Disclaimer: Naruto não me pertence.

Respostas ao reviews: DezaGabi, acho que a sua felicidade em ver uma notificação minha é exatamente a mesma que eu sinto quando vejo um recadinho seu haha Do fundo do meu coração, muito obrigada por sempre acompanhar essas loucuras que saem da minha cabeça. Eu sempre fico ansiosa te esperando para saber o que você achou do capítulo novo, porque sei que sempre posso contar com pelo menos você por aqui! Obrigada mesmo! Inclusive, se você tiver algum pedido ou sugestão, por favor me diga! Eu adoraria compartilhar Fragmentos com você. Diane: ¡Muchas gracias! Tu mensaje dejó mi corazón cálido. ¡Estoy inmensamente feliz de saber que te gusta lo que escribo y espero verte más aquí!

Notas: Para um melhor entendimento do enredo, por gentileza, leve em consideração que eles estão com 17/18 anos, mas Gaara ainda não é um Kazekage e ainda é um hospedeiro, mas super no controle, de um jeito ele já consegue até dormir tranquilamente. Ok? :)


Fragmentos

Capítulo V: Era uma vez...

Basta um único olhar no campo de batalha para ter a absoluta certeza de que a situação é puro caos. A missão começou como um desastre e uma sequência de fatos infernais o trouxe para este fatídico instante. Gaara pressiona a ferida do lado esquerdo do seu abdômen e pisca várias vezes para tentar se localizar em meio a chuva. Suas veias estão pulsando de maneira dolorosa e ele morde o canto interno da sua boca com força, concentrando-se nessa pequena dor. Apesar do inferno a sua frente, ele sabe a situação pode piorar em um nível catastrófico caso ele se permita perder o controle. O rapaz procura seus irmãos com os olhos, por mais que confie neles, ele entende que se ele está com tanta dificuldade, ambos estão correndo um sério risco de vida.

Gaara sente gosto de sangue quando ergue os braços e derrota mais um inimigo, mas eles se multiplicam como uma praga. Estão vencendo em número e ele sabe que sem o apoio, a possibilidade de que todos sob o seu comando morram é grande.

E isso é algo que ele simplesmente não pode permitir.

Se ele realmente deseja se tornar um Kazekage, Gaara precisa superar os seus limites aqui e agora. Ele precisa encerrar essa batalha o mais rápido possível.

Mas o ruivo mal tem a chance de concluir o seu raciocínio e sente seu tornozelo ser envolvido pelo inimigo. Seu adversário luta com um jutsu de planas e a sua pele queima ao entrar em contato com uma espécie de vinha. Gaara cai e perde o fôlego quando sua boca vai de encontro ao chão, seus dentes batem um contra o outro de maneira dolorosa e o ruivo é arrastado, sem conseguir reagir. Lama suja e pedras machucam a sua pele e ele se contorce, mas ao invés de tentar se soltar, Gaara se obriga a se concentrar para não perder o controle, ainda que cada canto do seu corpo esteja envolvido pela dor. Ele leva as mãos sua cabeça e protege seu rosto, sentindo sua alma pulsar.

Gaara demora um instante para entender o que acontece em seguida. Ele para abruptamente e permanece sem abrir os olhos, preocupado em manter sua respiração estável, ainda que consciente da como esse exercício o deixa exposto. A dor é como ser queimado vivo e por mais que ele se esforce, é incapaz de evitar que uma pequena porção daquele chakra venenoso corra em suas veias. Ele agarra o seu cabelo, encolhido em posição fetal. Está sujo, machucado e sangrando, mas usa cada célula sã que tem para se concentrar e evitar que o mal dentro si encontre o caminho para fora. O que Gaara definitivamente não espera, é sentir mãos delicadas alcançando-o e um chakra quente o envolvendo.

- Não lute contra, eu vou te ajudar. – Ele escuta uma voz feminina sussurrando perto demais. Tão perto que seus sentidos, ainda mais aguçados diante da situação, captam até mesmo o seu cheiro. É familiar.

Gaara sabe que conhece aquela pessoa, mas simplesmente não consegue raciocinar. Sua mente torna-se cada vez mais nublada, mas o toque dela é gentil, contrariando o inferno que o cerca. O ruivo obedece e baixa suas barreiras, concedendo sua permissão para que ela o invada e reconhece rapidamente o calor do seu jutsu médico. Quando tem forças para abrir seus olhos tem que se segurar para não suspirar. O reforço de Konoha finalmente os alcançou.

A primeira coisa que o rapaz faz é erguer sua cabeça e procurar os seus irmãos. Ele está afundado na lama e se esforça, mas a chuva embaça sua visão e a sua cabeça lateja dolorosamente, o impedindo de ver qualquer coisa. Ao olhar para ela novamente, consegue apenas identificar o rosa do seu cabelo.

- Naruto e Shikamaru estão com os seus irmãos. – Ela grita, esforçando-se para que a sua voz se sobressaia aquele pandemônio. – Precisamos correr! Você consegue andar?

Ele acena, ainda sem forças para falar. Sakura o ajuda a se levantar e encaixa o braço dele ao redor do seu próprio pescoço. Ela está tão molhada quanto ele, seu cabelo grudado no seu rosto e a expressão preocupada, mas principalmente furiosa. A Haruno o mantém o mais próximo possível do seu corpo, o que deixa a sua roupa instantaneamente lambuzada, mas ela definitivamente não se importa e começa a andar sem dar tempo para ele se situar. Gaara deixa escapar um resmungo doloroso e sua visão escurece por alguns segundos. O seu pior ferimento, ao lado do corpo, arde e o perfura com uma dor aguda, mas Sakura não para. Ela continua a seguir em frente e se move para que a sua mão alcance o ferimento. Novamente, Gaara sente a energia dela fluindo através dele e dessa vez, realmente suspira quando a dor se vai em um passe de mágica.

Um pouco mais consciente, ele olha ao redor. É ridiculamente irônico como a situação, de uma forma ou outra, encontra um meio de torna-se ainda pior. Eles caminham sobre um penhasco, de um lado há uma parede de pedras alta demais para possibilitar uma fuga e do outro, um rio turbulento e visivelmente ansioso para devorar suas vítimas. Eles podem sentir seus inimigos se aproximando depressa, não há outro caminho para seguir a não ser em frente, ainda que seja exatamente o lugar para onde Gaara estava sendo arrastado e todos os seus instintos dizem para evitar o topo daquela montanha.

- Você consegue lutar? – Ela grita e dessa vez, por estar tão perto, Gaara consegue ouvi-la com mais clareza.

Mesmo que ele não pudesse, a outra opção é morrer. Por isso, ele acena com a cabeça, ainda que esteja praticamente sendo arrastado por ela, mal conseguindo manter-se de pé.

Eles finalmente alcançam o topo. É uma planície cercada por uma floresta e não há dúvidas de que é para onde devem correr e afastar-se cada vez mais da borda que não detém nada além de uma queda mortal em direção ao rio. Sakura olha por cima do ombro e assim como ele, nota que quando alcançam o topo a perseguição para imediatamente.

- Que diabos...?

- Tem alguma coisa errada! – Gaara mal termina a sua frase.

Uma explosão os lança perigosamente perto da borda do penhasco. Sakura mantém seu aperto firme ao redor do rapaz e pânico invade os sentidos dele mais uma vez. Ele recuperou o controle, mas uma ameaça dessas pode facilmente desencadear um outro surto e Gaara a empurra, desesperado porque a última coisa que ele quer é machucar essa menina outra vez.

Ele ergue a sua cabeça, para encará-la. Seus olhos verdes cintilam, visivelmente apavorados e Gaara fecha os seus, ignorando seus instintos que insistem em vê-la como uma presa. Ao contrário do que ele mentalmente implora para que ela faça, Sakura se aproxima e segura o rosto dele em suas mãos. Ela está gritando, mas os ouvidos do rapaz estão zunindo e então, o chão sob suas mãos treme outra uma vez.

É uma sequência de explosões. Sakura o envolve, escondendo sua cabeça em seus braços, mas é Gaara quem realmente os protege com um escudo de areia. O ar ao redor torna-se insuportavelmente quente e o cheiro de fumaça é tão forte que os sufoca. Gaara sente o corpo dela tremer junto ao seu, Sakura tosse e agarra sua própria garganta em pânico. Ele deixa a sua areia cair os dois sugam o ar com força quando a água da chuva resfria suas peles. Por incrível que pareça, a explosão não os alcança de fato, mas cria uma barreira de fogo e caos. As árvores queimam com intensidade o suficiente para vencer a tempestade. Ela olha para ele, como se aguardasse o pior, mas o ruivo se mantém firme, concentrado e Sakura suspira aliviada. Gaara está no controle.

- O que está acontecendo? – Ele vê os lábios dela se movendo, mas ainda não consegue ouvir sua voz.

Antes que o rapaz tenha a chance de responder, o chão sob eles cede. Gaara se lança contra a rosada, percebendo o que está prestes a acontecer antes que ela. Ele a envolve com os braços e esconde a sua cabeça, mas não há tempo para protegê-los mais do que isso, porque o que acontece a seguir é mais rápido do que a sua areia.

O penhasco desaba.

A água do rio é duas vezes mais gelada que a própria chuva. Gaara sente todo o ar deixar os seus pulmões, graças a força do impacto e a temperatura congelante da água. Ele faz o melhor que pode, mas não consegue prende-se a Haruno por muito tempo e desesperadamente a sente escapando por entre os seus dedos. A agonia aumenta ao vê-la erguer a mão para alcançá-lo, mas no mesmo segundo é engolida e desaparece sem que Gaara possa fazer nada. O rio é impiedoso. Muita terra e detritos caem com eles e toda a mistura é lançada correnteza abaixo. Gaara é jogado de um lado para o outro, todo o seu corpo sendo golpeado por rochas e lama. Ele tenta gritar quando seu tornozelo é esmagado entre o tronco de uma árvore e uma pedra no fundo do rio, mas assim que abre a boca, a água lamacenta o sufoca, desce pela sua garganta e corrói os seus pulmões. Asfixiado e desesperado, Gaara luta para agarra-se a qualquer coisa ao seu redor, mas o rio prova-se pior do que o próprio inferno. Ele é puxado para baixo e rola batendo o seu corpo contra o fundo, seu ombro é dolorosamente deslocado e as costelas esmigalhadas conforme o rapaz gira, incapaz de lutar contra a força da água. São apenas alguns segundos submerso, mas o suficiente para se tornarem os piores da sua vida. Gaara sente seu corpo ser moído pouco a pouco e cada célula se contorce de dor e pânico. Ainda assim, em meio de tudo aquilo, ele consegue vê-la. Sakura está desacordada, ela afunda e volta a superfície várias vezes, para o desespero do rapaz. Ele usa toda força que ainda tem para se impulsionar em direção a ela e abre os abraços, agarrando-a quando a correnteza os aproxima o suficiente. Gaara grita com o choque, seu corpo simplesmente implorando para sucumbir a dor e deixá-lo inconsciente, mas o ruivo sabe que se se render, os dois irão morrer. Ele a vira e para o seu horror, o seu rosto está coberto de sangue, tão machucada quanto ele e Gaara tem a certeza de que o rio a torturou da mesma maneira. Ele a segura o mais firme que pode, apoiando a sua cabeça com cuidado, principalmente ao notar um corte profundo o suficiente para que ele tema pela vida dela. O ferimento é logo cima da orelha e provavelmente é por isso que Sakura está desacordada. O rapaz faz o melhor que pode para protegê-la com o próprio corpo e fecha os olhos, orando em silêncio para que sobrevivam.


Gaara sente que está acordando da maneira mais lenta possível. Seu raciocínio está pesado, preguiçoso e demorado. A primeira impressão que tem é de que o mundo está balançando. Um movimento de vai e vem leve e delicado, que o deixa tonto a princípio, mas em seguida, dá uma impressão infantil de estar sendo ninado. Seu olfato é o segundo sentido a despertar e o ruivo tem a plena certeza de que nunca sentiu esse cheiro na vida. É salgado, úmido e nada familiar. Lentamente, Gaara consegue abrir os olhos e a luz do dia quase o cega, portanto, pisca alguma vezes até se acostumar. Ele encara o teto e se surpreende, o lugar onde está é, no mínimo, curioso. O teto é de madeira, pintado com vários desenhos e as pinturas se misturam a diversos tecidos incrivelmente coloridos. O emaranhado desce até ele, criando uma espécie de cabana particular. Graças a cobertura, Gaara consegue ver pouco do quarto, mas há muita luz. Ele vê uma janela através do tecido e uma abertura, que provavelmente, é a porta. É quando percebe que está deitado no chão e cada centímetro da sua pele coberto por bandagens. Seu corpo está surpreendentemente leve e diferente do que imaginou, sem dores. Ele se move um pouco e percebe que está deitado em um monte felpudo como pele e carneiro e sobre ele, cobertas de algodão. Com toda certeza, é um dos lugares mais estranhos que o ruivo já acordou.

Sua boca está terrivelmente seca e ele olha ao redor, procurando algo para saciar sua sede. Mas seu pescoço está duro e Gaara não consegue se mover. Ele fecha os olhos e suspira, sem certeza se tem forças para falar.

Há uma mudança no ambiente, Gaara escuta o som de madeira e dobradiças enferrujadas, seguido por um click. Uma sombra feminina aparece por de trás das cortinas e o ruivo tem a certeza de que é uma mulher quando ela começa a cantarolar despreocupada. Ele observa sua sombra se mover pelo quarto, ela abaixa, deixando uma espécie de balde no chão e abre as cortinas de uma vez.

Mas ao encontrar os olhos do rapaz abertos, ela quase cai para trás. A mulher que é na verdade, uma senhora cobre a boca com as mãos e leva apenas um segundo para cair de joelhos ao lado dele.

- Você acordou! – Ela exclama animada.

Gaara tenta correspondê-la, mas seu corpo está duro como se não se movesse a séculos.

- Consegue falar?

O ruivo fecha os olhos e se esforça, sua voz sai rasgada, falha e provoca um leve incomodo no lado esquerdo do seu corpo, o local onde Gaara lembra vagamente de fraturar algumas costelas.

- S-Sim.

- Oh céus. Não se esforce tanto! – Ela se levanta e se afasta, mas retorna rapidamente com um copo de água nas mãos.

- Meu nome é Solaria, mas pode me chamar de Sol, meu bem. – Ela sorri enquanto ajuda o rapaz a beber.

O ruivo acha o nome curioso, mas ao reparar em suas roupas, faz um pouco mais de sentido. Solaria usa um vestido bufante e colorido, tão exótico quanto a tenda onde ele está. Ao redor da cintura uma faixa dourada e na cabeça um lenço vermelho, adornado com pequenas moedinhas douradas. Os olhos dela são castanhos, claros e bem marcados pela maquiagem. Ao que tudo indica, ele foi salvo por ciganos.

- G-Gaara. – Sua voz sai um pouco mais firme, a garganta agora mais leve e limpa.

- Vocês dois tiveram muita sorte. Não faço a menor ideia de como sobreviveram.

Gaara arregala os olhos, de repente lembrando-se de quem estava com ele. Ele fica eufórico, engasga-se com a própria respiração e tenta se levantar, se arrependendo imediatamente quando seu corpo protesta atingindo-o com uma dor angustiante.

- Não! Minha nossa, se acalme! – Sol o empurra de volta para o colchão improvisado segurando em seus ombros. – Fique deitado, Gaara, eu vou chamar a sua esposa.

Ela se levanta depressa sem dar ao ruivo chances de questionar a sua afirmação. Gaara sente seu coração afundar, subitamente preocupado. Se Sakura estava por perto, porque não usou seus jutsus médicos para curá-lo mais depressa? Isso significa que há algo de errado. Ele respira fundo, agoniado por ser obrigado a se manter deitado enquanto aguarda.

E porque diabos deixou acreditarem que somos casados?

A resposta atravessa a porta com o sorriso mais largo que o ruivo já testemunhou no rosto dela. A rosada corre até ele e ajoelha-se ao seu lado, assim como Solaria havia feito. Está vestida como uma cigana também. Uma saia exageradamente colorida com uma blusa branca que deixa seus ombros de fora. Uma faixa preta marcando a sua cintura e cabelo adornado com medalhas douradas. Seu rosto ainda está bem machucado, mas as marcas já estão roxas e começam a se curar. Há um corte em seu lábio e os ombros arranhados, mas no geral, Sakura parece bem.

- Você finalmente acordou. – Ela sorri.

Sua expressão é um tanto inédita para o rapaz. Eles se conhecem há alguns anos, mas a única ligação que compartilham é Naruto. Ela segura a sua mão e se aproxima como se realmente tivessem alguma relação fora do campo de batalha.

- Estou desacordado há quanto tempo?

Sakura morde seu lábio e oferece um pouco mais de água quando percebe o quão rouca a voz dele está. O ruivo aceita de boa grado, feliz com a sensação de alívio que o liquido traz ao seu organismo.

- Hm, doze dias. – A rosada sussurra, preocupada com a reação dele. – Os seus ferimentos foram piores que os meus. Acordei no terceiro dia.

Gaara se surpreende, mas não diz mais nada. Sua mente vagando até os seus irmãos e ele sente uma vontade desesperadora de voltar para casa para se certificar de que estão bem.

- Onde estamos?

- Está com fome?

Os dois perguntam ao mesmo tempo. Sakura com toda certeza, mais alegre do que ele. O ruivo a encara, curioso. Ela está diferente.

- Sim. Muita. – Ele responde com sinceridade e sem a menor noção da última vez que o seu corpo recebeu algum alimento.

O ruivo a observa se mover. Sakura abre o recipiente que Solaria deixou ao lado da cama, revelando pão e queijo. Ela trabalha distraída, cortando-os em minúsculos pedaços com as mãos. Somente quando tem a certeza de que são porções pequenas o suficiente para que ele coma deitado e sem se engasgar os oferece a ele, levando-os diretamente até a sua boca. O rapaz se move um pouco constrangido, mas quando percebe que ainda não consegue mover os braços, os aceita. A rosada os coloca sobre a sua língua e o aguarda engolir para repetir o procedimento e mais uma vez, como se estivesse completamente acostumada.

Distraído pela comida e pela rosada, Gaara se esquece momentaneamente a situação inusitada em que se encontra. Há tantas perguntas ainda sem respostas, mas ele a encara em silêncio. Ela se move e ele consegue ver uma de suas pernas, está enfaixada e as ataduras sobem até desaparecer em baixo da saia, além disso, há um pequeno curativo do lado esquerdo da sua cabeça, exatamente onde ele lembra que havia um corte terrível, mas ela parece mil vezes melhor que ele. Provavelmente havia curado a si mesma e este foi o caso, Gaara se pergunta porque ela não fez o mesmo com ele. Um sentimento ruim o perturba e ele desvia o olhar. No campo de batalha ela não pensou duas vezes antes de curá-lo, com toda certeza há algo de errado.

- Solaria disse que o seu nome é Gaara, certo? – Ela murmura, o rosto de repente tomado por um tom rosado.

O rapaz franze as sobrancelhas, confuso e mais uma vez pensa que eles realmente não eram próximos, mas conhecidos o suficiente para ela que ela saiba perfeitamente o seu nome. Ele acena com a cabeça.

- Eu posso fazer uma pergunta... Gaara? – Sakura ergue os olhos e o ruivo corresponde ao seu olhar com a mesma intensidade.

Ele acena de novo, uma porção das suas próprias perguntas se formando, prontas para deixar os lábios dele assim que ela concluir a dela.

- Bem... Como posso dizer isso... – Ela dá uma risada sem graça, ainda mais vermelha e morde o seu lábio com um pouco mais de força. – Você sabe qual é o meu nome?

O silêncio que segue dura tempo o suficiente para deixá-la constrangida. A rosada se move sobre as suas pernas e o seu semblante muda, ficando melancólica de repente.

- Eu não consigo me lembrar de absolutamente nada do que aconteceu antes de abrir os olhos nesse barco.

- Barco?! – Gaara exclama e ela o encara como se estivesse um pouco ofendida e o ruivo percebe que foi extremamente indelicado – Quero dizer...

- Tudo bem. – Ela suspira. – Sim, nós fomos resgatados por essa família. Eles nos encontraram a caminho do porto e gentilmente nos incluíram em sua jornada. Quando você estiver se sentindo melhor posso te apresentar ao resto do pessoal.

A menina sorri, uma mistura de sentimentos varrendo seu rosto ao mesmo tempo, mas principalmente a ansiedade.

- Eles estão me chamando de Flor, mas-

- Sakura. – Gaara declara, interrompendo-a. – O seu nome é Sakura.

O sorriso que ela deixa escapar é tão radiante quanto o Sol de Suna e o faz lembrar de casa, por isso, o ruivo desvia o olhar rapidamente.

- Foi o que eu pensei – Sakura sorri e ele não faz a menor ideia do que ela está falando. – Então nós dois realmente somos casados.

- O que?! – Gaara declara depressa e Sakura parece ficar realmente surpresa. – N-Não. Não somos. Porque você pensou isso?

- Você usou o seu corpo para me proteger, por isso ficou tão machucado – Gaara está visivelmente constrangido – E dizia esse nome... O meu nome... O tempo todo durante o seu sono.

Ele tosse surpreso e engasgado e geme devido a onda de dor que o atinge logo em seguida. Ela se assusta e oferece um pouco mais de água, colocando sua mão sobre o peito dele, surpreendentemente, isso ajuda. – Me desculpe! Foi o que pensamos.

Gaara respira rápido demais para suas costelas recém fraturadas e fecha os olhos para se acalmar. – Somos parceiros.

- Tipo namorados? – O ruivo faz questão de permanecer com os olhos fechados.

- Não. Somos ninjas aliados. – Gaara suspira e abre os olhos quando percebe que ela está quieta. – Você realmente não se lembra de nada?

Sakura balança a cabeça e por um segundo, o ruivo pensa que ela irá chorar. Por isso volta a falar depressa. – Eu sinto muito, Sakura, mas também não sei muito sobre você.

- Mas você salvou a minha vida.

- E um pouco antes de cairmos no rio, você salvou a minha.

Ela se surpreende.

- Pode me dizer o que sabe? Qualquer coisa... Por favor.

Gaara respira fundo e fecha os olhos para se concentrar. Novamente, ele se surpreende com a situação. De todos os cenários que o ruivo imaginou de como aquela luta terminaria, definitivamente esse não era um deles.

- O seu nome completo é Sakura Haruno. Você é uma ninja de Konoha, aprendiz da Quinta Hokage e médica. Uma excelente médica. – Ele faz uma pausa porque talvez só isso o que sabe sobre ela, mas ao abrir os olhos e olhar para sua expressão cheia de expectativa, Gaara se esforça para pensar mais. – Faz parte de uma equipe com Naruto, Kakashi e Sai, por isso está com eles na maior parte do tempo, mas sei que tem muitos outros amigos.

- O que mais?

- Tinha outra pessoa na equipe, Sasuke Uchiha, mas você não o vê a muitos anos.

- Tenho pais? Família?

- Eu não sei, sinto muito.

- Eu tenho quantos anos?

- Provavelmente temos a mesma idade, 18 anos, mas eu não tenho certeza.

- Quem são meus amigos?

O ruivo faz uma pausa, sem querer deixar transparecer que ele não consegue ter certeza de nada sobre ela. – Shikamaru, Ino, Lee... Eu acho. Sinto muito, Sakura.

Ela fica quieta. Quieta demais e Gaara sente o seu peito pesado quando a voz dela sai trêmula.

- Eu não lembro dessas pessoas.

- Você não precisa se preocupar com nada disso. – Ela ergue os olhos depressa, surpresa com o tom de voz dele, dessa vez realmente cheio de certeza. – Quando voltarmos para Konoha, Tsunade-sama irá te curar e você vai recuperar as suas memórias.

A rosada arregala os olhos. – Ela pode fazer isso? Seja lá quem for essa pessoa...

- Tenho certeza que sim. – Ele sorri gentilmente. – Ela é a Quinta Hokage e a sua professora. Vai cuidar bem de você.

Sakura suspira visivelmente aliviada e oferece um pouco mais de queijo para ele. Dessa vez, Gaara aceita sem pensar duas vezes. – Você também é amigo dessas pessoas?

- Não sou de Konoha. Minha vila chama-se Suna. – Ela se surpreende. – Mas Naruto foi o meu primeiro amigo. E tenho muita consideração por Lee e Shikamaru.

- E... Eu e você? Somos amigos?

Gaara pensa um pouco antes de voltar a falar. Por algum motivo, não quer dizer a ela como se conheceram. O que fez a ela naquele dia é algo que o ruivo sempre quis esquecer e não faz sentido trazer essa memória de volta.

- Você já me curou várias vezes. – Ela sorri.

- Se eu soubesse como, curaria de novo, Gaara. – O ruivo retribui o sorriso e abre a boca aceitando mais pão. – Muito bem. Fique forte para podermos voltar para casa logo.

Gaara acena com a cabeça e se esforça para engolir até a última porção que ela tão gentilmente oferece a ele.


Na manhã seguinte, Gaara acorda sentindo-se enjoado. O balanço do barco tornou-se um incomodo rapidamente, além disso, ele suspeita que o seu mal-estar tem algo a ver com estar tanto tempo longe da terra. Na noite passada, Sakura permanece com ele até escurecer, deixa quarto e volta com roupas mais leves. Para a total surpresa do rapaz, ela se ajeita sobre um monte felpudo parecido com o dele e Gaara percebe que eles estão dividindo o quarto. Antes de virar para dormir, ela fecha parte dos tecidos ao redor dela, mas o ruivo ainda consegue ver o seu rosto adormecido e Gaara demora até conseguir pegar no sono também.

Naquela manhã, ela deixa o quarto antes dele acordar e demora para voltar. Ele apenas abre os olhos e encara o teto, sem vontade de tentar se mover, afim de evitar a dor. E foca na sua respiração, encarando os desenhos no teto. Quando Sakura finalmente aparece, está sorrindo como no dia anterior.

- Eu tenho algo para você.

Ela entra empurrando uma espécie de cadeira de rodas, muito improvisada e de procedência duvidosa.

- Consegui convencer a senhora Aurora a emprestar a sua cadeira por um tempinho. Você pode tomar um banho e sair um pouco desse quarto. – Ela fala depressa, animada e posiciona a cadeira ao lado da cama.

Apesar a ideia de um banho soar perfeita aos ouvidos dele, Gaara não está nem um pouco ansioso para enfrentar a dor de se levantar.

- Não sei se consigo.

- Eu vou te ajudar.

Sakura se abaixa ao lado dele e agarra o seu braço. Gaara fecha os olhos sentindo seus músculos rugirem e todas as suas articulações rangerem conforme ela o força a se movimentar. É com muita dificuldade que a rosada consegue erguê-lo, apoiando praticamente todo o seu peso nela mesma e o rapaz desaba sobre a cadeira um pouco zonzo e ofegante. O metal range sobre o seu peso e o assento de madeira estrala como se estivesse partindo-se ao meio, Sakura arregala os olhos e depois ri abertamente.

- Não conte isso para ela. – A rosada sussurra, mas ele ainda sente o seu corpo torturando-o. – Apenas respire, Gaara.

Quando o ruivo finalmente sente que consegue raciocinar, ela se move. O sol do lado de fora é duas vezes mais forte e apesar de acostumado com o clima de Suna, tantos dias de repouso fazem o ruivo se surpreender. Principalmente porque o calor é acompanhado de uma brisa úmida e quente, completamente diferente do deserto. A visão absolutamente incrível. O barco é muito maior do que Gaara imaginou e o horizonte inacreditavelmente azul. É a primeira vez que ele vê o mar e não consegue evitar um sorriso. De certa forma, a paisagem o lembra Suna, mas ao invés de areia é água que os circunda a perder de vista. Sakura o empurra até o centro do convés e Gaara entente melhor o lugar onde está. O barco tem uma única grade vela e alguns andares. Acima do quarto - que na verdade é um depósito - há uma cabine que pode ser acessada por uma grande escada de madeira. A escada continua para baixo e o ruivo imagina que é onde a família passa a maior parte do tempo. O convés está cheio de cordas e alguns barris.

Sakura se abaixa de frente para ele e começa a remover suas ataduras com uma delicadeza tão instintiva que dá ao ruivo a certeza de que ela pode ter se esquecido, mas o seu corpo se movimenta inconscientemente mostrando a ela exatamente o que fazer. Sakura livra os seus braços, tórax e suas as duas pernas. Ele tem que se esforçar para não deixar transparecer a dor que estes pequenos movimentos causam. Ao conseguir ver melhor o seu próprio corpo, Gaara percebe que não é tão ruim quanto imaginou. A não ser pela dor nas costelas e pelo seu tornozelo, visivelmente fraturado, sua pele está apenas com algumas marcas roxas como o rosto da Haruno e diversas escoriações já em processo de cicatrização. Mas olhando com um pouco mais de atenção, o ruivo repara que em determinados pontos, o corte encontra-se fechado graças a pontos muito bem suturados.

- Foi você? – Ele questiona, correndo os dedos sobre seu antebraço.

- Não. – A rosada se levanta e ergue a saia, mostrando o lado de trás da sua coxa. – Tenho uma bem aqui também. Dez pontos.

- Foi o Sr. Miro. – Ela explica. – Ele já foi médico.

O ruivo apenas acena tentando guardar o nome das pessoas conforme Sakura deixa escapar.

- Quando terminarmos, te levo para conhecê-los. – Sakura diz como se pudesse ler os pensamentos dele.

Completamente despreparado, Gaara é atingido por um balde de água gelada. Ele perde o fôlego e pula na cadeira, mas a Haruno apenas ri e não lhe dá nem mais um segundo antes de começar a esfregar o seu cabelo com uma barra de sabão.

- V-Você não precisa fazer isso. – Porque Gaara tem a plena certeza que não pode aguentar mais esse constrangimento. Principalmente depois de ter sido alimentado por ela.

- Você não consegue levantar os braços. Vou apenas lavar o seu cabelo, não se preocupe.

E é exatamente isso o que ela faz, em seguida o empurra para um dos cantos do navio, encoberto por caixas de madeira. Gaara compreende que esse é o máximo de privacidade que conseguirá e termina sua higiene mais do que depressa. Parcialmente seco e com roupas novas, o ruivo finalmente é conduzido para o andar inferior. Seu coração acelera dolorosamente contra suas costelas enquanto Sakura desce as escadas equilibrando a cadeira de rodas sobre nada mais do que duas tábuas de madeira, mas felizmente, eles alcançam a parte de baixo em segurança.

O ruivo se surpreende pela milésima vez. A família é grande. Todos estão reunidos ao redor de uma grande mesa de madeira, farta de alimentos frescos. São barulhentos, brigam, riem e cantam tudo ao mesmo tempo, totalmente alheios a presença do casal. Ele identifica Solaria ao lado de dois homens. Um é idoso o suficiente para ser seu pai e o outro, aparentemente possui a mesma idade que ela. Do outro lado da mesa, duas jovens, um rapaz e três crianças. Gaara não tinha a mínima ideia de que havia tantas pessoas vivendo aqui.

Solaria é quem finalmente o nota e sorri erguendo os braços, em um passe de mágica, todos ficam quietos.

- Bem vindo, Gaara. – O ruivo sorri um pouco tímido.

- Obrigado, Solaria.

- Vou te apresentar a família. – Ela aponta para cada membro ao redor da mesa conformo dita os seus nomes. – Estes são Liliana, Amália e Leon, meus queridos netos.

- Yelena e Zora, filha e nora. – Sol continua. – Meu filho, Vladmir. Marido, Bóris. E por fim, sogra e sogro, Aurora e Miro.

- E vocês são Gaara e Sakura! Ôh casal sortudo dos infernos. – Vladmir diz, sua voz é alta, forte e toma conta do ambiente.

- É um imenso prazer finalmente conhecê-los, sou eternamente grato pelo o que fizeram por nós. Estamos vivos graças a vocês e dou a minha palavra de que quando retornar para a minha vila, encontrarei uma forma apropriada de retribuir toda esta gentileza. – Gaara diz de uma única vez e surpreende a todos quando faz uma pequena reverência, cerrando os punhos ignorando suas costelas.

- Se levante, menino. Suas costelas estão fodidas. – Bóris assopra a fumaça do seu cigarro, sério. Todos ficam em silêncio enquanto ele fala. – Você dá a sua palavra, é?

Gaara acena, tão sério quanto o homem a sua frente. – Não os ajudamos porque esperamos merda nenhuma em troca. Somos uma família e cuidamos um do outro. O que meus netos pensariam de mim se eu deixasse os dois fodidos naquele rio para morrer?

- Compreendo.

- Não quero a porra de uma promessa. – Bóris faz uma pausa para aproveitar seu cigarro mais uma vez. – Mas você está todo detonado porque protegeu a sua esposa. Isso demonstra que tipo de homem você é, por isso é bem-vindo na minha casa.

Gaara abra a boca para agradecer e contrariá-lo, mas Sakura é mais rápida. – Na verdade... Gaara disse que não somos casados. – Ela dá uma risadinha sem graça.

Um silêncio inusitado toma conta do ambiente até que Bóris ri alto e praticamente grita. – Cacete, garoto! Você quer se casar com ela aqui e agora? Porque podemos fazer acontecer.

Todos ao redor da mesa explodem em uma risada barulhenta, mas Sakura e Gaara permanecem quietos e visivelmente constrangidos. Não há como explicar que o que ele fez, faria por qualquer outra pessoa. Mas ao olhar para Sakura parada ao seu lado, a mão gentilmente descansado em seu ombro e um sorriso natural nos lábios, Gaara não tem a menor dúvida de que quebraria todos os ossos do seu corpo novamente por ela.


- Sabe, Gaara, eu estive pensando. – Sakura murmura no fim da terceira noite. Com olhar fixo no horizonte e as pernas para fora do barco.

Ela está sentada ao lado dele e Gaara deitado, os olhos no céu e não na água como ela. Este momento tornou-se um hábito após todos se despedirem e se recolherem para descansar. O clima está ameno e o mar tranquilo, mas o vento forte o suficiente para jogar o cabelo dela para trás. Naquela manhã, é a primeira vez que o ruivo consegue ficar de pé e caminhar até o andar debaixo sem a ajuda da cadeira. Seu tornozelo continua ruim e por isso ele precisa de uma muleta - improvisada assim como a cadeira de rodas – mas todos ficam felizes por ele e Gaara se permite comemorar junto com aquela família maluca.

Não demora para Gaara perceber que é inacreditavelmente fácil ficar perto da Haruno, mesmo que a conversa seja basicamente um jogo de perguntas e respostas. É difícil aguentar a expressão dela quando Sakura percebe que o ruivo não está apto para responder quase nenhuma pergunta sobre ela, mas tudo fica leve quando a rosada decide transformar as perguntas, tornando-as sobre ele. É desta maneira que eles passam a maior parte do tempo e Gaara nunca, nem nos seus maiores devaneios, imaginou que alguém pudesse ter tanto interesse sobre a sua vida.

- Você tem certeza que aquela mulher vai conseguir recuperar as minhas memórias? – Ela apoia o queixo na madeira ao redor do barco.

- Sim. Ela é a melhor médica das cinco nações.

- Então eu realmente não vou me preocupar. – Sakura vira o rosto para olhá-lo. – Isso o que estamos vivendo é maravilhoso. Quero guardar essas memórias mesmo quando antigas voltarem.

Gaara sorri, um sorriso verdadeiro. – Dessa forma me sinto menos culpado por te prender aqui.

De acordo com Miro, seria pelo menos mais quatro semanas até Gaara conseguir partir na jornada de volta para casa. O seu tornozelo como o grande culpado.

- Não diga isso. Você salvou a minha vida.

- Se eu tivesse feito um bom trabalho, você não teria perdido a sua memória. – Ela franze as sobrancelhas, um pouco irritada toda vez que ele insinua uma ideia como esta.

- Ela vai consertar isso, certo?

- Certo.

- Então não se preocupe também. Vamos viver esse momento.

Gaara não faz a menor ideia se Sakura sempre foi assim ou se é a influência da família cigana, mas não consegue entender como alguém pode reagir de forma tão tranquila. Ela verdadeiramente vive um dia de cada vez, sem se abalar por não se lembrar de que ruivo acha isso simplesmente extraordinário. Não pela primeira vez, eles se encaram em silêncio e o momento de calmaria é surpreendentemente confortável, mesmo que estejam se olhando de maneira tão intensa.

A imagem que ela forma, sorrindo tão docemente com a cabeça apoiada na madeira e o cabelo balançando ao vento é algo que o ruivo tem a plena certeza de que jamais esqueceria mesmo se cortassem sua cabeça fora.

- Eu só gostaria que houvesse uma maneira de avisar os meus irmãos que estou vivo. – Ele suspira. – Naruto também deve estar muito preocupado com você.

- Você se importa com ele.

Mas Gaara não gosta de falar sobre esse assunto. Porque falar sobre Naruto é falar sobre como eles se conheceram e isso é algo que o ruivo evita revelar a todo custo, ainda que lhe cause uma culpa sufocante. Gaara contou cada detalhe sobre Suna, as comidas, as pessoas, sobre a sua casa, suas plantas e os seus irmãos, mas a deixou completamente no escuro sobre o seu passado.

- Porque você faz essa cara as vezes? – Ele só esqueceu que ela é a mulher mais genial que já conheceu.

- Só estava pensando na minha família. – Mas Sakura não parece nem um pouco convencida.

Gaara sabe que cedo ou tarde, terá que contar a verdade e revelar o que fez com ela e com Konoha, mas definitivamente não está pronto para abrir mão da maneira como a rosada olha para ele. Sem medo, sem julgamento. Ou de como ela se aproxima sem pensar duas vezes e o toca sem se perguntar se ele está sob controle. O fato é que ruivo nunca esteve tão em controle durante toda a sua vida. Gaara acredita ser o mar, a paz e os malditos sorriso. Entretanto, esta é a parte que ele jamais admitiria.

Se Sakura sabe que ele está mentindo, ela não o pressiona. Ao invés disso, deita ao seu lado, deixando as pernas para fora do barco e se encolhe contra ele, escondendo o seu rosto no braço.

- Me fale mais sobre o seu irmão. Ele parece divertido. – Gaara sorri, mas o sorriso dura pouco, substituído por um peso no estômago. Uma mistura ácida de culpa e medo.

Só mais um pouquinho, Sakura.


Dois dias mais tarde, eles finalmente alcançam o seu primeiro destino. Bella Isla. Porém, mesmo sabendo o nome do lugar onde está Gaara não faz a menor ideia da sua real localização. Tudo o que sabe é que se trata de uma ilha em algum lugar entre o País do chá - de onde vieram- e o País do Mar, para onde a família está indo. A parada é obrigatória porque é o lugar de origem daquela família e o motivo pelo qual vieram é o casamento da sua sobrinha de Solaria. Sakura deixa transparecer claramente a sua alegria em saber que os dois também estão convidados para a festa e Gaara apenas agradece gentilmente.

O clima na ilha é completamente diferente de Suna, apesar de igualmente quente. O Sol brilha na parte mais litorânea, mas conforme avançam o ar torna-se cada vez mais úmido e tropical. Há uma grande floresta densa e diferente de tudo que Gaara já viu, parece ser impossível caminhar por ela sem seguir a trilha e é tão grande que cobre praticamente toda a ilha. Eles seguem mata adentro até que a trilha se abre e revela uma enorme clareira. A decoração do lugar parece ser uma extensão do barco, há inúmeras tendas muito bem elaboradas, feitas de tecido e madeira, que formam um acampamento colorido e exótico. No centro há uma grande fogueira, ainda apagada e há enfeites espalhados por todos os cantos. As pessoas circulam com sorrisos no rosto, com roupas típicas e fazendo barulho.

- Minha nossa, ficou lindo! – Solaria exclama emocionada. – Layla deve estar muito feliz.

O dia segue animado, principalmente quando Sol reencontra a sua família. São muitos nomes e Gaara tem a plena certeza que não será capaz de guardar todos, mas sabe jamais esquecerá os sorrisos e gentileza daquele povo. Sakura é tão empolgada quanto eles e consegue devolver a alegria na mesma medida, se envolvendo rapidamente na preparação do casamento como se fosse parte da família. Gaara demora para reencontrá-la depois que a rosada desaparece com Zora e Yelena e permanece acompanhando os rapazes. Bóris explica a rotina na vila com orgulho e o ruivo se surpreende em saber que essa parte foi montada apenas para o casamento. Há casas, comércios, uma escola e um posto médico acima da montanha e mesmo a maioria dos moradores sendo viajantes, todos se reúnem e se organizam para levantar o acampamento em tempos de festa. Ele escuta atentamente conforme Vladmir explica a tradição que acompanha um casamento cigano, a festa dura três dias e há uma quantidade absurda de comida e bebida envolvida. Além de toda a música, dança e roupas típicas.

Já é quase noite quando Bóris e Vladmir o guiam por entre as barracas. Acostumado com a sua muleta, Gaara os acompanha caminhando ao redor das estruturas, fazendo o que pode para decorar o caminho e a quem cada barraca pertence.

- Vocês podem ficar com essa. – Vladimir aponta uma estrutura grande como um quarto. Uma tenda alta e bem firme, adornada com tecidos em padrões vermelho e dourado. – Sei que é pequena, mas o casamento nos deixou lotados.

- Vocês não se importam em dividir, certo? – Bóris exclama com um sorriso já familiar no canto do rosto.

O ruivo balança a cabeça. – Está ótimo. Somos gratos pelo abrigo.

- Tsc. Falando pelos dois é? – O homem que é duas vezes maior e mais largo que o ruivo bate em suas costas e Gaara perde o equilíbrio, incapaz de se apoiar no tornozelo fraturado e Vladmir agarra seu braço, colocando-o no lugar com um sorriso. – Quando você vai pegar essa menina para você, desgraçado?

- Eu já disse que-

- É, sei, sei. – Bóris continua a caminhar ao mesmo tempo que acende um cigarro. – Talvez realmente não seja justo, já que a coitada não lembra nem o próprio nome.

O grupo fica em silêncio por um instante e Gaara sente aquele peso familiar em seu peito, ciente de que não pode esconder a verdade da Haruno por muito mais tempo. – Mas ela parece tranquila em relação a isso.

- É porque ela sabe que terá suas memórias de volta assim que eu a levar de volta para Konoha. – O ruivo responde Vladmir e pai e filho trocam um olhar rápido, mas que não passa desapercebido por ele.

- Sakura não lembra de porra nenhuma e mesmo assim confia em tudo o que você diz.

- Mas eu me lembro, sei exatamente quem ela é e tudo que já fez por mim. – Gaara responde depressa, incomodado com insinuação. – E eu nunca a machucaria.

- Nós sabemos disso, garoto. – Vladmir toca o seu ombro e o faz encará-lo diretamente. – Sabemos que você irá levá-la de volta para casa em segurança.

O ruivo franze as sobrancelhas, confuso. – Por isso, você deveria fazer como ela e aproveitar um pouco mais essas férias.

- Nós não estamos de férias.

- Cacete, menino. É justamente isso que o idiota aqui está tentando dizer. – Bóris diz, sua voz sempre soando mais alta que as demais. – Relaxe! Aproveite a festa e a sua garota, Gaara. Seja livre uma pelo menos uma vez nessa sua vida maldita!

O ruivo se surpreende com a explosão de Bóris, ainda desacostumado com a impaciência do homem, e ele continua. – Agora entre nessa barraca e coloque suas roupas. A festa já vai começar.

Os dois não dão tempo para o ruivo se quer raciocinar e vão embora não sem antes empurrá-lo em direção a tenda. Por dentro, a estrutura é um pouco menor do que parece ser pelo lado de fora. Principalmente porque está repleta de almofadas e cobertores. No chão há tapetes felpudos, quentes e macios o suficiente para uma noite tranquila. No canto há uma bandeja com água, uma pequena toalha e roupas. Tirando seus sapatos com cuidado, ele se deixa cair no colchão improvisado. Seu tornozelo está latejando e os ombros doendo por usar a muleta por tanto tempo. Ele fecha os olhos, mas o barulho do lado de fora fica cada vez mais alto, dando o sinal de que ele já está atrasado. Suspirando, Gaara levanta e começa a se preparar para a festa, sem conseguir parar de pensar sobre os conselhos dos seus colegas.


Gaara tem a plena certeza que jamais conheceu pessoas como aquelas. A festa é diferente de tudo o que o ruivo já viveu, melhor até mesmo do que os festivais de Suna. A cerimônia é repleta de tradições e costumes, mas tão alegre que ao fim, não há uma única pessoa que não esteja sorrindo. Os noivos, assim como todos os convidados (inclusive Sakura e Gaara) usam roupas tradicionais, tão coloridas quanto todos os outros detalhes da festa. A música é alta e há comida o suficiente para alimentar uma pequena cidade por semanas. Todos cantam ao mesmo tempo, fazem barulho e dançam ao redor da fogueira por horas, comendo e bebendo com satisfação.

É somente no ápice da madrugada, quando todos já estão bêbados o suficiente e cada vez mais afáveis que a música diminui levemente o ritmo. As crianças já não correm por todos os lados e os idosos finalmente começam a se sentar, mas os casais se reúnem ao redor da fogueira, acompanhando os recém-casados em uma dança lenta e apaixonada.

E é claro que Sakura não ficaria de fora.

A única coisa que a impede a noite inteira de arrastar Gaara para dançar é o tornozelo do rapaz. Mesmo assim, ela dança ao redor dele, balançando o seu vestido e o seu cabelo sem parar de pular por um segundo. Gaara nunca viu alguém tão feliz, muito menos perto dele e o seu coração dispara dolorosamente cada vez que Sakura segura suas mãos para balança-lo junto com ela. Toda a experiência é completamente surreal. E quando o ritmo diminui e ele finalmente se levantar e a acompanha até a fogueira, Gaara tem a plena certeza de que está sonhando.

Sakura usa um conjunto verde e dourado, sendo uma blusa que deixa os seus ombros e a barriga de fora e uma saia longa o suficiente para arrastar no chão. Seu cabelo está puxado para trás e coberto com um lenço verde que combina com a roupa. Dessa forma, Gaara pode ver perfeitamente o seu rosto, que já está curado e livre de qualquer marca. Os únicos detalhes que denunciam o que a rosada havia enfrentado é a cicatriz na parte de trás da sua coxa e no couro cabeludo, mas o sorriso da Haruno disfarça perfeitamente a principal sequela do acidente. Entretanto, mesmo que Sakura não se importe, Gaara faz questão se lembrar o tempo todo.

Ela o apoia até finalmente estabelecem um ponto próximo ao fogo. Sakura morde o seu lábio e ergue as mãos devagar para envolver o seu pescoço. Gaara coloca as suas sobre a cintura dela e mesmo sabendo que o seu tornozelo ainda grita cada vez que ele apoia o seu peso, ele tenta se mover. A Haruno o impede imediatamente.

- Assim está bom. – Ela sussurra e se aproxima mais para esconder o rosto no pescoço dele.

Gaara aceita a aproximação de bom grado e suas mãos sobem, tocando as costas da moça e envolvendo-a suavemente. Ele fecha os olhos e juntos, os dois balançam sem sair do lugar. Sakura é quente e pequena, mas forte o suficiente para equilibrá-lo perfeitamente e ela se entrega ao embalo da música. Sua respiração é calma, morna e o arrepia por completo cada vez que bate contra a sua pele. A sensação é tão incrível que Gaara abre os olhos para ter a certeza de que tudo isso está realmente acontecendo. Ele apoia o queixo na cabeça dela e alcança o seu cabelo, rolando os fios entre seus dedos para ter a satisfação de ver o rosa pintando sua pele.

Não há uma única parte dele que queira que este momento acabe, ainda sim, ao olhar para ela, Gaara não consegue evitar a culpa que o acompanha desde o dia que decidiu não contar para sobre o seu passado. Ele se força a lembrar quem é a mulher em seus braços e que a relação deles jamais teria se entrelaçado dessa forma se Sakura não tivesse perdido a memória. Por isso mesmo, Gaara a afasta de repente e o suficiente para olhar nos seus olhos, agora confusos.

- Qual é o problema?

- Sakura, eu preciso te contar uma coisa. – As mãos dela descem do pescoço para a sua camisa de linho e agarram o tecido. – Mas... Existe a possibilidade de você não me olhar da mesma forma quando souber a verdade.

O tom de voz dele é baixo e triste, batendo em um contraste direto com a música e o clima ao redor. Presos na própria bolha, eles nem se quer percebem os outros casais que continuam a dançar como se no mundo pudesse pará-los. Sakura franze as sobrancelhas e o encara em silêncio. O ruivo mal consegue sustentar o olhar no dela, sentindo o aperto em seu peito cada vez mais sufocante e um medo de perdê-la ainda pior do que sentiu naquela noite quando caíram no rio.

- É alguma coisa que eu já sei, Gaara? – Diferente do que ele imaginou, a voz dela é tão doce que o rapaz sente seus músculos vacilarem. – E apenas não me lembro?

O ruivo demora alguns segundos até finalmente acenar com a cabeça.

- Então você não precisa me contar. – Ela sorri, contrariando qualquer cenário que Gaara poderia ter imaginado. – Eu não quero saber.

Ele se surpreende verdadeiramente. O choque e a confusão o atingem de tal forma que o seu primeiro instinto é dar alguns passos para trás, mas a Haruno o segura exatamente no mesmo lugar.

- Mas-

- Quantas vezes eu vou precisar te dizer até que você entenda? – Sakura rola os olhos e solta a sua camiseta sem realmente deixar de tocá-lo. Suas mãos percorrem o caminho do seu peito até o pescoço e se estabelecem ali mais uma vez. – Olhe ao redor Gaara. Você realmente acha que vamos viver algo como isso novamente?

- Não vamos. – Sakura responde por ele. - Eu não quero estragar esse momento. Eu só quero viver essa noite com a mesma energia que essas pessoas.

Viver como se não houvesse amanhã.

Ele não sente vontade de falar mais nada e o seu único desejo é se render a proposta dela, mas Gaara sempre foi um homem incapaz de calar completamente os seus pensamentos. – Você não tem medo de estar sendo enganada?

- Não, eu confio em você. - Sakura responde com tanta certeza que o primeiro reflexo dele é puxá-la para mais perto. – Eu salvei a sua vida e você salvou a minha, certo? Isso resume tudo. O resto eu posso lembrar depois, Gaara.

Isso é tudo o que ele precisa.

O ruivo a puxa até que seus corpos estejam perfeitamente colados e dessa vez, é o rosto dele que vai de encontro ao pescoço dela. Gaara fecha os olhos e se aprofunda nela, fazendo questão de inspirar com força o cheiro da sua pele. Subitamente exausto, o rapaz decide jogar a toalha, com a certeza de que mais nenhuma palavra é necessária. Ele a envolve decidindo tomar aquele momento para si, exatamente como ela sugeriu. O passado, Konoha, Suna e todo o resto pode ficar em espera. Enquanto estiverem nessa ilha, Gaara decide aproveitar cada segundo assim como ela.

É a mudança na música que os traz de volta. Ela fica agitada de repente e as pessoas voltam a fazer barulho, gritando e jogando os braços para cima. Observando como a festa volta a explodir com mesma energia do início da noite, Gaara tem a plena certeza de que tudo aquilo é perfeitamente capaz de durar 3 dias. Para o seu desgosto, a Haruno se afasta e instantaneamente se anima, ela joga os braços para o alto e lança um daqueles sorrisos capazes de iluminar o mundo. Apoiando o seu peso na perna boa, o ruivo permanece parado enquanto a assiste dançar ao redor dele, circulando-o enquanto gira e dá risada. Pela primeira vez na vida, o ruivo também sente vontade de dançar, mas dançar como ela. Com os olhos fechados, o riso solto e sem dar mínima para quem está assistindo. Ele olha para o seu tornozelo um pouco chateado, mas ao sentir as mãos dela sobre as suas, seu humor fica leve novamente. Sakura rodopia, balança e dança pelos dois. Ela enrosca seus dedos aos dele e sem deixar o seu sorriso diminuir um único centímetro, olha para Gaara com os olhos brilhando.

Tão linda.

Gaara sente o seu corpo leve, a mente livre e o espirito solto, por isso é tão fácil chegar à conclusão de que ele a quer. É a primeira vez que tem um sentimento como esse, mas a realização é tão simples que ele não se assusta. Ele a quer. Sua atenção vai imediatamente para os lábios dela e Sakura percebe, por isso crava seus dentes neles, deixando seu sorriso morrer, mas seus olhos são cristalinos e cintilam em expectativa. O ruivo a observa e suspira decidido a cruzar a mínima distância entre eles.

- Hm, desculpe interromper... – Ambos despertam subitamente e voltam as suas atenções para Vladmir. Ele entrega a muleta improvisada para Gaara. – É melhor você ficar com isso antes que as brigas comecem.

- Brigas? – Sakura se assusta, mas o moreno ri.

- Só é realmente uma festa se alguém sai sangrando. – O casal o acompanha na risada. – Sabe, a festa acordou de novo, mas vocês podem ir se quiserem.

Os dois se entreolham um tanto constrangidos e ainda distraídos pelo momento subitamente interrompido. Gaara, já tão habilidoso em ler as emoções dela, nota a leve dúvida e faz questão de espantá-la. – Não, nós estamos be-

- Eu vou. – A Haruno interrompe de repente. Ambos olham para ela, as bochechas levemente coradas e os olhos brilhando em um misto de sentimentos. – Estou indo, ok?

Gaara a observa um pouco mais antes de responder. Sua mão ainda está unida a dela e Sakura a pressiona levemente sem quebrar o contato visual, mas depois ri e abaixa o olhar pressionando os lábios um contra o outro, como se estivesse impedindo a si mesma de falar. Quando traz seus olhos de volta para os dele, Gaara percebe que estão quentes. A luz da fogueira reflete nas suas pupilas e combina com a mensagem que ela quer transmitir, mas Sakura não diz mais nada.

- Tudo bem. – O ruivo responde. A voz lenta e distraída, subitamente hipnotizado.

Os dois rapazes a observam acenar, desejar boa noite e se virar para partir, não sem antes olhar uma última vez por cima do ombro. Eles permanecem em silêncio, observando-a até que Sakura desaparece entre as barracas. Gaara mal consegue raciocinar, ainda tentando compreender aquela faísca no olhar dela.

- Garoto, eu sei que não muito mais velho do que você, mas se você me permite um conselho... – Vladmir murmura encarando o vazio assim como ruivo. – Quando uma mulher te olha daquele jeito, você corre atrás.

E é exatamente isso o que ele faz. Gaara parte, ignorando a risada alta que Vladmir deixa escapar e segue pelo mesmo caminho que ela. Mais lento e desajeitado graças ao seu tornozelo, só nessa pequena caminhada que o ruivo percebe que o incomodo latejante está ainda pior e os seus ombros imploram por descanso, mas ele faz questão de empurrar esses sentimentos para o fundo da sua cabeça e se obriga a focar completamente na faísca da Haruno.

A porta da tenda está abaixada, mas Gaara percebe a tímida luz de uma única vela serpenteando por entre as frestas da barraca. Ele se aproxima devagar e usa o seu braço livre para afastar os tecidos. Sakura está parada bem no meio da tenda. Descalça e o cabelo livre, mas com o mesmo olhar flamejante. Ela o encara diretamente, como se estivesse esperando exatamente por ele. A Haruno não parece nem um pouco nervosa ou ansiosa, muito pelo contrário. Sua postura é confiante, desafiadora e o seu sorriso satisfeito. Gaara sente sua boca secar instantemente e respira fundo, obrigando a si mesmo a manter o foco e evitar que sua mente viaje para fantasias envolvendo a Haruno e aquele cenário sugestivo.

- Oi. – Ele murmura com vontade de caminhar imediatamente até ela e continuar o que Vladmir interrompeu.

- Oi, Gaara. – Seu tom de voz não o ajuda nem um pouco.

- Eu tenho uma pergunta para você. – O ruivo sussurra.

Eles ainda podem ouvir perfeitamente o som da festa, ainda que um pouco mais distante. Na tenda, como ele suspeitava há apenas uma vela, mas que é o suficiente para iluminar o ambiente de uma forma aconchegante. O ruivo tira seus sapatos e deixa a muleta de lado para subir cambaleante no tapete e finalmente se aproximar dela. Sakura suspira, cheia de expectativa e não faz a mínima questão de tentar esconder isso. Ela acena com a cabeça e morde o lábio sem se dar conta de como esse simples gesto rouba a atenção dele quase que completamente. Ele se aproxima devagar e como pode, sem o seu apoio, mas não demora até reconquistar seu espaço a poucos centímetros dela. Seus corpos perto o suficiente para que cada célula fique ciente da presença um do outro, mas ainda sem se tocar. É o ruivo quem se move primeiro e leva a mão até o rosto dela, tocando-a tão suavemente que a Haruno sente suas pernas falharem.

- Isso é um sonho? – Gaara pergunta, finalmente envolvendo-a e puxando o seu corpo de encontro ao dele.

Sakura suspira ao finalmente senti-lo. Ela fecha os olhos e abre tão lentamente quanto ele se move. Sua mão alcança o rosto dele e ela traça o seu contorno com a ponta dos dedos. Da sobrancelha até a ponta do nariz e finalmente sobre os lábios. Seu toque é leve e curioso, como se Gaara realmente fosse um fruto da sua imaginação.

- Sim. – Sakura sussurra sem força alguma, seu corpo mole e trêmulo, mas firmemente pressionado contra o dele.

- E como eu posso ter certeza que você não vai se esquecer de mim quando acordar? – Há mil e uma mensagens em uma única frase e a Haruno fica zonza com a intensidade do momento, mas Gaara segura o seu queixo e firma o entrelaço em sua cintura ainda mais, se é que isso é possível.

Há aquela faísca novamente, mas dessa vez olhos dela refletem os dele, ambos igualmente banhados de desejo.

- Me de algo para que eu possa me lembrar, Gaara.

O ruivo não espera nem mais um segundo e toma os seus lábios como se estivesse esperando a vida inteira por isso. Ele agarra seu cabelo rosa e a segura possessivamente, devorando seu beijo com a fome de um leão. Sakura corresponde na mesma medida e com os olhos fechados entrega a sua alma de bom grado. A Haruno tem gosto de liberdade, porque é como se Gaara estivesse preso e depois de romper as correntes pode finalmente alcançar a sua recompensa. Ele simplesmente não consegue pensar em mais nada que não seja a língua dela se enroscando na sua e não consegue desejar mais nada que não a prová-la cada vez mais, desbravar centímetro que a constitui e se afogar em tudo o que Sakura tem para oferecer.

Eles deitam entre as almofadas, sem se afastar um único milímetro e é Sakura quem o traz cada vez mais perto, como se precisasse do calor dele para sobreviver. Ela ergue seu pescoço e Gaara vê a oportunidade perfeita para descobrir o sabor da pele que ele tanto deseja. O som que a garota produz ao senti-lo saboreando-a faz Gaara se perguntar o que mais ele é capaz de arrancar dela. Sakura permite que ele deite entre as suas pernas e mais uma vez entrega tudo o que está sentindo, murmurando palavras desconexas quando o ruivo desce suas mãos, contornando suas curvas pela primeira vez, mas com uma habilidade que contradiz qualquer inaptidão.

Ele abre os olhos para ter a certeza de que isso está realmente acontecendo e deixa escapar um palavrão ao olhar para ela. Seu rosto está vermelho, mas os olhos inflamados e transbordando, sua expressão febril deixa claro sua vontade de se render para qualquer que sejam os planos dele. Gaara respira fundo e a beija outra vez, com a certeza de que sonho ou realidade, ele não quer despertar.


O tempo passa rápido não importa o quanto Gaara deseje o contrário. Depois de quase dois meses desaparecidos, o casal finalmente retorna para Konoha. A viagem é particularmente difícil e eles têm que parar todas as noites porque, ainda que pareça totalmente curado, Gaara não consegue evitar que o seu tornozelo pulse dolorosamente ao fim de cada dia. Sakura fica quieta e triste nos primeiros dias e o ruivo sabe exatamente o que está passando na cabeça dela, a despedida da família salvou a vida deles inúmeras vezes é difícil e dolorosa, mas no fim, não há como adiar o retorno mais. Eles se separam quando chegam no País do Mar e imediatamente pegam um barco de volta para o País do Fogo, seguindo o resto do percurso a pé em direção a Konoha. Conforme se aproximam do seu destino, é Gaara quem muda de humor. Ele simplesmente não consegue abandonar o pensamento de como a relação dos dois ficará assim que Sakura recuperar as suas memórias.

Ele ainda se surpreende quando pensa em tudo o que aconteceu, de como foi acordar ao lado dela naquela manhã e viver os dias com Sakura sendo completamente sua. Apesar de plenamente consciente de como o seu pensamento é egoísta, o ruivo não consegue evitar a irritação em saber que assim que pisarem em Konoha, Sakura não será mais apenas dele. Além disso, ele não faz a menor ideia de como a relação deles será vista pelos seus amigos, principalmente por Naruto, e ele se desespera em imaginar que poderiam pensar que Gaara estava se aproveitando dela. A Haruno é paciente e mais amorosa do que ele acha que merece. Ela afasta seus medos com beijos e diz as palavras certas para fazê-lo querer continuar.

Quando avistam a vila, tão facilmente identificável, Sakura perde o ar. O lugar é ridiculamente maior do que ela imaginou que seria e ela encara o ruivo preocupada. Ele apenas ri.

- É gigante! Como faremos para encontrá-los?

- Não se preocupe, eles virão até nós.

Principalmente porque Gaara aproveita a primeira oportunidade que tem para enviar uma carta para a Hokage e para os seus irmãos explicando exatamente a situação. Ele praticamente exige que não os encontrem no caminho e deixa claro a importância de se aproximarem cautelosamente para não assustar a Haruno, mas no fundo Gaara sabe que só disse isso para poder aproveitar os seus últimos dias sozinho ao lado dela.

- Aposto que Naruto está tão ansioso para te ver que vamos encontrá-lo no portão.

Sakura sorrir, mas antes que ela dê mais um passo o ruivo segura a sua mão. Eles estão tão perto da entrada de Konoha que Gaara tem a certeza de que essa é a sua última oportunidade de viver a fantasia criada pelos dois. Ele a observa, absorvendo cada detalhe da sua forma e toca o seu rosto, ignorando o aperto no seu peito.

- Não me olhe desse jeito, Gaara.

Mas ele a ignora, ao invés disso, cola seus lábios aos dela. Leve e suave, mas é um beijo carregado de palavras que o ruivo passou a viagem inteira tentando não dizer.

- E definitivamente não me beije desse jeito. – Ela se afasta com a expressão assustada.

- De que jeito?

- Como se fosse a última vez.

Gaara apenas a abraça, escondendo-a em seu peito o mais firme que pode. Ele dá um beijo no topo da sua cabeça e cheira seu cabelo, fazendo questão de guardar cada detalhe que pode sobre Sakura. Ele tem a plena ciência de que está agindo como uma criança assustada, mas o ruivo é um homem incapaz de ignorar os seus instintos e nesse momento, eles gritam sob a possibilidade de perdê-la.

- Vai ficar tudo bem, não se preocupe. – Ele diz quando percebe que ela ficou quieta demais – Vamos.

É exatamente como ele pensou que seria. Naruto está no portão com os olhos cheios de lágrimas antes mesmo de colocá-los sobre ela. Ele está visivelmente se controlando para não correr e pular agarrando a Haruno e por isso treme no mesmo lugar, com os punhos cerrados de ansiedade. Gaara sente vontade de rir e se pergunta o que teriam dito para conseguir controlá-lo. Conforme se aproximam, ele também identifica Kakashi e Tsunade, ambos de braços cruzados e um sorriso no rosto. Eles caminham de mãos dadas e Gaara pensa em soltá-la quando estão perto o suficiente, mas Sakura firma o entrelaço com um aperto de aço. Ela está tão nervosa que seu lábio treme e por isso mesmo, ele não só permanece com a mão onde está como se aproxima mais, colando seus ombros.

- SAKURA! – Naruto grita quando eles estão apenas alguns passos de distância e a rosada se assusta. Isso faz o loiro levar um pequeno tapa na cabeça e ele rapidamente volta a se controlar.

- Sakura, eles são Naruto, Kakashi e Tsunade. – O ruivo murmura quando já estão de frente para o trio. – Eu te falei sobre eles, lembra?

- Sim. Ela vai me ajudar. – A rosada sorri para a mulher a sua frente e Tsunade acena com a cabeça, os olhos visivelmente mais úmidos.

- SAKURA, EU SABIA QUE VOCÊ ESTAVA VIVA! – Naruto explode atingindo o seu limite, mas permanece no lugar. – Nós te procuramos por toda parte. Eu quase fiquei louco! Vocês simplesmente desapareceram, não conseguimos rastrear o cheiro, não tinha pistas. Eu não fazia a menor ideia do que aconteceu, mas eu sabia que você estava viva e sabia que iria voltar para casa. Meu Deus, porque vocês demoraram tanto?! Onde se meteram?! Eu passei-

- Naruto, cala boca! – Tsunade bate na cabeça dele mais uma vez quando percebe a rosada se encolhendo atrás do ruivo. – Você está assustando ela.

Gaara a coloca de volta ao lado dele pacientemente e brinca com uma mexa do seu cabelo, colocando-a atrás da sua orelha. – Eu te falei que ele era barulhento. – Sakura sorri. – Não precisa ficar com medo, essas pessoas te amam.

- Vamos para o hospital. Quanto antes começarmos, melhor. – Tsunade murmura e faz um sinal para que a sigam.

- Estou feliz que você voltou para casa, Sakura. – Kakashi diz com a voz controlada e consegue tirar outro sorriso da Haruno.

- Eu posso te abraçar? – Naruto sussurra cauteloso e fazendo todos pararem.

Mas Sakura acena com a cabeça, mantendo o sorriso nos lábios e solta a mão de Gaara para receber o loiro. O rapaz a deixa ir, ainda que isso provoque um formigamento doloroso na palma da sua mão e observa se render aos braços do Uzumaki. Isso dá abertura que os outros precisam e eles imitam o movimento, recebendo Sakura com os olhos úmidos. A preocupação é genuína e faz o ruivo pensar nos seus irmãos. Tsunade está certa, eles devem seguir depressa porque Gaara também quer abraçar as pessoas que ama.

Como se pudesse ler os seus pensamentos, Naruto se joga em cima dele com os braços abertos. O ruivo se surpreende e não consegue segurar uma exclamação dolorosa quando tem que apoiar seu peso subitamente no tornozelo recém cicatrizado.

- Ah me desculpe, Gaara. É o seu tornozelo, né? – Mas o carinho do loiro faz Gaara esquecer rapidamente a dor.

- Estou bem, Naruto. – Ele sorri para o amigo.

- Eu estava preocupado com você também. – Naruto o abraça novamente, com um pouco mais de cuidado dessa vez. – Obrigada por cuidar dela.

Gaara sorri novamente, mas dessa vez o aperto no seu peito volta a sufocá-lo, porque o tom de Naruto é como quem diz "Pode ir, ela está bem agora." Mas mais uma vez, Sakura age como se adivinhasse o que ele está pensando, ela volta para o seu lado e agarra a sua mão despreocupada. Todos percebem, mas não deixam escapar nenhuma pista sobre o que estão pensando e isso deixa Gaara ansioso.

No hospital, eles têm que se separar mais uma vez. Quando Sakura volta os olhos para ele, completamente em pânico, Gaara segura o seu rosto e se aproxima sem se importar com todos os olhares sobre eles.

- Vai ficar tudo bem, você pode confiar nela.

- Estou com medo. – Sakura murmura tocando as mãos dele. Ela parece uma criança e isso faz Gaara sorrir.

- Eu sei, mas será rápido. Você vai dormir e quando acordar, vai se lembrar de tudo.

Ela fica em silêncio um instante, o encarando com aqueles olhos cristalinos que o ruivo aprendeu tão rapidamente a decifrar. Não é do procedimento que ela está com medo.

- Você vai estar aqui quando eu acordar, certo?

Gaara sorri e acaricia a bochecha dela com o polegar. – Bem do lado da sua cama.

- Promete? – Assistir os olhos dela lagrimejarem o atinge com a força de um soco. Gaara se arrepende de ter deixado transparecer sua insegurança com tanta intensidade, não há a menor possibilidade de ele ser a pessoa a acabar com o conto de fadas que eles estão vivendo, mas o seu comportamento a deixou apavorada e Gaara se arrepende amargamente.

- Eu te dou a minha palavra. Estarei te esperando.

Sakura acena e se afasta, sem tirar os olhos dele até o último segundo. Ela segue Tsunade e desaparece atrás das portas do hospital, deixando Gaara para traz com um gosto amargo na boca e o arrependimento de não a ter beijado.


O dia está amanhecendo quando Gaara finalmente a sente se mover, despertando. Ele age exatamente como havia prometido e permanece ao seu lado durante todo o tempo em que está adormecida. Gaara não deixa o quarto nem quando Tsunade o examina e usa chakra no seu tornozelo para definitivamente curá-lo. Ela também precisa tratar as suas costelas, pois apesar de não sentir qualquer incomodo, Tsunade afirma que elas ainda não estavam perfeitamente cicatrizadas. As horas seguem lentamente enquanto ele espera Sakura acordar. O ruivo passa a noite na poltrona ao lado da cama e acorda com as costas doloridas, mas a mão exatamente no mesmo lugar, sobre a dela.

Ao senti-la despertando, Gaara inconscientemente prende a sua própria respiração. Sakura abre os olhos devagar e olha ao redor, sua expressão demostrando claramente que ela não demora para reconhecer onde está. O ruivo imagina que o hospital de Konoha deva ser ainda mais familiar para ela do que a sua própria casa e sorri. Ela demora o dobro de tempo para notá-lo. Sakura franze as sobrancelhas e se esforça para sentar, sem olhar diretamente para o rapaz ao seu lado. Ela desliza sua mão, escorregando-a debaixo da dele para o seu próprio rosto e pressiona suas têmporas com uma expressão dolorida.

- Está tudo bem? Eu vou chamar a Tsunade-sama. – Gaara faz menção de levantar, mas a Haruno balança a cabeça.

- Minha cabeça está doendo, mas eu posso cuidar disso. – Assim que termina de responder, o ruivo sente a mudança no ar e observa ativar o seu jutsu médico, sem dificuldade alguma.

Ela fecha os olhos e sua expressão vai de concentrada para suave em questões de segundos. Gaara morde seu lábio, desconcertado. É estranho se lembrar de repente do que a Haruno é capaz de fazer. Sakura suspira e abre olhos, descansando suas mãos sobre o colo suavemente. Ela encara a janela a frente, como se estivesse evitando olhar para ele.

- Está com sede? – Ele sussurra após alguns instantes de um silêncio constrangedor. – Fome?

- Estou bem, obrigada.

O silêncio que os segue pesa toneladas. Gaara se move sobre a poltrona sem saber o que dizer e encara o chão. Ele olha para o seu tornozelo e sorri.

- Tsunade me curou também. – Ter os olhos da Haruno sobre si pela primeira vez desde que ela acordou causa um arrepio eletrizante por todo o seu corpo, mas a falta de expressão dela faz o seu sorriso diminuir levemente.

- Ah. – Sakura murmura aérea. – Sinto muito por não cuidar dos seus ferimentos antes, Gaara.

- Você não sabia como. – Ele responde depressa, não querendo perder os olhos dela de novo. – Não precisa se desculpar.

Sakura o encara e franze as sobrancelhas de novo, como se sua dor de cabeça estivesse voltando. Ela fecha os olhos e torna a abri-los lentamente. Não parece ser o suficiente e ela novamente leva uma das mãos até sua têmpora.

- Está tudo bem?

- Hm... – Sakura suspira enquanto massageia sua cabeça do mesmo lado onde estava a cicatriz. Ela corre os dedos adentro do próprio cabelo e morde seu lábio ao sentir a marca sobre o couro cabeludo. – Estou, mas é muita informação.

Gaara assente em silêncio. Ele a observa, seu rosto é exatamente o mesmo, mas o ruivo consegue ler toda a sua expressão corporal e identifica rapidamente a diferença entre essa Sakura e aquela que acordou enroscada a ele na manhã anterior. Ele abaixa os olhos e encara a outra mão dela ainda descansado sobre seu colo. O rapaz já sabia que não seria exatamente a mesma coisa, mas isso não significa que a história vivida deve ser completamente apagada. Ele fez questão de perguntar a Tsunade se as novas memórias seriam afetadas pelas antigas e ficou satisfeito com a resposta negativa. Ele sabe que ela se lembra.

Pensando nisso, Gaara se move. Ele levanta e se apoia na cama, sentando levemente de frente para ela. Sakura não esconde a sua surpresa e o encara com os olhos arregalados, mas sua expressão suaviza quando o ruivo sorri. Ele alcança a mão dela, segurando-a firme, mas com delicadeza e quase suspira em identificar o sentimento tão familiar que é tocá-la.

É a mesma pessoa.

Mas os olhos dela vacilam. Sakura olha para as mãos unidas sobre o seu colo e franze as sobrancelhas. Sua outra mão permanece no mesmo lugar, sobre a cicatriz.

- Eu sei que é muita coisa, Sakura, mas eu estou aqui para te ajudar. – A Haruno parece ainda mais confusa com as palavras dele.

- Como assim?

Como se a expressão dela fosse contagiante, o ruivo a imita, igualmente confuso. – Nós-

- Você não está com saudades dos seus irmãos?

Sakura o interrompe ao mesmo tempo que puxa sua mão, mais uma vez escorregando-a para longe como se o toque a machucasse. A atitude e a mensagem subliminar o atingem com a força de uma rasteira porque Gaara sente o chão sob seus pés desaparecer momentaneamente. O mesmo silêncio denso toma o quarto e ele não consegue desviar os olhos mesmo quando Sakura encara o cobertor visivelmente constrangida.

- Eu não quis dizer nada, Gaara. É só porque eu estou em casa, mas você ainda não reencontrou a sua família. – Mesmo assim, ela continua o evitando.

- Eu avisei que passaria em Konoha antes de voltar para Suna.

- Eu sei, mas eles devem estar preocupados... – A voz dela desaparece aos poucos e o ruivo não a responde, entendendo perfeitamente o que Sakura está querendo dizer.

Você pode voltar para casa, se quiser.

Gaara permanece imóvel, sentindo o gosto mais amargo que a sua boca já provou e se pergunta como ele pode ter sido tão inocente. Ele sente que está sufocando conforme seus medos se tornam realidade e Gaara é obrigado a assisti-la fugir com uma expressão de quem não quer ser encontrada.

- Pensando bem... - A Haruno murmura e morde o lábio antes de voltar a falar. – Eu estou com fome sim.

A frase é fora de contexto e Gaara respira duas vezes antes de entender o que ela está querendo dizer.

- Você pode... – A voz dela treme, mas o ruivo se força a acreditar que é apenas a sua imaginação.

- A enfermeira-

- Você pode ir... Por favor... – Ela faz uma pausa e a sua respiração se distorce. – Estou com muita fome, Gaara.

O rapaz leva mais alguns instantes para se mover, mas eventualmente se levanta entorpecido. Ele faz questão de andar lentamente como se esperasse a voz dela voltando atrás e o pedindo para ficar, mas nada acontece. Gaara caminha pelo quarto, abre a porta e a fecha atrás de si, encarando o chão sem realmente ver o caminho. Ele se preparou para esse momento desde quando deixou o País do Mar em direção a Konoha, mesmo assim, seu corpo dói como se tivesse acabado de sair daquele maldito rio mais uma vez. O ruivo se sente zonzo e usa a parede ao seu lado como apoio. A plena certeza de que ela usou a fome como uma desculpa miserável para fazê-lo sair do quarto faz o seu estômago revirar. Há dois dias, Sakura beijava como se nada fosse perto o suficiente e agora ela o expulsou, incapaz de suportar a sua presença no mesmo cômodo. Gaara caminha pelo hospital como se estivesse à deriva e passa direto pelo corredor que leva a cafeteria. Seus pés o levam até a saída do hospital e no fundo da sua mente ele tem uma ligeira noção de para onde está indo.

De volta para casa, exatamente como ela havia sugerido.

Ele deveria saber.

Esse era o cenário mais esperado. Cair naquele rio foi o início de uma fantasia com data marcada para acabar. A Sakura que não se lembrava de ser uma Haruno, que esqueceu Konoha e que não era uma médica, se foi junto com o sentimento de inconsequência que a levou a provar os lábios dele. Os sorrisos substituídos pelo olhar de desconforto e os toques por mãos que não suportam o seu calor.

Ele deveria saber.

Até porque a própria Haruno fez questão de deixar bem claro, mas Gaara foi estúpido o suficiente para não ver.

"Isso é um sonho?"

"Sim"

Sim. Sim, Sakura estava certa.

A ilha foi um sonho.

E Gaara acaba de acordar.


Ele sabe que nunca seria a mesma coisa, porque Temari não é a sua mãe, mas apenas Deus sabe como Gaara é grato pela vida da sua irmã porque o colo dela é exatamente o que ele precisa e Gaara nem ao menos sabia disso.

Temari leva apenas um único minuto para perceber. Vê-los a metros de distância, correndo dos portões de Suna em direção a ele - que ainda está no meio do deserto - faz Gaara sentir que não tem mais forças e ele se permite desabar. O reencontro suga a última gota de controle emocional que o ruivo possui e ele cai de joelhos na areia. É ao ser envolvido pelo abraço dos seus dois irmãos que Gaara finalmente deixa escapar as lágrimas que passou toda a sua jornada segurando. Kankuro se assusta, porque Gaara se tornou absolutamente outra pessoa ao longo dos anos, mas manteve os seus limite primeira vez que o moreno testemunha uma demonstração tão vívida. Mas Temari permanece inabalada. Ela o envolve com ternura e apoia a sua cabeça em seu colo, acariciando o seu cabelo com cuidado.

- Eu sinto muito, Gaara. – Ela murmura com a voz calma. – Mas você vai ficar bem, vai passar, meu irmão.

Kankuro não compreende, mas permanece quieto afagando as costas do ruivo.

- Dói, Temari. Dói muito.

- Eu sei, mas você está em casa agora e é isso o que importa. Nós estamos com você.

Gaara balança a cabeça em meio ao um soluço, mas sente os pedaços do seu coração um pouco menos espaçados. Realmente aliviado por ter a sua família ao seu lado.


Quase duas semanas se passam desde o dia que o rapaz retorna para Suna. É a companhia dos seus irmãos que deixa a sua alma um pouco mais leve, ainda que ele sinta seu peito sendo esmagado cada vez que se lembra. Dói pensar na ilha e em Sakura, mas principalmente dói pensar em como tudo acabou. É um misto de sentimentos, raiva e decepção, saudade e paixão. A sensação de ter sido usado e depois jogado fora em contraste com o calor em lembrar da sinceridade do que viveram. Gaara demora para entender que o que aconteceu foi verdadeiro, mas realidade mudou e de repente, ele não se encaixava mais da vida dela.

É fim de tarde em Suna e Gaara retorna para casa com os braços cheios de documentos e ridiculamente cansado. Antes de desparecer, o ruivo estava imerso em aulas preparatórias para se tornar o Kazekage e é extremamente exaustivo retomar o que perdeu nos últimos dois meses. As aulas que já eram intensivas, duplicaram a dificuldade, mas o rapaz fica grato por tê-las para ocupar a sua mente. E ainda mais grato por saber que está cada vez mais perto de conquistar o seu sonho. Gaara luta contra um bocejo ao virar a esquina, apenas há alguns metros da sua casa. Ele planejou uma noite tranquila, jantar, banho e revisar o conteúdo do dia, mas seus planos e todos os papéis que Gaara segura vão ao chão ao se deparar com a Haruno sentada na frente do seu portão.

É muito recente e o garoto sabe que o seu coração não pode aguentar muito mais.

Mas Sakura é especialista em contrariar tudo o que Gaara imagina. Ela tem uma maneira própria de agir e simplesmente não importa o quanto o ruivo planeje uma situação, a Haruno nada contra a correnteza. Porque ele imaginou este reencontro de mil e uma maneiras, mas como de costume, Sakura não encaixa em nenhum dos cenários que o ele arquitetou.

Ela está furiosa. Absolutamente furiosa.

Se levanta e parte para cima dele assim que os seus olhos identificam o familiar tom vermelho do seu cabelo. Sakura cruza a distância entre os dois com o queixo erguido e os olhos flamejantes.

- Que diabos, Gaara?! – Tudo o que ele pode fazer é olha-la como se Sakura fosse uma miragem do deserto. – Porque você foi embora?

- O que?

- Porque. você. foi. embora? – Sakura repete pausadamente, seu tom de voz ainda mais alto, como se a audição dele fosse o motivo da confusão.

A Haruno espera, o encarando com toda a determinação que ficou escondida naquele dia no hospital. Gaara pisca algumas vezes, a boca levemente aberta e os olhos definitivamente confusos.

- Porque você pediu! – Ele responde no mesmo tom que ela, quando percebe que Sakura realmente espera uma resposta àquela pergunta hedionda.

- O que?! Eu nunca disse isso!

- Pelo amor de Deus, Sakura!

- Gaa- Ela rosna em frustação. – Você não a mínima ideia do furacão que estava acontecendo na minha cabeça. Como eu poderia pensar com você do meu lado?

- Foi você quem me pediu para estar lá! – Eles estão próximos o suficiente para se ouvir perfeitamente, mas mesmo assim, falam alto demais e suas vozes ecoam pela rua.

- Sim! – Sakura praticamente grita. – Mas de repente você virou Gaara, o futuro Kazekage de Sunagakure!

- O que isso-

- Tudo, Gaara! – Ela bate no peito dele com as duas mãos abertas o empurrando levemente. – Eu me lembro de tudo! Tudo o que fizemos e tudo o que dissemos! Mas de repente você não era apenas o Gaara, que salvou a minha vida. Você era o Gaara que eu conheci a minha vida inteira, o futuro líder de Suna, um dos melhores amigos do Naruto! E a minha cabeça estava prestes a explodir!

Sakura bate nele a cada frase, seus olhos de repente úmidos. – Eu pedi um lanche e você desapareceu!

- Você sabe que não foi só isso, Sakura! – Gaara segura os seus punhos e a força a olhar para ele.

- Eu fiquei furiosa. – A Haruno murmura entredentes, seu olhar ainda quente de raiva, mas quase transbordado. – Depois de tudo o que passamos, você simplesmente foi embora.

- Você partiu o meu coração! – Pela primeira vez, os olhos dela mudam e cintilam preenchidos de confusão. – Você me fez acreditar que não me queria por perto. Nunca mais.

- Gaara, eu fiquei confusa. – Sakura suspira. – Por um minuto ridículo, porque assim que você saiu eu tive a certeza de que a primeira coisa que queria fazer quando você voltasse por aquela porta era te beijar.

- Eu queria tanto te beijar. – A Haruno fecha os olhos, finalmente deixando cair as lágrimas acumuladas no canto dos seus olhos e murmura com a voz cansada. – Mas você não voltou.

- Eu pensei... Pensei que você mudou de ideia. Pensei que tinha desistido. – Sakura suspira com o tom de voz dele. Tão triste e magoado. – Pensei que-

- Você não aprendeu nada, não foi? – A rosada sorri. O mesmo sorriso que Gaara tornou-se viciado em deslumbrar. – Esse é exatamente o problema, Kazekage, você sempre pensa demais.

- Eu não sou Kazekage ainda.

- Pelo amor de Deus, cala a boca e me beija, Gaara.

Os dois dão uma risada leve, contrastando o momento de novo e essa provavelmente é a habilidade que ele mais admira nela. O dom de virar o mundo dele de ponta cabeça dia após dia. Gaara solta os seus pulos e agarra seus cotovelos, trazendo-a o mais perto possível. Sua boca instantaneamente salivando de desejo em prová-la, mas ele ainda não se entrega.

- O que você quer, Sakura? – Ele faz uma pausa, mantendo-a presa em seu entrelaço e sob seu olhar. - Agora que você se lembra, que sabe quem é. O que você quer?

- Quero voltar para o nosso sonho. – A rosada morde seu lábio porque tem a certeza de que o fará olhar para eles. E é exatamente isso o que acontece. – Você acha que é possível?

- Não. – Gaara responde depressa e Sakura sente seu coração parar. – Mas podemos fazer algo ainda melhor.

- E o que é?

O ruivo sorri e uma forma tão sincera que a Haruno simplesmente é incapaz de segurar o seu suspiro.

– Algo real.

- Sim, Gaara.

Ele a beija e Sakura se entrega, ambos completamente imersos na sensação de que aquele conto de fadas pode sim acabar com um Felizes para Sempre.


- O que é isso, Bóris? – Solaria pergunta curiosa. Em uma mão uma bacia cheia de frutas e na outra, uma sacola com queijos. O mercado estava barulhento naquela manhã.

- Uma carta daquele pirralho.

- Gaara?! Finalmente! – A mulher deixa sacola no chão, junto com a bandeja de frutas e se aproxima do seu marido com um sorriso no rosto. – O que ele disse? Como a Sakura está?

- PUTA MERDA! – O grito do homem atrai a atenção da maioria das pessoas ao redor e sua esposa pula, assustada.

- O aconteceu, Bóris?!

- O FILHO DA PUTA É O KAZEKAGE DE SUNAGAKURE!


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