A própria força

Bem, acho que era o esperado. Com um calor desses...

Era o que Aqua refletia, protegida do calor pela copa de uma árvore próxima da área de treinamento. Encontrava-se encostada no tronco, com a mão levemente apoiada sobre seu baixo ventre, como se a dor que sentia fosse palpável. Distante de si, seus companheiros de treino recebiam novas orientações de Eraqus. Não podia ouví-lo, mas sabia muito bem que ele também tranquilizava os dois garotos a seu respeito.

Sem disfarçar qualquer frustração em seu rosto, perguntou-se que diabos havia acontecido. Sua menstruação havia dado o ar da graça no final da tarde do dia anterior. E na manhã de hoje tomara seu remédio e depois de muita preparação – para evitar qualquer possível vazamento durante o treino –, seguira para encontrar os outros.

Então das muitas questões que rondam a cabeça de uma mulher quando todo um planejamento não é o suficiente para conter os contratempos da menstruação, Aqua começou a repassar seu dia em sua cabeça, do levantar até o presente momento, procurando exatamente onde errara.

1. O remédio poderia simplesmente não fazer efeito.

2. A cólica daquele mês era mais forte do que as que estava acostumada.

3. Talvez tivessem sido os exercícios. O treino começara com uma sequência para fortalecimento abdominal.

4. O calor.

5. A soma de todos os fatores

E agora, ao invés de acompanhar o treino junto de Ven e Terra, ela estava ali, paralisada pela dor, enquanto os garotos voltavam desconfiados para o treinamento. Terra lançara-lhe um olhar de tamanha preocupação que parecia que o sossego não estaria mais com ele pelo resto do dia.

O que consequentemente levava a outra questão: Aqua era muito competitiva, em especial com Terra. Antes de Ven surgir na Terra da Partida e tornar-se um aprendiz de Mestre Eraqus, ambos já disputavam resultados. No entanto, não havia nenhuma diferença entre os dois quando ela tinha oito anos e ele dez: ambos estavam a par um do outro em conquistas físicas e a única vantagem que Terra sempre tivera era ser ligeiramente mais alto.

Naturalmente tudo mudou quando ele fez doze anos e ela dez. Podia jurar que foi quase da noite para o dia que ele se tornara mais rápido e imensuravelmente mais forte. E agora que ela tinha dezesseis e ele dezoito, as diferenças eram gritantes. Não bastasse que a natureza favorecesse os homens fisicamente, Terra parecia ter sido favorecido por ela até mesmo entre os homens. Mesmo que Ven tivesse catorze anos, tudo indicava que ele continuaria franzino e pequeno como um pardal.

Ao passo que Terra parecia uma rocha.

Quando percebera, com dez anos, que não conseguia mais acompanhar o ritmo de Terra nos treinos, Aqua ficou arrasada. Por quase dois meses andou cabisbaixa e com um desempenho abaixo do esperado em seu treinamento. Mestre Eraqus bem que tentara conversar diversas vezes para descobrir o problema, mas Aqua não queria parecer reclamona, invejosa ou digna de pena. A única coisa que cabia para descrever o que sentia era uma enorme decepção consigo mesma, além de muita frustração.

A situação só piorou quando o próprio Terra fora até ela perguntar o que estava acontecendo. E cada vez que ele perguntava se havia feito algo, se ele a chateara ou ofendera, Aqua queria sumir em um buraco. Como dizer algo que você tem a mais absoluta certeza que não será entendido? "Terra o problema é que eu estou chateada por te ver avançar tanto enquanto eu fico para trás e avanço tão pouco".

A perspectiva só mudou no mês seguinte, quando iniciaram as aulas de magia. O assunto era interessante e Aqua o estudou como estudaria qualquer tema exigido para se tornar uma Mestra da Keyblade, embora seu entusiasmo e confiança fossem visivelmente menores.

Para a primeira aula, Mestre Eraqus decidira que o primeiro feitiço a ser tentado seria Blizzard. "Parece menos perigoso do que vocês se queimarem ou invocarem trovões na cabeça um do outro", o que parecia uma justificativa válida. Após instruções básicas, o Mestre pedira que Aqua tentasse primeiro e ela seguiu, sem entusiasmo algum, contrariando todas as expectativas de Eraqus de que as aulas sobre magia fariam a garota se animar de novo.

Porém o que ela também não esperava era que sua primeira tentativa, além de certeira, fora uma excelente execução do feitiço. O que ela também não teria dado atenção se não fosse pela surpresa ao receber parabéns e abraços entusiasmados de Eraqus e Terra, respectivamente.

Daquele dia em diante, Aqua se debruçara sobre estudos mágicos com o mesmo entusiasmo em que disputava resultados com Terra. Ela parecia ter alguma afinidade e facilidade e na frente de todos parecia ser simplesmente genial, enquanto escondida em seu quarto passava horas estudando pela madrugada.

E agora, aos seus dezesseis anos, aquela competição havia dado espaço a um forte laço entre ela e seu companheiro. Terra era centrado e disciplinado, além de muito orgulhoso. Demorou dois anos até que ele a buscasse para que ela o ajudasse a estudar magia.

O que a pegou de surpresa. Em nenhum momento ela considerou conversar com ele, Ven ou Mestre Eraqus a respeito de seu sentimento de inferioridade por ser mulher. Não que a possibilidade não passara por sua cabeça.

Ela só tinha a mais absoluta certeza que ninguém entenderia.

Longe de seus devaneios, percebera que Mestre Eraqus retornava para encontrá-la sob a árvore. Ao fundo, Ven e Terra estavam em posição de prancha. Terra, colossal como uma grande árvore e imóvel, enquanto Ven parecia estar executando o exercício com muito esforço. No entanto, era notável que em seis meses desde que chegara, Ven já se aproximava dos resultados físicos que Aqua alcançara (e que eram menores que os de Terra) e o desenvolvimento do garoto era notável em seu corpo semana após semana.

E perceber isso a deixara ainda mais deprimida.

- Sente-se melhor? - Mestre Eraqus sentou-se em uma pedra próximo da garota. Aqua tentara não ficar constrangida; buscou lidar com o fato que todos agora sabiam que estava menstruada como uma adulta. E falhou.

- Sim, obrigada, Mestre.

- Caso você sinta mais dor, podemos aliviar com uma bolsa de água quente. Ou até mesmo um chá para facilitar o processo. – ele comentara casualmente. Aqua queria agradecer a atenção, desculpar-se por dar trabalho e tentar voltar o mais rápido possível para o treinamento. Sentia-se novamente com dez anos e todos os sentimentos de inferioridade que lutara para compreender agora borbulhavam de volta para sua garganta, causando na mesma bola de incômodo amarga.

- Mestre, eu acredito que já posso voltar. Foi só um mal estar. Está tudo bem.

- Tire o dia para descansar Aqua, não tem problema. – prontamente ele colocou a mão no ombro da aprendiz, impedindo-a de levantar. Ela aceitou continuar sentada, de maneira relutante. – Não deve ser surpresa nenhuma dizer que aprendo com vocês tanto quanto vocês aprendem comigo. Mas acredito que aprendo mais cuidando de você do que dos outros dois, Aqua.

- O senhor jamais imaginava ter que pesquisar sobre menstruação, imagino...

Mestre Eraqus não pode evitar de rir do comentário ácido da aluna.

- Não apenas isso! – ele ainda tentava controlar o riso – Aqua, treinar você me fez perceber que para uma garota, a receita de bolo não funciona.

Ela sabia que Mestre Eraqus conversava casualmente sobre assuntos mais delicados com seus alunos, buscando deixá-los confortáveis ou tentando explicar em um linguajar mais simples o que eram conceitos mais complexos. Ela só não imaginava que assunto delicado ou complexo ele pretendia abordar.

- Eu posso deixar o treinamento programado, entregar na mão de Ven e Terra e sumir pelo resto do dia. Mas não imagino que posso fazer o mesmo com você ou com qualquer aluna que eu tivesse. Eu não deixaria nenhum de vocês praticar mágica sozinhos, claro. – e agora ele parecia mais confuso e menos claro – a linearidade de seu desenvolvimento é diferente da de Terra e de Ven. E as circunstâncias dele também.

Aqua sentiu-se afundar um pouco no chão. Tudo que ela menos queria na vida era que a biologia fosse utilizada para explicar o seu parco desempenho físico ou para que justificasse momentos como aquele, onde a dor mal a deixava se mexer.

- Eu não gosto de falar sobre isso, mestre. – ela jamais imaginara que colocaria um limite para seu mestre e nem que soaria tão fria ao fazê-lo – É só uma cólica, em meia hora ou em uma eu vou poder retornar para o treino. Na próxima vez eu me encarregarei de tomar mais do remédio.

- Não é uma questão de retornar para o treino, Aqua. Ouça o seu corpo. – ele apoiou as mãos no joelho e voltou-se para ela – Se ele precisa tirar algumas horas, um dia ou até mais para isso, está tudo bem. Entenda que isso não é o problema.

- Mestre, eu não quero ser tratada diferente por ser garota!

Surpresa e silêncio dominaram o ambiente. Mestre Eraqus jamais vira Aqua apresentar um ponto com tamanha raiva. De seus três aprendizes, era a mais lógica e reservada. Nunca passara por sua cabeça que havia alguma questão interna e forte na garota a respeito de seu gênero.

- Eu não quero pena. Quero treinar como eles. Eu quero ser igual a eles.

E ela imediatamente voltou-se para o lado oposto de seu mestre, pernas, tronco e rosto encarando a grama. Sentia-se idiota. E com uma vontade incrível de chorar que amarrara dentro de si mordendo o próprio lábio. Já havia falado demais, demonstrado em duas sentenças o que sentia e isso já era passar de todos os limites extrapolados para si mesma.

Mestre Eraqus não sabia como prosseguir a conversa sem tornar a situação ainda mais desconfortável para a garota. Mas sentia que era seu dever não deixá-la sofrer:

- Aqua, você lembra o que aconteceu mês passado, quando estive fora?

Claro que lembrava. Fora um dos dias mais assustadores da sua vida. Pelo que havia entendido da história, Terra havia dito para Ven que um Ágata Azul, um pássaro muito raro, havia feito ninho no Grande Carvalho. O nome por si só já explicava o fato de ser uma árvore gigantesca, distante cinco ou seis quilômetros do castelo.

Ven ficara tão maravilhado com a ave e suas penas de cor lilás que Terra ofereceu-se para escalar o Carvalho, na tentativa de ver se alguma das plumas tinham ficado no ninho.

O resultado da epopeia era uma tragédia anunciada. Terra despencara do alto do Carvalho e perdera a consciência. Ven não conseguia puxá-lo ou carregá-lo e estava tão abalado que sequer conseguia executar um Aero na intenção de movê-lo. Aqua assustara-se quando o garoto loiro entrou aos prantos no castelo, desesperado e quase sem conseguir pronunciar uma palavra.

Após guiá-la para a clareira onde Terra estava desacordado, a garota o acalmou e pediu para que se controlasse ou não conseguiriam fazer nada. Carregaram então juntos o amigo de volta para o castelo e, quando esgotados, Aqua ainda arranjou forças para executar uma magia que levitava o corpo do rapaz e assim terminaram o trajeto. O que, pensando agora, era algo que ela deveria ter feito desde o princípio, mas o susto não permitiu que pensasse logicamente a princípio. No final do dia, Aqua ainda desdobrou-se entre fabricar poções de cura para Terra e acalmar Ven que de tempos em tempos chorava de preocupação.

Felizmente o episódio terminara bem. Terra estava extremamente dolorido e sem conseguir se movimenta direito, o que durou aproximadamente uma semana, mas sem nenhum osso quebrado.

- Se você não estivesse aqui, Ven não saberia o que fazer e sabe-se o que mais poderia ter acontecido.

- Eu não consegui carregar o Terra de volta. – ela respondeu prontamente.

- É verdade, não conseguiu. – ele afirmou – Mas você teve força. E quando falamos de força, Aqua, não estamos falando apenas da força física.

Ela pode observar, enquanto refletia, que Ven e Terra faziam flexões. Terra as executava perfeitamente, enquanto Ven ainda precisava apoiar os joelhos no chão para realizar o exercício.

- Eu queria que você enxergasse as coisas mais dessa forma. Você é completamente diferente de Terra e Ven. E mesmo que sejam garotos, Terra e Ven também são absolutamente diferentes um do outro. Você é brilhante em seus próprios termos, que não precisam ser iguais aos termos de outra pessoa para que você seja valorizada.

Aqua ouvira aquilo estática, como se alguém tivesse apresentado uma forma muito mais simples de resolver uma equação complicada. Os garotos encerravam seus exercícios e agora voltavam exaustos para a árvore onde ela e Eraqus estavam.

- É verdade que talvez você não tenha tanta força física. – Eraqus continuou, palpando o assunto de forma realista – Mas você executa magias muito bem, tem grande espírito de liderança, é inteligente. São outras infinitas qualidades.

Ele pôs-se de pé.

- O mundo não reconhecerá isso em você Aqua, jamais. Mas isso não torna o mundo certo e nem deve fazer que você se julgue usando os padrões injustos do mundo.

Certas coisas ditas por Eraqus pareciam ser feitas no exato momento para que não existisse uma contrarresposta. Como por exemplo, dizer algo de tamanho impacto quando Ven e Terra já estavam próximos o suficiente, interrompendo o momento e perguntando para a jovem se ela estava bem.


Aqua de fato tirara o resto do dia para descansar. A dor continuou até que ela utilizasse uma bolsa de água quente sobre o ventre. Conforme aguardava o efeito, o cansaço acabou vencendo-a e acabou entragando-se sem lutas ao sono.

Acordou quando ouviu portas próximas do seu quarto sendo abertas e fechadas, além do burburinho da conversa entre Ven e Terra. Levantou-se e sentiu imenso alívio ao perceber que a dor agora não passava de um incômodo que parecia diminuir a cada instante. Decidiu por tomar um banho.


Duas batidas da porta chamaram a atenção de Aqua enquanto ela secava os pés. Após o seu "entre", Ven e Terra surgiram timidamente, como se visitassem alguém na enfermaria.

- Melhor, Aqua? – Ven perguntou sentando-se na cama. Mais tagarelante e extrovertido, ele não via problema algum em já ocupar espaço no quarto.

- Sim, obrigada.

- Você ainda sente dor? – Terra perguntou – Talvez seja melhor conversar com o Mestre a respeito... Er.. Desses dias. Tenho certeza que ele pode passar outras atividades para você.

Ela teria ficado internamente brava com a sugestão de ter uma rotina mais tenra nos dias mais difíceis. Mas após uma longa reflexão no banho, Aqua sorriu e concordou.

Talvez não olhassem para ela como alguém preguiçoso ou que desejasse moleza. Mas apenas como uma pessoa que precisava de um momento em razão de uma determinada particularidade.

- Bem, já que está melhor – Vem começou sem rodeios – Aqua, pode nos ajudar? Amanhã temos que mostrar para o Mestre o Aerora. E as coisas não vão bem...

Aqua ficou surpresa.

- Mas Ven, Aero é o seu melhor feitiço, você não deveria ter tantas dificuldades. E Terra, você sabe utilizar o Aerora.

- Por alguma razão o meu Aerora está descontrolado. Parece mais um tornado e acho que é do interesse de todos que o castelo continue de pé. – Terra coçou a nuca – Precisamos de ajuda, Aqua.

E aquele pedido de ajuda arremessou Aqua de volta para outra lembrança de sua vida. Ela, com treze anos, tentando fazer flexões na barra e Terra, com quinze, fazendo-as ainda que com certa dificuldade. O aparelho de Aqua possuia uma barra tão grossa quanto a que Terra utilizava, o que a frustrava sempre que se pendurava e percebia que não conseguia fechar as mãos por completo na barra. Enquanto tentava se concentrar em manter as mãos firmes e mover seu corpo, repentinamente já estava no chão e sem conseguir realizar nada.

E foi Terra quem percebeu o problema e a ajudou a substituir a barra por uma mais fina e que a ajudasse a executar o exercício a princípio.

Se Terra, orgulhoso e centrado, conseguia dispôr-se para ajudar e também para receber ajuda, ela também poderia se acostumar a pedir ajuda quando necessário. Ajudar já era tão natural quanto respirar.

- Vamos treinar. Esse Aerora precisa sair perfeito ainda hoje!


Disclaimer: escrevi para todas as garotas que se sentem pequenas e incapazes quando notam suas diferenças perante os homens. Para todas que se diminuem por nunca conseguir fazer algo igual e se cobram, sem nunca perceber ou dedicar mais atenção para as suas qualidades. Para todas que conseguem estender uma mão para os outros e não estendem para si próprias e não aceitam ajuda.

Somos cheias de capacidades.