Casa dos Corvos
Capítulo Quatro: Sua Linguagem Corporal


Todo dia, cometo os mesmos erros,

Mais uma vez, me encontro no mesmo lugar,

Estou perdido, sem saber para aonde ir,

O fim da linha, está bem a frente.

Não vai me levar para casa?*


— … três espiões confirmaram movimentação das forças de Iwa. Eles definitivamente estão se aproximando da fronteira, Hokage-sama. Perdemos contato com o quarto espião.

Tsunade fitou o grande mapa estendido a sua frente na mesa com uma expressão quase de tédio. O mapa estava coberto por uma chapa de vidro rabiscada com anotações de números, posicionamento de tropas e codinomes de agentes, espalhados pela superfície junto de manchas e marcas de dedo. Toda cruz vermelha simbolizava um contato perdido. Agora, haviam três no total, todos tendo desaparecido na última semana.

— Quem? — ela perguntou a Shizune, que estava do outro lado do mapa.

— Seu codinome era Blackhammer. — Shizune disse calmamente, adicionando numa voz mais baixa: — Era o Ukyou.

Um suspiro pesado escapou dos lábios de Tsunade enquanto ela destampava a caneta e adicionava mais uma cruz sobre uma mancha no país da terra. — Quantos sobraram?

— Doze, mas nenhum perto do topo da cadeia de comando de Iwa. — Shizune informou, consultando suas últimas anotações. — Descobrimos dois dos espiões deles rondando os postos de observação do país do fogo essa semana, mas a informação que eles soltaram é para nos fazer acreditar que há infiltrados em posições importantes.

— Propaganda. — Tsunade disse brevemente. — Pelo menos é o que espero. A menos que tenha algo para me contar sobre sua verdadeira lealdade, Shizune.

A mais nova deu uma risada sem graça. — Sugiro mantermos essa informação só entre nós. Pode afetar nossa moral.

— Certamente. — a hokage concordou, dando as costas para o mapa como se vê-lo estivesse lhe causando dor de cabeça. Ela andou até a janela e parou para encarar o lado da montanha onde seu rosto encarava de volta. — Quem temos para enviar nesse momento?

— É… bem, a metade pontual do Time Kakashi voltou ontem‒

Que era, provavelmente, a metade que não incluía Hatake Kakashi. — Naruto e Sai, é? Mande-os para onde Blackhammer estava para descobrir o que aconteceu com ele. Eles vão precisar se livrar do corpo para esconder seus segredos se necessário.

— Certo, Hokage-sama. — Shizune fez uma anotação.

— Mais alguma coisa?

— A metade não tão pontual do Time Kakashi está esperando na sua sala para ser interrogada. — a assistente de Tsunade lhe disse.

— Um dia de atraso, é? Um tanto demais, até para Kakashi. Eles estavam na mesma missão que os outros dois, não? A missão era mais longe ou algo do gênero?

— Não, creio que a cidade de Jonan seja, na verdade, mais perto. — Shizune disse hesitantemente. — E, bem, não parece que a missão correu bem.

Tsunade se virou para olhar para ela. — Como assim?

— Eu… creio que vai ver quando encontrá-los.

— Ora, agora me deixou curiosa. — Tsunade suspirou. — Os dois estão vivos, não é?

— Bem, sim‒

— Então não pode ser tão ruim assim. — a Hokage parou e olhou para a silenciosa sala de guerra. No momento, estava vazia exceto por ela e Shizune, mas provavelmente seria ocupada no próximo mês por grandes forças tarefas conforme a guerra ganhava corpo. Hoje só o que acontecia era muita movimentação e espiões desaparecendo.

Ela balançou a cabeça e fez um sinal com a mão. — Venha, vamos terminar com isso então.

Ao descerem as escadas que levavam ao escritório da Hokage, Tsunade se preparou para ver os vestígios de um time cuja missão havia dado errado. Roupas rasgadas, rostos sujos, talvez algumas lágrimas… eram todos os indicadores comuns de que algo havia fugido dos planos. Então quando abriu a porta para seu escritório e olhou para os dois ocupantes, ela ficou ligeiramente surpresa com o que encontrou.

Kakashi estava de pé ao lado da sua mesa, parecendo brincar com seu pote de planta, embora nada sobre sua aparência fugisse do comum. Na verdade, ele estava como em qualquer outro dia; como se estivesse com as mesmas roupas com que dormira.

Por um momento, Tsunade pensou em perguntar por Sakura, até que ela avistou a garota perto da parede, aparentemente inspecionando algumas fotos penduradas. O estranho sobre sua aparência talvez fosse que ela estivesse que nem Kakashi… e mesmo em missões, Sakura sempre fazia o esforço de manter suas roupas e rosto limpos. Agora, no entanto, estava claro que ela ficara uma noite ou duas sem se cuidar.

— Boa tarde. — ela cumprimentou os dois ao se sentar na sua mesa.

— Boa tarde, Hokage-sama. — Kakashi cumprimentou com uma saudação informal.

— Boa tarde, shishou. — disse a parede. Tsunade teve que olhar uma segunda vez para confirmar que fora realmente Sakura quem falara. A garota mal movera os lábios.

Ah, Tsunade pensou ao reclinar na cadeira, e fitou a metade "não tão pontual" do Time Kakashi. Algo estava errado, assim como Shizune dissera. Sua assistente estava lhe olhando significativamente da porta, e Tsunade assentiu discretamente para mostrar que também havia percebido.

Talvez não fosse inteiramente o fato de Sakura estar fingindo ser parte da decoração que ligara os alarmes. Era que Kakashi estava insensivelmente ignorando isso. Ignorando ela.

— Quero ouvir boas notícias. — Tsunade ordenou.

Isso raramente adiantava. Kakashi deu um sorriso agradável por trás da máscara. — Infelizmente, Hokage-sama, a missão foi como esperado. Não conseguimos nenhuma informação útil.

— Então no fim a missão era uma distração, é? — ela perguntou.

— Sim, é o que parece.

Sakura, franzindo o cenho profundamente, soltou um som baixo, como se quisesse acrescentar alguma coisa. Tsunade olhou para ela com expectativa, mas Kakashi fez o mesmo, e uma olhadela para seu capitão lhe deixou muda de novo. Ela se virou para voltar a analisar as fotografias na parede e Kakashi voltou sua atenção para Tsunade com o mesmo sorriso forçado de antes.

Ele pensava que ela era idiota?

Ninguém calava Sakura com um olhar. Ninguém conseguia! E se Hatake Kakashi achava por um segundo que a própria mestra da garota não fosse perceber, ele estava completamente enganado. — Sakura, — Tsunade chamou. — o seu relato é o mesmo?

Só de se dirigir a ela Tsunade sentiu a tensão na sala visivelmente aumentar. Por um segundo ninguém se moveu, nem mesmo Shizune, que estava prestes a coçar seu nariz. Contudo, mesmo que tivesse sido Tsunade a perguntar, foi para Kakashi que Sakura olhou inicialmente antes de responder: — Chegamos na vila a tempo para o encontro, mas não vimos ou ouvimos nada suspeito, então voltamos.

— Então por que vocês estão atrasados um dia? — Tsunade perguntou.

— Hã, — Sakura olhou para o chão. — nos perdemos.

— A sinalização perto das províncias do noroeste é horrível. — Kakashi disse alegremente.

— E isso é tudo? — Tsunade perguntou incredulamente. Nitidamente havia mais por debaixo dos panos que não estava sendo esclarecido.

Sakura mordeu o lábio. — Bem… na verdade…

Ela se calou mais uma vez no segundo em que Kakashi se virou para lhe olhar severamente. A garota se remexeu e desviou o olhar, mas visivelmente havia algo que ela precisava dizer. Nem mesmo o mais aterrorizante olhar do Ninja-Que-Copia podia acovardá-la completamente.

— Na verdade o que? — Tsunade pressionou. Sakura era o elo mais fraco dos dois, e ela seria coagida.

— Hã… teve um incidente‒

Kakashi a interrompeu. — Não teve‒

— Teve sim‒

— Não teve nenhum incidente, Hokage-sama.

— Eu ataquei uma pessoa na cidade. Ela tinha uma bandana de Iwa‒

Kakashi suspirou. — Ninguém quer saber disso.

— Ela disse que alguém deu a bandana para el‒

— Mercadores de Iwa passam pela cidade o tempo todo. Isso não significa nada.

— Então por que ele me disse que só falhamos porque não sabíamos quem‒

— Ele não era uma fonte confiável.

A discussão encerrou tão abruptamente quanto começou. Tsunade piscou para a dupla em surpresa. A hostilidade entre os dois era difícil de se ignorar, e essas eram pessoas que, até onde Tsunade estava ciente, sempre tiveram uma relação amigável. Talvez até amigável demais às vezes. Sakura podia ser uma garota extremamente encantadora com quem ela gostava, e não havia passado despercebido por Tsunade que ela por vezes se engraçava mais com seu superior do que com os outros. Ocasionalmente isso a preocupava, mas a Hokage era forçada a admitir que Kakashi era tão cegamente ignorante do fato quanto a própria Sakura.

Agora, no entanto…

— Creio que vocês precisam descansar, — ela ponderou. — parece que não estão se entendendo muito bem, não é?

Os companheiros de time agora pelo menos tinham a decência de parecerem envergonhados.

— Se a missão foi inconclusiva, não há muito o que se possa fazer. Ambos estão dispensados até que eu decida o que fazer com vocês. — ela informou.

Sakura quase relaxou fisicamente pelo alívio. — Sim, shishou. — ela disse, se dirigindo à saída numa velocidade que poderia ser confundida com 'tentativa de fuga'.

Kakashi começou a fazer o mesmo, mas Tsunade limpou a garganta. — Kakashi, você espera. Tem outra missão que eu gostaria de discutir com você.

De repente, Sakura não parecia mais tão ansiosa para ir embora. Ela hesitou pela porta, olhando nervosamente entre seu sensei e shishou. — Eu não deveria participar também? — ela perguntou, incerta. Estava claro pela sua expressão que ela sabia o que Tsunade estava planejando.

— Não. Você pode ir. — a Hokage disse sem mais, deixando claro que não era uma sugestão.

Ainda assim ela hesitou. — Sensei…? — Sakura começou.

— Está tudo bem, Sakura. — Kakashi disse despreocupadamente. — Você pode ir.

Tsunade tamborilou os dedos contra a mesa e esperou Sakura se arrastar pela porta e fechá-la atrás de si. Ela esperou mais alguns momentos para ter certeza que a garota não podia escutar, então dirigiu um sorriso comprimido para o homem a sua frente.

— O que foi isso? — ela perguntou com falsa doçura.

— Não sei do que está falando, Hokage-sama. — ele lindamente se fingiu de burro.

— Nunca vi Sakura se esconder num canto antes, e ela nunca pede permissão de ninguém além de mim para falar. Dito isso, ou você está oprimindo, ou protegendo ela. Qual dos dois? — ela exigiu. — Ou está fazendo ambos?

Kakashi deu de ombros. — Eu realmente não sei do que você‒

— Chega disso. Sua linguagem corporal estava gritando que alguma coisa aconteceu nessa missão, então não tente me enrolar como uma idiota ignorante que não consegue ver como sua própria aluna está desconfortável e me fale a verdade. — ela calmamente se levantou para olhá-lo nos olhos. Em seus saltos, ela ficava quase tão alta quanto ele. — Se você mentir para mim de novo, te mando para o Ibiki fazer uma 'pequena extração de informação'.

Envolvendo cabos de força e uma banheira, sem dúvida.

— Eu preferiria se você não perguntasse. — Kakashi disse em voz baixa.

— Uma pena que eu esteja perguntando então, não é?

Ele suspirou e mudou de posição para cruzar os braços. Pelo menos o odioso sorriso falso desaparecera. — Teve um incidente. — ele admitiu, falando mais para si do que para ela. — Certamente você está ciente que Uchiha Sasuke foi visto pela última vez na região noroeste do território.

Tsunade franziu o cenho. — E?

— E… aparentemente ele ainda estava lá. — ele deixou em aberto para que ela pudesse chegar as próprias conclusões.

— Ah, — ela disse, seus olhos arregalando. — quer dizer que você esbarrou nele?

— Eu não, mas Sakura certamente sim. — ele disse desconfortavelmente.

— Pelo amor de deus, ela está bem? — Tsunade sibilou. — O que aconteceu?

Ele encarou a planta adornando sua mesa por um longo momento antes de finalmente responder. — Ela está bem, e aconteceu exatamente o que poderia acontecer.

— Ele a atacou?

Kakashi assentiu de novo. — Sem hesitar, mas claramente ele pegou leve. Talvez ele ainda a tenha visto como uma amiga, mas… de qualquer jeito, ela não está aceitando muito bem, como pode imaginar.

— Claro. Ela ficou ferida?

— Um pouco, mas naturalmente se curou.

— E onde você estava durante tudo isso? — Tsunade ergueu uma sobrancelha para ele, esperando o pior.

— Eu… fiquei bêbado na noite anterior e estava ocupado tentando encontrar aspirina. Quando encontrei Sakura, ela estava inconsciente. Chegamos atrasados porque paramos num hotel pela noite. Emocionalmente e fisicamente, ela não estava bem para viajar.

— Você ficou bêbado.

— Na noite anterior, sim. Ela também.

— Me arrependo de ter perguntado.

— Para ser justo, Hokage-sama, a missão foi um saco. Abaixamos a guarda quando não deveríamos e, tristemente, Sakura pagou o preço por isso.

— Acha que ela vai ficar bem? — Tsunade perguntou.

— Ela ainda está abalada, mas vai ficar bem depois de um tempo. Não é a primeira vez que ela tem um encontro infeliz com o Sasuke-kun, afinal. — Kakashi disse, dando de ombros. — E talvez você não deva mencionar para ela que eu te contei isso. Ela não quer mais ANBU indo atrás dele.

— Também não quero enviar ninguém. — ela admitiu. — Às vezes penso que esse garoto está melhor perdido por aí, se quer saber. Só mencionar seu nome é meio depressivo por aqui.

Kakashi assentiu.

— Isso é tudo que tem para me contar?

— Isso é tudo, Hokage-sama.

— Hmm, — ela franziu os lábios e o observou. — Pode ir então.

— Obrigado, Hokage-sama.

Ele deu uma breve reverência e se dirigiu até a porta. Ele acenou vagamente para Shizune ao passar por ela, e somente vários segundos depois dele ter fechado a porta e estar tudo quieto que Tsunade falou para sua assistente: — Bem, o que acha disso tudo?

A carranca de Shizune marcou seu rosto. — Ele está escondendo alguma coisa. Os dois estão.

— Isso é óbvio. — Tsunade disse ao afundar de volta na cadeira, soltando uma reclamação de cansaço. — Só estou curiosa sobre o que eles estão escondendo.

— Quando se trata de Uchiha Sasuke, — Shizune disse impotentemente. — Nada é tão simples quanto se espera. Você vai mandar um esquadrão atrás dele?

A hokage apoiou o queixo sobre a mão, irritada. — Não. — ela disse após deliberar por pouco tempo. — Não tenho ninguém para desperdiçar mandando em mais uma busca infundada. Se ele está no noroeste, está mantendo distância, então vamos fazer o mesmo. A melhor coisa a se fazer é esquecer dele.

Contudo, sete anos após sua partida e ele ainda estava assombrando o Time Sete. Alguns fantasmas simplesmente não sabiam como morrer.


Se ela fechasse os olhos, ainda conseguiria imaginar ele por perto. Seu corpo se lembrava de onde ele tocara e acariciara, e mesmo que tivesse acontecido muito rápido e de maneira confusa, cada momento ficara registrado na memória.

Desde o instante em que se entregara, ela não se sentia bem a mesma pessoa. Depois de experimentar tamanha intimidade, como você voltava completamente ao normal? Ela se sentia distante da realidade até agora, como se o mundo tivesse finalmente se revelado a vergonhosa ilusão que, na verdade, era.

Ela nunca sentira tanta apatia antes. Sentada na cama de Ino, ouvindo a garota fofocar sobre tudo o que acontecera com ela durante a ausência de Sakura, as palavras pareciam entrar por um ouvido e sair pelo outro. O desinteresse era agudo. Ela não se importava com o que Ino tinha a dizer. Não ligava para onde estava. Ela não ligaria se de repente se jogasse no chão e começasse a gritar incontrolavelmente, e não se importaria com o que pensariam dela se o fizesse.

— … Kenzki me deu. Não é lindo? — Ino exclamou, mostrando um simples pingente azul prezo confortavelmente em seu decote. — Ele disse que quando viu na loja, se lembrou dos meus olhos, então teve de comprar para mim.

Sakura suspeitava que ele tivesse dado mais para ter uma desculpa para olhar na direção dos peitos dela, mas ela não se importou em salientar isso. A vida amorosa de Ino era irritantemente fácil. Às vezes, Sakura gostaria de ter a habilidade de possuir outras pessoas que nem Ino… porque ela então a possuiria, independente do fato de ter decidido há muito tempo parar de desejar ter a vida de Ino.

— Espero que ele não tenha gastado tanto nisso, mas seu pai é rico, então não importa… — Ino parou de falar quando algo do lado de fora da janela lhe chamou atenção. — Ei… Sakura? Não é o seu professor?

Uma onda de desconforto interrompeu sua indiferença. Sakura seguiu seu olhar até a casa do outro lado da rua ‒ que, por acaso, era a sua ‒ para observar o homem parado na entrada. Ele estava tocando a campainha, a outra mão enfiada no bolso.

De todas as pessoas do mundo, Sakura não tinha certeza de querer ver justo essa, mesmo que fosse só as costas de sua cabeça a uma boa distância. Se tinha algo capaz de avivar seus sentimentos no momento, era Hatake Kakashi e, francamente, ela preferia a depressão temperamental ao confuso constrangimento que só a sua presença causava.

— Você não vai chamá-lo? — Ino perguntou, curiosa. — Ele vai quebrar a campainha.

Ele iria mesmo. Ele parara de apertar o botão intermitentemente e agora estava apenas pressionando sem parar. Mesmo desse lado da rua, Sakura conseguia ouvir o leve e contínuo barulho ecoando em sua casa. Se ela tivesse em casa, teria aberto a porta só para socar sua cabeça por ser tão desagradável.

— Não quero falar com ele no momento. — Sakura suspirou, encostando o cotovelo no peitoril da janela.

— Talvez você devesse falar mesmo assim. E se for uma missão? — a loira pontuou.

— Não é, ele só está sendo irritante. — ela resmungou de volta, esperando que ele desistisse e fosse para casa logo.

— Quer saber, às vezes você é bem rude, Testuda. — Ino a repreendeu, e então ela se inclinou na janela e começou a balançar o braço. — Eeeiii! Kakaaashi-sensssei! Aquiiiiii!

Meu deus, ele estava se virando…!

Sem pensar, Sakura saltou na outra garota e a jogou de costas na cama para que as duas saíssem da frente da janela. Ino gritou e se debateu, mas Sakura a segurou habilmente. — Quer calar a boca? — ela gritou. — Eu disse que não quero falar com ele.

— Acho que ele nos viu já. — Ino disse com um sorriso. — Ei, espera… ah, eca! E se ele pensar que estamos fazendo algo de estranho? E se ele pensar que somos lésbicas?! O que meu pobre Kenzaki vai pensar?

— Ele provavelmente não ligaria, Porca. — Sakura suspirou, ainda não ousando se sentar no caso de Kakashi ainda estar lá.

— Você tem razão. — Ino sussurrou pensativamente. — Caras ficam excitados com esse tipo de coisa, não é? Ei, Sakura‒ me beija.

— Não!

— Anda, só um beijinho‒ eu não mordo!

— Para de esquisitice, Ino.

— Você que está em cima de mim, Testuda.

— Só porque você precisa de limites, às vezes. — Sakura falou. Ela rolou para o lado para permitir que Ino respirasse, mas nenhuma das duas se sentou.

— Não entendo porque está se escondendo do Kakashi-sensei. — Ino sussurrou, como se o homem pudesse ouvi-las do outro lado da rua. — Aconteceu alguma coisa durante a missão?

— Não. — Sakura disse num tom que sabia ser pouco convincente. Metade do seu cérebro estava implorando para que Ino perguntasse para que ela pudesse desabafar, mas a outra, a mais resistente, avisava que certas coisas não podiam ser compartilhadas. Ainda mais com uma fofoqueira como Ino, que nunca fora conhecida por sua sensibilidade. Ela já tivera sua cota de insensibilidade pela semana. Então ao invés de abrir a boca, Sakura apenas enterrou a cabeça no ombro da outra garota.

— Aconteceu alguma coisa, não foi? — Ino disse, com suspeitas. — Você parece diferente.

— Acho que estou diferente.

Ino tinha um cheiro bom; como madressilvas em tardes quentes de verão. Vinha de seu xampu, perfume ou creme hidratante? Sakura acreditava não cheirar tão bem após uma missão de uma semana, mas ela não queria se mover no momento. Ela precisava dessa proximidade, pelo menos por um tempo. Ainda que o corpo de Ino fosse muito delicado e macio, e sua pele emanasse um cheiro muito doce para enganar os sentidos de Sakura, era tudo o que ela tinha. Ela sabia estar confusa. Ela sabia que quando agarrara o pescoço de Ino, na verdade era outra pessoa que ela queria abraçar.

— Vocês brigaram ou algo do tipo? — Ino perguntou, passando os dedos gentilmente pelos cabelos de Sakura.

— Sim. — ela suspirou miseravelmente.

— Sobre o que?

— Eu… Eu fiz uma besteira, Ino.

— E eu pensando que tinha acontecido algo fora do normal.

Sakura a cutucou firmemente nas costelas, mas Ino apenas riu e agarrou a mão que lhe atacava para que seus dedos se interligassem. — Ânimo, Sakura. — ela disse. — Não é como se você nunca tivesse brigado com o Kakashi-sensei.

— É, — Sakura disse fracamente. — mas dessa vez acho que…

— O que?

— Acho que ele não gosta mais de mim.

— Não seja estúpida. Se ele não gostasse de você, não estaria na sua porta, então para de falar besteiras. — Ino disse, fazendo pouco caso. — Agora me dá um abraço.

— E o Kenzaki?

— Verdade, deveríamos tirar umas fotos para ele!

De certa forma, Ino talvez fosse o mais próximo que ela tinha de uma irmã, incluindo as desavenças. Uma vida inteira morando de frente para a outra fabricava esse tipo de proximidade que, mesmo após anos sem se falar, irrevogavelmente as mantinha unidas. Provavelmente tinha a ver com a amizade entre suas mães também. Era difícil escapar de uma colega que você odiava quando sua mãe continuava te arrastando para a casa dela para tomar chá. Mesmo as duas mulheres já tendo falecido, por razões diferentes, elas haviam deixado um legado para suas filhas. Sakura não podia escapar de Ino agora, mesmo se quisesse.

— O que aconteceu, Sakura? — a loira perguntou, sua cabeça encostando na de Sakura. — Você sabe que pode me contar.

Sakura não iria cair nessa. — Passei um tanto por cima das regras, só isso. Ele não ficou feliz. — foi tudo o que ela resolveu contar e, fundamentalmente, era a verdade.

— Sua bobinha. — Ino grunhiu. — Se ele ficou bravo foi porque quer o melhor para você.

— Eu sei, mas…

— Mas o que?

— Não sou eu que deveria decidir o que é melhor para mim?

— Não se você não souber o que é melhor para você! — Ino se desvencilhou de Sakura para se colocar de joelho e espiar pela janela. — Hmm… ele já foi embora. Pode parar de se esconder.

Sakura se sentou, corando furiosamente. — Não estava me escondendo, só estava… — mas não havia como terminar essa frase sem usar um sinônimo muito óbvio para 'escondendo'. Não quando ela estava espiando tão cuidadosamente pela cortina de Ino para ter certeza de que sua varanda estava realmente vazia.

Para seu alívio, Kakashi havia sumido.

— O que quer que tenha feito, não pode ser tão ruim. — a mão de Ino tocou o topo de sua cabeça e, por um momento, Sakura se lembrou muito intensamente de alguém que fazia o mesmo de forma afetuosa. Um bolo se formou em sua garganta, repentinamente dificultando sua respiração. — Sei o quão neurótica você é sobre todo mundo ter que gostar de você, mas Kakashi-sensei…

Sakura esperou, mas Ino parecia ter perdido completamente a linha de raciocínio ao encarar o ombro de Sakura, franzindo o cenho em confusão. Em seguida, a garota a agarrou pelo colarinho. — O que diabos é isso?

— O que?

— Isso no seu pescoço. — Ino cutucou a pele abusada acima da clavícula direita de Sakura. — Parece com um machucado mas‒

— Ah! — Sakura gritou em surpresa, colocando uma mão no pescoço. — N-não é nada. Arrumei briga com um suspeito durante a missão‒ só isso.

Ino a encarou.

— Posso, ah, usar seu banheiro? — Sakura perguntou, sua voz quase prestes de quebrar.

Ino a dirigiu um olhar intrigado, provavelmente reconhecendo um coelho assustado quando via um. — Claro. — ela deu de ombros.

Sem perder tempo, Sakura correu do quarto de Ino e se trancou no banheiro a frente. No espelho acima da pia, ela viu outra garota de cabelo rosa fechando a porta atrás de si e se aproximar, e Sakura percebeu que essa era a primeira vez que via seu próprio reflexo desde que saíra em missão com Kakashi. Essa era a primeira vez que se via desde que…

E quando ela puxou a gola de sua blusa, percebeu o que tinha deixado passar.

Sakura pensara ter se livrado de todos os machucados e arranhões incriminadores. Não havia muitos, mas o suficiente para provar tanto inexperiência quanto falta de jeito. No entanto, ao olhar para a marca avermelhada pelo espelho, ela soube não se tratar de apenas mais um choque acidental no calor do momento. Aquela fora um tanto proposital.

Era um chupão.

Ela reconhecia um quando via, já que se dera bastante deles na época em que estava ansiosa para praticar suas habilidades de cura. Entretanto, quem mais havia visto hoje? Ino? Tsunade? Transeuntes?

Kakashi?

Envergonhada, ela levantou a mão para começar a concentrar chakra em ordem de se livrar da escura e feia marca. Então, ela notou o resto de seu reflexo e pausou.

Não havia nada de muito incomum sobre sua aparência no momento. Ela parecia um pouco cansada, mas isso era normal, e sua feição estava tão clara e saudável quanto nunca. Seu cabelo ainda estava do mesmo jeito, suas roupas (embora precisassem ser lavadas e passadas) eram as mesmas que usara ao partir. A garota retribuindo seu olhar era a mesma que Sakura sempre via, e isso era desarmante… porque na última vez que olhara no espelho, ela era apenas Sakura, a garota. A virgem. Cujas experiências sexuais se limitavam a rápidas tentativas de masturbação e um beijo com um companheiro médico numa festa de Natal. A que lhe encarava de volta agora era Sakura, a mulher. A que era um tanto mais sabida do mundo do que a garota de uma semana atrás.

Todavia, a única diferença visível entre as duas era esse trecho de pele avermelhada.

Por alguma razão, Sakura não conseguia removê-lo. Era tudo o que ela tinha daquela noite, qual fosse seu significado, e se ela subisse o zíper da blusa até o topo, a marca ficaria mais que escondida.


Comparado aos outros, era apenas um pequeno e excepcionalmente novo túmulo, ainda que estivesse de pé há trinta anos. Contudo, onde muitos dos outros túmulos próximos continham dezenas de nomes de múltiplas gerações, esse carregava apenas dois.

Sakumo. Hanako. A sepultura da família Hatake.

Kakashi suspirou ao se agachar a frente dela para arrancar uma moita de recém crescidas ervas daninhas perto da base da lápide de pedra. E então, porque sempre se esquecia de trazer flores, depositou as mesmas evas no vaso destinado a buquês. Dentes-de-leão amarelo eram tão bonitos e sem sentido quanto qualquer outra planta, ele pensou. A intenção era o que contava… ainda que fosse quase inexistente.

Era difícil se lembrar das pessoas que ele tentava honrar. O túmulo era tudo o que ele conhecia de sua mãe. Apenas seu nome gravado era familiar, já que certamente não se lembrava de seu rosto. Seu pai deixara um pouco mais de memória para trás, mas a maior parte era póstuma. Quase tudo o que Kakashi, na verdade, se lembrava de seu progenitor era virtualmente de natureza esquizofrênica; seu auge havia sido glorioso, e a queda devastadora, e se isso era apenas a impressão confusa deixada numa criança ou evidência da verdadeira loucura de seu pai, ele ainda tinha de descobrir.

Porém, ambos agora eram apenas nomes numa pedra e cinzas debaixo da terra. Um dia, o mesmo valeria para ele.

— Você voltou então.

Kakashi se endireitou e virou. — Ei, Kurenai.

A mulher de cabelos pretos sorriu para ele calorosamente, mas a pequena e tímida garota ao seu lado se escondeu atrás de suas pernas no momento em que Kakashi olhou para ela. — Visitando Asuma? — ele chutou.

Kurenai assentiu e olhou por cima do ombro para o túmulo que acabara de visitar. Mesmo dessa distância era difícil de não vê-lo. Ser o filho de um Hokage dava direito a uma sepultura um tanto… grande e elaborada que subjugava as outras. Kakashi olhou de soslaio para a lápide de um metro de altura da sua família, diminuída até mesmo pelas lápides de tamanho normal, e outro suspiro escapou de seus lábios.

— Deveria ter voltado ontem, não? — ela perguntou.

— Você parece saber bastante para uma civil. — ele murmurou. — Não estou sabendo de alguma coisa?

— Ainda não vou voltar, se é o que está insinuando. — ela disse alegremente. — Mas tenho meus contatos para me manter atualizada. Mei-chan, não puxa a saia da mamãe.

Kakashi inclinou a cabeça para fitar a criança espiando por detrás de sua mãe. — Como está a Meiyu? — ele perguntou simpaticamente.

Meiyu logo desapareceu novamente, enquanto Kurenai riu. — Ela é melhor da turma, é claro! Iruka-sensei diz que ela vai ser uma excelente kunoichi um dia, e que é uma das mais amigáveis e educadas que ele já ensinou. Não é mesmo, Mei-chan?

— Continua um pouco tímida, pelo visto. — ele reparou.

— Ah… não mesmo. A única pessoa de quem ela se esconde é você.

— … Gostaria de poder dizer que essa é a primeira vez que ouço isso.

— Você tem que admitir, você tem um rosto bem duvidoso.

— Por que ela se importa? Ela não consegue ver meu rosto.

— Exatamente. — Kurenai, cansada da pequena puxando seu vestido, se abaixou e levantou a filha no colo. Tirada de seu esconderijo, gostando ou não, Kakashi agora podia vê-la propriamente. Ela era fofa, mas não de uma forma delicada como Kurenai, já que as similaridades entre mãe e filha se resumiam ao cabelo ondulado.

— Ela se parece mais e mais com Asuma cada vez que a vejo. — ele disse.

— Você acha?

— Se colocar uma barba nela, vai ficar igualzinha.

Meiyu pareceu chateada com isso, mas Kurenai apenas riu e beijou o nariz de sua filha. — Não vamos fazer isso. — ela prometeu, antes de dirigir um olhar mais calculado para Kakashi. — Você acabou de voltar? Pelo menos já passou em casa?

— Não. — ele murmurou, colocando as mãos nos bolsos com um dar de ombros.

Ela olhou incerta para a sepultura da família Hatake. — E esse é o primeiro lugar que você vem?

— Parece que sim. — embora, tecnicamente, fosse o terceiro lugar.

— Que estranho. — ela murmurou.

— Hm?

— Quer dizer, acho que nunca te vi por aqui antes. Normalmente você está no memorial, então só estou surpresa que tenha vindo para cá direto de uma missão. — ela ponderou, olhando para a lápide da sepultura. — São seus pais?

— Provavelmente. — não havia espaço para certezas nesse universo maluco.

— Hã… onde está o resto‒

— Não há mais ninguém. — ele disse, sem mais.

Ela estremeceu. — Ah, entendo. Me desculpe. — ela disse, sua filha prontamente escondendo o rosto contra o ombro de Kurenai.

Talvez ele tivesse sido mais ríspido do que pretendia, mas esse era um tópico sensível que ele não gostava que ninguém se metesse. Onde outras pessoas tinham túmulos repletos de ancestrais datando de centenas de anos atrás, o túmulo de Kakashi começava com apenas essas duas, e muito provavelmente terminaria com ele. Parecia antecipar um além triste e solitário.

Ele nem mesmo sabia porque havia visitado, tirando que talvez essa missão tivesse o deixado abalado e incerto quanto ao que constituía 'família' hoje em dia.

— Você pode visitar sempre que quiser para tomar um chá, sabia. — Kurenai falou. — Quem sabe você não desafia Meiya para uma partida de shogi? Ela é muito boa.

— Shikamaru deve ser um bom professor.

— Ele faz o que pode, ainda que goste de reclamar sobre ser o único homem. Até a Meiyu implica com ele.

— Não implico! — a pequena garota interviu.

— Claro que não, Mei-chan. — Kurenai acalmou, mas acima de sua cabeça ela deu uma piscadela para Kakashi. — Ela tem ele na palma da mão, no entanto. Mas imagino que ele vá passar mais tempo em Suna a partir de agora.

— Por quê?

— Ele vai se casar, não? — ela disse. — Com a irmã do Kazekage.

— Espera, quantos anos ele tem? — Kakashi perguntou.

— Vinte.

— Meio cedo para se casar, não acha?

— Talvez. Mas não para eles. — ela ponderou. — A guerra vai começar e você sabe como é. Não é incomum que pessoas apressem as coisas ou façam o que normalmente não fariam quando de repente não estão mais certos de que vão sobreviver.

Suas palavras lhe fizeram pausar. — Imagino que seja verdade. — ele murmurou. — Mas faz eu me sentir meio velho.

— Você é velho.

Ele estreitou os olhos para ela. — Você é mais velha do que eu.

— Que rude, não se menciona a idade de uma dama. — ela comentou friamente, mas com um sorriso divertido. — Enfim, Meiyu está cansada então é melhor eu levá-la para casa. Lembre-se do meu convite, Kakashi.

— Claro. — ele ergueu uma mão em despedida e observou a mulher carregar a criança pelo caminho. Ela desistira da carreira de kunoichi por essa criança, e Kakashi não conseguia vê-la se arrependendo disso. Ser mãe solteira e arriscar a vida todos os dias não era uma escolha razoável para algumas pessoas. Ele podia ver a lógica por trás disso. Kakashi supôs que ele não teria se tornado tão doido da cabeça se não tivesse ficado órfão tão cedo.

Ainda assim, havia o lado bom de ser doido da cabeça. — Não é, pai? — ele perguntou a lápide de pedra.

A única resposta foi um estalo áspero que começou atrás de si. Ele prontamente virou a cabeça e deu de cara com um grande e preto corvo empoleirado numa placa de madeira de outra sepultura. A ave inclinou a cabeça para retribuir seu olhar através de um pálido olho azul antes de abrir o bico para vociferar contra ele mais uma vez. Ele franziu o cenho. O cacarejo zombeteiro de kakaka ecoou dentro dele.

Ele nunca fora afeiçoado por pássaros. Especialmente por corvos.

Sem voltar a olhar para o corvo ou o túmulo, ele se virou e saiu do cemitério. Pela segunda vez naquele dia, ele estava se dirigindo a casa de sua subordinada. Ele não a encontrara mais cedo, mas seu sexto ou sétimo sentido o alertava que agora ela estaria em casa. E como previsto, quando chegou a casa dos Haruno, ele percebeu o portão do jardim, que ele deixara cuidadosamente aberto pouco menos de uma hora atrás, fechado. Quando ele foi até a porta e cutucou a portilha de cartas, viu também que a pilha de correspondências que amontoara a entrada havia desaparecido, como se alguém tivesse passado e a coletado.

Mas principalmente, não havia como esconder o par de botas que havia repentinamente se materializado na sapateira.

O dedo de Kakashi apertou a campainha e o mesmo barulho que ele ouvira antes começou a ecoar. Em algum lugar da casa, um secador foi desligado. Ela sabia que ele estava lá, mas ele continuou a tocar na campainha para não dar oportunidade dela ignorá-lo.

Ele só parou quando ouviu sua voz, irritada. — Quem está aí?

Como se ela não pudesse adivinhar. — Eu. — ele respondeu categoricamente.

Ele pôde ouvi-la hesitando. — Você pode voltar mais tarde? — ela perguntou tenazmente. — Não estou decente.

— Posso esperar. — ele respondeu. E ele esperaria se fosse preciso.

— O que você quer? — sua voz impaciente exigiu.

— Você pode abrir a porta, por favor?

— Diz o que você quer primeiro.

Ele suspirou, massageando o topo do seu nariz quando a enxaqueca que lhe perseguira por dois dias ameaçou retornar com uma dor fugaz. — Quero conversar. — ele disse em voz baixa.

Foi quando a porta a sua frente finalmente abriu e o rosto pálido e decidido de Sakura apareceu na fresta. — Viajamos juntos o dia inteiro e agora você quer conversar? — ela chiou. De um lado, seu cabelo estava liso e seco, do outro ele permanecia molhado e ondulado. Ela parecia vestida com o maior e mais felpudo roupão que ele já vira na vida, e ele vagamente se perguntou como diabos ela podia pensar que estava 'indecente' quando a roupa deixava mais para a imaginação do que suas roupas normais. Entretanto, ela não precisava agarrar a gola como estava fazendo, como se de repente tivesse adquirido um senso de modéstia sobre mostrar seu próprio pescoço para ele.

— Eu não falei nada para Tsunade. — ele disse cuidadosamente. — Achei que deveria saber, já que parecia preocupada.

O olhar dela abaixou para o chão. — Você que insistiu tanto sobre isso; não ligo se falou ou não. Obrigada por visitar, Sensei. — ela começou a fechar a porta.

O pé de Kakashi bloqueou a porta intencionalmente e ele se voltou para ela enquanto ela encarava seu ofensivo membro como se estivesse seriamente debatendo arrancá-lo fora ou não. — Sinto muito, Sakura. — ele disse em voz baixa.

Seu olhar continuou evitando o dele. — Não importa mais.

— Bem, se você ama ele, então imagino que importe um pouquinho sim.

— Não é da sua conta. — ela disse rispidamente, soltando seu roupão para agarrar a soleira da porta.

— Não, imagino que não. — ele suspirou. Ele tentou ignorar, realmente tentou, mas no segundo em que ela soltou o roupão, sua gola deslizou alguns centímetros. E ele poderia ter continuado ignorando se a escura mancha avermelhada em sua pele não tivesse chamado sua atenção. Não havia como evitar mais. — Ah… — ele começou, incerto, quase apontando para seu pescoço. — Você parece ter um‒ melhor curar isso.

Os olhos dela brilharam raivosamente, e sem um momento de confusão ou hesitação ela puxou a gola de volta para cima. Ela não poderia ter deixado mais óbvio que já sabia do chupão e que teria agradecido se ele não reparasse. Então, se ela sabia sobre as marcas, por que não as havia curado?

— Adeus, Sensei. — ela disse abruptamente, fechando a porta com tanta força que seu pé nem teve vez; era tirá-lo ou tê-lo esmagado, e subitamente Kakashi se encontrou de cara com uma tábua imóvel e sem compaixão de madeira. Os passos de Sakura se afastaram e alguns momentos depois ele ouviu o barulho do secador recomeçar.

Ninguém seria capaz de acusá-lo de não tentar, e havia um limite para o quanto você poderia pentelhar uma garota que conseguiria amassar seu tórax com seus pequenos punhos antes que ela fizesse exatamente isso. Sua única escolha era deixá-la em paz e torcer para que amanhã, ou depois de amanhã, ou no dia seguinte, ela aprendesse a lidar com seus arrependimentos.

Todo mundo os tinha, afinal.


Próximo Capítulo: A Primeira Dúvida


*Trecho da música TAKE ME HOME (Matt Hales)

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