Disclaimer: Naruto não me pertence.

: Muito obrigada pelo recadinho, meu amor. Espero que goste desse capítulo também!

Notas: Fiquem em casa e fiquem seguros!


Fragmentos

Capítulo IV: Acaso

"Acaso caracteriza-se como uma sucessão de fatos resultantes de causas independentes da vontade, sorte, destino ou fortuna."

- Sakura? Sakura você está me ouvindo? – É obvio que ela está, mas sua cabeça doí e as duas taças e meia de vinho começam a fazer efeito. Sua mente está longe, entediada e cansada de fingir sorrisos.

- Sim, querido. – Ela responde, voltando os olhos para o rapaz a sua frente, mas prestando atenção no relógio em seu pulso. Caro e exagerado, mas grande o suficiente para que ela possa ver as horas e contar os segundos até o fim da noite.

Não queria ter saído de casa, seu corpo está dolorido e a mente exausta. Ainda que o restaurante para onde vieram seja uns mais elegantes e exclusivos da cidade, Sakura preferia estar sozinha, escondida em seu apartamento como de costume e principalmente, longe da sua companhia tão cansativa.

- Você já decidiu uma data?

- Data?

- Do nosso casamento. – Ele suspira e esfrega as têmporas. – Francamente, Sakura, eu não sei o que está acontecendo com você ultimamente.

Tudo. Absolutamente tudo.

Sakura sente vontade de gritar, mas permanece com a postura impecável, encarando-o.

– Você entende que para que eu possa assumir legalmente a empresa nós precisamos estar casados antes do seu pai morrer?

- O que?

- Era o que ele queria, querida. Nós já conversamos sobre isso, você não é capaz de assumir os negócios.

Sakura demora um instante para assimilar a frase. Seu sangue ferve, mas ela se esforça para manter a expressão impassível e encara o anel que circula seu dedo como uma algema.

- É o que ele quer. – Ela murmura exausta. – Ele não está morto, Sasori.

- É só questão de tempo, Sakura. – Ele ergue a sua taça aos lábios. – Precisamos estar preparados.

A Haruno nem ao menos tem forças para respondê-lo e acena com a cabeça, sentindo sua raiva transformar-se em tristeza.

- Iriei para a Coreia amanhã e ficarei fora por duas semanas. Seja uma boa noiva e resolva isso por mim, ok? – Ele faz um sinal para chamar o garçom e Sakura observa seus movimentos sentindo-se vazia.

- Peça para o seu motorista vir buscá-la. Tenho uma reunião agora e não posso levá-la de volta.

- Reunião? São quase 22hrs, Sasori. – Ela questiona, mas se arrepende logo em seguida.

- É uma videoconferência com nossos clientes do Brasil. Culpe o fuso horário, querida. – Mentira. Mas não importa, ela não se importa.

- Certo.

O garçom vem e se vai depressa e o ruivo se levanta, fechando o botão do seu paletó. Ele encara a Haruno de cima por um instante e sorri forçado.

- Você é linda, exceto quando faz essa cara, Sakura, se anime. – Sasori se debruça e beija o canto da boca dela, a Haruno mal se move. – Nos veremos em breve.

Ele a deixa sozinha, sentada com a terceira taça de vinho pela metade e um gosto amargo na boca. Sakura não faz a menor ideia de como sua vida se tornou essa rotina angustiante. Noiva de um homem que não ama, sem carreira, sem amigos. Praticamente órfã. Não era assim que deveria ser, esse nunca foi o plano. Sakura se arrepende de cada decisão que tomou desde o dia que seu pai ficou doente. Ela sonha em poder voltar no tempo e mudar completamente a sua vida, fazer outras escolhas, ser outra pessoa. Mas sente-se presa, navegando à deriva e deixando a vida simplesmente levá-la. Sakura perdeu a sua mãe quando ainda era uma menina e amparou-se em seu pai, sem jamais fazer questão de aprender a ser independente. Quando ele entrou em coma, sua vida seguiu um curso próprio, Sasori tornou-se seu o guardião e o encarregado dos negócios. Na época, parecia ser a decisão mais natural, o esperado. Dois anos depois, a pessoa que deveria ser sua única família, é na verdade, sua única e terrível opção contra a solidão e despreparo.

Ela suspira, sentindo vontade de chorar, mas ela morde seu lábio para não se render. O seu choro havia se tornado um segredo desde o dia que Sasori insinuou que já havia se passado tempo demais para que ela ainda continuasse triste. Sakura balança sua cabeça, vira o conteúdo da sua taça de uma única vez antes de se levantar e caminhar para fora do restaurante. Ela atravessa as portas e perde o fôlego ao sentir o ar gelado bater em seu rosto. Boston fica mais fria a cada dia e nesse ritmo, o Natal será congelante. Ela se certifica que seu sobretudo está muito bem fechado, ajeita o cachecol ao redor do pescoço e calça suas luvas. As ruas estão enfeitadas, mas está tão frio que estão praticamente vazias. Sakura sempre foi completamente apaixonada pela decoração da cidade, mas o seu peito arde em pensar que teria que enfrentar o segundo Natal como uma órfã.

Ela pega o seu celular para chamar o motorista, mas desiste sem vontade de voltar para o apartamento vazio. O sentimento é sempre o mesmo, cada segundo ao lado de Sasori é exaustivo, mas todos os outros quando está sozinha são absolutamente sufocantes. Exatamente por isso ainda está com ele, mesmo que não ter forças para desistir de um relacionamento horrível por medo de ficar sozinha a faça sentir-se patética. Sakura sente a sua mente nublada, sem saber se é pelo vinho ou a nuvem de tristeza que a persegue onde quer que ela vá e começa a caminhar sem destino, apenas seguindo as luzes nas árvores.

Sem dúvidas, a neve começará a cair a qualquer dia. O que antes era motivo de excitação e alegria, agora é apenas indiferente. Sakura caminha até os seus pés doerem, concentrada nas luzes e no barulho do seu salto alto batendo na calçada, caminha até o seu nariz fica dormente e suas bochechas queimarem graças ao frio congelante. Quando finalmente ergue os olhos e olha ao redor, se assusta porque não reconhece essa parte da cidade. Ela pega o seu celular e arfa de surpresa ao perceber que esteve caminhando por mais de uma hora.

O local onde está é escuro e os comércios ao redor estão todos fechados. Sakura guarda o celular e abraça a si mesma, de repente bem alerta. Ela não sabe onde está, é um lugar estranho e Sakura decide apressar-se em direção a uma área mais iluminada, mas ela não consegue nem ao menos dar dois passos.

Tudo acontece rápido demais. Em um segundo ela estava caminhando e no outro está sendo puxada pelo braço em direção a um beco. Sakura nem ao menos consegue reagir e leva um instante para entender o que está acontecendo. Mas quando entende, cada célula do seu corpo explode em desespero e o seu coração dispara de puro pânico e medo. Ela consegue dar apenas um grito, mas é calada imediatamente ao sentir sua cabeça ser arremessada contra a parede afiada do beco e ela cai, batendo com força os joelhos no chão.

São dois homens. Sujos e asquerosos. Sakura sente uma dor aguda acima da sobrancelha e sangue escorre quente pelo se rosto. Ela soluça de dor e pânico e treme tentando se levantar, mas um deles segura seus braços, torcendo-os dolorosamente para trás. O outro agarra o seu cabelo e afunda o seu rosto no chão com força, deixando-a ainda mais imobilizada. Eles a posicionam com o quadril erguido e Sakura tenta gritar mais uma vez, mas mal consegue abrir a boca. Sua mandíbula doí, pressionada contra o chão e mesmo assim, ela se debate urrando de desespero.

- Está perdida, princesa? – Sakura soluça sem conseguir acreditar no que está acontecendo.

- Vamos te ajudar. – Eles dão uma risada alta, puxam o vestido da Haruno e rasgam sua meia calça, deixando-a exposta.

Sakura se debate mais uma vez e consegue afrouxar sua cabeça o suficiente para gritar com todas as suas forças. Ela implora por socorro, alto o suficiente para fazer sua voz ecoar por toda a rua. Eles se surpreendem e paralisam por um instante, Sakura aproveita para reagir e tenta se levantar, mas o que segura seus braços desperta e a empurra contra o chão mais uma vez. Ele solta um palavrão e a Haruno se encolhe com a plena certeza de que irá apanhar.

Mas ao invés disso, um deles cai desacordado no chão ao seu lado. Está escuro, mas Sakura consegue ver seu nariz quebrado e o rosto coberto por sangue. Em seguida, escuta o outro homem gritar e suas mãos tremem sobre ela. Ele puxa Sakura com brutalidade e a posiciona a frente de si mesmo. Sakura está tão aterrorizada que nem consegue reagir. Ela sente seu coração pulsando e cada parte do seu corpo doer. Quando ergue os olhos vê um terceiro homem. Ele é alto e usa várias camadas de roupas, mas o que mais chama a atenção são seus olhos. Verdes como os dela.

- Está tudo bem. Você vai ficar bem. – Ele diz. Sua voz é firme e suave ao mesmo tempo, mas Sakura está zonza, apavorada e mal consegue ouvir o que ele está dizendo.

Mas o vê fechar o punho erguido, mantendo os olhos sobre os dela e Sakura reconhece o sinal. A voz do seu pai ecoa na sua cabeça.

"Parada, Sakura. Isso significa que você não deve se mover."

Ela enrijece seu tronco, com os olhos arregalados e prende sua respiração.

- Seu desgraçado, eu vou te matar! – O homem atrás dela grita e pressiona Sakura contra si mesmo, completamente apavorado.

Ela não entende, mas olha de relance para o outro cara jogado no chão. Seu salvador foi capaz de derrubar um homem duas vezes maior que ele sem nenhum esforço.

- Porque você está atacando garotas no meu território, Deidara? – Ele demanda. Sua voz está diferente agora. Um tom de voz que faz o homem que a segura tremer.

- Fique longe de mim ou eu vou matar essa vadia!

O rapaz volta o seu olhar para Sakura e ela corresponde imediatamente, cada célula do seu corpo se movendo em pura adrenalina. Seu punho erguido torna-se uma mão aberta e ele acena duas vezes, com a palma da mão para baixo. A Haruno também reconhece esse sinal e sem pensar duas vezes, usa toda a força que tem para se abaixar. O agressor, que não estava preparado, não consegue segurá-la e não tem tempo para reagir quando uma faca voa na sua direção, atingindo-o exatamente ombro esquerdo. Ele arfa de dor e surpresa, e solta Sakura completamente. A Haruno se lança para frente, sem querer olhar para trás e cai com as palmas das mãos no chão, sentindo-as rasparem dolorosamente no asfalto.

- Você está bem? – Ele pergunta, mas quando Sakura olha para ele se desespera.

- CUIDADO! – Ela grita e aponta para atrás dele.

O segundo cara se levanta enfurecido, o rosto ainda coberto de sangue e parte para cima dele gritando. Ele é rápido e se esquiva, mas percebe que dessa forma, Sakura fica exposta e volta para o mesmo lugar, colocando-se entre ela e o objeto afiado que o agressor está segurando. É um pedaço de vidro, Sakura percebe.

- Você vai morrer, seu filho da puta! – Ele grita enlouquecido.

Sakura assiste os dois homens lutarem. Com toda certeza, o seu salvador tem algum tipo de treinamento. Ele se move graciosamente enquanto que o outro segue apenas seu instinto. Ele acerta outro soco no rapaz, que cambaleia para trás, mas não cai. Quando percebe que não tem a menor chance, ele volta o seu olhar para a Haruno que ainda estava no chão e se joga contra ela. Sakura fecha os olhos, sem tempo para reagir, mas quando os abre, percebe que foi salva mais uma vez. Eles se movem depressa e o delinquente cai, o rosto praticamente desfigurado e cospe um pouco de sangue no chão.

- Vamos dar o fora, Hidan! – Deidara implora segurando o seu ombro, ainda com a faca fincada nele. – Ele é louco!

- Saiam e se voltarem serão homens mortos. – O rapaz diz calmamente.

Sakura não consegue se quer respirar, mas nota claramente o pavor tomar conta dos dois diante das palavras dele. A Haruno tem a plena certeza de que ele não está brincando, mas mesmo assim, não se assusta. Hidan ajuda Deidara a se levantar e os dois rastejam para fora do beco com a cabeça baixa.

- Isso ainda não acabou. – Hidan murmura cuspindo sangue outra vez, mas não ousa olhar para trás.

Sakura se vê sozinha em um beco escuro com outro estranho, mas dessa vez, com alguém que acabou de salvar a sua vida. Ela sente que irá desmaiar a qualquer segundo, ou vomitar já que o gosto de sangue e bile rola pela sua língua. Ela está soluçando, mal sentindo as dores dos seus machucados, atônica e completamente apavorada. Ainda no chão, Sakura não se move, mesmo que o frio esteja fazendo-a tremer enlouquecidamente.

Ele encara os dois homens e somente quando estão a uma distância segura, volta os seus olhos para a jovem no chão. Sakura se encolhe quando seus olhares se encontram e soluça como se estivesse sufocando. O rapaz suspira.

- Você está bem? – Ele diz, abaixando-se para que seus olhos fiquem no mesmo nível.

Mas ao se mover, ele sente uma dor aguda do lado esquerdo do seu corpo. Forte o suficiente para fazê-lo se contorcer levemente, ele põe uma mão sobre o local e percebe que está sangrando.

- Malditos. – O rapaz murmura para si mesmo.

- Você se machucou. – Sakura sussurra e arregala os olhos ao notar gotas de sangue pingarem no chão.

Seus olhos se encontram mais uma vez. Ele está coberto da cabeça aos pés, com várias camadas de roupas, como um morador de rua, mas surpreendentemente limpo. Exceto suas mãos, cobertas de sangue, ainda que apenas as pontas dos dedos estejam para fora e as palmas escondidas por uma luva furada e desfiada. Na cabeça há uma touca preta, assim como o cachecol ao redor do seu pescoço, puxado até o nariz de forma que Haruno mal possa ver seu rosto.

Ele se surpreende ao ouvir a voz dela. Há sangue escorrendo pelo rosto, a roupa rasgada, tremendo de frio e medo, ainda assim, carrega um tom como se estivesse genuinamente preocupada com ele.

- Eu estou bem. – Os olhos dela cintilam. Um bilhão de sentimentos fluindo ao mesmo tempo e transbordam em lágrimas como se fosse demais para ela suportar. Definitivamente é. – Há alguém para quem você possa ligar?

A pergunta parece deixa-la ainda mais zonza e seus olhos antes tão cristalinos perdem o brilho e ficam opacos. Ela não se move e ele pensa que talvez esteja em estado de choque.

- Vou chamar a polícia, então. – Ele tenta se levantar mas se ferimento clama e a dor o atinge com a potência de um raio, derrubando-o com os dois joelhos no chão. Ele fecha os olhos, enjoado e aperta a ferida com o braço. A dor da compressão o faz gemer e tossir.

Ao voltar a si, nota a garota despertar do seu torpor e se mover para encontrar seu celular. A tela está quebrada e ela tenta algumas vezes até finalmente conseguir digitar. Ele se esforça para manter o foco, ouvindo-a chamar o resgate com a voz fraca e trêmula.

Eles se encaram no escuro sem se mover ou voltar a falar até que as sirenes possam ser ouvidas a distância.


"Já é dia, Joaninha, hora de acordar."

Sakura abre os olhos depressa e olha ao redor, mas está sozinha no quarto. A voz do seu pai ecoando suavemente no fundo da sua mente, ainda que ela saiba que isso é impossível. Acontece o tempo todo, esses pequenos sussurros que a lembram de um tempo que não irá voltar. Seu pai ainda está vivo, mas ela já não ouve sua voz há muito tempo.

Seu coração se contorce em um aperto já familiar e ao levar as mãos acima do peito, Sakura nota que estão enfaixadas. Agora, um pouco mais desperta, ela realmente olha ao redor desesperando-se ao reconhecer que este não é o seu quarto.

- Onde...? – A fios conectados em seus braços. Ela olha para cima e reconhece o painel tecnológico. – Hospital.

As lembranças da noite passada a atingem com força, sufocando-a por um instante. Sakura senta-se depressa e toca o seu corpo, cerificando-se de que está viva. Inteira. Há um curativo acima da sobrancelha e em alguns outros lugares, mas sem grandes sequelas. Exceto na sua alma.

Ela sente vontade de chorar, mas reprime um soluço. É quando a porta do seu quarto se abre e Sakura suspira ao reconhecer o rosto que atravessa por ela.

- Sakura! Você está acordada! – Tsunade sorri para ela.

A senhora, embora seja a médica mais brilhante e profissional que a Haruno conheça, corre até ela e a aperta contra si mesma com força o suficiente para fazer a rosada perder o fôlego.

- Nunca mais quero vê-la na traseira de uma ambulância, Sakura. – A loira murmura.

A Haruno suspira sem saber a última vez que recebeu um abraço tão verdadeiro. Tsunade era a melhor amiga da sua mãe e toda vez que a encontra, Sakura se arrepende de não manter o contato. Infelizmente, dessa vez o reencontro aconteceu da pior maneira possível.

- Eu estou bem. – Sakura murmura sem querer pensar mais do que aconteceu. – Sasori está aqui?

A senhora desvia o olhar antes de respondê-la. – Ele esteve, querida, mas precisou viajar a negócios. Pediu para que você ligasse ao acordar.

A rosada suspira sem se surpreender. Ela fecha os olhos, aconchegando-se nos braços da médica como uma criança. Tsunade mantém o aperto firme e beija o topo da sua cabeça.

-Você pode ficar comigo até ele voltar. Estará segura na minha casa, Sakura.

É um convite inusitado, principalmente porque havia alguns anos desde a última vez que se viram, mas voltar para o apartamento vazio é a última coisa que ela quer fazer.

Por isso, a Haruno apenas sacode a cabeça concordando. – Sim, por favor.

- Tudo bem, querida, eu vou cuidar de você. Você vai ficar bem.

Sakura arregala os olhos e se afasta depressa, subitamente lembrando-se da última vez que ouviu aquela frase.

- Ele... O rapaz... ?

Tsunade a encara, as sobrancelhas franzidas em confusão. – O que?

- O homem que me salvou. O que aconteceu com ele?

Os olhos da médica brilham ao se lembrar, mas sua expressão logo muda, lamentando-se. – Ah, querida, eu sinto muito.

- O que aconteceu? – Sakura pergunta, mas se arrepende logo em seguida, sem saber se está pronta para a resposta.

- Vocês foram resgatados juntos, mas ele desapareceu enquanto esperava para receber os pontos no abdômen.

- O que...?

- E levou o kit de sutura com ele. – Tsunade corre os dedos pelo seu cabelo embaraçado - Talvez seja capaz de se cuidar sozinho...

Sakura pensa nos seus movimentos na noite passada, na forma como usou sinais militares para guiá-la e como afugentou os bandidos com habilidade e técnica.

- É, espero que sim. – Ela suspira. – Você acha que ele vai ficar bem?

- Foi um ferimento superficial, tenho certeza que sim. – Tsunade murmura sem fazer questão de levar em consideração que o perigo de uma infecção, principalmente porque ele parecia ser um morador de rua. – Não se preocupe com isso, querida.

Sakura fecha os olhos e se encolhe, escondendo-se no colo da médica. – Mas eu gostaria de ter agradecido...

- Eu sinto muito, querida. – A Haruno balança a cabeça sem querer pensar em mais nada, apenas disposta a descansar naquele colo que tanto lembra o da sua mãe.

Você nem me disse o seu nome.


Apenas alguns dias depois a neve finalmente atinge a cidade, no mesmo dia que Sakura se prepara para partir. Provar o humor amargo que a vida tende a lhe oferecer nunca foi uma novidade para a Haruno, ainda assim, mesmo quando pensou que isso seria impossível, Sakura se surpreende com os eventos que sucederam o ataque. As duas semanas ao lado Tsunade vieram a ser uma das melhores coisas que a rosada já viveu, quando pensou que já não seria capaz de reconhecer um lar, Tsunade provou com facilidade que Sakura estava terrivelmente enganada. E também provou o quão desesperadamente a rosada deseja isso para si mesma. Uma família, algo que jamais conseguiria ao lado de Sasori.

Sakura sente sua alma recarregada. Apesar da tristeza sob o fato, foi necessária uma experiência de quase morte para fazê-la entender a necessidade esmagadora de recuperar as rédeas da sua vida. As duas semanas longe de Sasori foi o tempo exato que a Haruno precisava. O acaso de estar no lugar errado e no pior momento possível é o combustível que a garota engole amargamente, mas que lhe dá forças para se mover.

- Vamos, querida. – Sakura não faz questão de responder. Observando Sasori esperá-la impacientemente em frente ao prédio de Tsunade.

A decisão já está tomada, mas a Haruno sabe que o momento certo ainda precisa chegar, por isso entra no carro com o ruivo.

- Como está sentindo-se? – Ele pergunta, os olhos sobre ela sem realmente vê-la.

- Bem. – Fisicamente sim, Sakura sente-se leve e descansada, mas sua mente vaga distante.

- Ótimo. – Ele pega seu celular. – Conseguimos manter a impressa no escuro, mas você não pode ser vista enquanto ainda estiver assim.

Seu corpo está praticamente curado, a única marca ainda visível é acima do seu supercílio e Sakura acena com a cabeça, sabendo que ele está se referindo ao ferimento no seu rosto.

- Por isso, não saia do apartamento.

Ela ergue os olhos não gostando do tom de voz que ele utiliza. – O que?

- Será que uma vez na vida você consegue fazer o que eu estou pedindo, Sakura? Olha só o que aconteceu porque você me desobedeceu.

- O que aconteceu não foi culpa minha, Sasori. – Sakura começa a dizer, mas é interrompida.

- Não foi o que eu disse. – Ele suspira esfregando o rosto impacientemente. – Mas serviu para te ajudar a entender, certo?

- Entender o que?

- Que é muito mais seguro quando você faz exatamente o que eu digo, querida.

Sasori sorri e se move para segurar a mão dela sobre o banco do carro. Sakura engole seco e sente seu corpo arrepiar, mas permite que ele alcance a sua mão. Seus olhos vão do ruivo para a janela ao lado dela e a rosada respira fundo, esforçando-se para ser paciente. Em breve, Sasori se tornaria apesar uma lembrança infeliz. Sakura fecha os olhos por um instante e como tornou-se o costume nas últimas semanas, ela vê os olhos verdes daquele estranho no beco. O brilho daquele olhar acalma o seu coração e a relembra que se Sakura teve forças para sobreviver aquela noite, ela pode fazer qualquer coisa. Inclusive se livrar de Sasori.

Ao chegar em seu próprio apartamento a Haruno percebe que deve agir o mais rápido possível. É inacreditável a maneira como Sasori a subestima, ele dobra a quantidade de guardas e toma as chaves da rosada, como se fosse capaz de dominá-la. Sakura sente seu coração disparado, um misto de raiva com medo do que sua vida se tornaria caso a levasse adiante ao lado desse homem. Sasori não faz a menor ideia de quem Sakura se tornou em apenas duas semanas e não vê o brilho que arde sob seus olhos tão verdes. Se tivesse visto, se tivesse sido um pouco mais esperto, com toda certeza a venceria. Mas a Haruno fica grata por isso, fica grata pela burrice do seu noivo e desatenção em notar a mulher ao seu lado.

Leva apenas algumas horas. Sasori sai, deixando sua noiva perfeitamente comportada e enjaulada, mas volta para encontrar uma leoa. Sakura reuniu os únicos advogados em quem realmente confiava, Kakashi e seu assistente Naruto. Duas pessoas completamente longe do alcance de Sasori. E permaneceu completamente plena e calma ao ouvi-los lerem os seus direitos em voz alta. Sasori estava certo, sem o casamento ele não tinha o menor poder. Justamente por isso estava tão desesperado para marcar uma data. O ruivo ficou responsável pela empresa, mas Sakura continuava a ser o nome e a força no comando de tudo.

Foi absolutamente satisfatório saber que a única pessoa que não acreditava nela era ela mesma. Seu pai a deixou no controle de tudo.

- O que isso significa, querida? – O ruivo murmura mantendo-se controlado, mas Sakura o conhece bem demais para reconhecer a fachada.

- Significa que você e a família Haruno não tem mais nenhuma ligação. – É Kakashi quem responde. O tom entediado, porém, firme para não deixar dúvidas faz Sakura sorrir.

- Significa que você pode pegar as suas coisas e sair do meu prédio. – A rosada adiciona com o queixo erguido.

- Você ficou louca? - Ele ri sem realmente achar graça. – Tudo bem, querida. Eu vou sair e você vai pensar muito bem no que está fazendo, Sakura. Você sabe que essa não é a opção mais segura para você.

- Isso é uma ameaça? – Naruto diz, a voz alta e as sobrancelhas franzidas. Mas a Haruno põe a mão em seu ombro, relaxando-o imediatamente.

- O assunto está encerrado. Vá e não se aproxime de mim novamente, Sasori.

O ruivo bufa e deixa o apartamento tempestuosamente, sem levar absolutamente nada, o que não deixa dúvidas para a Haruno que ele voltará. Mesmo assim, Sakura suspira sentindo-se toneladas mais leve, sentindo-se livre.

- Sakura-

- Naruto, seja formal.

- Não se preocupe, Kakashi. – Apesar de conhecer o loiro apenas a alguns dias, Sakura sente como se a amizade dos dois viesse de outras vidas. Ter Kakashi, Naruto e Tsunade ao seu lado foi o principal motivo que a deu forças para se livrar de Sasori.

- Você deve demitir os guardas que trabalhavam para Sasori, na verdade, mude todo os seus funcionários. Na verdade, você deveria passar a noite com-

O loiro não consegue terminar a sua frase graças ao tapa que recebe de Kakashi. A rosada ri.

- Está tudo bem, Naruto. Sasori não fará nada.

- Sakura você entende o que acabou de fazer, certo? – Ela acena com a cabeça. – Sem o seu sobrenome, Sasori não é ninguém. Você acabou de tirar tudo o que ele tinha. Também estou preocupado com a sua segurança.

- Obrigada, Kakashi. Mas eu confio nos meus funcionários.

- Então não se esqueça de lembra-los de quem está no comando.

Sakura encara os dois e acena sabendo que eles estão cobertos de razão. Muito ainda deve mudar.


"Preparem-se. Essa noite, Boston sofrerá com a noite mais fria já registrada em 10 anos." A Haruno escuta a apresentadora, atenta a televisão a sua frente. "Igrejas por toda a cidade organizaram mutirões para distribuir cobertores e agasalhos. Albergues estão dobrando a sua capacidade, fazendo o que podem para abrigar o maior número de pessoas possível."

"Ainda sim, não será o suficiente. Não há vagas para todos e temo pela vida daqueles que não encontrarem um abrigo para esta noite." A notícia apresenta um padre, idoso e bem agasalhado e um apresentador segurando o microfone para ele. "O natal se aproxima e é importante nos lembrarmos do que essa época significa. Abram os seus corações e ofereçam ajuda aos necessitados. Vamos nos unir para que nenhuma vida seja levada por este frio."

Uma única pessoa invade os pensamentos da rosada antes mesmo da reportagem terminar. Sakura nunca foi uma pessoa impulsiva, mas a sua atitude passiva a levou para uma vida onde não podia mais reconhecer a si mesma. E atingir um ponto onde uma experiência de quase morte foi necessária para fazê-la acordar deixou Sakura com uma única certeza. A de que nunca mais gostaria de chegar ao limite para tomar uma atitude.

Por isso mesmo, quando dá por si, a rosada está na porta encaixando-se em um casaco de pele pesado. Sob ele, ela ainda usa o seu vestido favorito e um salto exageradamente alto. Escolheu uma roupa que definisse exatamente como estava sentindo-se ao se livrar de Sasori mais cedo naquela noite, uma mulher poderosa e impossível de ser parada. Sakura pouco sabe sobre a alta sociedade em que vive, mas sem sombra de dúvidas, sabe o poder que uma roupa carrega. Mesmo quando estava perdida, a Haruno permaneceu atenta a estes detalhes, seguia a exigência, mas agora quem está no comando é ela. Fina e elegante, ela atravessa as portas do seu apartamento e segue pelo elevador com o queixo erguido, mantendo a postura mesmo ao ser barrada no corredor que leva ao saguão.

- Senhorita, sinto muito, mas o Sr. Sasori-

Sakura respira fundo. Havia muito tempo desde a última vez que a Haruno teve forças para erguer a sua cabeça dessa forma e o dobro de tempo desde quando sua voz saiu tão firme e autoritária. Todo o seu corpo queima movido por fogo e brasas, a determinação que a tempos foi sua característica mais marcante explode com a força de uma bomba e preenche cada canto da sua alma.

- O que está escrito naquela placa? – Ela ponta para o grande e imponente símbolo ao lado dela. O peito estufado, olhar firme e decido. As palavras de Kakashi soando em sua mente.

A placa de vidro perfeitamente adornada é padrão em todos os edifícios construídos pela sua família, o símbolo e o nome do seu clã talhado em perfeitas e formosas curvas douradas não deixa dúvidas a quem tudo aquilo pertence.

- Haruno Royals. – O segurança murmura envergonhado.

A Sakura e não a Sasori.

- E para quem você trabalha? – O corredor está em silêncio, os outros dois guardas se entreolham, seus olhares transbordando surpresa e intimidação.

- Para a senhorita, madame. – Ele murmura ainda mais baixo.

- Então saia da minha frente. – Sakura bufa, a língua ardendo tanto quanto seu peito.

- Sim, senhorita. – O guarda dá um passo para o lado, abrindo o caminho para a Haruno com uma pequena reverência. Os demais, apenas seguem o exemplo.

Sakura atravessa o corredor com a cabeça erguida e sorri ao ouvi-lo murmurar para os outros seguranças pelo microfone em sua orelha. Abram o caminho. Ela prossegue desfilando pelo salão, atenta ao som do próprio salto alto batendo no piso de mármore. Sakura não consegue conter seu sorriso de pura satisfação ao ver as portas de vidro abrindo-se para ela, sentindo-se poderosa e destemida. Não há uma única pessoa capaz de impedi-la agora, nenhuma marionete e muito menos Sasori.

Do lado de fora, a Haruno compreende na pele a intensidade do problema. O frio está insuportavelmente pior do que ela imaginava, mas há tempo já que a tempestade ainda não começou. Em apenas um instante o seu carro para diante dela, o motorista desce depressa e abre a porta para ela.

- P-Para onde vamos, senhorita? – Ele pergunta visivelmente surpreso, mas Sakura não entra no carro e encara a porta aberta por um instante.

- Eu vou dirigir, me dê a chave.

- S-Senhorita? – O olhar da Haruno não deixa dúvidas. Assim como os guardas, ele entende que não há outra opção a não ser obedecê-la.

Sakura arranca com o carro, cansada de perder tempo. Ela liga o aquecedor e o rádio, atenta a evolução das notícias. Não há como saber exatamente onde encontrá-lo, mas seguir para o lugar onde se viram pela primeira e única vez é o primeiro impulso da Haruno. Ainda que não haja uma única parte dela ansiosa por voltar àquele local, Sakura pisa no acelerador e segura o volante com firmeza, sua determinação ainda queimando forte.

É uma corrida de apenas vinte minutos, ainda que o local seja do outro lado da cidade. As ruas estão vazias, mas muito bem iluminadas pelas luzes de Natal. Sakura teria apreciado a vista se não fosse o seu coração batendo enlouquecidamente em seu peito, ansiedade misturada ao medo de voltar sozinha ao local onde tanto sofrimento a atingiu. Talvez ter dispensado o motorista não tenha sido exatamente a melhor escolha, mas Sakura respira fundo sabendo que o melhor que pode fazer é reduzir as consequências escandalosas da sua decisão.

Ela reduz a velocidade ao alcançar a rua tão dolorosamente familiar, mais alguns metros e estará exatamente onde tudo aconteceu. Seus instintos contradizem sua razão, implorando-a para deixar aquele lugar, mas Sakura é firme em sua decisão. Ela se aproxima do volante e redobra sua atenção. Atenta ao lado de fora, a rosada alcança o beco.

Para a sua decepção, está vazio.

Mas decidida, ela prossegue. Há outros becos logo a frente e a Haruno dirige devagar, analisando cada centímetro que a sua visão lhe permite. Seu coração dá um salto e quase sai pela boca quando, na próxima curva, encolhido sob uma proteção de tecidos frágeis, ela finalmente o vê. Sakura pisa com força no freio e, ainda que ela estivesse em uma velocidade mínima, seu corpo é lançado a frente bruscamente. O barulho parece chamar a atenção e se ainda houvessem dúvidas, elas caem por terra ao ver os olhos que a perseguiram durante todas essas semanas.

A Haruno demora alguns instantes encarando o verde daquele olhar tão familiar, ainda que ela o tenha visto uma única vez. O rapaz se levanta, alarmado. Ele não pode vê-la, e por isso se move, colocando-se em uma posição de defesa. É isso que a desperta, Sakura abre a porta e pula para fora do carro. Ela se encolhe completamente despreparada para a lufada de vento gélido que a atinge, mas sua determinação permanece a mesma.

Eles se encaram.

O vento joga o cabelo dela para todos os lados e Sakura sente seu rosto formigar rapidamente. Ele parece estar com ainda mais roupas desde a última vez que se encontraram, ainda assim, Sakura não faz a menor ideia de como ele pode estar suportando o frio que a perfura como milhares de agulhas. Eles estão a poucos metros de distância e o rapaz não se move, como se estivesse esperando o primeiro passo dela.

- Vem comigo. – Sakura diz, sua voz sai mais alto do que ela esperava. – Por favor. – Ela acrescenta, tentando soar um pouco mais suave.

- O que? – Ele franze a sobrancelhas. O nariz e boca ainda cobertos por um cachecol sujo, como na última vez.

Seus olhos ainda são tudo o que Sakura pode ver, mas são exatamente os mesmos. Seguros, firmes e carregados de algo que a Haruno simplesmente não pode explicar.

- Tem uma tempestade a caminho. Se ficar aqui, você morrerá. – Ela explica. Seus dedos doem e ao reparar bem, consegue ver os dele. A mesma luva furada que cobre apenas a palma da sua mão, revela dedos roxos e visivelmente doloridos.

- Vou para um albergue.

- Ou pode vir comigo. – Ela sorri, mas isso parece confundi-lo ainda mais.

- Você não me conhece.

- Você salvou a minha vida. – Sakura abraça a si mesma e olha ao redor, subitamente lembrando-se.

Ele faz o mesmo, mas olha para o cobertor no chão e para os dedos das suas mãos que parecem ainda mais roxos.

- Para onde? – Ele questiona e Sakura sorri um pouco mais.

- Para a minha casa.

- Você é louca? – Ela não consegue definir exatamente o tom de voz dele e não consegue dizer se está genuinamente questionando-a ou zombando dela.

- Talvez. – Sakura responde no mesmo tom, o que parece surpreendê-lo. – Mas não vou te fazer mal. Muito pelo contrário, quero agradecer o que fez por mim.

Há outro instante de silêncio e ela faz questão de não desviar o olhar. O rapaz suspira e põe uma das mãos sobre o abdômen, exatamente onde Sakura sabia que ele havia sido atingido.

- E como sabe que eu não vou te fazer mal? – Seus olhos cintilam da mesma forma que naquela noite e sem explicar como, Sakura simplesmente sabe.

- Você não vai. – Ela afirmar com certeza, o que faz o brilho dos olhos dele aumentar um pouco mais, algo tão sutil que Sakura não teria notado se não estivesse prestando tanta atenção.

Ele não diz mais nada, encara o chão mais uma vez e depois o céu, como se estivesse avaliando as suas opções. Alguns segundos depois o rapaz suspira e se move para deixar o cobertor ao redor dos seus braços cair no chão. Em silêncio, caminha em direção ao carro dela. Sakura o observa dar a volta no veículo, abrir a porta e simplesmente sentar como se estivesse completamente acostumado. Ela pisca algumas vezes e desperta ao ouvi-lo fechar a porta do carro. A Haruno repete os movimentos dele e ao fechar a sua porta, aumenta o aquecedor um pouco mais.

- Qual é o seu nome? – É provavelmente a primeira coisa que ela deveria ter perguntado, mas quem traz a questão à tona é ele.

- Sakura. – Ela faz uma pausa. – Sakura Haruno. E o seu?

- Gaara.

Há um curto silêncio, mas quando fica claro que ele não dirá mais nada Sakura dá a partida no carro.

- Apenas Gaara, então. – A Haruno murmura, sem fazer questão de esconder seu sorriso.

Sakura dirige sentindo o olhar denso dele sobre ela. Cada gota de sensatez que a rosada ainda possui está gritando no fundo da sua mente e afirmando que, sem sombra de dúvidas, essa é a maior loucura que Sakura já cometeu, mas ela olha para ele e seu coração é subitamente preenchido por uma paz inexplicável. Gaara está sentado com a postura perfeita, o cinto ao redor do peito e os olhos nela, carregados de curiosidade e uma certa inocência que faz a Haruno lutar contra uma pequena risada. Ele ergue as mãos, colocando-as diretamente sobre o aquecedor.

- Vai ficar tudo bem. – Ela murmura sem saber exatamente se para ele ou para si mesma.


A espera é longa. Longa o suficiente para deixa-la ansiosa.

Sentada no sofá da sua sala, agora com uma roupa certamente mais confortável e um cobertor sobre as pernas, a Haruno aguarda o rapaz retornar do quarto de hospedes. Subir até o seu apartamento sem que ninguém os visse foi incrivelmente mais fácil do que a rosada imaginou que seria. Foi ela quem sugeriu um banho quente, já que os dedos dele ainda carregavam um tom levemente arroxeado e Gaara aceitou prontamente. Enquanto estava no chuveiro, ela deixou roupas novas sobre a cama e pediu para que preparassem uma refeição completa, sem saber exatamente a última vez que ele havia se alimentado. A comida agora descansa há algum tempo sobre a mesa, tempo o suficiente para o apartamento cair no silêncio mais uma vez. Se não fosse o incomodo ansioso em seu peito, Sakura poderia até acreditar que estava completamente sozinha, como todas as outras noites. Já haviam se passado quase duas horas, mas como ela poderia julgar sem saber exatamente a última vez que o rapaz havia tomado um banho decente.

Sakura encara o apartamento por cima do ombro. O conceito aberto permite que ela veja toda a extensão do cômodo. A mesa próxima a cozinha está farta, mas discretamente oculta pela meia luz, a cozinha escura e as luzes da varanda igualmente apagadas. A televisão a sua frente ilumina boa parte do ambiente e mais alguns outros poucos pontos de luz criam uma atmosfera aconchegante para qualquer outra pessoa, mas para a Haruno apenas a lembra da sua solidão rotineira. O filme que a rosada finge assistir está quase no fim quando ela finalmente ouve Gaara se aproximar. Ela sorri gentilmente, mas ao virar para encará-lo, não consegue esconder sua completa e absoluta surpresa.

Ele parece uma pessoa completamente diferente.

A primeira coisa que a Haruno repara é que, diferente do que qualquer coisa que ela poderia ter imaginado, sob aquela touca velha encontram-se cabelos incrivelmente ruivos e levemente cacheados, caindo desigualmente para todas as direções, como se ele tivesse acabado de submete-lo a corte improvisado. Limpo e livre de qualquer tecido, Sakura consegue reparar bem em cada traço do seu rosto. Sua mandíbula é surpreendente delicada e a pele branca, levemente marcada pela barba recém feita. Seus lábios vermelhos e machucados pelo frio, estão pressionados em uma linha fina que combina com as suas feições sérias. Ele definitivamente é maior e mais largo que Sasori, de forma que sua camisa de algodão marca gentilmente as curvas do seu abdômen, seus ombros e braços, que mais uma vez surpreendem a rosada por demonstram-se perfeitamente delineados.

Lindo.

Sem se dar conta, Sakura percorre todo o seu corpo com os olhos e sente a ponta das orelhas queimaram quando seu olhar cai sobre o dele e nota o tom interrogativo do ruivo.

- Ah... Hm... – Ela sorri constrangida. – Sente-se melhor?

- Sim, obrigado. – Gaara coloca as mãos no bolso da calça de moletom e encolhe os ombros, incerto do que deve fazer agora.

- Está com fome? – Ela se levanta segurando o cobertor ao redor dos ombros e indica a mesa atrás deles com a cabeça.

Sakura ri quieta os notar os olhos dele brilharem intensamente ao ver a comida. – Vamos.

Ao observá-lo comer a Haruno tem a plena certeza de que em algum momento do seu passado o ruivo recebeu uma boa educação. A forma como ele se move, como segura os talheres, a sua postura e atitude indicam alguém com treinamento, classe e um certo refinamento. Algo dificilmente encontrável em um simples morador de rua. Entretanto, qualquer questionamento foge do objetivo. Talvez. Já que a própria Haruno não tem a menor ideia do que está fazendo, ou do que pretende fazer. A única certeza que tem, é que a partir do momento que Gaara aceitou entrar no seu carro, Sakura soube que faria tudo o que pudesse para mantê-lo longe daquele beco, se possível, para sempre.

- Você sempre faz isso? – Ele finalmente diz após um longo instante de silêncio, preenchido apenas pelo som dos dois se alimentando.

- O que?

Gaara sente o olhar dela sobre ele o tempo todo. Sentiu desde o momento que se encontraram pela segunda vez no beco e usou o tempo que lhe foi concedido no banho para refletir sobre o que ele significa. Não há nada que o leve a crer em qualquer má intensão da rosada, mas a situação é certamente fora do comum. Acima de tudo, o que o mais surpreende é o quanto os olhos dela não o incomodam. São curiosos e cheios de expectativa, e ainda que o ruivo não saiba explica exatamente o anseio que carregam, não são perturbadores. Na realidade, são interessantes. Um belo enigma que o ruivo ainda não sabe se está disposto a decifrar.

Houve um lampejo distinto a pouco, quando ela o encarou de cima a baixo. Algo que deixou o ruivo a pensar e questionar as verdadeiras intenções da rosada.

- Convidar estranhos para a sua casa. – Gaara responde deixando seu garfo sobre o prato, para dedicar sua atenção total a ela.

Sakura se surpreende e compreende a insinuação. Seus olhos, limpos e tão facilmente legíveis, brilham em um misto de ofensa com embaraço. – Não. Eu nunca fiz algo do tipo, Gaara.

O ruivo acena com a cabeça. Ele acredita, mas ainda não entende.

- Não tenho segundas intenções. – Ela adiciona. – Tudo o que eu quero é te ajudar, assim como você me ajudou.

Pela milésima vez naquela noite, os dois se encaram em silêncio. Há um brilho diferente no olhar dela, algo novo que o ruivo tem a plena certeza de que não estava lá antes. É quente e reluz como fogo. Uma nova determinação, intensa o suficiente para prendê-lo por mais alguns segundos.

- Não é seguro, contudo.

- Você? – A rosada murmura sua expressão pincelada de medo, que o faz desviar o olhar.

- Suas atitudes. – Gaara responde, a voz firme. – No beco, agora. Você é imprudente.

A rosada quebra o silêncio com uma risada sutil, que atrai os olhos dele novamente e faz Gaara decidir que é um som altamente agradável aos seus ouvidos.

- Na realidade não, não sou. – Ela sorri. – Mas concordo com você, fui imprudente em trazê-lo para a minha casa.

- Certamente.

- Eu não queria deixar a pessoa que salvou a minha vida morrer. – Sakura olha para baixo e depois para ele novamente, o olhar transbordando a inocência que Gaara aprendeu a detectar tão facilmente. – Eu queria te ajudar desde quando acordei no hospital, mas você não estava mais lá.

Dura apenas alguns meros segundos, algo que a Haruno certamente teria perdido se não estivesse com a atenção totalmente devotada a ele. Apenas um lampejo da sombra que habita oculta nas partes mais profundas dele. Gaara pisca e desvia o olhar depressa, ciente de que se permitisse os olhos dela sobre os deles por mais um segundo, Sakura seria capaz de ler algo que ele certamente não está disposto a entregar.

- Você não precisa se preocupar. Não te ajudei porque esperava algo em troca. – Ele leva uma uva a boca e quase fecha os olhos de prazer, esquecendo subitamente da tensão a pouco sentida.

- Eu sei. – Ela o admira. – Mas nem todo mundo faria o mesmo.

- E certamente ninguém agradeceria da mesma forma que você está fazendo.

- Eu deveria seguir com a minha vida e simplesmente esquecer o que você fez por mim?

- Você deveria pensar mais em você mesma, Sakura. O que você fez você foi perigoso. – Ela sente vontade de rir, mas não o faz, principalmente quando o tom de voz do ruivo soa tão sério.

- Você não é perigoso. – Uma afirmação.

- Não. – Ele faz questão de manter os olhos sobre os dela. – Mas você não pode ter certeza.

- Tudo bem, Gaara. – Sakura fecha os olhos e suspira. Ao abri-los novamente, percebe o quanto está cansada. – Eu te prometo que nunca mais farei algo assim. Ok?

O ruivo a observa, o cabelo rosado preso para o lado, a coberta ao redor dos ombros e o olhar tão inocente que o preocupa. Tão frágil e indefesa como na noite que a encontrou pela primeira vez.

- Ok. – O ruivo responde pouco satisfeito. Seus instintos irracionalmente implorando pela oportunidade de ficar perto o suficiente para fazê-la cumprir essa promessa.

- Quero que me faça uma promessa também – Sua voz é baixa e suave, combina com o ambiente pouco iluminado. Gaara não responde, mas mantem os olhos sobre os dela. – Por favor, esteja aqui quando eu acordar amanhã.

O ruivo demora um instante para responder e rola os olhos, antes de colocar outra uva na boca. – Eu prometo.

A Haruno sorri. O maior sorriso da noite, tão sincero que faz o Gaara sentir-se obrigado a correspondê-la.


Na manhã seguinte, Sakura deixa o seu quarto com o coração palpitante. A expectativa mais uma vez, preenchendo-a. É praticamente impossível para rosada explicar o misto de sentimentos borbulham ao mesmo tempo em seu peito. A situação inteira é uma loucura e fica pior a cada segundo que se passa. Sakura demorou para conseguir dormir na noite passada, revirando na cama sem conseguir entender o que a moveu. Sua vida continua a mudar a cada dia desde quando cruzou com Gaara naquele beco. O incidente, sem sombra de dúvidas, foi um triste infortúnio, mas não há como negar que foi o combustível que a rosada precisava para retomar as rédeas da sua vida.

Encontrar Gaara perfeitamente sentado no sofá da sua sala faz Sakura sorrir como a muito tempo não sorria. Satisfação e alegria genuína a preenchem e a rosada tem a certeza de que sua vida tomará rumos completamente diferente daqueles que definiram para ela.

- Bom dia. – Ela murmura com a voz suave. O ruivo se levanta e sorri timidamente ao revê-la. – Você cumpriu a sua promessa.

- Eu sente cumpro, Sakura.

- Está com fome? – Ele acena positivamente.

Os dois caminham até a mesa que, assim como na noite passada, encontra-se farta. O café da manhã mais completo que o ruivo já teve o prazer de testemunhar.

- Você está bem? – Gaara pergunta observando-a servi-lo uma xicara de café. Mas o olhar confuso da Haruno o leva a elaborar a pergunta um pouco mais. – Depois do que aconteceu... Você ficou bem?

Sakura fica quieta um instante, como se estivesse pensando em como responde-lo, mas depois sorri e balança a cabeça. – Por incrível que pareça, estou melhor do que antes.

- O que aconteceu – Ela continua. – Me deu forças para tomar uma decisão difícil.

Gaara acena e sorri milimetricamente. – E você? Como está o corte?

- Estou bem. Já sofri ferimentos muito piores. – O ruivo diz, mas logo em seguida se move como se tivesse se arrependido.

- Você tem treinamento. – Gaara evita olhar para ela. – E usou sinais militares naquele dia.

- Fico feliz que você tenha entendido.

- Meu pai era fuzileiro. – Sakura sorri tristemente e pela primeira vez, Gaara nota quão vazio o apartamento é – Ele me ensinou algumas coisas.

- Obrigada, Gaara. – A Haruno murmura, seus olhos preenchidos por vários sentimentos ao mesmo tempo, algo que o ruivo notou que ela tem a tendência a fazer. – Acho que até agora você não me ouviu realmente agradecer.

- A cidade atingiu -15 graus ontem, Sakura. Acredite, você já agradeceu.

Antes que a Haruno possa dizer mais qualquer coisa, ambos são surpreendidos pelo som da porta de entrada abrindo abruptamente. Sasori entra por ela com as mesmas roupas do dia anterior, a aparência torta e os olhos preenchidos por raiva.

- Quem é esse cara? – Ele grita, completamente transtornado. – Foi por isso que você me jogou para fora?

Ele avança em direção a Gaara, mas Sakura entra no seu caminho. O queixo erguido, apesar de ser ridiculamente menor que ele.

- Saia da minha casa nesse instante, Sasori. Você não é bem-vindo!

Sasori varia o seu olhar depressa entre Sakura e Gaara. O ruivo se levantou e permanece ao atrás da rosada, atento aos movimentos. Ele é mais jovem, mais alto e o cabelo faz Sasori rir descontroladamente, sua mente doentia distorcendo os fatos e levando-o a acreditar que Sakura o trocou por uma versão mais barata se si mesmo.

- Você realmente acha que é capaz de alguma coisa sem mim, Sakura? Você é uma vadia mimada e seu pai moribundo não estará aqui para te ajudar. Quando ele finalmente morrer, você vai destruir tudo isso.

A Haruno caminha até ele com os olhos queimando, a mesma determinação que a moveu nas últimas semanas ardendo em seu peito. – Vai embora, Sasori! – Ela o empurra com as duas mãos, mas o ruivo mal se move.

Ao invés disso, a atitude dela parece o enfurecer ainda mais. Sasori agarra os dois braços da rosada, chacoalhando-a com facilidade. – Eu não acredito que perdi quatro anos da minha vida te aturando, sua puta! Quem você pensa que é para me jogar no lixo assim? Você vai se arrepender, Haruno, voc-

Em apenas um segundo, a situação muda. Sasori que estava com Sakura nas mãos, agora está prensado contra a parede, imobilizado pelo pescoço e zonzo graças ao soco que recebeu no estômago. A rosada arregala os olhos assimilando os movimentos de Gaara. Ele a tirou do caminho e a afastou de Sasori com a mesma rapidez com que agiu no beco. Os olhos, agora tão visíveis pela luz do dia, estão quase cinzas e ardendo em fúria.

- Escute bem, verme. – Gaara murmura entre os dentes, o rosto bem próximo ao de Sasori. O rapaz sufoca e luta inutilmente para se soltar. – Você nunca mais vai encostar um único dedo nela.

Os olhos e o rosto de Sasori começam a ficar vermelhos, ele perde as forças e Sakura não tem ideia se ele ainda é capaz de ouvir o ruivo, mas Gaara continua.

- Você vai sair desse apartamento e não vai voltar. Estamos entendidos? – E afrouxa o aperto apenas o suficiente para permitir que ele acene com a cabeça.

Gaara se afasta empurrando Sasori em direção a porta. Ele tosse algumas vezes e cobre o estômago com a mão, o olhar variando entre o ruivo e Sakura. A Haruno caminha até Gaara, escondendo-se levemente atrás dele, principalmente diante do olhar de Sasori que não deixa dúvidas de que pretende se vingar. Mesmo assim, ele deixa o apartamento pela mesmo lugar que entrou.

Um silêncio denso toma o ambiente depois que as portas do elevador se fecham. Sakura percebe que está tremendo e próximo o suficiente de Gaara para alcançá-lo com apenas um único movimento. O ruivo permanece de costas, encarando o local por onde Sasori saiu e suspira.

- Você definitivamente é imprudente.

- O-O que?

- E se coloca em risco o tempo todo.

- N-Não foi culpa minha! – Sakura se afasta levemente, um pouco magoada como quando Sasori a acusou depois do ataque.

- Porque ele conseguiu subir? Onde está a sua segurança? Como você pediria ajuda se eu não estivesse aqui? – Gaara se vira, encarando-a. – Você não sabe como se livrar quando alguém te segura daquele jeito? Você-

Ele mesmo se interrompe, ao encontrar os olhos dela tão úmidos. – Sakura, ele vai voltar.

A Haruno deixa escapar um pequeno soluço e apesar de Gaara sentir vontade de ampará-la, ele não se move. – Você pode mudar o turno dos seus seguranças, alterar a sua rotina. Pode trocar as fechaduras e senhas, instalar câmeras e aprender algumas técnicas.

- E-Eu não...

- O seu chefe de segurança-

Sakura arregala os olhos e seu lábio treme quando ela volta a falar. – É o primo do Sasori.

Ele suspira e a observa enxugar as lágrimas que nunca realmente foram derramadas. – Eu não sou burra, Gaara... Tudo está acontecendo rápido demais.

- Você não é burra. – Ele concorda. – Mas não está segura.

Os dois ficam em silêncio, Sakura encara o chão sem vontade de erguer os olhos para ele e Gaara a observa, questionando-se como alguém tão pequena e delicada é capaz de se meter em tantos problemas.

- Você pode ficar mais um pouco? – Ela murmura, a voz tão baixa que ele mal pode ouvi-la. – Pode me proteger um pouco mais?

Sakura ergue a cabeça, seus olhos já perfeitamente treinados em encontrar os dele. Ela morde o lábio, com a plena certeza de que está cometendo mais uma loucura. Gaara fez questão de deixar bem claro o quão imprudente ela é por confiar tão cegamente nele e mais uma vez, a Haruno coloca sua vida nas mãos de um desconhecido.

Gaara suspira forte, a última coisa que ele deseja é retornar para um mundo tão familiar. Mas a cada segundo que passa ao lado da Haruno, suas vidas se entrelaçam um pouco mais. O mesmo motivo que o levou a ajudá-la naquela noite, que o fez a aceitar o convite e o empurrou para cima de Sasori queima sob a sua pele e faz seus olhos brilharem ao olhar para ela. O seu instinto protetor, contra o qual Gaara jamais conseguiu lutar contra. E Sakura, a mulher mais descuidada e insensata que ele já conheceu, cruzou o seu destino, embaralhando-o o suficiente para levá-lo a este ponto. Tão admiravelmente pequena, com olhos cristalinos que não escondem sua intrepidez. Expressão penosa que se renova a cada sorriso e uma valentia de valor inestimável, oculta por uma fina camada de ternura vulnerável. O atrai de volta a realidade que ele passou tanto tempo ignorando. Gaara se vê lutando contra o ímpeto de negar o seu desejo, mas ao mesmo tempo inclina-se em direção aqueles olhos cristalinos, tentado a abdicar de si mesmo por ela, a quem brevemente conhece.

O ruivo suspira mais uma vez e fecha os olhos, sem conseguir pensar perfeitamente tão conectado a ela. Ao abri-los novamente, tem a sua certeza, mesmo que no fundo da sua mente possa ouvi-lo afirmar a si mesmo que isso é um erro.

- Posso. – Sua voz sai ainda mais baixa do que ele esperava.

- Promete? – Os olhos verdes da Haruno cintilam em um tom já familiar, inocentes. E o ruivo sente seu estômago se contorcer pela vontade de mantê-los assim.

- Eu prometo, Sakura. – Gaara se vê murmurar, sem conseguir impedir a si mesmo de falar. – Vou fazer o que for necessário para te manter segura.

Ela sorri, gravando em seu peito aquelas palavras. Seu coração palpitando na mesma frequência que o dele. Ambos completamente inconscientes às voltas que essa promessa dá, circulando-os e unindo-os em um laço invisível de valor e consequências imensuráveis.


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