Casa dos Corvos

Capítulo Três: A Origem da Culpa


Eu tinha seu número um tempo atrás,

Na época em que éramos jovens,

Mas eu tive de crescer.*


— Um frasco de aspirina, por favor, senhorita.

A jovem alegremente desapareceu atrás do balcão a fim de pegar uma simples embalagem branca. — Mais alguma coisa, senhor? — ela perguntou.

— Não. — ele disse distraidamente, olhando atrás dela para as fileiras brilhantes de caixas de cigarros. Sua boca podia ter dito uma coisa, mas seu olhar claramente dizia outra, e a garota percebeu com um verdadeiro instinto de vendedor.

— Cigarros, senhor? — ela perguntou.

Kakashi suspirou. — Claro. Eu mereço. — disse ele, apontando sua marca preferida. — E uma revista.

— Qual delas, senhor?

— Hum... a que tiver a maior barra de censura na frente.

A vendedora olhou compreensivamente para suas compras ao entregá-las. — Dia ruim, senhor? — ela adivinhou.

— Três, na verdade. — ele suspirou, e começou a contar certinho o total, um centavo de cada vez, tanto para irritar os compradores atrás dele na fila quanto para ver se a garota se intimidava com a enorme pilha de moedas para perceber que ele a estava pagando a menos.

Ela não percebeu. Colocando todo o dinheiro na registradora, ela deu-lhe um brilhante sorriso falso. — Próximo, por favor.

Pisar na rua era como topar com uma migração de gnus, e uma olhadela pro mar de corpos lentos e empoeirados foi o suficiente para fazê-lo perceber que Sakura provavelmente estava certa em contornar a cidade. Ainda assim, às vezes valia a pena se livrar dela, uma vez que nem todos os pequenos prazeres da vida podiam ser desfrutados quando a Rainha da Santidade ficava no seu pescoço. Então, enquanto caminhava dentre as densas multidões, ele se certificou de guardar os cigarros e a revista de sacanagem no fundo da bolsa, onde Sakura tinha menos chance de encontrá-los. Ele não queria levar outro esporro dela. Ele estar atrasado já era ruim o suficiente, para início de conversa. Sem dúvida, ela já estaria do outro lado da cidade, batendo o pé impacientemente e pensando em algo espertinho e afiado para dizer quando ele finalmente aparecesse.

Mas com a velocidade que a multidão lhe permitia se mover, ele teria de mantê-la esperando. Especialmente quando, a certa altura, ele ficou preso atrás de um grupo de velhas fofoqueiras que gostavam de parar a cada poucos metros para se encarar e conversar. Parecia rude passar entre elas (e ele sempre tivera um fraco por velhinhas fofas), então Kakashi esperou pacientemente por brechas no tráfego ao seu redor, sabendo que cada segundo a mais que ele demorava provavelmente brotava outra ruga de raiva na testa de Sakura.

Um ombro colidiu com o seu. — Hum... perdão!

— Perdão. — disse Kakashi automaticamente ao mesmo tempo, nunca tendo se livrado daquele condicionamento social inicial de se desculpar com quem estava errado, pois geralmente a culpa era sua de alguma maneira.

O jovem que colidiu com ele rapidamente continuou no seu caminho sem parecer destinar outro pensamento a Kakashi. Ele estava com pressa. Kakashi o olhou com curiosidade por um momento antes de tatear a bolsa onde seu dinheiro e objetos de valor estavam guardados. Ainda estavam lá. Bom, muito bom. Ele deu de ombros e continuou seu caminho, esperando sinceramente que não fosse assaltado antes de sair desta cidade. Sakura nunca deixaria de perturbá-lo se fosse.

É claro, quando ele finalmente alcançou o portão leste, onde a jornada para Konoha continuava, ela não estava em lugar algum.

Estranho, pensou Kakashi ao andar de um lado para o outro por alguns minutos, em caso dela apenas estar fora de seu campo de vista. Não havia como alguém tomando o atalho ao redor da cidade chegar por último, certamente não alguém como Sakura, cujo defeito era muitas vezes chegar cedo demais.

Ah, bem. Ainda havia muito o que fazer enquanto esperava.

Encontrando um local adequadamente protegido sob uma árvore, onde ele podia ficar de olho nas duas entradas da cidade, Kakashi sentou-se com um suspiro e secretamente extraiu o primeiro cigarro de seu novo pacote. Ele o acendeu com um pequeno jutsu de Katon, e com outro olhar furtivo para garantir que Sakura não estivava vigiando, ele deu sua primeira tragada.

Felicidade.

Não era sua culpa e ele não deslizava com frequência. Ele só adquiriu o hábito, em primeiro lugar, porque Asuma fizera parecer bastante legal, e essa era a fraqueza de qualquer garoto de dezesseis anos. Mas então Rin começara a reclamar do cheiro de suas roupas, cabelo e beijo, e ele teve de parar ou nunca mais conseguiria dar uns amassos com ela novamente... e essa era outra fraqueza de qualquer garoto de dezesseis anos.

Mesmo após a morte dela, ele não sentiu um forte desejo de recomeçar seu hábito "sujo", como Sakura chamava. Apenas ocasionalmente ele sentia vontade de provar o cigarro novamente; momentos em que ele estava para baixo... quando as missões continuavam falhando e as pessoas morrendo. Era estranho como às vezes ele só precisava de algo pequeno para se manter de pé. Às vezes precisava apenas de um único cigarro.

Exceto que ele sabia que, se as coisas continuassem do jeito que estavam, como nessa missão, ele se tornaria uma maria fumaça, do tipo que faria até Asuma se revirar no túmulo.

Bem, pelo menos havia outros vícios para alimentar.

Kakashi enfiou a mão na mochila. Enfermeiras Safadas Edição #324. Ele a manejou como se as páginas fossem feitas de seda fina ao graciosamente colocar a revista em seu colo. Quando ele abriu na primeira página, o cigarro quase caiu de seus lábios.

— Uau...

"... Haruka, 18 anos, DD, começou a estudar medicina este ano. Ela é tímida, mas confiante em administrar os cuidados carinhosos que seus pacientes mais precisam…"

Ah, por que o hospital de Konoha não podia recrutar pessoas como a adorável Haruka? A última enfermeira que lhe dera um banho de esponja estava perto da idade real de Tsunade e o esfregou desnecessariamente em excesso em lugares delicados, enquanto tentava insistir que ele deveria conhecer sua filha.

A garota mais bonita que já o examinou fora Sakura, mas isso não adiantava de nada porque ela se recusava a usar uniforme de enfermeira, apesar de seus frequentes pedidos induzidos pela morfina. E ele duvidava que ela usaria algo tão provocante como Haruka, 18 anos, DD.

Duas fazendeiras mais velhas passaram por ele, fazendo uma careta feroz para ele, seu cigarro e sua horrível revista. Ele acenou alegremente para elas e exclamou: — Boa tarde, senhoras. — e imediatamente elas se viraram uma para a outra em sussurros altos.

— Sulista. — disse uma delas.

— Eu nunca deixaria minha Kimi chegar perto de um homem desses.

— Vergonhoso.

— Não é?

Kakashi voltou a folhear despreocupadamente as páginas de sua revista. Ele estava apenas um pouco preocupado com o porquê de Sakura ainda não ter aparecido, e agora que ele havia se acomodado confortavelmente fazendo duas coisas que sabia que ela não aprovaria, ele não estava com pressa de vê-la aparecer. No entanto, quando os minutos se passaram e ele se aproximou perigosamente da última página de Enfermeiras Safadas, ele começou a se preocupar de leve.

Provavelmente ela apenas se distraíra, pensou, procurando o rádio enterrado bem fundo em sua mochila. Sem tirar os olhos do tamanho da loira de pernas longas na página à sua frente, ele prendeu os fios no ouvido e começou a pressionar o botão do comunicador. — Sakura, você está aí?

Vários segundos se passaram, cheios de nada além de estática. — Sakura, você está atrasada. Portão leste, lembra? Onde você está?

Ele esperou novamente, mas ainda não houve resposta. — Sakura? — ele estava começando a se sentir ignorado... e um tanto preocupado. — Ei, Sakura, está tudo bem?

De repente, o oceano de estática foi interrompido. — S-Sensei?

Ele relaxou. — Onde você está?

Hum... eu estou na cidade. Eu precisava comprar algumas coisas, então...

Havia algo estranho em sua voz. Algo tenso e hesitante como se ela não tivesse certeza do que dizer. Não parecia com a Sakura que ele conhecia, que abria a boca e dizia o que vinha à mente. E havia aquele ligeiro eco enquanto ela falava...

— Que coisas? — ele perguntou.

Coisas de mulher.

Ok, ele não iria pressioná-la sobre isso, mas sua voz ainda estava quase uma oitava acima do normal, e isso era alarmente.

— Você está bem? — ele perguntou mais baixo.

Sem resposta. Uma longa pausa deixou os pelos mais finos de seu pescoço formigando inquietantemente. — Eu estou bem. Está tudo certo. — disse ela finalmente, com certo pesar. — Te vejo daqui a pouco, ok?

— Ok.

E pronto. Kakashi tirou o rádio do ouvido e o deixou pendendo no colo com a revista por um momento, enquanto tentava identificar o que havia de estranho na interação deles. Talvez fosse o modo como ela usara o rádio. Aquele eco que seguia sua voz só podia acontecer se ela tivesse colocado o rádio no alto-falante, mas por que ela teria usado essa configuração no meio da cidade? Claro, a missão havia terminado, mas essa não era uma razão para baixar a guarda...

De repente entediado de Enfermeiras Safadas, Kakashi a enrolou e empurrou de volta para sua mochila, começando a procurar o frasco de aspirina que havia comprado. Isso era outra coisa estranha. Ele tinha certeza de ter colocado no bolso, mas agora não conseguia encontrá-lo em lugar nenhum. Ele o deixara cair na cidade? Deveria ele voltar e...

Ah. Espera.

Aquele ombro que colidira no dele... e a mão que esbarrara em sua perna... e aquele garoto que se afastara como se os cães do inferno o perseguissem...

— Ah, merda. — Kakashi cuspiu o cigarro e deixou a cabeça cair contra a árvore. Este não era o seu dia.


Haruno Sakura nunca poderia ser acusada de não ter os reflexos em dia. Muitas vezes, ser a médica do time significava ser a mais atenta a ataques quando os inimigos a escolhiam como a presa fácil e conveniente. No entanto, havia momentos em que seus instintos afiados entravam em conflito com sentimentos mais profundos e pessoais, e ela ficava congelada como um veado sob os holofotes.

Este era um desses momentos. Ela não havia se preparado para isso, e mesmo que soubesse com seis meses de antecedência que se depararia com Uchiha Sasuke hoje, ela ainda teria ficado muda e silenciosa pelo choque de sua presença. Quando Kakashi a lembrara que o último lugar em que Sasuke havia sido avistado era nessa região, ela tivera esperanças... mas ela nunca realmente esperou se deparar com ele nessa missão. Não no meio de uma estrada rural ao longo de um rio. Não sozinha.

Mas talvez o que mais a chocasse fosse sua aparência. Por quatro anos, ela carregou uma imagem na cabeça de um garoto de dezesseis anos sem perceber. Na época, ela olhara para ele pelos olhos de uma garota e pensara que ele era um adulto... mas agora ele realmente era um adulto, e a diferença não poderia ter sido mais evidente. Ele estava alto, seus ombros largos, seu rosto elegante sem qualquer traço infantil. E seus olhos...

... olhavam através dela.

Ela não sabia o que dizer. O que você dizia nessa situação? "Oi?" "Como você está?" "Engraçado te encontrar aqui". Típicos cumprimentos não pareciam apropriadas e, por um longo tempo, sua boca ficou aberta, esperando que seu cérebro voltasse a funcionar.

Sasuke franziu o cenho, e pareceu porcelana rachando. — Bem? O que você quer?

Quatro anos.

Quatro anos se esquivando, escondendo e sempre fugindo... e isso era tudo o que ele tinha a dizer a ela?!

— Eu sei que você está aí. — ele disse novamente, e ela percebeu que seu corpo não era a única coisa que havia mudado. Sua voz também mudara. — Se você acha que eu não posso te ver só porque está de boca fechada, pode esquecer.

Parecia uma coisa estranha de se dizer quando ele estava olhando diretamente para ela. Claro que ela não estava tentando se esconder! Ela já teria começado a fugir a essa altura se fosse o caso. — Sasuke-kun. — ela sussurrou, dando um passo em sua direção. — Sou eu.

Sua cabeça virou levemente para o lado e sua carranca se aprofundou. — Quem está falando? Como você sabe meu nome?

Agora era a vez dela de franzir o cenho. — Quantas garotas de cabelo rosa você conhece? — ela inquiriu. Para ser justo, ela provavelmente também havia mudado um pouco nos anos separados, mas isso não era desculpa para não reconhecê-la. Não quando as pessoas que a conheceram quando criança ainda a paravam na rua para se apresentar como babá/ex-vizinha/carteiro de eras atrás. A maioria das pessoas a chamaria de inesquecível.

Ela viu o momento em que ele se lembrou. Seu rosto suavizou novamente para algo mais parecido com surpresa, e ele pronunciou algo que antes fazia seu coração flutuar ao ouví-lo dizer. — Sakura...

— Mas é claro! — ela disse arrogantemente. — Não me diga que esqueceu de mim.

Era estranho como seu olhar ainda parecia atravessá-la, olhando para ela, mas não encontrando seus olhos. Lentamente, ele se virou e voltou a andar pelo caminho na floresta como se não tivesse sido interrompido.

— Ei! — ela gritou.

— Vá para casa, Sakura. — ele respondeu por cima do ombro.

— Espera! — ela correu atrás dele. — Você não está nem um pouco...

Ele girou, e de repente o tubo fino enfiado nas bandagens estava desembainhado e não havia como confundi-lo com outra coisa senão uma espada. — Sakura. — disse ele, olhando para as árvores, embora sua mão estivesse firme no punho da katana. — Eu não estou interessado em ouvir nada de Konoha, e se você insistir... eu vou te matar.

Pelo menos ele fora claro. Sakura parou e se perguntou o que fazer em seguida. Onde sua mente estivera congelada antes, agora corria para contornar esse feio impasse entre eles. Como você falava com alguém que te desprezava? — Mas eu não estou falando com você em nome de Konoha. — disse ela. — Sasuke-kun, você é meu amigo. Eu não quero lutar...

— O último esquadrão ANBU que tentou me rastrear — ele começou firmemente. — voltou para casa com um homem a menos, se me lembro.

Ela engoliu em seco. — Eu não estou aqui para capturá-lo. — ela lhe disse. — Eu não poderia, mesmo se quisesse. Mas faz quatro anos, sabia. Você não está nem um pouco curioso...?

— Sobre o que? — a mão na katana estava relaxando ligeiramente; um sinal encorajador que aumentou a confiança de Sakura.

— Sobre mim, sobre você... sobre tudo? — ela disse com esperança. — Senti saudades, Sasuke-kun.

— Pare de me chamar assim.

Sakura olhou para o ex-companheiro de time, inquieta. — Como?

— Sasuke-kun. É afetuoso, o jeito como você fala. Pensei que você já teria parado com isso a essa altura. — a espada estalou ao voltar para a bainha completamente e mais uma vez ele se virou para retomar sua jornada, embora desta vez sua passada fosse mais lenta.

Ele não a convidou abertamente para acompanhá-lo, mas, como ele não estava proibindo, ela começou a segui-lo a uma distância próxima, mas respeitosa. Desse ângulo, ela poderia tê-lo confundido com seu irmão, se não soubesse que este estava morto. As semelhanças eram inquietantes. Mesmo que não fossem irmãos cujas semelhanças faciais fossem tão óbvias à primeira vista, havia um tipo idêntico de ar sobre eles que não deixaria ninguém que os conhecesse duvidar que fossem parentes.

Mas até ao pensar no quanto ele amadurecera no que parecia ser tão pouco tempo, Sakura se perguntava como ela parecia para ele. Ela parecia crescida? Talvez bonita? Até mesmo sexy?

Era difícil dizer, já que ele não parecia querer olhar para ela. Ele ainda não encontrara seus olhos.

— Você veio aqui para me procurar? — ele perguntou.

Os dedos de Sakura flexionaram compulsivamente no tecido de sua meia-saia, revelando sua ansiedade. — Não... eu sei que você foi visto pela última vez por aqui, mas isso foi há semanas. Todo mundo acredita que você já mudou de lugar. A única razão pela qual estamos aqui é por causa de uma missão; estamos voltando agora.

— Então Naruto está com você? — ele perguntou sem emoção.

— Não. Ele está em outra missão. — disse ela.

— Entendo.

Foi um quê de decepção ou indiferença que ela ouviu?

— Sua missão... não teria nada a ver com Iwa, teria? — ele perguntou.

Sakura franziu a testa. Não era como se as tensões entre Iwa e Konoha fossem um grande segredo, mas ele era um inimigo da vila da folha e, portanto, definitivamente não estava a par dos detalhes de até mesmo uma missão de rank baixo. Ele não era nem um inimigo devido a um detalhe técnico, como um desertor típico seria declarado. Ele era alguém que explicitamente e fervorosamente queria ver Konoha e todos seus habitantes exterminados.

Era difícil saber se ele ainda queria isso após todos esses anos. Mesmo assim, ela optou por uma resposta vaga e não comprometedora. — Quem sabe.

— Iwa e o Sindicato. Estou certo?

Sakura bruscamente olhou para ele. Ora, essa era uma informação ultra secreta. — Como você sabe disso? — ela exigiu.

Ele virou a cabeça na direção dela, mas seu olhar permaneceu fixo em algum lugar entre eles. — Eu posso ser cego, — disse ele com um leve sorriso. — Mas eu não sou surdo, Sakura. Ouvi pessoas conversando.

Sakura congelou no caminho desgastado. — Ah. — Sakura sussurrou, os dedos deslizando sobre a boca em profundo choque e vergonha. — Me desculpe, eu não tinha percebido.

Ele também parou e olhou para ela, embora agora a razão pela qual seu olhar a atravessava era óbvia demais. Ela ouvira que isso era uma inevitabilidade para os usuários do mangekyou, e embora ela soubesse que Sasuke estava mostrando os mesmos sintomas que Kakashi e Itachi antes dele, ela não fazia ideia de que havia avançado tanto.

Cego e completamente sozinho... Sakura não podia se imaginar vivendo assim.

— Sua missão teve sucesso? — ele a perguntou.

Como ele poderia estar tão calmo sobre isso? Sakura nunca se sentiu tão infeliz em sua vida, e se ela não estivesse com tanto medo dele, ela poderia ter começado a chorar e tentado abraçá-lo. Simplesmente não era justo. Por que a vida era tão cruel com aqueles que mais sofreram?

— Sua missão? — ele induziu novamente, mais impaciente. — Teve sucesso?

— Sim. — ela sussurrou.

— Mentirosa.

— Eu não sou mentirosa, falo a verdade. — disse ela, e enquanto dizia isso, levantou silenciosamente a mão e acenou timidamente quatro dedos para ele.

— Sua voz fica mais alta quando você mente. — ele apontou. — E pare com isso.

Ela deixou a mão cair bruscamente. — Parar o que? — ela perguntou inocentemente. Será que ele desenvolvera audição de morcego desde que ficara cego ou ele ainda tinha um resto de visão? Ela queria poder examiná-lo, mas não se atrevia a pedir.

— Então você não encontrou nada nesta missão. — disse ele, e desta vez quando começou a andar, Sakura tomou seu lado. — Isso me surpreende, eu acho.

— Bem, se você sabe tanto sobre Iwa e o Sindicato, por que não me conta? — ela persuadiu. — Sinto que estou andando em círculos com todas essas missões.

— Por que eu iria querer fazer isso? — ele perguntou categoricamente.

— Porque — ela penou para achar um motivo. — nós... temos uma história.

— Mas você está esquecendo que trabalha para Konoha, e se eu te ajudar, estarei ajudando aquela vila. Isso eu não posso fazer.

— Você não está cansado de vagar por aí sozinho? — ela perguntou, gesticulando para o desconhecido mundo ao seu redor. — Konoha não é mais a mesma de doze anos atrás. Ainda há um lugar para você lá. Não é melhor do que ser um nômade sem ter para voltar?

— Ainda há um lugar para mim em Konoha? — ele contemplou. — Atrás das grades, você quer dizer. Você quer que eu troque liberdade por confinamento?

— Por redenção. — ela repreendeu. — Você matou pessoas, Sasuke... e planejou matar inocentes. Você tem que responder por isso um dia.

— Você também matou pessoas, Sakura. — disse ele. — A única diferença entre você e eu é que fizemos isso sob ordens de pessoas diferentes. Então por que eu tenho de ser o único punido?

— Bem… — mais uma vez ela penou para chegar numa resposta. Talvez ele estivesse certo, mas ela não sabia se ele se importava em reconhecer a diferença entre seguir ordens de um estado reconhecido e seguir ordens de um pequeno grupo de criminosos e guerrilheiros empenhados em criar um mundo de guerras perpétuas, no fim, visando o lucro. No entanto, ela pensou com um suspiro pesado, guerra parecia uma inevitabilidade corriqueira para a maioria das pessoas, com ou sem a ajuda de um grupo como a Akatsuki.

Sasuke virou numa trilha adjacente que se afastava do caminho de volta para a vila. Era uma ladeira de descida brusca, e ela podia ver que mais à frente terminava numa pequena ponte de pedra sobre o rio que corria o lado deles. Sakura hesitou. — Estamos no caminho certo? — ela perguntou com incerteza. Ele era cego, afinal...

— Não sei onde você pensa que estamos indo. — ele respondeu.

Ela tinha de segui-lo, senão ele a deixaria para trás sem nem pensar. Com um suspiro de infelicidade, ela se apressou pelo caminho íngreme e o alcançou no momento em que começavam a atravessar a ponte.

Nesse momento, a bolsa de Sakura começou a emitir chiados e estalos pelo rádio sendo ativado. — Sakura, você está aí?

Era quase como se ele tivesse sentido o exato segundo em que ela pisara fora da rota combinada. Não pela primeira vez, ela se perguntou se Kakashi era meio vidente...

Seu olhar correu para Sasuke apreensivamente. Ele havia parado e virado para ela com uma leve carranca enquanto uma mão se dirigia para o cabo de sua espada. — Então você está aqui com ele? — ele murmurou. — Agora faz sentido...

O rádio estalou novamente. — Sakura, você está atrasada. Portão leste, lembra? Onde você está?

Sakura levou uma mão até as costas. — Se eu não responder, ele vai achar que algo está errado...

Ela enrijeceu quando sua mão foi repentinamente bofetada pela bainha dura da espada de Sasuke. Ele se moveu tão rapidamente e atacou com tanta precisão que ela novamente começou a duvidar que ele era totalmente cego. Ainda havia algo de enervante no modo como seu rosto se voltava para o dela, mas seus olhos não entravam em foco.

— Ele pode estar certo em pensar isso. — ele disse suavemente.

— Ele virá atrás de mim… — ela avisou. — E ele não vai querer bater papo que nem eu. Ele vai querer você morto e com um laço na cabeça pra dar pra Hokage.

O rádio transmitiu mais urgência dessa vez. — Sakura?

Ela dirigiu a Sasuke um olhar suplicante. — Eu tenho que responder.

Ei, Sakura, está tudo bem?

Sasuke abaixou a espada. — Ok. Mas não diga nada a ele e mantenha o rádio no alto-falante. — ele a respondeu de forma breve.

Sakura vasculhou sua bolsa e tirou o fone do rádio de dentro. — S-Sensei? — droga, sua voz havia falhado.

Onde você está? —ele exigiu, provavelmente desacostumado a ficar esperando.

— Hum… — ela começou, olhando para um impassível Sasuke. — Eu estou na cidade. — ela mentiu. — Eu precisava comprar algumas coisas, então...

Que coisas?

— Coisas de mulher. — se havia uma maneira de acabar com a curiosidade de um homem, era avisando que ele estava prestes a entrar no assunto higiene feminina. Previsivelmente, ele deixou o assunto de lado como se queimasse e perguntou: — Você está bem?

Não muito, mas ela tinha que mentir e ele precisava acreditar nela, porque se ele não acreditasse, não havia como saber o que Sasuke faria. Ela não queria que ele fosse embora caso Kakashi decidisse aparecer, mas não tinha certeza de que queria que ficasse também. Ele não era mais uma criança. Naruto havia dito que ele não estava muito bem da cabeça desde o último confronto que tiveram, e mesmo que ele parecesse calmo e tranquilo no momento, ela não confiaria que ele continuasse desse jeito.

— Eu estou bem. Está tudo certo. — disse ela pesadamente. — Te vejo daqui a pouco, ok?

Outra pausa incerta. — Ok.

A mão que segurava o rádio caiu para seu joelho. Ela olhou para os botões desajeitados e os fios finos e sentiu-se estranhamente relutante em guardá-lo. Parecia sua única conexão com Kakashi, e naquele momento, ela não queria abrir mão disso. — Que engraçado. — ela começou suavemente.

— O que? — Sasuke perguntou sem rodeios.

— Você não quer que Kakashi saiba que está aqui... mas você não reagiu dessa maneira comigo.

— É claro, — disse ele, dando as costas para ela. — Você não vai fazer nada estúpido.

— Como o quê? — ela questionou.

— Como tentar me capturar. — ele disse sem titubear. — De todas as pessoas que eu já conheci, você pelo menos entendia suas próprias limitações. De modo que é menos irritante do que outras pessoas que tentam duas, três vezes até serem humilhadas.

O rosto de Sakura ficou quente. Ele estava falando sobre Naruto e normalmente ela chutaria qualquer um que ousasse sugerir que sua teimosia em continuar lutando mesmo diante de situações desfavoráveis fosse remotamente "irritante". No entanto, este era Uchiha Sasuke. Você não chutava alguém como ele a menos que conseguisse correr muito, muito rápido. — Minhas limitações mudaram desde que você foi embora. — disse ela com orgulho. — Eu sou uma shinobi rank A, e você está cego.

Ele se virou lentamente para ela, o rosto impassível como sempre. — Está dizendo que você poderia chutar minha bunda?

— O quê? Bem, não. Talvez. — ela pensou por um momento. — Na verdade, sim, eu poderia! Toma essa!

Ela podia jurar que o fantasma de um sorriso apareceu em seu rosto. — Que bom. Mas eu não estava sugerindo que você não me atacaria por limitações físicas.

— Então o que você quis dizer? — ela perguntou, fazendo uma careta para ele.

— Você ainda me ama, não?

Algo dentro dela contraiu quase dolorosamente. Provavelmente era assim que Kakashi se sentia; jogado sob os holofotes e sem saber o que fazer no momento em que alguém pegava seus sentimentos e os colocava em cima de uma bandeja. Não era certo que alguém falasse tão francamente das coisas que os outros guardavam tão intimamente, e ela se viu repetindo as palavras que Kakashi dissera depois que ela o provocou com uma fala similar na noite passada, quando eles estavam cansados e bêbados. — Pense o que quiser. — ela sussurrou.

Ele se aproximou com confiança suficiente para fazê-la pensar se deveria recuar. Antes que ela pudesse decidir o que fazer, ele já havia agarrado-a pelo braço. Ela se debateu, seus pés escorregando no cascalho úmido da ponte... ela então percebeu que ele não estava fazendo mais nenhum movimento ameaçador. Sua mão larga cobria todo o pulso dela fácil e totalmente, e ela conseguia sentir seu pulso sob os dedos dele. Sem dúvida, ele conseguia também.

— Eu não te culpo. — disse ele, perto o suficiente para que ela sentisse seu calor corporal. — Uma criança não pode ser responsabilizada pelo mundo em que nasceu e não deveria arcar com os crimes e as doutrinas tóxicas daqueles que vieram antes. É por isso que você não precisa ter medo de mim. Meu ressentimento nunca foi contra você, e eu não tenho vontade alguma de te machucar.

— Ok. — ela disse, um pouco tensa.

— Mas eu tenho pena de você. — ele continuou, fechando seus olhos cegos. — Você não faz ideia do tipo de guerra que sua vila te arrastou pro meio. Você não sabe nem o que está procurando.

Sakura o observou, tensa mas em silêncio. Se ela conseguisse obter dele qualquer informação sobre Iwa ou do Sindicato, pelo menos ela voltaria para casa com a cabeça erguida para sua Hokage.

— Por que sua missão falhou? — ele a perguntou.

Ela deu de ombros rigidamente. — Provavelmente era uma informação falsa.

— Não era falsa. — disse ele rigidamente. — Você só não percebeu com o que estava lidando. Ou melhor, com quem estava lidando.

Ele sabia. Ele tinha de saber. — Quem? — ela sussurrou. — Como você sabe tanto?

Em vez de responder, sua mão livre se ergueu para tocar as pontas ásperas dos dedos contra a bochecha macia dela. Seu pulso disparou contra o aperto dele. — Está com medo? — ele perguntou.

— Não. — era quase verdade.

— Então por que seu coração está acelerado? — ele perguntou.

— E-Estou nervosa… eu não te vejo há algum tempo. — pelo menos, ela pensou, isso era verdade o suficiente.

— Nem eu. — ele retrucou. — Como eu estou?

Ela olhou para ele, incerta. Seu rosto era... inegavelmente bonito, de um jeito clássico ainda, mais evidente hoje em dia por ele estar chegando no auge. Era o tipo de rosto que todas as mulheres do mundo olhariam mais de uma vez ao trombarem na rua, ainda que os olhos dele estivessem mortos e sem graça. No entanto...

— Você precisa cortar o cabelo. — ela disse honestamente.

— Eu que cortava meu cabelo...

— Dá pra ver.

— … mas não me parece mais uma boa ideia, e eu não confiaria em um estranho com uma faca afiada perto da minha cabeça.

Ainda paranóico, pelo menos. — Bem... eu não sou uma estranha. — ela disse. — Eu poderia cortar pra você.

Sasuke não disse nada ao considerar.

— Talvez, em troca, você possa me dizer o que sabe sobre a minha missão?

— Eu já disse. — ele disse, largando o pulso dela para se afastar. De repente Sakura sentiu que podia respirar com muito mais facilidade. — Eu não vou ajudar Konoha.

— Pelo menos você confirmou que o Sindicato existe. — disse ela.

— É claro que existe. — e ele dirigiu um olhar a ela que a lembrou dos velhos tempos, quando ele pensava que ela tinha dito algo estúpido, o que provavelmente era verdade. — O Sindicato é um dos mais antigos... ele existe desde antes de Konoha. E esse é o ponto, não é?

— É? — ela ecoou incerta.

Um desdém desagradável invadiu seu rosto. Ele não parecia tão bonito agora. — Há mais corpos sustentado Konoha do que só os do clã Uchiha. — disse ele. — Você vai perceber isso.

— Você está dizendo… que o Sindicato tem uma história com Konoha? — Sakura chutou. — Eu pensei que eles fossem apenas um bando de criminosos sem conexão. Nós ainda não sabemos quem são.

— Sim, é isso o que eles são. Mas no coração da operação há uma besta. Uma que odeia Konoha quase tanto quanto eu.

Imagens inexplicáveis de tigres com dentes afiados e cães raivosos da montanha passaram por sua mente. Ela nunca foi muito boa seguindo metáforas. — Que significa…?

— Se eu disser mais alguma coisa, você vai apenas contar para o Hokage. Só estou te dizendo essas coisas porque você deveria saber, já que isso te afeta mais do que imagina.

— Por que? — ela exigiu. — Você... você faz parte do Syndicate.

Ele sorriu, mas balançou a cabeça. — O inimigo do meu inimigo nem sempre é meu amigo.

Provavelmente isso era um "não" então.

Por um momento, Sakura ficou sem jeito, pensando no que dizer em seguida. Ela deveria pressioná-lo por mais informações sobre o Sindicato ou Iwa, ou isso seria abusar da sorte? Se qualquer um de Konoha ficasse sabendo que ela estava ali conversando com Sasuke sem uma arma empunhada, sua cabeça estaria em jogo. Tsunade ficaria furiosa. Ela não sabia o que Kakashi pensaria...

A mão de Sasuke foi para suas costas, abrindo o botão de uma bolsa. Quando ela reapareceu, estava segurando uma kunai.

— Ei, espera… — Sakura olhou para a kunai apreensivamente. Um pouco doido da cabeça, foi o que Naruto dissera a ela. Por que eu baixei minha guarda?

— Toma. — ele disse, e jogou a lâmina para ela.

Sakura pegou-a no ar instintivamente e examinou-a duvidosamente enquanto ele atravessava a ponte e sentava-se na beira da grama.

— Bem? — ele chamou. — Eu não tenho o dia todo.

— O que? — ela murmurou defensivamente.

— Você vai cortar meu cabelo ou não?

Ela olhou para ele com os olhos arregalados. — Você confia em mim?

— Como eu disse... não tenho porque ter medo de você. Não enquanto você ainda estiver apaixonada.

Mais uma vez, sua brusca declaração a deixou gelada e desconfortável. Talvez porque ele não tinha o direito de ter tanta certeza sobre seus sentimentos em relação a ele.

Talvez por outro motivo.

— Certo. — disse ela, movendo-se para sentar atrás dele. Por causa da margem desnivelada, ela tinha uma boa vantagem de altura sobre ele. — Mas não me culpe se não ficar bom.

— Não é como se eu realmente me importasse.

Sendo uma kunoichi e não uma cabeleireira, Sakura não sabia exatamente por onde começar. Provavelmente era mais fácil fazer esse tipo de coisa com uma tesoura, mas ela infelizmente não teve a malícia de colocar uma na bolsa, sabendo que iria esbarrar com um velho amigo de infância e traidor da vila, cujo cabelo estava cheio de pontas duplas.

Não poderia ser tão difícil assim, ela pensou. E então ela pegou uma mecha arbitrária de cabelo e cortou.

Ok... muito curto. Ela estava aprendendo.

— Eu nunca fiz isso antes. — ela admitiu tardiamente.

— Dá pra perceber. — ele respondeu secamente.

Ela sorriu ao pensar que ele pelo menos ainda tinha algum senso de humor. — Naruto está deixando o dele crescer hoje em dia. — ela disse, esperando que ele estivesse interessado em ouvir sobre um amigo em comum. — Eu não tenho certeza se é por preguiça ou se ele se deixou levar por todo mundo confundindo ele com o Yondaime Hokage. Eles realmente são parecidos, suponho. Quero dizer, eles sempre foram parecidos, mas às vezes até eu vejo ele pelo canto do olho e fico confusa.

— Ele já é Hokage? — Sasuke a perguntou.

— Ele diz que não está pronto. Ele está mais interessado em lutar nas linhas de frente quando a guerra começar. Está determinado em ser um herói de guerra agora.

— Não existe isso.

— É o que Kakashi-sensei diz… — ela suspirou. — Ele não mudou nada, a propósito. Acho que ele nunca mudará... seu cabelo, suas roupas, tudo isso. Embora eu ache que ele tenha começado a fumar. Estou um pouco preocupada com isso.

— Ele sempre fumou. — Sasuke disse a ela.

Ela cortou outra mecha de cabelo. — Fumou não. — ela disse severamente.

— Claro que sim. Toda aquela besteira de "eu tenho muitos hobbies"... e tenho minhas dúvidas se foi sempre tabaco que ele fumou.

Sakura arfou. — Você quer dizer...

— Ele sempre foi meio avoado, não?

Se não fosse Sasuke, ela poderia suspeitar que estava sendo feita de boba. De qualquer jeito... — Bem, ele era jovem naquela época também. Ele está muito mais maduro hoje em dia.

— Pensei que você tivesse dito que ele não havia mudado.

— Bem, se ele usava drogas, certamente não usa mais. Eu sou a responsável por seus exames toxicológicos, então eu seria a primeira a saber. Se ele beber uma mísera xícara de café, eu fico sabendo.

Isso pareceu confundi-lo. — Você agora é... uma médica? — ele perguntou.

— Ninja médica.

— Você é boa?

— Eu sou a melhor! — ela declarou. — Eu sou a única razão pela qual Naruto ainda está vivo. E Kakashi-sensei também.

Ele não disse mais nada, e Sakura se viu concentrada demais na sua tarefa para manter a conversa fiada. O corte de cabelo estava ficando bom, até. Apenas mais um pequeno corte aqui, e outro ali... podia não ser perfeitamente uniforme, mas ela disse a si mesma que estava na moda hoje em dia.

Era uma pena que ele fosse cego, senão ele teria sido obrigado a elogiar seu trabalho.

Finalmente convencida de que ela deveria parar antes que causasse algum dano permanente, Sakura se endireitou com um suspiro para anunciar que terminara. — Pronto. — ela disse, estendendo a kunai para ele. — Terminei. Acho que combina com você.

Ele estendeu a mão lentamente para pegar a kunai, mas antes que ela pudesse se afastar, a mão dele agarrou a sua. — Você também mudou. — disse ele, seus dedos correndo pelos dela. — Suas mãos estão ásperas.

Ela tentou se afastar novamente, envergonhada por ter isso exposto. Era difícil ser uma kunoichi séria e manter a pele macia. Ela segurava todo tipo de arma todos os dias fazendo suas mãos sangrarem, curarem e sangrarem novamente. Agora seus calos podiam competir com os de qualquer homem, embora ela esperasse que ninguém notasse. Não é como se mãos ásperas fossem o que os homens gostavam em suas mulheres...

— Eu nunca pensei que você levaria seu trabalho a sério o suficiente para afetar suas mãos. — disse ele.

— Eu levo muitas coisas a sério agora. — disse ela, notando que ele ainda tinha de soltar a mão dela. Ela não tinha certeza do que isso significava, e embora parecesse estranho e um pouco embaraçoso, ela realmente não queria se afastar. Ainda não, de qualquer maneira.

Mas ele parecia não ter mais nada a dizer, e Sakura achou o silêncio entre eles ainda mais embaraçoso do que os dedos dele em torno dos seus. — Eu senti saudades. — ela deixou escapar. — Quero dizer, todo mundo sente saudades de você... mas eu... não foi mais a mesma coisa desde que você partiu.

— Sakura...

— É a verdade. — ela disse calmamente.

Ele balançou a cabeça. — Eu não posso voltar.

— Eu sei...

— E eu não posso ficar por mais tempo, — ele continuou. — já que você não está aqui sozinha.

Desta vez ela apenas assentiu, infeliz.

— Foi interessante falar com você de novo, mas preciso continuar meu caminho.

— Você não precisa de ajuda? — ela perguntou. — Como… uma guia? Ou um cachorro, talvez?

— Eu consegui me virar muito bem até agora, não acha?

— Mas... eu gostaria de ter estado com você quando aconteceu. — ela murmurou, enfiando as mãos nos bolsos da saia.

— Fico feliz que você não esteve. — ele respondeu sombriamente e começou a se levantar.

Ele estava indo embora. Não havia nada que ela pudesse fazer para detê-lo, mas...

— Espera! — ela disse, correndo atrás dele. Ele virou-se para ela com certa expectativa, certa indiferença. A parte de seu cérebro responsável pela fala emperrou novamente e ela se viu travar, as mãos embaraçosamente presas nos bolsos enquanto ela tentava erguê-las. Ela havia falado por impulso, mas descobriu que provavelmente não tinha coragem para falar o resto.

— O que? — ele perguntou.

— Eu posso…? — ela começou hesitante, girando um dos anéis em volta dos dedos ansiosamente. — Hum... não surte ou algo do gênero pelo que eu vou fazer, ok?

— O que você...

Sua pergunta incerta foi interrompida abruptamente no momento seguinte em que Sakura se aproximou e passou os braços em volta dele para segurá-lo o mais firme possível. O calor era incrível. Suas roupas cheiravam a mofo e coisa velha, mas isso era reconfortante por si só, pois essas não eram as roupas de mais ninguém a não ser Sasuke. E o coração batendo irregularmente rápido contra o seu peito era de Sasuke e somente Sasuke. Depois de todos esses anos e todas as buscas, ele estava ali em seus braços, surpreendentemente humano e enganosamente normal.

Como diabos ela deveria deixá-lo partir?

— Eu faria qualquer coisa para tê-lo de volta. — ela sussurrou, um pouco envergonhada pelas lágrimas que escorriam de seus olhos. Por mais cego que fosse, ele ainda sentiria as lágrimas no seu ombro.

— Eu não vou voltar. — ele repetiu, sem expressão.

— Eu sei. — ela disse, se afastando de leve para encará-lo. — Mas não posso deixar de desejar que as coisas fossem diferentes.

— Elas não são.

— Eu sei.

Ele havia percebido o quão perto eles estavam? Como o seu nariz estava quase tocando o dele? Na beira do gramado ao lado da ponte, eles estavam terrivelmente obscurecidos. Ninguém que andasse pelo caminho circulando a vila poderia vê-los ali, e ela duvidava que até mesmo alguém atravessando a ponte pudesse. A luz escura e alaranjada da noite dançava na superfície do rio, e belos lírios cresciam ao longo das margens. Mas ele não podia ver nada disso, podia?

Sakura fechou os olhos e esqueceu de tudo, e o mundo pareceu encolher até que sua única certeza fosse a pessoa em seus braços.

— Sasuke, tudo bem se eu fizer isso? — ela sussurrou ao inclinar tentativamente a cabeça até seus lábios roçarem nos dele. Foi apenas um toque suave, testando as águas para ver sua reação. Quando não houve uma, ela pressionou contra a boca dele com mais firmeza, não deixando espaço para dúvidas quanto às suas intenções.

Foi a coisa mais ousada que ela já fez na vida, e ela esperou com o coração disparado para ver o que ele faria. A última vez que ela vira alguém beijá-lo, ele tinha prontamente socado o rosto da pessoa... apesar de ter sido Naruto, aos doze anos de idade. Certamente ele estaria um pouco mais receptivo a um beijo de uma garota agora que ele era um homem de vinte anos.

Ele não se mexeu por um longo momento. Então, gradualmente, ela sentiu os dedos dele roçarem em sua nuca, nas pontas do seu cabelo. A boca dele encontrou a sua novamente, mais completa e vigorosamente do que antes, e foi quando ela soube que ele havia cedido.

Quando sua mão se curvou atrás da cabeça dele, ela sentiu triunfo.

E nem em um pingo de culpa.


— … não posso deixar de desejar que as coisas fossem diferentes.

Elas não são.

Eu sei.

Do lado de fora do portão leste estava a figura solitária de um homem recostado num poste de luz. Mesmo quando a luz piscou sobre sua cabeça para sinalizar o fim do dia, ele não se mexeu. Qualquer um que passasse por ele pela estrada teria visto seus olhos fechados e os braços cruzados e imaginado que ele estava cochilando (talvez um pobre ninja patife sem dinheiro para alugar um quarto durante a noite), desde que não notasse o fio saindo de sua orelha.

Sasuke, tudo bem se eu fizer isso?

Kakashi enfiou a mão no bolso e com um suave clique, o rádio foi desligado. Hackear o rádio de comunicação ocasionalmente era necessário, mas ouvir certas coisas era apenas um pé no saco.

— Quanta desobediência. — ele murmurou ao se afastar do poste e esticar os braços até os ombros estalarem. Haveria problemas, como inevitavelmente acontecia nesses casos. Relatórios teriam de ser preenchidos, Hokages teriam de ser informados, punição teria de ser aplicada... corpos teriam de ser enterrados em lugares discretos...

Kakashi sabia desde o início que essa seria uma missão mais problemática do que valia a pena.


Próximo Capítulo: Sua Linguagem Corporal


*Trecho da música CALL ME CALL ME (The Seatbelts)

Eu deveria ter feito isso no capítulo passado mas: o bolão da paternidade está oficialmente aberto. Façam suas apostas! Hehe.

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