Divergente não me pertence.
CAPÍTULO 16
Não há sorte nos nossos dados viciados
"Apenas uma garota de cidade pequena
vivendo em um mundo solitário.
Ela pegou o trem da meia noite pra qualquer lugar"
Don't stop believin', Journey
QUATRO
Devo ter quebrado todos os móveis da sala quando Zeke me contou.
Como assim? Como isso estava acontecendo? Como ela deixara isso acontecer? Claro, isso não podia ser culpa dela.
Tris estava abalada, estava sozinha e aquele canalha só estava se aproveitando da situação. Quando Zeke finalmente me contou, eu sabia que era hora de trazê-la para perto de mim de qualquer forma. Ela entenderia depois que fora pra seu próprio bem. Mas agora, o nosso pequeno sequestro não tinha sido bem sucedido. Aquele filho da mãe tinha conseguido nos frustrar. E ainda a tinha levado de volta em seus braços, vi com meus próprios olhos e poderia tê-lo matado naquela hora se não houvesse o risco de baleá-la também.
Aquela lembrança estava me matando. O único jeito agora seria me revelar e convencê-la a vir comigo, pois ainda não havia chegado a hora de colocar nosso plano em ação.
Mas eu não poderia mais deixá-la com ele. À mercê dele. Nos braços dele. E se ela não viesse comigo por bem, viria por mal.
Afinal, ela ainda era minha mulher.
TRIS
Peguei o papel de volta do chão e o reli incontáveis vezes. Minhas mãos suavam tanto que chegavam a molhar o papel e tremiam tanto que eu quase não conseguia segurá-lo.
Eu respirei fundo e sentei em minha cama ainda encarando o bilhete. Depois do choque inicial, eu comecei a refletir.
Quatro me chamava de Seis quando estávamos a sós e só nós dois sabíamos o significado daquele apelido, os meus Seis medos. A mensagem estava em código, mas eu sabia o que queria dizer: Alguém queria me encontrar na roda gigante no domingo a noite.
E esse alguém me chamava de Seis, mas só Quatro me chamava assim.
Muita coisa passou pela minha cabeça: Evellyn Eaton estava viva, liderava o grupo que estava atacando a Audácia e era a mãe de Quatro. Zeke queria me levar até o grupo. Alguém naquele grupo queria algo comigo, mas o quê?
Tentei pensar logicamente. Alguém devia saber do apelido, talvez Zeke. Alguém sabia onde e quando joguei as cinzas... Lembrei da pessoa que vi lá embaixo me observando naquele dia... e parecia com ele.
Não, era loucura.
Talvez Evellyn Eaton quisesse falar comigo... ou talvez quisesse me usar... ou me fazer mal. Eu não sabia o que queriam, mas senti que eu precisava saber o que estava acontecendo.
O encontro seria apenas no domingo, então isso me dava alguns dias para pensar no que fazer. Contar a Eric era uma opção, mas ele levaria junto todo o exército da Audácia se ele soubesse. Não, eu não podia contar. Minha percepção dizia que era algo que dizia respeito a mim e que eu deveria fazer sozinha.
Como não havia nada que eu pudesse fazer naquele momento, procurei me acalmar e passei o dia cuidando de Christina, em parte por que eu não precisava trabalhar já que Eric tinha saído para sua caça ao grupo que nos atacara e me disse que não me deixaria participar das missões enquanto não elucidasse o motivo de eu ser um alvo de Zeke. Eu não tive outra opção a não ser aceitar, não valia a pena correr riscos desnecessários e o pior, deixar outras pessoas correrem riscos pra me proteger, principalmente Eric.
Jantei sozinha no refeitório e não vi nem sinal dos líderes e de muitos guardas. Resolvi ir até o apartamento de Eric depois do jantar, estava preocupada com o que estava acontecendo. Também estava preocupada com ele, embora soubesse que ele sabia se cuidar muito bem. Caminhei na direção dos elevadores, mas não cheguei a usá-los, pois dei de cara com Peter no fosso.
— Careta... – ele disse com um sorriso sardônico que tomava totalmente seu rosto, qualquer que fosse seu motivo de estar tão feliz não devia ser coisa boa...
— Peter, hoje não... – eu pedi passando por ele sem lhe dar atenção. Ele, no entanto, agarrou meu braço, me fazendo parar.
— Você está indo encontrar seu namorado?
— Isso não é da sua conta... – respondi me largando do braço dele que me prendia.
— Você está apaixonada não está, Careta? – ele continuou sorrindo. – Sabe, só é uma pena que...
ERIC
Passamos o dia em uma busca infrutífera pelos esconderijos dos sem-facção. Nada de pistas. Seja qual for o lugar onde Quatro e sua mãe escondiam seu grupo, ele estava muito seguro.
Cheguei no complexo depois das dez da noite. Cheio de cansaço e frustração. Acendi as luzes do apartamento e apertei o botão da secretária eletrônica para ouvir os recados. Havia uma série de recados de Max e outros líderes, além de recados dos subordinados. Nem um deles me chamou atenção o bastante para que eu prestasse atenção. Até que ouvi uma voz feminina.
— Ei, Eric, aqui é a Nick. – a voz de Nicole soou receosa no telefone. – Olha... ontem eu saí pra beber e acabei encontrado um cara chamado Peter. – sua voz pareceu titubear. – Eu estava chateada por termos nos afastado... e acho que acabei falando demais sobre suas intenções com Tris Prior. – ela fez uma pausa. - Não me mate, por favor.
TRIS
Os trens corriam rápido pela noite congelante. O céu era um emaranhado claro de nuvens e tinha um brilho laranja. Ao longe, as luzes do muro piscavam. Me aconcheguei com mais força no casaco que me protegia, era o casaco de Eric e eu ainda podia aspirar de vez em quando o cheiro dele, o que me fazia irromper em lágrimas mais uma vez.
Porra, eu estava apaixonada por ele.
— Você não sabia que era tudo um grande truque?
As palavras mesquinhas de Peter ecoavam na minha mente, me acertando como facas.
— Ora, você não podia mesmo achar que Eric Coulter estava mesmo apaixonado por você, não é? Não sabia que você era tão ingênua, Careta... tse, tse...
Peter me contara tudo sobre o plano de Eric para me conquistar como forma de manipular meu pai e fizera o possível para me deixar completamente humilhada no processo.
Eu tinha sido usada por Eric e todo mundo parecia saber disso, menos eu.
— E sabe quem me contou isso? Nicole. Você não sabia que ela é a namorada dele há anos? Por que todo mundo no complexo sabe sobre os dois. Você vive em que mundo, Careta? Pena eu não ter tido esse ideia... Você estava tão quebrada que cairia nos braços de qualquer um... tão desesperada pra ser amada. – ele riu. – Mas Eric foi um gênio. Tiro meu chapéu pra ele...
Peter ainda devia estar no hospital aquela hora da noite. Acho que finalmente eu havia conseguido quebrar o nariz dele. Uma boa vingança pela surra que ele me deu na iniciação. Ri com amargura.
Tomei mais um gole da garrafa que eu trazia, ironicamente, uma garrafa que eu surrupiei da sala de Eric antes de sair do complexo. Ele que pagasse a conta do meu porre. Já me devia demais.
Eu chorei novamente, não de tristeza, mas de raiva. Raiva pura. Raiva por pensar no quanto Eric brincou comigo, no quanto eu fui idiota.
Corações nunca mudam. E o coração de Eric Coulter era sombrio, eu tinha certeza disso.
Peguei com cuidado a bela pistola prateada que eu havia levado da sala de Eric junto com a bebida e fiquei observando-a sob a claridade da noite.
Eu estava tão ferida... já tinha sofrido tanto. Seria um alívio acabar com aquele sofrimento.
Eu senti o frio do metal nos meus lábios. Considerei por um instante.
ERIC
Não encontrei ela em seu apartamento. Nem em nenhum outro lugar do complexo.
Um dos guardas me informou de uma briga que tinha acontecido mais cedo no fosso, aparentemente ela nocauteara Peter e eu tinha certeza de qual tinha sido o motivo.
Entrei na enfermaria da Audácia pronto para matá-lo. Peter tentou fugir quando me viu entrando, mas um dos guardas segurou-o. Olhando para o rosto dele, eu vi que ela já tinha feito um excelente trabalho.
— O que você contou a ela? - Indaguei ao levantar Peter pelo seu colete, eu poderia matá-lo naquele momento.
Ela sabia de tudo. E havia fugido. Não havia sinais dela em todo o complexo.
Descobri no monitoramento que ela havia ido até minha sala após bater em Peter, depois passou em seu próprio apartamento e saiu pelo saguão do complexo, não sendo detida por ninguém.
Eu não fazia ideia de onde ela podia estar.
Era muito tarde quando fui informado que ela fora localizada.
A essa altura eu já estava à beira do desespero. Nunca antes eu tinha me importado tanto com alguém, mas eu não tinha tempo naquele momento para discorrer sobre como aquilo era preocupante, afinal, ela estava de volta ao complexo, e eu fui rapidamente encontrá-la no fosso.
Bastou uma pequena olhada para verificar que ela estava em um estado total de embriaguez.
— Você... — ela balbuciou furiosa apontando pra mim quando me viu. – Não se aproxime de mim!
— Pare com isso. – eu disse impaciente dando um passo para me aproximar dela, vendo que todos os olhares em torno estavam voltados para nós.
— Não se aproxime, Eric. – ela disse muito firme, e para a minha surpresa e de todos no entorno, ela sacou uma arma prateada do bolso do casaco e apontou-a pra mim. Reconheci a arma prateada instantaneamente. Era uma das armas que eu guardava na minha sala.
Quando ela sacou a arma, todos os guardas que estavam no entorno, sacaram suas armas apontando-as para ela.
— Vamos... Você não pode apontar uma arma para um líder em público. – eu disse em tom de brincadeira.
— Não posso? – ela disse séria tentando visivelmente manter o equilíbrio. – pois é exatamente isso que eu estou fazendo... Eric.
— Care... Tris. – eu chamei tentando acalmá-la. Um dos guardas aproximava-se silenciosamente as costas dela.
— Ah, agora aprendeu meu nome? – ironizou. – Eu devia meter uma bala no meio da sua cabeça, seu filho da mãe. – disse entre lágrimas.
— Você sabe que isso seria suicídio... – eu disse tentando manter a atenção dela focada em mim. O guarda aproximava-se mais das costas dela agora.
— Eu não tenho nada a perder... – ela sibilou e eu podia sentir o ódio em suas palavras.
— Eu também não tenho. – eu disse abrindo os braços. – Se quer mesmo atirar, vá em frente... Tris.
Eu fiquei imóvel esperando a reação dela. Por um segundo eu vi o dedo dela tremer no gatinho. Ela ia atirar.
Mas um segundo depois, ela abaixou a arma.
— Você me enganou... – eu vi os lábios dela se moverem no exato momento em que o guarda chegou perto o suficiente para agarrá-la por trás. Ela lutou contra o homem muito maior que ela, mas foi dominada.
— Não faça isso! – eu ordenei para guarda quando eu vi que ele estava prestes a golpeá-la.
Mas foi tarde demais, o guarda golpeou-a com a arma e ela caiu desacordada.
TRIS
Acordei com uma terrível dor de cabeça. Levei algum tempo para notar onde eu estava. Era meu quarto. Pisquei os olhos, vi que Christina estava ao meu lado.
— Agora somos duas com a cabeça enfaixada. – ela brincou e eu levei a mão até minha cabeça onde parecia haver um curativo.
— O que houve? – indaguei enquanto flashes da noite anterior apareciam na minha cabeça. Minha conversa com Peter, minha bebedeira no trem, Eric...
— Aparentemente você tentou atirar em Eric. – Christina contou como se fosse algo particularmente divertido. – Pelo menos é isso que estão dizendo nos corredores da facção... Ah, você também deu uma surra no Peter. – ela acrescentou caindo na gargalhada dessa vez. - Esse deve ser o melhor dia da minha vida!
— Tem certeza que um trem não passou em cima de mim? – perguntei ao me sentar na cama. – Pois é isso que estou sentindo...
— Não... não... mas... Tris, o que aconteceu? Por que esse surto? – Christina perguntou repentinamente séria. – Eric esteve aqui cuidando de você até agora a pouco. – informou. - Eu nunca o tinha visto daquele jeito... parecia esgotado. O jeito que ele te olhava... cheguei a ter pena do desgraçado. Por que você ficou de porre e quis atirar nele?
— Eu não quero falar sobre aquele babaca. – respondi com raiva. – e se ele aparecer aqui, vou atirar nele de verdade...
— Tris, primeiro, você não tem uma arma. – ela disse como se falasse com uma criança. - Segundo, você não pode sair por aí atirando nos líderes da facção. Você ia ser presa ontem, sabia? Primeiro por ter agredido Peter, depois por ter roubado a arma de Eric e ter ameaçado ele. Além de ter infligido o toque de recolher, entre outras acusações. Um dos guardas que vieram com Eric me falou, mas eles arquivaram todas as acusações por ordem do Eric.
— Ah, como ele é bonzinho, não é mesmo? – ironizei. – por que você não larga o Will e fica com ele?
— Olhe, não sei o que aconteceu, Tris. – Christina disse se levantando. – E se você não quer me contar, eu não vou me meter. Mas acho que você devia dar uma chance pro cara, ele parecia desolado...
— A única chance que Eric vai ter é a de desaparecer da minha vida. – respondi com raiva.
— Não vai ser uma coisa muito fácil. Ele é o chefe por aqui. Ele é seu chefe, - Christina lembrou. – Você vai ter que encará-lo mais cedo ou mais tarde e não vai estar armada.
Passei o resto do dia em casa.
A tarde uma das enfermeiras da enfermaria da Audácia veio até meu apartamento para ver como eu estava e me deu uma injeção para melhorar as dores de cabeça.
— Você veio a mando de Eric? – eu perguntei resignada enquanto ela infundia lentamente o medicamento em uma veia do meu antebraço.
— Pode-se dizer que sim. – ela disse sem me olhar. – Mas não vim só pra fazer tratamento domiciliar. Eu preciso fazer um exame toxicológico seu, pois você foi acusada de um crime.
— Pensei que as acusações tinham sido retiradas. – eu disse enquanto ela terminava de infundir o medicamento e agora coletava meu sangue, colocando em três frascos diferentes.
— Acho que sim, mas esse é um procedimento padrão. – ela respondeu concentrada
Eu não entendi muito a lógica daquilo, mas não me preocupei demais. Recostei-me nos travesseiros e esperei que ela terminasse.
Eu estava me sentindo totalmente dormente. Anestesiada não sei se pelo remédio, talvez pela própria dor.
O que Christina falou acabou se tornando realidade, eu não poderia fugir de um confronto com Eric pra sempre.
Não era nem tarde da noite quando tive que encarar Eric novamente.
Ele entrou no meu quarto sem fazer cerimônia.
— Vai tomar novamente essa postura covarde de se esconder debaixo dos lençóis? – disse sério quando entrou.
— Saia daqui. – respondi com desprezo sem mesmo olhá-lo.
— Você sabe que não vou sair. – ele respondeu batendo a porta atrás de si. – Deixe de ser teimosa e me escute!
— Não tenho nada pra escutar, - retorqui com raiva. – Não quero ouvir suas desculpas.
— Quem disse que eu vim aqui pra pedir desculpas? – ele indagou em um tom de voz perigoso que eu não ouvia há muito tempo. – Eu vim aqui... – continuou após verificar que tinha minha atenção. – Vim pra dizer que você não vai deixar de cooperar. Eu cansei de aguentar suas pirações, Careta. Eu não sou o Quatro. Você vai me obedecer, está entendendo? – ele me olhou parecendo grande demais, parecendo o homem assustador que conheci na iniciação e que eu não via há muito tempo. - Você vai continuar do meu lado no conselho e se as pessoas acharem que nós temos um relacionamento... você vai fingir! – ordenou se aproximando de mim e pegando em meu pulso.
Eu estava meio atônita com a coisa toda e não consegui articular nenhuma resposta.
— Você está achando que eu te usei? – ele indagou me olhando nos olhos, aquele olhar perigoso que eu já tinha visto tantas vezes. – mas é claro que eu usei. – ele riu. – E não venha me dizer que você não gostou, baby. Você gostou demais... – ele sussurrou no meu ouvido.
— Eu odeio você... – foi a única coisa que consegui balbuciar.
Ele abriu um grande sorriso na minha direção e se afastou.
— Eu tenho muita coisa pra me preocupar, Careta. E você não é uma delas. – ele aproximou-se da porta e eu percebi que o velho Eric implacável estava de volta. – E você vai cooperar comigo, caso contrário, seu pai receberá um relatório muito interessante com seus exames toxicológicos e a fita de segurança de seu showzinho ontem no fosso junto com a sua sentença de expulsão da Audácia. Seria muita decepção não é mesmo? Pense nisso. Nos vemos na segunda. – ele piscou na minha direção com um sorriso cínico e saiu.
ERIC
Suspirei profundamente quando sai do apartamento dela. Tinha sido muito mais difícil do que eu imaginava.
Eu tinha tido uma conversa com Max durante a tarde sobre o acontecido no fosso na noite anterior e eu sabia que ele tinha razão. Eu tinha que colocá-la no seu lugar. Ela estava passando dos limites, se arriscando e arriscando a minha reputação dentro da facção. Eu não podia deixar que ela me manipulasse, dar poder para ela fazer isso nem deixar ela saber que tinha esse poder sobre mim.
Ela estava precisando de um tratamento de choque, e era isso que eu estava dando a ela. E a mim também.
Eu estava colocando minha cabeça no lugar novamente.
QUATRO
Acordei no meio da noite com a tela de comunicação sendo ligada.
— Quatro? Quatro? Você está aí?— uma voz conhecida me chamou do monitor.
Eu pisquei ante a claridade.
— Estou, Lauren. – respondi levantando da cama e me aproximando do monitor.
— Não tenho muito tempo. – ela falou ansiosa. – Só estou ligando para comunicar que deixei o bilhete na cama dela.
— Ótimo, - falei passando as mãos pelos cabelos.
— E tem outra coisa, - ela continuou. – não sei o que aconteceu, mas correm boatos que Tris tentou atirar em Eric ontem à noite...
— No mínimo ela percebeu o filho da mãe que ele é. – eu falei me sentindo satisfeito com aquela reviravolta nos acontecimentos. – E ela? Está bem?
— Está em casa. – Lauren respondeu. – Não aconteceu nada com ela. As pessoas dizem que ele não fez nada devido... Você sabe...
— Tudo bem, Lauren. – eu respondi com desgosto, mas aliviado em saber que ela estava bem. – Qualquer novidade, entre em contato.
— Tudo bem, até mais, Quatro. – Lauren concluiu e a tela comunicadora ficou em branco.
Eu me virei de volta pra cama, os pensamentos voltados no que poderia estar acontecendo entre Tris e Eric.
— Quem era? – a voz feminina mostrava desinteresse, mas eu sabia que ela devia ter ouvido a conversa inteira.
— Não era nada de importante. – eu disse voltando para a cama. – Volte a dormir, Nita.
TRIS
Eu fiz o jogo de Eric. Passei os dias que se seguiram muito quieta em meu apartamento.
Eu não o vi mais e achei ótimo, pois eu não aguentaria encará-lo sem tentar lhe matar depois de tudo que ele me dissera. Além do mais, eu também tinha outras coisas para me preocupar.
Quando domingo chegou, eu já tinha maquinado perfeitamente e repassado centenas de vezes na minha cabeça como se daria a minha fuga no complexo para ir até a roda gigante e encontrar o emissor do bilhete misterioso.
Afinal, eu não tinha nada mais nada a perder mesmo, minha segurança era o que menos me preocupava naquele momento.
Quando a noite caiu, eu peguei meu casaco e saí do apartamento sem ser vista. Ia pegar o primeiro trem para encontrar o desconhecido.
ERIC
A semana tinha sido brutal. Buscas e mais buscas sem sucesso. Todo o problema com ela. Eu havia me afundado no trabalho nos últimos dias fugindo da tentação de bater na porta do apartamento dela e encontrá-la, colocá-la nos meus braços.
Mesmo o trabalho estava se mostrando frustrante, visto que não tínhamos conseguido avançar em nada nos esforços para encontrar o grupo de Evellyn Eaton.
Era domingo à noite e eu estava em casa tomando uma bebida, dividido entre a ideia patética de ir ao apartamento dela e minha resolução de me manter afastado. Quando a campainha tocou, fui tomado por um pequeno raio de esperança.
Mas quando abri a porta, não era exatamente quem eu estava esperando que apareceu na porta.
Sue, uma das enfermeiras da Audácia, minha amiga, estava ali.
— Sue, - eu disse um pouco surpreso. – a que devo essa visita?
— Oi Eric. – ela cumprimentou, parecia bem séria. – se importa se eu entrar um pouco?
— Claro que não.
Eu dei espaço para que ela entrasse, e levei-a até o sofá. Ela entrou e eu soube imediatamente que ela tinha algo importante pra me dizer, Sue nunca antes havia aparecido sem ser convidada.
Eu servi outra bebida pra mim e ofereci uma ela, que não aceitou.
— Então, - perguntei um pouco ansioso. – o que quer falar comigo?
— É sobre Tris Prior Eaton, - ela começou enigmática e algo em meu estômago despencou.
— O que tem ela? – indaguei sem deixar transparecer minha ansiedade.
— Eu fiz os exames toxicológicos. – ela disse sacando um pequeno computador de bolso. – E de rotina, nós fazemos muitos testes junto com os exames toxicológicos. – explicou. – Isso é confidencial, mas você é um líder e acho que essa informação deve lhe interessar.
Sue me passou o computador e havia um exame na tela.
— BetaHCG, positivo. – eu li. – o que quer dizer isso?
— Quer dizer que a Sra. Eaton está grávida, Eric.
