Capítulo 10 - Quando tudo parecia melhorar...
Jared olhou tristemente os poucos tijolos que davam forma à sua choupana virarem urubus e saírem voando.
- Não é possível! - esbravejou o homem.
Como podia ser tão difícil conjurar coisas? Ele já tinha lido uma meia dúzia de livros, mas na prática, era muito diferente. Talvez não tivesse concentração suficiente...
"Seja persistente..." falou consigo mesmo, lembrando das recomendações dadas por um dos mais renomados autores sobre sonhos lúcidos. Só praticando muito ele conseguiria... O homem voltou a se concentrar. Tentou conjurar um casa, mas não conseguiu. O jeito era tentar passo a passo. Conjurou alguns tijolos meio tortos.
Perto do momento de acordar, Padalecki já tinha um pequeno muro construído. Era meio capenga, mas o advogado se encheu de orgulho. Torceu para que Jensen passasse voando e visse sua obra, mas fazia tempo que o louro não dava o ar de sua graça. O imbecil devia estar entretido dentro daquele castelo sem sequer se importar com a sua mísera existência.
Jared não estava errado. O louro estava de fato trancado dentro do castelo sem colocar o nariz para fora. Mas ao contrário do que pensava o moreno, ele não estava exatamente se divertindo. Apenas não queria mais ver Jared, e por isso evitava sair. Era melhor assim... Jared era metido, interesseiro, e além de tudo sequestrador. Ackles preferia manter distância.
Na noite seguinte Padalecki viu com satisfação que seu murinho ainda estava de pé. Trabalhou arduamente a noite toda até criar para si um barraco até bem jeitosinho... Estava prestes a conjurar eletricidade para sua casinha quando ela desmoronou, e cada tijolinho que despencava no chão se transformava em um monstrinho feioso e irritadiço. Jared gritava enquanto suas horrendas criações mordiam seus pés.
- Parem com isso, suas pestes! - gritava o homem, enquanto chutava e tentava se livrar deles com a força do pensamento.
Merda! Mil vezes merda! Será que era Jensen que estava fazendo aquilo? Provavelmente não... Era demais achar que o louro ainda prestava atenção nele... De qualquer forma, Jared chegou a conclusão que o único jeito de conseguir alguma coisa naquela realidade era mesmo implorar para o maldito "rei" Ackles. Aliás, ele não precisava implorar... Podia propor uma troca.
Decidido, Padalecki rumou em direção ao castelo do louro. Lutou bravamente contra o crocodilo que tomava conta do lago e saiu-se vitorioso apesar das roupas resgadas. Chegou ao pé do muro principal da construção e poe-se a subir. Ajudava saber que dentro daquele sonho, não morreria se despencasse...
O muro era bastante alto, e Jared sentia os músculos doloridos do esforço que fazia. De qualquer forma, ter um propósito preenchia suas horas, e isso em si já era para ele um alívio.
Antes que Jared conseguisse chegar ao topo, Jensen foi avisado que sua propriedade estava prestes a ser invadida.
- O que houve, Brutus? - perguntou o louro ao ver ser crocodilo de estimação chegar choramingando e apontando para fora com a patinha. Ele havia chegado a nado pela parte subterrânea do lago.
- Um intruso, seu filho? Bateu em você?
Enfurecido, Ackles foi pessoalmente ver o que estava acontecendo. Ao ver Jared suado, rasgado e sexy, escalando as paredes do castelo, sentiu o coração disparar. Por um momento o louro ficou sem ação. O que aquele homem queria? Deveria soprá-lo para longe? Enviar suas águias para atacá-lo? Ou talvez devesse apenas apreciar a visão daquele belo homem se esforçando para chegar até ele?
Não. Jared não era mais seu muso. O moreno deixara mais do que claro que não queria nada com ele... Então Jensen decidiu simplesmente ajudar Padalecki a chegar mais depressa e perguntar a ele, diretamente, o que queria.
Padalecki estava ainda no início da escalada quando de repente, para seu espanto, se viu no topo, e diante de seu anfitrião. O louro, vestido com seus trajes mais luxuosos, olhava para ele tão imponente, que o advogado, sujo e maltrapilho, sentiu-se pequeno.
- Errr. Obrigado por me trazer até aqui... - disse o moreno, ainda ofegante pelo esforço da escalada.
- De nada. - respondeu Ackles – fiquei curioso para saber o que quer de mim...
- Eu... Eu não queria te pedir nada. Nós não somos amigos, e...
- Ainda bem que sabe disso – interrompeu Jensen.
- Mas... Eu tento construir minha casa. Para ter o que fazer lá embaixo. Mas não consigo... E eu não aguento mais de tédio... Queria comprar de você umas coisas, é isso. Você constrói e eu pago.
Jensen olhou incrédulo para Jared. Em seguida olhou ao seu redor e riu com ironia.
- Comprar? Não sei se já percebeu... Mas eu não preciso de dinheiro...
- Não... Eu sei! Eu quis dizer de verdade! - explicou-se o moreno. - Depois que a gente acordar.
Ackles ficou pensativo. Agora estava entendendo o que o advogado lhe propunha... Está certo que tinha pouco dinheiro. Mas como cobrar por algo que construía com um instalar de dedos? E além do mais... Ele jamais poderia vender o fruto de seus poderes de imaginação. Para ele seria quase como se prostituir...
- Eu... Eu não poderia... - respondeu simplesmente.
- E... Por que não? Por favor... Eu não aguento mais... - choramingou Jared com uma cara que lembrou Jensen de um cachorrinho com os olhos tristes e orelhinhas baixas.
- Do que você precisa? - perguntou então o louro com seriedade. Talvez Jensen pudesse fazer algo por ele, já que agora Padalecki pedia humildemente, e dentro de uma realidade onde Ackles tinha muito mais poder que ele.
- Eu... Uma casinha. Pequena... Com televisão e uns livros... Pouca coisa, para eu poder me distrair enquanto estou sonhando...
- Tudo bem. Posso fazer isso. Não cobro nada.
Dizendo isso, Ackles levantou voo para ir em direção ao descampado.
- Vamos! – chamou o louro, quando viu que o outro não o seguia. - Não pretende que eu construa a sua casinha no meio do meu castelo, né?
- Errr. - Jared parecia um pouco sem graça. - Eu... Não sei voar. - confessou, ruborizando. O advogado sentia-se um incompetente agora.
- Ah desculpa, eu esqueci... Não tem problema, eu posso levar você. - disse o louro sem pensar. Ao aproximar-se do outro, entretanto, já queria mudar de ideia. Onde segurá-lo? Por trás? Estaria disposto a abraçar aquelas costas musculosas? Pela frente? Pior ainda! Só de pensar em ter a boca do moreno próxima a ele lhe causava arrepios. - Errr... O vento pode levar você... - emendou, envergonhado.
Padalecki voou com o vento, e Jensen o acompanhou. Chegando lá, o louro começou a conjurar uma casinha simples, porém aconchegante para o moreno.
Jared estava tão feliz que mal podia conter sua alegria. Teve vontade de dar um abraço bem apertado no louro, mas se segurou.
- Muito... Muito obrigado! Está... Simplesmente perfeito – agradeceu o moreno depois que Jensen, gentilmente, fez um jardim com grama e algumas árvores para ele.
Dizendo isso Ackles acenou para o moreno e partiu.
As noites que se sucederam foram bastante mais agradáveis para Padalecki. Agora ele tinha um cantinho aconchegante para ficar e coisas para fazer. Só sentia falta de companhia... E isso, Jensen também sentia. Volta e meia o louro tinha vontade de espiar o que o moreno andava fazendo, e sobrevoava a casinha do outro na esperança de vê-lo pelo jardim. Quando Jared o via, acenava para ele, e Jensen acenava de volta, tentando disfarçar um ligeiro sorriso.
Certa noite, Ackles avistou uma grande planta carnívora mordendo os braços de Jared, enquanto este tentava podá-la. Sem pensar duas vezes o louro desceu para ajudar o outro. De onde havia surgido aquele monstro?
- Eu... Eu mesmo que conjurei... - explicou Padalecki com um misto de orgulho e vergonha. Sabia que a sua criação tinha falhas, mas, ainda assim, era sua filha... Dera-lhe o nome de Rosalinda.
- Você precisa ter cuidado para seu subconsciente não te sabotar. Não acredita em você mesmo, por isso as coisas que cria acabam... virando essas coisas... - disse o louro, fitando com desgosto a plantinha que parecia ter saído do filme "a pequena loja de horrores". - posso dar um upgrade por aqui?
- Claro... Só não a mate, por favor... Talvez você possa... Só arredondar os dentinhos?
- Tem certeza? O louro perguntou incrédulo. Após o veemente acenar de cabeça do moreno, Ackles deu um jeito nos dentes da planta, para que ficassem menos cortantes... - Ela... Vai continuar tentando te morder... você sabe... - comentou o padeiro, enojado pelo aspecto do vegetal daninho.
- Ahhh não tem problema. Gosto dela assim. Ficou linda com os dentinhos redondos! Obrigado!
- De nada. - respondou o outro, incrédulo. - Você tem conjurado muitas coisas? Precisa tomar cuidado, viu?
- Eu estou treinando... Tento conjurar algumas coisas sim. Pode deixar que vou tomar cuidado.
Jensen e Jared se entreolharam. De repente perceberam que não existia mais um sentimento de raiva. Foi uma sensação estranha, e nenhum dos dois sabia como continuar aquela conversa. O silêncio reinou por alguns segundos, porque eles também não tinham desejo de se afastar...
- Ahh eu... É melhor eu ir indo... - disse o louro, por fim.
- Sim, é... Eu... Também estou ocupado com umas coisas lá dentro... Estou tentando conjurar um bolo de chocolate...
Jensen ainda ofereceu fazer o bolo para Jared, já que o moreno estava com dificuldade, mas este recusou a oferta.
- Estou ficando melhor nisso. Qualquer hora eu acerto...
Jared acordou com o despertador e alegrou-se ao perceber que preferia ter podido dormir mais um pouquinho... Durante muito tempo dormir e sonhar eram uma tortura para ele. Não mais! Agora Padalecki achava sua vida naquela casinha simples, enquanto aprendia a conjurar coisas, até agradável e bastante relaxante. Vez ou outra algum monstrinho de seu subconsciente ainda o atrapalhava, isso era verdade. E ainda sentia um certo nervosismo quando Jensen sobrevoava sua casa. Padalecki dizia para si mesmo que aquele sentimento era desnecessário. Tudo estava acertado entre os dois, e o louro não fazia mais as crueldades que fazia antes...
O moreno levantou-se da cama, tomou um banho bem demorado, vestiu-se elegantemente e foi trabalhar. Era agora o queridinho do patrão, que não podia estar mais feliz com tamanha mudança de aparência e comportamento.
Quanto a Jensen, este voltou a ansiar o anoitecer. Não gostava da vida que levava entre a padaria do Sheppard e a solidão de sua casa. Sentia-se bem melhor no castelo. Mas, principalmente, ansiava por ver Jared e com sorte trocar umas palavrinhas com ele. Já admitia para si que voltou a gostar do moreno que encontrava nos sonhos. Mas só o dos sonhos! Era um sentimento esquisito, mas não queria ver Padalecki nem pintado de ouro na sua vida real. E foi por isso que Ackles contorceu o rosto quando viu o advogado entrar na padaria no final da tarde.
- Boa tarde! - cumprimentou o moreno assim que chegou mais perto de Ackles. Estava sorridente e parecia de bom humor. Padalecki estava ali porque queria comprar pão, ou pelo menos era isso que dizia para si mesmo. Antes, evitava aquele lugar a qualquer custo. Mas agora, não tinha motivos para isso. Não fazia mais questão de ficar longe de Jensen...
"Vai lá, amigo. Atende ele!" - sussurrou Misha, acotovelando as costelas do louro de leve.
- O que vai querer? - perguntou Jensen, secamente, e olhando para baixo.
Jared não entendeu a atitude do rapaz. Não existia mais animosidade entre eles, certo?
- Meia dúzia de pães franceses. - respondeu o advogado, enquanto tentava a todo custo encontrar o olhar do atendente.
Ackles enfiou os pãezinhos no saco de qualquer jeito e entregou-os de cara amarrada. Misha, incrédulo, ainda escutou o louro dizer ao outro entre dentes para não voltar mais ali. E o belo e elegante advogado pagou pela compra e saiu depressa, parecendo sem jeito e decepcionado.
- Jensen, ainda não entendo o que esse homem fez para você tratar ele assim! - reclamou Misha, assim que Padalecki se afastou.
O louro apenas deu de ombros e continuou com seus afazeres. Padalecki não tinha o direito de ir até lá a padaria para vê-lo. Não depois de tudo o que fizera a ele. Aquela noite, e em muitas que se seguiriam, Ackles trancou-se em seu castelo e não quis sobrevoar a casinha do moreno.
Comentário aos reviews não logados:
Anaas, muito obrigada pelos comentários! Eu fico muito feliz em saber que está lendo e gostando da história. Desculpa a longa demora em postar esse capítulo. Com toda essa loucura do Covid-19 foi difícil me concentrar para escrever. Agora espero que tenha "pegado no tranco" para postar com mais frequência. Espero que você e seus familiares estejam todos bem. Um abraço e até a próxima!
