Várias semanas haviam passado. A família da Arnaaluk estava toda bem, os homens cada vez mais fortes, Siqiniq cada vez mais decidido a abraçar seu lado feminino e, com isso, era difícil a mulher ficar sozinha com sua mãe... Mas não era possível esconder, por tanto tempo, um sentimento assim de uma xamã e, numa tarde que Arnaaluk não havia saído com os irmãos e o pai para o qadjgit, onde foram consertar os trenós. Ahnah foi direta com o filho:
"Siqiniq, querido... Preciso que vá com seus irmãos, pois os espíritos querem falar com sua irmã e eu sinto em meu coração que é algo muito pessoal. Sim, meu filho?"
"Claro, minha mãe. Sei que nessas horas não é a senhora que fala, mas a xamã dentro da senhora e, nesse caso, eu só devo acatar. Mesmo que aquele lugar me oprima sobremaneira..."
"Então, como mãe, não te pedirei isso... Vou convidar Arnaaluk a um passeio."
E, sabendo da condição de saúde delicada de sua mãe, Siqiniq sorri e se antecipa. Abraçando-a e negando com a cabeça, dizendo que quem sairia seria ele.
"A quentura de nossa casa é o melhor lugar para os espíritos, minha mãe!"
"Ou para minha saúde, querido filho?" – e termina de acariciar suas costas enquanto ele sai.
A senhora então dirige-se para o quarto dos filhos, onde encontra Arnaaluk deitada no chão, como uma estrela-do-mar, com braços e pernas abertos, fitando o teto, cheio de dentes e ossículos pendurados. Ela não se move quando a mãe entra e apenas diz:
"Eu sinto que vou explodir, minha mãe! Explodir de felicidade e de angústia! É possível? Conter no mesmo coração essas eternidades antagônicas?" – sua voz saiu um pouco mais alta do que ela desejava. Lágrimas escorreram de seus olhos.
"Os sentimentos são sempre complementares, meu amor... É a mesma energia, sendo compreendida como antagônica por nós porque somos criaturas binárias. Mas, no fundo, seu coração só tem um desejo, um sentimento. Aquele que os deuses sabem ser o mais certo para você nesse momento! Como eu estou feliz por você, criança! Deve ser uma alegria imensurável conseguir ver um sonho, não é mesmo?"
"Co-como a senhora sabe?! Eu não contei a ninguém. E, sinceramente, é isso que está me consumindo! Eu preciso voltar à neve, preciso vê-lo de novo! Mas... pela primeira vez, tenho medo, minha mãe!"
"Medo? Não seria ansiedade? Eu sei desde o dia que voltamos da nevasca. Seu semblante se alterou, suas atitudes se alteraram. Você andava mais feliz, mas mais esquecida, mais cantarolante, mais pensativa e, ao jogar meus adivinhatórios, não parava de vir o significado "sonho". Então, eu pedi aos deuses que me permitissem ver o que você viu e eles me mostraram um homem branco, com pelos negros e olhos azuis, meio fera, meio razão. Com uma capacidade incrível para o bem, se for corretamente orientado. Eu nunca fiquei tão orgulhosa de você, minha querida!"
A jovem foi aumentando, durante a narrativa, sua assombração em relação aos poderes da xamã, bem como foi alterando sua postura e sentando-se aos pés da matrona, de costas para ela.
"Nós não falamos o mesmo idioma, mas nos reconhecemos. Eu tenho certeza! Posso dizer pelo olhar dele e, desde então, estou esperando que ele chegue... Mas não creio que consiga esperar mais!"
"Os deuses pediram algo quase impossível, então... – ela se virou para olhá-la – Pediram paciência, minha filha!" – o olhar da mulher embaçou com algumas lágrimas.
"Eu já esperei tanto! E, com isso, ficam as duas opções: dá pra esperar mais? Ou é preciso agir como uma orca e despedaçar a distância entre nós, de tanto que já esperei? Pela primeira vez, eu não sei o que fazer... Acho sábio ouvir os deuses, não?"
"Se for possível, filhinha. Se for possível..." – e a matrona começou a cantar algo antigo enquanto pegava em seu bolso um pente de osso de baleira e refazia duas tranças nos longos cabelos da filha. Com isso, ela foi se entregando ao sono e quando menos se deu conta, estava sonhando.
Não estava mais dentro de casa, estava no meio da neve e, ao olhar para suas mãos, não eram mais as mãos de uma mulher. Eram mãos fortes e estranhamente pesadas nos antebraços, havia algo de diferente ali. A inuíte pôde perceber que na mente daquele corpo havia agora, algumas palavras em Siglitun¹, aprendidas em poucas semanas. Ela não sabia explicar, mas compreendia que ele havia procurado um vilarejo vizinho, vestido em peles de urso branco e lobo preto, sendo aceito como mão-de-obra entre os homens daquele local e, foi lá que ele aprendeu o suficiente para conversar. Voltando sua presença na colina, seu hálito fazia o ar frio condensar diante de si e a mulher, através desses olhos, olhava para o seu próprio vilarejo. Acompanhava com a visão a caminhada desanimada de Siqiniq até a grande casa onde os homens arrumavam os acessórios de caça, seus olhos fitaram o chão e viram as três lobas, enquanto ele grunhia algo e elas se sentavam, aguardando. Uma urgência foi crescendo dentro de si e, correndo a passos largos, Arnaaluk via seus pés masculinos dentro de botas de pele de urso, aproximarem-se cada vez mais de sua própria casa. Seria possível que ele estava mesmo chegando naquele momento?
Ahnah percebeu uma energia por trás da casa, algo que ela já havia sentido antes, quando viu o forasteiro pelos olhos da filha; despertando docemente Arnaaluk de seu transe, a matrona somente acenou com a cabeça:
"Ele está aqui. Te esperando na lateral da casa. Ele já deu muitos passos, minha filha. Acho que agora, até os deuses vão entender que suas passadas não são por mera impaciência, não é mesmo?"
Sem dizer palavra, a mulher veste-se com uma blusa de pele de foca, calça sua bota de pele de raposa e suas luvas, respirando fundo, olhando para a mãe antes de abrir a porta e se lançar no desconhecido. Os passos até a lateral da casa pareciam não ter fim, contudo, enquanto ela andava, o vento amigo levou até Logan o cheiro de sua amada, sob os odores das peles curtidas havia algo único, pertencente somente a ela, um cheiro adocicado com a persistência do almíscar. E foi então que ele não esperou mais, caminhou seguindo a fragrância, encontrando-a rente à parede da casa, bem perto de virar a esquina e encontrá-lo também.
Seus olhares sorriram; em seguida, seus lábios; vendo-o totalmente vestido, barba feita e cabelo penteado, nesse momento, ela não teve nenhuma dúvida: era aquela a imagem de seus sonhos:
"Você veio. Me encontrou!" – ela balbuciou.
"Sim... Eu vim!" – ele respondeu, resoluto. Sua mente fervilhando de outras ideias e frases, mas ele não tinha como se expressar corretamente ainda... Seus atos tinham que dizer mais e, estendendo a mão na direção do rosto da mulher, sem oposição dela, que fechou os olhos, aguardando por esse toque e pela energia liberada por ele! Logan percebeu, antes mesmo de tocá-la, uma leve cócega na ponta dos dedos, como se eletricidade estivesse aproximando os dois. Arnaaluk abre os olhos, confirmando ter sentido algo diferente também e, antes dele desistir de prosseguir, ela apoia sua mão esquerda, com uma grossa luva, na mão direita dele e a faz tocar sua tez, criando um arrepio recíproco. Ahnah olhava tudo de sua janela, sentia as energias da filha e do estranho e sabia, dentre todas as coisas do mundo, o quanto aquele amor estava predestinado!
Sem conseguir mais manter a distância, abraçam-se e Logan aproxima devagar seus lábios do dela, controlando seu instinto para não agir impulsivamente e afastá-la. Ela sorri desse autocontrole, aproximando seus lábios do dele enquanto sentencia:
"Eu nasci pra te amar, Yutu²" – e se entregou ao beijo dele.
Ahnah distanciou-se da pequena janela, foi para a cozinha preparar uma farta refeição para eles.
Arnaaluk sabia que jamais sentiria frio novamente. A sensação daquele beijo seria sempre a fornalha de seu corpo. Ela se distancia sorrindo e, pegando-o pela mão esquerda o puxa em direção da porta da casa. Ele obtempera:
"Faz muito tempo..." – parando seu corpanzil, como que congelado pelo receio.
"A xamã, minha mãe, precisa te conhecer. Eu também preciso te conhecer, estranho... Não tenha receio. Venha." – e seus pés sobem o primeiro degrau, distanciando-se dele para que essa mesma distância o descongelasse.
E, como os lobos precisam de um estímulo para se aproximar dos humanos, como um pedaço de carne ou osso, assim também, Logan sentiu-se estimulado a entrar na casa daquela doce desconhecida.
A recepção da xamã retira toda dúvida. Ele era bem-vindo naquele lar e não tinha como estar mais feliz em sua vida. Estendendo os braços e tocando nos ombros do canadense, ela se apresenta:
"Ahnah, sou mãe de Arnaaluk e xamã desse vilarejo. Sede bem-vindo, Yutu!"
Segunda vez que ouvia essa palavra ao referir-se a ele, mas não sabia ainda o que significava. Deixaria para outra hora essa resposta. Que nome mais lindo o da mulher! Era uma melodia para ele. Retribuindo o cumprimento, ele se prostra diante da xamã e diz:
"Sou Logan. Nasci para servir sua casa..."
"Minha casa? Ou minha filha?!" – e solta uma gostosa gargalhada depois dessa frase.
"Mamãe!" – retruca Arnaaluk, corada pela apreciação de Ahnah.
E, respondendo rápido, ele concorda:
"Sirvo sua casa através de Arnaaluk, caso consiga sua benção, venerável Ahnah..." – não havia levantado os olhos, mantinha-se prostrado pois havia sido instruído a ter extrema reverência aos xamãs.
Elas se entreolham e sorriem. Ahnah comenta algo sobre já estar convencida, mas seu marido era também passível de dar bençãos. Ela explica que não vivem sozinhas, avisa sobre os desafios que seriam impostos pelos homens da casa e, sabendo o quanto esses desafios não poderiam ser mais duros que a vida anterior entre os lobos, ele acede, aceitando a mão da mais velha para levantar-se:
"Venha! Coma conosco e beba um pouco antes deles chegarem! Logan!" – levando-o até a cozinha.
Logan e Arnaaluk respeitavam Ahnah, mas não conseguiam parar de olhar um para o outro. O desejo do toque quase sobrelevando a razão. Quando a anciã se ausentava para pegar mais bebida ou para trazer outro tipo de carne, as mãos dos dois se procuravam e aquela mesma eletricidade era sentida. Ambos sorriam.
"Não será fácil, meu querido Logan... Tenho irmãos ciumentos... Ouso chamar um deles de cruel!" – sentenciou Arnaaluk – "Mas eu estarei ao teu lado, em tudo que te fizerem passar, sempre que possível!"
"E se não 'tiver em pessoa, saiba que 'tará em mim mesmo. A partir de agora, eu sou você, Arnaaluk..." – olhando profundamente nos olhos escuros da mulher. Ela se embriaga ao ouvir seu nome pronunciado pelo amado, mas o encanto se quebra quando a porta se abre e vozes masculinas enchem a pequena casa. Amaruq é o primeiro a adentrar a cozinha, estranhando que sua esposa não veio encontrá-lo na sala. Ele fica mudo ao ver o estranho, mas logo a expressão de felicidade no olhar da filha o faz compreender tudo:
"Então, ele finalmente chegou, Arnaaluk?" – indo cumprimentar a esposa e ficando ao lado dela, enquanto encara a filha.
"Sim, meu pai. Ele chegou. Nem cedo, nem tarde. Na hora certa para os deuses... Seu nome é Logan. E ele veio do Sul."
O modo como todos aceitavam e até mesmo esperavam sua chegada era uma deliciosa charada para o canadense. Ele esperava, um dia, compreender isso. E muito mais. Entender como aquelas pessoas viviam de acordo com a Natureza. Como respeitavam, tranquilamente, seus desígnios. E, acima de tudo, como cultivavam a paciência e a força interior! Era nítido que toda a força física que possuía, pela vida dura nas florestas e, depois, naquela parte do ártico, não eram mais incríveis do que a paz nos olhos daquelas pessoas ao seu redor.
"Sou Amaruq, pai de Arnaaluk e de Amaqjuaq, Inuksuk e Siqiniq." – que se apresentavam enquanto eram nomeados. Pelo olhar raivoso de Amaqjuaq, Logan infere ser ele o irmão mais velho e ao perceber os olhares compreensivos dos outros dois irmãos o canadense confirma ser esse seu novo lar.
Novamente, apresenta-se reverentemente, começando pelo pai e, depois, aos irmãos. Recebendo uma olhada fria do mais velho e um abraço contente do mais novo ele estende a mão da amizade e retorna para o lado da amada.
"Esta noite você poderá dormir em nossa sala, mas amanhã lhe ajudaremos a construir uma pequena casa na colina onde, após enturmar-se com o vilarejo e participar de nossa rotina, marcaremos a data de sua união com minha filha. Veja bem, quem decidirá são os deuses. Eles decidem quase tudo aqui nesse paraíso, Logan." – sentenciou Amaruq.
Mesmo não entendendo todas as palavras ainda, o canadense conseguiu apreender o sentido e rumou para a sala, não sem antes despedir-se de todos e perguntar se poderia despedir-se de Arnaaluk e esta, voltando-se para os pais, perguntou carinhosamente se poderia estar com ele na sala por algumas horas, antes de dormir.
Os genitores não tinham nada a reclamar de nenhum de seus filhos e, segundo as tradições inuítes, quando um casal era montado, fosse por casamento arranjado, fosse por amor verdadeiro, essa dupla iniciava uma nova vida, independente do momento da união frente aos membros do vilarejo. Todos conheciam Arnaaluk e seus conhecimentos das tradições, mas não sabiam o quanto disso tudo era conhecido pelo forasteiro e não fosse por essa pequena dúvida, não teriam trocado olhares antes de responder:
"Vocês têm muito o que conversar, claro que pode estar um tempo com ele..." – Ahnah pesou docemente as palavras antes de falar.
Agradecendo com uma rápida inclinação do tronco e com seu olhar que sorria, Arnaaluk levou Logan até a sala onde havia uma grande lareira responsável pelo aquecimento de toda a casa. Diante dela, algumas peles estofadas estavam dispostas e havia alguns tapetes também, todos de peles. Sentando-se num dos estofados, a mulher ficou diante do canadense, sorrindo:
"Você deve ter muitas perguntas, não é, Logan?" – segurava-lhe a mão delicadamente e buscava compreender os matizes de azul nos olhos daquele homem.
A princípio, ele nada disse, sorriu para ela por conta do gesto genuíno que recebia. Quanto tempo havia passado desde o último contato com outro humano? Mais tempo ainda de uma mulher. Ele somente queria fechar os olhos e ser levado por aquela sensação idílica, onde não existia sofrimento, nem morte, nem dor... Ficar para sempre assim. Mas se havia uma coisa que Logan tinha aprendido com a Natureza é que nada é estático. Voltando sua atenção para o presente, ele finaliza o sorriso e solta:
"Algumas, Arnaaluk. Pra começar, o que é Yutu?" – retribuindo o carinho nas mãos da inuíte.
"Ah! Sim... É algo relacionado ao que você fez com meu cão. Sabe? Foi você quem atacou meu trenó e roubou alguns salmões, não?" – ao que ele respondeu positivamente – "Então, significa 'arranhar', mas eu não vi nenhuma arma com você. Como conseguiu aquilo?"
Logan fica receoso, as cenas de morte e dor voltam a sua mente e ele maldiz por já estar trazendo o passado para aquele lugar. Mas, ao mesmo tempo, sua mente contrapõe com imagens onde as garras haviam sido muito úteis; caçadas diversas, entalhes e, até mesmo, dentro da mina. É... Elas não eram boas ou más, mas sim o uso que se fazia delas... Pigarreando, ele não tem as palavras ainda para explicar o que elas são, mas pede à mulher que não se assuste com o que vai ver.
"As minhas armas estão dentro de mim." – e diante da expressão interrogativa dela, ele se distancia e ejeta as duas trincas *SNIKT*, ao que a mulher leva as mãos ao rosto, de espanto e admiração. Aproxima-se e as toca deixando aos dois excitados pelo afluxo de energia do momento. *SNAKT*
"Eu acho melhor tu ir dormir, guria... Eu 'tô tão a fim de você agora que posso não responder por mim, sacô?" – dando um passo para trás – "A gente vai ter todo tempo do mundo pra se conhecer..."
Ela ficou chateada pelo distanciamento, mas concordou em ir, pois também sentia dentro de si um instinto contrário ao esperado para o momento. Ela não deveria ceder à paixão ali. Mas não saiu sem antes roubar um beijo de seu amado!
Aconchegando-se nas peles, Logan não conseguia parar de pensar nela e, em seu quarto, o mesmo acontecia com Arnaaluk. Ambos pensaram em se aliviar da mesma forma: saindo para deitar-se na neve por alguns minutos. Felizmente, foram em momentos distintos e isso apaziguou a tormenta.
Conforme combinado, após se alimentarem e serem informados pelo canadense de que era possível toparem com três lobas na colina, mas que elas eram como uma família para ele, Ahnah disse para terem cuidado, pois as feras costumam demonstrar ciúmes através da agressividade...
Logan foi na frente com três bons pedaços de carne de baleia, bem como as amarras dos cães de trenó. Ele as alimentou e, enquanto comiam, as prendeu com carinho a uma das árvores, sempre se expressando com palavras tranquilas, sem demonstrar nenhuma agressividade. Assim que se aperceberam cativas, ficaram angustiadas. Tentaram romper as amarras, sem sucesso. Cada membro da família também trazia nacos de carnes, levando-os para que as lobas os respeitassem também. Todos, exceto Amaqjuaq, fizeram como ele explicou. O irmão mais velho de Arnaaluk tinha ficado com cicatrizes no braço e a única coisa que o acalmaria seria ter as peles pretas daquelas lobas como adorno... Logan entendeu, mas deixou claro que lutaria por elas! O que trouxe certa inimizade entre os dois.
A casinha foi construída em um dia e finalizada no outro, sendo que no primeiro dia ele já poderia passar a noite nela. Alguns homens mais velhos do vilarejo foram conhecer o forasteiro e acabaram ajudando na empreitada, o que somente acelerou o processo. Cada um deu um pedaço de pele. Todos achavam impossível um ser humano sobreviver muito tempo sem elas. Mas Logan não se preocupava com esses itens, ao menos, não enquanto estivesse morando sozinho. Ele foi introduzido à rotina do vilarejo e, quando a família de Arnaaluk saía para caçar ele os acompanhava. Mas também acompanhava outras famílias. Seu desejo de aprender os costumes e a língua era nítido e ele só conseguiria isso expondo-se ao máximo a eles!
Quando não caçava, estava no qadjgit inventando algum acessório, aprendendo algum nó, consertando ou construindo algum trenó. E, sempre que estava no vilarejo, passava as tardes e noites com Arnaaluk, que depois de poucos dias da mudança à casa da colina, tinha resolvido se mudar com ele também.
A atitude foi motivo de muita conversa entre ela e os pais. Ninguém compreendia a ansiedade dela, além da mãe; eles haviam deixado, pedindo que prometessem fazer amor somente depois de duas luas cheias, ou seja, quase dois meses...
"Sei que sob o mesmo teto isso pode ser impossível, minha filha... Mas é o tempo que os deuses pedem! Eles precisam abençoar essa união, não?" – falava, com entonação preocupada, sua mãe/xamã.
"Paciência! Paciência! Os deuses a pedem pois não sentem o que sentimos, não é mesmo? Eles não sentem o tempo correndo como neve derretendo ao Sol... Não precisam se preocupar com a morte!" – a filha retrucava – "Por esse pedido, pode ser que algumas noites eu venha dormir aqui, então... Vocês me permitem fazer isso?"
"Permitimos, filha. Sua cama ficará disponível por duas luas cheias... Depois disso, leve suas peles para seu novo lar. Dessa vez, por inteiro!" – Amaruq respondeu, reconhecendo naquela atitude ansiosa não uma má criação, mas um desejo profundo de consumar algo tão esperado.
"Também fomos jovens apaixonados, querida... E reconhecemos sua natureza resoluta. Mas se os deuses nos pedem calma, melhor desacelerar o trenó. Agora, vá ter com ele! Não adie mais esse momento para estar entre dois anciões!" – a mãe dela sorri de suas recordações e se enternece com o abraço apertado e longo da filha, antes de sair correndo pela porta.
"Arnaaluk pode ser uma mulher feita no que diz respeito a muitas coisas, mas não passa de uma adolescente no que diz respeito ao amor!" – completa o pai, ajudando a esposa a sentar-se numa das peles estofadas, diante da lareira.
E assim, a primeira lua cheia passa. Algumas noites ambos conseguiram conter o desejo, conversando até alta noite sobre tudo. Sobre como seria a vida a dois; sobre uma parte do passado de Logan; sobre os sonhos de Arnaaluk; sobre as diferenças entre ambos e o que isso significaria em suas vidas. Mas nenhuma dessas conversas poderia tocar na superfície da verdade... Até aquele momento de sua vida, Logan vinha crescendo como um adulto normal. Seu fator de cura ainda não havia encontrado a homeostase correta. Contudo, seria durante sua vida entre os inuítes que o canadense descobriria mais uma faceta de sua mutação...
Entre a primeira e segunda luas cheias houve muita movimentação no vilarejo. Era uma época próspera, pois as Belugas aproximavam-se da costa e, com isso, era possível caçá-las. Logan acompanhou alguns membros da família até essa caça, onde a Natureza deixava esses dois seres (humano e baleia) em pé de igualdade. Aos humanos era dada a capacidade de criar acessórios que sobrepujassem sua pequenez diante das Belugas e, a elas, era dada a vantagem de estar em seu meio! Portanto, era uma luta justa, onde muitas Belugas e muitos homens se machucavam e, segundo eles acreditavam, somente aquelas que não mais precisavam fazer parte da Natureza eram passíveis de virar caça.
Cada família pegava uma e, desta, aproveitava-se tudo! Óleo para lamparinas, pele para trenós, ossos para botões, arpões, acessórios, tendões para costura e carne para comer. Até o sangue servia de alimento aos cães e, algumas famílias, faziam manjares com esse fluido.
Foi nesse momento que Logan viu Arnaaluk em ação. E que também ela pôde ver o canadense caçar. Ambos realizavam o ato da caça com veneração ao momento e ao ser que daria sua vida para que a deles continuasse. Ambos se moviam complementarmente, como um balé ensaiado nas estrelas, antes de seus Espíritos animarem aqueles corpos.
As três lobas haviam adotado Arnaaluk como parte da alcateia. Compreendiam o papel da mulher em relação ao macho alfa e, raramente, reagiam agressivamente contra ela. Uma das lobas, a mais velha, não conseguia disfarçar os ciúmes quando Logan beijava a inuíte na frente delas. Rosnava abertamente e ficava em posição de ataque. Apesar das tentativas de suprimir esse comportamento, os dois tiveram que alterar a rotina:
"Ela chegou antes de mim, querido! É normal que nós respeitemos esse ciúme dela e não que ela deva se submeter a mim, não é mesmo? No lugar dela, eu também teria ciúmes e, sinceramente, não sei se seria tão complacente!" – redarguia Arnaaluk sempre que o canadense comentava algo sobre o comportamento da loba.
"Mesmo, senhorita?... Então 'cê só parece desencanada, mas esconde uma loba dentro de você?" – Logan provoca, abraçando-a por trás enquanto beija seu pescoço.
"Me atrevo a dizer que ninguém é 100% humano, amor. Todos temos nosso lado animal. E eu sei que sempre dou vazão ao meu quando caço, senão, já teria virado caça, não é mesmo?..." – ela aceita o beijo, virando-se em seguida para que pudesse beijá-lo também.
Depois de alguns minutos Arnaaluk adentra a casa de seus pais e encontra todos reunidos na sala. Ao vê-la entrar, o irmão mais velho sentencia:
"Mais uma noite de 5 contra 1, minha irmã?! Desse jeito, esse homem não vai aguentar até a próxima lua cheia..."
"Amaqjuaq! Esse não é um assunto para se brincar..." – Siqiniq bronqueia, defendendo a irmã – "Eu fico feliz que Logan não seja tão materialista quanto você, irmão..."
Ao que Amaqjuaq dá um soco no ombro do irmão, com cara de poucos amigos e recebe um olhar de reprimenda do pai.
Nesse clima, onde tradição, compromisso e desejo se entrechocam, os dias foram passando e, finalmente, a segunda lua cheia chegou. Eles sabiam que no dia dessa lua a cerimônia seria feita e todos os bens de Arnaaluk seriam transportados para a casa de Logan, na colina. Eles tinham vencido! Vencido, acima de tudo, a si mesmos! Estavam orgulhosos de começar uma vida de acordo com o desejo dos deuses.
Arnaaluk acordou em polvorosa. Desde os primeiros raios da manhã começou a preparar sua mudança. Aproveitava algumas costelas de baleia cobertas de pele como caixa de mudança e, desse modo, dentro de poucas horas tinha empacotado todos os seus pertences.
"Se vocês não fossem morar tão perto, ficaria ofendida com sua alegria diante da partida, minha filha..." – diz Ahnah sorrindo da aura de impaciência estampada em cada atitude de Arnaaluk.
Ambas sorriem e a mais nova para diante da matrona, percebendo o quanto o tempo havia chegado para ela. Já fazia alguns dias que a xamã não saia da casa para nada, alegando falta de força nas pernas e problemas de visão.
"Se não fosse por Siqiniq, mamãe, eu jamais a deixaria! A senhora continua forte por dentro, mas seu corpo me deixa preocupada... Há algo que possa fazer pela senhora?" – levando a última pele para a sala, onde depois colocaria na caixa improvisada.
"Ah... Minha filha... Eu sinto minha mente, meu Espírito, tão vivos como quando conheci seu pai! Mas, realmente, meu corpo já não corresponde a esse vigor e, eu preciso dizer, ele até parece antagônico... Quando mais fraco o corpo fica, mais vigor interno eu sinto, minha pequena! Mas não se preocupe comigo! Hoje o dia é seu e de Logan! Faremos a cerimônia no início da noite, está bem?"
Arnaaluk não poderia chorar. Não sabendo o que sabe, que a vida continua, que nossos antepassados reencarnam no seio das famílias que os amaram e que a vida de sua mãe, como xamã e mulher, havia sido cheia de alegrias e amor. Como ficar triste diante disso? Como não aceitar que estamos todos de passagem e que, se vivermos dentro do que acreditamos, jamais precisaremos sofrer quando nosso corpo perder o viço e nosso Espírito estiver livre! Pensando assim, ela emite para a mãe energias tão positivas que são quase palpáveis. Assim como é nítida a melhora corporal da matrona diante dessa ode à vida.
Os cães auxiliam Arnaaluk a chegar com a mudança. Vendo-a subir a colina, Logan se prepara para ajudá-la com o que fosse necessário.
"Não comi nada ainda..." – com o rosto corado pela friagem da manhã, ar condensado saindo de sua boca – "Quero começar esse dia comendo em nossa casa. Como farei até o fim de meus dias! Sempre com você, Logan!" – e sorria, visivelmente feliz.
O canadense aproveita para pegar num dos lados da caixa de mudança, enquanto a inuíte pegava no outro para colocarem a caixa na varanda da casa (construída depois por Logan, ainda com resquícios da construção que era usada nas minas de pedra), então ele fala:
"Vou pra cozinha, então. Você cuida da mudança?" – sorrindo de lado enquanto ela acena com a cabeça.
Logo um cheiro de pão frito toma conta do ar. Logan havia feito um fermento a partir de umas batatas que tinha conseguido com um barco europeu, em troca de algumas peles. E não era só isso: café, açúcar, farinha e sal. Foi com esses ingredientes que ele preparou a surpresa do café com pão.
"Que cheiros gostosos são esses, Logan?" – inquiri Arnaaluk do lado de fora da casa.
"Hoje vamos tomar um café da manhã como eu costumava tomar no Yukon! Tudo bem pra você, Arnaa?" – responde a voz firme do homem.
"Você sabe que eu adoro novidades, amado. O problema será se eu gostar!" – soltando uma gostosa gargalhada que faz as lobas uivarem e os cães latirem.
Logan ri de dentro da casa e avisa que estava pronto, preparando uma xícara com café, sem açúcar e deixando alguns cubos dele num pires. Apoiou algumas fatias de pão frito no centro da mesa, sobre um pedaço de papel envelhecido e não perdeu nenhuma expressão do rosto de Arnaaluk enquanto ela experimentava o café amargo e o pão. Explicou sobre o açúcar, mas disse que não usava e ela disse ter gostado do sabor amargo mesmo. O pão foi algo que ela não fez muita questão, mas o café foi um divisor de águas. Deu uma energia maior àquela mulher já tão ativa e, com isso, até o fim de seus dias, o café amargo que Logan fazia foi presença diária na casa.
Passaram o dia cuidando de alguns peixes pegos por ela no dia anterior. Esses alimentos seriam dados a todos do vilarejo, como representação de sua união. Precisavam estar perfeitos para trazer felicidade a quem os comesse.
Logan nunca imaginou conseguir se encaixar tão rápido em qualquer lugar, sentir-se pertencer a algo tão grande e lindo como aquele povo. E, acima de tudo, sentir aquela energia tão certa e revigorante quando estava ao lago de Arnaaluk. Ela havia comentado sobre os sonhos com ele e, nesse momento, passou a questionar a existência de Deus e dos Espíritos. Isso o levou a pensamentos mais abstratos que ele gostava de dividir com a futura esposa. Ambos, ao verem as coisas materiais mais comuns, podiam sempre questionar o lado sagrado daquilo, como quem entende estar em concordância com um algo maior, doador da vida e da felicidade. Jamais esperando ser bajulado por aqueles que estão na Terra, mas apenas esperando que essas pessoas vivam o melhor possível, fazendo seu melhor, amando e sendo amados como uma forma de veneração ao Uno.
A tarde chega e ambos descem a colina, levando algumas dezenas de peixes na caixa antes ocupada pelas peles de Arnaaluk e por vários utensílios de osso: pentes, botões, agulhas, esculturas representando sua família, ossículos e algumas peles já iniciadas em alguma confecção. Eles encontram todos na parte central do vilarejo, até mesmo os mais anciãos ali estavam, amparados por seus bisnetos, sentados em banquinhos de madeira, ao redor de cinco fogueiras posicionadas em zigue-zague.
Arnaaluk explica a Logan que ele terá de fumar um cachimbo com ervas mágicas, capazes de aumentar sua visão do invisível e, com isso, prepará-lo para um entendimento maior daquela união. Ela também fumaria e, em seguida, se sentariam de costas um para o outro, numa pequena plataforma de madeira que existia entre as fogueiras e ali ficariam até voltar do transe. As pessoas do vilarejo comeriam os peixes, conversariam sobre as impressões que tinham do novo casal enquanto isso.
"Mas de que adianta não ouvirmos o que falarão de nós?" – o homem questionou.
"É a primeira lição da união: O que os outros falam não importa mais do que um diz ao outro, Logan!" – a inuíte responde, acariciando o rosto do prometido.
Diante de uma resposta dessas, ele só consegue pensar em esperar com paciência pelas outras lições, confiando ser digno delas, mesmo que não tivesse nascido entre aquele povo.
Tudo acontece como ela havia explicado, depois de desejar muita felicidade para ambos, aceitando os peixes oferecidos em nome do vilarejo e fazendo com que os mais novos de cada família pegassem um para cada morador, Ahnah mistura algumas ervas num curioso cachimbo de madeira escura retorcida, com bocal de osso e, indo até a fogueira central, ela o acende, baforando até que as ervas ficassem vermelho-vivo. A xamã o estende ao canadense que aceita reverentemente, dando várias tragadas e passando-o para a esposa que faz o mesmo. Ambos se sentam de costas um para o outro, apoiando as mãos lateralmente, de modo que a mão direita de Arnaaluk ficasse sobre a esquerda de Logan e a direita dele sobre a esquerda dela, com os dedos entrelaçados.
O efeito da droga aparece logo. Logan a vivencia voltando a uma alcateia de lobos, mas não os lobos pretos costumeiros, mas sim, grandes e cinzas, de olhos verdes profundos. Ele está paralisado e, apesar disso, pensa em manter-se submisso quando um redemoinho de neve passa pelos lobos e os une todos sob a mesma forma: de uma espécie de Wendigo que ataca Logan com uma rapidez incrível! Ele sangra na neve e, apesar disso, continua pensando o quanto quer que as coisas deem certo. Ele precisa disso! Precisa provar para si que não é um animal! Que se viveu entre eles, mesmo assim os sobrepujou. Ele é algo mais, algo que ainda não compreende, mas com a ajuda de Arnaaluk será capaz de entender. Ele sente seus antebraços queimarem e uma voz ansiosa dentro de si que pedia para sair, pedia para ejetar as garras! Contudo, ele foi mais forte, ele decidia que ninguém mais morreria por dar vazão àquela voz! Rose havia sido a primeira e a última! E, quando pensou na ruiva, o seu sangue começou a se misturar com a neve, no mesmo redemoinho de onde surgiu Wendigo e, daquele redemoinho avermelhado, surgiu Rose, mais velha, ainda tranquila, ainda com seu olhar compreensivo, do mesmo tom de verde do lobo gigante. Ela ficou entre Logan e o Wendigo, falando algo impossível de compreender, gesticulando algo impossível de ver ela domou aquela fera e o fez voltar a ser um lobo cinzento, os olhos de ambos eram iguais! E, então, o lobo saltou para acabar de vez com o canadense e, ao fazer isso, sumiu dentro do coração de Rose que o absorveu, protegendo-o. Nesse instante, ela se vira para ele e diz, dentro de sua mente, sem mover os lábios:
"Sei que não precisa de proteção, mas quero que saiba que pode contar com ela, James... Você vai ser muito feliz, mais feliz do que em toda sua vida depois desse momento, por isso, aproveite-o e, depois dele, só vejo escuridão! Não se feche a ponto de ignorar o quanto você é melhor em meio às pessoas. A solidão somente trará o pior de você, meu amigo..."
E tudo some, ele só sente que está voltando ao cerimonial, voltando a sentir o cheiro do peixe preparado por Arnaaluk, o cheiro das pessoas de seu núcleo familiar, o cheiro da própria alma-gêmea que ainda permanecia em transe... Essa foi a primeira vez que Logan percebe se recuperar rápido de substâncias estranhas. Ahnah disse que ninguém nunca ficou tão pouco no mundo dos espíritos e que ele deveria esperar Arnaaluk retornar, o que demorou quase uma hora. O efeito do transe também foi pesado para a inuíte. Ela retornou chorando baixinho, dizendo que não teriam filhos... Era como se ela tivesse visto toda a vida que teriam juntos naquela hora. Era para ser assim, tinha acontecido com todos antes deles, mas para Logan, pela rapidez de seu retorno, ele teve, ao mesmo tempo, certeza de que seria espetacular e certeza de que depois disso, ainda haveria muita dor...
E era isso, agora podiam ser marido e mulher, passar o resto dos seus dias juntos. Vivendo um dia de cada vez, claro! Mas com uma visão mais ampla do que construiriam juntos.
Quando Arnaaluk se levantou, tremendo, chorosa, com olhar inquiridor sobre o que ele tinha vivenciado apenas recebeu uma imensidão azul de compreensão seguido de um abraço e um chamego no cabelo. O tremor foi passando, a respiração compassando e ele então solta:
"Vem, gata... Vamos pra casa... Lá a gente toma uma sopa quente de legumes" – ela o olha estranho – "É! Teu maridão gosta de cozinhar esquisitices!" – e ri – "E falamos sobre o que aconteceu aqui, 'tá bom?"
Despedem-se de todos os que ainda estavam ali, olham a Lua gigante e vão a pé para a colina. No meio do caminho, Logan recebe a permissão de pegar a inuíte no colo e, com isso, adentram a casa onde iniciariam uma vida nova. Onde seriam, em alguns meses do ano, nômades em conjunto com as pessoas do vilarejo. Onde viveriam histórias de caça e de encontros com o desconhecido. Onde, Logan sabia, convidaria a esposa para sair um pouco daquele mundo de neve e gelo para conhecer um pouquinho do seu antigo mundo. Não para que ela resolvesse fazer parte dele, mas com intuito de ratificar a escolha do canadense... Tantas aventuras onde seriam protagonistas. A primeira de todas, a aventura de viver! Viver como marido e mulher, essa sim, diante deles, naquele instante onde ambos cruzam a ombreira da porta.
A tristeza de Arnaaluk pela visão de esterilidade era tão grande! Nem mesmo estava animada com a possibilidade de, finalmente, entregar-se ao marido e, respeitando isso, Logan apoiou os pés dela no chão e a deixou em pé, dando um "beijo de pinguim" nela, enquanto falava:
"Minha visão não foi só de rosas, Arnaa... Mas eu escolho qual das coisas vistas vai afetar meu humor. Eu foco naquilo que eu quero e, nesse momento, eu quero a felicidade de estar com você. Mesmo que seja só pra comer uma sopa de legumes, sabe? O transe que passamos foi tão real que as vozes ainda ecoam na minha mente. Eu podia me deixar levar por elas..." – olhando profundamente em seus olhos – "Mas eu 'tô contigo agora e é isso que importa!"
Por alguns minutos, ela fica congelada por essas palavras, matutando, enquanto o esposo caminha para a cozinha: "Como lidar com essa eternidade? Como estar presente conhecendo o futuro? Como não se deixar macular por ele?". Ela queria ter filhos!... – nesse segundo, ela é inundada por todas as outras imagens de felicidade daquele mesmo futuro, imagens tão poderosas quanto aquela que a prendia, que haviam sido suprimidas tão somente pelo foco que Arnaaluk havia dado!
Batendo na palma da mão, ainda vestindo as luvas, ela então entende o que Logan quis dizer e anota essa como a segunda lição: "Usar o presente como a dádiva que ele é."
Voltando sua atenção aos barulhos vindos da cozinha ela ouve uma antiga canção cantada em inglês pelo canadense. Uma canção das minas de pedra. Uma canção sobre embriaguez e amizade, saudade e mulheres. Os pratos estavam com a sopa. O fogão mantinha a cozinha quentinha e, por isso, ele vestia calça e camisa. Ele a deixou olhar vagarosamente seus músculos, seu físico e, com movimentos calculados aprontava a refeição, fazendo-a sorrir e remover o grosso casaco de peles para sentar-se na cadeira e aproveitar aquele momento. O momento antes das coisas nunca mais serem as mesmas entre eles.
Logan estava contendo seus desejos, esperando que a esposa demonstrasse alguma iniciativa nesse sentido para, então, deixar claro o quanto também a desejava e o quanto estava se reprimindo.
Trocando olhares e sorrisos, ambos comeram algumas colheradas da sopa, enquanto acariciavam suas mãos com a mão livre.
"Eu precisava saborear sua sopa, seria rude se não o fizesse, mas agora que já comi, só posso dizer que ela não aplacou minha verdadeira fome, Logan..." – enquanto seus dedos entrelaçavam com o do esposo.
Parando de comer e levantando-se, ele chacoteia: "Eu não tenho sentimentos pra você ferir, Arnaaluk! Sou um bruto! Você ainda não notou?" – ela ri da frase, enquanto ele corre até ela, prensando-a na parede e enchendo-a de beijos enquanto tirava o casaco mais leve que ela vestia e, em seguida, sua própria camisa. Beija-a no pescoço, ela sente cócegas e ri baixinho, colocando as mãos em seu peito. Ambos sentem novamente aquelas fagulhas elétricas e, para o canadense, havia o extra de seus sentidos aguçados, fazendo-o ouvir o acelerar do coração da companheira, sua alteração respiratória e todos os hormônios que ela exalava! Eles passam o restante da noite se amando e Logan pensa: "Que se dane a escuridão, a solidão, que se dane todo o resto! Enquanto eu puder estar com essa mulher!"
Os anos foram passando e, nitidamente, a inuíte ia seguindo o curso esperado da vida. Perdendo o viço, a capacidade de ir às caçadas, a força muscular, a capacidade de enxergar. Coisa que não acontecia com Logan! Seu corpo havia encontrado aquele ponto de homeostase, onde nascimento e morte celular eram empatados!
Foi então que a lição mais difícil sobre sua mutação se fez presente: ele não envelheceria! Não perderia o viço e nem as forças! Nenhum cabelo branco em sua cabeça ou barba; nenhuma deficiência em sua visão; nenhum problema com sua libido!
Em seus últimos dias, Arnaaluk relembrou aquele dia fatídico onde soube que não teriam filhos e, nesse momento, soube o quanto aquilo havia sido insignificante diante da vida que tiveram. Diante de todas as melhorias que conseguiram levar ao seu povo! Ela só sentia o fato dele ser tão fiel, tão comprometido, tão presente...
"Eu sinto muito não conseguir mais dar todas as coisas que você precisa, meu amor..." – sua voz quase falhando, sua respiração como um fio. Logan sentia a decadência física, mas era capaz de presenciar uma fortaleza moral através dos olhos da esposa.
"Eu que te devo desculpas, Arnaa... Eu juro que não sabia que minha maldição também era não envelhecer, além dessas malditas gar* – ela o interrompe, unindo forças para colocar os dedos na boca dele, ainda sentindo, os dois, aquelas fagulhas elétricas, como da primeira vez.
Agregando forças das forças dele, ela consegue explanar: "Elas não são malditas, nada seu é maldito! É um dom maravilhoso para os que têm a felicidade de estar ao seu lado, meu amor... Acho que minha mãe estava certa, as coisas são o que são, têm suas energias próprias, nós é que damos qualidades binárias pra elas. A mesma situação que você vê como maldição e que, realmente, pode te fazer sofrer se você a encarar assim é, para os outros, algo desejado. O que eu não daria para explorar contigo os seus próximos anos?!" – e uma tosse curta a interrompe momentaneamente, quando Logan aproveita para beijar suas mãos envelhecidas – "Foco, meu caro... Foi o que me diss que deixo para você... Foque no presente que é cada dia e na vida! Viva intensamente! Ame intensamente! Se puder, tenha muitos filhos*".
Agora era a vez de Logan a interromper, com um beijo ardente nos lábios, para dizer depois:
"Aceito seu conselho sobre o foco... Quanto ao resto, não vou prometer... Acho que quem vive tanto quanto eu, precisa também sentir a perda, ter seu luto, num tempo diferente do resto, não? Eu não ia querer que você arranjasse outro logo em seguida da minha morte!" – ambos riem – "E como agora meu foco é você, chega mais pra lá que eu quero deitar contigo, como temos feito nesses últimos 45 anos, gata."
Ajudando-a a dar espaço, eles se aninham como quando eram mais jovens. Ela passando suavemente sua mão no peito dele, ele chamegando o cabelo dela. Ficam assim por várias horas até que a mão não mais se move no peito. O chamego acaba sentindo a temperatura corporal baixar cada vez mais. Ele escuta os últimos batidos do coração daquela que o salvou da vida entre os animais. Sente o último suspiro da mulher que deu a ele tudo que tinha!
Ela havia quebrado as tradições por ele, havia ficado e falecido em sua casa. Desde há muito eram considerados párias pelo vilarejo, desde que a família de Arnaaluk foi deixando de existir, um a um. Desde que as histórias sobre as garras do forasteiro e sobre ele não envelhecer haviam ganho as orelhas de todos.
Levando-a para a lateral da casa, ele a enterra calmamente. Não havia ninguém para chorar por ela, mas como chorar por alguém decidido e que teve uma vida cheia de alegrias e amor?
"Seu Espírito 'tá livre, guria! Eu só posso te agradecer de todo meu coração e alma! Tu sempre vai ser minha Katsitsanóron³. Eu te amo!"
E, não tendo nada mais que o prendesse naquele lugar, Logan abandona a região e retorna à cidade, sentindo uma incrível solidão, ele ignora o conselho de Rose enquanto se deita na cama de uma estalagem conhecida como "Profecia".
LEGENDAS:
¹Dialeto falado pelos nativos que habitavam próximos ao delta do Rio Mackenzie.
²Arranhar.
³Flor preciosa.
