Divergente não me pertence.

CAPÍTULO 12

As relações perigosas

"Cada movimento que você fizer,

Cada promessa que você quebrar,

Cada sorriso que você fingir,

Cada direito que você reivindicar,

Eu estarei te observando."

Every breath you take, The Police

ERIC

Voltei a ver a Careta, ou melhor, Tris, somente na segunda-feira. Ela entrou na minha sala pontualmente no horário em que seu turno começava. Eu fingi que não a vi guardar o casaco e a bolsa, e eu sabia que o próximo passo seria ela vir até mim e perguntar o que eu queria dela aquele dia.

Contudo, o que eu queria realmente dela não seria realmente aquilo que eu iria dizer.

Ela veio até minha mesa, conforme o esperado. Mas não disse nada, apenas colocou um envelope sobre ela.

— O que é isso? – eu perguntei encarando-a, sem me dignar a abrir o envelope e verificar seu conteúdo.

— Esse é meu pedido de transferência. – ela respondeu muito séria. Sem titubear.

Eu ri. Não estava acreditando naquilo.

— Por favor, Careta. – eu disse enquanto sorria debochado. – Você acha mesmo que eu vou assinar isso? Achei que você fosse lidar com isso com um pouco mais de maturidade.

— Eu estou sendo madura.

— Ah, claro. – ironizei. – É muito maduro pedir transferência só por que a gente ficou... – disse fazendo questão de enfatizar que o que aconteceu não era importante pra mim.

— Não é por isso. – ela insistiu. – Acho que não trabalhamos bem juntos...

Eu ri de novo diante desse argumento tão fraco e claramente inventado.

— Ah, por favor... Nós somos perfeitos juntos. – falei com sinceridade. – Não lembra do excelente trabalho com o relatório orçamentário?

— Pode até ser. – ela disse sem se abalar. - Mas, Eric, eu não quero passar o resto da minha vida limpando estantes de livros e pegando roupas na lavanderia. Eu sou um soldado.

Aquela última frase tinha me impressionado, eu sabia que ela era um soldado e não estava admirado de vê-la acordando pra essa conclusão.

— Eu não vou abrir mão de você aqui agora. – respondi. – isso está fora de cogitação. Mas... – continuei evitando a explosão que eu sabia que ela ia ter se eu a contrariasse. – Eu vou envolver você em ações militares daqui pra frente. Eu não disse que ia treinar você?

— Você não cumpriu sua palavra quanto a isso. – ela comentou parecendo considerar minha proposta.

— Eu nunca deixo de cumprir minha palavra. – repliquei encarando-a, ela pareceu estremecer e eu sabia que estava ganhando. – nós começaremos amanhã cedo.

— Já que não tenho outra opção... – falou emburrada.

— Não, você não tem. – confirmei com segurança. – Isso me parece resolvido, mas, e quanto a nós?

A pergunta foi direta, mas receei um pouco pela resposta. Meu plano dependia disso, afinal.

— Não vou ser uma de suas amantes, se é isso que você quer saber. – ela respondeu na defensiva. – E não pretendo ficar com você novamente. Foi apenas um momento de... – ela suspirou. – insanidade. Eu estava muito vulnerável...

— Entendo. – respondi tentando parecer tranquilo. – Tudo bem. Sua lista de tarefas está no lugar de sempre. Pode começar ou não terá tempo de concluir.

Dizendo isso, voltei-me para meu computador. Ela pegou a lista e saiu da sala.

Batendo a porta com força ao sair.

TRIS

Pelo menos a coisa toda parecia resolvida, pensei comigo após sair da sala de Eric com a respiração muito descompassada. Meus olhos teimavam em ficar molhados e a conversa que eu ensaiei durante o fim de semana inteiro, não correra exatamente como eu previra.

A transferência eu já previa que ele não ia aceitar, mas eu não insisti o quanto planejei. Não usei o argumento de que já sabia que o plano de Eric, assim como o de Jeanine era manter um filho do líder do conselho ao seu lado, o que eu achei inteligente e o que explicava por que Eric me dera aquele cargo. Não foi bondade, afinal, foi estratégia.

E era só por isso que ele me queria a seu lado.

Ao menos consegui a promessa de que, finalmente, depois de tanto enrolar ele me treinaria. Eu poderia contribuir com a facção de uma forma mais útil, por que agora eu tinha essa vontade, e assim poderia ocupar minha cabeça e meu coração.

Mas continuar ao lado dele era desequilibrante.

Eu tinha medo de perder o controle novamente. De ser esmagada por toda a solidão e carência que eu sinto e refletir tudo isso nele. Eu não podia deixar isso acontecer novamente, não podia me deixar ficar vulnerável e me colocar a mercê dele.

Por Deus, eu não poderia me apaixonar por ele, pensei desesperada.

ERIC

Saí do Complexo no meio da tarde acompanhado de Max.

Desde o primeiro ataque a Audácia, há mais de um ano e no qual Quatro e Harrison sucumbiram, montamos uma força tarefa para investigar um grupo de pessoas dentro dos sem facções que haviam sido responsáveis pelo ataque, no intuito de sufocarmos qualquer grupo criminoso que pudesse promover outras ofensivas. Nunca antes na cidade a sede da Audácia ou de qualquer outra facção fora atacada, e entendíamos a gravidade da situação. Um grupo que era capaz disso, só poderia ser muito organizado e bem estruturado.

Vínhamos investigando há muito tempo sem ter qualquer tipo de resultado, mas tínhamos tido alguns avanços nos últimos tempos. Capturamos um suspeito que nos confessou coisas muito interessantes antes de morrer. Coisas a respeito de um grupo que queria tomar o poder na cidade, e da líder de um deles, uma mulher que supostamente devia estar morta: Evelyn Eaton.

As últimas informações também davam conta de onde era o suposto esconderijo de Evelyn, e por isso estávamos a caminho de uma reunião com Andrew Prior e o resto do conselho: precisávamos da permissão deles para atacar.

Quando chegamos a sede do conselho, fomos avisados que éramos esperados na sala de reuniões. Quando adentramos, Andrew estava acompanhado de apenas dois outros membros do conselho e que também pertenciam a Abnegação e que eu já conhecia, Luccas e Mathews.

Andrew nos escutou e pareceu um pouco reticente em primeira instância, mas Max o convenceu após lembrar-lhes das mortes na Audácia e das possíveis consequências devastadoras de deixar um grupo como aquele crescer. Estranhamente, ele não pareceu surpreso sobre Evelyn estar viva e desconfiei que ele já sabia de tudo. Talvez sempre soubesse. Depois de uma reunião de pouco mais de vinte minutos, tínhamos a autorização do conselho para realizar o ataque, o que aconteceria na sexta-feira.

Já estávamos prontos para sair da sala, quando Andrew me abordou.

— Podíamos falar algumas palavras em particular? – ele disse parecendo desconfortável.

— Claro. – eu respondi fazendo sinal para que Max me esperasse lá fora.

Quando ficamos a sós na sala de reuniões, o semblante de Andrew mudou do semblante calmo da Abnegação para um muito mais severo.

— Eu também fui da Erudição, Eric. – Andrew começou voltando a sentar-se na cadeira que ocupara para a reunião. – E sei que nossas facções de origem nunca nos deixam completamente.

— O que você quer dizer com isso, Andrew?

— Eu sei o que está fazendo com minha filha. – ele disse muito seguro. – Sei como pretende usá-la, sei que é de uma forma até mais perigosa do que a forma que Jeanine está usando Caleb. Você tem uma vantagem, já que está com minha menina.

— Eu não estou usando a Care... Tris. – assegurei, mesmo sabendo que não o convenceria. – Ela é boa o suficiente para ser minha assistente.

— Apenas assistente? – Andrew indagou de forma perigosa.

— Essa não é uma pergunta que eu possa responder. Contudo, não estou fazendo mal a sua filha. – afirmei com segurança.

— Escute, Eric. Eu posso ser da Abnegação, mas não sou trouxa. – Andrew falou de repente se transformando em um homem que parecia realmente perigoso. Me lembrou a mim mesmo. – E eu estou sempre de olho na minha filha, e se algo acontecer a ela, eu vou ficar muito... muito chateado.

Eu sabia perfeitamente identificar uma ameaça quando ouvia uma.

— Eu também não sou burro, Andrew. – respondi com segurança. – Sua filha está segura comigo.

— Ótimo, então estamos conversados. – ele disse se levantando e falando em seu tom comedido normal.

Eu assenti e deixei a sala. Max me esperava do lado de fora.

— O que ele queria? – perguntou curioso no instante em que nos aproximamos.

— Ele já percebeu a influência que eu tenho sobre a filha dele. – respondi. – E fez questão de me dizer que está de olho.

— Se ele está tão preocupado ao ponto de engolir o orgulho e lhe chamar para falar sobre isso, só quer dizer uma coisa, meu rapaz. – Max disse satisfeito. – Que se você ficar com essa garota, o conselho, e por consequência, a cidade, estará em suas mãos.

Eu assenti. Ficar com Tris era o que eu precisava, mas era algo que estava parecendo mais difícil a cada dia.

TRIS

Quando voltei a sala de Eric, ele não se encontrava.

Voltei aos meus afazeres, que na verdade, nem eram muitos aquele dia e já no fim da tarde, escutei batidas na porta. Fui atender achando muito estranho, pois era muito difícil alguém procurar Eric em sua sala.

Quando abri a porta, vi o semblante de Zeke.

— Eric não está. – eu respondi séria, minha relação com Zeke estava estremecida desde nossa conversa no fosso.

— Eu não vim falar com ele. Vi ele sair do complexo há algumas horas. – ele respondeu sério. – Vim falar com você.

— Sobre o quê?

— Posso entrar um instante? – ele perguntou sem simpatia alguma.

Eu o deixei entrar e fechei a porta atrás de nós. Não sabia se era me permitido receber visitas na sala de Eric, mas não liguei. Ele que me demitisse, caso não gostasse.

Zeke deu uma boa olhada na sala.

— Que lugar estranho... – comentou com desdém.

— Você não conhecia? – perguntei de pé em frente a Zeke que era muito mais alto que eu.

— Não tem câmeras nessa sala. Exigência de Eric. – ele explicou como se aquilo fosse algo desagradável. – Não que eu quisesse ver as barbaridades que ele deve fazer aqui.

— Não vi nenhuma barbaridade até hoje. – respondi com sinceridade.

— Desde quando você defende esse cara, Tris? – ele indagou subitamente irritado.

— Só estou dizendo a verdade. – respondi com simplicidade.

— Ele está comendo você, não está? – Zeke falou aproximando-se mais de mim, parecendo muito mais alto do que antes.

— Zeke! – eu ralhei, ele nunca tinha se dirigido a mim de forma tão desrespeitosa. – Olha como fala comigo, exijo respeito!

— Mas você não anda se dando o respeito. – acusou. – Eu sei de tudo, Tris... Você saiu toda arrumada com ele, e ele dispensou o carro e voltou com você no trem. Truque antigo pra transar aqui na Audácia.

— Você está muito inteirado da minha vida. – respondi petulante, embora tenha me sentido idiota por não ter percebido que caíra em um truque velho daqueles.

— Tris, você vai se afastar daquele cara. – Zeke falou em um tom imperativo, me dando uma ordem, praticamente.

— Você por acaso está querendo mandar em mim, Zeke? – perguntei ultrajada. – Por que isso é ridículo!

— VOCÊ NÃO PODE, ESTÁ ENTENDENDO? – ele gritou subitamente transtornado, segurando meu braço com força, me machucando. – VOCÊ NÃO PODE TRAIR ELE! VOCÊ É MINHA RESPONSABILIDADE! – ele me sacudiu.

— Zeke, me solta! Você está me machucando! Está maluco! – eu disse tentado me desvencilhar, mas ele não me largou.

— ESTOU FALANDO SÉRIO! EU NÃO VOU FALHAR COM ELE! SE VOCÊ FIZER ISSO, EU ACABO COM VOCÊ! EU...

— Mas o que está acontecendo aqui?

Eric entrou na sala, e antes mesmo que pudéssemos dizer qualquer coisa, ele já estava tirando Zeke de cima de mim e praticamente arremessando-o contra a parede.

— Por que você estava agredindo minha assistente? – Eric perguntou perigoso levantando Zeke do chão, puxando-o pela camisa.

— Isso é assunto meu e dela. – Zeke respondeu petulante, parecendo muito obstinado. – Ela é sua assistente, mas não é sua propriedade.

— Continue a me responder desse jeito e você pode amanhecer no fundo do fosso, Zeke... – Eric ameaçou. – O que estava acontecendo?

— Já disse que não é assunto seu. – Zeke insistiu.

— Eric, deixe ele ir. – eu pedi sabendo que aquilo não ia acabar bem se eu não interferisse.

— Esse idiota estava quase te batendo e você quer que eu deixe ele ir embora? – Eric perguntou incrédulo, sem largar Zeke.

— Por favor. – eu pedi encarando-o.

— Some daqui. - Eric disse largando Zeke. – E se eu te ver tocando nela novamente, eu cumpro a promessa do fosso.

Zeke parecia irado, porém devia saber que não podia fazer nada contra um líder da Audácia. Olhou pra mim com muita raiva, arrumou o casaco e saiu em seguida sem dizer nada.

Quando a porta bateu, Eric se voltou para mim.

— E você? Pode me dizer o que aconteceu?

Eu ainda pegava no lugar do braço onde Zeke me machucara, a marca dos dedos dele estava impressa em uma marca vermelha sobre a minha pele.

— Eu sinceramente não sei. – respondi. – ele surtou dizendo que não quer que eu me envolva com você.

— Ele está com ciúmes? – Eric disse incrédulo vindo até mim e pegando em meu braço machucado, analisando-o. – Esse idiota não tem uma namorada?

— Ele era o melhor amigo do Quatro. Sei lá, deve ser algum senso distorcido de proteção... – eu disse sentindo a proximidade de Eric e tirando meu braço das mãos dele, sem mencionar que a ameaça de Zeke me deixara assustada.

— Isso é muito estranho. Tenha cuidado, ele parecia transtornado. – preveniu. – Ah, mas se eu souber que ele fez algo a você, eu vou ter muito prazer em quebrar cada osso do corpo dele. – ameaçou.

— Homens... – suspirei, - guarde sua testosterona, Eric. – eu disse sorrindo sarcasticamente. – Eu sei me cuidar, mas obrigada de qualquer jeito.

Dizendo isso, peguei meu casaco e minha mochila e saí do escritório sem dar espaço para que Eric se aproximasse mais de mim.

ERIC

Quando ela saiu, me sentei ao computador e puxei a ficha de Zeke. Ele fora meu colega de iniciação e, apesar de não tão bom quanto eu o quanto Quatro, ele era um dos melhores e era totalmente fiel ao melhor amigo.

Mas aquilo era muito estranho, Zeke tinha tido uma reação muito exagerada para quem estava apenas protegendo a imagem do amigo falecido. Não devia ser só aquilo...

Colocaria Zeke na minha lista de observação. Só de lembrar nas mãos dele sobre ela, eu já sentia novamente vontade esmagá-lo.

Mal sabia ele que nada me demoveria do objetivo de ter Tris Prior em minhas mãos e cada dia que passava essa convicção só aumentava e eu não deixaria ninguém se meter entre nós dois.

Mas, por enquanto, eu precisava me concentrar em algo mais urgente. O ataque aos sem-facção e a caçada a Evelyn Eaton.