Divergente não me pertence.

CAPÍTULO 7

Companheiros de equipe, parceiros no crime e algo mais

" Jogue o jogo essa noite.

Você pode me dizer se isso é certo ou errado?

Será que vale o tempo? Será que vale o preço?

Você se vê sob um holofote branco, então jogue o jogo esta noite.

Play the game tonight, Kansas

TRIS

Fiquei até uma da manhã na sala do Eric.

Foi assim àquela noite e nas noites que se seguiram. Nos tínhamos uma semana para terminar aquele relatório e nossos dias e nossas noites estavam preenchidos por ele. Eu estava trabalhando muito, mas Eric não ficava pra trás, estava trabalhando tanto quanto eu, analisando dados, corrigindo provisões em seu orçamento antigo e até me ajudando em alguns momentos.

Logo criamos um sistema de trabalho em que eu colocava os dados nas planilhas e ele fazia a análise. Era um trabalho hercúleo analisar todos os gastos e provimentos da Audácia em um ano inteiro, assim como todo o trabalho produzido pela facção, mas estávamos progredindo, mesmo que lentamente.

— Ei, tome isso.

Era quinta-feira quase meia-noite e eu estava tentando não cochilar sobre a planilha que preenchia, quando Eric colocou uma caneca enorme de café na minha frente.

— Eu não gosto, - respondi esfregando os olhos.

— Tome, Careta, vai lhe manter acordada. – ele insistiu colocando a caneca em minha frente.

Aspirei o perfume do café e achei enjoativo aquela hora da noite. Tomei um gole e era forte e amargo. Nunca tinha tomado assim, mas gostei. Bebi novamente fazendo careta e quando abri os olhos vi que Eric me olhava divertido enquanto tomava seu próprio café.

— Você faz uma cara engraçada... – ele disse quase rindo, estava sentado no chão próximo a mim, recostado em uma estante. - Como alguém pode não gostar de café...

— Ah, não enche, Eric.

— Veja como fala comigo. – ele ralhou, mas não estava com raiva. – Você não precisa beber tudo de uma vez. É nossa hora do descanso. – ele disse espreguiçando-se.

Eu bocejei e sorri.

— Você se importa, se eu... – perguntei me recostando em algumas almofadas que tirei do divã e havia colocado no chão.

— Apenas não durma, Careta. – ele disse quando eu deitei sobre as almofadas e, imediatamente, fechei os olhos.

Acordei assustada.

Eric estava ao meu lado digitando freneticamente em seu notebook.

— Quanto tempo eu dormi? – perguntei assustada.

— Umas duas horas, - Eric respondeu ainda trabalhando.

— E você não chutou minhas canelas pra me acordar? – perguntei surpresa.

— Você parecia muito cansada... – ele comentou ainda digitando.

— E você não?

— Eu tomei muito café, - ele explicou, - minha bateria ainda não acabou.

— Pois você deveria parar, - disse olhando meu relógio de pulso. Eram quase três da manhã.

— Se quiser, pode ir.

— Você também vai, Eric. – disse me levantando. – Amanhã ainda tem uma montanha disso pra fazer e se você não descansar, nós não vamos conseguir. E estamos exaustos...

Eric parou de digitar e me olhou.

— Está bem. – ele respondeu deixando o computador de lado e se levantando.- Não vou mesmo conseguir me concentrar com você me enchendo.

Eu estava impressionada com meu poder persuasão, ou não, conclui apenas que Eric estivesse realmente cansado e não queria admitir.

Nas noites anteriores, eu sempre ia embora e ele ficava, então nem tinha noção de até que horas ele estava trabalhando. Saímos juntos da sala, ele apagando as luzes ao sairmos. Fomos em silêncio até o elevador.

Íamos pegar elevadores diferentes. Ele ia subir, eu ia descer. Apertamos os respectivos botões e ficamos aguardando os elevadores.

— Você não precisa treinar amanhã de manhã. – Eric me dispensou olhando para a porta do elevador.

— Obrigada, – agradeci, surpresa com a liberação. – Acho que eu não teria condições mesmo. E você? Vai treinar?

— Eu vou estar aqui fazendo esse trabalho. – ele disse sem emoção.

— Pois eu virei assim que acordar. – assenti me comprometendo.

O silêncio caiu sobre nós novamente. Eric e eu nos falávamos muito quando o assunto era trabalho, mas quando não era, ele parecia me evitar.

— Eric... – eu comecei a falar quando ouvimos o bipe e a porta do elevador dele se abrir.

— Até amanhã, Careta. – ele disse entrando sem me olhar.

Na sexta acordei às oito e segui para a sala de Eric sem tomar café da manhã. Ele já estava lá quando eu cheguei. Quando me viu, simplesmente me serviu um pouco do café que tomava e comecei a trabalhar. Não saímos pra almoçar nem jantar, alguém do refeitório trouxe nossa comida. Trabalhamos novamente até tarde da noite.

Acordei na manhã seguinte sentindo-me aconchegada por um corpo quente e que me envolvia, um braço prendia meu abdômen e podia sentir um respiração em meu ouvido, era muito gostoso ter Quatro assim pertinho, fazia tanto tempo... me aconcheguei novamente e meu cérebro levou alguns segundos para entender o absurdo da situação, já que Quatro estava morto há mais de um ano.

Abri os olhos assustada para encarar a sala de Eric e perceber que era ele quem dormia placidamente e me aconchegava em seus braços.

Percebi que devíamos ter caído no sono e que, de alguma forma, nos embolamos durante a noite. Observei por um momento como ele parecia calmo e quase inofensivo enquanto dormia. Eu não tinha coragem de acordá-lo, por isso, tirei o braço dele o mais devagar que pude da minha cintura e levantei.

Nós ainda não tínhamos concluído o trabalho e eu sabia que precisaria voltar.

Peguei meu casaco e fui até meu apartamento, tomei um banho rápido e fui ao refeitório. Ainda era cedo então comi e preparei uma bandeja com café da manhã para levar para Eric, voltei em meia hora para a sala dele.

Eric já estava trabalhando novamente quando voltei.

Ele disse um rápido obrigado pelo café da manhã que eu tinha levado e se serviu dele enquanto eu voltava ao trabalho. Não comentou sobre termos dormido ali mesmo e nem posso dizer se ele próprio lembrava de algo.

Mais ou menos no final da tarde concluí minha parte do trabalho, Eric me liberou e disse que ia ficar para fazer alguns últimos detalhes.

Voltei para meu apartamento muito cansada, mas satisfeita. Tínhamos concluído o trabalho antes da segunda e isso era maravilhoso. Eric não me agradecera, mas ele também tinha trabalhado muito e talvez ele achasse que eu não tinha feito mais que a obrigação depois de ter nos colocado naquela situação toda.

Eu cochilei assim que cheguei, estava exausta e quando o acordei novamente já era noite. Me arrastei até a sala, morta de fome, pensando em preparar algo ou mesmo sair com Christina até o refeitório.

Encontrei Christina no sofá abraçada com Will.

— Oi pessoal, - eu cumprimentei depois de um bocejo.

— Tris, Eric mandou avisar que você tem que estar na sala dele às vinte horas, de novo. – Christina me informou. -O que vocês estão fazendo, heim?

— Já disse, um relatório pra ele apresentar ao conselho. – eu falei abrindo a geladeira e me servindo de um copo d'agua recostada no balcão que separava a cozinha da sala. – mas achei que tínhamos terminado hoje a tarde. – completei. - Aposto que ele achou algum erro e vai me fazer checar novamente aquela pilha de papéis...

— É só isso que estão fazendo mesmo? – Christina perguntou desconfiada. – Tome cuidado, Tris...

— Até você, Christina! – eu falei irritada. – Eu estou apenas trabalhando, será que vocês não podem entender isso?

Dizendo isso, voltei para o meu quarto, precisava tomar um banho, pra enfrentar mais uma noite de trabalho.

Quando cheguei à sala de Eric novamente, as luzes estavam ligadas, a sala completamente limpa, sem papéis ou computadores pelo chão. Ele estava sentado à sua mesa digitando algo no computador.

E estava lindo.

Eric estava com o cabelo muito bem arrumado, a barba feita e vestia uma jaqueta de couro com mangas compridas, seu perfume preenchia a sala. Imediatamente fiquei envergonhada por estar ali com minha roupa comum de trabalho, calça e blazer pretos.

— Boa noite, - eu cumprimentei ao entrar, Eric levantou os olhos para me ver. – faltou concluirmos alguma coisa?

— Não. – ele respondeu parecendo muito satisfeito. – está tudo feito.

— Então por que me chamou? – eu indaguei sem entender.

— Pra vermos o resultado final. – ele disse se levantando e pegando algo embaixo da mesa que logo percebi ser uma garrafa de uma bebida dourada e duas taças; - e comemorar. – completou com uma voz suave e levantando a garrafa.

Estremeci, eu estava acostumada a lidar com Eric numa situação de trabalho, mas confraternizar com ele, era algo novo pra mim.

— Pode se aproximar, Tris, - ele falou indicando o divã que ficava no lado direito da mesa.- Eu não mordo...

Eu tirei o casaco e fui até o divã, sentando ao lado dele e me sentindo extremamente deslocada. Eric abriu a garrafa e a rolha saltou com um estouro, ele serviu uma taça longa e me entregou, depois serviu uma pra si mesmo. Pegou um controle e apontou para uma tela que se abriu entre as estantes.

— Quero te mostrar a apresentação que eu fiz com o nosso relatório.

Eu tomei um gole da bebida e as bolhinhas fizeram cócegas na minha boca, era muito gostosa. A tela acendeu e Eric foi me mostrando cada gráfico e explicando o que significava e como aquilo era importante para o funcionamento da Audácia, e eu pude perceber que, apesar de desdenhar das ideias que eu dera para o relatório, ele havia utilizado todas e as defendia com os mesmos argumentos que utilizei para defendê-las para Max e ainda conseguiu melhorá-los. Ele era muito inteligente, eu tinha que admitir. E eu estava impressionada.

Ao fim de mais ou menos quinze minutos, ele terminou de falar.

— Então? – ele perguntou me olhando em expectativa.

— É brilhante, Eric. - Eu disse extasiada com o que ele tinha conseguido fazer com nosso trabalho.

— Sim é. – ele disse recostando-se na cabeceira do divã e bebendo um gole de sua taça. – Nós somos brilhantes.

— Eu apenas pesquisei os dados. – disse contente sentindo a bebida aguçar meus sentidos. – Você que fez tudo isso. Você é muito inteligente pra... – eu parei de falar.

— Pra um brutamontes da Audácia? – ele completou sem parecer irritado. – Qualquer dia te conto uma história. – disse com uma piscadela. – E você também é muito inteligente para a Audácia, Careta. Mas estamos aqui e você duvida que esse seja nosso lugar?

— Nunca duvidei. – eu disse encarando-o e entramos novamente em um daqueles silêncios constrangedores.

— Devo admitir que sua intervenção aquele dia até que foi benéfica. – ele disse me encarando sério. – Em um primeiro momento, eu queria te matar. – ele riu novamente. – mas depois percebi que temos muito mais chances agora de alcançar nossos objetivos.

Eu fiquei muito surpresa com aquelas palavras de Eric. Ele estava agradecendo? Por Deus, eu achava que as mulheres da Abnegação usariam batom e fariam tatuagens antes que isso pudesse acontecer.

— Você está tentando me agradecer, Eric? – Eu tomei coragem de dizer. – Você sabe de quantas formas possíveis isso é completamente irreal?

— Eu posso surpreender as pessoas, Careta. – ele falou baixinho, se aproximando muito de mim, o que me fez estremecer novamente. – Posso surpreender ainda mais você... – ele disser brindando sua taça na minha que estava suspensa em minha mão. – Tin-tin. – ele completou e bebeu outro gole de sua taça.

Eu levantei do divã, afastando-me. Aquela proximidade estava me deixando nervosa. – Bem, então, qual é o próximo passo agora? – perguntei mais para mudar de assunto do que para qualquer outra coisa.

— Vou apresentar ao Max na segunda, e se ele aprovar, e ele vai aprovar, - Eric falou confiante terminando de tomar o conteúdo de sua taça. - apresento quarta-feira no conselho.

— Espero que dê certo. – disse com sinceridade.

— Não tem como não dar.

Eu também terminei minha taça e Eric levantou-se em seguida e desligou a apresentação.

— Bem, é melhor a gente ir. – ele falou pondo sua taça e a garrafa sobre a mesa. – Você tem o que fazer e eu tenho um compromisso no fosso.

Eu pus minha taça sobre a mesa e, peguei meu casado e segui Eric porta a fora, ele desligou as luzes ao sair e chamou o elevador no hall. Dessa vez desceríamos juntos.

Entramos no elevador e ficamos em silêncio novamente até que o mesmo parou no meu andar.

— Então é isso. Obrigada, Careta. - Eric disse e depois fez algo inacreditável: deu um beijo no alto da minha cabeça.

Eu apenas disse boa noite e saí perturbada do elevador. Quando cheguei em meu apartamento, Chris estava de saída com Will.

— Pra onde vocês vão tão arrumados? – perguntei surpresa.

— Estamos indo pro fosso. – Will respondeu.

— É, tem festa lá hoje de novo. – Christina complementou com uma dancinha. – Vamos?

— Acho que não, - respondi irritada lembrando de Eric todo arrumado e do compromisso que ele disse que tinha.

Entrei no apartamento chateada e transtornada.

Estava tão acostumada a ter a companhia de Eric a semana toda, que agora que o trabalho estava concluído, eu senti um grande vazio. Todos tinham saído. Todos tinham ido se divertir e eu estava sozinha naquele apartamento escuro. Eric estava tão bonito, tão arrumado, e tinha ido pro fosso, provavelmente encontrar alguém.

Sentei no sofá da sala e tive uma epifania que me assustou. Eu estava com ciúmes de Eric? Estava sentindo falta da companhia dele? Queria ter continuado com ele o resto da noite? Por Deus, eu só podia estar ficando maluca, só podia.

Eu odiava Eric. Mas por que ele não saía da minha cabeça?

Decidi que ficar ali sentada no escuro não melhoraria nada, nunca antes melhorou. Eu ia me arrumar e ia pro fosso também. Ia ficar bêbada com meus amigos e esquecer essas besteiras que estavam passando pela minha cabeça. Mas sabia que dessa vez não ia acabar no apartamento de Eric como na semana anterior.

E desde quando eu passei a achar que isso era uma coisa ruim?