cheiro é esse?
- Estava meditando. – Disse, e me apressei em apagar as velas e fechei o grimório que estava no chão. – E o cheiro é o incenso.
- Hm.
Guardei o grimório dentro da primeira gaveta que encontre da cômoda e voltei minha atenção para ele, que olhava curioso todo o meu quarto como se fosse a primeira vez que estivesse ali.
- E então senhor Lycan, sentiu saudades de mim? – Perguntei me aproximando dele, atraindo sua atenção mim.
- Estava aqui por perto e resolvi dar uma passada por aqui. – Ele segurou a minha mão. – Está sozinha? Por que não vi o Jeep da senhora Tsunade.
- Ela tinha assuntos a resolver, não tem hora para voltar.
Eu pude ver os olhos negros de Sasuke tomarem uma proporção de maliciosidade com minha resposta, e um frio circulou meu estômago. Pois sentia por entre o fio invisível que nos conectava, o quanto aquilo o excitou.
Sasuke me puxou para mais perto e me beijou na boca. Fechei meus olhos automaticamente, me entregando aquele momento íntimo, minhas mãos segurava as suas mãos. E mesmo envolvida e sentindo além dos meus sentimentos os dele que me passavam, eu me sentia mais calma. Estava mais leve interiormente, minha mente mais aberta e os problemas agora não parecia mais um monstro de três cabeças. Eu já tinha alguma ideia de como podia começar a solucioná-los. Com àquela meditação eu pude perceber que tudo havia uma solução.
- Sinto que você está menos tensa. – Disse Sasuke quando paramos de nos beijar.
- Também sinto isso. – Respondi, me aninhando em seu peito e o abraçando pela cintura, sentindo seu cheiro bom e sua pele quente por baixo daquela camiseta cinza. – Me sinto mais calma.
- É por causa do juramento?
Hesitei por um momento, Sasuke havia tomado a coragem de tocar no assunto que nós tanto evitávamos comentar. Mas naquele momento eu resolvi ser sincera com ele.
- Estou confusa – confessei baixinho, apertando mais meus braços em torno dele. – Eu não sei o que fazer.
Senti suas mãos subir por minhas costas e agarrarem meus braços. Ele me afastou um pouco, agora fitando-me os olhos, seu rosto era sério.
- Sakura, não jure a meu clã. – Meus olhos abriram mais. – Você não tem obrigação a fazer esse juramento idiota.
- Mas e você?
- Eu dou um jeito – e sorriu comprimido.
Balancei minha cabeça para os lados, mordendo o lábio com força.
- Não é justo com você.
- E nem com você – ele rebateu. – Pensa que não percebi o quanto você ficou mexida com isso? Eu sinto quando algo está errado com você. – E sua mão afagou meu rosto e murmurou baixinho: – Você é minha... e eu sou seu.
Ali, naquele momento, com sua mão acariciando meu rosto, suas palavras de conforto, a certeza de que eu estava protegida em seus braços e o sentimento puro que sentia através de nossa linha de conecção, eu soube o quão verdadeiro era o que sentíamos um pelo outro. E foi ali que eu tive a certeza de que Sasuke se sacrificaria por mim, como eu também se sacrificaria por ele.
E novamente, pela segunda vez naquele dia eu pude sentir os lábios de Sasuke sobre o meus, num beijo acalentado de emoções, ternura e amor. Um beijo calmo e sem pressas. Minhas mãos agora em seu pescoço o puxava mais para mim, e suas mãos em minha cintura me puxava mais para seu copo. Eu o amava com todo o meu coração. Eu o admirava com todo o meu orgulho. Sasuke havia se tornado o meu pilar de sustentação, ele conseguia preencher o vazio que havia em meu peito, e me confortava diante das situações precária de uma vida paranormal.
Finalizamos aquele beijo com vários selinhos estralados. Abri os olhos e o fitei ao mesmo tempo que ele abria seus olhos e me fitava. Sorrimos cúmplices.
- Eu te amo.
- Eu te amo.
E de repente ele virou seu rosto para a janela.
- O que foi?
- Eu tenho que ir – ele respondeu, voltando a me olhar. – Estou de ronda, e acabaram de descobri que escapuli.
- Fugindo do dever? – Provoquei.
Ele sorriu.
- Tenho que ver a minha garota.
Nos beijamos mais uma vez e logo ele se preparava para pular a janela, mas antes virou seu rosto para trás.
- Não esquece o falei, você não tem obrigação a nada.
- Eu vou pensar no assunto – e pisquei, agora o vendo pular da janela para o chão. Aproximei-me e o vi correndo em direção a floresta e sumir da minha linha de visão.
Sorri comigo mesma fitando o céu enublado ficar mais escuro devido ao final que chegava aquela tarde. O vento frio soprava em meu rosto e novamente eu fui arrebatada com aquele sentimento ruim e Hinata me veio à cabeça novamente. Estava pensando muito nela.
Fechei a janela e voltei para dentro, peguei meu celular em cima da minha cama e liguei para Hinata. E como todas às vezes que eu ligava, chamava até cair na caixa postal. Resolvi mandar uma mensagem.
AONDE VOCÊ ESTÁ?
ESTOU PREOCUPADA.
Olhei as horas, 16hrs e 30min, e joguei o celular de volta na cama. Resolvi afastar aqueles pensamentos da minha cabeça e comecei a arrumar a bagunça de velas que havia feito em meu quarto. E diante desse processo ouvi a campainha tocar.
Por um segundo cogitei a ideia de ser Hinata que deveria ter visto minhas ligações e as mensagens. Saí do quarto e desci as escadas com pressa chegando a porta e a abri dando de cara com a pessoa que eu menos esperava.
- Ino? – Franzi o cenho e a olhei de cima para baixo. – O que faz aqui? E ainda por cima vestida desse jeito?
Ino estava vestida com um sobretudo bege abotoado com os quatro pares de botões grandes e pretos em fileiras, uma calça preta, coturnos marrões, os cabelos amarrados em um rabo de cavalo e usava óculos escuros naquele fim de tarde. Sem contar a sacola parda de papel que ela segurava na mão esquerda.
- Sakura – e tirou os óculos -, ouvi uma conversa da Tenten ontem na hora da saída. Ela dizia que algo estava vindo para Konoha hoje e que ela estaria lá. Não entendi muito bem, mas é hoje que vamos descobrir o que ela esconde.
- Ahn? O quê? – Eu estava processando o que ela havia dito, tudo de uma vez e sem tomar o fôlego. – Ino você andou seguindo a Tenten novamente?
- Claro que não – e entrou para dentro e fechei a porta. – Eu só estava no local certo e na hora certa. E eu não tenho culpa se meus ouvidos são ótimos para captar vibrações.
- Você é uma enxerida.
- Não diria enxerida. – Ela se defendeu. – Eu só estou tentando preservar o bem-estar de uma amiga. Ela pode estar com problemas.
- Que problemas, Ino? – Suspirei, cruzando os braços.
Ela ergueu os ombros para cima.
- Sei lá. Ela pode estar sendo chantageada, ou comprando e vendendo drogas. Tudo é possível.
- Acho que você viajou,
- Não é viagem, e nós vamos descobrir isso hoje.
Senti minhas sobrancelhas erguerem-se para cima.
- Nós?
- Sim, eu e você – ela disse como se fosse óbvio.
- Ah não, me tira dessa. – Descruzei os braços. – Não vou xeretar a vida de ninguém. Isso não faz o meu estilo.
- Mas Sakura, a Tenten é a nossa amiga. Ela pode estar em apuros. - Seu tom soava preocupado, mas eu podia ver em seus olhos que aquela preocupação era puro fingimento. Ela estava era curiosa para saber àquilo que não era da sua conta.
- Ino...
- Por favor, Sakura – ela ajuntou as mãos em uma suplica. – Nunca te pedi nada. E você é a única que eu confio, a única que está aqui. Vamos, por favor.
Suspirei, dando-me por vencida. Ino tinha o poder de convencer as pessoas. E eu sentia que se eu negasse ela iria ficar ali me perturbando até me convencer.
- Tá legal.
Ela deu pulinhos a minha frente com um sorrido do tamanho do mundo.
- Aqui – ela estendeu a sacola parda para mim.
- O que é isso? – Perguntei, agarrando a sacola e olhando para dentro.
- A sua roupa de espiã.
Ergui meus olhos para cima.
- Como é que é?
E sorrindo convencia ela declarou:
- Por que agora nós vamos investigar.
