Divergente não me pertence.

CAPÍTULO 04

É aos poucos que se perde muito

"Yeah, agora eu nunca, nunca, nunca mais serei o mesmo.

Eu vou enlouquecer, baby, eu vou enlouquecer por você "

Crazy, Aerosmith

TRIS

Eu estava melhorando.

Era inacreditável, mas parecia que eu estava escalando de volta o poço profundo em que eu tinha caído, ao menos foi assim que Christina definiu a coisa toda.

Os dias que se seguiram passaram muito rápido. Todos muito cheios, um verdadeiro turbilhão. E eu estava melhorando. Estava comendo. Estava dormindo. Estava me sentindo mais forte. Viva, pela primeira vez em muito tempo.

Eu passara a treinar todas as manhãs, mas ao contrário do que me dissera, Eric não aparecera para treinar comigo, ou sempre estava de saída quando eu chegava pra treinar. Então, pelas manhãs, eu treinava sozinha. Às tardes, ele me deixava com o trabalho burocrático e sumia, ou então me mandava para algum lugar do Complexo fazer alguma atividade. Ele se mantinha distante o tempo quase todo, mas eu não me surpreendia. Ele devia não suportar minha presença tanto quanto eu não suportava a presença dele, embora a mesma tenha se tornado bem mais suportável pra mim nos últimos tempos.

Na verdade, eu concluíra que tinha muito o que agradecer à Eric, pois mesmo do seu modo distorcido e mesmo sendo outros os seus interesses, ele fora o responsável por me trazer de volta à vida, mas eu não me sentia preparada para admitir isso para ele, era difícil admitir até para minha própria pessoa.

Christina me levou para comprar roupas novas com os créditos que recebi pelo meu novo emprego em um fim de semana frio cerca de um mês depois. Para minha surpresa, eu estava ganhando mais que o dobro do que eu recebia para trabalhar na cerca, o que era suficiente para eu me manter de forma muito confortável na Audácia, e isso me deixou bem tranquila, eu não seria um peso para Christina agora que morávamos juntas e dividiríamos as despesas.

— Veja só esse vestido, Tris! – Christina apontou para um vestido muito justo que estava no manequim. Era preto, de um tecido elástico e grosso, tinha as costas nuas, um decote simples na frente e era um pouco curto demais para os meus padrões. Mas ela praticamente me obrigou a experimentá-lo.

— Vamos ficar com ele. – Christina disse a vendedora assim que saí do provador, sem a minha permissão, é claro. – Você está linda. – falou olhando para mim.

— Chris, eu acho que to parecendo aquelas meninas que saem com o Zeke e que a Shauna detesta. – disse me olhando no espelho, - não está vulgar demais?

— Isso é só uma questão de ponto de vista. – Christina falou descontraída pegando um vestido e pondo na frente de seu corpo e olhando-se no espelho também. – Você está maravilhosa. Vamos arrasar hoje à noite.

— Hoje à noite? O que vai ter hoje à noite, Christina?

— Ah, eu não te disse? a banda da Lynn vai tocar no fosso. – ela comentou de forma trivial. - Eu falei pra ela que nós iríamos, evidentemente. E você vai vestindo isso.

— Não sei se estou preparada, Chris. – confessei sentindo um súbito ataque de pânico surgir lentamente.

— Não se preocupe, - Christina me encarou de forma séria. – Todos nós estaremos com você. E além do mais, - acrescentou animada saindo para provar seu vestido - vai ter bebida grátis, cortesia do idiota do seu chefe.

Morar com Christina não era nada seguro.

Eu tirei essa conclusão no exato momento em que cheguei ao fosso lotado, puxada pela mão dela.

Eu estava apavorada de ter que encarar praticamente toda a comunidade da Audácia depois de tanto tempo. Parecia que todos os olhares queimavam sobre mim, embora se eu olhasse bem, podia perceber que ninguém estava nem aí pra minha presença em especial.

A não ser meus amigos, é claro.

Eles estavam todos reunidos em um canto perto de um pequeno palco improvisado que fora montado perigosamente próximo ao abismo, e eles tinham seu próprio balde de gelo e bebida. Não se podia negar que eram uma turma divertida. Eles fizeram uma enorme algazarra quando cheguei, Uriah até me colocou nos braços e saiu rodando até nos deixar tontos. Eu me senti um pouco mais confiante e menos assustada. Eu estava com eles, meu grupo, meus amigos, minha família. E não deveria ser tão aterrorizante me divertir com eles por uma noite.

Recebi um copo das mãos de Marlene e a bebida queimou minha garganta quando bebi um grande gole.

Eu não dançava, mas fiquei me divertindo muito vendo todos dançarem. O melhor eram os passos malucos que Uriah fazia. A banda de Lynn também era muito boa. Ela tocava bateria. Só tinha garotas na banda e elas faziam uma música muito barulhenta, mas eu já havia me acostumado, pois isso era o que o pessoal da Audácia gostava de ouvir.

Aquela noite, eu ri, como não ria a muito tempo. E bebi bem mais do que era acostumada a beber. A cada minuto que passava eu me sentia mais leve, a bebida já surtindo efeito sobre meu corpo e meus pensamentos.

A certa altura da noite, quando todos já estavam bêbados demais e Christina já tinha desaparecido com Will e Uriah agarrava Marlene perto de nós de uma forma quase indecente, não, indecente mesmo, fiquei me concentrando no som da banda, que agora, inacreditavelmente, era mais melódico, quase um calmante.

Olhei entre as pessoas e subitamente, vi um rosto familiar. Eric estava do outro lado, junto de alguns caras barra-pesada da Audácia que eu conhecia de vista. Estavam conversando e ele parecia não ter me visto.

Eu subitamente senti uma vontade imensa de ir até ele. Naquele momento não interessava nossas rixas antigas, nem o quanto eu o odiava. Eu estava muito leve e tinha algo que queria dizer a ele. E eu senti que precisava, desesperadamente, lhe dizer naquele momento, antes que ele fugisse, fosse embora. Era necessário eu dizer aquilo a ele.

Sem avisar ninguém, embora ninguém prestasse mesmo atenção em mim naquele momento, fui abrindo caminho entre as pessoas até onde Eric estava. Agora, ele conversava com um cara mal-encarado e vagamente conhecido.

— Preciso falar com você. – eu disse alto, me intrometendo no grupo de rapazes, todos parando de repente para me olhar, como se soubessem que Eric ia me matar em seguida pelo simples fato de eu os ter interrompido.

Eric disse alguma coisa para o cara com quem conversava e, simplesmente afastou-se da parede e pegou-me pelo braço, não com violência, também não com gentileza, e me levou pelo meio das pessoas até chegarmos a um corredor onde o som era mais abafado.

— Você está bêbada, Careta. – ele constatou me olhando com os olhos estreitos, cruzando os braços sobre o peito.

— Não estou não! – eu disse levantando o dedo indicador, indignada.

— Nossa, como você está bêbada... – ele constatou novamente, e, estranhamente sorriu.

E naquele momento, eu percebi como o sorriso dele era bonito, um sorriso calmo que eu desconhecia completamente.

Eu fiquei meio boba, encarando-o.

— E o que você ia me dizer? – ele indagou depois de um instante de silêncio. – E por que está me encarando como uma maluca?

Minha mente parou por um momento. O espaço estava girando, Eric girou. Um leve enjoou perpassou meu estômago.

— Você... – eu balbuciei. – Eu... Eu queria... Eu...

— Sim? – ele pareceu um pouco impaciente.

— Agradecer. – falei pegando nos ombros dele e me aproximando, quanto tempo fazia que não me aproximava tanto de um cara? E, naquele momento, mesmo esse cara sendo um sociopata que já tinha me metido muito medo, eu queria chegar perto dele. – estou grata por você ter me salvado. – falei muito próximo ao rosto dele.

— Que porra você está dizendo, Careta? – ele falou com suavidade, me encarando muito de perto. – nunca fiz nada por você.

— Você sabe que fez... – eu disse pegando na gola do casaco dele. Era tão gostosa essa proximidade, ele era quente, cheiroso, (Deus como ele era cheiroso!) e eu percebi que estava com frio naquele corredor. Aquele vestido decotado e de costas nuas não era a melhor vestimenta para uma noite fria. Maldita Christina.

De súbito, me afastei dele, um lapso de sobriedade. – É melhor eu ir embora. – respondi quando senti-me enjoada novamente.

— Pra onde você vai? – ele indagou quando me afastei.

— Pro meu apartamento. – Falei caminhando de costas, e batendo dolorosamente contra uma parede.

— Nesse estado você não chega muito longe. Vem comigo... – ele pegou meu braço e me guiou novamente, dessa vez para longe do fosso.

— Isso já está se tornando um hábito... – eu brinquei quando chegamos a um corredor vazio. Eu estava leve... embora o enjoo voltasse a cada minuto.

— O quê? – ele indagou enquanto apertava os botões do elevador.

— Você... – eu disse me aproximando novamente, - me levando para algum lugar...

— Não tenho culpa se você é uma desorientada... – ele sorriu novamente como da outra vez. Eu não fiquei zangada com ele. A porta do elevador abriu.

— Eu estou com frio... – disse após me recostar no fundo gelado do elevador, que era de vidro e mostrava a noite escura lá fora.

— Isso é por que você não saiu vestida hoje a noite, Careta. – ele falou recostando-se ao meu lado, uma perna cruzada contra parede e o corpo apoiado na outra. – Não vou te dar meu casaco, se é isso que pensa que vou fazer, - disse me olhando.

— Eu não esperaria esse ato de gentileza sua. – disse irritada, virando-me e recostando agora meu rosto e meu busto contra a parede fria de vidro, o elevador subia e eu estava novamente ficando enjoada.

— Não é que eu não seja gentil, - Eric disse quando virei meu rosto para olhá-lo – mas eu prefiro ver você assim.

Meu queixo deve ter caído naquele momento. Meu enjoo chegou ao seu limite com o baque do elevador parando. A última coisa que me lembro é da náusea e que vomitei em cima de Eric.

Acordei com a sensação terrível de que minha cabeça estava prestes a explodir. Abrir os olhos era um martírio incalculável. Fiquei rolando de um lado para o outro tentando voltar a dormir para ver se a dor desaparecia, mas não aconteceu.

Recostei-me mais no colchão confortável e nos lençóis quentinhos e macios que iam até meu pescoço. Senti minhas pernas roçarem uma na outra. Estava tão gostoso... e eu... eu estava... nua?

Abri os olhos para perceber, com espanto, que aquele teto alto e impecavelmente branco não era do velho apartamento que eu dividia com Christina.

E aqueles lençóis negros e macios não eram meus lençóis surrados e velhos.

Eu, definitivamente, não estava em casa.

E estava nua.

Sentei na cama me cobrindo e olhei em volta. Eu estava em um apartamento muito arrumado, em um tipo de quarto que dava para a porta da frente, eu via uma sala bonita à minha frente e o que parecia ser uma cozinha moderna ao meu lado em um patamar dois degraus mais alto.

Pensei na noite anterior, pensei aonde eu estivera, com quem eu estivera. A última pessoa com quem eu estivera. Eric.

Um tipo de terror daqueles que eu só sentia na minha paisagem do medo, se instalou em mim. O que eu tinha feito?

— Ah, finalmente acordou, Careta. - A voz grossa e inconfundível de Eric chamou minha atenção. Ele vinha da onde eu pensava ser a cozinha, trazia um tablet em uma mão e uma caneca fumegante na outra. Vestia apenas uma regata, e para todos os meus terrores, apenas uma cueca box, também preta, que deixava visível... bem, mais do que eu queria ver.

— O que eu estou fazendo aqui? – perguntei apavorada. – E onde estão minhas roupas?

Eric apenas tomou um gole da caneca que trazia, veio até próximo a cama.

— Você apagou no elevador... – ele explicou. – bem, vomitou, apagou, acordou, vomitou de novo, fez barulho, esperneou, vomitou novamente, me bateu, vomitou outra vez, e, por fim, apagou. Acho que foi basicamente isso.

— E minha roupa? – indaguei novamente, minha cabeça zunindo.

— Você tirou ela quando joguei você no chuveiro.

— Eu... tirei? – questionei novamente, atônita. Era perceptível a nota de pânico na minha voz, ao me imaginar nua, bêbada e a mercê de Eric.

— Eu cobri você com uma toalha quando te tirei de debaixo do chuveiro. Te joguei lá por que achei que você estava entrando em algum tipo de coma alcoólico.

— E eu tirei minha roupa. – eu não conseguia parar de me concentrar nesse ponto.

— Eu já disse. – ele simplesmente retorquiu. –e pare de me olhar desse jeito, Careta. Não sou nenhum pervertido. E você acha mesmo que um cara como eu precise se aproveitar de uma garota bêbada? – Ele disse sarcástico voltando-se novamente para cozinha. – E, a propósito, sua roupa está dobrada a seus pés. Não viu?

Ele saiu e eu olhei para o vestido cuidadosamente dobrado na outra ponta da cama. Peguei-o e me levantei vestindo com urgência devido a ausência inquietante de paredes naquele lugar. Eric não voltara da cozinha. Encontrei minha calcinha dobrada embaixo do vestido e isso me deixou muito sem jeito. Afastei para o lado a imagem de Eric pegando minha calcinha, o que fazia algo no meu estômago esfriar e levantei da cama juntando o máximo de dignidade que pude. Encontrei minha sandália arrumada em um canto, peguei-as, mas não calcei.

Subi os dois degraus que levavam a cozinha. Eric estava recostado à mesa de metal que ficava no centro do cômodo, lendo. Ainda segurava a caneca fumegante na outra mão. Parecia concentrado.

— É... – engasguei ao começar a falar para chamar a atenção dele. – estou indo.

Eric levantou os olhos, desinteressado.

— O caminho não é muito difícil de achar. – ele disse referindo-se a porta da frente, que estava logo atrás de mim.

Eu o encarei por um momento constrangedor, e como não tinha o que dizer, dei-lhe as costas e saí.

Peguei o elevador sentindo-me extremamente perturbada, e minha cabeça ainda latejava. Agradeci a Deus por não ter sido vista saindo aquela hora e naquele estado do apartamento de Eric.

Quando cheguei a meu próprio apartamento, não encontrei ninguém e a porta do quarto de Christina estava fechada, ela provavelmente ainda dormia, o que era melhor pra mim.

Tomei dois comprimidos de analgésico e adormeci profundamente em seguida.

ERIC

Agradeci mentalmente quando ela foi embora.

A Careta me dera muito trabalho noite passada, mas até que tinha sido divertido. Foi divertido a forma como ela esperneou, gritou, me bateu e tentou, inutilmente, se desvencilhar. Eu gostava dela bêbada, era arisca e engraçada. Devia liberar bebida mais vezes, se fosse para deixá-la assim novamente. E além do mais, eu já podia notar, pela minha experiência com mulheres, que ela estava caindo na minha lábia de bom moço. Eu estava me mantendo distante de propósito e quando ela caísse por mim, ia achar que fora por ideia própria.

Eu estava muito satisfeito com o progresso do meu plano, mas também me sentia um pouco ansioso. Antes, eu estava achando que tê-la seria apenas uma consequência, que eu ia ficar com ela por um objetivo específico. Mas agora, depois de vê-la noite passada naquele vestido, eu entendi um pouco por que o imbecil do Quatro a quis. Ela tinha alguma coisa. Tinha mesmo.

Quando a vi nua, percebi que não seria nenhum sacrifício dormir com ela. Aliás, meu amigo aqui até ansiou por isso. Ela tinha um corpo pequeno, delicado, gracioso. Parecia uma virgem, mas claro que não era, ela foi de Quatro por muito tempo. Mas agora não era mais e esse pensamento me deixou feliz.

E eu constatei que estava um mesmo um pouco ansioso em tê-la.

De repente, me toquei que estava pensando muita besteira. Terminei meu café e liguei para Nicole, eu estava era precisando de alguém para aquietar meus desejos.

NOTAS FINAIS

O apartamento de Eric foi inspirado naquele apartamento super estiloso do clip "Always" de Bon Jovi.