Naruto não me pertence.

Fim de mundo

- O que você acha Sakura-chan?

Ele estava segurando uma enorme moldura dourada cheia de floreios em volta e ela parecia ter sido confeccionada para ter um aspecto antigo.

- De onde raios você tirou isso?! – Eu olhei em volta desejando que ele não tivesse tirado aquele troço da parede ou pareceria que Naruto não apenas aparentava demência, mas que era demente.

- Estava no chão, por trás do balcão onde fica o caixa – ele apontou distraidamente enquanto examinava a moldura.

- Uhn... – Eu continuei a tarefa de pegar as garrafas de bebidas do frízer.

Para minha surpresa havia uma grande variedade de bebidas, menos meu suco de laranja, mesmo aquela sendo uma loja de conveniências esquecida, embora ficasse a menos de duas horas do centro de Konoha, num lugar que mais parecia um fim de mundo.

A festa de premiação do prêmio Kage havia sido na noite anterior e o Naruto simplesmente fez questão de sair chamando todos, até a Ino e o mais novo namorado dela, o Gaara, para a festa. Mas eu devo admitir que ele mereceu, eu não sabia tudo sobre o Naruto, mas eu tinha uma ideia bem clara do quanto ele tinha ralado para chegar até aqui. Nós tivemos que aplaudi-lo de pé quando seu nome foi chamado e lá estava ele, num magnífico terno azul, que fazia seus olhos se destacarem. Um amigo dele, Sasuke, lhe indicara um alfaiate que fez a roupa sobe medida, incrível como se encaixava como uma luva, mas embora ele exalasse elegância, Naruto é o Naruto! E por mais que a gravata não fosse de um laranja berrante ainda era laranja, um tom escuro, mas era laranja!

Num impulso pós-festa viemos parar na estalagem de fim de mundo que fica a menos de dez minutos dessa loja de conivências esquecida no fim de mundo e que aparentemente o antigo professor do Naruto, Iruka-san, é amigo de um amigo do dono. Nem deu para pegar roupas o suficiente quando passamos em casa como um furacão.

- Mas para que você quer isso? – Eu disse fechando a porta do frízer com meu quadril

- Ora, para colocar a capa do meu mangá premiado! – Ele falou como se aquilo fosse óbvio

E eu o olhei incrédula.

- Naruto, essa moldura é horrível!

- Uhn... Acho que poderíamos colocar por cima da TV – Ele nem me olhou

- Sem falar que é grande de mais para o mangá!

- Será?! – Ele levantou os olhos para mim considerando minha fala

Eu estava começando a perceber que a demência do Naruto na verdade não tinha nada de demência, ao menos em casos como aquele, em que aparentava que ele não prestava atenção, mas na realidade estava deliberadamente ignorando o que para ele não era relevante, mas atento o suficiente para intervir quando ouvia algo que lhe interessava.

Suspirei.

- Óbvio Naruto!

Eu passei por ele indo em direção ao caixa.

- Mas precisamos de uma moldura de qualquer forma!

Ele disse vindo logo atrás de mim ainda agarrado com aquilo, como se ainda considerando se levaria aquele troço ou não.

Passamos as bebidas e para minha alegria e salvação dele e da moldura ele a pôs no balcão e saímos.

Pouco tempo depois começou a chover, de início parecia que seria apenas um chuvisco, mas pouco a pouco começou a engrossar e numa tentativa de nos proteger abrigamo-nos embaixo de um velho ponto de ônibus.

Ele apoiou as sacolas de bebidas no chão e passei a mão pelo meu cabelo, verificando se estava encharcado, mas para minha sorte só havia molhado de forma superficial e resolvi prendê-lo num rabo de cavalo, eu percebi que o Naruto me olhava em todo o processo, acompanhando o movimento das minhas mãos.

Eu automaticamente me senti quente por dentro e como na maioria das vezes eu evitei olhá-lo sentindo a quentura subir para minhas faces.

Nós tínhamos esse estranho ponto na comunicação, em 90% do tempo éramos duas pessoas que dividíamos um loft, éramos amigos, mas havia esses 10%, que embora parecesse pouco, fazia com que em questão de segundos eu esquecesse de todo o resto. E desde o dia do churrasco eu soube que aquilo o afetava também.

- Você amarrou o cabelo... – Ele falou em tom normal, embora o som da chuva fizesse com que parecesse um sussurro.

- Imagine... – Eu tentei soar irônica, mas nem mesmo conseguia olhá-lo.

Mas ele ainda estava lá, ao meu lado, a centímetros de distância.

Foi então que senti a ponta de seus dedos em minha nuca, tocando os fios de cabelos que ficaram soltos ali.

Meu corpo inteiro se arrepiou e eu engoli em seco.

- Eu gosto assim...

E reunindo a pouca coragem que me restava eu virei meu rosto para ele.

O minuto seguinte foi um mistério para mim.

Eu senti a preção de seus lábios contra os meus. Eram quentes, molhados, firmes.

Suas mãos calejadas seguravam meu rosto e eu automaticamente pus as minhas sobre as dele.

Eu sentia o sangue ferver e bombear em todo meu corpo.

Possa ser que tenha durado segundos ou minutos até que ele afastou-se de mim para que pudéssemos recuperar o ar, contudo seus lábios ainda roçavam os meus, eu abri meus olhos e lá estavam os dele.

Um convite para me afogar.

E eu senti tudo como naquela noite no terraço.

Eu suspirei quase exasperada e em um entendimento mudo entre abri meus lábios.

Sua língua preencheu minha boca e eu gemi contra a dele descobrindo que o agridoce não estava apenas em seu cheiro, mas também em seu sabor.

Em um gesto sôfrego me pus na ponta dos pés e segurei sua camisa com força como se assim o aproximasse mais de mim. Em resposta ele passou um de seus braços em torno da minha cintura me dando mais equilíbrio, eu saciei minha vontade enterrando minhas mãos em seus cabelos dourados. Só parávamos o suficiente para recuperar o fôlego, mas eu o convidava novamente ao beijo puxando-o pela nuca e ele parecia compenetrado em não me deixar sair de seus braços, e eu tive aquela estranha certeza que nunca mais ele me deixaria afastar-me dele.

- Sakura... – Ele gemeu contra minha boca com uma voz tão rouca que eu tive a certeza que me faria fazer o que ele quisesse.

E nós ficamos ali, não sei ao certo quanto tempo. Numa parada de ônibus, no meio da chuva que caia sem cessar, num lugar que mais parecia um fim de mundo.