Divergente não me pertence.

CAPÍTULO 9

Tudo converge

"Sua mente te enganou para lhe fazer sentir a dor

de alguém próximo a você abandonando o jogo da vida.

Então aqui está uma outra chance:

Bem desperta, você encara o dia.

Seu sonho terminou... Ou ele apenas começou?"

Silent lucidity, Queensryche

TRIS

No dia seguinte, assim como Eric e Sue, a enfermeira, disseram, meu rosto estava mesmo bem feio. Meu lábio inchara e parecia ter três vezes seu tamanho inicial e a pele no entorno estava arroxeada. Aquele guarda conseguira me nocautear direitinho.

Quando levantei, calculei que já deveria ser hora do almoço. Christina viera no meu quarto na noite anterior, mas eu fingi que estava dormindo para que ela não visse meu ferimento, embora não pudesse continuar escondendo-o por muito tempo.

Quando cheguei na sala não podia prever que todos os meus amigos estavam lá em uma batalha barulhenta para fazer o almoço de domingo.

A algazarra parou de súbito quando eu saí do quarto.

— Tris! – Christina falou vindo até mim, - Que horas você chegou ontem? Ficamos preocupados, mas quando te vi em casa achei que estava tudo bem. Mas o que aconteceu com seu rosto? – perguntou me tocando próximo ao machucado.

— Uma longa história, Chris. – respondi sem ânimo. – Coisa pra outra hora... – completei observando que todos me observavam.

— Ouvi dizer que viram você passando com Eric de madrugada. – Zeke comentou em tom quase acusativo, ele estava no sofá da sala e tinha Shauna deitada em seu colo.

— Foi Eric que fez isso com você? – Christina, perguntou ficando com raiva.

— Não foi ele, não, Chris. – respondi cansada.

— Ah, e quem foi então? – Zeke replicou me encarando descrente.

— Não que seja da sua conta, Zeke, - eu respondi me irritando novamente com a perseguição de Zeke à Eric. - mas o que aconteceu foi que eu soquei o guarda que me deteu quando ele falou mal de Quatro, e ele revidou.

— E por que você estava com Eric de madrugada então? – ele perguntou ainda não parecendo acreditar.

Aquilo era inacreditavelmente chato. Eu estava preste a explodir de novo com Zeke, mas me segurei.

— Eu vou dizer por que estava com ele, por que ele foi o único que foi atrás de livrar a minha cara e ainda me levou pra enfermaria. – eu disse sarcástica e talvez alto demais. – o único. E se não fosse por ele, talvez eu ainda estivesse presa até agora, Zeke. Já parou pra pensar nisso?

Ninguém disse mais nada.

— Acho que vou almoçar no refeitório. – falei para Christina, saindo rapidamente porta à fora.

Caminhei a passos rápidos até o refeitório. Se as pessoas me olhavam ou não, eu não dava a mínima. Estava irritada demais. Irritada com Zeke, por desconfiar de mim, como se eu estivesse mentindo para defender Eric. Talvez ele nem precisasse perguntar a verdade se tivesse ao menos tentado me ajudar na noite passada.

Eu estava tão imersa em meus pensamentos que rapidamente cheguei ao refeitório. Preparei um prato e sentei sozinha em um canto, na ponta de uma mesa grande que estava vazia.

— É estranho não ver você cercada por seu círculo de seguranças habitual. – uma voz conhecida e cheia de ironia falou ao meu lado.

Olhei para cima para ver Eric que segurava uma bandeja, estava de pé ao meu lado.

— Eles estavam ocupados. – eu respondi sem emoção remexendo na comida, chateada demais com meus amigos para me preocupar com a avalanche de sensações que eu sentia agora na presença de Eric.

Eric não disse nada, apenas sentou ao meu lado.

— O rosto não está nada legal, não é? – indagou me olhando, mas sem tocar meu rosto como fizera Christina e eu agradeci aos céus por isso.

— Por que você está me cercando? – perguntei, de repente, expressando todas as dúvidas que Zeke me plantara na cabeça. – O que você quer de mim?

— Achei que tinha deixado isso bem claro ontem a noite. – ele respondeu subitamente sério e quase ofendido.

— Você só pode estar louco... – eu respondi chocada, pois não esperava tamanha sinceridade. Algo no meu estômago despencou e desisti de comer, me levantando. Deixei a bandeja no lugar onde eram desprezadas e saí rápido do refeitório.

Eric não me seguiu dessa vez.

Fui até o necrotério da Audácia buscar algo que estava lá há tempo demais me esperando.

Depois de assinar todos os papéis necessários, saí do complexo tentando não chamar atenção. Pulei em um trem levando comigo algo que me metia medo, mas que me despertava um amor e uma saudade incondicionais: as cinzas de Quatro, que estavam em uma pequena urna prateada.

Passei a viagem sentada à beira do vagão vendo a paisagem gelada e vazia da cidade naquele domingo à tarde.

Depois de um tempo que me pareceu muito rápido, cheguei onde queria.

Ela ainda estava lá.

Linda... majestosa... assustadora.

Olhei para roda gigante imensa e fantasmagórica e fui tomada por uma avalanche de sentimentos.

Medo, alegria, tristeza... saudade.

Subi devagar, como fizera da outra vez. Não pôr medo, mas com cuidado, pois levava a pequena urna em uma das mãos. As lágrimas corriam demais à medida que eu subia e uma avalanche de lembranças me soterrou naquele momento.

Fora ali, inegavelmente, que eu e Quatro desenvolvemos um vínculo, fora lá que pela primeira vez fizemos algo juntos, foi ali que ele enfrentou um de seus poucos e grandes medos, apenas para me acompanhar.

À medida que eu subia, a emoção me invadia, às lagrimas caíam e me sufocavam, o vento gelado parecia me chicotear. Com dor e dificuldade, cheguei, em um tempo que me pareceu curto demais, subi mais alto que da primeira vezem que estive ali.

Eu sabia que era chegada a hora. Finalmente eu tinha que me despedir. Prendi Quatro a mim por tanto tempo... talvez só o estivesse fazendo mal. Eu sempre o amaria, e, onde quer que ele estivesse, eu queria que ele soubesse disso.

Eu sempre vou amar você, você sabe. – eu disse quando abri a urna, as lágrimas mais abundantes que minha palavras. – Eu sei que você sempre vai estar comigo. Eu amo você...

As cinzas se espalharam por uma grande extensão, pois um vento forte e gelado bateu naquele exato momento. As lágrimas ainda tomavam conta de mim quando a urna se esvaziou.

Eu amo você... amo você... – Eu não conseguia parar de repetir à medida que as cinzas sumiam com o vento.

De repente, algo na paisagem chamou minha atenção. Olhei para os limites da área da roda gigante e vi um vulto na margem. Alguém estava me observando lá de baixo. Por um instante de loucura, aquela figura de preto lá embaixo me pareceu extremamente conhecida, mas não era possível.

Comecei a descer rapidamente a roda gigante, mas à medida que fazia isso, a pessoa lá embaixo parecia ter percebido que eu o olhava e correu para a margem do parque, eu apressei a descida, quase caindo no processo.

— Ei, ei você! – eu gritei quando já estava próximo ao chão. O vulto corria na direção contrária.

Quando cheguei embaixo, o vulto já desaparecia entre a paisagem pantanosa que cercava o parque.

Respirei cansada sob a roda gigante.

Será que eu tinha sido seguida?

Não, não, eu estava muito neurótica. Quem poderia me seguir? Eric? Mas não era ele. Disso eu tenho certeza. O porte físico daquela figura vestido de preto era mais esguio, a cabeleira escura, parecia... não, não podia ser.

Me convenci que devia ser apenas algum sem facção que estava rondando por ali ou algum membro entediado da Audácia que estava explorando a cidade.

Um arrepio percorreu meu corpo e só então percebi como aquele parque vazio era frio e assustador. Apressei o passo para voltar pra casa.

— Onde você esteve? – Christina perguntou quando cheguei em casa, já era noite.

— Pela cidade. – eu respondi evasiva me jogando no sofá.

— Eric esteve aqui a sua procura. – Christina disse sentando no sofá, na pontinha que restava. – O que diabos está rolando entre vocês? – perguntou sem rodeios com sua franqueza característica.

— Nada. – eu respondi olhando para o teto envelhecido do apartamento. – O que ele queria?

— Ele disse que você estava estranha no almoço. E que foi ao necrotério. – ela completou.

— Todos andam me vigiando agora? – indaguei sem ter ideia de como Eric sabia que eu estivera no necrotério e achando estranho imaginá-lo conversando com Christina numa conversa civilizada.

— Você pegou as cinzas do Quatro, não foi? – ela perguntou, mas seu tom era de certeza.

— Peguei, - respondi. – Acho que ele merecia paz. Merecia que eu deixasse ele ir.

— Fico feliz com isso, Tris. – Christina falou pondo sua mão sobre a minha. – Mas tome cuidado com seus próximos passos, está bem? Eu não vou julgar você, nem me meter na sua vida como você deve achar que quero fazer. Mas não quero que te façam mal.

— Não se preocupe, Chris. – eu disse sentando e abraçando minha amiga. – Não vou deixar. – respondi sabendo que ela se referia à Eric e as possibilidades que estavam à nossa frente.

Não vi Eric na segunda nem na terça feira. Ele não estava no Complexo. Nem ele, nem os outros líderes e eu não fazia ideia de onde ele estava ou o que estava fazendo.

Eu trabalhei como sempre. A ausência dele era até confortadora, pois eu estava muito confusa com o que ele me dissera para que eu o encarasse ainda. Então limpei, recebi recados, li alguns livros de Eric e passei o tempo da melhor forma que podia, dividida entre o alívio de não ter de enfrentar Eric diante dos últimos acontecimentos entre nós e a falta que eu sentia de sua companhia nos meus dias.

Na quarta feira a tarde acabei adormecendo no divã da sala de Eric enquanto lia um livro sobre a história das facções. Quando acordei já era noite, a sala estava muito fria e resolvi acender a lareira para me aquecer um pouco antes de ir embora, pois meu horário de expediente já acabara há muito tempo. Quando terminei de acender a lareira, a porta foi aberta de súbito e Eric adentrou a sala.

Eu estaquei no meio da sala e olhei pra ele. Eric exibia o maior sorriso que eu já tinha visto em sua face até aquele dia.

— Conseguimos! – ele falou entrando na sala e fechando a porta atrás de si com pressa. – Nosso relatório, foi um sucesso! – falou parecendo mais feliz do que eu jamais o tinha visto. – Conseguimos tudo que queríamos! E graças a você, Careta. – disse dando um soco suave no meu peito.

Foi quando eu entendi o por quê da alegria dele e me senti feliz e empolgada também.

— Você apresentou o relatório ao conselho? – indaguei contente e ele afirmou com a cabeça. – E eles aprovaram?

— Aprovaram tudo. E isso merece ser comemorado. – ele continuou. – Careta, eu quero te mostrar uma coisa.

Eric foi até sua mesa e abriu uma gaveta. Tirou um pequeno controle remoto de dentro dela e apontou-o para a estante de livros do lado da lareira.

No momento seguinte, a prateleira abriu para dentro da sala e no lugar que ela estava, surgiu uma parede com uma porta de aço.

— Acho que você já é digna de conhecer alguns segredos da Audácia. – ele disse vindo até mim. Eu contemplava muito surpresa aquela porta.

— O que é isso?

— Apenas me acompanhe. – ele falou abrindo a porta e mantendo-a aberta para que eu entrasse primeiro.

Eu segui pelo corredor iluminado por luzes brancas até que chegamos a um pequeno elevador. Entrei junto com Eric e apesar do lugar apertado, ele manteve-se o mais longe possível de mim.

Percebi que desde que nós aproximamos, Eric parecia nunca querer invadir meu espaço, ou me forçar a algo e eu o admirava e agradecia cada vez mais por isso.

— Ora, me diga logo o que é isso tudo? – perguntei curiosa enquanto descíamos muito rápido pelo elevador, afastando outros pensamentos da mente.

— Vou te mostrar o quartel general da nossa cidade, Careta. – Eric contou orgulhoso. – Aquele que vamos melhorar agora por causa da sua ajuda.

Eric não disse mais nada até o elevador parar. Quando a porta abriu, andamos por um pequeno corredor cuja parede inteiramente de vidro mostrava um galpão gigantesco do outro lado, onde muitas pessoas, de todas as facções pareciam trabalhar.

— Que lugar é esse? – perguntei sem conter a curiosidade, era grande demais.

— Essa é nossa linha de produção tecnológica. Fica embaixo do complexo da Audácia. – Eric falou caminhando à minha frente. – ou você acha que as coisas surgem do nada na nossa cidade? Pessoas de todas as facções trabalham aqui, mas não podem revelar a ninguém. Só os líderes da facção e as pessoas que trabalham na sala de monitoramento conhecem essa parte do complexo.

Eu tentei assimilar o mais rápido que podia toda aquela informação, mas alguma coisa parecia não se encaixar.

— Por que uma linha de produção de tecnologia precisa ser secreta? – perguntei sem entender.

— Por causa disso. – Eric falou parando em frente a outra grande porta de aço. – Sua íris foi escaneada antes da porta se abrir. Eu entrei atrás dele. – Esse é o arsenal da Audácia, Careta.

Olhei em volta para o grande galpão apinhado de prateleiras repletas de armas dos mais diversos tipos.

— Alguém poderia tomar o controle da cidade, se pudesse acessar esse arsenal. – Eric explicou parecendo muito orgulhoso do lugar, - Aqui tem munição pra matar uma facção inteira, temos armas para armar toda a Audácia, se precisássemos, ou quiséssemos.

De repente me toquei do quanto aquela informação era importante. E me perguntei por que Eric estava me contando tudo aquilo.

— Por que você está revelando tudo isso pra mim? – perguntei ficando frente a frente com ele. – Eu não sou líder de facção, nem sou ninguém importante.

— Você é ajudou a manter isso funcionando. – ele respondeu me encarando de volta. – E queria que você soubesse que confio em você.

Fiquei muito emocionada com aquilo. Era o jeito de Eric agradecer. E era demais.

De repente fui atingida por uma onda de emoção, como a ebulição de tudo que eu vinha guardando nos últimos dias, tudo que se passara na minha cabeça, tudo o que se passara em meu coração.

E tudo convergiu para uma única ação:

Eu beijei Eric

NOTAS

Tenho um amigo que leu a saga Divergente e ele acha um furo no enrendo a Veronica não mostrar onde são produzidos os suprimentos tecnológicos e bélicos de Chicago, isso me deu essa ideia de ser tudo subterrâneo e secreto.