Divergente não me pertence.

CAPÍTULO 06

Indo, sobretudo, em frente

"E ela imagina todos os lugares

onde ela sabe que ainda pertence,

E ela dá um sorriso secreto,

Porque ela sabe exatamente como seguir em frente."

Run, baby, run – Sheryl Crow

ERIC

Fui treinar muito cedo na segunda-feira, ainda não queria encontrar a Careta na sala de treinamento, pois achava que ela ainda não se encontrava forte o suficiente para me enfrentar numa luta, e acho que machucá-la não seria muito benéfico para meu plano de aproximação.

Para minha grande surpresa, quando cheguei a sala de treinamento, a Careta já se encontrava lá, sentada no chão ao lado de sua mochila, aparentemente me esperando.

— O que faz aqui a essa hora? – eu perguntei ao vê-la me encarando de onde estava. - O sol mal acabou de nascer... – não a encarei, imaginei que ela ainda poderia estar constrangida pelo nosso último encontro no sábado, mas ela não parecia envergonhada ou coisa do tipo.

— Você disse que queria que eu treinasse com você. – ela respondeu ficando de pé. – mas até agora você sempre está terminando quando eu chego. Por isso, resolvi vir mais cedo.

— Eu ainda não quero treinar com você. – eu disse jogando minha mochila de treino em um canto e começando meu aquecimento. – quando você estiver pronta, a gente conversa.

— Eu estou pronta, Eric. – ela disse se aproximando chegando na minha frente e me olhando com os olhos cheios de uma determinação que era típica dela e velha conhecida minha.

Eu a olhei por um instante sem dizer nada. Estávamos frente a frente. Devo confessar que sempre admirei a fibra dessa garota. Acho que por isso fiquei tão perturbado ao vê-lo destruída após a morte do Quatro.

— Tudo bem. – eu assenti. – Vamos para o ringue.

Achei que chamá-la para uma luta seria uma maneira rápida de persuadi-la a desistir de treinar comigo e achei que tinha tido sucesso quando a vi hesitar uma fração de segundo.

— Que foi Careta? – eu provoquei ao entrar no ringue. – Ficou com medo agora?

—Eu não tenho medo de você, Eric. – Ela respondeu tirando o moletom que usava e ficando apenas com um top preto. Olhei para o contorno dos seios que eu já conhecia, e que passara a gostar muito. Ela pareceu não perceber que eu a olhava com mais atenção, e entrou no ringue.

— Você lembra como é? – indaguei provocativo ficando em posição de defesa.

— Ainda tenho as cicatrizes. - ela disse repetindo meu gesto.

Nossa luta durou menos de um minuto. Ela ainda não estava preparada, como eu já imaginava. Tentou atacar meu pescoço como um soco como eu sabia que faria e me protegi do golpe, aproveitando em seguida para derrubá-la com um chute nas costas. Ela caiu de bruços e eu a prendi no chão e caí por cima, prendendo-a com o meu corpo que cobria totalmente o dela. Queria provocá-la.

— Você não lembra não. – eu sussurrei ao ouvido dela, ainda prendendo-a sob meu corpo, minha boca propositalmente tocando-lhe a orelha. – Coragem sem preparação é insensatez. Nós somos soldados, não rebeldes, Careta.

Ela não disse nada, mas senti que seu corpo estremeceu. Eu não queria assustá-la naquele momento, eu queria dar-lhe uma lição, eu fora seu instrutor afinal de contas.

Em um salto saí de cima dela, ela rolou e ficou aos meus pés, me olhando.

— Me ensine, então. – pediu enquanto me encarava obstinada. – Seja meu instrutor novamente, Eric.

Por essa eu não esperava, mas a ideia não me desagradou de todo, isso me daria mais oportunidades para me aproximar dela.

— Eu nunca deixei de ser, Careta. – respondi encarando-a também e dando-lhe a mão para ajudá-la a levantar.

Ela não aceitou e se levantou sozinha.

TRIS

Eric aceitou ser meu instrutor novamente. Ele vai me treinar para que eu volte a minha antiga forma física. Sei que não vou usar desse treinamento na minha ocupação atual, mas preciso me sentir um soldado novamente. Me sentir digna de estar na Audácia.

Treinar com Eric me ajudaria com isso, contudo, eu ainda estava perturbada com uma coisa.

O comportamento de Eric estava muito estranho.

Ele não parece o mesmo cara que conheci, e isso tem me deixado confusa. Ele tem sido gentil, apesar de tudo. Aceitou me treinar e não pediu nada em troca. Isso me pareceu muito estranho, Eric sempre me pareceu ser um cara que sabia exatamente quanto ia lucrar por cada ação que fazia. Ele não tinha nada a ganhar sendo gentil com uma ex-inicianda que o detestava e que casou com o cara que ele mais odiava na vida.

Eu estava mergulhada nesses pensamentos aquela tarde enquanto limpava a sala dele. Eu não estranhava a parte dos trabalhos domésticos, passei minha vida inteira na Abnegação fazendo trabalhos domésticos, então até gostava de fazer a limpeza da sala, era um tipo de terapia e as coisas de Eric até que eram muito interessantes.

A porta da sala abriu de supetão enquanto eu limpava a prateleira mais alta de uma estante de madeira que era embutida na parede. Eric entrou enquanto eu estava no degrau mais alto da escada que eu usava para limpeza, mais quatro pessoas entraram na sala depois dele. Reconheci Max e os outros três líderes da Audácia. Todos vinham conversando.

Eric foi até sua mesa e sentou, Max e outro líder sentaram nas cadeiras em frente a mesa de Eric e os outros dois em um pequeno divã que havia a direita da mesa. Eles pareceram não notar, ou não se importar com minha presença.

— Vai ser uma reunião difícil. – ouvi Max dizer com um suspiro. – Acho que vamos perder mais essa. Vão criticar e cortar todos os pontos do orçamento, tenho certeza.

— Eles não podem simplesmente barrar nossos recursos, - um dos outros falou, uma mulher de cabelos vermelhos que eu já havia visto, Ava era o nome dela, eu acho.

— Eles podem, e vão. – um dos líderes que estava no divã constatou irritado.

Soube imediatamente que falavam do orçamento da Audácia para o ano seguinte, eu vira Eric trabalhando nele desde que começara a trabalhar ali.

— A culpa é toda desses pacifistas da Abnegação. – Eric reclamou. - A Abnegação odeia armas e farão o possível para tirar nosso poder de fogo.

— A Abnegação não odeia armas! – eu falei sem pensar e mais alto do que eu pretendia. Todos os cinco olharam para mim que ainda estava de pé na escada de madeira segurando um livro que eu limpava.

— Um ponto de vista interessante, Tris. – Max disse parecendo surpreso em me ver ali, eu estremeci ao ver o olhar zangado de Eric voltado para mim. – Principalmente por vir de alguém que já foi um deles. Quer fazer a gentileza de explicá-lo para nós.

Max fez um gesto para que eu me aproximasse, eu desci a escada cautelosamente e andei até eles com a certeza que Eric me demitiria, ou me mataria mais tarde. Ele tinha as mãos juntas e seu olhar não saía de cima de mim.

— A Abnegação não odeia armas, - recomecei em um tom de voz mais baixo. - até onde sei quem odeia armas é a amizade. A Abnegação apenas precisa saber a real utilidade das coisas. – falei como se fosse óbvio. – Eles são pragmáticos. Se acharem que as armas são necessárias, que tem uma função que vai gerar algum bem, serão a favor delas. O que vocês tem a fazer é provar que elas são necessárias para nossa proteção. Assim como mostrar que é necessário melhorar nossos equipamentos, pois a gente congela no frio patrulhando a cerca lá fora, ou melhorar nosso sistema de monitoramento, pois assim, talvez não teríamos sido atacados. E talvez vidas não tivessem sido perdidas...

Quando me calei, um pouco inquieta, vi que todos na sala prestavam atenção em mim. Prestavam muita atenção em mim, na verdade.

— Bonito discurso, Careta. – Eric disse sem parecer impressionado. – Mas como você, que é tão brilhante, os convenceria disso?

Eric estava me testando, mas a resposta me pareceu novamente óbvia.

— Ao invés de fazer um relatório só com números como esse que está na sua mesa, – comecei encarando Eric. - eu incluiria nele um relatório de todas as mortes, roubos e demais crimes impedidos pelo patrulhamento da Audácia. Incluiria a quantidade de carga roubada recuperada, incluiria os nomes, os rostos das pessoas atacadas, baleadas e mortas por conta da falta de recursos necessários, por fim, apresentaria uma estimativa do que poderia melhorar após a aplicação dos recursos.

Me calei e todos permaneceram em silêncio. Meu coração batia descompassadamente.

— É uma ideia interessante. – Max falou depois do que pareceram séculos. – O que acha, Eric?

— Acho que o orçamento atual está bom. – ele disse frio sem tirar o olhar de mim, como se estivesse contendo sua fúria.

— Não. – Max replicou, - acho que as ideias da garota fazem sentido. Não custa nada tentar. Eric, melhore seu relatório orçamentário com todos esses pontos e nos apresente novamente semana que vem. – Max disse levantando-se. – Creio que sua assistente terá grande prazer em ajudar. – Acrescentou olhando para mim com um sorriso enigmático.

Todos os líderes da Audácia me olharam novamente, pareciam em expectativa, exceto por Eric, ele me olhava de uma forma perigosa que eu já conhecia.

— Esteja aqui às vinte horas, Careta. – Eric, que não falara comigo desde a saída dos outros líderes da Audácia, me falou sem tirar os olhos do computador, enquanto eu vestia meu casaco para ir embora no final da tarde.

— Meu expediente já acabou por hoje, Eric. – eu respondi cansada. Estava de pé desde que o sol nascera e queria muito chegar em casa.

Eric tirou os olhos do computador, ficou de pé e me olhou.

— Não foi você quem deu milhares de ideias para alterar meu relatório? Pois agora vai fazer hora extra pra me ajudar a terminá-lo. Às vinte, Careta. E não se atrase.

Cheguei no refeitório da Audácia amaldiçoando minha boca grande.

Deus sabe tudo o que Eric ia fazer para descontar em mim por ter apontado as falhas no relatório orçamentário dele. Ele me faria pagar, isso era inevitável.

Jantei super rápido pensando em dormir um pouco antes de reencontrar Eric, mas quando saí do refeitório fui interrompida por alguém que chamou meu nome, quando olhei para trás, vi que Zeke vinha no corredor e fez sinal para que eu o aguardasse.

— Oi Tris! – ele cumprimentou assim que se aproximou de mim.

— Oi Zeke, tudo beleza?

— Tris, eu queria falar com você um instante, pode ser? – ele indagou com hesitação.

— Claro, - eu disse, mesmo estranhando um pouco. – Vamos sentar aqui perto do fosso.

Ele me acompanhou e quando nos acomodamos em um canto no chão próximo ao fosso, ele começou a falar.

— Tris, eu fui para o plantão na sala de monitoramento no domingo de manhã. Logo depois que saí da festa. – ele contou parecendo um pouco ansioso. – E vi você saindo do apartamento de Eric.

— Você estava me espionando, Zeke? – indaguei irritada.

— Não, não é isso. – ele tentou se explicar. – Nós sempre monitoramos os corredores apartamentos dos líderes e as movimentações nele. E você apareceu na tela...

— Sim, eu estava lá.- respondi ainda irritada, não entendia a onde Zeke queria chegar com aquilo.

— Você dormiu com Eric, Tris? – ele perguntou em seguida como se estivesse insinuando que eu cometera um crime horrível.

— Claro que não! – respondi escandalizada. – essa ideia nunca passou pela minha cabeça!

— Mas você estava... – ele recomeçou.

— O que eu estava fazendo no apartamento de Eric é apenas de minha conta, Zeke. – eu o interrompi. – E nem você, nem ninguém tem direito de se meter.

— Tris, estamos apenas preocupados. – ele insistiu. – Eric está te cercando. Todo mundo já percebeu. Ele quer alguma coisa...

— Não, Zeke. Ele não está me cercando. – eu respondi furiosa agora me levantando. – ele está me ajudando. Coisa que nenhum de vocês fez quando eu estava em um abismo de depressão. – acusei colocando pra fora a mágoa que sentia. – Vocês me viram afundar dia após dia e não fizeram nada. Se não fosse pelo Eric, nem sei onde eu estaria agora. Chega a ser irônico que o maior inimigo do Quatro seja o único que conseguiu me ajudar.

— Isso mesmo, Tris. Ele era o pior inimigo de Quatro. – Zeke insistiu levantando-se também. - E você tem que levar isso em consideração e não deve confiar nele...

— Zeke, eu sei o que estou fazendo. E apesar de você ter sido o melhor amigo de Quatro, você não tem o direito de se meter na minha vida.

Dizendo isso, virei-lhe as costas e parti para o meu apartamento.

Cheguei pontualmente às vinte horas na sala de Eric.

Quando abri a porta, cuja a chave eu agora possuía, encontrei uma cena engraçada. No centro da sala havia um computador prateado do tipo notebook no chão e algumas pilhas de enormes de papel. Eric estava sentado no chão e mantinha-se recostado em algumas almofadas próximo a estante, tinha outro computador igual em seu colo. Tinha também uma grande caneca fumegante ao seu lado, o que eu imaginei ser café.

— Careta, aquela pilha ali é sua. – ele falou sem me olhar enquanto digitava freneticamente no computador.

Eu me aproximei da primeira pilha que devia ter umas mil folhas.

— Mas o que é tudo isso?

— São as ocorrências dos agentes da Audácia de todos os plantões na cerca e na cidade no último ano. Pra você procurar os crimes, cargas roubadas...

— Não temos isso em algum banco de dados? – indaguei sabendo que era um trabalho impraticável analisar tudo aquilo.

— Não, os guardas fazem a ocorrência a moda antiga, lembra-se? – ele disse irônico. – Não temos recursos suficientes para que todos tenham computadores de mão. Mãos à obra, Careta. – ele disse com um sorriso de satisfação.

Retirei meu casaco e sentei ao lado da pilha, o notebook estava aberto em uma planilha que eu sabia que seria para eu preencher. Comecei pegando a primeira folha da pilha.

Seria uma longa noite.