* AVISO *
Esta história contém linguagem imprópria para menores de 18 anos. Os capítulos trazem/trarão temas, diálogos e/ou cenas que envolvem/envolverão violências, nudez, sexo e/ou suicídio. Se isto é um gatilho para você, não continue.


CAPÍTULO 2

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"Toda a verdadeira vida é encontro."
Martin Buber

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Um curto-circuito ocorre quando uma corrente elétrica de intensidade elevada passa por um circuito, gerando liberação instantânea de energia e superaquecimento dos condutores. Ele pode até levar a explosões, que foi exatamente o que ocorreu durante a madrugada na garagem do edifício. Ninguém se feriu, mas três carros foram parcialmente destruídos e houve um princípio de incêndio, que deixou o prédio sem energia elétrica por toda a manhã.

E por causa do curto-circuito, um fenômeno frívolo causado pela incompetência alheia, tudo começou.

Naquela madrugada, se houve fumaça, tumulto ou gritaria, Harry não viu ou ouviu, porque dormiu toda a noite. Dormiu tão bem que podia ter morrido durante o sono, caso o incêndio tivesse grandes proporções. Mas a morte não se deu, e logo o conserto seria feito e a energia voltaria.

Enquanto isso, os elevadores estavam desligados. Por esse motivo, quando voltou ao prédio de sua corrida matinal - ignorando as pessoas na portaria e os avisos de "DESCULPE O TRANSTORNO", "CUIDADO" e "ELEVADORES EM MANUTENÇÃO" -, dirigiu-se às escadas.

Ele preferia as escadas; raramente usava elevadores. O motivo era fútil: vaidade. Ele gostava de manter a forma, e exercícios fazem parte da rotina de quem se importa com a aparência.

Enquanto subia os degraus de três em três com suas pernas longas, Harry irritava-se pelos obstáculos que encontrava no caminho; a letargia humana impedia-o de manter o ritmo.

Cacete, ou qualquer variação disso, era o que pensava quando encontrava alguém e pedia levianamente: "Com licença, por favor". Assim seguiu até o 11º andar, onde dois vultos fechavam o caminho. Lado a lado, subiam os degraus em movimentos quase estáticos.

"Com licença", ele disse. Ou pensou em dizer, pois calou-se enquanto quase colidia com os corpos. Entre o choque iminente e o recuo passou menos de um segundo; quando seus pés assentaram no degrau anterior, o segundo se fez completo. Então ele percebeu que um dos obstáculos era uma velha, e o outro, uma ruiva de cabelos longos.

Ele a reconheceu na hora. Ele a reconheceu antes mesmo dela virar-se para trás com um olhar desinteressado, depois surpreso, fazendo com que se encontrassem frente a frente pela primeira vez.

Era a garota ruiva do 21B. Já tinham se visto muitas vezes de seus apartamentos, mas nunca de perto. O rosto dela tinha uma harmonia incomum; à primeira vista, era agradável aos olhos, mas, olhando um pouco mais, percebia-se uma graça nobre. Era um rosto insolente; uma insolência que provinha, talvez, da consciência de sua beleza.

O corpo era interessante, mas estava coberto demais. Ela usava um vestido de mangas que chegava aos joelhos; uma roupa barata e sem graça, da qual Harry não gostava. O tecido vagabundo revelava que ela não usava sutiã, mas com peitos pequenos como aqueles, nem precisava. Eles não encheriam uma mão, mas caberiam bem na boca. Definitivamente comível, considerou. E novinha. Talvez 18 anos.

19 era a idade mínima que ele tinha imposto a si mesmo para comer alguém, mas podia abrir uma exceção. Desde que tivesse 16, tudo bem, porque essa era a idade do consentimento na Inglaterra.

- Desculpe, você quer passar? - a garota correu para ficar à frente, dando espaço a Harry.

Ele notou como a voz dela destoava do rosto; soou baixa e modesta. Como a garota era, afinal: arrogante ou simples?

- Pode ir - ela completou, indicando as escadas adiante.

Parecia ter-se recuperado da surpresa. A expressão dela voltou à apatia, e a voz recuperou a força. A pronúncia era bem articulada, e o timbre, ligeiramente grave, o que era uma surpresa. Daquele rosto, ele esperaria uma voz clara e limpa de soprano. Era uma discrepância interessante.

- Precisa de ajuda? – ignorou propositalmente a garota e ofereceu o braço à velha, apesar de não ter nenhum interesse real em ajudar; queria mesmo era causar boa impressão.

Reconheceu, então, a pianista idosa do 22B, que soltou um "Obrigada, Sr. Potter" ao tomar o braço oferecido. Neste mesmo instante, a garota falou junto com a velha: "Não é necessário". O tom e o olhar dela nada revelavam, mas não deixavam dúvidas que ela dispensava ajuda. Isso o desafiou.

Harry abriu seu sorriso mais gentil. Ele sabia o nome da velha, já tinha ouvido antes... Qual era mesmo?

McGonagall!

- A senhora McGonagall não devia estar subindo escadas nessa idade. - E com seu tom encantador, para a velha: - A senhora devia ter esperado os elevadores voltarem a funcionar. Mas será um prazer ajudá-la. Posso até carregá-la nos braços, se quiser.

A intenção era que a velha soltasse uma risada, mas ela o olhou com repreensão.

- Não tenho idade para ser carregada por aí! Se algum vizinho ver, será constrangedor.

- Já é constrangedor, senhora McGonagall – a garota foi mais rápida, respondendo por Harry enquanto recomeçava a subir –, mas pelo menos assim as suas pernas não doeriam, não é?

- Elas vão doer por muito tempo. Do jeito que trabalham aqui, os elevadores não voltarão nunca.

Eles continuaram a subir enquanto a velha reclamava dos serviços do prédio e do que falaria na reunião entre os condôminos. Na portaria e nos corredores, o assunto já rendia queixas, então na próxima reunião aquele ambiente aparentemente civilizado viraria uma selva, Harry ponderou, os olhos presos à frente.

A cada degrau superado, o vestido da garota balança; a bainha ia e vinha, batendo e afastando-se da parte de trás dos joelhos dela, como ondas. Ela tinha uma pele pálida, e ele imaginava o que encontraria sob os trapos: a firmeza e o calor da adolescência! Aquele corpo se arrepiaria quando Harry o tocasse? Contorcer-se-ia quando nele mergulhasse? Aquele resfolegar cansado da garota seria igual ao que ele ouviria quando investisse dentro dela? Enquanto subiam, ele distraia-se pensando em tudo que poderia fazer com aquele corpo.

Podia ver que a garota seguia cansada, mas não estava exausta como a velha ao lado dele. Paravam a cada patamar para ela respirar e, eventualmente, conversavam. Harry respondia, mas se fosse perguntado sobre o tema da conversa, seria obrigado a admitir que não se lembrava. A cada parada, ele e a garota se encaravam, e toda atenção dele voltava-se para observá-la e imaginar-se com ela.

Há quanto tempo ela estava morando ali? Tinha meses que havia visto-a pela primeira vez, mas desde então ela ia e vinha do 21B. Aparecia por lá por dias ou semanas, desaparecia por um tempo, então reaparecia, ficava por semanas, sumia...

Contudo, por todos os meses que observou de longe aquele ir e vir, notou uma constância. Ela sempre parecia entediada ou indiferente, mesmo quando ocupava-se com algo, e sua principal companhia era o fosso além da janela.

Toda vez que se deparava com a garota debruçada sobre a janela, ele perguntava-se se ela ia pular. No começo, desejava que ela pulasse logo e acabasse com aquele drama; preferencialmente, que pulasse quando ele não estivesse por perto. Depois de um tempo, porém, aquele flerte com a morte começou a intrigá-lo. Por que se matar? Não havia nada depois da morte, então o que ela esperava encontrar? Será que ela queria realmente se matar ou só desejava chamar atenção?

Em algum momento foi tomado pela certeza que ela não pularia. Mesmo assim, toda vez que a via na janela, se fazia a mesma pergunta: "Hoje ela vai pular?". E toda vez a pergunta evoluía para um eventual encontro entre dois, ele oferecendo uma taça de vinho, sorrisos falsos e sexo. Meteria com força, do jeito que gostava, e a faria gritar.

Imaginou vários cenários que levavam a esse fim, mas nenhum começava como um encontro nas escadas. Era fascinante como a realidade era sempre mais surpreendente do que a imaginação.

Podia render uma bela partida, aquela garota... Ela guardava algo, e isso despertava seu interesse. Contudo, não estava certo se desejava descobrir o que ela escondia. Gostava de saber dos podres alheios, mas imaginou tantas vezes a razão dela flertar com a morte que se deu conta que descobrir provavelmente seria decepcionante. Devia envolver um drama adolescente cansativo, imaturidade e lágrimas, então, neste caso, a imaginação era melhor. A realidade era sim surpreendente, mas limitada.

De repente, Harry se deu conta que a garota era como um presente. Uma bela caixa com papel brilhante e fita colorida, mas que certamente guardava um interior medíocre. Por isso, lhe bastava tocar a caixa, balançá-la, ouvir o som que vinha de dentro e talvez até rasgar o papel e o laço. Comprometer o exterior perfeito, sem nunca abrir, seria mais divertido do que desvendar o mistério.

E pensar nisso com ela tão perto, a menos de um metro, o empolgava. Ela seria uma boa companhia para aquele fim de semana.

Quando chegaram ao 22º andar, Harry já tinha definido diferentes estratégias para atrair a garota. Qual usar dependeria dela. Observou-a, cansada e com o rosto vermelho; uma visão sugestiva, que o fez sentir-se ainda melhor.

Arrastou a velha, quase morta, até o apartamento dela. Não por gentileza, mas porque queria garantir que não perderia a garota de vista. Ela fez questão de acompanhar a velha e, no caminho, houve mais conversa do que ele desejaria.

Na porta, a velha convidou-os para tomar uma xícara de chá. Ele não queria chá, porém aceitou, porque a garota disse sim. Era um incômodo, mas pelo menos isso deu a ele uma oportunidade. A velha se retirou para preparar a bebida, então ficou a sós com a garota. Ela não era simpática, mas também não era rude, e devia ser uma boa menina, porque ajudou a velha - a quem já conhecia de outra ocasião, ele percebeu.

Nas escadas, quando paravam a cada patamar e seus olhares se cruzavam, Harry teve a impressão que ela olhava-a com indiferença. Porém, a cada andar superado essa impressão ficava para trás, e ali, naquela sala de estar estranha, tinha certeza do que via naquele rosto insolente.

Ele sabia como agir. Era quase um dom sua habilidade para ler as pessoas.

Diante da janela da sala estava o piano, que ele tinha ouvido a velha tocar tantas vezes. Foi até lá; dali podia ver bem a varanda e as janelas de seu apartamento.

- Você mora logo abaixo – Harry deixou de lado a máscara de simpatia, que já tinha entendido que não funcionaria com ela.

- Pois é – a garota estava em uma poltrona, brincando com um gato malhado cinza que tinha surgido do nada.

- Já te vi pela janela.

- Eu também já te vi – ela pegou o gato nos braços e olhou para ele. - Até te vi transando na varanda da sua casa uma noite dessas.

Ele quis dar um sorriso de vitória, mas não o fez. Aquela era uma observação fascinante. Significava que ela tinha prestado mais atenção do que ele imaginava.

- Somos vizinhos. Essas coisas acontecem.

- Mas pode ser problemático, você não acha? Os vizinhos podem reclamar.

- Você vai reclamar?

- Por que eu deveria? Foi uma cena excitante.

Harry não gostava de mulheres tímidas ou que se faziam de difícil, por isso gostou ainda mais dela. Ela era descarada, e isso o fez ter ainda mais certeza do que queria fazer com ela.

- Se você me viu, estava estava me espionando - ele parou diante da poltrona dela.

- Talvez você quisesse ser espionado.

- Você ficou molhada de me ver na varanda?

Eles tinham abaixado a voz, de modo que as palavras não ultrapassassem a sala, por isso, em um primeiro momento, pensou que ela não havia o escutado. Contudo, quando a garota abaixou os olhos, corada, Harry soube que ela tinha ouvido-o muito bem. Então ele se arrependeu; devia ter sido mais cauteloso, porque ela era uma adolescente que falava mais do que fazia. Agora iria negar e iria embora, então evitaria-o para sempre. Ele nunca mais...

- Fiquei.

Fiquei.

F-I-Q-U-E-I.

Verbo ficar. Primeira pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo. Meras seis letras: fiquei.

Ela encarava-o novamente.

- Meu nome é Harry Potter – ele ofereceu a mão a garota, que demorou um momento para aceitar a saudação.

- Meu nome é Gina.

Ele sabia o nome dela, porque tinha escutado a velha chamá-la: "Gina", sem sobrenome. Assim ela foi chamada e assim apresentou-se; era incompleto, mas bastava.

- Quer conhecer a varanda do meu apartamento quando sairmos daqui, Gina?

- Claro. Por que não?

O gato começou a morder o cabelo dela, mas a garota parecia não se importar com isso, nem com nada.


NOTA DA AUTORA (09/05/2020):

Um hábito horrível meu: começar uma nova história antes de terminar outra. Um personagem aparece e não consigo esquecê-lo, então escrevo sobre ele. Geralmente, esse personagem inesquecível reflete uma inspiração que cruza minha vida. O tempo passa, a vida segue, nós mudamos. Isso reflete em mim e, consequentemente, nos personagens.

Por isso, quando revisei esta história recentemente, percebi que os personagens inicialmente criados para ela não funcionavam mais. Era uma narrativa imatura e prepotente, como tudo que escrevi - sempre que revisito as fics que escrevi, odeio-as, porque vejo como são mal elaboradas -, mas como a história estava no começo, decidi mudar seu fim. Para isso, é preciso mudar a história inteira. Assim o faço na esperança de terminá-la, porque do jeito que estava iria abandoná-la, o que não desejo - odeio histórias deixadas pela metade, logo pretendo fechar esta e todas as fics que tenho em aberto aqui no site, mas deem-me algum tempo.

Dito isso, espero que gostem da nova versão desta história. Editei o prólogo e o capítulo um, fazendo pequenas e importantes mudanças, então quem os leu antes de maio de 2020, sugiro que os leia novamente. Então, continue do capítulo dois, que é este, pra frente.

Irei responder as reviews no próximo capítulo. Cuidem-se até lá!

Grata pela paciência e pelo carinho ao longo dos anos,
Lanni.