Divergente não me pertence.
CAPÍTULO 17
O despertar de um pesadelo
"Nós já passamos por isto há muito, muito tempo
Simplesmente tentando matar a dor.
Mas amores sempre vêm e amores sempre vão,
E ninguém tem certeza de quem vai desistir hoje
E ir embora"
November Rain, Guns n'Roses
Anteriormente em "Save me now":
Sue me passou o computador e havia um exame na tela.
— BetaHCG, positivo. – eu li. – o que quer dizer isso?
— Quer dizer que a Sra. Eaton está grávida, Eric.
ERIC
Eu levei um tempo pra processar o que Sue me dissera.
— Grávida? – indaguei exasperado. – Ela não pode estar grávida!
— Pode sim. – Sue respondeu calmamente. – É perfeitamente possível, Eric. E é por isso que eu achei que você fosse se interessar por essa informação. Sei que você andava se relacionando com ela...
— Não pode ser... – eu falei pra mim mesmo enquanto olhava a tela.
— Não é motivo pra desespero, Eric. – Sue falou em tom conciliador. – Isso é bem simples de resolver se você não quiser esse filho, você sabe. Por isso que achei melhor lhe dizer logo, podemos resolver isso facilmente, não precisa nem ela saber...
— Você está falando de aborto? – eu processei.
— Seria uma pequena intervenção... – ela explicou.
— Aborto. – eu conclui. – Não vejo outro nome pra isso. Escute, Sue, eu nem cogito essa possibilidade. – falei com firmeza. – é de um filho meu que estamos falando.
— Então é seu mesmo?
Eu estava pronto pra responder de uma forma muito ríspida a pergunta impertinente de Sue quando a campainha tocou novamente.
Pedi licença e fui atender sem fazer ideia de quem iria até minha casa aquela hora, só pensando que podia ser ela.
Mas não era.
Christina estava parada na minha soleira, parecendo bem agitada.
— Tris está com você? – ela perguntou de imediato.
— Não. – respondi sentindo que tinha alguma coisa errada. – Achei que ela estivesse no seu apartamento.
— Ela não está, - Christina respondeu. – e um dos meus uniformes de ronda sumiu, assim como o meu cartão de acesso e a minha arma.
— Então ela fugiu novamente do complexo? – falei sem acreditar.
— Acho que é mais do que isso. – Christina replicou preocupada. – Achei isso aqui na mesa de cabeceira dela.
Ela me entregou o pequeno bilhete que eu li duas vezes pra até compreendê-lo totalmente.
E depois de entendê-lo, eu tinha chegado a uma conclusão funesta:
Ela tinha ido encontrar com Quatro.
TRIS
Consegui facilmente sair do complexo vestindo o uniforme e usando o cartão de acesso de Christina. Eu peguei o mesmo trem que pegamos da vez em que fomos para o desafio do caça bandeira, naquele dia estávamos todos no mesmo vagão, eu, meus amigos, Quatro e Eric. Hoje eu estava sozinha e o vagão parecia grande e escuro demais.
Quando cheguei ao parque abandonado, estava tudo muito escuro. Eu sabia que estava fazendo uma loucura: Christina me mataria quando soubesse que roubei as coisas dela e eu novamente havia quebrado o toque de recolher, sabia que Eric não livraria minha cara mais uma vez, ele não tinha por que fazer isso e depois de nossa conversa, eu tinha certeza que ele não estava muito interessado em fazer qualquer coisa por mim. Eu estava bem encrencada, mas segui em frente.
Perdida nesses receios andei pelo parque escuro segurando a lanterna que eu trouxera por precaução. Era assustador e fantasmagórico o lugar. À passos rápidos cheguei rapidamente no local da roda gigante.
O local estava deserto. Olhei no entorno, devagar me aproximei da base da roda gigante e me sentei na estrutura de metal.
Ao longe, um vulto começou a surgir no meio das árvores.
ERIC
— Ela fugiu do Complexo pra se encontrar com esses terroristas? – Max indagou incrédulo enquanto víamos nas câmeras de monitoramento as imagens de um hora antes quando Tris saiu disfarçada do complexo. – Ela é um deles, Eric! Não está vendo?
— Acho que ela não sabe pra onde está indo, Max. – repliquei. – não viu o bilhete? Acho que tentaram sequestrá-la e não conseguiram, e agora Quatro vai tentar persuadi-la a se juntar a eles.
— Se ela não sabe de nada, por que ela não contou pra gente? – Max replicou zangado. – Por que fugiu e foi sozinha até eles? Isso que ela está fazendo é traição e você sabe disso! Agora ela é uma criminosa e deve ser tratada como tal...
— Max... – eu insisti falando de forma que só ele ouvisse já que todos na sala nos observavam. – Max, ela está grávida...
Max me olhou com incredulidade.
— Eric, Eric... você não é tão inteligente como eu pensava que fosse... – ele falou parecendo cansado, levando a mão a cabeça em desespero, mas pareceu se acalmar em seguida. – pois bem, vamos tentar encontrá-la. – disse em um tom cansado. – Alguma ideia de pra onde ela tenha ido?
— Eu não consigo decifrar esse bilhete... – falei olhando o pequeno pedaço de papel. – Christina! – chamei a garota que estava do outro lado da sala nos aguardando. – Christina, esse bilhete lhe diz alguma coisa? – perguntei devolvendo-a o bilhete quando ela se aproximou.
— Não é meio óbvio? – ela indagou como se fôssemos extremamente obtusos. – "o lugar que você escalou para achar a bandeira"... se refere o jogo de caça a bandeira que fizemos na iniciação. Tris subiu na roda gigante com Quatro para localizá-la. Ela deve ter ido pra lá.
Não perdi mais nenhum segundo depois disso.
TRIS
Eu o vi se aproximar lentamente.
O vulto contra a claridade tinha a mesma altura e o contorno era muito semelhante.
Meu coração disparou dentro peito. Apertei a estrutura de metal da roda gigante, minhas mãos suavam.
Quem quer que viesse, segurava uma arma grande e eu levei minha mão ao bolso do casaco de Christina onde a arma dela se encontrava. Eu deixei ele se aproximar, sem me mexer nenhum milímetro, embora eu tremesse por inteiro.
Somente quando ele chegou muito perto, no raio de cobertura da lanterna, eu pude ver aquele rosto, um rosto que eu não via há muito tempo. Um rosto que só existia nas minhas lembranças e que eu pensei que não veria nunca mais.
Era meu marido morto que estava ali.
Vivo.
Eu fiquei estática encarando-o, meu corpo inteiro tremia. Ele não disse nada, apenas me encarou de volta.
Eu levantei devagar e caminhei até ele, me aproximei e toquei seu rosto com cuidado. Ele fechou os olhos quando sentiu o toque de minha mão. Sua pele era quente, e eu podia sentir a barba por fazer. O cheiro era o mesmo.
— Eu sabia que você viria... – ele disse de olhos fechados.
Tirei minha mão do rosto dele como quem tira a mão de uma panela fervente, ouvir a voz dele era a comprovação de que aquilo estava mesmo acontecendo.
O misto de sentimentos em mim era muito grande. Confusão, alegria, tristeza, surpresa... na realidade, eu não sabia direito o que estava sentindo.
Mas havia uma grande questão ali e meu lado racional falou mais alto.
— Como você pode estar vivo? – indaguei em um tom quase acusativo.
— Tris, eu precisei... – ele começou devagar e eu sabia que ele estava escolhendo palavras já ensaiadas. – eu precisei fingir minha morte.
— Fingir... – eu repeti enquanto raciocinava. – Você quer dizer que o que aconteceu com você foi uma farsa?
Ele não respondeu, mas sua expressão exasperada confirmava a minha constatação.
— Tem algo muito grande acontecendo... – explicou dando um passo em minha direção, mas eu recuei. – Venha comigo, posso lhe explicar tudo.
— Não tem explicação para o que você fez, Tobias. – eu disse incrédula, as lágrimas molhando meus olhos à medida que eu constatava a dimensão daquilo tudo. – Você me enganou... me abandonou...
— Eu precisei! – ele insistiu. – Você não entende... eu posso te compensar por tudo, basta ficarmos juntos!
— Não... você não pode... – eu disse com a garganta sufocando pelo choro contido. – Você nunca vai poder me compensar pela morte do nosso filho!
Eu joguei essa revelação na cara de Tobias e ele pareceu perplexo.
— Filho? - balbuciou.
— Sim, - repliquei agora com a raiva tomando conta de mim. – Eu estava grávida quando você resolveu tomar um tiro no peito... – disse sarcástica. – Meu... nosso filho não resistiu quando eu surtei por que você estava morto!
— Eu não sabia que você estava grávida... – ele falou se desculpando e tentando tocar em minhas mãos, mas o repeli.
— Eu também não sabia... – falei agora chorando abertamente. – A culpa foi toda sua, Tobias!
— Por favor, Tris... – ele recomeçou. – Venha comigo, vamos superar isso juntos...
— Não sei se quero acompanhar você... – eu disse mais calma, limpando meus olhos.
— É por causa de Eric, não é? – ele perguntou subitamente sério, com raiva e acusação.
— Eric não tem nada a ver com isso. – respondi indignada com a pergunta. Quem era ele para me acusar de alguma coisa?
— Tris, venha comigo. – ele insistiu. – Vamos pôr uma pedra sobre isso tudo. Você vai esquecer o que aconteceu e eu esqueço o que se passou entre você e Eric.
— Isso é algum tipo de piada? – indaguei pasmada. – Não sou eu quem está errada aqui, Tobias! Você fez uma coisa horrível! E agora vem me tratar como se eu tivesse traído você? Não estou acreditando nisso! Você e Eric, sinceramente não sei qual é o pior...
— Não me compare com aquele canalha... – Tobias falou entre dentes. – E você vai ter que vir comigo, Tris.
— Não... – disse dando outro passo para trás. – isso está terrivelmente errado. Você acha que é só aparecer que está tudo resolvido? Não é assim, Tobias...
— Achei que você me amasse...
— Eu amei... amei o cara que foi baleado um ano atrás. Eu não sei quem você é agora...
Tobias deu um passo na minha direção, foi quando o lugar ficou todo iluminado.
Luzes pareciam vir de todo lugar.
Olhei em volta e pareciam ter dezenas de armas apontadas para nós. Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, Tobias me puxou e me agarrou.
Antes que eu pudesse perceber, ele tinha me colocado a frente de seu corpo e apontava sua arma para minha cabeça.
Então, do emaranhado de luzes e armas na nossa frente, uma delas começou a se mexer e vir em nossa direção. Foi só quando ele passou pela claridade que eu percebi que era Eric. Ele caminhava apontando sua arma em nossa direção.
— Quatro... – Eric disse quando chegou a menos de um metro de onde Tobias me mantinha como refém. Ele não olhou pra mim.
— Eric... – Tobias respondeu em um tom de voz feroz.
— Acho que vai ser a primeira vez que vou matar um morto. – Eric disse irônico ainda segurando a arma.
— Isso é o que você pensa. – Tobias respondeu.
— Por que não acabamos logo esse joguinho? – Eric disse sarcástico. – Você não vai atirar nela. Ambos sabemos disso. Entregue-se logo.
— Não tenha tanta certeza disso. – Tobias falou me puxando com mais força para perto de si e pude sentir o cano frio da arma na minha têmpora direita.
— Está revoltado por saber que sua mulher o trocou por mim? – Eric provocou. Ele não me olhava. – Não vai ganhar nada matando ela por isso...
Tobias riu.
— Não dou a mínima pra isso. – ele disse com desdém e percebi que ele olhava para além de Eric. Percebi que Tobias estava ganhando tempo.
— Ah, se é assim então não vai se importar com o fato de que ela esteja carregando um filho meu...
Meu queixo caiu quando ouvi isso. Eric estava mentindo descaradamente.
— Mentira! – eu respondi horrorizada.
— Não é mentira, baby. – Eric disse me encarando pela primeira vez. – Fizeram testes no seu sangue...
Voltei a tremer. Seria possível? Algo em mim dizia que havia essa possibilidade.
Tobias não teve tempo de responder nada sobre isso. Uma rajada de tiros veio de dentro das matas.
Tobias me puxou e saiu correndo comigo, a última coisa que vi foi Eric sendo baleado e caindo em seguida.
Tobias me arrastou mata adentro ignorando meus protestos e me segurando de uma forma que mais tarde meus braços ficariam machucados. Pulamos dentro de um buraco apertado dentro da mata e ele fechou-o depois que entramos. Caímos em algum tipo de esgoto.
— Onde estamos? – indaguei ao visualizar o túnel lodoso a nossa frente.
— Esse é o subterrâneo da cidade. – Tobias respondeu sem me olhar e continuou andando, puxando meu braço com força. Ele parecia enfurecido.
— Pra onde você está me levando, Tobias? – indaguei exasperada, a lembrança de Eric sendo baleado ainda ecoando na minha mente.
— Pra fora. – foi a única coisa que ele respondeu.
Uma semana depois...
ERIC
Eles sumiram. Literalmente. Foram tragados pela terra.
Fui atingido de raspão na cabeça quando o grupo de Quatro nos atacou. Quando eu caí, ele a levou.
Eu sempre odiei Quatro, mas eu tinha um certo respeito de adversário pelo desgraçado. Agora eu não tinha mais. Apontar uma arma para a própria mulher para se defender era uma atitude covarde e era por isso que agora eu estava tão preocupada com ela.
Percebi que tinha sido idiotice contar da gravidez. Eu não sabia como ele reagiria a isso agora que a levara. Isso estava me matando.
Pois se ele era capaz de usá-la como escudo pra se safar, poderia ser capaz de qualquer coisa.
Max apareceu para me pegar numa manhã tempestuosa quando recebi alta do hospital da Erudição. O tempo naquela manhã refletia como eu estava me sentindo: o céu desabava sobre minha cabeça.
— Alguma notícia nova? – perguntei sem demonstrar ansiedade quando entrei no carro, estava encharcado pela chuva.
— Nada ainda. – Max disse desanimado. – As buscas continuam infrutíferas como há uma semana. Já tentamos de tudo, Eric.
Me recostei no banco, derrotado. Minha vontade era quebrar o que tivesse a frente.
— Andrew quer falar com você. – Max continuou. – Não ficou nada feliz com a novidade da gravidez da filha dele.
— Ele vai fazer o que? Ter um papo de pai super protetor? Acho que é tarde demais pra isso...
— Ele está preocupado por que agora são duas vidas pra salvar. Essa criança não tem nada a ver com os erros de todos vocês... Ele está preocupado com a vida dessa criança.
— E você acha que eu não estou? – questionei irritado, minha cabeça latejava. – Max, eu nunca tive uma família! E aí fico sabendo que vou ter um filho. Um filho, cara! Daí aquele filho da mãe sai do quinto dos infernos e leva Tris e meu filho embora! O Andrew não precisa se preocupar. Eu vou até inferno para buscá-los.
Nesse momento, meu computador de mão vibrou em meu bolso. Eu o peguei e atendi a chamada.
Uma imagem desfocada e cheia de chuviscos apareceu do outro lado.
— Eric... sou eu...
— Tris? – perguntei exasperado ante a imagem dela que aparecia e desaparecia na tela.
— Não tenho muito tempo... Vocês precisam vir... Eles vão atacar... — ela falou em um tom de desespero em uma transmissão entrecortada. Tinha muitos hematomas e machucados pelo rosto.
— O que aconteceu com você? – perguntei exasperado. - Onde você está?
— Fora...
Foi a única palavra que ela disse antes da transmissão ser interrompida bruscamente.
"Então não se preocupe com a escuridão
Ainda podemos encontrar um jeito.
Porque nada dura para sempre
Nem mesmo a fria chuva de novembro"
November rain, Guns n' roses
