Capítulo 4 - A revanche

A padaria já estava prestes a fechar quando Mark Sheppard mandou Jensen fazer a última entrega do dia. Era sexta-feira, e o louro ficou desanimado porque já se preparava para ir pra casa usufruir de seus dias de descanso. O nome do cliente, porém, que vinha escrito na notinha, colocou um sorriso em seu rosto. Jared Padalecki. Jared era o nome do seu muso! Quer dizer, Jensen não fazia ideia do nome verdadeiro que ele tinha, mas era esse o seu nome nos sonhos. O louro achou ainda mais graça quando viu que o cliente havia encomendado sonhos. Meia dúzia deles... Vai ver era um recado do destino de que ele teria uma noite repleta de sonhos incríveis com o seu amado! Tranquilo e de melhor humor, o louro seguiu seu rumo, sem ideia do que estava por vir.

Jensen chegou ao seu destino. Deixou a bicicleta no bicicletário e interfonou. O prédio era enorme, e a encomenda vinha do 1002. Décimo andar.

- Boa Noite. Aqui é da entrega do Point do Pão, para o Sr. Padalecki.

- Pode subir - respondeu Jared, ansioso.

Jensen subiu tranquilo, mas quase perdeu a fala quando a porta diante dele se abriu.

Era ele. Jared! Jared Padalecki era o SEU Jared... Ackles ficou sem fala por um segundo, sentindo o um frio gigantesto invadir sua barriga.

- B.. boa n... noite – gaguejou sem fôlego.

- Boa noite – respondeu o moreno, também sentindo-se nervoso. Ele tinha planejado tantas coisas! Precisava confrontar aquele homem de qualquer maneira! Mas, vendo o rapaz da padaria, de uniforme, tímido e com a cara mais inocente do mundo, não sabia por onde começar. De qualquer jeito, Jensen não lhe deu muita chance.

- Aqui está a sua encomenda! São $15,60, por favor. – Disse o louro, atropelando as palavras, e estendendo o pacote em direção ao outro, com toda a urgência do mundo. Não sabia como sonhara com o nome verdadeiro daquele homem, mas naquele momento, isso pouco importava. Tudo o que ele queria era ir embora dali, e o mais depressa possível. Jared estava descabelado, suado e extremamente sexy. Ackles sentia seu coração a mil por hora e suas pernas tremiam.

Padalecki, abriu a carteira lentamente, e, também trêmulo, retirou uma nota de $10, e depois uma de $5. Estendeu ao entregador, e começou a procurar por moedinhas para completar a conta. Como ele iriar trazer o assunto à tona? Não sabia... Ao mesmo tempo não se perdoaria se deixasse aquela oportunidade escapar. Afinal, as aparências enganam... Aquele era o bruxo que arruinara a sua vida! O moreno voltou a sentir raiva. Subiu o olhar e se surpreendeu ao ver que Jensen já saía porta a fora.

- Obrigado! Boa noite! Tchau! - despediu-se o louro, afobadamente, se enfiando de volta no elevador.

- Não! Nada disso! - revoltou-se Padalecki, seguindo o outro. Antes que a porta se fechasse por completo, entrou no elevador também. - Ainda está faltando umas moedas! - disse, entregando 60 centavos para Jensen.

O advogado lembrou de quando o filho do vizinho causou uma pane no elevador, brincando de apertar os botões. Ele faria o que fosse necessário para ter mais tempo com aquele homem, antes que ele escapasse... Ackles, que já estava assustado, entrou em pânico quando Jared começou a apertar todos os botões do painel ao mesmo tempo.

- O... que... o que... você está fazendo?! - perguntou aflito.

Padalecki não respondeu. O elevador parou entre o quinto e o sexto andar e Jensen engoliu em seco.

- O que você fez comigo? - Jared perguntou então com a voz zangada e séria.

- Euuuuuu? Como assim? Eu não fiz nada! - gaguejou Jensen.

- Você é um bruxo, não é? Fala a verdade!

Jensen estava confuso e apavorado. Tentou apertar o botão de emergência, com as mãos trêmulas, mas Jared as interceptou.

- Você vai parar com isso agora, entendeu?! - completou o moreno. Jared se referia aos sonhos. Jensen entendeu que o outro não queria que ele chamasse por socorro.

- Mas... Eu preciso ir pra casa... - choramingou o louro. - Não fazia ideia do que estava acontecendo. Estava tão nervoso que o ar começava a faltar em seus pulmões.

- Você arruinou a minha vida! - Padalecki agora sentia tanto ódio que sua boca chegava a espumar. Pensou em Genevieve, seu emprego que estava pelas pontas e as horas de pavor que passara em seus sonhos. - Não quero nunca mais sonhar com você, entendeu?

Jensen apenas balançou a cabeça afirmativamente. Não conseguia raciocinar e não tinha o que dizer. Então Jared também sonhava com ele? Deu graças a Deus quando ouviu barulho dos vizinhos que pelo jeito haviam percebido que o elevador estava parado. Pensou em gritar por socorro, mas nem isso conseguiu fazer.

- Vai ficar aí, calado? Eu quero saber! Eu preciso saber! Por que você inferniza os meus sonhos? - Bufou Jared.

- E... Eu... Eu... Não sei...

Padalecki enfureceu-se. Não era possível que o infeliz fosse fazer-se de inocente agora. Em um impulso segurou os braços do louro com força e sacudiu, fitando seus olhos. As pernas de Ackles bambearam.

- Então vai me dizer que não é você que tira minhas calças em público, me beija a força, assopra a minha noiva pra longe?

Jensen sentiu sua cabeça girar. Aquela informação era demais para ele. Então os sonhos que ele tinha... As situações que ele criava... Jared... Ele também vivenciava tudo aquilo? Engoliu em seco, e continuou sem dizer nada.

- Responde! - vociferou Padalecki, sacudindo-o mais uma vez.

- Eu... - os olhos de Jensen encheram-se de lágrimas. Eram lágrimas de desespero. - Me desculpa. Eu... Pensava que os sonhos eram só meus... - disse por fim.

- Pois saiba que também são meus! - Padalecki respondeu enfático. Bufou. Talvez o rapaz estivesse dizendo a verdade. Parecia genuinamente surpreso. Mas... Aquilo agora pouco importava. Não poderia apenas aceitar um pedido de desculpas e deixar que o culpado por sua vida estar em ruínas escapasse impunemente. Além do mais, era revoltante que Jensen quisesse torturá-lo em seus sonhos, mesmo que fossem privados. Afinal, eles nem se conheciam!

Nessa hora o elevador se destravou, mas em vez de continuar descendo, subiu. Logo estavam os dois, novamente, no décimo andar.

- Venha, precisamos conversar - Disse Padalecki, puxando Ackles pelo braço até que estivessem no interior de seu apartamento novamente.

Jensen queria fugir dali, mas tentou se acalmar. Teria que confessar a Jared que ele era o seu crush, e tudo mais... Admitir que achava ele gostoso... Que tinha tara nele, essas coisas. Que queria sim vê-lo nu, e passar as mãos por todo o seu corpo. Nada demais... Por um momento Ackles achou que fosse perder os sentidos de tanta vergonha.

- E então... Me diz... Por que você faz essas coisas comigo no sonho?

- Eu... Eu não sabia que você também sonhava com isso... Eu juro... Por que... Achei que o sonho fosse só meu e... Eu faço coisas malucas mesmo... É sonho, né? - Jensen tentou soltar um sorrisinho amarelo, mas nem isso conseguiu fazer.

- Tudo bem. Já entendi essa parte. - Jared respondeu irritado. - Mas eu quero saber por que me beija, arranca as minhas calças... Assopra a minha noiva...

- É... Que... Você é bonito... - respondeu Jensen apologeticamente, em um fio de voz, sentindo seu rosto enrubescer.

Ok. Jared já tinha entendido. Aquele bruxo maldito havia arruinado a sua vida simplesmente porque o achava bonito. Exatamente como ele desconfiara... Que ótimo!
- Seu... Filho da puta! - xingou Padalecki. Em um impulso de raiva, acertou o queixo de Jensen com um soco bem dado. Ackles se desequilibrou para trás mas não chegou a cair. Estava surpreso e assustado, e não revidou a agressão. Ele só tinha uma coisa em mente naquele momento. Sair porta a fora e pedalar para bem longe dali.

- Hey, onde você pensa que vai? - Se o louro achava que um mero soco no queijo pagara por tudo o que fizera a ele estava muito enganado. Antes que Jensen conseguisse fugir do apartamento, Padalecki pegou um par de algemas que tinha estrategicamente deixado por perto, e prendeu o homem com os braços para trás. Sorte sua a tara que Genevieve tinha por policiais, pois aquele apetrecho lhe seria muito útil.

- O que? Por que está fazendo isso!? Por favor, me solta. Me deixa ir! - implorou Jensen.

Infeliz! Paracia tão inofensivo agora... Mas Padalecki não podia se deixar enganar. Bruxo desgraçado! Padeiro do mal! Precisava se vingar dele de alguma forma. Infelizmente não poderia arrancar as calças do outro no meio da padaria, em frente ao seu patrão e ao resto do mundo, ou seria até preso. Não poderia beijá-lo a força... Aliás, poderia... Mas isso só serviria para fazer aquela bichona feliz. O que fazer então?

- Olha... Desculpa... Eu sei que está com raiva, mas... Era tudo apenas sonho... Passou... E não vai acontecer de novo... - ponderou Jensen. Seu queixo latejava e ter os braços presos o deixavam realmente assustado. Aquele homem podia ser lindo, mas era completamente maluco.

Apenas sonho? APENAS sonho? Os olhos de Jared se encheram de lágrimas. Sonhos que arruinaram sua vida, abalaram seu noivado, puseram seu emprego em risco, e destruíram sua sanidade mental!

- Pois saiba que esses sonhos acabaram com a minha vida! - vociferou Padalecki. - Mas talvez não seja fácil para você entender. Com essa vidinha de merda que leva... É um gay idiota, sem instrução. Um empregadinho de padaria vagabunda! Eu sou um advogado, graduado, bem sucedido. Noivo. Só sonhando mesmo eu seria sequer seu amigo...

Jensen ficou com raiva. Que homem nojento! Teria retribuído o soco se estivesse com as mãos livres. Mas se antes sentia-se culpado e pronto a perdoar a reação exagerada e agressiva do moreno, agora pretendia se defender e chamar a polícia. Correu até a porta e chutou com força.

- O que pensa que está fazendo? - Padalecki puxou Jensen para trás e ambos caíram no chão, aos chutes e pontapés. Jared tinha as mãos livres, mas logo precisou ocupá-las tapando a boca de Ackles, que tentava gritar e morder. No meio da confusão, Jared conseguiu agarrar uma camiseta que estava pendurada no cabideiro ao lado da porta e amarrar com força entre os dentes do louro. Pronto, agora ele tinha a vantagem! Amarrou as pernas de Jensen também, e arrastou-o até a cama, prendendo uma das algemas à cabeceira. Deu-lhe mais um soco, dessa vez no estômago, e Jensen nem mesmo pode tentar se safar.


Poucos segundos depois vizinhos bateram na porta. Ackles pensou em fazer barulho batendo com os pés contra o colchão, mas desistiu com medo que isso não adiantasse e a sua situação até piorasse. Jared agora parecia louco o suficiente para tentar matá-lo.

Padalecki tratou de respirar fundo e penteou os cabelos rapidamente com as mãos.

- Ahhh. Desculpa. Foi a televisão. Ela está com um problema no botão, e eu não conseguia diminuir. Vou ter que levar para o conserto... - justificou-se ele.

- Tem certeza? - o síndico colocou a cabeça para dentro do apartamento, mas tudo parecia em ordem. - Pensamos que fosse um assalto! Já ia chamar a Polícia...

Jared riu, um tanto nervoso. Sorte que sua desculpa colou, e os vizinhos foram embora dali.


Jensen estava apavorado. Lágrimas escorriam pelos seus olhos, enquanto tentava falar alguma coisa. Mas nada saía de maneira compreensível. Padadecki não estava com medo que alguém dessa pela falta dele e ligasse para a Polícia? Aquela tinha sido a última entrega do dia. Sheppard poderia dar a informação, e sua bicicleta estava estacionada no prédio! Como um advogado podia ser tão descuidado? Jensen, entretanto, sabia que ninguém procuraria por ele. Pelo menos não até segunda-feira... Mas como Jared podia saber que ele não tinha família por perto e nenhum amigo realmente próximo?

Como se lesse os pensamentos do louro, Jared não custou a buscar o celular de Ackles em seus bolsos.

- Deixe-me ver aqui... - disse em voz alta, e provocativa - nenhuma ligação... Hmmm parece que só quem te liga e manda mensagens é o tal Mark Sheppard, que parece ser o seu patrão... É... Definitivamente, ele só te dá ordens - riu Padalecki. Jared também viu algumas mensagens de Misha e Dannerl, e um grupo com todos do trabalho, que incluía além desses, mais dois nomes: Alexander Calvert e D. J. Qualls. Ninguém, entretanto, trocava mensagens com Jensen nos fins de semana. Encontrou o contato dos pais do louro, mas estes não falavam com o filho desde primeiro de março. Eles estavam em dezembro...

- Você é um esquisito anti-social... - concluiu Padalecki - não tenho com o que me preocupar... Segunda-feira eu mando uma mensagem para o seu patrão dizendo que resolveu viajar por aí. De madrugada nós vamos para a minha cabana de caça, que fica longe de tudo!

Jensen gelou. Estava de fato perdido.