Divergente não me pertence.

CAPÍTULO 4

Outro dia no paraíso

"Ele pode ver que ela esteve chorando,

Ela tem bolhas na sola dos pés.

Ela não consegue andar, mas está tentando."

Another day in paradise, Phil Collins

TRIS

Saí da sala de Max com uma promessa de Eric de que as câmeras estariam me monitorando e que eu seria "abatida" na menor tentativa de fuga. Estranhamente, ele me liberara pelo resto do dia. Andei a passos lentos até meu apartamento, na esperança de que poderia terminar ao menos aquele dia afundada sob os lençóis em um sono sem sonhos, abençoado pelos remédios para dormir.

Contudo, ao chegar ao meu apartamento, o mesmo que fora o antigo apartamento de Quatro, e depois o apartamento que compartilhamos em nosso breve casamento, levei um choque ao descobrir que minha senha, não abria mais a fechadura eletrônica.

Logo notei que havia apenas um recado colado na porta. No papel estava escrito: 301B.

O apartamento de Christina.

Cheguei ao apartamento de Christina que ficava no décimo segundo andar da Pira e não precisei bater, pois a porta estava aberta. Christina estava lá, acompanhada por Will, Uriah, Marlene e Lynn. Pareciam estar fazendo faxina.

— Christina, por que a minha senha eletrônica não funciona? – perguntei entrando de supetão, Christina me olhou sem surpresa enquanto segurava uma vassoura. - Não consegui entrar no meu apartamento.

— Trouxemos suas coisas pra cá, Tris. Agora você tem um novo quarto. – ele anunciou apontando para uma porta ao lado do quarto que eu sabia que era o dela.

— Eric despejou você. – Will disse chegando ao meu lado. – Você foi remanejada para dividir o apartamento com Christina.

— Mas você não dividia com Liah? – perguntei ainda surpresa.

— Ela casou há meses, Tris... – Christina disse também chegando próxima a mim. – Se liga...

— Aquele maldito do Eric! – resmunguei me jogando no velho sofá de veludo preto de Christina. – Me deixou sem emprego e agora me expulsa da minha casa...

— Amiga, assim não tem nem como de defender, viu? – Christina disse se jogando ao meu lado. – Sinto lhe informar, mas Eric está no direito de fazer tudo isso.

— É, careta, você precisa reagir. – Uriah complementou. – Venha ver o quarto de princesa que preparamos para você. – brincou .- Só não pense que vamos te deixar ficar trancada nele o dia todo...

Passei o resto do dia ajudando meus amigos a organizar minhas coisas no apartamento de Christina. Rompi em choro algumas vezes quando encontrava as coisas que pertenceram a Quatro e as coisas que lembravam nossos momentos juntos. Por fim, Christina me obrigou a desapegar de muitas coisas dizendo que o apartamento não tinha espaço para tudo, mas eu sabia mesmo que ela queria que eu me desapegasse das coisas que me lembravam dele. Quase à minha revelia, eles colocaram as roupas e pertences de Quatro em caixas que Will e Uriah levaram para que a Abnegação doasse aos sem-facção. Eu ainda consegui salvar algumas camisetas dele com as quais eu gostava de dormir e o perfume que ele usava.

Agora já é noite e estou deitada na cama de meu novo quarto ainda sem dormir. Visto uma das camisetas de Quatro e posso ouvir, quase de forma imperceptível, mas posso, os ruídos que vem do quarto ao lado onde Christina e Will estão fazendo amor.

Apenas um componente a mais nas minhas noites que eram de pura tortura. Mais uma noite insone.

Outra noite sozinha.

Evitei que Christina precisasse me acordar e estava desperta cedo na manhã seguinte. Não queria Eric na minha porta novamente. Se ele queria me torturar, eu estava indo, completamente entregue. Não ia dar muito trabalho pra ele.

— Encantadora como sempre. – Eric disse sarcástico quando chegou ao Hall onde eu o esperava. Eu estava largada em uma cadeira da pequena sala de espera e vestia apenas um jeans e uma camiseta velhos. Ele fez sinal para que eu o seguisse e entramos em sua sala.

A sala de Eric demonstrava claramente suas raízes eruditas. Paredes com tapeçarias antigas, piso de taco e móveis de madeira antigos e lustrosos. Havia até uma pequena biblioteca em um canto. Sentei-me na cadeira forrada em couro em frente a sua grande mesa de madeira marrom.

— Me diga uma coisa, você ainda toma banho, Careta? – ele indagou com deboche sentando-se na cadeira de espaldar alto que ficava no lado oposto da mesa e olhando-me de cima a baixo.

— Se não gosta de minha apresentação, me jogue embaixo de um chuveiro. – disse sem mostrar que ele me afetara.

— Não me provoque, Careta. – ele respondeu perigoso. – Você sabe que eu faria...

— Eric, vamos deixar de perder tempo. – eu disse já impaciente com toda a situação. – Você conseguiu que Max me colocasse em suas mãos. Diga logo o que quer de mim.

— Ora, agora tive um deslumbre da Careta de antigamente... – ele brincou antes de se inclinar um pouco sobre a mesa e olhar em meus olhos. – O que eu quero? – falou devagar e olhou de forma ainda mais penetrante. - Quero você, Careta. Em minhas mãos. Pra fazer o que eu quiser.

Eu estremeci. O que quer que ele estivesse querendo insinuar, me deixou aflita.

— Não do jeito sexual é claro. – ele continuou quase gargalhando. – Você devia ter visto sua cara... – riu novamente, e era estranho ver Eric sorrindo de forma despojada. - Eu preciso de uma assistente. – disse encostando-se na cadeira. – E você podia começar agora, indo buscar o meu café.

Eric não queria uma a assistente. Ele queria uma escrava.

E, literalmente, me fez de sua escrava particular aquele dia. Entre lhe servir café de meia em meia hora, um hábito que eu desconhecia que ele possuía, arrumar seus livros em ordem alfabética, buscar suas roupas na lavanderia do complexo e organizar sua agenda pro dia seguinte, o dia passou em um turbilhão. Descobri que Eric era altamente organizado e meticuloso em sua rotina, o que fazia eu me perguntar por que diabos ele tinha saído da erudição. Mas então eu lembrava do Eric que foi instrutor na minha iniciação e conseguia entender o por quê, ele também era um guerreiro, apesar do erudito que vivia dentro dele.

E Eric era muito exigente. Quando eu mal terminava de fazer algo, ele me gritava outra ordem. Cheguei ao meu apartamento quando já era noite, exausta. E tudo o que eu queria era dormir.

E dormi profundamente, sem ajuda de remédios, como não fazia há muito tempo.

Christina me acordou com um chute nada agradável nas canelas na manhã seguinte. Jogou um papel sobre o meu colo.

"Esteja na sala de treinamento às 9h. Vista-se adequadamente."

Ela não precisava me dizer de quem era o recado. Meu novo chefe não perdia tempo.

Peguei entre minhas coisas as roupas antigas de treinamento e antes das 9h eu já estava na sala de treinamento.

Tudo ali me era familiar. A sala toda lembrava suor, lágrimas e sangue.

Eric estava sozinho dando socos em um saco de areia, mas parou quando percebeu minha presença.

— Está aprendendo a ser pontual. – comentou com seu ar de ironia característica.

— Não queria ser arrancada da cama novamente. – respondi tentando não parecer intimidada, embora estivesse. – o que temos pra hoje?

— Deixe, vê-la primeiro. – ele disse ficando frente a frente comigo fazendo um gesto com a mão para que eu desse uma volta, o que fiz a contragosto.

— Tse, tse... tanto trabalho jogado fora... – ele resmungou. – Você tem o corpo de um menino novamente, Careta. Um menino pequeno e magrelo.

— Não lhe pedi observações a cerca do meu corpo. Ele não é do seu interesse. – falei na defensiva.

— É sim, já que você vai treinar comigo daqui em diante. – anunciou. – Se você quebrar em duas no meu primeiro golpe, vou ter muito trabalho pra conseguir outra assistente. E pelo jeito que você está, receio que vá quebrar...

— E o que você quer que eu faça para não ser quebrada em duas? – indaguei sem interesse.

— Se esforce. – ele disse muito próximo de meu rosto, entregando-me um papel e saindo da sala em seguida.

Eu tinha em mãos uma sequência de treino, e apesar de pensar seriamente em amassar o papel e voltar para minha confortável cama em meu apartamento, lembrei das câmeras que deviam estar me espionando e iniciei meu aquecimento. A sequência era bem longa.

Quando terminei era quase hora do almoço e eu estava faminta. Eric não aparecera novamente, apesar de ter dito que treinaríamos juntos. Para mim, não faria diferença. Pensei em voltar ao apartamento e comer alguma coisa pronta, mas lembrei que, devido a mudança, eu não tinha mais nada para comer. Fui até lá apenas tomar um banho e trocar de roupa, e, inacreditavelmente, eu estava ansiando pelo almoço gostoso e suculento da Audácia, mas pra isso eu teria que ir ao refeitório e enfrentá-lo lotado, como não fazia há muito tempo.

Christina arregalou os olhos quando me viu seguir para sua mesa com uma bandeja cheia de comida. Ela quase me abraçou quando sentei ao lado dela.

— Isso é um milagre, - ela disse contente quando sentei a seu lado. – você voltou a comer!

— Estou morta de fome, só isso- respondi envergonhada sob o olhar de Will, Uriah, Lynn e Marlene.

— Espero que esteja assim mais vezes... – Marlene comentou me incentivando.

— É, você tem feito falta por aqui, - Uriah comentou. – Sem você, não tem com quem o Peter implicar...

— E por falar no diabo... – Lynn falou apontado na direção oposta da mesa onde Peter vinha com sua bandeja.

Inacreditavelmente, ele sentou ao meu lado.

— Peter, sua cara de pau é do tamanho do complexo da Audácia. – Christina ralhou com ele.

— Não te convidaram para essa mesa que eu saiba, - Will falou em tom de ameaça.

— Calma, pessoal. - Peter disse animadamente, - só vim dar boas vindas de novo à Careta.

— Já deu, - respondi irritada, a raiva queimando minha garganta. – agora dá o fora.

— Calma, Careta. – Peter retrucou com um sorrisinho cínico típico dele. – está irritada depois de ver a luz do sol? Soube que você não via há muito tempo, que estava trancada dentro de um quarto agarrada às cinzas do seu marido. Por que agora é isso que ele é não é? Um pote cheio de cinzas...

A raiva explodiu dentro de mim como não acontecia há muito tempo. Eletricidade pareceu percorrer todo meu corpo. Eu iria matar aquele desgraçado. Ia sim.

Peguei Peter pelo colarinho e o derrubei no chão, ficando por cima dele. A faca que estava em minha mão, apontava direto para o olho esquerdo dele.

— Se você falar mais uma palavra sobre Quatro, vou fazer a mesma coisa que você fez à Edward...

— Ah, e não foi ele que matou seu grande amor?

Minha mão avançou na direção do rosto de Peter, pronto para cegá-lo. Pra matá-lo. Mas ela foi agarrada à tempo.

Eu fui arrancada de cima de Peter e posta de pé por alguém que puxou meu braços e me agarrou pelas costas.

— Espero que ela seja condenada por isso! – Peter gritou ao se levantar em seguida. – Ela tentou me matar!

— Cala a boca, Peter! – Soou a voz ríspida da pessoa que me segurava, a voz de Eric. – Voltem a comer. Acabou o show! – ele gritou para todos que estavam parados observando. Dizendo isso, Eric arrancou a faca da minha mão e jogou sobre a mesa. Mas, eu ainda lutava com ele, ofegava e tentava avançar sobre Peter.

— É melhor você ficar quietinha ou vai ser pior. – Eric sussurrou em meu ouvido antes de me puxar pelo braço para fora do refeitório.

Quando chegamos do lado de fora, ele me soltou. Cruzou os braços e olhou pra mim, calmamente.

— Agora você tem motivos pra me executar. – falei inflamada pela raiva. – Vá em frente, não me importo.

— E por que eu lhe executaria? – ele disse sem se mover. – Por querer matar o babaca do Peter? Teria que executar metade da facção, então. Só não deixei você vazar o olho dele por que tem pessoas que não gostam de ver essas coisas enquanto comem...

— Então não está furioso? – indaguei surpresa.

— Tenho coisas mais importantes para me importar, Careta. –ele disse começando a caminhar na direção contrária. – Me acompanhe, tenho atividades para você.

Surpresa com o desfecho da situação e com a reação de Eric, o segui-o em silêncio até sua sala.

Passei a tarde inteira ocupada e faminta, já que não tinha almoçado por causa do idiota do Peter, também tinha o corpo totalmente dolorido devido o treinamento pesado ao qual não estava mais acostumada. Eric me deixara sozinha em sua sala organizando em pastas toneladas de papéis sobre as solicitações de insumos da Audácia que ele deveria assinar.

Ao final do dia, minha maior vontade era fazer uma grande fogueira e tacar fogo em tudo.

Quando Eric chegou para me liberar já era bem tarde. Ele me apanhou sentada em sua cadeira de espaldar alto, cochilando sobre a última pilha de papel que eu arrumara.

— Ei, Careta... acorde. – fui sacudida com suavidade e por um instante de loucura, achei que era de Quatro a voz suave que me acordava. Quão forte foi meu choque, meu puro terror ao ver que era Eric ao meu lado, e que me apanhara dormindo. Olhei para ele, que vestia um sobretudo preto pesado e luvas de couro ainda cheio de flocos de neve, chegava da rua com certeza.

— Eu perdi a noção do tempo... – disse me recompondo. – mas o trabalho está feito.

— Está gelado aqui! – ele falou parecendo não me ouvir e acendendo a lareira elétrica que estava do lado esquerdo da sala. – Você não percebeu?

— Eu estava concentrada, - falei cruzando os braços e sentindo um frio repentino. Quando tentei levantar da cadeira dele, tudo girou e acabei sentando-me novamente.

— Você está fraca. – ele disse em tom de constatação.

— Eu estou bem. – retorqui levantando-me novamente para ser novamente acometida por outra vertigem.

— Humrum, dá pra perceber como você está bem... – ele disse sarcástico se aproximando. Aquele não era de jeito algum o Eric que eu conhecera.

— Vamos, Careta, eu te levo até o refeitório. Estava indo pra lá mesmo. – ele disse oferecendo-me o braço como apoio.

— Quem é você e o que fez com Eric? –eu brinquei, surpresa com aquele ato de gentileza tão diferente do habitual dele.

— Não brinque com meu bom humor, Careta. – ele alertou já parecendo o Eric de sempre. – Pois, ele é raro.

Eu aceitei seu braço, e mesmo com a tontura, consegui seguir com ele de braços dados até as grandes portas do refeitório da Audácia. Graças a Deus os corredores estavam vazios aquela hora para as pessoas não verem tamanha cena bizarra.

Quando chegamos à porta do refeitório, eu soltei seu braço como se ele desse choques.

— Er... obrigada. – balbuciei sem jeito.

— Não há de quê. – ele replicou saindo na direção do corredor.

— Ei, você não disse que estava vindo pra cá? – indaguei ao vê-lo se afastar.

— Eu já jantei, Careta. – ele disse sem se voltar pra mim, seguindo pelo corredor.

Eu estava bem perplexa com o estranho daquela situação, mas também estava faminta, por isso entrei para o refeitório e logo toda a situação estava longe da minha mente.

ERIC

— Como foi a reunião do conselho?- Max indagou quando entrei em sua sala e tirava meu sobretudo de viagem.

— Sem Marcus, o Prior é o novo líder, como você já imaginava. – eu respondi recebendo o copo de bebida que Max havia servido e agora me oferecia.

— Isso não é nada bom. – Max refletiu. – Aquele pacifista de uma figa vai cortar ainda mais nossa verba para armamento esse ano.

— Eu já lhe disse, Max, que é melhor estar ao lado do demônio do que no caminho dele. – repliquei tomando mais um gole da bebida.

— E como está seu progresso com Tris? – ele indagou tomando também outro gole.

— Lento. – respondi, - eu não lhe disse que seria fácil. A Careta está destruída e passou toda a vida dela na Audácia me odiando. Você acha que ela ia cair por mim assim da noite para o dia?

— Pois é melhor se apressar, pois o diabo está em nossos calcanhares. – Max alertou.

— Tudo a seu tempo, - eu repliquei calmo tomando o último gole da minha bebida. – Logo ela vai estar nas minhas mãos, e embora, a facção venha antes do sangue, o sangue é muito poderoso. O Prior será bem mais fácil de manipular quando eu for o marido da filha dele.