Divergente não me pertence.
CAPÍTULO 18
Um mundo fora do meu
"Quando os tempos estavam ruins, e você estava deprimida
Quem estava ao seu lado? (...)
À milhas de distância... não, você nunca vai voltar (...)
À milhas de distância... nada restou do que tínhamos.
Justo quando mais precisei de você
Você estava à milhas de distância"
Miles Away, Winger
Anteriormente em "Save me now":
— Eric... sou eu...
— Tris? – perguntei exasperado ante a imagem dela que aparecia e desaparecia na tela.
— Não tenho muito tempo... Vocês precisam vir... Eles vão atacar... – ela falou em um tom de desespero em uma transmissão entrecortada. Tinha muitos hematomas pelo rosto, parecia desfigurada.
— O que aconteceu com você? – perguntei exasperado. - Onde você está?
— Fora...
Foi a única palavra que ela disse antes da transmissão ser interrompida bruscamente.
TRIS
Uma semana antes...
Quatro e eu andamos por muito tempo por aqueles túneis úmidos e lodosos que formavam um labirinto que meu até então, marido, parecia conhecer muito bem. Em nenhum momento enquanto andávamos pelo túnel ele soltou o meu braço que mantinha apertado entre uma de suas mãos.
— Não vai me dizer pra onde está me levando? – eu indaguei sem temê-lo.
— Já lhe disse, Tris. Estamos indo pra fora. – ele respondeu sem me olhar.
— Fora onde?
— Fora da cidade.
Se Quatro estivesse me olhando, ele notaria a expressão de surpresa na minha face, mas ele não estava. Ao invés disso estava encarando a claridade que parecia se aproximar cada vez mais à medida que nos aproximávamos do que parecia o fim do túnel.
— Você não me perguntou se eu queria ir... – resmunguei. – E eu não quero!
Quatro parou de andar. Virou-se e me olhou em seguida, seu rosto meio sombreado pela luz que vinha do fim do túnel. Transmitia um pouco de surpresa e... irritação?
— Você não tem o que querer, Tris. – disse sério. – Quando você entender, tudo vai ficar bem. Principalmente agora que ele se foi. – ele sorriu de um modo diferente do modo que eu conhecia, meio insano. – Venha... não me faça ter que machucar você, eu não gostaria, mas se for preciso...
Dizendo isso, ele me puxou novamente e seguimos em frente pelo túnel. Uma luz aumentava à medida que nos aproximávamos do que parecia ser o fim dele, e realmente era. Quando a luz chegou a uma intensidade quase impossível de aguentar, senti um vento frio cortante que levou para longe o cheiro pútrido do túnel por onde vínhamos caminhando.
Um carro estilo militar, muito velho e muito semelhante ao que a Audácia possuía estava parado de frente para o túnel com as luzes altas ligadas. Quando chegamos até ele, vislumbrei uma mulher. Ela era mais alta que eu, bem bronzeada, tinha porte atlético e cabelos pretos. Estava de pé ao lado do carro e nos olhava com um certo ar de descaso.
Ela me olhou de cima abaixo quando Tobias abriu a porta de trás do carro para que eu entrasse.
— Eu estou sendo mesmo obrigada a ir? – perguntei uma última vez sem conseguir acreditar que ele estivesse fazendo aquilo comigo.
— Pense como quiser, - Tobias falou fechando a porta depois que entrei. – ele sentou no banco do passageiro na frente enquanto a estranha mulher deu partida no carro.
Ela tinha um sorriso de deboche nos lábios.
Me resignei a ficar calada durante todo o trajeto. Tobias travara os vidros e as portas do veículo de forma que eu estava presa. Observei o entorno e fiquei impressionada com o que havia depois da cerca, a cidade continuava, porém muito mais destruída.
Mas não era o que havia fora dos muros que tomava conta da minha cabeça. Meus pensamentos estavam cheios das cenas da última hora que se repetiam continuamente. Eric havia sido baleado... Meu coração apertava em pensar em como ele poderia estar, se estaria vivo. Uma vontade de chorar se apoderou de mim, mas não deixei ela crescer. Não deixaria, pois Eric não merecia minhas lágrimas, afinal, ele tinha me enganado. E eu também não deixaria que Tobias e aquela mulher desconhecida e desagradável me vissem chorando. Engoli o choro o máximo que pude.
Também havia outro grande problema em minha cabeça. Eric estava blefando? Eu bem sabia que a enfermeira havia colhido meu sangue aquele dia. Por Deus, eu não poderia estar grávida! Não agora, não nessa situação. Tudo estava muito confuso na minha cabeça e uma centelha de desespero começava a tomar conta de mim.
E não sei se foi por causa de minha confusão de pensamentos, mas a viagem não foi tão longa. Cerca de meia hora depois estacionamos dentro do que parecia um grande galpão. Tobias saiu do veículo e abriu a porta para que eu saísse. Ele parecia mais calmo agora que estávamos ali, quase afável, era quase o velho Tobias de antigamente quando se dirigiu a mim:
— Bem vinda a seu novo lar, meu amor. – Falou abrindo a porta do carro para que eu saísse.
— Minha casa é a Audácia, Tobias. – respondi com desprezo enquanto era observada por aquela mulherzinha de ar superior.
— Não vai me apresentar a sua... esposa, Quatro? – a mulher indagou com aquele eterno sorriso atravessado.
— Ah, Tris, essa é Nita. – Quatro disse parecendo extremamente desconfortável e eu senti imediatamente que algo estranho estava acontecendo ali.
Eu não fiz questão de estender a mão para Nita e ela muito menos.
— Sou amiga de seu marido... Tris.
O tom de voz de Nita era tão cínico quanto ela própria, mas eu não pude conferir mais do que isso, pois em seguida fomos interrompidos por outra presença. Uma mulher de cabelos pretos e muito bonita se aproximou e Tobias não precisaria me dizer quem ela era. Evellyn Eaton era muito parecida com o filho.
— Essa deve ser Tris, eu imagino. – ela interrompeu me olhando de cima a baixo quase da mesma maneira que Nita. – Vejo que não puxou o porte atlético de Andrew ou Natalie... – comentou sem interesse. - Enfim, meu filho lhe levará a seus aposentos, querida...
— Quando vamos parar de fingir que não sou uma prisioneira aqui? – eu disse com um sorriso irônico e Evellyn pareceu um pouco impressionada.
— Por minha vontade você nem estaria aqui... – Evellyn retorquiu fazendo pouco caso. – Mas você faz parte das exigências de Tobias, e estou cumprindo minha parte. – dizendo isso ela voltou-se para Tobias. – Então, filho, agora que você conseguiu o que queria, pode se focar nos seus objetivos. Cuide para que ela não cause problemas.
Dizendo isso ela nos deu as costas e saiu. Nita foi em seu encalço me deixando a sós com Tobias.
— Então, Tris... você vai me acompanhar por bem, ou eu terei que prendê-la? – ele perguntou muito calmo.
— Isso não parece um problema pra você, - resmunguei, exausta. – Pode me levar pra onde quiser, Tobias... Mas não entendo por que me trouxe, percebi que não sou muito querida aqui.
— Não é isso, ela só está muito ocupada com... – ele se interrompeu. – Venha, vou levar você para o nosso quarto.
"Nosso quarto" aquilo me fez estremecer um pouco. Tobias era meu marido e por muito tempo compartilhamos o maior tipo de intimidade que poderia haver entre duas pessoas, mas naquele momento eu não me sentia particularmente confortável em ficar sozinha em um quarto com ele.
Voltamos a subir algumas escadas e eu permaneci em silêncio, Tobias também mantinha seu silêncio e tinha no rosto um semblante preocupado que eu conhecia de muito tempo. Ele se mantinha perto de mim o tempo todo, parecia temer que eu fugisse.
Andamos por galpões grandes e velhos, embora muito arrumados. Havia marcas de bala nas paredes e fuligem, provando que não muito tempo antes, uma batalha ocorrera naqueles corredores.
Depois de alguns minutos chegamos a um aposento largo, de paredes brancas e maltratadas pelo tempo, com grande janelas de vidro que davam para o exterior. Havia peças de roupa espalhadas e coisas que eu reconhecia serem de Tobias, coisas que havíamos doado aos sem facção pouco tempo atrás.
— É aqui que você vai ficar, Tris. – Tobias me disse animado como se estivesse me falando de uma coisa boa.
— Tobias, você ainda não entendeu que eu não quero estar aqui? – eu disse novamente, colocando pra fora o que eu vinha sentindo. – Você praticamente me sequestrou...
— Eu não entendo, Tris... – ele disse parecendo subitamente irritado. – Por que você não gostaria de estar aqui perto de mim? É por causa dele? O que ele fez a ponto de virar sua cabeça, hein?
— Já disse que Eric não tem nada a ver, - eu defendi. – você é que está louco! Não vê a gravidade das mentiras que contou?
— Eu tive que escolher... – ele recomeçou, parecendo meio desorientado. – Tive que escolher entre nossa vidinha sem importância e algo muito maior... – disse com desprezo. - Além de atender ao chamado da minha mãe. Minha mãe, Tris!
— Vidinha sem importância? – eu indaguei sem acreditar. – É da minha vida que você está falando, Tobias!
— Por isso eu lhe trouxe pra cá! – ele insistiu. – para você dar mais significado a ela.
— Você está louco... só pode. – eu disse sem acreditar.
— Louco? – ele indagou novamente em tom de irritação. – Quem é você pra falar de loucura depois de cair nos braços daquele psicopata...
— Aquele psicopata me ajudou quando ninguém mais o fez! – eu disse mais para enfrentar Tobias do que para qualquer coisa, pois a dor da mentira de Eric ainda era grande.
— Besteira... – ele retorquiu. – Você deveria ser forte... por amor a mim.
Eu ri.
— Você estava morto, Tobias... – disse indignada. – E eu te amava, mas tinha que me amar também em algum momento...
— Se amou caindo nos braços do meu pior inimigo? Bela forma de honrar minha memória... – Ele disse com desprezo.
— Como você é egoísta... – eu concluí.
— Chame como quiser... – ele disse sem se importar. – Agora precisamos descobrir se o que aquele filho da mãe disse é verdade... por que se você pensa que eu vou deixar você carregar um filho dele, está muito enganada...
— Ele estava blefando, Tobias... – retorqui tentando demonstrar segurança, embora tivesse uma pontada de preocupação.
— E se for verdade? – ele me encarou.
— Se for verdade, ninguém vai me impedir de ter meu filho. – disse decidida. – Já perdi um filho uma vez e por culpa sua...
— Então, admite que pode estar grávida dele? – perguntou em tom acusatório.
— Posso sim! – respondi enfrentando-o.
Tobias subitamente foi até a parede e a esmurrou. Depois, voltou-se olhando para mim, parecia irado e por um minuto eu o temi pela primeira vez na vida.
— É melhor eu sair daqui... ou faço uma besteira.
Ele saiu batendo a porta.
Eu suspirei aliviada. Sentei na cama e relaxei a minha musculatura que tinha estado extremamente tensa.
Depois de um tempo, resolvi levantar, mas quase tropecei em alguma coisa que estava sob a cama e ficou presa no meu pé.
Quando levantei, vi que era um sutiã preto.
Um sutiã preto no quarto de Tobias.
Depois de verificar que Tobias havia me deixado trancada, eu deitei na cama e devo ter pensado em tudo por horas, além de, finalmente, ter conseguido chorar por tudo que tinha acontecido. Pelas mentiras de Eric, por eu não saber como ele estava, por Tobias não ser mais Tobias e por eu estar naquele lugar estranho que não era o meu lar. Devo ter chorado até dormir de exaustão.
Acordei na manhã seguinte com raios de sol nos meus olhos e alguém me sacudindo fortemente.
— Acorde! – uma voz feminina dizia enquanto eu era sacudida. – Acorde donzela em perigo! Acabou a folga...
Abri os olhos e vi a mulher que eu conhecera na noite anterior, Nita me fitava com impaciência.
— Ah, finalmente! – ela disse irritada. – Não pense que vai ter uma empregada pra lhe servir por aqui, garota. Aí está seu café da manhã. – falou apontando uma bandeja que estava sobre uma cômoda. Em seguida, ela olhou para a ponta da cama e pegou o sutiã preto que achei na noite anterior. – Ah, você achou meu sutiã? Seu marido não é exatamente discreto, né?
— Acho que essa peça foi deixada aí de propósito. - eu disse levantando e encarando-a. Não tinha medo dela e queria mostrar isso. – Olhe... Nita, eu acho que já notei seu jogo por aqui. E quer saber? Não tô nem ai se você estava trepando com Tobias...
— Estou. – ela me interrompeu. – onde você acha que ele dormiu ontem a noite? – disse vitoriosa.
Por essa eu não esperava, ou talvez sim.
— Não dou a mínima. – respondi sem mudar o tom. - Eu quero mais é que vocês dois se fodam... Se está tentando me irritar com isso, está perdendo seu tempo.
— Isso é por causa do loirão? – ela perguntou com um sorriso cínico. – Você esqueceu seu marido rapidinho, né? – zombou. – Eu até entendo... aquele cara é muito gostoso... – disse sonhadora. – Não que Tobias não seja.
Eu não me contive naquele momento e dei um belo de um tapa na cara de Nita, um tapa que poderia ter deixado uma bela marca, mas infelizmente não o fez.
Ela me olhou surpresa, levou a mão ao rosto.
— Nunca... mais... faça... isso... – disse entre dentes após se recuperar do choque. – Você não sabe com quem está lidando... careta.
— Nem você... Nita. – ameacei.
— Coma a porcaria do seu café! – ela disse apontando a bandeja enquanto esfregava o rosto. – Exigência do seu maridinho... – completou com desprezo. – Temos que sair em seguida.
— Estou sem fome. – falei ríspida, surpresa por ela não revidar, mas imaginei logo que ela não queria me agredir para não irritar Tobias.
— Pois bem, então, vamos.
Dizendo isso ela se aproximou de mim e com um gesto rápido, prendeu meus pulsos com uma espécie de algema.
— Outra exigência do seu maridinho. – falou satisfeita. – Parece que ele não confia muito em você...
— Nem eu nele...
Ela me empurrou e resignada saí do quarto e a segui pelos corredores daquele lugar enquanto as pessoas nos lançavam olhares de soslaio. Depois de um tempo, chegamos em um tipo de laboratório.
Quando uma mulher vestida de branco colheu meu sangue, eu sabia o que fariam. Outro teste de gravidez.
Nita e eu esperamos depois disso. O lugar era impecavelmente branco, embora tivesse muitas marcas de balas na parede.
— O que aconteceu aqui? – eu indaguei olhando em volta, mas para mim do que para Nita, mas ela escutara.
— Uma reintegração de posse. – disse satisfeita. – Expulsamos os malditos que nos controlavam. Tomamos o lugar, como vamos fazer logo, logo com sua querida cidade.
Minha espinha gelou. Se pessoas como Nita queriam tomar nossa cidade, algo grave estava acontecendo. Pelas marcas naquele lugar, a ofensiva deles parecia ser agressiva. Meu coração apertou.
Mas não apertou tanto quanto a enfermeira voltou com um resultado em um pequeno pedaço de papel e entregou a Nita.
— Acho que Tobias não vai ficar muito satisfeito em ter um bastardo. – ela disse com uma alegria maligna. – Você está grávida do loirão, queridinha.
Nita me prendeu novamente no meu quarto-cárcere após sairmos do laboratório. Aquela altura eu estava à beira do pânico.
Eu estava grávida. Grávida de Eric.
E eu estava nas mãos de Tobias. Um Tobias enfurecido que eu não reconhecia mais.
E tinha Evellyn e Nita que estavam tramando algo muito ruim para minha cidade, e eu não podia fazer nada a respeito disso.
E eu me senti impotente o dia todo, mas depois pensei que sim.
Eu podia fazer alguma coisa.
Tobias, ou melhor, Quatro me queria, afinal de contas.
Tomei um banho e vesti as roupas que Nita deixara para mim no meio da tarde, também tentei comer a comida que ela me deixara visivelmente a contragosto. Parecia que Tobias a havia incumbido de cuidar de mim e ela claramente odiava a ideia.
Eu me regojizei com a ideia. Ela devia estar puta da vida por ter que me servir. E eu tornaria as coisas difíceis pra ela.
Quando a noite caiu, eu me arrumei e esperei. Ele viria.
Eu ia usar a única arma que me restava.
Já era um pouco tarde quando ele chegou.
Percebi de imediato que ele não estava muito sóbrio. Eu levantei e fui até ele.
Não sabia em que estado Tobias estaria por saber o resultado do meu teste e gravidez, mas ele não parecia enfurecido.
Eu me aproximei e como não vi reação contrária da parte dele, enlacei meus braços em seu pescoço agarrando sua nuca, como eu gostava de fazer antigamente.
— Me perdoe... – eu sussurrei tentando parecer o mais verdadeira e preocupada possível. - Ele me enganou...
Por um segundo, esperei uma reação enfurecida. Mas então, ele agarrou minha nuca e me beijou com ferocidade. Como ele me beijava antigamente após voltar de vários dias de plantão na sala de monitoramento.
Nós não falamos mais nada.
As roupas foram sendo atiradas em uma velocidade que fora constante nos tempos em que nos amávamos como se nossa vida dependesse disso.
Eu arranhei as costas nuas dele e gemi em seu ouvido do jeito que eu sabia que ele gostava. Era possível sentir o quanto ele estava excitado quando me jogou na cama e caiu sobre mim beijando meus seios expostos e arrancando como podia minha calça. Ele me queria e eu seria dele. Eu precisava ser. Uma vez mais.
Tobias me possuiu com o mesmo vigor com que fizera na nossa primeira noite de casados. Ele me mordeu em vários lugares diferentes e apertava minha carne como se quisesse arrancá-la. Eu apenas fingi. Era uma atriz e uma expectadora do meu próprio passado.
Ele me virou de bruços e ficou por cima de mim, apertando minha bunda, mordendo-a e finalmente, se colocando dentro de mim enquanto puxava meus cabelos, como ele sabia que eu gostava. Ele gozou intensamente dizendo meu nome.
E eu me esforcei ao máximo para gemer e fingir um orgasmo que nunca existiu.
Eu estava abraçada ao corpo nu de Tobias e ele ainda suspirava de cansaço e prazer. Eu tentava parecer que sentia o mesmo.
— Eu sabia que você mudaria de ideia... – ele disse beijando meu rosto.
— Tobias, quanto a minha gravidez...
— Não se preocupe com isso... – ele falou como se não fosse importante. – Vamos resolver logo que possível. Você vai se livrar desse resquício daquele monstro, não se preocupe.
— Tobias, e como serão as coisas agora? – tentei parecer inocente.
— Estamos quase lá, meu amor. – ele falou me abraçando. – Vamos tomar a cidade, acabar com as facções. Criar um sistema de governo com uma liderança forte.
— Um governo totalitário? – indaguei sem me conter.
— Aprendi com minha mãe que é preciso força para combater os tiranos, mas vamos conseguir. Só precisamos fazer uma coisa para que possamos modificar a cidade.
— O que? – indaguei, meu coração descompassado, sabendo que algo muito ruim estaria por vir.
— Não é algo bom, Tris. E não quero que você participe. Mas às vezes, coisas ruins são necessárias... – ele disse beijando meus lábios. – Durma agora...
Eu não consegui dormir. Precisava proteger meu filho, precisava proteger minha cidade.
Tobias me libertou de minha prisão nos dias seguintes, mas eu estava constantemente vigiada por todos. E comecei a caminhar pelos corredores reconhecendo aquele lugar, tentando pensar em formas de fugir e avisar a meu pai, a Max e até Eric, se estivesse vivo, sobre o que estava por vir.
Eu esperei pacientemente, e talvez tenha sido sorte, ou destino, mas no meu quinto dia naquele lugar, já quase sem esperanças, vi Evellyn saindo as pressas e com o corredor vazio, entrei pela porta que ela deixara entre aberta.
Fui até uma grande mesa que estava apinhada de documentos.
Eu peguei um que estava sobre a pilha, parecia um memorando endereçado a alguém com um codinome que não me era familiar.
Informe aos membros...
...as ordens são as seguintes ...
...em seguida adentrar no arsenal da Audácia ...
...roubar as armas...
...eliminar todos os membros da facção...
...não deixar sobreviventes...
...tomar a cidade.
A data marcada para o ataque era dali uma semana.
— Ora, mas temos uma bisbilhoteira por aqui... - a voz de Evellyn surgiu sarcástica e eu levantei o olhar para vê-la ao lado Nita que também sorria.
— Você não pode eliminar uma facção inteira! – eu disse revoltada com o que acabara de ler.
— Isso não é da sua conta, menininha intrometida!
— Tobias... – eu disse chocada. – Tobias não vai deixar...
— Mas se foi ideia dele! – Nita sorriu com os braços cruzado contra o corpo.
— Não! Isso não vai acontecer! Vocês são todos loucos!
— Nita, dê um sumiço nela. – Evellyn ordenou friamente. – Diga a Tobias que ela fugiu. Assim resolvemos isso de uma vez por todas.
— Com prazer. – Nita respondeu vindo em minha direção. – Eu tentei correr, mas a própria Evellyn me prendeu e amarrou meus pulsos com um laço que ela arrancara da cortina.
Nita me puxou pelos cabelos e me empurrou por uma porta transversal que havia na sala de Evellyn. Me levou por escadas escuras e me jogou no que parecia uma cela escura de com paredes de pedra.
— Vamos acabar com esse rostinho bonito, antes de tudo.
Dizendo isso, Nita me deu sucessivos socos, me derrubando em seguida. Senti o sangue escorrer de meu nariz e boca e sabia que um grande talho havia sido aberto em minha cabeça. Ela chutou várias vezes com forças em minhas costas quando eu estava caída e me coloquei em posição fetal tentando proteger meu abdômen.
— Hoje eu não posso terminar isso. – Ela disse depois de cuspir sobre mim. – Mas amanhã será a vez de Quatro ficar viúvo.
Dizendo isso, ela subiu escada acima. E eu sabia que ela me executaria na manhã seguinte.
Quando a dor acalmou, eu trabalhei.
Eu precisava viver.
Eu era a única que podia alertar minha cidade. Minha facção. E ainda tinha meu filho... um filho que eu acabara de saber que existia, mas que só a ideia de saber que ele estava dentro de mim, me dava forças pra resistir.
Passei a noite inteira tentado afrouxar o laço da cortina que atava meus pulsos e pra minha sorte, ela era lisa o suficiente e estava suficientemente frouxa na manhã seguinte.
Quando o sol raiou, Nita chegou como eu previra, e eu estava deitada na posição que ela me deixara.
— Está pronta? – ela disse ficando em pé próximo a mim. Antes mesmo que ela sacasse a arma, eu dei uma rasteira e a derrubei.
Soltei minhas mãos e peguei a arma que ela derrubara. Foi minha vez de chutá-la seguidas vezes até ela não pode se levantar.
Subi as escadas daquele calabouço que davam para a sala de Evellyn. Entrei na sala e tranquei a porta transversal do calabouço com Nita lá dentro.
Olhei em torno e vi uma tela comunicadora. Eu só lembrava um número de cabeça. O número do meu chefe. Do meu amante. Eric.
Digitei rapidamente, torcendo para que tivesse alguém do outro lado.
Por favor, esteja vivo, - resmunguei baixinho...
Por favor esteja vivo...
Por favor...
A imagem retorcida apareceu do outro lado e eu senti a maior felicidade do mundo ao vê-lo, mas eu não tinha tempo. Nita já esmurrava a porta do calabouço.
— Eric... sou eu... – eu disse quando a imagem dele apareceu na tela.
— Tris? – ele chamou meu nome parecendo exasperado.
— Não tenho muito tempo... – falei desesperadamente. - Vocês precisam vir... Eles vão atacar...
— O que aconteceu com você? Onde você está? – ele perguntou.
— Fora...
Foi a última coisa que consegui dizer antes de Evellyn desligar o monitor e apontar sua arma na minha direção.
ERIC
— Eles estão fora da cerca, Andrew. – eu falei exasperado. Estava na residência dos Prior, fora pra lá com Max imediatamente após receber a mensagem de Tris. – Eles estão com ela... e ela parecia desesperada. E estava machucada também! Muito machucada...
— Nós não sabemos o que tem lá fora. – Andrew retrucou preocupado, parecendo, de repente, um homem muito velho. – Como vamos saber onde estão? É impossível. Não sabemos o que há lá fora...
— Tentem rastrear a ligação para saber mais ou menos de que região ela vem. – Natalie, a mãe de Tris, interrompeu parecendo muito segura. – Eu sei o que há lá fora, não lembra Andrew? Acho que sei onde minha filha pode estar. E vou levar vocês até lá, Eric.
Eu olhei encantado para aquela mulher super segura e eu pude ver minha Careta por um instante naqueles olhos. Havia uma coisa ali que me era muito familiar:
Audácia.
