Divergente não me pertence.

CAPÍTULO 3

Eis a sorte (ou o demônio) que lhe sorri

"Estou tão cansada de estar aqui,

Reprimida por todos os meus medos infantis (...)

Pois sua presença ainda permanece aqui,

E isso não vai me deixar em paz."

My Immortal, Evanescence

TRIS

Já faz mais de um ano que tudo ocorreu.

Faz muito tempo que Quatro me deixou. E eu nunca consegui me recuperar. Desde então tem sido muito difícil.

No início, os dias passaram como borrões, borrões com as cores da Abnegação: cinzas e frios. Depois os dias passaram a se tornar iguais. Como o branco das cores da Franqueza.

Ultimamente, eles estavam estranhamente sem cor.

A noite de hoje está fria, como muitas outras que passei patrulhando essa cerca. Eu gosto do frio. Me entorpece. Me faz sentir como se não estivesse viva. Às vezes acho que não estou.

Despertei do meu entorpecimento ao ouvir o ronco de um motor que se aproximava. Isso era horrível, pois significava que eu teria de fazer contato humano. Pedir identificação e deixar passar. Isso era estranho, pois era muito tarde. Raramente os carros apareciam a essas horas da noite. Esse, inclusive, era um dos motivos pelos quais eu gostava de trabalhar a noite, e também por que eu raramente conseguia dormir.

O barulho do motor aumentou o bastante para eu perceber quem se aproximava. Era um veículo militar, grande e preto. Um dos poucos que a Audácia possuía, e eu sabia que ele só era usado pelos líderes.

Por isso não estranhei quando uma figura alta saltou do veículo e aproximou-se calmamente da minha guarita. Stacey, a minha companheira de guarda, acordou de seu cochilo no momento exato que Eric se postou em frente a guarita.

— Careta! Desça até aqui. – ele chamou impaciente lá de baixo e eu levei um momento para perceber que falava diretamente comigo. Stacey olhava pra mim com um olhar de pânico que dizia: "o que você aprontou?"

Sem entender por quê cargas d'água, o endemoniado do Eric surgira na cerca no meio da noite e chamara por mim, desci a pequena escada da guarita e em poucos segundos estava frente a frente com ele. Da última vez que eu estivera frente a frente com Eric, ele me dissera que Quatro estava morto. Estremeci com o pensamento.

— Entre no carro. – ele disse de forma impessoal, virando-se e indo em direção ao veículo. Eu fiquei parada olhando as costas do pesado casaco preto que ele vestia. Eric percebeu isso, por que parou. – Eu disse pra entrar no carro, Careta. – ele insistiu um pouco mais impaciente, e eu cansada demais pra replicar, fiz o que ele mandou e sentei ao seu lado no banco do passageiro.

Eric não me olhou. Deu partida e começou a dirigir como se minha presença fosse inexistente.

O vento daquela era gelado, parecia cortar meu rosto como uma faca afiada. Eric dirigia em alta velocidade. Me encolhi um pouco no banco, mas ele pareceu não notar. Ou notou, por que pouco depois ele falou.

— Você não está mais no posto da cerca. – comentou sem me olhar. – Max demitiu você essa tarde.

— Ele me demitiu? – repliquei sem entender. Ninguém podia ser demitido, ou podia? Eu nunca havia conhecido alguém que tivesse sido.

— Foi o que eu disse. – Eric respondeu ainda sem me olhar.

Eu fiquei calada, sem reação. Sem processar completamente a informação.

Eric de repente freou o carro de uma forma muito violenta. Quase fui arremessada contra o para-brisa pelo solavanco do veículo. Quando estávamos parados, ele finalmente me olhou.

— Você sabe o que isso significa, Careta? – disse inexpressivo.

— Não faço a menor ideia... Eric. – respondi encarando-o e cuspindo seu nome com todo desdém que podia.

— Você não sabia que quem é demitido, torna-se um sem facção? – indagou com sarcasmo, como se saboreasse a frase e estivesse na expectativa pela minha reação.

— Não, eu não sabia. – respondi indiferente. – Mas pelo menos agora sei por que você está aqui, para ter o gostinho de ser aquele que vai me jogar pra fora da Audácia. Se quiser, eu desço aqui mesmo.

— Pelo contrário, Careta. – Eric disse com um sorriso sarcástico. – Essa noite eu sou a sua salvação.

Eu ri. De repente eu ri como não fazia há muito tempo, como nem lembrava que eu poderia rir.

— Como é? Não sabia que você contava piadas, Eric. – disse com ironia e amargura. – Fale logo, o que você veio fazer aqui, e pare de brincar com minha cara.

— Eu já disse, Careta. – ele falou sério dando partida no carro. – Eu vim aqui para salvar você.

Sem mais nenhuma explicação, seguimos em alta velocidade pela noite gelada.

Eric me deixou assim que chegamos ao complexo da Audácia e não me falou mais nada sobre o que estava acontecendo. Apenas me deixou uma carta.

Era um comunicado de Max. Nela, ele falava de minha demissão por eu não estar "atingindo o desempenho desejado na guarda da cerca ao apresentar comportamento disperso, irresponsável e por ser emocionalmente instável". Na carta também dizia que por ser demitida, e não ter uma função útil na comunidade eu deveria juntar-me aos sem facção, mas que, por circunstâncias especiais, eles estavam dispostos a discutir minha situação. Eu estava convocada para comparecer na sala de Max no dia seguinte em um horário que estava estipulado.

Mas estava claro que eu não iria. Eu não iria brigar por isso. Estava cansada demais para qualquer coisa.

Pancadas na porta. Uma, duas, três...

Era aquele pesadelo se repetindo. A porta. Eric. A notícia.

Dessa vez, eu não iria atender. Virei de lado e me embrenhei mais fundo no sono que me dominava.

Uma, duas, três...

As pancadas continuavam ali em algum lugar. Não me deixando ter paz.

— Tris, acorda! – uma voz falou muito perto. – Anda, Tris! Acorda... – Era uma voz conhecida. Uma voz amiga. – Vamos, Tris!

Abri meus olhos quando fui sacudida, mais uma vez. Christina estava ao meu lado me chamando. – Ah, ainda bem que abriu os olhos! – ela exclamou com um suspiro. – O que você tomou pra dormir dessa vez, heim? Anda, acorda!

— Christina, me deixa! – falei tentando voltar ao sono. – Me deixa dormir...

— Tris, acorda! – ela falou me puxando, dessa vez com força. – Você não pode dormir! Tem visitas! Eric está lá fora...

— Eric? – indaguei sentando-me na cama. Ele tinha voltado. Para contar que Quatro morrera.

— Sim, e ele ameaçou entrar e te arrancar da cama pelos cabelos se você não levantasse em cinco minutos. – Christina falou apressada. – e ele está mais mal-humorado do que de costume.

Levantei prontamente. Ser arrancada da cama por Eric não era uma opção agradável, e eu bem sabia que ele era capaz de fazer pior do que isso.

Fiquei de pé e arrumei a roupa que ainda usara na noite anterior, ainda vestia o fardamento usado na cerca.

Segui uma aliviada Christina até a sala, Eric conforme ela dissera, nos esperava de pé, próximo a porta do apartamento. Como se tivesse nojo de entrar nele.

— Já não era sem tempo, - ele resmungou irritado. – Não me faça mais perder tempo, Careta.

Ele fez sinal para que eu o acompanhasse. Christina ficou no apartamento e eu segui Eric pelos corredores da Audácia. Eu sabia para onde estávamos indo, para reunião com Max. Estávamos quase no horário que havia na carta. E era exatamente isso.

Eric não me dirigira a palavra até estarmos na sala de Max. Quando entramos, ele já nos esperava.

— Estão atrasados. – Max disse enquanto tomava uma xícara de café.

— A careta estava em sono profundo. – Eric disse à guisa de explicação.

— Estou percebendo seu profundo interesse em permanecer na Audácia, Tris. – Max censurou, olhando-me, mas seu tom não era de acusação. – Você parece destruída, menina. – ele comentou em um tom quase paternal.

— Max, eu já entendi que não sou mais útil para vocês. – repliquei com apatia. – não precisamos continuar com isso. Vou seguir a determinação e hoje mesmo pego minhas coisas e dou o fora do complexo.

— Então, você vai desistir assim tão fácil? – Max me olhou duro. – Você acha que era isso que Quatro queria? Que você jogasse tudo pro alto e se tornasse uma sem facção por pura falta de coragem de seguir em frente? Você acha que se fosse você a morrer, ele desistiria? Acha mesmo isso, Tris? Por que se acha, você não é mais a garota que eu conheci dois anos atrás.

— Acho mesmo que não sou mais essa garota, Max. – respondi cansada, só queria que aquilo acabasse. – Talvez essa garota que eu sou agora nem queira mais viver.

— Eu não penso assim, - Max retorquiu. – Se você não quisesse viver, já teria se jogado na frente de um trem, sei que teria coragem para isso. Você quer viver, mas que viver com Quatro. Só que ele não está mais aqui, e você precisa seguir em frente e conviver com isso.

— Por que vocês apenas não me deixam em paz? – pedi quase ás lágrimas.

— Tris, você não tem nenhuma família de sangue nessa facção. – Max continuou. – Você é nossa responsabilidade. É responsabilidade dessa facção, e pode não parecer, mas a Audácia cuida uns dos outros.

— Não quero ser responsabilidade de ninguém. – bufei.

— Ah, já chega! – Eric interrompeu impaciente. – Chega de birra, Careta! Por menos disso, nós já mandamos vários pros sem facção. Mas não vamos mandar você. Não para se tornar uma arma deles contra a Audácia. Você vai ficar aqui. E vai ter que se adequar. – disse em tom de ameaça, o dedo em riste na minha cara.

— Eric aceitou ser seu tutor. – Max interrompeu, explicando. – Como foram seus instrutores, ele e Quatro eram os tutores da turma de vocês. E ele vai monitorá-la e treinar você até que possa voltar as suas atividades.

— Vou ser uma inicianda novamente? – indaguei surpresa.

— Não, você vai trabalhar comigo. – Eric respondeu sorrindo. – Até entrar na linha... ou até querer morrer de verdade.

Eu achei naquele momento que eu já devia estar mesmo morta. Só podia, pois eu estava adentrando ao inferno, e um diabo loiro sorria para mim.