Capítulo 3: Loucura ou bruxaria?

- Estou esperando o relatório que tinha me prometido, Sr. Padalecki. E era para ontem... - reclamou Mark Pellegrino de mau humor.

Jared sentiu um frio na barriga. O relatório! Como ele tinha esquecido de algo tão importante!? Jared nem mesmo tinha começado a trabalhar nele. O rapaz estava tão cansado. Desesperou-se.

- Desculpa, Sr. Pellegrino. Eu já estou terminando... - mentiu – isso não vai acontecer de novo!

Olhando a tela do computador, os olhos do jovem advogado doíam e pesavam. Ele tentava teclar alguma coisa, mas a sua concentração era nula. Ele simplesmente não conseguia produzir nada! Pensava também em Genevieve. Brigara com sua noiva, sem motivo algum... Já tinha se desculpado, mas a moça estava chateada ainda, e com razão... É claro que ele a amava. Mas aquele Jensen maldito, a versão cruel do rapaz da padaria que aterrorizava seus sonhos, estava deixando-o sem paciência e de mau humor. Acabava brigando com ela a toa.

Ao final do expediente, mais uma bronca de Pellegrino.

- Você não está produzindo nada, Padalecki! O que está acontecendo? Parece um zumbi! Você não está envolvido com drogas, está? - perguntou o patrão, sem o menor tato.

- Na... Não! Sr. Pellegrino. Me desculpa! É claro que não! Eu só... Tenho dormido mal.

- Pois trate de dormir bem! - respondeu o homem duramente. - Existem remédios para isso! Se continuar do jeito que está, posso dizer que não terá futuro nessa firma.

Mark Pellegrino saiu com cara de poucos amigos. Jared gelou. Aquilo era uma ameaça? Agora até o seu emprego estava em jogo? O homem estava tão esgotado, tão desesperançoso e infeliz que mal conseguiu segurar as lágrimas. Saiu do escritório depressa para que ninguém o visse, e, seguro, dentro do carro, chorou tentando livrar-se de todo o peso que sentia. Como um problema aparentemente tão idiota podia estar arruinando sua vida daquela maneira? Para os outros, parecia loucura. É claro que ele poderia tomar remédios para dormir. O problema é que ele não queria! Só de pensar em ver Jensen de novo, todo poderoso, cruel, tarado, e fazendo ele passar as maiores vergonhas e humilhações do mundo, ele estremecia.


Enquanto isso, na padaria, as coisas iam bem. Ou quase... D. J. Qualls, o rapaz que havia sido contratado recentemente para fazer entregas, estava doente.

- Alguém vai ter que ir no lugar dele! - vociferou Mark Sheppard – Vai você, Misha!

- Não, Sr. Sheppard. Sinto muito. Mas está calor, eu não gosto de andar de bicicleta, e fui contratado para ser atendente de balcão! - retrucou o rapaz, com firmeza.

O patrão resmungou alguma coisa sobre Collins ser insolente e resmungão, mas não insistiu.

- Vai você, Jensen!

- Eu!? Mas... Sr. Sheppard... É que... Eu também não...

- Nem me venha com desculpas! Você vai e está acabado! Aqui está a lista dos endereços. Misha vai te ajudar a separar os produtos.

Jensen baixou a cabeça e suspirou. Ele também não tinha sido contratado como entregador. Não tinha nem mesmo sido contratado como atendente. Ele era padeiro! Se pudesse, deixaria aquele lugar... Mas, infelizmente, precisava do emprego para comer e pagar o aluguel. Não podia contar com ninguém para ajudá-lo. Seus pais moravam em outro estado, eram pobres, e ele nem mesmo se dava bem com eles... O louro estava por conta própria desde que atingira a maioridade.

Quando Sheppard saiu de perto, Misha aconselhou:

- Não deixe que o patrão fale assim com você, Jensen! Precisa se impor mais. Você viu como eu me recusei a ir? Você devia ter batido o pé!

- Não, Misha... Não tem problema. Eu não me importo... - respondeu ele, tristemente.

Ackles então pegou as encomendas e amarrou na garupa da bicicleta. Teria que pedalar bastante para entregar aquilo tudo...


- Buááááá! Minha vida está arruinada! Eu estou prestes a perder meu emprego! Não sei o que fazer... Do jeito que as coisas andam... Nem a Genevieve me aguenta mais.

- Por causa de um sonho?

- Não é um sonho qualquer, Dra. Smith! Você sabe disso...

- Então prefere não dormir e deixar que o cansaço prejudique a sua vida?

- Não sei, Dra. - disse Jared, entre soluços. Ele realmente se sentia sem saída. - Nos sonho, ele me persegue! Eu não sei que estou sonhando, então vivo momentos de puro terror. Ele arranca as minhas roupas. Me deixa nu na frente de todo mundo... Me beija e passa a mão nas minha partes íntimas na frente da minha noiva! Isso quando não assopra ela para bem longe de mim... E eu tenho medo de... Tenho medo até que ele me estupre - concluiu um tanto constrangido.

- E por que você acha que ele faz isso tudo, Padalecki? E ainda assopra sua noiva para longe?

O rapaz não aguentava mais tentar responder àquelas perguntas. Não sabia porque sonhava com o garoto da padaria... Talvez Dra Smith achasse que bem lá no fundo ele tinha um tesão gigantesco pelo louro, e era tão cabeça dura que preferia arruinar tudo o que tinha na vida só para não admitir isso para si mesmo. Vai ver achava que no fundo ele queria se livrar de Genevieve. Pois a analista estava redondamente enganada!

- Eu não sei! - respondeu nervoso, aumentando o tom de voz. - Eu gosto da minha noiva! Esses sonhos... Isso não vem de mim. - concluiu.

- Mas... Se não vem de você, Padalecki? Vem de onde?

- Já disse que não sei! - vociferou ele. - Vai ver esse rapaz da padaria é um bruxo. Um bruxo gay e sem escrúpulos! - disse, com raiva. Sim, só podia ser isso... Ele fazia tudo aquilo de propósito. - Vai ver me achou bonito, e acha que fazendo isso vai arruinar meu noivado e quem sabe assim, dou alguma chance pra ele.- Padalecki bufou. Aquela era a única explicação plausível.

- Hmmmm. - Dra Smith escreveu alguma coisa em seu caderninho, deixando Padalecki ainda mais raivoso. - Mas... Você acredita em bruxos?

O moreno não pensou duas vezes. Não daria vitória àquela analista metida a sabe-tudo. Ela não estava ajudando em nada. Aliás, só atrapalhava...

- Acredito – respondeu curto e grossamente.


Saindo da sessão de análise, Padalecki sentia raiva. Raiva não, ódio! Odiava o tal bruxo que trabalhava na padaria com todas as suas forças. Mas estaria ele ficando maluco? Imagina, achar que aquele pobre coitado era maligno e tinha poderes mágicos... Padalecki sentiu-se um tanto culpado. Acabara de afirmar para sua analista que acreditava em coisas sem sentido, tudo para tentar se justificar. Que grande merda!

Morto de cansaço, quase começou a chorar de novo ao se lembrar que havia combinado de jantar com Genevieve, e ainda tinha que, morrendo de sono, tentar escrever o tal relatório. Estava sem vontade de fazer nada e sem energias.


- Nossa, amor, você parece péssimo. Está doente?

- Estou cansado, é só isso. O Pellegrino anda arrancando o meu couro! Ainda tenho um relatório para fazer essa noite. - queixou-se o homem.

Genevieve queria sair. Estava toda arrumada... Mas ficou com pena do noivo.

- Olha, se você quiser ficar em casa... Eu posso fazer panquecas. Que tal?

Jared ficou feliz e aliviado com a proposta. Amava aquela mulher. Como poderia não amá-la? Concordou no ato, e, enquanto ela foi para a cozinha o moreno pegou seu notebook para adiantar o trabalho.


- Jared, acabou o ovo?

Sim, tinha acabado... Genevieve sugeriu que fossem até a padaria comprar mais. A padaria era perto... Uns cinco minutinhos de carro. Padalecki engoliu em seco. Não queria ir até lá... Mas achou por bem tomar coragem e não fazer papel de louco de novo. Precisava ser capaz de se controlar. Talvez ele pudesse ficar no carro enquanto a mulher dava um pulinho para fazer a compra. Pronto. Faria isso.

- Genevieve não se opôs, e Padalecki ficou no carro esperando. Imaginou o louro servindo a moça, entregando uma dúzia de ovos. Engraçado pensar naqueles dois em uma situação normal, onde o rapaz não jogava a coitada para longe...

Jared estava até tranquilo, envolto em seus pensamentos, quando avistou quem ele mais temia. Ele estava chegando de bicicleta, e não o viu, parando bem ao seu lado.

- Fez todas as entregas direitinho? - peguntou um homem de cabelos escuros e barba bem feita, que veio logo se aproximando. Devia ser o seu chefe.

- Sim, tudo certo, Sr. Sheppard.

- Ótimo. D. J. está com pneumonia, vai ficar uns dias sem poder trabalhar. Você vai continuar com as entregas...

- Mas Sr. Sheppard, eu... - o rapaz parecia descontente.

- Nada de mas! - bronqueou o patrão. - Tem sorte do emprego que tem! Vai fazer o que tiver de ser feito!

Nessa hora o louro olhou em direção ao carro de Jared e o viu. Corou, sem jeito. Aquele homem maravilhoso vendo ele ali, de entregador, e ainda levando bronca do patrão... Abraçar e beijar criatura tão divina só mesmo em seus sonhos. Ainda bem que os tinha... E sorte sua ser agraciado com visão de tamanha beleza, de tempos em tempos, também na vida real. Suspirou. Com certeza o moreno devia ter mesmo uma namorada, e bem bonita... Talvez até mais bonita que a moça que ele chamava de noiva nos sonhos.


JENSEN!? O nome dele era JENSEN? Sim, o barbudo havia chamado o louro de Jensen! Jared jamais havia escutado aquele nome antes, apenas em sonho. Como haveria de ter descoberto o nome real do rapaz? Aquilo só podia significar uma coisa. Ele não estava louco, e de fato não tinha culpa de nada. Bruxaria existia sim! Sua teoria fazia sentido. Aquele era um maligno bruxo gay que estava acabando com a sua vida.

Padalecki teria saído do carro para surrar o outro homem, mas estava perdido demais. Como confrontar uma pessoa daquelas? Nem reparou que Genevieve estava de volta com os ovos.

- Vamos, amor?

O homem mal conseguiu engolir uma panqueca. Mal conseguiu escrever um parágrafo de seu relatório. Estava tomado por um sentimento de loucura e ódio.

- Amor, você está me assustando... O que há com você?

- Eu... Eu vou dar uma volta por aí... A pé...

- Mas Jared...

- E sozinho! Vai para casa, Genevieve. Eu preciso de um tempo, ok? Me deixa!

Genevieve mais uma vez foi embora irritada. Aquele comportamento já estava indo longe demais. Se Padalecki achava que ela correria para ele assim que estalasse os dedos, estava muito enganado. Se quisesse seu perdão, teria que pedir de joelhos.

Jared vagou por umas boas horas. Esqueceu-se por completo do relatório. Esqueceu-se de Genevieve também. As insuficientes horas de sono deixavam seus pensamentos confusos. Ele queria vingança, e iria se vingar!


- Não! Não quero você! Vai para longe de mim! Seu bruxo maligno. Eu sei tudo sobre você!

- Nossa, não precisa gritar... Como você anda escandaloso. Cada dia pior... - queixou-se o louro. A verdade é que o desespero do moreno era inconveniente, e estava deixando seus sonhos menos divertidos.

- Eu vou... Eu vou... - Jared pensou em socá-lo, mas como fazer isso quando o outro era mil vezes mais forte?

- Eu é que vou... Eu vou te beijar – e colou seus lábios nos do moreno de um jeito, que o outro não conseguia desgrudar. Padalecki viu em desespero sua avó passar por ali. Sua avó que até já era falecida... Mas disso o rapaz não se lembrou. Só sabia que a matriarca de sua família, mulher tão respeitosa, estava ali, horrorizada, vendo ele beijar outro homem.

Padalecki tentou empurrar o louro e se soltar do beijo, mas não conseguiu. A avó xingou e resmungou. Disse que ele não tinha mais sua bênção e que iria para o inferno. Quando Jensen finalmente soltou o coitado, e ele estava prestes a tentar se explicar para a velha, o louro arriou suas calças e apertou as nádegas do moreno com força.

- Que pouca vergonha! Fazer isso na minha frente! - a velha pegou a bolsa e tacou na cabeça do neto. Doeu. Doeu muito.


O que!? Não! Padalecki acordou, se remexendo na cama. Estava suado, dos pés a cabeça. Aquelas pesadelos estavam ficando cada vez piores... E o pior de tudo: não havia acordado com o despertador, ou seja, estava mais que atrasado. Enfiou um pão velho na boca, um terno amassado, de qualquer jeito, por cima do corpo molhado de suor, e partiu.


Mark Pellegrino olhou o funcionário de cima a baixo. Que estado lamentável. Vai ver ele tinha problema com álcool, e passara a noite em um bar qualquer. Ele não queria saber. Precisava do relatório...

- Meu relatório, Padalecki...

O moreno gelou. Como explicar? Ele estava sem saída. Talvez o único jeito fosse dizer a verdade. O patrão haveria de compreender.

- Sr. Pellegrino. É que... Eu não consegui fazer porque... Tem um bruxo que me atormenta nos sonhos. E eu não posso mais dormir... Ele trabalha em uma padaria lá perto da minha casa. Aí ontem eu vi o bruxo. Ele entrega pão e... Quando eu ouvi o nome dele – que é o mesmo nome no sonho – eu descobri tudo. Aí eu fiquei meio perturbado. Acabei deixando a Genevieve zangada de novo. Então eu...

Mark olhava para o rapaz arregalado. A situação estava pior do que ele pensava. Uma história sem pé nem cabeça, com elementos de delírio. Drogas ou esquizofrenia, aquele homem precisava de tratamento.

- Jared... Olha... Por que não tira umas férias?

- Sr. Pellegrino, eu ainda não tenho um ano de empresa, e...

- Não tem problema. Eu vou conversar pessoalmente com o pessoal do R.H. A gente dá um jeito nisso.

- Mas... Eu não quero férias! Por que nas férias eu durmo mais... E aí, o bruxo...

- Padalecki, você vai tirar férias! E vai procurar ajuda médica: uma clínica de reabilitação, ou psiquiatria, sei lá... Por que vir trabalhar desse jeito, não dá. Imagina se um cliente te vê nesse estado? É a reputação da empresa que está em jogo.

- A culpa não é minha, Sr. Pellegrino. É do bruxo...


Pronto. Jared estava oficialmente de férias. Voltou para casa após assinar alguns papéis no R.H. Um mês... E se não resolvesse seus problemas até o momento de voltar, sabia que estaria no olho da rua. Genevieve não dava mais notícias desde a noite anterior, e, do jeito que o homem estava nervoso, acreditava que fosse melhor assim. Ele precisava resolver sua vida, e agora acreditava não mais poder contar com ajuda da Dra Smith. Aquela mulher era uma farsa...

Só tinha uma coisa que podia tentar. Uma única coisa a fazer.

- Alô! Aí é da padaria Point do Pão? Eu gostaria de fazer uma encomenda...