Disclaimer: Naruto não me pertence.

Notas: Será que ainda existe alguém por aqui? Se sim, você provavelmente estava por torcendo por uma atualização de Castelo de Areia e realmente é nisso que eu deveria estar trabalhando, mas não. Confesso que os dois últimos capítulos estão quase prontos, mas são os detalhes que me impedem. Sei que não há desculpas para mais de um ano sem atualização, então tudo o que posso dizer é, não desista de mim! Quando você menos esperar, eu volto!

Em relação a este novo projeto, é algo o que eu sempre quis fazer. Venho percebendo há algum tempo o quando eu amo começar histórias e acabá-las com um gostinho de quero mais. Isso me faz pensar se eu talvez seja uma escritora de contos que ainda não se encontrou. Mas quero fazer de Fragmentos o meu lugar feliz. Quero escrever sobre esse casal que amo do jeito que eu quiser, quando eu quiser e se eu for sortuda o suficiente, você irá gostar haha Os capítulos podem ou não ter relação entre si, mas eu sempre explicarei no começo, como estou fazendo agora.

Se você realmente gosta do que eu faço, ter convido a acompanhar meu blog no instagram, estou sempre por lá colocando para fora os meus devaneios literários. Venha e seja bem vindo: .limão

Acho que é isso. Se você veio de Castelo de Areia, saiba que você é alguém que ocupa um lugar muito especial no meu coração, se você é um leitor novo, tem lugar para você nesse coraçãozinho também.

Espero que goste do que eu trouxe hoje e por gentileza, não esqueça de deixar um comentário!


Fragmentos

Capítulo I: Propósito

No primeiro instante, tenho a impressão de que estou sonhando porque é como se minha mente estivesse flutuando, leve e fluída, mas o meu corpo preso ao chão. Depois, percebo que na realidade estou acordando e não consigo me lembrar da última vez que senti tanta dificuldade para abrir os olhos. Mesmo antes de recobrar a minha consciência completamente já posso dizer que passei tempo demais dormindo e não poder dizer ao certo quanto tempo causa um aperto sufocante em meu peito. Finalmente, abro os olhos esperando encontrar o teto branco amarelado tão familiar do hospital de Konoha, mas na realidade, está tão escuro que mal posso enxergar ao meu redor. Acho que a única fonte de luz provém de uma vela ao lado da cabeceira, mas não posso dizer com certeza, principalmente porque não consigo mover meu pescoço. Meus músculos pesam toneladas e mesmo como todo meu esforço, eles travam e não se movem, como engrenagens enferrujadas.

Aos poucos, minha visão se ajusta e percebo que estou em um quarto, mas ele é diferente de qualquer outro cômodo que eu já tenho visto. As paredes são rochosas, o ar abafado e úmido. Há apenas uma cama, onde estou deitada e ao lado dela, um criado mudo onde realmente há uma vela.

Minha boca está seca, como se não provasse água há semanas. E minhas articulações doloridas, até mesmo os dedos das minhas mãos. Há um cobertor grosso sobre mim, me envolvendo cuidadosamente, como se alguém realmente tivesse dedicado algum tempo para me cobrir. Tento sentar, mas meu corpo está estranho. Não é como se eu estivesse ferida ou fraca, mas é como se eu não me movesse há um longo tempo. Tenho que utilizar praticamente toda a minha energia e tudo que consigo é me apoiar sobre os cotovelos. Meus ossos doem como galhos secos se quebrando a cada movimento, mas me recuso a desistir e quando finalmente consigo me sentar, estou ofegante e suando.

Dessa forma posso ver melhor o quarto, mas realmente não há muito para ver. Busco com os olhos qualquer objeto que possa servir como arma. Meu instinto é mais forte que eu e com toda certeza, acordar do que mais parece um coma em um quarto completamente desconhecido é um motivo forte o suficiente para me deixar alerta. Tento concentrar meu chakra nas minhas pernas, mas não há nenhum ferimento para curar. Preciso me mover, como uma máquina que precisa de movimento para pegar no tranco. Jogo a coberta para o lado e percebo que não estou usando nada além de uma calcinha e uma camisola branca como aquelas do hospital, mas não há nenhuma abertura nas costas. Minhas pernas estão mais finas do que costumavam ser e posso ver perfeitamente meus ossos dos pés marcando a pele. Meu coração dispara imediatamente.

O que diabos aconteceu?

Antes de tentar qualquer outro movimento, busco na memória a última coisa da qual me lembro.

A guerra.

A lembrança vem como um soco no meu estômago. Estávamos em guerra. Não. Havíamos vencido a guerra. A última lembrança que tenho é do time 7 reunidos no campo de batalha. Exaustos e feridos, mas vivos e vitoriosos. E então...

Sasuke.

O nome me atinge com uma força duas vezes maior. A guerra estava acabada, mas Sasuke ainda não havia terminado. Eu tentei impedi-lo e mais uma vez, foi em vão.

O que aconteceu depois disso? Onde eles estão?

Para o inferno com as minhas dores. Eu preciso saber imediatamente com foi o desfecho da batalha. Jogo as minhas pernas para o lado, mas elas não se movem com a rapidez que preciso. Tenho que utilizar meus braços para sustentar todo o peso do meu corpo e conseguir descer da cama, mas imediatamente vou ao chão, incapaz de ficar de pé.

- Maldição!

Minhas pernas são como gelatinas inúteis e fracas, mas não são o suficiente para me parar. Assim como as paredes o chão é igualmente estranho, frio, úmido e sujo como terra batida. Todo o quarto parece ter sido escavado e não construído, mas não paro para analisar com mais cuidado. Me arrasto pelo chão, contando apenas com a força dos meus braços, mas aos poucos consigo fazer minhas pernas trabalharem também. Ao alcançar a porta estou completamente suja e molhada. Uso a maçaneta para me apoiar e levantar. Minhas pernas tremem e tenho certeza que elas não aguentarão por muito tempo, mas tudo que preciso é descobrir onde eu estou e para onde eles foram.

O corredor que encontro ao abrir a porta me lembra imediatamente o esconderijo do Orochimaru onde encontramos Sasuke anos atrás e meu coração parece querer sair pela boca. O esforço que fiz embrulhou meu estômago e sinto que vou desabar a qualquer momento, mas isso não é uma opção. As paredes ao meu redor são claustrofóbicas, pequenas e irregulares e mais uma vez, sinto como se todo aquele lugar tivesse sido escavado dentro de uma montanha. Há algumas tochas penduradas nas paredes, mas com uma distância tão grande entre elas que o corredor é ainda menos iluminado que o quarto. Utilizo as paredes como apoio e olho ao redor, escolhendo entre seguir pela direita ou esquerda, o caminho parece o mesmo, então escolho a direita aletoriamente. Tudo o que ouço é a minha própria respiração ofegante e meus passos arrastados ecoam pelo corredor vazio. Sigo por alguns minutos sem que a paisagem mude, mas mais alguns passos e consigo ver uma bifurcação em T.

Minha boca está dolorosamente seca e passo a língua sobre os lábios, mas eles ardem e me arrependo ao sentir o gosto de sangue. É quando ouço vozes e imediatamente meus instintos agem. Tento me afastar da parede, mas meu corpo ainda está debilitado e meus joelhos queimam, pedindo alívio do meu próprio peso. Sei que se precisar lutar estarei completamente perdida, mas mesmo assim, tento me preparar ao máximo. Os segundos se arrastam lentamente, sei que eles se aproximam pela direita e que são duas vozes diferentes, mas não consigo reconhecê-las. Elas soam familiares, mas é arriscado demais abaixar minha guarda. Aparentemente, eu tenho o elemento surpresa e talvez tenha força suficiente para um único golpe, mas eles são dois e um alguém com o mínimo treinamento resistira facilmente ao meu ataque. Não há nada que eu possa fazer, mas não vou me render e pretendo resistir até meu último suspiro.

Eles carregam uma tocha, vejo a luz se aproximar e quando tenho a certeza que eles estão ao meu alcance, me lanço a frente, concentrando meu chakra no punho direito, mas imediatamente a minha visão é bloqueada por uma parede de areia que absorve completamente o impacto do meu golpe.

Areia?

Apenas um segundo depois a areia desaparece com a mesma rapidez com que surgiu e atrás dela, vejo o ultimo rosto que esperaria encontrar nesse lugar.

- Sakura? – O Kazekage exclama como se tivesse o direito de estar mais surpreso que eu.

- Meu Deus do céu, mas que merda é essa Sakura? – A segunda voz diz e só então percebo que quem está ao seu lado é Kankuro. – Porque você fez isso?

Meu olhar pula de um irmão para o outro e percebo que o meu choque é quase tão grande quanto o do ruivo, que me olha perplexo. Mil e uma perguntas surgem na minha cabeça ao mesmo tempo, mas antes que eu tenha forças para expressá-las, minha visão fica turva e meu joelhos finalmente cedem ao meu peso.

Gaara é tão rápido quanto a sua areia. Seus braços me envolvem antes que eu atinja o chão e ele usa o seu próprio corpo para me manter de pé, finalmente me aliviando do meu próprio peso.

- Você acordou. – Ele sussurra, como quem não acredita que isso fosse capaz de acontecer.

Meu estômago ainda está perigosamente sensível, minha cabeça gira e cada célula do meu corpo doí. Eu acordei sozinha, em um quarto bizarro, no subsolo de algum esconderijo e rastejei meu caminho para fora. Acreditei que seria morta, sem respostas, mas na realidade encontrei as duas pessoas mais improváveis e ainda assim, quem parece surpreso é ele.

Seus olhos cintilam sob a luz da tocha e sinto suas mãos pressionando meus braços um pouco mais, como se precisasse disso para ter a certeza de que sou real. Não consigo desviar meus olhos dos dele, não consigo entender nada do que está acontecendo, mas também não consigo abrir a boca para exigir uma explicação, então, fico simplesmente parada.

- Sakura. – Sua voz não é mais alta que um sussurro, mas é tão surreal que me assusta. – Você está segura.

É difícil explicar o que acontece quando a sua adrenalina está no pico e de repente, você sente que pode relaxar. É como se todas as outras emoções finalmente encontrassem espaço para serem sentidas, é como observar uma gota de corante se espalhando em um copo de água cristalina. Por isso mesmo, quando dou por mim, há lágrimas marejando meus olhos.

- O-O que... – Eu me esforço, eu tento, mas há um bolo em minha garganta e o corredor parece ainda menor agora.

Não consigo respirar.

Gaara age como se pudesse escutar e compreender a cacofonia que meus pensamentos desconexos formam e se move lento e preciso. Um braço ao redor das minhas pernas e o outro em minhas costas, cuidadosamente posicionados para pressionar meus ombros contra ele. Como se ele soubesse que o contato firme e estável, faz minha cabeça parar de girar. Fecho meus olhos úmidos e me concentro no som dos seus passos, porque são constantes como um metrônomo e ajudam a minha mente a focar. Posso sentir o seu cheiro, é úmido e terroso como musgo, totalmente incompatível ao deserto e, quando sinto sua respiração bater contra minha boca, percebo que ele não está simplesmente me carregando, mas forçando o meu corpo contra o seu, como se eu pudesse desaparecer a qualquer instante.

Desde quando somos intímos?

Estamos de volta ao quarto. Ele me coloca na cama, sentada e o cobertor ao redor dos meus ombros, só então percebo que estou tremendo. Seus olhos permanecem em mim o tempo todo. Vejo Kankuro parado ao lado da porta, ele perdura uma tocha na parede e cruza os braços, sem avançar. O quarto está mais iluminado agora e percebo que as paredes realmente são feitas de pedras e terra.

- Você esteve presa em seu próprio jutsu. – O Kazekage diz calmamente, trazendo meu olhar de volta para ele. – Tentamos vários médicos diferentes, mas a única que poderia acelerar o processo seria você mesma.

Imediatamente eu entendo do que ele está falando: Eien no iyashi-jutsu. Não sei porque não considerei essa possibilidade assim que acordei. Graças a este jutsu, quando meu corpo é submetido a um dano extremo, ele se desliga automaticamente para realizar os reparos. Como uma máquina reiniciando.

- Não havia nada que pudéssemos fazer, a não ser esperar você acordar sozinha. – Ele está certo.

Não é preciso interferir, o jutsu se completa sozinho. Havia um único problema no qual eu e Tsunade-sama estávamos trabalhando antes da guerra.

- Quanto tempo? – Era impossível controlar a velocidade e consequentemente o tempo necessário para completar a cura.

O ruivo leva um instante para me responder e eu prendo minha respiração, com a certeza de que estou prestes a receber um choque.

- Cinco meses.

O ar sai dos meus pulmões sem que eu possa controlar e mais uma vez, sinto meus olhos lagrimejarem, pois os arregalo ao ponto de me causar dor. Gaara se move e cobre as minhas mãos com as suas, mas o toque é tão repetindo e inesperado que eu as recolho, assustada. Ele percebe, mas não diz mais nada, nem se quer se move e fico grata pelos segundos que ele me concede para voltar a mim mesma.

- Não deveria... Nós... Nós estávamos... – Eu tento dizer, mas a minha voz está falha e meus pensamentos difíceis de organizar. – Não deveria levar tanto tempo.

- Eu sinto muito, Sakura. – A forma como ele diz meu nome traz meu olhar em sua direção.

Minha mente está turva e bagunçada, vários pensamentos se formam ao mesmo tempo, mas ainda assim, consigo ouvir minha própria voz ao fundo de tudo isso me perguntando como e por que ele parece agir como se fossemos mais do que meros conhecidos. A última lembrança que tenho do Kazekage é no campo de batalha, quando batalhávamos para salvar a vida de Naruto.

Naruto.

- O que aconteceu? Após a guerra? Naruto e Sasuke, onde eles estão? – Disparo de uma vez, com meus pensamentos finalmente conseguindo focar no que realmente importa.

O Kazekage vira-se sobre o colchão e com um único olhar, faz o irmão acenar com a cabeça e retirar-se, embora eu não faça a menor ideia de para onde.

- O que foi?

- Ele foi chamar uma pessoa. – Meu olhar faz ele se mover desconfortavelmente. – Ino.

Mais uma vez, eu ofego em um misto de surpresa e felicidade. Isso significa que seja lá o que tenha acontecido, Ino está bem e está próxima.

Um silencio denso toma o quarto e Gaara encara o colchão evitando o meu olhar a todo custo. Imediatamente, compreendo que ele não quer dizer mais nada até que Ino esteja no quarto e esse cuidado ao invés de me tranquilizar, provoca exatamente o efeito oposto e me desespero até a última célula. O que pode ser tão terrível que ele precise esperar a cavalaria chegar para me dizer?

- Gaara pelo amor de Deus, o que está acontecendo?

Talvez tenha sido o meu tom de voz, ou a forma como eu disse o seu nome, mas ele se assusta e ergue os olhos depressa.

- Ino estará aqui em um minuto, logo voc-

- O que está acontecendo, eu... Por favor... – Minha garganta está dolorida assim como todo o resto do meu corpo. O quarto de repente fica ainda mais abafado e levo as mãos até a cabeça, fechando os olhos com força. Meus pensamentos correm todos de uma única vez e a resposta vem mais depressa do que sou capaz de processar. – Eles estão mortos, não estão? Oh deus, eu não...

- Sakura, respire. – Ele se posiciona ao meu lado, ajoelhando-se no chão e segura minha mão, forçando-me a retribuir seu olhar.

Embora a voz do Kazekage seja suave e controlada, sua frase faz meu sangue congelar e mesmo sem saber o que está por vir, minhas lágrimas escapam dos meus olhos. Ele não desvia o olhar e permanece firme, apoiando uma de suas mãos em minhas costas.

- Por favor, Gaara...

- Nós vencemos a luta contra Kaguya, mas a guerra continua. – Ele faz uma pausa, relutante em terminar sua frase e eu sinto vontade de gritar para que ele termine de uma vez. – Mas dessa vez, o inimigo é Sasuke.

Quando percebe que eu não sou capaz de pronunciar nem ao menos um murmúrio, ele continua - Talvez você se lembre de quando tudo terminou e ele convocou Naruto para uma batalha.

Mais uma vez, não sou capaz de respondê-lo. Nossos olhares estão cravados um no outro e prendo minha respiração, incapaz de me mover um único milímetro.

- Ele venceu a luta, Sakura. Ou pelo menos é o que parece, já que Naruto não foi encontrado. Nem ele, nem o seu corpo. – Ele continua a falar e eu entendo que é porque se não disser de uma única vez, não será mais capaz de dizer. – Sasuke então assassinou Tsunade-sama e assumiu o poder da vila da folha.

- A partir disso, iniciamos a guerra novamente. Foram muitas batalhas, muitas mortes... Mas eventualmente, percebemos que Sasuke não poderia ser derrotado. Foi quando decidimos que fugir seria a melhor opção.

Novamente, ele espera que eu demostre alguma reação, mas não movo não ao menos meus olhos e permaneço presa aos dele. Seu olhar demostra desespero e percebo que a minha falta de reação o apavora.

- Kakashi partiu há algumas semanas para seguir uma pista de onde Naruto poderia estar, mas perdemos o contato alguns dias depois que ele saiu.

Quando ele termina de falar, o silêncio domina mais uma vez, mas dura apenas um instante até que a minha risada o quebre. Mal reconheço o som que eu mesma produzo e mais uma vez, pareço assustar o Kazekage. Ele não se move, mas posso sentir sua mão tremer sobre a minha.

- Você está mentindo. – Digo, mas não parece a minha própria voz. – São mentiras.

- Sakura...

- VOCÊ ESTÁ MENTINDO. – Grito de repente, incapaz de controlar a mim mesma. É como se nem se quer estivesse naquele quarto. Meu corpo se move sozinho e a minha boca trabalha por conta própria.

Não é verdade. Isso não pode ser verdade.

Repito a mesma frase várias e várias vezes na minha cabeça. Ou talvez seja em voz alta, mas fica impossível discernir. Tenho a impressão de ouvir a voz do Kazekage e senti-lo segurar meu rosto, mas não tenho certeza. O mundo fica confuso e todo o meu corpo adormece. Talvez eu estava caindo no sono mais uma vez ou talvez eu nunca tenha realmente acordado e ainda esteja sonhando.

- O que foi que você fez? – Ouço uma voz familiar dizer e o Kazekage é arrancado de perto de mim.

Minha visão demora um instante para se ajustar, mas então me dou conta de que é Ino. Suspiro aliviada com a mais completa certeza de que ela irá reverter todas as mentiras ditas pelo Kazekage.

- Graças a Deus, Ino... Você precisa- Minha voz sai engasgada e embolada e percebo a dificuldade que ela tem em compreender o que estou dizendo. – Ele está mentindo. É tudo mentira. Você-

- Sakura, você precisa respirar. – Ino senta-se ao meu lado na cama e me olha como se estivesse se preparando a vida inteira para este momento crucial. Tento puxar o ar e posso senti-lo entrar, mas não dou tempo para meu corpo processar a nova onda de oxigênio.

- Ele está mentindo. Não podemos permitir, nós nã-

- Sakura. - Ino se move graciosamente, como costumava ser. Uma mão alcança o meu cabelo e a outra segura meu rosto úmido, apesar de não me lembrar de quando realmente havia começado a chorar.

Olho rapidamente para o quarto, Gaara está longe, apoiado na parede do corredor e sendo amparado pelo seu irmão. Kankuro murmura alguma coisa em seu ouvido e percebo que nunca em minha vida, havia testemunhado o Kazekage tão fora de si, pelo menos não dessa maneira. Ele está descontrolado, mas não é raiva como costumava ser, seus olhos são como os de alguém que está sofrendo miseravelmente.

- Ele está- Tento murmurar mais uma vez a frase estava repetindo desesperadamente, mas fico tonta de repente.

- Eu sinto muito, Sakura. – Os lábios de Ino estão logo abaixo do meu ouvido e percebo que ela me segura por trás, apoiada em minhas costas e me envolvendo com seus braços. Tento me mover, mas ela segura me segura firme.

Não consigo entender, mas no segundo seguinte tudo faz sentido. Ino sabia perfeitamente eu jamais acreditaria na palavra de qualquer pessoa naquele quarto, até mesmo na dela e por isso, faz a única coisa que pode para de me fazer parar de lutar contra a verdade.

As imagens passam pela minha mente, tão rápidas quanto um flash, mas não o suficiente para que eu não entenda do que se trata. Imagens da guerra, imagens de Sasuke, as mortes, o sofrimento, o olhar do Uchiha que não deixa dúvidas que tudo aquilo era real e estava longe de acabar. Ouço um zumbido longo a agudo, ele penetra meus ouvidos e atinge minha cabeça. Fecho os olhos, ou acho que fecho já que minha visão está completamente escura e sinto como se tudo estivesse girando, meus membros se contorcem seguindo o fluxo e de repente, tudo volta de uma única vez. É como se eu estivesse despertando do meu jutsu novamente, mas agora, tudo o que eu sinto é dor. Minha consciência retorna e meu corpo age.

Meu primeiro instinto é respirar.

Puxo o ar de uma única vez, até sentir meus pulmões se dilatarem ao máximo, comprimindo dolorosamente meu diafragma e em seguida, o expulso com a mesma intensidade. Meu coração pulsa forte e cada batida é dolorosa como uma explosão, esmagando as minhas costelas e dilacerando meus ouvidos. Todos os meus outros sentidos estão adormecidos, mas a minha audição é quem volta primeiro. Ouço gritos e no primeiro momento, penso serem um reflexo das imagens projetadas por Ino na minha cabeça, mas então a minha visão clareira e noto Kankuro ao lado da cama, ajudando Ino a me segurar. Suas mãos envolvem os meus punhos e a minha pele arde como se o quarto estivesse em chamas. Só então percebo que na realidade, os gritos são meus.

Puxo o ar com força mais uma vez e me arrependo sentindo meu estômago se contorcer. Dou início a uma sequência dolorosa de tossidas secas, um reflexo do meu corpo tentando inutilmente expulsar qualquer conteúdo do meu estomago, mas não há nada e sufoco sem conseguir respirar. Sinto Ino colar seu corpo ao meu, usando seus braços para me envolver e seu próprio corpo para me firmar. Sinto a pele do seu rosto roçar a base da minha nuca, úmida pelo meu suor e pelas lágrimas dela. Nós duas estamos tremendo, uma contra a outra e ela sussurra em meu ouvido repetidas vezes a mesma frase.

- Você vai ficar bem. Nós vamos ficar bem, não se preocupe.

Quando consigo respirar novamente, ergo meus olhos para a porta e o Kazekage sentado no chão, de costas para mim e tremendo como se lutasse para sobreviver é a última cena que vejo antes de ser arrastada mais uma vez para a escuridão, desejando que dessa vez, seja abençoada o suficiente para nunca mais acordar.


- Sinto muito por não estar aqui quando você acordou. – Shikamaru murmura com a voz rouca pelo cansaço e pelo choro engasgado.

Estávamos deitados na minha cama há mais de uma hora, enroscados um ao outro exatamente como quando éramos crianças e nossas mães nos forçavam a inúmeras festas de pijama. Foi crescendo juntos que ficamos tão próximos, nossas mães eram como irmãs e inclusive, foi através deles que conheci Ino. Seria impossível descrever o tamanho do meu alívio que senti ao saber que Shikamaru estava vivo. Ele apareceu quando eu já não tinha mais forças para chorar, talvez no quarto ou quinto dia depois que despertei. Eu não saberia dizer ao certo, já que em momento algum deixei a região dos dormitórios. Havia meses desde a última vez que vi o Sol, ainda assim, não tive vontade de alcançar a superfície daquele lugar para encontrá-lo.

- Não se preocupe, fico feliz que esteja aqui agora.

Pouco é dito desde o momento que nos encontramos, mas é Shikamaru que com muito pesar me deixa ciente de cada nome que se encontra na lista de mortos ou desaparecidos.

Mortos:

- Neji

- Tenten

- Choji

- Shino

Desaparecidos:

- Lee

- Hinata

- Temari

- Kiba

Ele sussurra um nome após o outro com cuidado, mas já estou tão fraca e exausta que mal consigo chorar pelos amigos que perdi. Apenas soluço sem consegui decidir o que é mais desesperador, a certeza dos quais jamais terei a chance de rever ou a incerteza daqueles que não fomos capazes de ajudar. Ainda assim, noto que o último nome da lista é o que faz Shikamaru chorar e ele explica que também o motivo pelo qual ele não estava no Ninho quando acordei. Mas com toda certeza, o que me deixa a beira da loucura é não ser capaz de colocar Naruto em nenhuma das listas.

Ninho é o lugar onde vivemos agora. Uma galeria de cavernas subterrâneas naturais e criadas pelo Kazekage que nos serve de lar e esconderijo. É escuro, muito úmido e faz sentido já que a única entrada possível é escondida por uma queda de cachoeira de mais de quinze metros, ou pelo menos foi isso que me disseram.

- Você realmente precisa sair de novo? – Pergunto movendo mina cabeça até encontrar o seu ombro. Shikamaru é o irmão que jamais tive e mesmo sabendo a resposta da minha própria pergunta preciso fazê-la, temendo pela sua segurança.

- Eu preciso encontrá-la, Sakura. – Sua voz é um mero sussurro que me faz entender tudo o que não é dito.

- Eu sei. – Suspiro fechando meus olhos, embora não faça tanta diferença já que o quarto é tão escuro que mal posso ver minhas próprias mãos. – Só nada faça nada estupido... Eu preciso de você, Shika.

O sinto mover a cabeça acenando positivamente e o seu braço ao redor dos meus me aperta levemente. Minha cabeça dói assim como todos os dias desde que acordei e fico agradecida por esse momento de silêncio ao lado dele, mas eu gostaria de poder descansar realmente e como se pudesse ler os meus pensamentos, Shikamaru diz:

- Ainda não conseguiu dormir? - Respondo com um breve aceno.

- É muito escuro. – Ele não diz nada, sabendo que ainda quero dizer mais do que realmente estou falando. – Sinto falta das estrelas de Konoha...

- A parte superior é menos claustrofóbica, Sakura. Sair dos dormitórios te faria bem.

Suspiro sabendo que ele está certo, ainda assim, demoro mais alguns dias até encontrar forças para conhecer esse lugar chamado Ninho.

A população do esconderijo me lembra os tempos de guerra. É uma grande mistura, povos de todos os cantos do mundo, fazendo o melhor para conviver nessa triste realidade. São poucos de Konoha, ainda menos os que eu costumava conhecer, mas não posso negar que a expressão que fazem ao me reconhecer deixa o meu coração quente. Ouço murmúrios felizes e surpresos enquanto caminho no salão principal, muitos estão contentes porque me reconhecem como médica. Aparentemente há problemas no Ninho que nem o grande Kazekage pode resolver.

Meu coração carrega mágoa de Gaara, ainda que no fundo eu saiba que ele é última pessoa que eu deveria culpar. Não tornei a vê-lo desde o dia que acordei, na realidade, Shikamaru e Ino foram as únicas pessoas que me recebi durante todos esses dias. Ino está mais paciente e principalmente cautelosa, como se temessem que eu surte a qualquer minuto e Shika partiu há algum tempo, depois de uma despedida dolorosa. Nos primeiros dias, deixei que ela me levasse até a área de banho, me ajudasse a me limpar e cortasse meu cabelo, mas não havia muito o que pudéssemos conversar. Eu estava sem forças. Mas conforme os dias foram seguindo, aos poucos, começamos a nós sentir como nós mesmas.

- Graças aos Gaara, estamos seguros aqui. – Ela me explica conforme caminhamos. – Ele se esforçou muito, Sakura.

É inacreditável a conexão que compartilhamos. Ino sabe muito bem o que se passa na minha cabeça sem que eu precise dizer nada, sempre soube.

- Ele é uma espécie de deus por aqui, ou o que? – Digo com ironia. As imagens de Ino demonstraram exatamente tudo o que aconteceu até o momento que todos decidiram fugir, mas eu pouco sei sobre o que aconteceu depois disso e porque Gaara foi tão importante.

Sinto os olhos de Ino sobre mim e ela suspira. O Ninho é uma espécie de galeria de cavernas naturais, um abrigo perfeito e muito bem oculto por uma cachoeira gigantesca, que também é sua única entrada. Gaara aperfeiçoou cada canto com ajuda dos ninjas do país da Terra. Há dormitórios, espaços para banho onde circula um rio natural, uma horta grande o suficiente para sustentar a todos nós e um refeitório improvisado. É impressionante, não há como negar. Além disso, há a joia da coroa, o salão principal, grande o suficiente para abrigar todo os moradores de uma vez. É onde ocorrem as reuniões, anúncios e encontros em geral, é também a maior das cavernas. Seu topo é alto, desuniforme e com várias pequenas aberturas por onde o Sol consegue nos alcançar. Definitivamente é mais iluminado que os dormitórios e menos claustrofóbico como Shikamaru disse que seria.

- Ele abandou a sua própria vila, Sakura, mas não sem antes salvar cada alma que pudesse. Ele deu tudo o que tinha para nos trazer até aqui e não parou até que fossemos capazes de chamar esse lugar de lar. – Ino diz sem desviar seu olhar. – Ele nos mantém seguros e não tenho dúvidas que daria sua vida por qualquer um aqui sem pensar duas vezes.

- Bem, é isso o que um Kage deve fazer, certo? – Não sei de onde vem isso, não sei porque sinto necessidade de criticá-lo, ou o porquê dessa raiva. Minha boca se move, praticamente sozinha.

- Não existe mais Kages, Sakura. Não existem mais vilas ou países. – Sinto meu lábio inferior tremer e ao perceber isso também, os olhos de Ino mudam, ficam mais leves. – Nunca vamos esquecer de todos que deram as suas vidas para que pudéssemos estar aqui, mas depois que todos os Kages morreram na guerra, Gaara percebeu o que deveria ser feito e também quase morreu para nos trazer em segurança.

Caminhamos através do salão, saindo do refeitório. Minha primeira refeição com o grupo não foi tão ruim quanto eu imaginei que seria, foi bom ver e ouvir outras pessoas, mas essa conversa com Ino começa a fazer eu me arrepender de sair do quarto.

- Eu entendo. – E realmente entendo, eu deveria ser tão grata quanto os demais, afinal, eu também estava viva.

Mas porquê?

Minha garganta fica estreita de repente. Já estou exausta de tanto chorar, mas minha mente não entende que meu corpo já teve o suficiente.

Porque?

Ino percebe e segura a minha mão enquanto caminhamos juntas.

Porque ele?

- Venha. – Sua voz suave atrai a minha atenção, ainda que minimamente. – Conhecer a nossa horta te fará bem.

Atravessamos o salão principal e pela primeira vez, noto crianças brincando e rindo, como se as paredes dessa caverna sempre tivesse sido suas casas. Mesmo de longe, noto a fragilidade e identifico de imediato problemas característicos da falta de Sol e mais uma vez, entendo o alívio dos moradores em saber que eu havia despertado. Por um instante, esqueço o que eu e Ino estávamos conversando e me animo com a expectativa de voltar a praticar medicina, mesmo ciente que meu corpo ainda não está completamente recuperado.

Voltamos aos corredores claustrofóbicos e tão parecidos que conforme Ino me guia, percebo que levarei algum tempo até saber caminhar por aqui. Reto, direita, esquerda, descer e logo percebo que ela estava certa. A horta é algo de outro mundo. Não faço a menor ideia de como foram capazes de construir tamanha estrutura, mas trata-se de uma gigantesca estufa, tão completa que pode-se dizer que temos uma pequena floresta no coração do Ninho. Não há somente vegetais e alimentos como eu esperava, mas também algumas pequenas árvores frutíferas e flores, muitas flores.

No meio de tudo isso vejo, pela primeira vez Gaara, sorrindo e sujo de terra. A cena é surpreendente, o sorriso e a sujeira. Não me lembro a última vez, ou até mesmo se alguma vez, já havia testemunhado um sorriso tão aberto e sincero do ex-Kazekage. Também me surpreendo, pois, jamais o vi como alguém que faz o trabalho pesado com as próprias mão, tão acostumada a vê-lo depender da sua areia. Mas talvez esses sejam só mais alguns meros detalhes a adicionar a minha longa lista do que jamais seria o mesmo novamente.

Demoro a ver Kankuro ao seu lado, igualmente sujo e sorrindo. Estranhamente, seu sorriso dobra de tamanho ao notar nós duas nos aproximando. Levo mais um instante ao perceber que o motivo do seu sorriso não tem nada a ver comigo, mas ao ver a maneira com o Ino o corresponde e cumprimenta com um aceno tímido, compreendo.

- Eu não acredito, porca. – Ela vira depressa para me encarrar. O rosto vermelho como há muito tempo eu não via faz o meu coração queimar em perceber pelo menos nós duas permanecíamos iguais. – Vivendo um romance em pleno apocalipse?

- Se não, não seria eu, certo testuda? – Sei que ela sente o mesmo que eu e a maneira como ela aperta a minha mão demonstra claramente a saudade que sentíamos uma da outra.

Volto a minha atenção para os irmãos novamente e só então, percebo que estão trabalhando em um canteiro de girassóis. É tão improvável quanto real que justamente estas flores desabrochem aqui, mas ainda assim, cá estão. E olhando rapidamente ao redor, percebo que na realidade, são as flores mais bonitas e o canteiro mais bem cuidado de todo o jardim.

- São para Temari, para quanto ela voltar. – Ino lê a minha mente novamente. – Mas não a mencione para eles, por favor.

Compreendo. Com Shikamaru foi o mesmo, e embora ele tenha partido há alguns dias em alguma missão sem rumo, seguindo pistas incertas, enquanto os irmãos permanecem aqui, posso dizer com um único olhar que nenhum daqueles três homens havia desistido ou perdido as esperanças. Seus irmãos aguardam seu retorno tanto quando Shikamaru luta para trazê-la de volta.

- Sakura! É bom vê-la novamente. – Kankuro diz quando já estamos perto o suficiente.

O ar aqui é úmido e há luz artificial o suficiente para que possamos nos ver com perfeição, diferente do como havia sido no quarto, quando acordei. Noto como ambos parecem anos mais velhos do que eu me lembrava, Kankuro carrega uma barba rala, que lhe concede uma aparência cansada, mas madura e o cabelo de Gaara está tão longo que cobre seus olhos, seu corpo está também está diferente, maior e mais forte. Percebo que ele também evita me encarar.

- Obrigada. – Murmuro sem muito animo.

Seguimos em um silencio denso. Ino se move constrangida e se abaixa para pegar um balde no chão.

- Sakura, pode me ajudar? Precisamos regar os pés de alfaces todos os dias.

Me abaixo para fazer como ela, mas Gaara imita meus movimentos, agarrando o balde antes que eu.

- Não é necessário. – Ele faz uma pausa. – Se ainda não estiver forte o suficiente.

- Estou bem. – Respondo depressa. É estranho falar com ele, olhar para ele.

- Ela está ótima, Gaara, não se preocupe. – Ino interfere, rolando os olhos. – Não vou deixá-la se esforçar demais.

Ele acena com a cabeça e me entrega o balde sem dizer mais nada. É realmente muito estranho.

Ao nos distanciamos um pouco mais, questiono Ino sem pensar duas vezes.

- O que foi aquilo?

- Ele só está preocupado com você, Sakura. – Ela dá de ombros como se isso fosse a informação mais óbvia do mundo e abaixa-se para encher os baldes de água, em um dos vários riachos que percorrem a caverna.

- Desde quando? – Minha voz sai um pouco mais aguda que o esperado, ainda sim, Ino continua a agir dando de ombros.

- Desde sempre, oras. É ele quem cuida de você. – Ela declara sem prestar atenção no que diz.

- Como é? – Meu tom de voz a traz de volta e Ino vira só então, dando-se conta. – O que você disse?

- E-Eu quis dizer, todos nós cuidamos, todos nós estávamos muito preocupados com você.

- Não foi isso o que você quis dizer, Ino. – A desarmo, por saber exatamente quando ela estava mentindo para mim.

Ela suspira e se levanta. – Todos nós cuidamos de você todo esse tempo, Sakura. Mas Gaara... Digamos que ele sempre foi o mais dedicado.

- O que diabos isso significa?

- Eu não sei. – Ela desvia o olhar. – Eu também tentei, sabe? Mas era muito difícil conversar com você daquele jeito, parecia que você estava... Morta. – Ela sussurra - Mas Gaara falava com você o tempo todo, ele te visitava todos os dias, trocava a vela para que você nunca ficasse presa naquele escuro, movimentava o seu corpo para te deixar mais confortável...

Ela percebe o choque e tentar corrigir imediatamente. – Nada estranho, ok? Nada disso. Era muito fofo na verdade, ele sempre foi muito cuidadoso com você, Sakura.

- Durante a guerra, você sempre foi uma prioridade. Ele sempre te manteve segura e fez de tudo para te trazer de volta, mas quando percebemos que só podíamos esperar, ele garantiu que você estivesse bem.

- P-Por que? – Sinto vontade de chorar mais uma vez. O meu mundo não para de dar voltar e mais voltas. Quando penso que encontrei o chão, percebo que tudo está de ponta cabeça.

- Eu não sei, Sakura. – Ino segura minha mão. – Mas você deveria perguntar a ele.


Sim, eu deveria, mas a oportunidade simplesmente não surge e eu também não faço o necessário para criá-la. Não é que eu esteja evitando-o, mas todos nossos encontros nos dias seguintes são constrangedores e desconfortáveis. Ele demonstra o mesmo incômodo todas as vezes que dirigimos a palavra um ao outro, ainda que seja sempre muito cordial e educado, como costumava ser. Eu sabia como estava mudado, sabia que já não carregava nenhum resquício da sua personalidade de quando nos encontramos pela primeira vez e, após se tornar um Kage, continuou evoluindo suas habilidades sociais. Eu lembro que a sua presença era agradável, um homem sério e introvertido, mas acessível. Já agora, Gaara trata todos ao seu redor como se fossem sua própria família. Sempre tem um minuto para ouvir os mais velhos, discute e ri com os adultos e até mesmo, participa das brincadeiras com as crianças do Ninho. A única pessoa que ele parece não conseguir conversar sou eu mesma.

- Quando vai tomar coragem para falar com ele? – Kankuro pergunta e me surpreende.

Apenas um pouco mais de três semanas haviam se passado, mas Kankuro e eu havíamos nos aproximado de uma maneira inesperada. É claro que a sua relação com Ino foi a grande responsável, ainda sim, é muito bom tê-lo por perto.

Na maioria das vezes.

- Quieto, preciso me concentrar.

- Essa situação é ridícula. O tempo todo se encarando quando o outro não está olhando, até parece que- AI SAKURA!

Dou uma risadinha. Se há algo que eu não faço questão de esconder é a minha gratidão por ter ganhando meu próprio posto no Ninho, uma enfermaria improvisada. Falta equipamentos, medicamentos e preciso utilizar chakra para cada mínimo procedimento, mas eu a amo. É incrível sentir-se útil novamente. Meu corpo ainda está preguiçoso, mas fico mais forte a cada dia.

Kankuro está sentado em uma das macas, enquanto Ino o espera do lado de fora. Se estivéssemos em Konoha, o corte em sua mão seria resolvido com apenas alguns pontos, mas aqui no Ninho, preciso usar meu chakra para curá-lo e evitar que um simples corte seja porta de entrada para infecções piores. Algo que poderia ser fatal diante da nossa falta de recursos.

- Vocês ficaram desleixados depois que eu acordei. Parece até que se machucam de propósito. – Ele sorri.

- Foi mesmo um alívio tê-la de volta. – Seu sorriso diminui e ele fica quieto um instante – Um surto de gripe tirou algumas crianças de nós logo no começo.

Isso acontece o tempo todo, em um segundo estamos rindo e no outro nos lembramos da guerra, das mortes e o sofrimento. Aos poucos me acostumo com a vida no Ninho, mas é surreal ter que me lembrar o tempo todo do porque estamos aqui.

- Não vou permitir que isso aconteça novamente, Kankuro. – Ele se vira para me olhar nos olhos, um pouco surpreso e ri.

- Meu Deus, vocês exatamente iguais.

Apenas rolo os olhos em resposta.

É quase irônico que a minha rotina aqui seja tão parecida com como era em Konoha. Trabalho o tempo todo, almoço com Ino, volto a trabalhar e no fim do dia, volto para os dormitórios sozinha. Aprendi o caminho rápido, sei para onde seguir e onde virar, decorei cada rosto, a função de cada um e decorei suas rotinas. Não são muitos, mas ser uma das únicas médicas me tornou popular e as pessoas aprenderam a confiar em mim depressa. Fico feliz com isso, é como se eu pudesse retribuir um pouco o tempo que desperdicei desacordada.

Logo no começo, aprendi que o melhor momento para o banho é quando já está quase de madrugada. O local é pequeno - uma caverna de teto baixo, que guarda um riacho – por isso, prefiro estar sozinha, pois é difícil conseguir privacidade aqui. E então, toda noite volto para o quarto com o cabelo pingando e demoro até conseguir pegar no sono. O que falei para Shikamaru permanece, é difícil dormir envolta por tanta escuridão. O silêncio e o frio também não ajudam. Ino disse que também sentiu dificuldades no começo, mas se acostumou depressa quando passou a dividir o quarto com Kankuro.

Estou no meio de mais uma noite de mais uma noite insônia quando a porta do meu quarto abre abruptamente. Sento depressa e assustada, os sentidos a flor da pele, já cogitando a possibilidade de ter que lutar.

Mas é apenas Gaara.

Entretanto, sua expressão alarmada é postura tensa não me deixam relaxar ainda.

- Ah, eu sinto muito, Sakura. – Ele passa as mãos no cabelo, como notei que tem o costume de fazer quando está constrangido – Eu deveria ter batido, me desculpe.

No mesmo segundo, entendo o que ele quis dizer. Entrar no meu quarto sempre foi um costume, por isso ele abriu a porta como estava habituado a fazer quando eu estava dormindo. Um misto de sentimentos invade o meu peito, mas mais uma vez, não consigo confrontá-lo.

- Tudo bem... – Sussurro – Aconteceu alguma coisa?

Nos encaramos por mais alguns instantes, como se ele precisasse disse para lembrar o que veio fazer em meu quarto. Sento e me risco um fósforo para acender a vela ao lado da minha cama. Sei que todos fazem o melhor que podem para tornar a vida o Ninho o melhor possível, mas eu realmente sinto falta de lâmpadas e eletricidade aqui em baixo. O meu quarto continua praticamente o mesmo, exceto por uma pequena cômoda ao lado da porta. Ino conseguiu algumas roupas novas e itens básicos como uma escova de dentes e um pente para meus os meus cabelos.

Com a vela acena, posso vê-lo melhor. Reconheço imediatamente suas roupas, é o seu antigo uniforme usado na guerra. Há uma pequena bolsa em sua cintura e sua habitual cabaça pendurada em suas costas. Meu coração dispara.

- Shikamaru entrou em contato. Há uma pista sobre o paradeiro de Temari, eu e Kankuro estamos de saída.

- Uma missão? – Jogo as cobertas para o lado e me levanto, alarmada. – Eu deveria ir com vocês. Se alguém se ferir-

- É por isso mesmo que eu vim. – Ele me interrompe. – Os moradores estão contando com você.

- E com você também, Gaara. – Não gosto do seu tom, não gosto do que ele está insinuando. Dizendo entre linhas o que eu devo fazer caso eles não voltem, mas essa é uma possibilidade que eu não aceito.

- Além disso, - Ele desconversa, dando alguns passos em minha direção. Percebo imediatamente que Gaara precisa dizer algo que não será fácil para ele. – Talvez ela precise de você. Quando voltarmos... Talvez...

- Gaara, - Ele levanta os olhos para encontrar os meus e eu reconheço aquele olhar, é o mesmo que trocamos quando lutávamos para salvar a vida de Naruto. Um olhar que diz mais do que qualquer palavra. Tento correspondê-lo a altura, pois entendo perfeitamente a delicadeza desde momento. – Não se preocupe, eu estarei preparada para qualquer coisa.

Imediatamente, seus ombros relaxam e sua postura muda, como se as minhas palavras fossem exatamente o que ele precisava ouvir.

Nunca tivemos esse tipo de relação, nunca compartilhamos um momento como este e mais uma vez, minha cabeça se enche de confusão. Gaara se move, me olha e age como se a minha vida significasse mais do que qualquer outra no Ninho. Sinto o seu olhar me seguindo, vejo o seu cuidado que ele tanto tenta esconder, ouço o que Ino diz e o que Kankuro tanto insinua. Sei bem que este não é o momento mais apropriado, mas ao mesmo tempo, sei que o que está em risco. A guerra continua, ainda que eu não tenha testemunhado uma única gota de sangue derramado por ela. Sei que atravessar as portas do nosso esconderijo pode significar nunca mais voltar, ainda que cada célula do meu coração torça pelo contrário. Um gosto amargo toma minha boca apenas pelo simples pensamento de que essa pode ser a última vez que irei vê-lo e algo em seu olhar, algo na maneira como ele inclina o seu corpo na minha direção e move seus lábios, como se estivesse impedindo a si mesmo de falar, me diz que exatamente o mesmo pensamento assombra sua mente.

- Você fazia isso o tempo todo? – Pergunto antes mesmo que possa me dar conta de que já estou falando.

Ele se confunde por um instante. – Como?

- Você costumava me visitar antes de sair em missão?

Em alguns momentos, mesmo que por um único instante, consigo reconhecê-lo como o Gaara de antigamente. Principalmente quando digo algo que o surpreende e ele se esforça para não deixar transparecer o que está sentindo. Mas sustentamos nosso olhar, presos um no outro, por tempo demais para que ele seja capaz de esconder qualquer coisa de mim. Eles brilham, ainda mais verdes e intensos sob a luz da amarelada da vela ao meu lado e refletem sua alma como vidro transparente.

- Sim. – Gaara responde simplesmente. Sua voz é rouca e quieta, misturando-se ao ritmo melancólico do quarto.

- Por que? – Finalmente sou capaz de questionar, um mero sussurro que mal vence o silêncio ao nosso redor.

Ele dá um passo em minha direção e, surpreendendo a mim mesma, o instinto do meu próprio corpo é caminhar até ele também. Não consigo explicar de onde vem essa onda que me impulsiona, mas minha última gota de sanidade me mantém presa ao chão.

- Eu quero te explicar, Sakura. – Ele luta para dizer. – Quero explicar tudo, mas-

- Temari.

- Sim. – Dizemos quando ao mesmo tempo. Eu entendo, realmente entendo. – Você pode esperar um pouco mais? Por favor.

Há tantas promessas escondias em uma única frase. Mais uma vez, sinto meu peito carregado. Sinto medo e esperança, preocupação e alívio. Quero que ele me diga a verdade, mas acima de tudo, quero que voltem em segurança. Todos eles, junto com Temari.

- Posso. – Afirmo, firme e segura, embora minhas mãos estejam tremendo. – Eu ficarei esperando.

Ele tenta não sorri e apenas acena com a cabeça, preparando-se para deixar meu quarto.

- Gaara, - mas se vira imediatamente ao ouvir a minha voz. – Volte em segurança.

Seu sorriso me lembra de Naruto e quando ele sai e fecha a porta, me deixando sozinha com a minha única vela, sinto que estou prestes a chorar.

Tarde da noite, no dia seguinte, eles estão de volta. Os quatro.

Nunca senti tanto alívio em toda minha vida como sinto ao ver os três rapazes atravessando a entrada principal, ainda mais quando noto Temari nos braços de Shikamaru. Mas eles não estão sorrindo, não estão felizes ou comemorando e imediatamente o meu instinto médico fala mais alto.

Horas mais tarde, finalmente deixo a sala onde improvisamos a minha enfermaria. Sem dúvidas, essa é uma das noites mais difíceis da minha vida e um dos quadros mais delicados que já enfrentei. A situação de Temari é nauseante, ela estava extremamente debilitada, suja e com marcas de tortura por todo seu corpo. Os braços e as pernas machucados, a pele marcada por círculos, pois provavelmente esteve amarrada por todos esses meses. Estava fraca, malnutrida e severamente desidratada. Recobrou a consciência uma única vez durante todas as horas que estive com ela, e não reconheceu ninguém ao seu redor. Com muita paciência e cuidado, sua saúde poderia voltar a ser a mesma, mas não há garantias para a sua pobre mente.

A única que permiti que me acompanhasse durante o seu atendimento foi Ino. Eu sabia que se algum dos três visse exatamente qual era a situação, as marcas em seu corpo e o seu estado, eu não seria capaz de segurá-los. Passei horas estabilizando o quadro, curando o que fosse possível e garantindo que ela pudesse ter uma noite sem nenhum resquício de dor pela primeira vez em muitas noites. Depois, eu e Ino a limpamos, cortamos o seu cabelo e trocamos suas roupas imundas. Mesmo após tantos anos na medicina, nada havia me preparado para algo deste tipo e quando vi as lágrimas escorrendo no rosto de Ino, soube que ela sentia o mesmo.

Somente após ter certeza que havíamos feito o melhor que poderíamos para ela, deixei que Shikamaru entrasse. Ele estava desolado e completamente desesperado. Kankuro sentou do outo lado da cama e segurou a mão da sua irmã em silêncio. Gaara não estava por perto, nem na sala adjacente a minha. Foi quando decidi ir atrás dele.

Não é preciso perguntar a ninguém onde Gaara está, qualquer um do esconderijo sabe dizer exatamente onde ele pode ser encontrado quando não está ao redor. Por isso mesmo, é o único lugar do Ninho que eu ainda não conhecia. A subida é difícil, ainda mais para mim que ainda não recuperei completamente minha disposição física. Há muitos obstáculos, é uma escalada íngreme e posso ouvir, o tempo todo, o som da cachoeira acima, o volume aumenta conforme me aproximo, mas não estava preparada para a visão. A abertura é oval e completamente oculta pela queda d'agua. A noite está quase no fim e os primeiros raios do Sol se esforçam para atravessar a água e iluminar parcialmente o caminho. Apesar da visão surpreendente, consigo encontrar Gaara sem dificuldades.

Ele está sentado em uma pedra, à esquerda da entrada. A cabeça baixa e os ombros encolhidos, mãos sobre o rosto, cobrindo seja lá qual expressão ele queira esconder. Tenho certeza que ele sabe que estou por perto, mas como não ergue os olhos para encontrar os meus, decido não o incomodar. Sento ao seu lado em silêncio, tão próximos da entrada que sou capaz de sentir a água respingando sobre a minha pele. O ar é ainda mais úmido aqui, mas também fresco e limpo. Ficamos alguns instantes em silêncio até eu perceber que ele está dizendo o meu nome, em um tom de voz tão baixo que mal posso ouvi-lo.

- O que disse? – Ele permanece na mesma posição, encolhido como se desejasse ser engolido por esta caverna.

- Ela está viva?

- Sim, Gaara. – Respondo sem demora. – Ela está estável. Será uma recuperação difícil, mas eu tenho certeza que Temari é uma mulher forte.

Ele murmura algo, mas não posso ouvi-lo.

- A culpa é minha. – Finalmente compreendo. – Deveria ter sido eu.

- A culpa não é sua, nem de qualquer outra pessoa escondida nessas cavernas. – Ele se surpreende e vira o rosto em minha direção. – Ela está aqui agora, com todos os outros que você salvou.

Seus olhos estão vermelhos, o rosto inchado e a expressão derrotada. Meu coração se parte ao meio, porque pela primeira vez, testemunho claramente a expressão de um homem que carrega o peso do mundo nos ombros.

- Eu não salvei ninguém, Sakura. – Ele murmura. - Eu sou a porra de um Kazekage sem uma vila, um homem que não conseguiu manter a sua família a salvo e um amigo que não cumpriu sua promessa.

Mesmo que há como eu saber do que ele está falando, eu entendo.

Naruto.

Meu peito doí tão repentinamente e com tanta força que faz meus olhos lagrimejarem. Lutei ao máximo contra a minha própria mente para não pensar nele durante todas essas semanas, mas ainda que eu não quisesse admitir, parte de mim já sabe exatamente a respostas para as perguntar que não fiz ao Kazekage.

- O que ele te fez prometer? – Minha voz é baixa e rasgada por um choro engasgado, mas sei que ele me entende, pois seus olhos cintilam, preenchidos por dor e tristeza. A mesma dor e tristeza que arde em mim.

- Ele me pediu para cuidar de você. – Fecho os olhos, deixando as lágrimas escorrerem.

- Quando? Como? – Pensei que ele não me ouviria, mas Gaara parece ter um dom para notar cada mínimo detalhe que me envolve.

- Antes da batalha. Você estava desacordada, ele a colocou nos meus braços, olhou nos meus olhos e me fez jurar que eu iria cuidar de você, não importa o que acontecesse.

- Naruto...

– Eu sinto muito, Sakura. Você passou cinco meses em coma e acordou sozinha e assustada. Todo esse tempo, eu tentei estar ao seu lado, mas quando você finalmente precisou eu não estava lá. E então, mesmo depois de discutir tanto como seria a melhor forma de te contar sobre tudo o que havia aconteceu, eu te dei a notícia da pior maneira possível.

Ficamos em silêncio, não consigo conter minhas lágrimas mesmo quando elas fazem eu me sentir fraca e ridícula. Eu sempre soube que Gaara era o tipo de pessoa que cobrava muito de si mesmo, mas o que ele me diz faz eu me sentir patética e culpada. Ele nunca deveria ter assumido esse peso para si mesmo, eu havia jurado jamais ser um novamente e principalmente para alguém que nada deveria haver comigo.

- Naruto não deveria ter feito isso. – Murmuro. – Eu sinto muito, Gaara. Desculpe ser um incomodo.

- Nunca. – Ele responde automaticamente, rápido como se estivesse pronto para debater a minha afirmação a todo custo. – Você salvou a minha vida, Sakura.

Balanço a cabeça, tentando contraria-lo, mas ele não permite e continua a falar. – Eu perdi tudo, menos você.

- O que você quer dizer com isso? – Tento não olhar para ele, mas é difícil. – Nós nunca tivemos esse tipo de relação...

- Eu sei. – Ele sussurra. – Mas era como se você estivesse lá para me lembrar de quem eu sou, e te proteger me mostrava o que eu deveria fazer, mesmo quando eu já não tinha forças ou esperança.

Trago de volta o silêncio. Estamos próximos, ombro a ombro, olho no olho. Eu entendo o que ele está querendo dizer, mas é demais para assimilar. Entre tudo o que Gaara poderia me dizer, jamais imaginei que ele visse em mim um propósito para continuar seguindo em frente. Estive esse tempo todo me perguntando quando exatamente havíamos construído uma relação tão intensa, sem me dar conta de quem para mim, foi apenas uma longa noite, mas para Gaara foram meses ao meu lado. Minha mente voa para longe enquanto nossos olhos permanecem juntos, ele fica quieto, mal se move, como se estivesse com medo de me assustar, mas volto em um instante ao perceber que ele está tremendo. Pela milésima vez, eu o surpreendo, ergo meu braço de repente e envolvo seus ombros.

- Você está congelando, Gaara. Passou a noite inteira aqui? – Ele não responde. – Você não pode ficar doente agora.

Ele dá um sorriso milimétrico e se move também. Sua mão vai até o meu rosto, tão delicado que me impede de reagir. Ele limpa minhas lágrimas que eu praticamente já havia esquecido de derramar e permite que eu o aqueça em meus braços.

O que isso significa, Gaara?

- Eu sinto muito por te fazer chorar, Sakura. – Ele murmura, o mesmo tom de voz calmo que preencheu a escuridão do meu quarto.

- Não foi você. – Nossos olhos são como dois imãs, incapazes de desprender-se um do outro e nossos corpos correspondem ao mesmo impulso. – Nada disso é culpa sua.

Ele acena com a cabeça como faz quando não quer mencionar o nome que tanto me machuca.

- Sasuke Uchiha é o culpado.

As imagens de Ino, os corredores do Ninho, as crianças doentes e as homenagens aos mortos, tudo aquilo havia me soterrado durante aquelas semanas. O rosto de Sasuke esteve em todos os meus sonhos e os seus olhos em todos os meus pesadelos, ainda sim, parte de mim sentia-se como se tudo fosse uma mera ilusão. Às vezes, eu secretamente tentava me livrar daquilo, me libertar do meu próprio jutsu, imaginando se tudo aquilo poderia uma mentira, pois eu ainda estaria dormindo. Parecia impossível, Naruto morto, Kakashi desaparecido e Sasuke um tirano. Isso ia além de qualquer pesadelo que a minha mente doentia fosse capaz de criar, mas como um balde de agua fria, o sangue quente de Temari me acordou. Pela primeira vez, testemunhei o gosto da guerra que Sasuke havia criado. E de uma vez, tudo tornou-se real.

Gaara não era o culpado, ele não abandou a sua vila nem matou aquelas pessoas. Sasuke sim. Ele não deixou que a sua irmã fosse torturada, Sasuke foi o torturador. Ele não forçou meu corpo ao seu limite e me deixou desacordada para assassinar Naruto, ao contrário disso, ele cuidou de mim e sofreu em silêncio. Só havia uma única pessoa a culpar, um único alvo para odiar, uma única pessoa para derrotar.

- Gaara, - Vejo perfeitamente em seu olhar que ele sabe exatamente o que eu estou prestes a dizer. – Ele precisar pagar pelo o que fez.

- Sakur- Ele é interrompido por si mesmo, levantando-se de supetão ao sentir a mesma presença que eu.

Levanto ao mesmo tempo e encaro exatamente o mesmo lugar que ele, através da água. Por um instante, penso que estou enlouquecendo. Estou sendo enganada pela minha própria mente, porque não há a mínima possibilidade de isso ser real.

Mas meus olhos trazem a verdade à tona e através da agua eu vejo. Primeiro o inconfundível laranja que tanto odiei em me acostumar a ver, seguido pelos seu cabelo amarelo-dourado, banhado pela luz do Sol - que a cada segundo fica mais forte - e por fim, os inconfundíveis olhos azuis que pensei que jamais veria em toda a minha vida.

- Naruto... – Sou capaz de balbuciar, minha visão turva quase perde quem aparece logo atrás dele. Hinata seguida por Kakshi e sinto que vou desmaiar a qualquer segundo.

Viro meu rosto por um segundo, apenas para ver Gaara e me certificar de que não estou delirando, mas ele está tão atônico e confuso quando eu. Só então percebo que estamos de mãos dadas e ele me segura como se estivesse pronto para se jogar na minha frente, caso isso seja algum tipo de ilusão.

- Yo, então vocês também são um casal agora? – Voltou a olhar para Naruto e demoro a notar que ele também segura Hinata junto a si.

Mais uma vez, tudo que eu sou capaz de fazer é gargalhar. Rio com força e vontade, sentindo um alívio impossível de ser medido. No fundo da minha mente eu tenho uma ligeira noção do que tudo isso significa, mas tudo o que eu quero fazer agora é me atirar contra Naruto e senti-lo vivo em meus braços. Quero abraçar Kakashi, Hinata e Temari. Quero respirar em paz e dormir tranquila pela primeira vez. Quero manter Gaara por perto, aliviar a sua culpa e dividir o peso do mundo com ele. Quero salvar as crianças presas no fundo dessa caverna, quero encontrar cada um que ainda está desaparecido e curar cada ferida. Porque agora, como em um passe de mágica, tudo é possível.

Naruto está vivo.

Nós temos uma chance.

E Sasuke Uchiha pode finalmente ser derrotado.


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