Divergente não me pertence.
CAPÍTULO 19
Eu preciso de você
"Você já teve a sensação de que não estamos sozinhos?
Esforce-se para chamar a velha sensação,
Eles a descobriram descendo as estradas de poeira.
Estou pálida e com frio,
E eu preciso de você."
I need you, M83 (Divergent Original Soundtrack)
TRIS
Evelyn tinha uma arma apontada para minha cabeça e eu podia ouvir os gritos de Nita ao longe, enquanto ela batia incansavelmente na porta da cela onde eu a trancara.
— Eu sempre soube que você era problema, garota. – Evelyn falou sem baixar a arma. – mas você é uma obsessão pro Tobias. Só que isso tem que acabar...
Eu a olhei enquanto sua outra mão descansava sobre o painel onde ela acabara de desligar a chamada que eu fizera para Eric.
Ele estava vivo. Eu estava grávida. E eu pensava apenas que não poderia morrer ali.
Eu tinha que tentar.
— Você acha mesmo que Tobias nunca iria descobrir se você me matasse... – falei com desprezo encarando-a com toda a confiança que consegui juntar. – Ele vai acabar descobrindo. – prossegui. – E ele não vai te perdoar Evelyn, você sabe disso...
Ela sorriu, mas pareceu ponderar por um momento.
— Pois bem, - continuou com o brilho no olhar de quem tinha tido uma ideia brilhante. – Eu não vou te matar... mas você vai morrer.
ERIC
Eu consegui ler as palavras O'Hare International Airport, que estavam semi apagadas na placa quase destruída que apontava para o conglomerado de prédios baixos e velhos no meio de toda aquela cidade em ruínas. Eu não sabia o que significava aquelas palavras, mas aquele prédio parecia a única coisa ainda viva naquela tumba urbana, e era grande demais e imponente demais para não ser importante.
Eu já tinha atravessado a fronteira da cerca algumas vezes antes. Na maioria delas eu estava procurando fugitivos ou resolvendo questões de segurança relativas à área cultivada pela Amizade, contudo, eu nunca tinha ido tão longe, ou melhor, nunca tinha necessitado ir naquela direção que me parecia totalmente inóspita.
Natalie, ao contrário, parecia conhecer aquilo tudo muito bem, e durante o trajeto do muro até ali, ela me explicou muita coisa. Muita coisa sobre nossa história. Sobre como não éramos os únicos no mundo e sob como havia um governo maior que nos observava. Eu sempre desconfiei que algo desse tipo existia, mas ver com meus próprios olhos era quase inacreditável, embora, naquele momento, por mais chocante que fosse tudo aquilo, era a menor das minhas preocupações, visto que minhas preocupações estavam focadas em encontrar a filha de Natalie, a garota que carregava meu filho e eu procurava não pensar nesse detalhe, pois só me enchia ainda mais de angústia.
Estávamos afastados do complexo de prédios observando sua entrada principal. Já fazia mais de duas horas que estávamos ali e nenhum veículo havia entrado ou saído até aquele momento.
— Eu devia ter desconfiado quando eles cortaram contato totalmente. Isso foi há pouco mais de um ano... – Natalie me disse enquanto vigiava os prédios ao longe junto comigo, Andrew e Max. - Eles simplesmente sumiram... achei que tinham nos deixado em paz de vez. Mas claro que não...
— O que você acha que aconteceu? – indaguei tentando entender a situação.
— Acho que Evelyn sabia sobre eles, por que Marcus sabia. – ela respondeu pensativa. – e acho que ela foi inteligente o suficiente para tomar de assalto o lugar. Eles eram cientistas, não guerreiros. Deve ter matado ou aprisionado todos e ocupado o O'Hare para usar como seu centro de comando. Mas eu não acho que ela tenha achado as armas...
— Que armas? – perguntei com um misto de surpresa e preocupação.
— Existem armas e soros poderosos armazenados no O'Hare. – ela continuou. – Mas estão muito bem escondidos e protegidos. Evellyn com certeza não os achou. Talvez nem saiba deles, pois se soubesse, tenho certeza que já teria nos atacado... Temos torcer pra que ela continue nessa ignorância por um bom tempo.
— E Tris? Ela estava machucada... – falei olhando ao longe.
— Ela está viva. – Natalie disse com segurança. – Deve ter arranjado problemas, por que isso a minha filha sabe fazer muito bem... – ela sorriu e me pareceu muito parecida com a filha naquele momento. – mas ela está viva, tenho certeza.
Quando Natalie disse isso, Andrew a abraçou e pegou-lhe a mão. Eu poderia ter passado muito tempo admirando aquela cumplicidade que eu nunca tinha tido com ninguém, talvez um pouco com a filha deles, mas algo chamou nossa atenção. Ao longe, os portões do complexo tinham sido abertos e um pequeno veículo militar saía por ele.
Max pegou o binóculo e observou o veículo.
— Parece ser nosso dia de sorte, pessoal... – ele falou com um sorriso.
TRIS
Eu estava algemada enquanto Nita me levava em um veículo para fora dos prédios para onde Tobias havia me levado. Ela dirigia pela estrada esburacada e poeirenta e eu não fazia ideia do que se passava pela cabeça dela, mas sabia que não podia ser nada de bom.
— Você está me levando pra me executar longe dos olhos de Tobias? – indaguei na esperança de que ela me desse alguma pista sobre o que pretendia.
— Eu? – ela replicou parecendo contente. – Não que eu não quisesse fazer isso... mas não vou encostar um dedo em você, queridinha. Ordens da chefe. Claro que isso não significa que você irá sobreviver de qualquer maneira... – completou com um sorriso de satisfação.
Ela não disse mais nada, parecendo feliz em me deixar às cegas sobre meu destino, mas eu não lhe dei o gosto de parecer assustada. Apenas olhei pra frente e encarei meu destino, pensando que eu ia dar um jeito. Eu era da Audácia, afinal.
E seria corajosa.
Nita parou o carro freando bruscamente.
Ela saiu e abriu a porta do passageiro me jogando para fora. Estávamos no meio das ruínas do que deveria ter sido uma cidade há muito tempo.
— Seja bem vinda à Margem. – falou com alegria enquanto usava uma chave para abrir minhas algemas. – A história vai ser a seguinte: você me agrediu, me obrigou a tirá-la do O'Hare, mas eu consegui escapar quando chegamos à Margem, e você ficou aqui. – contou alegremente. - E claro que você foi morta, por que quase ninguém sobrevive por aqui, mesmo armado... e apenas para garantir isso, temos alguns colegas que serão muito bem recompensados para acabar com você.
Nita apontou sua arma para mim e eu pude ver um grupo de homens escondido nas sombras. Eram sujos, maltrapilhos e seguravam todo tipo de arma artesanal. Pedaços de madeira com pregos, pedras, pedaços retorcidos de metal... eu soube instantaneamente que não seria páreo pra eles.
Um calafrio percorreu meu corpo.
Vi quando Nita abriu o porta malas para que dois deles retirasse alguns sacos lá de dentro. Eles iam me matar, e parece que me matariam em troca de comida.
— Tenham uma boa refeição, rapazes. – Nita disse muito satisfeita quando voltou ao carro e me deixou com uma última olhada. – Adeus, queridinha...— Ela tinha um sorriso um sorriso cruel nos lábios.
Nita partiu e eu não esperei o carro dela se afastar muito para começar a correr.
Eu teria que correr o máximo que pudesse, ainda bem que a Audácia me preparara pra isso.
Não esperei para ver o grupo de homens começar a me perseguir, eu apenas corri sem olhar pra trás na esperança de encontrar algum lugar para me esconder. Entrei por um beco transversal ao lugar onde Nita me deixara.
Seria impossível saber em qual direção eles viriam, eu estava em um labirinto de ruas destruídas, desarmada e sem saber para onde ir e era só uma questão de tempo até aqueles caras em encontrarem. Eu sabia que estava perdida.
Foi então que eu ouvi os tiros.
Eu não ia parar para saber o que estava acontecendo. Até onde eu sabia, os caras que eu vislumbrei não estavam armados, então alguém mais havia chegado. Seria Tobias que viera me buscar? Eu até preferia que não, pois se ele me achasse, ia me levar de novo para aquela prisão, e eu não queria voltar pra lá, pra falar a verdade, também não queria voltar pra ele.
Depois de algum tempo os tiros cessaram. Logo depois comecei a ouvir passos próximos de mim. Entrei por outra rua e peguei um beco na esperança de me distanciar de quem quer seja que se aproximava, e então, fugir.
Mas peguei um beco sem saída.
Eu respirava pesadamente à medida que os passos se aproximaram e eu olhei para todos os lados em busca de uma rota de fuga, mas não havia nenhuma.
Não me restava nenhuma alternativa. Mantive a coluna ereta e encarei o lugar por onde meu perseguidor apareceria.
ERIC
Encontrei-a do jeito que eu esperava encontrar.
Ela estava encurralada em um beco sem saída. Mas estava de cabeça erguida e esperava corajosamente pelo que estava por vir.
Seus olhos faiscaram e arregalaram-se quando ela me viu.
— E- Eric?— ela gaguejou com a respiração entrecortada.
Eu a encarei. E sorri.
TRIS
Não, não era nenhum tipo de alucinação, eu tinha certeza. Eric estava ali na minha frente contra a luz naquele beco arruinado.
Ele segurava uma arma, ainda tinha um machucado na cabeça e... sorria pra mim?
— Você me chamou e eu vim, Careta. – ele disse aproximando-se. Eu continuava encostada no muro, incapaz de me mover.
— C-como? Como você me achou? – indaguei sem acreditar que ele estava ali. Que eu estava salva. Meu filho estava a salvo.
Eu poderia abraçar Eric por isso, mas não o fiz.
— Eu tive uma pequena ajuda para lhe achar. Venha, - ele disse estendendo a mão. – temos que encontrar os outros e sair daqui. Esse lugar não é seguro.
Eu segurei a mão dele e saímos juntos daquele beco. Eric colocou um braço entorno de meus ombros e eu fui incapaz de repeli-lo na situação de choque em que eu me encontrava. Andamos rápido por algumas ruas, ele sempre olhando no entorno a procura de algum outro possível atacante. Vi alguns corpos pelo chão no caminho de volta, mas preferi não olhá-los. Matar nunca era a melhor opção, eu acreditava nisso, mas naquele momento, eu sabia que Eric não tivera outra opção.
Quando voltei ao lugar onde Nita me deixara, mal pude acreditar no que meus olhos viram.
Meus pais estavam ali. Eles também seguravam armas. E eles me abraçaram quase ao mesmo tempo. Eu fui então invadida por uma onda de emoção tão grande que as lágrimas tornaram-se incoercíveis.
Choramos e nos abraçamos por um bom tempo.
Quando meus pais me soltaram instantes depois, Eric e Max pareciam bem deslocados e desviavam o olhar de nós.
— Como vocês conseguiram? – eu perguntei enquanto secavam as lágrimas com o dorso das mãos, era estranho e maravilhoso ver todos eles ali.
— Eric nos procurou... – minha mãe começou. – após sua mensagem.
— E sua mãe sabia onde encontrá-la. – Eric completou. Ele estava um pouco distante, como se ele e meus pais não pudessem ocupar o mesmo espaço próximo a mim.
— Mamãe, mas como?...— eu olhei impressionada e cheia de dúvidas.
— Isso é um assunto pra outra hora. – minha mãe cortou minhas possíveis perguntas. – precisamos sair daqui. Logo mais desses caras podem chegar...
Dizendo isso, voltamos ao veículo em que eles vieram.
Max dirigia e Eric ocupou o banco do passageiro. Eu fui no banco de trás com meus pais. E logo o cansaço da última noite acordada me tomou, e eu devo ter dormido por horas no colo de meu pai.
Como eu fazia quando era uma garotinha.
ERIC
Ela ainda dormia quando chegamos à cidade.
Era fim de tarde e eu estava tendo uma pequena discussão com Andrew Prior quando estacionamos em frente a sua casa no setor da Abnegação.
— Minha filha deve ficar conosco, Eric. – ele disse incisivo quando desceu do carro. – Não acho que na Audácia ela estará segura.
— E você acha que ela estará segura aqui, Andrew? – repliquei irritado. – Aqui onde não tem um guarda sequer a quase um quilômetro?
— Ela também não estava segura na Audácia. – ele insistiu. – primeiro, quase foi sequestrada de dentro do próprio apartamento, depois vocês deixaram ela sair de madrugada e ser capturada... e você... – ele falou com raiva, apontando o dedo pra minha cara. – Você ainda engravidou minha filha. Então não venha me dizer que ela vai ficar segura com você...
— Andrew, seja razoável... – Natalie, que saíra do carro, interveio ficando entre seu marido e eu. – Não vamos brigar por isso. O lugar de Beatrice é na Audácia e você sabe disso, não adianta querer prendê-la aqui, ela não é mais uma criança. Lá que é a casa dela. A facção dela. E lá eles cuidam uns dos outros. – ela disse me olhando significativamente. – Tenho certeza que Eric redobrará os cuidados com a segurança dela. Não é mesmo, querido?
— Sim, senhora. – respondi tentando mostrar segurança, embora aquela mulher bonita e segura me intimidasse um pouco.
— Então, estamos resolvidos. – disse pegando o braço do marido. – Temos que nos preocupar agora em como vamos enfrentar o grupo terrorista de Evelyn... Nos vemos no conselho amanhã. – ela falou para mim.
— Estarei de olho... – Andrew completou com o dedo em riste na minha direção, mas parecendo incapaz de desfazer o que Natalie decidira.
Eles entraram na casa e Max voltou ao carro.
— Bem, agora nós sabemos a quem sua namorada puxou. – Max disse divertido quando voltei ao carro. - Pode ir lá atrás com ela, se quiser... – ele disse quando sentei no banco do passageiro. Ela ainda dormia a sono alto no banco de trás envolvida com o casaco de Andrew.
— Deixa ela descansar... vamos. – falei cansado, porém satisfeito em estar levando-a de volta pra casa.
TRIS
— Ei, acorde...
Quando acordei era noite e eu estava muito dolorida, e estava dentro do jipe militar da Audácia. Uma das portas estava aberta e a silhueta grande de Eric a preenchia, ele me chamava.
— Chegamos... – ele disse mais afável que de costume.
— Onde estão meus pais? – perguntei olhando no entorno e me levantando.
— Eles ficaram na Abnegação.
Eric deu a mão para me ajudar a sair, mas eu não aceitei. Abri a porta do outro lado e saí do carro, pude ouvir seu suspiro de desaprovação do outro lado.
— Tris, não tente bancar a rebelde agora... – ele disse impaciente vindo até mim.
— Não estou bancando a rebelde. – eu disse enquanto andávamos para o complexo, meu corpo inteiro dolorido e pesando uma tonelada. – Apenas não precisei da sua ajuda para descer do carro...
— Você vai continuar chateada comigo? – ele indagou. – depois de tudo?
— Uma coisa não desfaz a outra, Eric. – respondi parando para olhá-lo. – o que aconteceu não muda o fato de que você me enganou e me usou.
Dizendo isso, dei as costas a ele e segui em frente.
— Onde você pensa que está indo? – perguntou depois de me alcançar.
— Para o meu apartamento. – respondi com simplicidade.
— Não, nós vamos a enfermaria. – ele disse resoluto.
— Não precisa, eu estou bem. – rebati tentando me desvencilhar dele.
— Não seja irresponsável, Careta! – falou parecendo subitamente zangado. – Você precisa ir a enfermaria e ver se está tudo bem... – ele parou um pouco e depois falou: - Ver se está tudo bem com o bebê...
Eu estaquei surpresa. Ele estava mesmo preocupado com meu filho? Nós não tínhamos ainda tocado nesse assunto, e eu ainda não me sentia preparada para fazê-lo, mas o assunto estava ali. Um enorme elefante branco no meio da sala, não tinha como fingir que ele não existia.
— Então você só quer saber se eu continuo grávida... – falei com ar de deboche.
— E você não está mais? – ele pareceu apreensivo.
— Até onde eu sei, ainda estou. – respondi desarmada pelo olhar de preocupação dele. – Não deixei que machucassem meu ventre... – falei levando a mão até meu abdômen, quase de forma inconsciente. - E não vou deixar que machuquem, entendeu?
— Eu também não vou deixar. – ele respondeu muito sério e eu percebi naquele momento que Eric não estava preocupado por eu estar grávida, ele estava mesmo preocupado com a criança.
Não sabia mais o que falar.
— Vamos à enfermaria. - eu disse simplesmente. Ele assentiu e seguimos em silêncio.
Na enfermaria fiz vários exames e tudo parecia estar bem. Apesar de meus hematomas no rosto e pelo corpo, e todo o cansaço, eu não tinha tido danos maiores e tudo ia bem com minha tão recente gravidez.
Eric ficou o tempo todo próximo a mim e parecia atento a tudo que Sue, a enfermeira amiga dele nos dizia. Ela me deu orientações sobre cuidados e sobre o que fazer dali pra frente, além de prescrever algumas vitaminas. Quem passasse pelo consultório de Sue e me visse deitada na maca com Eric ao meu lado, poderia facilmente confundir com qualquer jovem casal da Audácia que estava começando sua nova família, mas Eric e eu estávamos longe de ser isso.
Quando terminamos, Eric me acompanhou até os elevadores, eu já estava ansiosa que ele se afastasse de mim, eu me sentia estranha em tê-lo por perto, apesar de não ser ruim, eu sabia que seria muito difícil repeli-lo por muito tempo. Principalmente da forma como ele estava me tratando, como se fôssemos aquele casal feliz que estava começando sua nova família. O que definitivamente, não éramos.
Apertei o doze no painel do elevador, mas Eric apertou o botão novamente desativando-o e em seguida, apertou o botão do último andar, onde ficava seu apartamento.
— Você não vai pro seu apartamento. – ele explicou antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. – Suas coisas já estão no meu apartamento.
— Você não tem o direit-
— Tenho sim. – ele me interrompeu. – primeiro: aquele apartamento não é seguro. – falou me olhando. – Você já foi sequestrada de lá e já fugiu de lá. Seu pai já anda me acusando de não sermos capazes de cuidar da sua segurança... em segundo lugar, não estou preocupado só com você. – disse muito sério, - estou preocupado com meu filho. Então, enquanto você estiver carregando ele, você pode não estar nem aí pra mim, mas você não vai ser mais a rebelde irresponsável que você costuma ser a maior parte do tempo. E enquanto isso tudo não se resolver, você vai continuar comigo, queira ou não.
— Não sabia que você se importava em ter um filho... – disse mais por birra do que por qualquer outra coisa.
— Isso prova que você não sabe muito sobre mim. – ele disse sem me olhar no instante em que a porta do elevador abriu.
QUATRO
— Ela não estava lá. – eu disse impotente e cego pela raiva. – ELA. NÃO. ESTAVA. LÁ!
Minha mãe e Nita me olhavam em silêncio. Elas tinham me dito mais cedo e me mostrado as fitas de segurança onde Tris saía do complexo acompanhada de Nita após espancá-la.
Nita me falara que havia ido até a Margem com Tris e que tinha fugido dela lá. Quando eu soube, fui imediatamente até o local e vasculhei tudo, mas não encontrei Tris ali.
— Ela não estava lá. – repeti furioso. – mas havia corpos... e havia tiros... e havia muitos cartuchos de munição que são usados pela Audácia!
— Ela se comunicou com alguém antes de fugir... – minha mãe interpelou.
— Com quem? - perguntei já temendo a resposta.
— Eric.
Um gosto amargo subiu pela minha garganta. Então, ela tinha fugido com ele. Tinha voltado pra ele.
Eu peguei uma cadeira que estava próxima e joguei-a contra a parede, partindo-a em vários pedaços, extravasando minha raiva.
Nita recuou, mas minha mãe não se mexeu.
— Tobias, ela sabe do nosso plano. – minha mãe contou. – E a essa altura já deve ter contado ao amante...
A palavra amante, me atingiu mais que o resto da sentença. Eu respirei fundo e tentei pensar claramente, mesmo com a fúria que me tomava.
— Isso significa que temos pouco tempo... – refleti. – Então, vamos ter que antecipar o ataque... Vai ser em dois dias. Em dois dias invadiremos o complexo da Audácia.
E eu matarei Eric e aquela traidora com minhas próprias mãos, completei em pensamento.
