* AVISO *
Esta história contém linguagem imprópria para menores de 18 anos. Os capítulos trazem/trarão temas, diálogos e/ou cenas que envolvem/envolverão violências, nudez, sexo e/ou suicídio. Se isto é um gatilho para você, não continue.


CAPÍTULO 1

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"Já há muito tempo que estou morto."
Jimi Hendrix

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Na primeira vez em que viu o prédio, ele achou de mau gosto. Era um "L" na horizontal, que se repetia e erguia por 24 andares. LLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLL.

O arquiteto havia feito um bom trabalho para usar todo o espaço que tinha, mas Harry Potter achava o resultado incômodo aos olhos. Pensou que se morasse lá, pelo menos não teria de encarar aquele L vulgar. Dentro dele perderia a perspectiva, e o lugar seria só um prédio.

O corretor de imóveis levou-o para visitar um apartamento no 15º andar, seção A, na base do L. O corretor falou sobre como aquele era o maior modelo de apartamento do condomínio, com uma suíte e três quartos, que muitos estavam de olho, o preço era excelente, a cozinha era arejada e bem iluminada... Ele não gostou muito dali, nem desgostou muito. Mudou-se dois meses depois.

Foi morar em um apartamento idêntico ao que visitou, mas no 22º andar - o 22A. Toda vez que voltava para casa, olhava aquele L à distância e sentia-se incomodado. Depois de algum tempo, já nem ligava. Acostuma-se com a mediocridade.

O que o fez querer ficar não foi a arquitetura, muito menos a garagem, onde mal podia manobrar, sequer a localização ou o preço. Foi a longa parede de vidro da sala, para além da qual havia a varanda e o horizonte de prédios e poluição. Dali podia ver as janelas daqueles que viviam no corpo do L, à direita.

Havia janelas tão distantes que nelas só podia distinguir pequeninos seres, que continuavam pequeninos mesmo quando saía para a varanda. Os apartamentos da seção B eram os que conseguia ver melhor, principalmente aqueles mais próximos. Do 24B, nada sabia; no 23B vivia uma família de pai, mãe e um casal de filhos; o 22B era de uma mulher de idade avançada, que tocava piano quase todo o dia; o 21B era de um rapaz ruivo que costumava jogar xadrez sozinho na sala; o 20B estava vazio.

Pessoas guardavam segredos. Harry sentia prazer em descobri-los. Poderia ser chamado de voyeur, mas pensava em si mesmo como um observador curioso. Sabia que sozinhas em casa, quando pensavam que não estavam sendo observadas, as pessoas eram o mais próximo do que poderia ser chamado de "livre". Viviam não para atender expectativas, mas para o que desejavam. Observar esses momentos de liberdade era seu pequeno jogo; olhava para descobrir algo, qualquer coisa, fosse um caso banal ou um esqueleto no armário. Quando estava solitário, era isso que fazia. Ver a máscara que os outros usavam cair por um instante, fosse ele de prazer, raiva ou dor, era o que buscava. Não podia ser o único que se refugiava atrás de sorrisos e cortesia; queria ver o que as pessoas escondiam, mesmo que de relance.

O tipo de coisa que se descobria em filmes – assassinatos, uma discussão calorosa, a vizinha gostosa trocando de roupa - ele não tinha flagrado desde sua mudança. Eram coisas da ficção, não da vida real. Tão longe quanto conseguia ver, não enxergava nada nos vizinhos, um bando entediante: os maridos viviam como maridos, as esposas como esposas, as crianças como crianças, os velhos como velhos. Era isso. Vidas entediantes.

Contudo, ele sabia que podia haver muito por trás das aparências. Se as vidas observadas nas janelas pareciam banais, era porque o que havia de interessante estava bem escondido – ou de fato não existia.

Quando as janelas eram fechadas, as cortinas puxadas e as portas trancadas, o que os outros faziam? O que faziam quando ninguém via? O que desejavam em segredo? O que pensavam e não falavam? Queria flagrar qualquer coisa podre para ter certeza que não estava sozinho, que as pessoas valiam tão pouco quanto ele. Era um fodido. Não podia ser o único no mundo.

Talvez a velha pianista escondesse algo? Ela teve uma carreira frustrada? Buscou a perfeição acima de tudo e arruinou-se? Achava-se superior? Desprezava os incapazes de distinguir Chopin de Beethoven? Dedicava-se tanto à música que afastava as pessoas?

A velha costumava usar as cortinas fechadas. Que decepção! Nas vezes que as abria ou que a renda era afastada pelo vento, Harry via a pianista ao piano ou uma sala vazia. O mais perto de um segredo que sabia da velha era que vez e outra perdia o sono e tocava de madrugada.

Foi em uma dessas madrugadas insone que ele viu a luz da sala do 21B ser acesa. Os apartamentos da seção B não tinham varandas ou paredes de vidro – algo exclusivo dos privilegiados moradores da seção A, vulgo base do L, como Harry preferia -, mas tinham uma grande janela na sala, por isso ele pôde observar bem.

Pouco depois da luz ser acesa, a janela foi aberta e um corpo debruçou no parapeito. Por um momento pensou que a pessoa fosse pular, de tão inclinado para fora que estava seu corpo. Concluiu que era uma garota pelo emaranhado de cabelos ruivos que escondiam seu rosto.

Se era uma mulher ruiva, não era a namorada – ou amante, ou noiva, ou o que fosse – do ruivo do xadrez, que morava no 21B. Ele era um homem ruivo que constantemente era visto por Harry diante de um tabuleiro de xadrez, e a garota dele era uma peituda de cabelos escuros e cacheados. Não demorou para que ela aparecesse ao lado da ruiva suicida.

Harry foi até o canto direito da sacada para ver melhor. Ás vezes o ruivo e a garota dele beijavam-se ou esfregavam-se em frente à janela, mas isso era tudo, então era a primeira vez que ele via a peituda com tão pouca roupa. Ela vestia um pijama curto, que parecia ser de seda. Percebeu que não havia julgado-a mal pelas outras vezes e que ela, de fato, pertencia à sua categoria favorita de mulheres. É comível.

A de cabelos cacheados conversava baixo com a ruiva, porém não dava para escutar nada. Parecia consolá-la, seja lá qual fosse o motivo. Ela falou, falou e falou, então foi embora. O ruivo do xadrez apareceu pouco depois, debruçou ao lado da cabeleira ruiva e disse algo.

Enquanto isso, as luzes do cômodo ao lado da sala foram acesas, e Harry viu a namorada peituda abrir um sofá cama. O 21B não tinha cortinas, e ele sabia que aquele cômodo era um escritório, sala de estudos ou coisa do tipo. Parecia que a ruiva dormiria ali.

O que estava acontecendo? Estava curioso, mas não animado. A verdade era que a vida dos outros não o interessava profundamente; independente do que flagrasse, duraria apenas um instante. Observar era um jogo, e descobrir algo significava vencer uma partida. Como qualquer vitória, traria uma breve satisfação pessoal - uma prova de que os outros escondiam uma parte de si, tal como ele - que logo passaria, então precisaria continuar a procurar. Era como sexo. Um instante de satisfação que nunca era suficiente.

A morena peituda e o ruivo desapareceram de vista, e as luzes foram apagadas no 21B. O apartamento ficava logo abaixo e formava um ângulo reto com o de Harry, então era fácil observá-lo - na verdade, era o que oferecia a melhor visão, já que Harry podia olhá-lo de perto e de cima -, mas era uma noite tenebrosa. Ele teve que pegar seu binóculo para ver o que se passava.

A ruiva continuava debruçada na janela, olhando para baixo. O que tinha de errado com ela? Por que ela não olhava para cima? Teria 20, 30 ou 40 anos? Como era? Era bonita? Quem era? Parente do ruivo do xadrez? Qual era o nome dele... Roy? Rony? Rey? Lembrava-se dele ter se apresentado na última reunião do condomínio, mas nunca prestava atenção nos nomes dos homens...

Ponderou que talvez devesse entrar. Se a ruiva pulasse da janela, ele teria de perder o dia seguinte na delegacia, dando depoimentos e contando o que viu. Se ela fosse se matar, deveria fazer isso onde não desse trabalho a ninguém, como em uma ponte.

Quando decidiu deitar, ouviu o grito.

Harry puxou os binóculos de volta. No 22B, a velha pianista havia parado de tocar e puxava as cortinas, mas era tarde, pois a ruiva estava fora do campo de visão dela, de pé na sala do 21B. Ele tinha certeza que a velha ficaria se perguntando quem estava gritando às 3h. Harry podia ver que era a ruiva. Até então ela era a única acordada por ali, além dele e da velha, mas agora luzes acendiam-se em outros apartamentos.

A garota tinha um cabelo longo e levemente ondulado, e era um bocado bonita para a idade. 15, 16, 20? Quantos anos ela teria? Não mais do que 20. Era magra, com peitos pequenos, mas que deviam ser bons de chupar. Mulheres eram classificadas em duas categorias para ele: comíveis e não-comíveis... Bem, uma havia uma terceira categoria, ocupada por uma única mulher, porém nesta ele preferia não pensar. O importante era que havia as comíveis e as não-comíveis, e ruiva pertencia ao primeiro grupo. Provavelmente ela era parente do ruivo do xadrez, porque de alguma forma eles se pareciam.

Harry desejou que fosse dia para observá-la melhor, ou que pelo menos que as luzes do 21B estivessem acesas. A garota, agora no sofá da sala, parecia chorar, mas podia estar enganado. As lentes noturnas do binóculo eram úteis, mas era um objeto barato que não superava os olhos.

Concluiu que poderia dar uma olhada melhor na garota no dia seguinte, se ela já não tivesse ido embora ou se jogado da janela. Devia ter brigado com o namorado, então era possível que fizessem as pazes no dia seguinte e ele nunca mais a visse.

Sentindo a satisfação pela partida vencida dissipar-se, foi para o quarto, onde observou a mulher pelada na sua cama. Já tinha dado um descanso a ela, então podia acordá-la para treparem de novo.