Divergente não me pertence.
CAPÍTULO 2
APENAS ME DEIXE CAIR
"Aqui estou eu,
Em um lugar que nunca estive
Completamente sem amor
E com medo que você não me deixe entrar"
Save me now, Andru Donalds
ERIC
Eu estava com raiva, muita raiva. Estava com raiva e muito cansado. Exausto, pra ser mais preciso. Ainda tentava entender como aqueles imbecis tiveram a petulância de tentar invadir a Audácia. Um bando de idiotas sem facção que nada tem na cabeça.
Nessa madrugada eles se infiltraram no complexo da Audácia entrando através da entrada que os iniciandos usam, pulando na rede. Era um grupo pequeno, invadiram a sala de controle, provavelmente querendo localizar através da sala, os arsenais e apartamentos dos líderes, além de abrir as entradas do complexo para quem os tivesse esperando do lado de fora. Acho que eles não esperavam uma reação das pessoas da sala de monitoramento. Nessa noite, Quatro e Zeke estavam no plantão. Quatro matou dois dos invasores após uma breve luta corporal, mas Zeke ia ser baleado por um terceiro atacante e Quatro entrou na frente para defendê-lo. O atacante era Edward, o melhor iniciando que fora expulso após ser atacado no dormitório da Audácia. O tiro de Edward não acertou Zeke, mas foi direto no coração de Quatro. Zeke atirou em seguida na cabeça de Edward, conforme me contou. Ele disse também que tentou salvar Quatro, mas que era tarde demais.
Agora são quase cinco horas de uma manhã quente e abafada e estou em reunião com Max e os outros líderes da Audácia. Já terminamos de interrogar as testemunhas, mas nenhum atacante sobreviveu. Todos os mortos já estão no necrotério a essa altura. Max acaba de sentenciar que o acontecido será mantido no máximo sigilo por essa noite, ou o máximo de sigilo que se consiga manter na Audácia, é claro. Aqui todos sabem de tudo. Eu ainda tenho algumas marcas de seu sangue em minha roupa, estou realmente exausto e só quero que Max cale essa matraca para que eu possa dormir umas duas horas antes de enfrentar a bagunça que será a Audácia pela manhã quando ele anunciar o acontecido, quando todos acordarem e descobrirem o que aconteceu.
— Bem, agora nos resta informar aos familiares dos falecidos. – Max sentencia. - Precisamos dar apoio as famílias. Eu irei informar a família de Alain, pois são meus amigos há muitos anos, nada mais justo. Eric, acho que você deveria avisar a esposa de Quatro.
— Max, eu não sou o homem pra esse tipo de tarefa. – digo cansado. – Além do mais, você sabe que eu e Quatro nunca fomos os melhores amigos do mundo. Delegue isso a Kat... ou Balthazar... – repliquei com enfado.
— Kat e Balthazar já tem outras atribuições. – ele disse sério. - Você podia não gostar de Quatro, mas a sra. Eaton foi sua inicianda. Como líder, você tem o dever de prestar-lhe condolências e oferecer todo o apoio necessário. Não vou mais discutir isso, Eric. – Dizendo isso, Max retirou-se sem olhar para trás e eu poderia socá-lo se não estivesse tão exausto.
Quatro está morto e eu deveria estar feliz. Mas somente consigo me sentir desconfortável com toda essa situação.
TRIS
Batidas na porta. Uma, duas, três... fui acordada por fortes batidas na porta. Atordoada, levantei.
— Estou indo... – gritei com a voz engrolada enquanto vestia um robe sobre a camisola preta de cetim. Aquela hora da noite, só poderia ser Christina ou Uriah de porre para brincar com minha cara. Eles adoravam me visitar bêbados em nosso apartamento nas noites quem que Quatro estava de plantão.
Irritada, tateei no escuro até abrir a porta da frente. Quando abri a porta, descobri que não era Uriah, não era Christina. Eric estava na minha porta às cinco da manhã.
— Sra. Eaton... – ele começou muito empolado, sem me encarar de fato.
— Que brincadeira é essa? – eu disse incrédula, quase rindo ao ouvir Eric me chamar daquela maneira, ele jamais me chamara por algum outro nome que não fosse "careta". – É algum tipo de trote? – continuei sarcástica. - Estão fazendo batidas nas casas a noite? Por que por mais que você nos odeie, Eric, não temos nada ilegal aqui... – disse já irritada imaginando o que Eric estaria aprontando daquela vez para tirar nossa paz.
— Sra. Eaton. – ele repetiu novamente, em um tom de voz mais alto, parecendo conter-se.
Foi então que percebi que algo muito sério devia estar acontecendo, pois Eric evitava me olhar e não falava comigo no tom de desdém tão comum a ele. O que quer que tivesse acontecido, transcendia toda a antipatia que nutríamos um pelo outro.
— O que aconteceu? – perguntei desconfiada e preocupada.
— Houve um ataque...
ERIC
O último dia tinha sugado até a última de minhas forças. Lidar com um ataque à Audácia. Lidar com a careta descontrolada me batendo e me acusando pela morte daquele idiota do Quatro. Lidar com tanto desespero...
Os funerais acabaram há pouco. Estou na varanda do meu apartamento, não consigo dormir. Acabo fumando... O negócio do ataque foi resolvido, todos os envolvidos estão mortos e o núcleo dos sem facção que o organizaram, foram rapidamente localizados e presos. Tudo está resolvido. Exceto pelos olhos dela. Os olhos vazios da Careta vendo o caixão de Quatro entrar no crematório. Eu nunca havia visto nada como aquilo. Aquele desespero. Aquela devoção. Aqueles olhos azuis opacos e secos de tanto chorar. E mais uma vez, acho que senti uma pontada inveja do Quatro.
Ele podia estar morto, mas tinha alguém que chorava sua partida de uma forma devotada. Alguém algum dia faria isso por mim? Acho que adormeci com esse pensamento.
Os meses passaram. Um ano se passou...
A Careta virara algum tipo de zumbi que ainda respirava. Ao menos eu achava que ela ainda respirava. Passara muito tempo daquela noite estranha e eu a vira poucas vezes depois disso. Os boatos eram de que ela afundara-se em uma depressão intensa. Que quase não saía de seu apartamento. Ela trabalhava patrulhando a cerca, por isso eu quase nunca a via, e para mim estava bom. Detestava encarar aqueles olhos vazios. Mas parecia que ela não estava trabalhando bem e isso chegara aos ouvidos de Max. Os supervisores dela informaram aos líderes que ela não era mais um membro útil da Audácia e que devia ser demitida do emprego que exercia. Isso correspondia a virar um sem facção.
Agora estou á caminho da cerca, o maldito do Max me incumbiu de levar a carta de demissão da Careta.
Estou indo encarar aqueles olhos vazios novamente.
