Casa dos Corvos

Capítulo Um: Num Dia de Julho


É de se admirar

Que eu esteja procurando alguém para mim nesse lugar?*


8 Semanas Atrás

A única coisa realmente fora do comum àquela manhã na sala de espera da Hokage era que Sakura estava lendo um livro de poesia. Era seu novo Negócio.

Era preciso dizer que Sakura aparecia com novos interesses e passatempos na mesma frequência que um cachorro pegava pulga, exceto que ela se livrava deles com mais facilidade. Mas não era porque ela raramente se prendia a um passatempo que seu interesse à época era menos agudo, ou que Sakura não se mantivesse engajada na atividade em questão. Tinha sempre que haver um jeito de matar o tempo enquanto eles esperavam seu capitão de time chegar, e Sakura descobriu que ler poesia era muito mais produtivo do que apenas encarar as paredes e limpar os ouvidos como Sai e Naruto respectivamente faziam.

Quando Kakashi finalmente deu o ar da graça, nenhum de seus subordinados sequer levantou os olhos para recriminá-lo.

— Está atrasado, sensei. — Sakura disse em zombaria.

— O que foi dessa vez? — Naruto exigiu; ao longo dos anos, ele desenvolvera um interesse quase perverso no quão amplas e variadas podiam ser as mentiras de seu sensei.

Kakashi deu de ombros. — O bebedouro do lado da Academia estava quebrado, e quando eu passei por lá tinha uma fila gigantesca de crianças miseráveis, parecendo cheias de sede. Como jonin, era meu dever e responsabilidade correr até a distribuidora mais próxima e pedir ajuda. Sorte que eu fiz isso. Quando eu voltei, três já tinham desmaiado…

Naruto se jogou na cadeira, perdendo o interesse. — Você contou essa duas semanas atrás.

— A mesma coisa não pode acontecer duas vezes? — Kakashi perguntou.

— Não quando não há bebedouro do lado da academia. — Sai apontou.

— Ah. — Kakashi assentiu. — Não é de se espantar que as crianças estavam com tanta sede então.

Ele sentou-se ao lado de Sakura e apanhou seu próprio livro. Isso em si era ligeiramente incomum, visto que Kakashi por vezes gostava de manter pelo menos um assento de distância entre ele e outra pessoa, por um motivo ou dois. Entretanto, só haviam seis cadeiras na sala de espera, e as outras duas ficavam do outro lado da sala. Por mais antissocial que fosse, Kakashi não era capaz de ser tão óbvio assim.

No geral, Sakura não se importava com onde ele sentava; ela estava imersa nos poemas e em suas métricas e rimas bonitas e inteligentes. Muitos poemas eram sobre o amor e lindas mulheres, alguns eram tristes e outros bem realistas. Ela amava as variações e o ritmo, e suspirava imaginando quão romântico seria ter um parceiro tão comovido pelo seu amor por você que ele seria capaz de traduzir e imortalizar seus sentimentos no papel.

Ao seu lado, Kakashi riu entre os dentes. Ela o olhou de soslaio, imaginando que ele estava rindo de alguma piada suja do Icha Icha (que ela odiava), mas rapidamente voltou a olhá-lo quando percebeu que ele na verdade estava lendo o seu livro sobre o seu ombro.

Instintivamente, ela fechou o livro de poesia e o afastou. — Do que você está rindo? — ela reclamou.

— De você. — ele disse sem titubear. — Desde quando está interessada em poesia?

Sakura corou, mas ela não estava tão constrangida assim. Era seu novo Negócio, afinal, que ela escolhera por gostar da ideia de ser o tipo de garota que lê poesia. Porém, a risadinha de Kakashi a pegara de surpresa. Ele claramente não achava que ela era desse tipo de garota.

— O que tem de errado com poesia? — ela perguntou na defensiva. — É literatura de primeira. Embora eu não espere que você saiba apreciar.

Qualquer um que tivesse o senso de humor do Jiraiya tinha que ser bem inculto, ela pensava.

— Consigo apreciar poesia tanto quanto qualquer outro homem. — ele disse. — Essa é do Naka, não?

— Parabéns, você sabe ler a capa.

Ele sorriu suavemente. — Eu conheço Naka.

— Ah é? — Sakura não se deixou enganar por um segundo.

— "Tua alma definha mais rápido que seu rosto".

Sakura o encarou.

— Terceiro Ato de A Montanha e o Mar. Ele escreveu durante o encarceramento como poeta oficial do último imperador. — ele explicou, voltando para seu livro. — Foi uma das últimas coisas que ele escreveu antes da revolução começar e ele ser executado junto com o resto da corte durante a queda do império.

Sakura o encarou. — Não sabia que você conhecia tanto sobre poesia.

— Eu tenho muitos passatempos. — ele disse vagamente. — Pelo que parece, o que você está lendo provavelmente é um de seus primeiros trabalhos, antes dele se tornar um servo imperial.

— Sim. — Sakura disse, olhando para o livro. — Seu melhor trabalho.

— Duvido. Seus primeiros trabalhos são ridiculamente extravagantes e obcecados com romance. Foi só quando começou a escrever pro império que ele encontrou seu estilo. — Kakashi a contou.

— Que? Poemas sobre guerra, glória e agricultura? — Sakura fez uma careta. — Seus últimos livros são terríveis – é óbvio que ele estava escrevendo para alimentar o ego do seu mandante. Ele totalmente se vendeu.

— Bem, não estou surpreso que goste das coisas melosas. — Kakashi suspirou. — Você é uma garota.

— O que isso tem a ver? — ela retorquiu. — É claro que seus primeiros trabalhos são bem superiores quanto sua paixão pela prosa.

— Mas sua técnica ao final era muito melhor.

— Técnica não é nada comparada a paixão!

— E, no entanto, ele não ganhou um tostão escrevendo por amor.

De fora até parecia que eles estavam discutindo de verdade. Naruto e Sai certamente achavam que sim, e se olhavam com preocupação, pois apesar de ser comum Sakura comprar briga com o capitão ou tentar agradá-lo, era incomum que Kakashi desse bola.

Entretanto, a verdade é que eles estavam se divertindo. Um sorriso singelo ameaçara surgir nos lábios de Sakura durante toda a interação enquanto ela tentava educar seu professor na importância da paixão, e admirando-se que Kakashi tinha opiniões fortes sobre a importância de exatidão… para um homem que ela anteriormente pensara não ter opiniões fortes sobre nada, que dirá métrica.

— O que aconteceu com o seu Negócio antigo, aliás? — ele perguntou, voltando para seu livro.

— Não sei do que está falando. — ela fungou.

— Cê sabe — ele incitou. — O Negócio de tricotar.

— Ela parou com isso pro seu próprio bem. — Naruto contou. — Você ficava usando tudo que ela tricotava para você. Ela começou a se sentir culpada depois de um tempo.

— Mas eu gostei do cachecol amarelo. — Kakashi disse. — Eu ainda tenho ele e vou usar quando chegar o inverno.

Naruto riu como se não tivesse percebido o olhar fulminante de Sakura. — Apesar de ter um buraco tão grande que sua mão passa por ele?

Por causa do buraco tão grande que minha mão passa por ele.

— Eu tricotei uns melhores para você! — Sakura protestou. — Você só ficou usando esse pra me envergonhar!

— Foi a primeira coisa que alguém tricotou pra mim; tem valor sentimental. Eu gostei tanto quanto a primeira planta que o Naruto me deu: Sr. Ukki.

— Aposto que ele deu nome pro cachecol também. — Naruto especulou.

— Ele dá nome a tudo. — Sakura concordou com uma piscadela exagerada.

— Isso foi referência ao pênis dele? — Sai perguntou com sensatez. Foi um pouco demais para Sakura e Naruto, que começaram a rir tanto que ficaram sem ar, agarrando os braços da cadeira para manter a sanidade.

Kakashi dirigiu-lhes um olhar frio. — Vocês três são cruéis e tiram sarro do seu pobre e velho sensei. Eu deveria entregá-los pro Gai.

— Vamos nos comportar, Kaka-sensei. — Sakura disse com doçura, esbarrando o ombro no dele para deixar claro que eles estavam apenas brincando. — Mas eu vou fazer você gostar dos melhores poemas do Naka, nem que seja a última coisa que eu faça.

Kakashi olhou em lamúria para ela. — Você está abusando de mim.

— Não dá pra abusar de alguém com poesia, seu selvagem. — ela retrucou.

— Claramente você nunca foi prisioneira de guerra, diferente de mim. Como você acha que eu sei tanto sobre poesia?

— Você sabe tanto sobre poesia porque és um velho romântico e coração mole com uma alma atormentada que anseia pela capacidade literária de colocar em palavras o que se passa no seu coração. — ela lhe disse.

A atenção dele estava solenemente em seu livro erótico, mas ela sabia que ele estava sorrindo como se a beira de soltar uma risada. — Me pegou. — ele admitiu, incapaz de esconder o tom de divertimento.

Sakura recostou na cadeira triunfantemente.

Foi assim que o dia que mudou sua vida começou. Se tivesse algum evento que ela pudesse apontar e definitivamente dizer que fora o seu divisor de águas, então aqui ele começara. De acordo com Kakashi, era fácil se perder no caminho da vida. Ela nunca fora propensa a concordar, já que sempre tivera muita certeza de seu futuro e de onde ele a levaria (e que as desculpas de Kakashi para disfarçar seus atrasos eram tão infinitas quanto sem importância), mas não havia como negar, em retrospecto, que os acontecimentos desta manhã em específico alteraram o curso de sua vida para sempre.

Quando Tsunade finalmente os chamou para entrar no escritório, elas os entregou dois pergaminhos. — Missão dividida, lamento dizer. — ela disse. — Vocês já sabem como funciona.

— Ah, velho. — Naruto reclamou em voz alta. — Elas nunca dão em nada!

— Há muitos rumores circulando sobre Iwagakure ter contratado um grupo mercenário, Naruto, e nós precisamos checar todos eles na baixíssima chance de, pelo menos, um dar em algo tangível. — a Hokage o lembrou. — Você tem sorte dessa ser uma missão rápida. Vocês devem estar de volta pro final da semana.

— Pequenos milagres. — Kakashi murmurou, pegando ambos os pergaminhos e entregando um para Naruto. Sakura já podia ver como ficaria a divisão dos times.

Era normal esses dias. Com o volume de missões despachadas para conferir todo e qualquer rumor, times estavam se dividindo ao meio para cobrir mais chão. No entanto, a falta de ação era preocupante. No momento, eles estavam sendo enviados para observar e espionar, embora o Time Kakashi nunca tenha encontrado nada digno de ser reportado. Para cada possível pista sobre uma invasão inimiga no país do fogo, haviam centenas de pistas falsas, mas todas precisavam ser investigadas, de qualquer modo.

Eles já haviam sido enviados em seis desse tipo, com Kakashi liderando uma metade e Naruto a outra. Em todas as vezes, Sakura fora pareada com o primeiro.

— Qual é a missão dessa vez? — ela perguntou, se aproximando de Kakashi para espiar o pergaminho que ele estava lendo.

— Ficamos sabendo que um jonin de elite de Iwa vai se encontrar com mercenários em uma dessas duas cidades em exatamente três dias. — Tsunade disse ao time. — Jonan fica ao norte e Chiba no leste. Uma delas é um chamariz, então vocês vão ter que se dividir de novo.

— Provavelmente as duas são um chamariz. — Kakashi apontou, examinando as instruções da missão.

— Provavelmente. — a Hokage concordou. — Mas se for verdade, vai ser um problema. Não estou falando de mercenários comuns. Eles fazem parte do Sindicato.

Após um intervalo significativo, Kakashi assentiu e enrolou seu pergaminho. — Vamos fazer nosso melhor. Naruto e Sai vão para Chiba, Sakura e eu ficamos com Jonan. Combinado?

Dois de seus subordinados assentiram – o terceiro apenas fez uma careta para ele. — Por que você sempre fica com a Sakura-chan? — Naruto perguntou com suspeitas.

— Porque toda vez que eu vou a qualquer lugar com você — Sakura disse, antes que Kakashi pudesse abrir a boca. — Você sempre espia quando eu tô trocando de roupa! Kakashi-sensei, por outro lado, é um perfeito cavalheiro.

— Isso realmente depende de pra quem você está perguntando. — ele proferiu suavemente. — Isso é tudo, Hokage-sama?

Tsunade os dispensou com um aceno. — Comecem as preparações. — ela disse. — Estão todos dispensados – e ao sair, mandem o próximo time entrar.

Ao saírem do escritório, Naruto jogou seu pergaminho de uma mão a outra com um olhar presunçoso no rosto. — Nossa missão vai ser a de verdade. — ele disse. — Mal posso esperar pra ver o rosto de vocês quando voltarmos com um monte de informações, e quem sabe um ou dois mercenários de brinde.

— Ah, você realmente acredita nisso? — Sakura retrucou no meio do corredor. — Você está tão confiante! Nós vamos trazer alguma coisa se tiver de fato. Não estou certa, Kaka-sensei?

Nada.

— Sensei? — Sakura olhou ao redor e viu o homem andando a frente deles. — Ouviu o que eu disse?

Aparentemente, ele não ouvira, já que escolheu esse momento para virar a cabeça vagamente na direção dela com um distraído: — Hm? — sua mente estava claramente a quilômetros de distância.

— Não seja um estraga prazeres. — ela o repreendeu. — Onde está seu espírito competitivo?

— Sim. — ele disse, com a falta de atenção de antes. Ele não estava ouvindo uma palavra do que ela dizia.

— Boa sorte com a sua dupla então. — Naruto disse, balançando a cabeça para os dois. — Nos vemos depois, você vai pagar pelas bebidas quando voltarmos com os bandidos.

— Não vou não. — Sakura respondeu. — Porque nós vamos capturar os bandidos!

— Claro, claro. — Naruto acenou em despedida e sumiu no fim do corredor com Sai.

Sakura alcançou Kakashi e andou ao seu lado, mãos atrás das costas e um sorriso singelo. — Por que está viajando tanto? — ela perguntou. — Lembranças de horripilantes recitais de poesia numa prisão da vila da Nuvem?

— Só estava pensando. — ele disse, em um tom decididamente mais sério que o dela. — Jonan fica na província noroeste.

— E?

— E foi lá que o Sasuke foi visto pela última vez, não?

— Ah… é. — o estômago de Sakura se revirou e seu sorriso murchou. Esse nome sempre acendia uma dor em seu peito quando ela o escutava, com frequência suficiente para que ela desejasse não ter escutado. — Bem… é uma província grande. — ela começou, com cautela.

— É. — ele concordou.

— Então não é como se…

— Não. — ele concordou novamente.

— Ele provavelmente foi pra outro lugar desde então.

— Certo. — ele deu de ombros e pareceu forçar o assunto para fora da cabeça. — Bem, eu tenho noventa e nove por cento de certeza que essa missão vai dar em nada, então não esqueça de levar um baralho ou algo do gênero. Talvez um jogo de tabuleiro?

— Vou levar Naka. — ela lhe disse.

— Ah. E eu vou ler tampões de ouvido.

Eles se separaram do lado de fora da torre na promessa de se encontrarem nos portões leste as oito da manhã em ponto. Sakura sabia que não precisaria acionar o despertador; Kakashi não apareceria até às nove e meia, de qualquer forma.

Ao se arrastar até em casa, Sakura se percebeu inexplicavelmente de volta a realidade com o baque que a vaga menção de Sasuke por Kakashi provocou. Era verdade que a última vez que a aparição do jovem havia sido reportada fora há duas semanas atrás em algum lugar das cidades litorâneas da província noroeste do país do fogo, provavelmente bem próximo da cidade que eles visitariam em alguns dias. Tsunade enviara ANBU de praxe para rastreá-lo, mas como sempre o rastro sumira. Sasuke não queria ser encontrado, e enquanto ele ficasse quieto e sem causar muitos problemas, Tsunade também não estava tão empenhada em achá-lo.

Havia um limite do quanto você podia tentar ajudar alguém que não queria sua ajuda. Sakura havia aceitado tempos atrás que assim seria para sempre: relatórios a cada dois meses, mas não mais que isso.

Naruto nunca desistiria de seu amigo, porém o coração de Sakura não era tão forte como o dele. Ela não podia suportar a ausência, o esperar, a rejeição e sua própria sucessiva incapacidade de alcançá-lo. Onde quer que Sasuke estivesse agora e o que quer que estivesse fazendo, não era mais da sua conta. Certas coisas você não consegue controlar, e ao dormir aquela noite com os olhos na primeira fotografia que o Time Sete tirara junto, ninguém podia dizer que Sakura não estava desejando o suficiente.


Quando Sakura acordou, ela pôs na bolsa as últimas necessidades que faltavam (e as coisas desnecessárias também) e partiu em direção ao portão leste. Ela chegou às nove em ponto, e somente trinta minutos depois Kakashi apareceu.

— O que aconteceu dessa vez? — ela bocejou para ele.

— Eu caí no box essa manhã, e até dez minutos atrás eu estava sob cuidado intensivo no hospital. Eles disseram que eu provavelmente não deveria andar pelas próximas duas semanas, mas eu disse que o descanso teria de esperar pois eu tenho trabalho a fazer.

— Quanta determinação. — ela disse inexpressivamente, embora a palavra não fosse bem essa.

— Obrigado.

Ele começou a andar para tomar a dianteira, mas no momento em que ele ficou do seu lado, a mão de Sakura subitamente agiu para segurar a manga de sua blusa. Ele não reagiu, nem mesmo quando ela se aproximou para fungar três vezes de forma exagerada no seu ombro. Kakashi simplesmente aguentou seu nariz intrusivo com paciência até que ela repentinamente fez um barulho de desgosto e começou a andar. — Achei que tivesse dito que tinha parado com isso! — ela grunhiu.

— Parado com o que? — ele perguntou de forma inocente, seguindo seus passos.

— Não venha com essa – eu posso sentir o cheiro daqui.

— Então joga o nariz fora.

— Você só faz isso pra relaxar quando está estressado. — ela acusou. — Com o que está estressado?

— Não sei se percebeu, mas está acontecendo uma guerra. — ele apontou.

— Ainda não. E como se a ideia fosse sequer levantar um fio do seu cabelo. — Sakura o encarou com expectativa, mas se ela pensava que a resposta sairia tão facilmente, ela estava enganada. Kakashi apenas deixou o olhar passear pelas árvores de um modo vago e pensativo, até que Sakura suspirou audivelmente e desistiu. — Vamos logo. — ela resmungou. — Mas não faça isso enquanto estivermos em missão. É errado.

— Posso fazer outras coisas erradas ao invés disso então?

— É só por uma semana, tenho certeza que você consegue se controlar.

Talvez ela estivesse sendo otimista demais.

Como em qualquer outra missão, eles se moviam rapidamente, procurando cobrir a maior distância possível com o objetivo de levantar acampamento cedo. Eles se dirigiram até as terras rurais do noroeste onde seu alvo, a vila de Jonan, ficava escondida entre ininterruptos campos e plantações de arroz. Naruto e Sai estariam se dirigindo para sua vila a leste, embora Sakura esperasse que os garotos dessem de cara com o chamariz. Ela não via ação apropriada há semanas e toda essa situação de sentar e esperar por nada era tão interessante quanto observar tinta secar.

Ainda assim… uma parte pequena no meio de seu cérebro ficaria contente em segredo se eles não achassem nada nessa missão. Só as implicações desses rumores já tirava o sono de bastante gente.

A concentração necessária para se viajar a alta velocidade deixava pouco espaço para conversa fiada, mas eles pausavam entre intervalos regulares para descansar sob a sombra de uma árvore generosamente folhada e beber água. Kakashi derramou um pouco d'água sobre sua cabeça, então Sakura deu uma de copiona e fez o mesmo – apenas para reclamar em desgosto quando mais do que o desejado escorreu por seu pescoço e adentrou sua blusa. Kakashi fez um ótimo trabalho em fingir que a risada era uma tosse.

— E você não tá nem suando. — ela reclamou. Debaixo das roupas ela se sentia desconfortavelmente pegajosa, e ao sentar seus joelhos grudaram um no outro.

— É porque eu sou perfeito. — ele disse com a cara lavada em sinceridade.

— Há! — Sakura zombou, e eles voltaram a zarpar, molhados mas refrescados.

Era uma viagem de dois dias até Jonan, então a primeira noite de sua missão teve de ser passada na floresta, a luz do luar. Kakashi escolheu um lugar no bosque e foi dada a Sakura a "honra" de cozinhar a janta. Eles conversaram um pouco, mas pela maior parte do tempo eles estavam cansados, e Kakashi teimava em viajar quando ela falava com ele, algo que fazia desde o dia anterior.

— Tá acontecendo alguma coisa? — ela perguntou em voz baixa após perceber que seu olhar distante vagara por tempo demais.

— Hm? — ele olhou de relance para ela, sobrancelhas erguidas.

— Tá acontecendo alguma coisa que eu deveria saber? — ela perguntou. — Você está com a cabeça a quilômetros de distância.

— Só estou pensando. — ele sorriu suavemente e tomou um gole do caldo que ela lhe entregara.

Ela gostava de vê-lo sorrir; era caloroso e gentil, com um toque de insegurança. Ela vira pela primeira vez apenas alguns anos atrás, embora ela não fizesse ideia do porque demorara todo esse tempo, uma vez que ele não parecia ter problema em mostrar seu rosto para as pessoas. Pelo menos, ele obrigatoriamente abaixava a máscara para os médicos quando estes pediam para ver suas amídalas, mesmo que fosse com a reticência de um homem obrigado a tirar a cueca e mostrar suas partes íntimas.

No entanto, a primeira vez que ela vira seu rosto, ela ficou se sentindo inexplicavelmente triste depois. Não que ele fosse feio, bonito ou diferente do que ela imaginara (ela podia dizer que ele era bonitinho pra certos padrões). Sakura conhecera a máscara por tanto tempo ela que meio que se tornara seu rosto, então ver debaixo dela era uma grande violação da imagem que ela tinha dele, mais até que se ele realmente tivesse tirado a calça e mostrado as partes íntimas.

Ela estava mais acostumada com sua aparência esses dias. Mas ainda assim, as vezes ela não conseguia deixar de se sentir tímida perto dele quando estava sem a máscara. Só ser capaz de ver um de seus sorrisos suaves parecia mais íntimo do que ver o sorriso de qualquer outra pessoa.

Eles se retiraram para seus respectivos sacos de dormir, postos um ao lado do outro. Era estranho como tal proximidade num quarto teria sido um tanto significativo, mas dormir a metros de distância um do outro na natureza parecia normal e respeitável. E fazendo jus a sua observação no escritório de Tsunade, quando eles se trocaram na manhã seguinte, Kakashi respeitosamente virou de costas e não espiou.

Pelo menos não de um jeito perceptível.

Eles viajaram por mais um dia inteiro antes de finalmente chegarem na vila de Jonan, e imediatamente deram entrada numa hospedaria no topo de um penhasco que dava visão para boa parte da cidadezinha de um ponto de vantagem perfeito. Faltando ainda um dia para o suposto encontro entre o jonin de Iwa e os "mercenários", não havia muito o que fazer além de matar tempo na sacada de seu quarto dividido, observando a escassa população ir e vir na cidade como formigas no formigueiro. Todos eram tão simples, de aparência pálida e tediosa, que se um jonin de Iwa andasse no meio deles se destacaria como um cupim entre as formigas. Sakura deixou a tocaia para Kakashi, ainda que ele só tivesse um olho bom. Em vez disso, ela se deitou no futon macio, sob a luz do entardecer que entrava pela fresta da porta de correr e balançou o pergaminho da missão acima da cabeça.

— Kakashi-sensei? — ela começou em uma voz melódica.

— Sim, Sakura-chan? — ele respondeu no mesmo tom.

— O que é de fato o sindicato? — Ela rolou para deitar de bruços e olhou para as costas dele pela fresta da porta. Ele demorou tanto para responder que Sakura estava certa de que ele esquecera da sua pergunta, ocupado como estava espiando os telhados por um dos lados de um binóculo como se fosse um monóculo. — Cê sabe — ela começou novamente. — O sindicato que esses mercenários supostamente estão operando?

Kakashi abaixou o binóculo com um suspiro, mas não se virou para dar-lhe atenção. — É um grupo criminoso. — ele disse. — É isso que o sindicato é. Dizem que ele é liderado por mercenários, mas ninguém sabe ao certo. Pode muito bem ser um bando de células desorganizadas sem um ou mais líderes, e é por isso que essa missão não faz sentido.

Isso fez Sakura pausar. Ela franziu o cenho para as costas de Kakashi, pensando se realmente tinha percebido um que de impaciência em sua voz. Pela primeira vez, ele soava como se não quisesse conversar.

Ou quem sabe, assim como ela, a falta de ação o estava tirando do sério. Fazia tanto tempo desde que uma missão real havia sido dada a eles que era fácil se sentir frustrado com toda a situação. Contudo, sendo um veterano de guerra e provavelmente já tendo passado por esses períodos de estranha calmaria antes do primeiro derramamento de sangue, para Kakashi não ser capaz de conter a impaciência era… estranho.

— Alguma coisa errada? — Sakura arriscou em voz baixa.

Ele hesitou, então se virou e lhe dirigiu um sorriso amigável. — Não mesmo. — ele disse antes de voltar a sua observação. Pelo resto da tarde ele melhorou um pouco a atitude, mas Sakura não se deixou enganar. Ela observou Kakashi tão atentamente quanto ele observava a cidade, tentando adivinhar porque os ombros dele estavam levantados e tensos, porque ele ficava passando a mão no cabelo e porque uma carranca permanente havia se instalado em seu rosto normalmente inexpressivo. Ficava mais óbvio quando ele abaixava a máscara para comer, como acontecia quando eles desciam para jantar. A recepcionista pareceu se ofender com sua expressão, e Sakura não podia culpá-la. Parecia que ele estava sendo servido uma comida horrorosa.

Sakura não arriscou conversar com ele enquanto vestiam roupas de dormir por detrás de biombos e se dirigiam para seus respectivos futons, um de cada lado do quarto. E quando Sakura não incitou conversa, o próprio Kakashi nunca tomou a iniciativa. Na realidade, ele estava tão imerso nos próprios pensamentos que Sakura percebeu ser a única a notar o silêncio peculiar entre eles.

Ela era o problema? Será que ela o irritara sem querer?

Na escuridão do quarto, Kakashi dormia tranquilamente. De vez em quando, Sakura não podia deixar de erguer a cabeça para ver se ele ainda estava lá, porque por alguma razão, bem lá no fundo, ela tinha a impressão terrível de que se ela não ficasse de olho, ele desaparecia. Ela nunca tivera uma sensação tão irracional antes, mas toda vez que ela olhava para o futon dele, ela se tranquilizava em ver seu cabelo claro desalinhado e cobertas bagunçadas.

Mas é claro que ele não iria a lugar algum! Onde diabos ele iria?

Uma ventania tomava conta do penhasco, agitando as telhas e paredes enquanto um ar gelado invadia o quarto da hospedaria. Sakura puxou as cobertas mais para si e afundou o nariz no travesseiro. Por mais que ela odiasse a falta de ação dos últimos tempos, ela também se sentia nervosa com a guerra prestes a estourar. Ela só participara de algumas batalhas e todas haviam sido breves e decisivas. Ela nunca vivenciara uma guerra longa e, de fato, declarada contra outra das grandes vilas. Tudo parecera tão seguro durante sua infância. Guerras entre clãs e vilas eram parte da história, algo tão ultrapassado quanto dinossauros na era em que ela nascera.

Mas lá estavam eles, correndo o risco de ficar a beira de outra era feudal, e era difícil recuperar aquela sensação de segurança que rodeara sua infância. Isso desde que começar a trabalhar com Tsunade lhe tornara ciente até demais do declínio de Konoha como uma das mais temidas e respeitadas vilas, para se tornar uma das ultrapassadas, a mercê das vilas mais novas e poderosas. Os abutres estiveram rondando desde a morte do Sandaime. Eles reconheciam um animal debilitado quando viam um; eles estavam apenas esperando o momento certo e as condições apropriadas para atacar.

Kakashi passara por isso antes, não? Ele certamente teria palavras de conforto para oferecer sobre o assunto? Sakura compulsivamente levantou a cabeça para procurar por ele, e de imediato seu interior congelou.

Seus cobertores estavam dobrados e sua cama vazia.

Sakura sentou-se apressadamente e se virou para olhar pelo quarto. — Kaka-sensei? — ela sussurrou cuidadosamente, mas nenhuma das sombras respondeu de volta.

Por um momento ela hesitou, estando quente e confortável em sua cama e sem vontade de abandoná-la… mas ela estava preocupada. Estalando a língua em irritação, ela chutou as cobertas para o lado e andou na ponta dos pés até a porta para espiar o longo corredor escuro e silencioso. Ela parou e ouviu. Ok, não estava tão silencioso assim; ela conseguia ouvir com clareza os roncos dos outros hóspedes nos quartos vizinhos – e até o som distante e abafado de uma mulher claramente gemendo de prazer. Sakura se convenceu de que ela estava apenas apreciando um bom chocolate de madrugada, e que Kakashi não estava envolvido nisso, embora não a surpreenderia se estivesse.

Ela também ouviu o leve balanço pelo vento de uma porta que não estava adequadamente fechada. Ao final do corredor ela podia ver; uma porta que provavelmente dava para o lado de fora, e ela tinha quase certeza que estivera fechada quando eles chegaram.

Suspeita aumentando, Sakura andou de fininho pelas tábuas geladas até poder tocar a porta destrancada balançando ao vento. Ela segurou a respiração e contou até três – então escancarou a porta e pôs os pés do lado de fora.

— Ahá! — ela sussurrou.

Kakashi estava sentado a alguns metros num tronco de árvore, os cotovelos apoiados despreocupadamente até demais na cerca as suas costas. — Ah. — ele disse em velada surpresa. — Olá, Sakura.

Ela não se deixou enganar. — Levanta o pé.

— … Não.

— Sensei!

Com um suspiro, ele levantou a sandália e Sakura agachou para pegar o odioso canudo de papel que, embora pisado, ainda brilhava numa das pontas. — Achei que tivesse prometido se controlar nessa missão? — ela apontou.

— Se você se lembra, eu não prometi nada. — ele respondeu. — Mas o fato de ter um cigarro debaixo do meu pé é nada mais que prova circunstancial.

Sakura o apagou de vez na cerca e o jogou no ar, onde o vento prontamente o carregou para longe do penhasco. Ela olhou de volta para Kakashi com uma carranca ameaçadora ao abrir a boca.

— Não preciso de um sermão do clube antifumo. — ele interrompeu. — Você cuida da sua própria saúde, eu faço o que bem entender com a minha.

— Eu não ia dizer nada do gênero. — ela mentiu. — Só que é a segunda vez que eu te pego fumando em dois dias. Não é do seu feitio.

— Por que não? — ele perguntou.

— Você mesmo me disse que nunca fuma sozinho, apenas quando está estressado.

— Eu esqueci de mencionar que também fumo depois de transar. — ele disse, erguendo as sobrancelhas para ela como se a desafiasse a ficar indignada.

Sakura decidiu ignorar sua tentativa de fugir do assunto. — Você tem agido estranho desde que recebemos essa missão. — ela apontou. — Como se estivesse irritado com algo.

— Não estou irritado com nada. — ele negou.

— O problema sou eu? — ela perguntou calmamente. — Eu fiz alguma coisa…?

Kakashi lhe dirigiu um olhar pasmo. — Por que você teria… — e ele rapidamente interrompeu a própria fala como se de repente percebesse seu tom áspero. — Talvez eu só não tenha ido com a cara dessa missão. Só isso.

Outra rajada de vento soprou ao seu redor e Sakura se abraçou em proteção. Não estava frio, mas também não estava particularmente quente; ela podia sentir os arrepios pela extensão do seu corpo. — Por que? — ela lhe perguntou.

— Não vai dar em nada. — foi tudo o que ele disse.

— Você não tem como ter certeza. — ela argumentou. — Nós podemos encontrar alguma coisa amanhã…

— Não vamos. — ele interrompeu mais uma vez.

Havia uma certeza mortal em seu tom de voz, e Sakura precisava admitir pra si mesma que ele provavelmente estava certo. De qualquer jeito, Kakashi não era de ficar impaciente com missões lentas. Ele por vezes parecia preferi-las, então por que essa missão estava lhe dando tanto nos nervos?

— É a calmaria antes da tempestade, Sakura. — ele disse calmamente. — Eu dou mais um mês… então a Quarta Grande Guerra vai começar.

Sakura estremeceu. Ninguém gostava de ser tão direto assim. Todos sabiam que a guerra estava chegando, mas ninguém realmente dizia isso, e assim continuaria até o dia em que um ninja de Iwa matasse um ninja de Konoha, ou vice-versa, e então guerra seria a única coisa em suas vidas por um bom tempo.

— Kaka-sensei? — ela perguntou suavemente.

— Sim?

— Como é a guerra?

Ele olhou de soslaio para ela. — Está preocupada?

— Creio que sim. — ela disse vagamente. Ela sabia que estava preocupada, mas ainda não era um medo de torcer o estômago, embora ela imaginasse que talvez devesse sentir um medo do tipo se fosse mais esperta. — Eu nunca estive numa guerra.

Ele respirou fundo e soltou o ar aos poucos. — Não é tão ruim quando você pega a manha. Contanto que fiquem atentas, a maioria das pessoas sobrevive. Não deveria se preocupar. Você é uma garota inteligente e forte.

Sakura se animou pelo elogio, e teve de se lembrar que este era um homem que havia passado pela última grande guerra – a pior das três, pelas histórias. Se alguém conhecia a guerra, então era ele. — O que acontece se perdermos? — ela o perguntou, porque esse era o fim que todos em Konoha temiam.

— Se perdermos? — ele repetiu categoricamente. — Quem sabe? Depende de Iwa. De praxe nós seremos usados e explorados. A pressão vai cair sobre o daimyo, e provavelmente vamos perder muitos territórios estratégicos para o país da terra, que eles devem usar como plataforma para levar a guerra aos países menores até controlarem a maior parte da região noroeste. Se eles estiverem se sentindo particularmente impiedosos, vão queimar Konoha por completo e o que restar dos clãs ninjas e civis vai ser forçado a se refugiar em outras vilas ou quem sabe, criar uma nova. O futuro é bem incerto para uma vila que perde a guerra. Mesmo se sobrevivermos, vamos ficar fragmentados.

Isso não parecia divertido. Sakura franziu profundamente o cenho para a escuridão e engoliu em seco. — Eu não acho que consigo abandonar Konoha. — outra rajada de vento fez seu cabelo esvoaçar ao redor do seu rosto. Ela apertou os olhos, tremendo quase de forma perceptível agora.

Kakashi começou a se despir do casaco preto de lã. — Você não vai precisar fazer isso. — ele disse. — Porque não vamos perder. As forças de Iwa são quase iguais as nossas e no geral, nós temos mais experiência. Se eles invadirem, teremos a vantagem de conhecer o território e o clima. E se tudo mais falhar, temos a Kyuubi. A derrota é improvável.

Ao dizer isso, ele pôs os braços ao redor dela e depositou o casaco sobre seus ombros. O calor vindo dele era tão inacreditável que Sakura parou de tremer quase que imediatamente, embora ela tenha ficado ligeiramente irritada consigo mesma por tremer e com ele por ter pena de forma desnecessária. Ainda assim. Ela estava aquecida agora… mesmo que a gola cheirasse de forma desagradável a cigarro, e ele estivesse esfregando as mãos para cima e para baixo em seus braços cobertos de um modo rápido e carinhoso, assegurando-a que seu mau humor não era para ela. — Mas por que eles começariam uma guerra bem agora? Por que não antes? — ela apontou. — Não acho que eles fariam isso se não tivessem algo que antes não tinham.

— Um ás na manga? — Kakashi deu de ombros. — Talvez não. Os estrategistas de Iwa nunca foram seu ponto forte, e eles ainda estão desmoralizados da última vez que o derrotamos. Não vejo como poderiam ter alguma chance, mesmo com todos os truques do mundo.

— E se o ás na manga for o Sindicato? — ela perguntou.

Suas mãos pausaram nos ombros dela e ele pareceu pensar por um momento. — Mesmo que nós tomemos isso como verdade, e assumirmos que o Sindicato é realmente operado por mercenários, Iwa estaria em suas mãos. Você não confia em mercenários para lutar suas guerras. Quase sempre o tiro sai pela culatra.

Ela estava certa, é claro. Ele já passara por isso antes e de fato tinha palavras de conforto sobre o assunto. Só de ouvir sua voz contando sem titubear porque exatamente Konoha não perderia espantava muita da tensão que ela nem percebera ter até se sentir leve e tranquila de novo. — Obrigada. — ela sussurrou.

Geralmente, após dar um animado conselho e receber seu agradecimento, ele sorriria e possivelmente tocaria o topo de sua cabeça de forma afetuosa, como se ela fosse uma bobinha preocupada demais. Mas quando ele a encarou dessa vez, seu olho estava escuro e quase inelegível. Quase inelegível, porque o que ela conseguia ler era remorso.

De algum jeito, sobre alguma coisa, ele estava mentindo para ela.

Ele subitamente fechou o olho como se soubesse que ele tinha lhe traído e se levantou com rapidez. — Está muito frio aqui fora para você, e já que você insiste em me oprimir, vamos voltar os dois para dentro.

Ligeiramente confusa, Sakura se permitiu ser arrastada de volta pelo corredor até o quarto que eles abandonaram. Ela parou ao lado do seu futon, dedos agarrando os lados do casaco de Kakashi que ainda a mantinha aquecida em seu calor, mas Kakashi se dirigiu em linha reta pra sua cama com um suspiro cansado.

— Precisamos começar cedo amanhã, Sakura. — ele murmurou, tirando a poeira do travesseiro.

Ela se sentou no futon, mas não se moveu. — 'Noite, Sensei. — ela sussurrou em resposta, sua cabeça zunindo com pensamentos e confusão que aquele único olhar dele provocou. Mesmo quando ele se deitou e sua respiração nivelou, Sakura permaneceu sentada, olhando para sua figura e mortalmente ciente de que ele estava tão acordado quanto ela.


Próximo Capítulo: Catalisador


*Trecho da música IS IT ANY WONDER (Sophie Ellis-Bextor)

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