Casa dos Corvos
Capítulo Dois: Catalisador
Nós conversamos a noite toda e durante o dia
Até que não haja mais o que dizer
E quando acabamos, você diz que foi divertido
Mas é melhor assim*
Sakura levantou resmungando na manhã seguinte, exatamente ao mesmo tempo que o sol. Se dependesse dela, ela nem sonharia em acordar pelas próximas duas horas, no mínimo, mas numa missão com Kakashi você tinha de aceitar que haveria alguns exercícios medonhos de autodisciplina envolvidos. Embora isso, ela pensou ao olhar para o relógio, seja claramente um crime.
— Levanta, flor do dia. — disse ele, contornando seu futon para abrir as portas de correr, deixando entrar os primeiros raios pálidos do amanhecer. Revoltantemente, ele já estava de banho tomado e vestido com roupas civis cuidadosamente descuidadas. Isso fez Sakura perceber que seu hábito de ser um idiota preguiçoso que muitas vezes não saia da cama até o entardecer nos dias de folga era só para que ele pudesse fazer coisas horríveis como acordar às quatro da manhã nos dias de missão.
Sakura grunhiu ao rolar para fora da cama como uma morsa obesa e se arrastou em busca dos sapatos, e depois foi para o banheiro. Quando voltou, estava igualmente vestida com roupas civis, embora ainda não muito contente por ter jogado água fria no rosto. Ela notou Kakashi avaliando-a e lembrou-se da expressão naquele mesmo olho na noite passada. Mas hoje era um novo dia e a oportunidade de decifrar o que ela significava havia passado. Ela também poderia ter visto coisa onde não tinha, e se advertiu para não pensar muito nisso.
— Você está aceitável. — disse ele, embora lhe entregando um lenço retangular. — Talvez você deva usar isso? Seu cabelo é um pouco chamativo pro disfarce.
Sakura obedientemente o enrolou em volta do cabelo até que apenas alguns fios estivessem visíveis e, olhando no espelho, ela concordou com Kakashi. Ela parecia muito mais com uma garota simples e trabalhadora agora. — Pronta. — disse ela.
— Então vamos.
Eles se dirigiram à cidade ganhando vida aos poucos para dar início a missão de reconhecimento. Mesmo que fosse um lugar pequeno, ainda era grande demais para se cobrir apenas com dois agentes, então Kakashi recorreu à ajuda de seus cães ninjas. Disfarçando-se de vira-latas, eles também ficaram irreconhecíveis e se separaram para monitorar diferentes partes da cidade.
— Por que eu não uso minhas invocações? — Sakura sugeriu animada. Mas Kakashi, estremecendo, sugeriu que não.
— Pode causar mais problemas do que resolver. — disse ele vagamente.
Ela sabia que, na realidade, ele simplesmente não gostava de sua escolha de animal.
Previsivelmente, Sakura foi quem ficou presa no mercado ao lado de uma barraca de peixe particularmente fedida. Lá, ela passou a maior parte do dia enviando relatórios inúteis para Kakashi através de seu intercomunicador, e comprando porções de dango para mordiscar.
Ela manteve os olhos atentos para qualquer um que parecesse se destacar. Ninjas costumavam ser bastante distinguíveis dos civis, pois seus movimentos eram uniformemente rápidos e fluidos, e era perceptível que eram mais conscientes de seus arredores. Com alguma sorte, o ninja de Iwa que ela estava procurando estaria de uniforme apenas para facilitar sua vida. Mas à medida que o dia passava e o sol ficava no pico, Sakura ficava cada vez mais entediada e pessimista. Talvez eles tivessem ficado presos com a pista falsa, afinal?
— Novidades? — ela implorou a Kakashi pelo rádio.
— Não. — foi a resposta curta e concisa. Ele soava tão exasperado quanto Sakura se sentia, então Sakura não tornou a perguntar. Ela sabia que se ele visse algo, ele falaria. Até então, tudo o que ela podia fazer era passear pelas ruas, vigiando cada rosto que passava até o sol desaparecer por completo doutro lado do vale.
E uma garota andando sozinha invariavelmente chamava atenção alguma hora. No momento em que partes do mercado estavam começando a fechar e Sakura estava se reunindo com Scruffy - um dos cães ninjas apropriadamente nomeados de Kakashi - dois meninos se aproximaram dela. Eles eram talvez um ano ou dois mais novos que Sakura, mas incrivelmente seguros de si, e embora Sakura estivesse contente pela distração de assistir multidões sem graça, ela permaneceu convenientemente desinteressada para eles, não encorajando e nem desencorajando suas tentativas de impressioná-la.
— Você trabalha por aqui? — um deles perguntou. — Eu nunca te vi antes.
— Só estou de passagem com meu chefe. — ela respondeu com sinceridade.
— O que você vende? — o outro cara perguntou, assumindo o óbvio.
Ela olhou para a barraca detrás deles. — Peixe. — ela disse rapidamente. — Todo mundo gosta de peixe. Sempre há demanda por peixe.
— Verdade. — os garotos concordaram, prestando mais atenção em seus braços e tornozelos nus. Infelizmente para eles, suas roupas civis cobriam qualquer outra coisa que pudesse interessá-los.
Mas Sakura, olhando para a barraca de peixes, notou algo - ou melhor, alguém. Imediatamente ela soube que aquele era o jonin de Iwa que eles estavam procurando; ela podia dizer pelo jeito que ele se portava, e pelo modo furtivo que ele olhava pelo mercado, como se procurasse inimigos de uma maneira que nenhum outro homem dali faria. Suas roupas podiam ser simples como as dela, mas eram novas demais e ele parecia longe de estar confortável nelas.
Também havia uma bandana de Iwa cobrindo sua testa. Isso era sempre uma pista.
O homem começou a se afastar da sombra da porta em que ele estava parado e partiu entre a multidão. Sakura imediatamente se desculpou com os garotos e passou a perseguí-lo, atrapalhando-se com o rádio. — Kakashi-sensei, eu o encontrei. — ela sussurrou, esbarrando em alguém em seu esforço de manter os olhos presos nas costas do jonin de Iwa.
— Que? — Kakashi exigiu rispidamente em seu ouvido.
— O jonin da Pedra… eu consigo vê-lo.
— Fique onde está, estou a caminho.
— Não, ele está se movendo. Estou seguindo ele.
— Sakura, fique onde está.
— Mas eu vou perdê-lo! — ela reclamou em protesto.
— Sakura!
Qual o propósito de um velho careta que não deixava você fazer nada? Sakura puxou o rádio da orelha com um grunhido irritado e o enfiou no bolso. O jonin à sua frente atravessava a praça da cidade, desaparecendo em uma multidão de espectadores do lado de fora de algum tipo de clube. Se ela parasse agora, o perderia de vez. Seu contato mercenário provavelmente estava lá, e se Sakura esperasse por Kakashi, o acordo seria firmado e seus alvos partiriam.
Então, Sakura valentemente seguiu em frente, acenando para que Scruffy a seguisse. Ela se meteu na multidão e olhou em volta na busca do homem que estava seguindo. Não era fácil. O lugar estava cheio de homens, a maioria dos quais era inconvenientemente mais alta do que ela, de modo que ver sobre seus ombros era um pé no saco. Felizmente, Scruffy tinha o cheiro.
— Por aqui. — ele disse, navegando entre as pernas dos homens de pé e mesas. Sakura se encolheu para seguí-lo, até que ele a levou para o que parecia ser um quarto dos fundos.
Ali!
Ao lado da parede estava seu alvo, conversando com outro homem que parecia ainda mais decadente e suspeito! Era isso. Essa definitivamente era a reunião para a qual eles foram enviados para interceptar. Ele estava estendendo a mão e sacudindo a mão do mercenário... ela não podia mais esperar. Kakashi simplesmente não chegaria a tempo.
— Ei! Você! Parado aí!
O grito de Sakura fez o quarto cair em silêncio e todas as cabeças girarem em sua direção. Seu alvo também a olhou um segundo antes dela agarrá-lo pelas lapelas e derrubá-lo no chão. Enquanto ela pressionava o joelho em suas costas para mantê-lo no lugar, Scruffy fazia sua parte ao encurralar o segundo homem contra a parede com uma série de latidos e rosnados ameaçadores.
— Que diabos está fazendo? — o homem debaixo dela ofegou. — Quem é você?!
— Eu que faço as perguntas. — ela retrucou, puxando seu colarinho com força suficiente para sufocá-lo enquanto puxava uma kunai para pressionar contra sua garganta. — Você tem muita coragem para aparecer num lugar como este.
— Eu não faço ideia do que você está falando. — ele tentou se levantar, mas Sakura só enterrou o joelho com mais força em sua coluna até que ele tombou com um grunhido de dor. Estranho. Para um jonin, ele não parecia tão forte... e seu amigo mercenário tinha um medo incomum de cães.
— Qual era o propósito dessa reunião? — ela exigiu. — Me responda e eu te deixarei viver.
— Nós estávamos só... fazendo planos. — ele ofegou.
— Que planos? — Sakura aproximou a kunai. Gotas de sangue começaram a aparecer.
— Para o fim de semana! — o Jonin gritou. — Eu juro! Pare de me cortar… isso dói.
Sakura parou, mais em completo desgosto do que por piedade. — O quê?
— Olha, não sei o que eu fiz, mas eu juro que não fiz nada! — o homem debaixo dela tremeu. — É sobre aquela garota em Maika? Ela me disse que tinha dezoito anos!
— Se controla, homem, você é um jonin! — Sakura gritou. — E você invadir o território do país do fogo é considerado um ato de guerra.
— Invadir? Mas eu moro aqui!
Durante todo esse tempo, as pessoas observavam em absoluto espanto um o homem crescido sendo subjugado por uma jovem minúscula, enquanto o outro tentava subir numa mesa para evitar ser mordido por um vira-lata furioso. Então, uma nova pessoa entrou na sala com três cachorros a tiracolo. Ele levou um momento para avaliar a situação e, em seguida, com um assobio suave, ordenou que Scruffy parasse de aterrorizar o homem para voltar para o seu mestre.
Sakura não percebeu. — Como assim você mora aqui?
— Casa número doze, perto do pomar. Pergunte à minha mãe!
— Não diga besteiras… você é de Iwa!
— Não sou não!
— Então que diabos é isso? — Sakura tirou a hitai-ate do homem e esfregou no seu rosto. — Você realmente achou que eu não tinha reparado você andando por aí com uma insígnia da Pedra na cabeça?
— Uma o quê?
— Esta pequena gravura aqui. — ela apontou com o dedo, sua paciência ficando cada vez mais nula. — Essa coisa que parecem duas pedras, uma em cima da outra… esse é o símbolo de Iwa.
O homem encarou. — Eu não sabia disso. Um cara só me deu.
Sakura rangeu os dentes silenciosamente.
— De manhã. — ele continuou. — Um homem me entregou e disse que combinava comigo… que eu deveria usá-la. E-eu não sei quem ele era. Cara grande. Meio assustador. Eu não queria dizer não, entende?
Sakura estava debatendo se deveria arrancar a cabeça do homem apenas porque sim quando uma mão roçou em seu ombro. — Anda. Vamos embora.
Eles haviam sido enganados. Não a surpreenderia se, enquanto ela interrogava esse cara, o verdadeiro jonin de Iwa tivesse passado despercebido. Ele claramente estava ali de manhã para fazer desse cara uma distração. Provavelmente, a reunião já havia terminado e eles perderam a chance.
Sakura se levantou lentamente. — Desculpa. — ela disse, sem se arrepender, para o homem no chão, porque se as pessoas insistiam em andar por aí usando parafernália inimiga, ela sentia que não podiam reclamar se e quando levassem uma dura. Ela só se deu o trabalho de ajudá-lo a se levantar antes de rapidamente se virar e ir embora com a boca fechada para salvar a dignidade. As pessoas podiam encarar o quanto quisessem e sussurrar pelo canto da boca sobre como essa era a razão pela qual as mulheres não eram permitidas dentro do clube, mas os ouvidos de Sakura, embora normalmente atentos ao menor sinal de crítica, não estavam prestando atenção. Ela abriu caminho dentre a multidão reunida até estar na praça da cidade mais uma vez.
Kakashi e seus cães saíram atrás dela, e com a velocidade com que a porta foi batida atrás deles, ficou claro que todos haviam ganhado uma proibição vitalícia de entrar no bar.
— Alguém deu a bandana a ele. — ela reclamou com ele por cima do ombro. — Alguém de Iwa.
— Muito provavelmente. — Kakashi murmurou.
— O que significa que perdemos os alvos. — como diabos ela iria explicar isso a Tsunade?
— Não necessariamente. — Kakashi refletiu. — Esta vila é particularmente próxima da fronteira do país da terra. Lugares como este tendem a ter gente de tudo quanto lugar. Eles não têm o clima adequado para arroz no país da terra, então você pode imaginar com que frequência eles negociam com aldeias como a de Jonan.
Sakura parou e deu-lhe um olhar penetrante. — Você não podia ter mencionado isso antes?
— Não parecia relevante. — ele deu de ombros.
— Relevante? Eu estava apontando uma faca pro pescoço de um homem inocente!
— Nenhum homem é inocente. Tenho certeza que ele fez algo na vida para merecer tal tratamento. — Kakashi inclinou a cabeça. — Eu te disse para esperar.
— Se ele realmente tivesse sido o nosso alvo, isso significaria tê-lo deixado escapar. — Sakura respondeu. — Você realmente achou que eu ficaria de braços cruzados?
— Você já ouviu falar no provérbio sobre tolos apressados? — sua voz era afiada.
— Você já ouviu falar o sobre não fode? — a língua de ninguém era mais afiada que a de Sakura.
Três cães choramingaram ansiosamente a seus pés e, se tivesse um olhar que resumisse a palavra "cresça", seria o que Kakashi estava dirigindo a ela no momento. Ele olhou para a praça da cidade, que estava nitidamente mais vazia do que há algumas horas atrás, e depois para o céu escurecendo. — Não adianta brigar por causa disso; vamos só voltar para a pousada. Se houve ou não uma reunião aqui hoje, acho seguro dizer que a perdemos.
Sakura caminhou ao lado dele, carrancuda, irritada mais consigo mesma do que qualquer outra pessoa. A questão do temperamento de Sakura era que raramente ela o controlava, o que a tornava suscetível a descontar em qualquer pessoa infeliz o suficiente para estar por perto, mas isso era algo que Kakashi já tinha entendido. Ele nunca parecia se ofender demais com seu humor ácido. De certa forma, isso o tornava mais fácil de se ignorar.
Quando chegaram aos estreitos degraus rochosos que levavam à hospedaria no topo do penhasco, ela havia se acalmado um pouco. — O que dizemos a Tsunade-shishou? — ela perguntou, ainda carrancuda, mas disposta a conversar.
— A verdade. — ele disse com indiferença. — A missão foi inconclusiva.
Uma pontada de irritação invadiu Sakura enquanto eles procediam em fila única. Era tarde demais para voltar para Konoha, então eles agora tinham de passar a noite. Que desperdício de tempo essa missão tinha sido!
Uma vez no topo, Kakashi dispensou suas invocações e uma empregada de olhos escuros e cabelo platinado os cumprimentou na porta da hospedaria, os convidando para jantar. Sakura teria aceitado assim como fizeram na noite anterior, mas Kakashi lançou um olhar de consternação para a mulher e anunciou que eles decidiram ter uma noite tranquila no quarto.
— Não me lembro de ter decidido isso. — Sakura murmurou em voz baixa ao caminharem descalços de volta para o quarto, se afastando da empregada na entrada. — Eu estava ansiosa para comer decentemente.
— Podemos pedir alguma coisa. — ele respondeu com um encolher de ombros.
— Só porque você é anti-social, não significa que eu tenha de ser. — disse ela. Eles entraram no quarto alugado e a primeira coisa que Sakura fez foi tirar o lenço da cabeça. Melhor assim.
A mão de Kakashi tocou seu braço suavemente, fazendo qualquer pensamento que sairia de sua boca em seguida desaparecer. — Por que não ficar aqui e jantar comigo?
Ele passara muito tempo cercando de cachorros, porque ele tinha aquela expressão levemente esperançosa, suplicante e ligeiramente magoada masterizada. A resposta usual de Sakura era imitá-lo, pois ele era mais suscetível a suas próprias táticas do que ela, mas desta vez ela sabia que seu desejo de permanecer era maior que o dela de jantar fora.
Sakura perdeu a silenciosa guerra de expressões e cruzou os braços. — Tudo bem. — ela disse, irritada. — Mas eu queria afogar as mágoas.
— Nós podemos muito bem fazer isso daqui. — ele caminhou até um armário baixo contra a parede e abriu as portas para gesticular pro seu interior.
— Saquê! — ela exclamou.
Não havia muito o que se fazer nesta cidade para afogar as mágoas, então eles pegaram uma garrafa e sentaram-se na varanda, assistindo o pôr do sol. Apesar de trabalharem juntos há oito anos, era raro que tivessem a oportunidade de desfrutar juntos em privado uma bebida. Houve muitas vezes recentemente, especialmente com as missões mais recentes de times pela metade, que eles se sentaram e comeram juntos (e ela descobrira que ele era um meticuloso que comia com os dedos muito próximos da comida), mas não era comum que eles compartilhassem uma garrafa de vinho de arroz.
Kakashi serviu um copo de saquê para cada um e Sakura o levou até o nariz. Então ela pensou em sua fraqueza para álcool. — Quer algo para comer? — ela perguntou a Kakashi.
— Não. — ele disse de forma breve.
— Bem, eu quero. — álcool sempre caia melhor se ela tivesse alguma comida para acompanhá-lo, e ela não estava com vontade de aloprar muito esta noite. — Eu acho que vou até a cozinha pegar...
— Não, pode deixar, eu faço isso. — disse Kakashi de repente. — Você fica aqui e eu pego.
— Mas... você nem sabe o que eu quero. — Sakura apontou, piscando para ele.
— É só me dizer. — ele disse.
— Mas... eu não sei o que está no menu.
— Por que você não pede o mesmo de ontem?
— Mas... eu não quero a mesma coisa de novo...
Ela o encarou enquanto ele batia os dedos impacientemente contra o chão de madeira da varanda. Ele parecia determinado a fazer isso por ela, mas ela não conseguia entender direito o motivo. Kakashi nunca se esforçava para fazer algo remotamente parecido com um "favor" para ninguém, e era até uma piada na aldeia que Kakashi não ajudaria sua própria mãe a levantar se ela caísse da escada. Não tendo mãe, era difícil averiguar se essa afirmação era verdadeira ou não.
Pelo menos ela sabia que isso não estava certo.
— Você pode vir comigo? — ela ofereceu após uma longa pausa.
Seus dedos pararam de tamborilar. — Eu não estou com fome.
Obviamente, esse não era o ponto! ela pensou exasperada. Ele já havia dito que não queria comida, mas se ofereceu para buscar em seu lugar, mas recusou quando perguntado se queria ir junto, mas...
— Tudo bem. Que seja. — Sakura suspirou, desistindo antes de ganhar uma dor de cabeça. — Volto em um minuto.
— Espero que sim. — e algo no modo como ele disse fez parecer que ele realmente esperaria. Como se ele fosse correndo pelo corredor arrastá-la de volta pela orelha se ela não voltasse exatamente em sessenta segundos.
— Que homem esquisito. — ela sussurrou para si mesma ao sair do quarto, sabendo que ele podia ouvi-la.
Ela seguiu pelos corredores, procurando a cozinha para fazer seu pedido. Uma das cozinheiras alegres entregou-lhe um cardápio e ela deliberadamente levou pelo menos um minuto e meio para decidir o que comer.
Kakashi não veio correndo pelo corredor. Que decepcionante.
Dez minutos depois, ela voltou ao quarto com uma simples bandeja de tofu frito e, depois de vasculhar por um segundo a mochila em busca de um determinado objeto, levou as coisas para a varanda onde Kakashi ainda estava sentado. Seus olhos se encontraram, e era uma daquelas raras ocasiões em que eles se encaravam sem uma máscara entre eles.
Ele notou o livro na mão dela. — O que você está lendo? — ele perguntou.
— Naka. E você? — ela não tinha deixado de notar o livro que ele pegara em sua breve ausência.
— Pornô.
— Me pergunto, estamos virando pessoas enfadonhas e previsíveis? — ela suspirou quando tornou a se sentar. — Bem, talvez eu esteja. Você, no entanto, já era enfadonho e previsível.
— Eu troco com você. — ele sugeriu. — Vou ler seu maldito Naka se você ler meu pornô.
Sakura considerou. Ela tinha certeza de que ele aprenderia a abraçar o lado romântico de Naka se apenas lesse um pouco de sua prosa por vontade própria, mas ela estava disposta a ser submetida a pornografia no processo? Não que ela implicasse com pornografia. Ela tinha alguns livros sujos escondidos debaixo do colchão em casa, mas a regra para as meninas era que você podia ser uma pervertida, desde que ninguém descobrisse. Ler pornografia na presença de uma testemunha era simplesmente um tabu.
— Passo, muito obrigado. — ela abriu o livro e depois, sentindo que Kakashi precisava relaxar um pouco, respirou fundo o ar fresco da montanha e olhou para o pôr do sol através do céu amarelado. — Isso não mexe com a sua alma?
— Nem pense nisso.
— Acho que esse momento pede por um pouco de poesia.
— Não se atreva.
— "Meu amor é minha prisão, minhas palavras são minhas chaves…"
Ela teve de parar naquele instante porque Kakashi enfiou um pedaço de tofu frito na sua boca.
— Você tem razão, isso mexe com alguma coisa. — ele disse alegremente enquanto ela tentava decidir se mastigava, engasgava ou cuspia.
— Está preso na minha garganta… — ela reclamou. — Tão seco...!
Ele entregou o copo de saquê que ele já tinha enchido para ela e ela rapidamente tomou em goles largos até o tofu descer por completo. — Poesia romântica, — ele disse a ela. — é para garotas e homossexuais reprimidos. Nenhum homem hétero jamais ficaria interessado por letras cheias de frufru.
Possivelmente havia alguns poemas de Naka que ele poderia se interessar, mas Sakura se absteve de recitá-los por vergonha. Kakashi gostava de rejeitar seu amor pela poesia de Naka, alegando que era tudo simplista, cor de rosa e nada real, mas isso era apenas porque ele não sabia das outras coisas.
— O verdadeiro amor não é sobre dar as mãos e sentir as coisas. — continuou ele. — O verdadeiro amor é complicado, sujo e doloroso mais frequentemente do que puro, honesto e agradável.
— Você acha que eu não sei disso? — ela respondeu com uma pontada de arrependimento. Ninguém poderia acusar Haruno Sakura de não conhecer o amor. Ela passara a maior parte de sua vida apaixonada e sendo ignorada, e ela sabia exatamente o quão angustiante e complicado o amor podia ser, porque ainda doía.
Mas se ele queria sujo, ela podia dá-lo também.
Sem olhar para o livro, ela começou a recitar. — O anel que circunda o dedo da minha amante, recebido com prazer, deslizou sobre sua junta e, em seguida, repousou. Que encaixe tão bem quanto ela se encaixa em mim. Friccionando confortavelmente. Precisamente do tamanho certo…"
— De quem é esse?
— Do Naka.
— É imundo. — ele olhou para ela com uma sobrancelha arqueada. — E você sabe de cor.
Sakura desviou o olhar e levou o copo aos lábios enquanto suas bochechas ardiam. — Eu nem cheguei na melhor parte.
— Estremeço só pensar.
Sakura engoliu seu saquê com convicção, mais para esconder seu constrangimento do que qualquer coisa. Mas é claro que ela esquecera que era saquê, não água, e ficou a ofegar e tossir assim que o álcool atingiu seu estômago e - o que se parecia com - seu cérebro.
— Você não deveria ter feito isso. — ele observou, notando ela vacilar. — Não é você que cai do assento no bar depois de uma taça de vinho? Ou é o Naruto?
— Não, sou eu. — ela não se dava bem com o álcool, então conscientemente afastou o copo e esperou a tontura retroceder.
Por outro lado, ela conhecia Kakashi bem o suficiente para saber que ele tinha uma aparência de falsa sobriedade quando bêbado, e geralmente a única coisa que o denunciava era uma língua um pouco mais solta e a tendência de sorrir com mais frequência. Ele não começaria a balançar vertiginosamente até o quarto ou quinto copo. Quando ele ficava realmente bêbado, começava a rir, e seria então a hora de levá-lo para casa antes que ele começasse a passar cantadas ruins para as garçonetes.
E então para os garçons.
No entanto, Sakura não podia se gabar por estar particularmente sóbria no momento. O saquê havia se transformado em um calor exacerbado que a deixou se sentindo leve e alegre. Não bêbada, mas com uma certa autoconfiança que a deixava saber que havia um relaxante em suas veias.
— Fico feliz que esteja se sentindo melhor hoje. — disse ela honestamente.
— Hum? — ele olhou para ela.
— Você parecia agitado ontem à noite. Pensei que estivesse com raiva de mim ou algo do gênero.
Ele balançou sua cabeça. — Não vejo por que eu estaria. E se eu me animei, provavelmente foi porque você é uma boa companhia. — disse ele, dando-lhe um leve sorriso. — Melhor que a maioria.
Havia um calor suave naquele sorriso que ela não estava acostumada. Desconcertada, ela sorriu vagamente de volta e voltou sua atenção para o pôr do sol, tentando descobrir o que aquele sorriso a lembrava e o que significava. Talvez ele estivesse um pouco bêbado, afinal. Raramente Kakashi admitia em voz alta que gostava da companhia dela. Ela sempre suspeitou disso, mas ele nunca vocalizara tais sentimentos.
Era melhor não pensar nisso, para que ela não acabasse pensando demais.
— Uma pena o que aconteceu com a missão. — ela soltou.
Ele deu de ombros. — É o que acontece às vezes. — disse ele. — Você sentirá falta disso quando a guerra começar.
— Provavelmente.
Eles ficaram sentados em contemplativo silêncio enquanto o sol se escondia atrás das montanhas, manchando o céu de um laranja quase ardente. Gradualmente ficou mais escuro, porém quando Sakura olhou para Kakashi, ela ainda pôde ver o reflexo em seu olhar. — O que você está pensando? — ela perguntou.
— Guerra traz arrependimentos. — disse ele. Suas palavras foram quase abafadas pelos dedos pressionando seus lábios distraidamente. — O resultado da guerra pode ser imprevisível, mas o que você pode sempre prever é que fará algo de que se arrependerá. Algo que nunca poderá voltar atrás.
A que exatamente ele estava se referindo? Crimes de guerra? Ele não tinha nenhum em seu registro, ou pelo menos nenhum que tivesse sido reportado. Talvez tenha sido a erros mais pessoais que ele se referiu? — Todo mundo tem arrependimentos. — disse ela, escolhendo um tom apaziguador.
— É mesmo? — ele disse suavemente. — Quais são os seus então?
Sakura sentou e brincou com a barra do short de algodão. — Vejamos... quando eu era menor, estava no mercado com a minha mãe. Não me lembro por que, mas eu estava de mal humor. Estava amuada, fazendo pirraça e esperneando, e minha mãe estava se esforçando bastante para me animar. Ela ofereceu me comprar um pacote de bebês d'água de uma das barracas de brinquedos, mas eu recusei.
Ela ficou em silêncio e depois de um momento Kakashi olhou para ela, incerto. — E?
— E, — ela enfatizou. — você sabe o quão irados bebês d'água eram quando eu era criança? Todo mundo os queria! Você os coloca na água e eles mudam de cor e tudo mais, e se você coloca um menino com uma menina, eles se multiplicam várias e às vezes até geram plantas e outras coisas. Mas eu estava tão mal humorada que disse "não", e por anos eu me arrependi muito disso.
Kakashi a encarou. — Você se arrepende... de não ter ganhado bebês d'água.
— Sim. Por quê? Do que você se arrepende?
Era como se ele não tivesse certeza de como superar sua história épica de arrependimento. Ele piscou repetidamente, olhou para o céu escurecido e depois disse meio vagarosamente. — Me arrependo... de ficar bêbado na festa de aniversário da Morioka Hana quando eu tinha dezesseis anos. Ela me deu todos os sinais, me deu até um beijinho, e quando ela estava prestes a me levar pro quarto, eu vomitei nos seus sapatos e desmaiei. Ela nunca mais falou comigo.
Apesar de sua desventura, Kakashi estava sorrindo em autodepreciação, e não pareceu se importar muito quando Sakura começou a rir tanto que quase caiu para trás. — Isso… você… ah… ai, meu estômago! — ela ofegou, secando as lágrimas. — Talvez ela só tenha fugido, Sensei! Uma garota que é dissuadida por um pouco de vômito não vale o seu tempo.
— Você é muito dura com as garotas normais, Sakura. — ele repreendeu. — Você provavelmente limpa vômito todos os dias naquele maldito hospital, então você já se acostumou com esse trauma. Não se pode esperar que garotas normais lidem bem com demonstrações violentas de... entusiasmo.
— Talvez. Ela ainda parece muito espalhafatosa.
— É, eu não sei o que estava pensando na época. — ele passou a mão pelos cabelos bagunçados e sorriu novamente com carinho por suas próprias memórias. Guerra e arrependimentos foram momentaneamente esquecidos e ele relembrava de tempos mais felizes.
É claro que Sakura tinha arrependimentos, e alguns mais sérios que ainda a assombravam. Ela se arrependia de não ter sido importante o suficiente para Sasuke para fazê-lo ficar. Ela se arrependia de estar muito ocupada no hospital salvando a vida de outras pessoas para ter percebido a saúde de sua própria mãe se deteriorando até que fosse tarde demais. Ela se arrependia de ter sido maldosa com sua mãe aquele dia no mercado porque por vezes ela fora uma criança revoltantemente egoísta que machucara os sentimentos de sua mãe em muitas ocasiões, mas deixar que esses arrependimentos a dominassem e a arrastassem para a miséria não era como alguém deveria viver a vida
E ela não planejava deixar Kakashi fazer isso também. Ele provavelmente tinha arrependimentos suficientes para durar várias vidas, mas Sakura preferia quando ele sorria e ria e contava histórias embaraçosas sobre sua juventude. Nem todo mundo tinha que ficar preso em sua própria escuridão.
— Um brinde. — disse Kakashi, entregando-lhe o copo de saquê.
— Ao que? — ela perguntou, confusa.
— A bebês d'água e vômito, — disse ele com a cara séria. — e Haruno Sakura.
— A bebês d'água, vômito e a mim. — ela concordou. — Claramente, todos no mesmo patamar.
Ela tomou um longo gole e depois outro na tentativa de acompanhar Kakashi, que parecia estar bebendo seu copo de uma só vez. Quando ela chegou ao fim, sua cabeça girou e ela imediatamente lembrou mais uma vez que não tinha tolerância. — Aah. — ela soltou, sorrindo timidamente. — Deveríamos parar. Temos que voltar amanhã, e não há nada pior do que viajar de ressaca.
— É, você tem razão. — disse ele, enquanto servia a ambos mais uma dose.
Em retrospecto, Sakura pensou que deveria ter sabido ser uma má idéia. Mesmo quando as missões eram um fracasso aparente, nunca era prudente baixar a guarda. O álcool era um dos três pecados shinobi, afinal. No entanto, uma parte altamente suscetível de sua personalidade pensava que, se Kakashi estava fazendo isso, não poderia ser tão irresponsável, pois Kakashi era, sob muitos aspectos, a própria definição de "sensatez".
Tinha isso e o fato de ser uma experiência singular poder fazer Kakashi rir tão facilmente. Era um prazer em si só enchê-lo de mais bebida para ver seu exterior rígido e taciturno desmoronar um pouco. Seus sorrisos vinham com mais frequência, e seu olhar permanecia no dela um pouco mais do que o necessário. Toques eram trocados livre e casualmente, mas ainda com uma emoção que intrigava Sakura tanto quanto seus sorrisos.
Quando ela o pegou olhando para ela novamente, ela sorriu e balançou a cabeça como se estivesse perplexa. — O que? — ela perguntou.
— Nada. — ele deu de ombros com um sorriso privado. — Eu estava pensando no quanto você parece um hamster comendo tofu assim.
Ela levou um minuto a mais para mastigar antes que pudesse engolir e responder. — Essa é uma das comparações mais lisonjeiras que eu já recebi.
— É?
— Outras crianças costumavam me chamar de cabeçuda. Testa de marquise. Você pode não ter notado, mas por baixo dessa franja minha testa se estende até aqui. — disse ela, apontando para um lugar improvável na parte de trás do crânio.
— Então eu deveria parabenizá-la por conseguir esconder tão bem.
— Convincente, não?
Ele riu baixinho. — Eles estavam apenas com inveja, Sakura. Você é uma garota muito bonita e uma das mais inteligentes que eu conheço. Eu ficaria surpreso se você não tivesse provocado alguma inveja ao longo do caminho.
O outro problema de Kakashi elogiar tão raramente era que era difícil saber como responder. Ela voltou o rosto para o vale, esperando que o céu escurecido escondesse seu enrubescer enquanto sorria e dava de ombros. — Nem todo mundo implica com os outros por inveja. Isso é apenas algo que as vítimas dizem umas às outras para se sentirem melhor. Na verdade, as pessoas implicam com as outras porque se sentem superiores, seja física ou mentalmente. O instinto humano de ostracizar desajustados é mais forte que o instinto de ostracizar aqueles que admiramos.
Ele estalou a língua. — Você ficaria mais feliz se acreditasse que eles faziam isso por inveja.
— Você já sofreu perseguição?
— Não. Eu era um valentão.
— Você ainda é para a maioria dos seus subordinados.
— Apenas sem querer.
— Bem, você parece de boas para mim.
— Talvez porque você vá me bater se eu não for gentil?
Ela torceu o nariz e bateu com o ombro no dele. — Eu sei que no fundo você é um grande amorzinho. Eu já vi você lendo os poemas mais sentimentais do Naka disfarçados de pornô quando você acha que ninguém está olhando. E eu testemunhei as lágrimas masculinas de emoção escorrendo pelo seu rosto quando...
— Não, isso foi apenas um sonho que você teve. — ele protestou.
— O que você sabe sobre os meus sonhos? — ela perguntou arrogantemente.
— Eu sei que estou neles algumas vezes.
— Fazendo o que? — ela perguntou imprudentemente. As sobrancelhas dele se contraíram sugestivamente e ela ofegou, escandalizada. — O que… nunca! Eu nunca… ah, você é tão pervertido!
Bem, nunca era um tanto mentira. Houve uma noite estranha cerca de um ano atrás, quando, depois de passar mais de duas semanas mimando seu superior doente, ela sonhara em montá-lo numa cama de hospital e acordara profundamente perturbada. Principalmente porque ela não quisera acordar. No entanto, ela teve sonhos sexuais com a maioria dos caras que ela era consideravelmente próxima, e até vários envolvendo Ino. Não significava nada (além de que ela provavelmente era um pouco gay), mas apenas lembrar disso numa situação como aquela fazia sua pele esquentar com uma mistura de vergonha e outra coisa.
— Estou apenas brincando com você. — ele tranquilizou.
— Você é um homem mau. — ela bufou de brincadeira.
— Pensei que tivéssemos concordado que eu era legal com você.
— Retiro o que disse; você é irremediavelmente terrível.
— Grandes palavras para uma garota bêbada.
— Não menos verdade. — ela respondeu.
Ele suspirou. — É, talvez...
Quando ela voltou a olhar para ele, notou que ele estava olhando para o vale novamente, sua expressão um pouco mais retraída do que há momentos atrás. De repente, ele passou a mão sobre a testa e fechou os olhos, como se finalmente tivesse percebido algo.
— Talvez devêssemos encerrar a noite? — ela sugeriu, imaginando que talvez ele tivesse bebido demais.
— Suponho que seja melhor. — disse ele densamente. — Antes que eu faça algo realmente embaraçoso que você vá usar contra mim pelo resto da minha vida.
É mesmo? — Pensando bem, você gostaria de outra bebida? — ela perguntou brilhantemente.
Até Kakashi não estava bêbado o suficiente para cair nessa. — Ha ha. — ele soltou enquanto se levantava um pouco instavelmente para voltar ao quarto deles. Sakura o ouviu colidir com a porta pelo menos duas vezes e estremeceu. É. Ele bebera um pouco demais...
Sakura pretendia ficar um pouco mais para aproveitar a noite quente e ver as estrelas aparecerem, mas isso foi por água abaixo quando um chamado lamentoso ecoou atrás dela. — Sakura-chan! Me ajude.
Ela suspirou e revirou os olhos. — Sim, senhor. — ela respondeu em divertimento, e em silêncio desejou boa noite aos céu antes de voltar para o quarto.
Kakashi já estava sentado no futon, esfregando as têmporas como se estivesse com dor de cabeça. Ele não precisava tanto assim de ajuda, ele só queria atenção. — Aqui. — disse ela, puxando um jarro do armário e enchendo um copo de água. Ela o entregou, mas quando ele não conseguiu fazer mais do que segurá-lo, ela ajoelhou-se ao lado dele e guiou o copo prestativamente aos lábios dele, forçando-o a beber ou ficar coberto de água. Ele acabou fazendo um pouco de ambos e tossiu e resmungou enquanto ela observava com um sorriso.
— Você diz que eu sou uma pessoa má. — protestou ele, a água escorrendo pelo queixo. — Por que você não só derrama sobre a minha cabeça?
— Ok. — Sakura falou alegremente, e tentou fazer exatamente isso.
Mas mesmo que ele estivesse bêbado, os reflexos de Kakashi não estavam tão entorpecidos, e ele estendeu a mão ao mesmo tempo para pegar o copo e lutar com ela pelo controle. O copo começou a inclinar perigosamente na direção de Sakura. Ela chiou e tentou empurrá-lo de volta. No entanto, a próxima coisa que ela percebeu foi que Kakashi estava rindo e ela encharcada com água fria.
Gotas de água fria escorriam pelas pontas de seu cabelo e caíam no decote do colete. — Eca. — ela reclamou, fazendo uma careta.
Ela notou Kakashi sorrindo suavemente para ela, mais uma vez com aquela estranha expressão quente em seus olhos que parecia tão familiar, mas tão estranha. Ela tremeu um pouco e não achou que fosse pela água fria, mas sim pela excitação de outro tipo. — O que? — ela perguntou, dando-lhe um sorriso tímido.
— Você. — ele disse, como se fosse óbvio. — Você é incrível.
Ninguém nunca dissera que ela era incrível antes - pelo menos não de uma maneira agradável. Um rubor irrompeu em suas bochechas; um que se piorou quando ele estendeu a mão para afastar uma mecha de cabelo molhada da bochecha dela.
— É claro que eu sou incrível. — ela começou a balbuciar nervosamente. — Por que eu não seria incrível? Eu era a melhor da minha classe, sou uma médica de elite e aprendiz da Hokage, e eu posso vencer do Jinchuuriki das nove caudas com um braço amarrado nas costas… É claro que sou incrível. Também fico bem com água fria na cara.
Ela estava nervosa porque ele parecia estar chegando mais perto. Ele ainda estava segurando o pulso dela de quando ajudou a levantar o copo de água sobre sua própria cabeça, e seu polegar deslizava suavemente para frente e para trás na pele sensível do interior de seu braço. Arrepios correram por sua espinha, fazendo-a ficar quieta ao observá-lo apreensivamente enquanto ele a observava, até que seus olhos pesados pareceram deslizar de seu rosto para seus lábios.
— No que está pensando, Kaka-sensei? — ela sussurrou.
Ele sorriu letargicamente. — Em como é fácil esquecer das coisas quando você está por perto. — disse ele, e então gentilmente soltou o pulso dela para cair de costas com um suspiro. O clima fora quebrado, embora Sakura ainda se sentisse terrivelmente estranha e quente ao olhar para ele se espreguiçando e esfregando os olhos cansadamente. Sua camisa havia subido um pouco, expondo uma parte de seu abdômen nu coberta esparsamente por cabelos claros e ásperos que desapareciam sob o cós da calça. Era a visão mais fascinante que Sakura já tinha tido.
— A guerra sempre traz arrependimentos. — disse Kakashi, desconcertado. Sakura podia ver que sua mente havia retrocedido para o tópico anterior. — Você sempre perde alguém. Eu perdi minha mãe na segunda guerra secreta, meu pai na terceira, junto dos meus amigos e professor. Então você pensa, se todo mundo está morto, você não pode mais se machucar, certo? Então eles vêm até você da surdina e você se encontra de volta onde começou, e tudo o que você pode fazer é esperar que desta vez tenha forças para manter todos vivos dessa vez.
— Blá, blá, blá… — Sakura murmurou, cutucando o nariz dele. — Você está bêbado, sensei.
Ele segurou a mão dela. — Eu sempre estarei aqui pra você, Sakura. Não vou deixar que ninguém morra desta vez.
Ela sorriu timidamente para ele, perplexa com a seriedade dele. — Eu posso cuidar de mim mesma. O que você estava dizendo ontem à noite sobre você cuidar da sua saúde e eu cuidar da minha?
— Não seja tão orgulhosa. — ele sussurrou, fechando os olhos. — Você não precisa ser orgulhosa comigo.
A mão dele caiu ao lado do joelho dela e Sakura observou seu rosto curiosamente, percebendo que ele estava rapidamente pegando no sono. — Você não é o melhor companheiro de bebedeira, sabia? — ela disse para seu rosto suave e impassível. — Dormindo na minha cara, credo.
— Eu não estou dormindo. — ele murmurou, e só para provar ele deu um tapinha na sua bunda...
... e Sakura socou-lhe forte o suficiente no estômago para fazê-lo rolar com um grunhido de dor. — Guarde essas mãos pra você, seu velho pervertido. — ela o repreendeu severamente. — Só porque eu estou bêbada não significa que você pode tirar vantagem de mim.
Kakashi permaneceu imóvel e em silêncio.
Ela se inclinou sobre ele. — Sensei? — ela perguntou. — Você está morto, sensei?
— Sim. — ele respondeu.
— Ah. O que você quer que eu diga no seu funeral?
— Diga que eu era incrível e inteligente. E que eu morri fazendo o que amava.
— Ok. Mas eu vou dizer pra todo mundo que você morreu fazendo amor com um aspirador de pó.
Ele reclamou. — Eu não duvidaria. Você é cruel, Haruno Sakura.
— E é por isso que você me ama.
— Ache o que quiser. — ele resmungou de mau humor.
Ela se inclinou e deu um beijo suave em sua têmpora, como se não o tivesse socado em primeiro lugar. — Boa noite, sensei. — ela disse docemente. — Temos uma longa jornada de volta amanhã, então tenha sonhos agradáveis.
— Eu desejaria o mesmo, mas eu estaria mentindo. — ele disse asperamente, esfregando o estômago abusado. Apesar da carranca óbvia que forçara, ele ainda não conseguia esconder um sorriso sonolento.
Sakura rastejou para seu próprio futon e se enfiou dentre os lençóis frios com um suspiro, sentindo-se inexplicavelmente quente e feliz, e talvez apenas em parte devido ao saquê. Quando fechou os olhos, ela viu o sorriso caloroso de Kakashi e lembrou-se da maneira casual que ele tocara seus cabelos, e depois daquela parte desprotegida de sua barriga desnuda. Seu coração se sentia preenchido e ela não se importou em analisar o porquê. Tudo o que ela queria era dormir pensando nele... em como se a camisa dele subisse mais alto, teria ele um umbigo para dentro ou para fora?
Uma risada escapou de seus lábios antes que ela pudesse refrear.
— Pare de ter pensamentos pervertidos sobre mim, Sakura. — Kakashi murmurou do seu lado do quarto.
— Nos seus sonhos. — ela respondeu sonolenta e rolou para enterrar a cabeça no travesseiro.
Se ela teve sonhos agradáveis, certamente não se recordou deles ao acordar. Uma luz pálida e fria atravessava as portas abertas de correr e uma dor aguda invadia seu nariz e, pelo que parecia, seu cérebro também.
— Ai... minha pobre cabeça. — ela resmungou ao se sentar, ignorando o peso de uma ressaca que a deixaria de cama.
— É isso que você ganha por beber durante o trabalho. — disse uma voz do outro lado do quarto, em um tom muito hipócrita para um homem que bebeu pelo menos o dobro do que ela. Ela lhe lançou um olhar turvo, notando que ele estava vestido, de banho tomado e reclinado de uma maneira relaxada contra a parede com o mesmo e velho Icha Icha na mão.
Não havia justiça no mundo. Os velhotes não deveriam sofrer com ressacas mais fortes que os mais jovens?
Sakura deu um grunhido irritado e chutou as cobertas para se dirigir até a tela divisória com pernas bambas. A tarefa terminada e oficialmente um alarme falso, ela não sentiu nenhuma necessidade de vestir novamente suas roupas normais de trabalho. Depois de desaparecer no banheiro para jogar água nos olhos, era hora de partir.
— Pronta? — Kakashi perguntou quando ela reapareceu.
Ele estava inegavelmente com um humor melhor do que ontem, mas a essa altura ela havia desistido de tentar entender o que isso significava. — Pronta. — ela concordou com uma voz grossa, e juntos eles foram até a recepção para pagar as contas.
— Alguma coisa do minibar? — a mulher detrás da mesa perguntou.
— Só o saquê. — Kakashi admitiu para ela. Sakura estava atrás dele, esfregando as têmporas e desejando muito que eles já estivessem de volta em Konoha.
— Uhum. — a mulher anotou mais despesas no recibo. — Vocês usaram quaisquer outras coisas?
— Bem, teve um aspirador de pó...
Risadas roucas de repente surgiram de Sakura enquanto a atendente olhava para os dois em confusão. — Perdão? — ela perguntou, franzindo a testa para Kakashi.
— Nada não. — ele disse seriamente, falando por cima dos risos de Sakura. — Não usamos nada. Quanto que deu?
Sakura ainda estava lutando para controlar o riso após Kakashi pagar a mulher e eles saírem. A empregada de cabelos platinados da noite anterior havia sido substituída por uma empregada de cabelos castanhos que lançou a Sakura um olhar preocupado ao passarem. — Você não tem nenhuma consideração pela minha pobre cabeça? — Sakura o perguntou. — Não conte piadas estúpidas.
— Eu só conto porque você ri igual uma idiota. — ele ressaltou.
— Não rio não. Nem um pouco. — disse ela, de repente nem um pouco divertida.
Eles encontraram a estrada que dava para a saída da cidade e, em pouco tempo, os prédios começaram a desaparecer atrás de árvores e penhascos, até que tudo o que eles viam eram longos arrozais e o vislumbre distante do oceano à sua direita. Mesmo no interior, ela podia sentir a pitada de sal no ar.
— Você acha que Naruto e Sai encontraram alguma coisa em Chiba? — ela murmurou para seu companheiro em silêncio. — É irritante não termos encontrado nada, mas talvez não tenha sido uma perda de tempo.
— Hum? — Kakashi olhou para ela.
— Ar fresco, vista bonita, duas noites numa pousada, todas as despesas pagas por Konoha. — ela deu de ombros. — Devíamos ver essas oportunidades como férias.
Ele desviou o olhar novamente. — É mesmo? — ele não parecia completamente convencido.
Sakura lançou-lhe um olhar tímido enviesado. — Estou grata de ter vindo com você. — disse ela sinceramente. Ele não olhou para ela ou respondeu de forma alguma, mas ela sabia que o surpreendera. — Você não é uma má companhia.
— Ofensa disfarçada de elogio? — ele adivinhou.
— Estou falando sério. — disse ela. — Esta missão poderia ter sido uma chatice completa. Se eu viesse com Naruto, ele teria reclamado o tempo todo. Se eu viesse com o Sai, eu já teria o matado. Gosto de passar o tempo com você… eu acho, só isso.
Ele ficou quieto por um longo tempo. — Entendo.
Talvez ela tivesse falado demais ou fora de hora. Ela sabia que ele não era um homem que se sentia à vontade para se expressar, e ainda menos à vontade com outras pessoas se expressando. Era fácil brincar com ele, e diabos, até flertar com ele como ela fizera ontem à noite com o saquê, mas quando a conversa se tornava sincera e pessoal, de repente não havia nada a dizer.
Ele estava envergonhado, ela podia dizer, então para poupá-lo, ela se virou e olhou para as intermináveis plantações de arroz. Fora o suficiente para tirar aquele peso do peito, e agora ela podia voltar para as coisas sem sentido e idiotas como: — Como você acha que eles fazem arroz tufado?
Que era um assunto sobre o qual Kakashi sabia muito mais do que sentimentos e, portanto, podia falar muito mais livremente, mesmo que não fosse muita coisa.
Sakura teria de viver com o fato de que seu superior sempre seria um idiota deslocado e fazer com que ele falasse às vezes era um milagre. Ela tinha que agradecer pelo fato de conhecê-lo há tanto tempo que eles podiam conversar com relativa facilidade, e ela sabia que ele falava com ela de uma maneira que não fazia com mais ninguém, mesmo com pessoas que ele conhecera a vida toda. Muitas pessoas diziam que Hatake Kakashi não tinha o menor senso de humor, mas isso não era verdade. Era só que apenas poucas pessoas conseguiam vê-lo, e mesmo quando viam, menos pessoas ainda entendiam. Infelizmente, Sakura era uma delas.
Ele era uma boa companhia, uma vez que você se acostumava com ele. Podia ter demorado alguns anos, mas Sakura podia dizer com facilidade que considerava Kakashi um de seus amigos mais próximas. Ela realmente gostava dessas missões sozinhas com ele, e gostava de como, quando ele estava bêbado, ele olhava para a boca dela e tocava sua pele e até ocasionalmente agarrava sua bunda. É claro que ela não podia deixar que ele soubesse que ela gostava, mas não era assim com nenhum de seus outros amigos. Ela nunca tinha a vontade de dar liberdade a eles do jeito que fazia com Kakashi.
Pela tarde, eles seguiram um rio em direção a uma cidade pequena, mas surpreendentemente movimentada. Sakura sugeriu que eles a contornassem. Lugares como este estavam sempre cheios de ladrões.
— Me pergunto se eles vendem aspirina aqui. — Kakashi refletiu.
Sakura olhou para ele pelo canto do olho. — Você está de ressaca, não é?
— Possivelmente. — ele disse, se esquivando. — Você pode andar por aí, se quiser, mas eu acho que vou dar uma procurada. Encontro você do outro lado?
— Claro. — Sakura particularmente não se importava. Ela apenas deu de ombros e eles se separaram, Kakashi se dirigindo para as densas multidões da cidade e Sakura caminhando entre a grama por uma parte sombreada, além das casas. Os sons da cidade à sua esquerda e o rio à sua direita a acompanhavam pelo caminho enquanto as árvores se tornavam mais espessas. Não havia muitas pessoas nesse caminho. Ela passou por um casal no meio de um passeio com uma criança no carrinho e um velho carregando lenha nas costas.
Seria culpa de Kakashi se ele surgisse do outro lado da cidade com metade de seus pertences desaparecidos. Até os ninjas de elite tinham problemas com ladrões de elite em centros como esse, o suficiente para que Kakashi tivesse sorte se aparecesse com alguma roupa sequer no corpo. Sakura sorriu para si mesma. Essa podia ser uma visão interessante.
Olhando para o relógio, ela percebeu que o dia havia se passado rapidamente. Além desta cidade, não havia nada além de florestas e planícies, o que significava outra noite acampando sob as copas das árvores. Com a ressaca incomodando sua cabeça, Sakura não tinha certeza se queria passar por isso. Talvez ela pudesse convencer Kakashi a ficar ali pela noite. Claro que ele diria que os bons shinobi não se queixariam de passar uma noite lá fora, mas então ela apenas piscaria os olhos e ameaçaria falar sobre "sentimentos" de novo.
Sakura voltou o olhar para o caminho à sua frente e notou que havia outra pessoa caminhando um pouco à sua frente, embora a passos lentos, de modo que ela estava se aproximando gradualmente. Ela não deu muita atenção a ele de início. Havia vários viajantes neste pequeno desvio em torno de uma cidade lotada e suspeita, e ele não parecia especial.
Exceto que ele parecia.
Detrás dele, tudo o que ela conseguia perceber era que ele era um homem alto, com longos cabelos negros presos em um rabo de cavalo bagunçado. Um comerciante? Ele parecia ter uma espécie de mochila, mas o longo tubo atrelado as alças começava a parecer cada vez mais com a bainha de uma espada enquanto ela se aproximava. Um ninja?
Havia algo inquietante sobre ele. Ela não sabia se era a maneira como ele estava andando ou as roupas que vestia, mas algo lhe parecia explicitamente familiar. De repente, ela teve certeza de que conhecia a pessoa à sua frente. Como se sentisse o escrutínio, ele virou a cabeça para olhar por cima do ombro. Quando ele a viu, parou na hora. Sakura fez exatamente o mesmo.
Porque não era todo dia que você se deparava com Uchiha Sasuke.
Próximo Capítulo: A Origem da Culpa
*Trecho da música TIME GOES BY (Air Traffic)
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