Divergente não me pertence.

CAPÍTULO 8

Culpada até que se prove o contrário

"A noite está chamando e eu tenho que ir.

O lobo está faminto. Ele comanda o show.

Ele esta lambendo seus lábios, está pronto para ganhar a caçada esta noite, para amar na primeira ferroada.

E aqui estou eu, para te estremecer como um furacão."

Rock you at a Hurricane, Scorpions

TRIS

O fosso já estava lotado quando cheguei, tudo muito semelhante com o sábado anterior. Encontrei meus amigos novamente no mesmo lugar que estavam da outra vez. Todos me cumprimentaram quando cheguei, até Zeke, que estava abraçado com Shauna e me olhou com desconfiança.

Dessa vez Lynn não estava tocando e ficou conosco, acabou me fazendo companhia já que todos os nossos amigos estavam divididos em casais.

Peguei uma bebida e fiquei em um canto ouvindo a música, tão barulhenta quanto a da semana anterior, mas eu bem que gostava daquela explosão acústica que me fazia sair um pouco da realidade e explorar um mundo só meu que estava expresso em muitas das letras das músicas que eu já estava começando a conhecer. De vez em quando eu me pegava olhando para os lados, como que procurando alguém, eu sabia quem, mas não aceitava admitir isso pra mim mesma. Cheguei até a dar uma volta com Lynn sob o pretexto de encontrar umas amigas dela e fui ao banheiro mais de uma vez, mas não vi quem a minha mente, involuntariamente, estava procurando.

Eu não estava me divertindo tanto e nem bebendo tanto quanto na semana anterior. Meus pensamentos de vez enquanto vagavam para alguém que tinha um compromisso ali, mas que não estava ali, e minha mente não queria vagar para a possibilidade dessa pessoa já ter saído com quem fora se encontrar.

Já era bem tarde quando Lynn voltou para perto de mim acompanhada de uma menina de longos cabelos violeta que eu reconheci como a vocalista da banda dela.

— Ei, Tris, quer ir comigo e com Leiah ver uma parada legal? – Lynn me perguntou depois que a amiga dela falou algo em seu ouvido.

Eu ficaria sozinha se Lynn saísse, então achei melhor acompanhá-las, não queria admitir que tinha vontade de circular novamente e, quem sabe, encontrar quem eu estava procurando, mesmo sem querer estar procurando.

Saímos pelo meio da multidão, e finalmente, bem do outro lado de onde a banda estava, vi Eric, e não sei por que, meu coração descompassou um pouco. Vi que ele estava muito próximo de uma garota ruiva muito bonita que falava algo bem próximo de seu ouvido e tinha uma mão pousada em seu ombro. Ele viu quando eu olhei e me olhou também. Quando nossos olhos se encontraram, eu desviei o olhar e segui Lynn e a amiga dela.

Pouco depois chegamos em um corredor vazio e Lynn e a amiga pararam.

— O que viemos fazer aqui, Lynn? – perguntei ainda com a cena de Eric e a ruiva na minha cabeça.

— Fica quieta, Tris, ou alguém pode nos ver. – Lynn disse baixinho, parecendo um pouco alarmada. – As câmeras não podem nos ver. Estamos esperando alguém. – explicou.

Ficamos paradas por alguns minutos em silêncio quando um cara alto e extremamente magro de cabelo moicano se aproximou sorrateiramente de nós.

Ele olhou para os lados de forma furtiva, falou algo com a amiga de Lynn e entregou algo para ela. Leiah recebeu alguma um pacote pequeno e se afastou do rapaz. Quando ele desapareceu na escuridão do corredor, ela veio até Lynn e eu e nos entregou o que recebeu. Eram algumas pílulas coloridas.

— O que é isso, Lynn? – eu perguntei pegando a pílula que ela me ofereceu. – Remédios?

— Quase, Tris. – Lynn respondeu sorrindo. – é algo pra gente ficar legal. Toma, vai.

Eu peguei os comprimidos rosa e pensei se deveria tomar aquilo, parecia perigoso, contudo, antes mesmo de colocar o comprimido na boca, fui interrompida.

— Ei, vocês três, o que estão fazendo?

Lynn e Leiah olharam assustada para os dois guardas que se aproximaram de nós. Vi quando elas jogaram bem longe os comprimidos que tinham nas mãos. Eu, ao contrário, peguei os comprimidos que eu tinha e fechei na minha mão direita.

— Não estamos fazendo nada, Josh. – Lynn respondeu para o guarda que chegou primeiro, fazendo sua melhor cara de inocente.

— Não minta, Lynn, - o guarda falou muito sério. - Vimos vocês conversando com Rauph agora a pouco.

— E daí? – Lynn indagou despreocupadamente.

— Daí que ele estava vendendo comprimidos, e foi preso. – o guarda respondeu irredutível.

— Nós não temos nada. – Leiah falou pela primeira vez, ela estava muito pálida e parecia apavorada.

— Se não tem, então mostrem as mãos. – o outro guarda perguntou no exato momento em que tomou as mãos de Lynn, enquanto o guarda Josh, pegou minhas mãos de forma truculenta e abriu a mão que eu tinha fechado.

Ele sorriu de satisfação quando viu os pequenos comprimidos que estavam comigo.

— Bem, isso é muito... muito ruim pra você, garota... – ele disse parecendo se divertir com a situação.

O outro guarda não tinha encontrado nada com Lynn e Leiah. De relance, vi que as duas me olhavam em pânico, estranhamente, eu estava muito calma, pensei que devia ser por conta do álcool.

— Vocês duas estão liberadas. - O outro guarda disse pra Lynn e pra Leiah. Agora você... – ele disse olhando pra mim. – Vai ter que vir conosco.

— Vocês não podem levá-la! – Lynn falou com a voz esganiçada.

— Podemos e vamos. – Josh, o guarda que conhecia Lynn, pegou meu braço com força. – Me acompanhe.

O outro guarda ficou com Lynn que protestava e com Leiah que estava muito quieta. Eu estava calma e calada, sendo conduzida por Josh, pelo corredor.

— Você não precisa apertar meu braço forte assim! – eu reclamei enquanto era arrastada pelo corredor. – Já viu seu tamanho e já viu o meu? Não vou fugir.

— Cale a boca, ou sua situação só vai piorar. – ele disse sem me olhar, estava me levando para os subterrâneos.

Eu não entendia qual a gravidade do meu crime, e não sabia como a Audácia cuidava desse tipo de coisa, mas já imaginava que não seria bom.

Descemos uma pequena escada e entramos por um corredor mal iluminado.

Josh praticamente me jogou dentro de uma sala escura. Olhei em volta e havia apenas uma pequena mesa com duas cadeiras uma na frente da outra. Josh fez sinal para que eu sentasse. Sentei numa cadeira e ele sentou na outra, cruzou os braços e me encarou sorrindo de forma satisfeita, mas não disse nada.

— Onde estamos? Acho que tenho o direito de saber. – perguntei com raiva, percebi que tinha alguém muito cínico e muito satisfeito consigo próprio na minha frente.

— Essa é uma sala de interrogatório. – ele respondeu tirando do bolso algo que reconheci como um pequeno gravador. – Você será interrogada por ter sido pega em flagrante em posse de drogas ilícitas.

A situação me parecia tão absurda que permaneci sem reação. Josh parecia estar aproveitando o momento, com certeza não fazia prisões em flagrante com muita frequência.

— Diga seu nome e endereço. – ele falou colocando o gravador no centro da mesa.

— Bea... – me interrompi. – Tris... Prior... Eaton. – falei com amargura o último nome.

— Ah, eu sabia que conhecia você! – ele disse apertando um botão no gravador, desligando-o. – Você é a viúva do Quatro! Aquele cara se achava... – resmungou. – Imagina a cara dele se lhe visse nessa situação? Ele não ficaria muito satisfeito de te ver nessa situação, ficaria?

Meu sangue ferveu naquele momento. Olhei para aquele sorriso cínico na cara dele e queria tirá-lo de lá. Eu parti pra cima de Josh e lhe dei um soco que o derrubou da cadeira.

— Vadia! – ele gritou com a mão no nariz que sangrava e me deu um soco que me derrubou contra a parede, imediatamente senti gosto de sangue em minha boca, o soco fez um corte em meu lábio inferior.

— Sente... nessa... cadeira. – ele mandou de pé, ofegando e apontado para a cadeira, limpava o sangue que saía do nariz com um pano. – Você vai se dar muito mal por isso! – ele disse enquanto eu ainda estava no chão. - AGORA SENTE NA PORRA DESSA CADEIRA!

Eu levantei com uma mão ainda em meu lábio que sangrava.

De pé, Josh religou o gravador.

— A acusada agrediu o guarda de forma gratuita. – ele falou.

— Gratuita o caralho! – eu revidei.

— Shiii. – ele fez. – Calada se não quiser que eu chame reforço.

Me calei e fiquei sentada ali com uma mão tentando estancar o sangue que jorrava de meu lábio sujando minha mão e meu braço.

— Diga seu endereço. – Josh mandou.

— Apt. 1231, 12° andar. Pira.

— Quem são seus familiares na facção?

— Não tenho nenhum.

Essa informação pareceu alegrar Josh, embora ele não tenha dito nada com o gravador ligado.

— Qual seu trabalho na facção? – indagou de forma automática. – ou aquele que você já perdeu. – completou maldoso depois de desligar o gravador por um instante.

— Sou assistente de um dos líderes. – Eu disse rapidamente e percebi que aquela era uma informação importante ao ver a reação surpresa de Josh. – Sou assistente do Eric. – Complementei me sentindo satisfeita ao ver a preocupação perpassar o semblante de Josh.

— Que mentira! – Josh retrucou sarcástico após desligar o gravador novamente. – Todo mundo sabe que Eric odiava o Quatro, por que diabos trabalharia com a viúva dele?

— Bem, isso não é da sua conta. – a voz calma de Eric preencheu todo o recinto.

Como estávamos de costas para a porta, não percebemos sua entrada na sala mal iluminada. Eu tive que virar o rosto para vê-lo dando um passo em nossa direção.

Josh parecia francamente apavorado quando o olhei e eu não senti nem um pouco de pena, na verdade eu tinha vontade de rir da situação toda, mas me contive.

Eric veio até a cadeira onde eu estava e se agachou ficando frente a frente comigo. Tirou a mão que eu apertava o corte no meu lábio.

— Isso não vai ficar nada bonito... – ele disse levantando em seguida e voltando-se para Josh. – Acho que nós vamos ter que abrir um processo administrativo para saber por que você anda batendo nas testemunhas durante os interrogatórios, Josh. Você já viu o seu tamanho e o tamanho dela?

— Ela quebrou meu nariz, senhor.– Josh defendeu-se apavorado. – É pequena, mas é traiçoeira!

— Sorte a dela, então. – Eric disse extremamente calmo. – Josh, por favor, saia da minha frente antes que eu termine de fazer no seu rosto o que a Senhora Eaton começou.

Josh não vacilou e, em pânico, saiu de imediato da sala, aos tropeços.

Eu comecei a rir quando Eric e eu ficamos a sós. Eu ri muito, muito alto.

— Você deixou o miserável apavorado! – eu disse rindo apesar da dor no meu lábio que já inchava e da consciência que isso o fazia sangrar mais.

— Ele mereceu. Idiota. – Eric disse com desgosto. - Está tudo certo com você? – Ele perguntou, acho que na sua melhor tentativa de ser gentil.

— Estou, - Eu disse levantando. Não queria parecer fraca novamente na frente dele. - Mas acho que vou precisar de uns pontos...

— Vamos até a enfermaria, então.

— Pode deixar que eu vou sozinha, Eric. – Eu falei me antecipando a ele. – Sei onde fica.

— Se eu for com você, eles vão te atender logo. – ele disse com um pouco de orgulho. – Se você for sozinha, vão te enrolar a noite toda. Ser líder tem suas vantagens. – Completou com uma piscadela.

— Tudo bem, - Eu concordei já um pouco preocupada com o corte que não parava de sangrar.

Eric me acompanhou pelos corredores para a enfermaria que ficava próximo do fosso, algumas pessoa que vinham ou iam para a festa nos olhavam quando passavam, eu completamente suja de sangue do queixo até o ombro e Eric com sua cara de poucos amigos do meu lado, possivelmente todos concluindo quem me acertara.

Na enfermaria fui atendida por uma das enfermeiras da Audácia que parecia ser bem íntima de Eric. Era estranho saber que ele também tinha amigos na Audácia, sempre o imaginei como alguém intragável que não tinha amigos. Se bem que Sue, a enfermeira, apesar de muito gentil comigo, tinha olhares muito interessados para Eric, o que me sugeriu que não foram sempre só amigos.

— Isso não vai estar muito bonito amanhã. – Sue disse quando terminou de suturar meu lábio. – mas do jeito que fiz, não ficarão cicatrizes nesse rosto lindo. – ela disse com um sorriso.

— Obrigada. – eu agradeci quando ela terminou.

— De nada. – ela respondeu muito agradável recolhendo o material. – E Eric, apareça para uma bebida qualquer dia desses, você faz falta.

— Estarei lá. – Eric disse beijando de leve o rosto de Sue que saiu muito satisfeita para atender um rapaz que estava bêbado e passando mal.

— Sue é muito agradável. – eu disse tentando parecer despreocupada.

— É sim, a namorada dela ainda é mais. – Eric falou saboreando minha reação de surpresa.

— Agora ela também me pareceu mais interessante. – brinquei. – Acho que vou voltar pra casa e pôr gelo no meu rosto, - eu disse levantando da maca. – Eu ainda vou ser processada?

— Por Deus, Careta. – Eric disse divertido me acompanhando. – Josh não vai querer mais ver sua cara nunca na vida. Mas sério, fique longe das drogas. – ele falou fechando o semblante. – Elas não são permitidas nem aqui, nem em nenhuma outra facção e as punições pra quem vende ou usa são severas.

— Eu só estava no lugar errado e na hora errada. – expliquei.

— Eu sei. Eu ouvi quando Lynn contou a história. – ele explicou me acompanhando enquanto eu saía da enfermaria.

— Lynn procurou você? – indaguei curiosa já com a certeza que ele me acompanharia até em casa.

— Lynn me odeia, não lembra? – ele disse irônico. – mas ouvi quando ela contou a história para uma amiga.

— A ruiva? – eu perguntei sem me conter, me arrependendo em seguida. A essa altura estávamos no elevador.

— Você é uma boa observadora. – ele disse um pouco surpreso. – Sim, ela contou para Nicole e eu ouvi. Por quê? Está com ciúmes, Careta? – ele brincou, mas pareceu sério depois da pergunta.

— Eu que levei um soco na cara, mas você que está desorientado. – eu ironizei, embora tenha me afastado propositalmente um pouco. – Só perguntei por que fiquei surpresa de você aparecer pra me ajudar.

A porta do elevador abriu e eu saí na frente para o corredor que dava para meu apartamento, Eric veio atrás de mim. Parei em frente a porta fechada do meu apartamento.

— Eu fui atrás por que estava preocupado com você. – ele disse em tom de confissão enquanto eu digitava o código para abrir a porta.

— Eric, você sabe de quantas formas isso que você está dizendo é inacreditável? – eu brinquei para quebrar a tensão. – Você me detesta, sempre foi assim. E esse sentimento é recíproco.

— Eu não sei se você percebeu, Careta, mas as coisas mudaram um pouco. – ele disse se aproximando perigosamente de mim. A porta do apartamento estava aberta, mas eu estava parada no portal. – Eu não detesto você. Não percebeu ainda? – ele finalizou. – E mais – disse se aproximando, nossos rostos ficando muito próximos. – Se seu lábio não estivesse machucado, acho que eu te beijaria agora.

— Eric, por favor... – eu comecei.

— Boa noite, Careta. – ele interrompeu novamente beijando o topo da minha cabeça e pegando de leve na minha mão. – Até mais.

Dizendo isso ele saiu pelo corredor semi-iluminado. Eu fiquei postada no portal do meu apartamento.

E minha cabeça estava uma bagunça.

ERIC

— A Careta está ganha. – comemorei aquela mesma noite pelo telefone para Max da cozinha de meu apartamento.

— E por que tanta certeza? – Max perguntou desconfiado.

— Eu disse que queria beijá-la e ela não tentou me bater. - falei enquanto pegava uma maçã e a olhava. – agora é só uma questão de tempo.

— Menos mal, por que tempo é o que não temos. – Max continuou. – mas seu relacionamento com a garota Prior não é o motivo da minha ligação.

— E o que é? – perguntei preocupado enquanto mordia a maçã.

— Consegui novas informações sobre os sem facção. – o tom de voz de Max era preocupado. – Eles estão planejando algo, e é grande. Eles estão mais organizados do que imaginávamos e tem um líder.

— Quem é? – perguntei sem ter a menor ideia da resposta, mas já entendendo a proporção do aquilo significava.