Divergente não me pertence.
CAPÍTULO 20
Seja Corajoso - Parte I
"Tão distante do inferno, tão distante de você.
Pois o céu está pesado e negro e cinzento.
Você é apenas um alguém que se foi.
E você nunca disse adeus!
Por quê amor, por quê?
Lover Why, Century
TRIS
Foram os alarmes de incêndio que me acordaram. Eu podia sentir o cheiro de algo queimando e achei ter ouvido o que pareciam explosões ou tiros ao longe. Imediatamente percebi que alguma coisa não estava normal.
Eu estava sozinha no apartamento de Eric, e imediatamente a tensão tomou conta do meu corpo. Tive certeza que algo tinha acontecido.
A Audácia fora atacada.
Vesti minha roupa e saí pelos corredores. Eu precisava saber o que estava acontecendo, e principalmente, saber se todos estavam bem.
Os corredores da pira estavam vazios e os elevadores não estavam funcionando, o cheiro de queimado tomava conta de tudo. Corri apressada pelas escadas de incêndio até o andar onde ficava a sala de Eric na esperança de encontrá-lo ou encontrar uma pista do que estaria acontecendo. Era de admirar não ter ninguém nos corredores, quando havia fumaça e alarmes por todos os lugares. Tudo estava muito estranho.
A sala de Eric estava vazia. Eu não fazia a menor ideia de onde ele poderia estar. Contudo, antes de me lançar aleatoriamente pelos corredores da Audácia, eu vi o controle remoto em cima da mesa.
E eu lembrei do plano de Evellyn de roubar as armas.
Então, peguei o controle remoto e um dos revólveres de Eric em sua mesa. Abri a porta que dava acesso a sua entrada para o arsenal.
ERIC
Eu estava no conselho com os demais líderes de facção quando recebi a comunicação.
Um grupo armado invadira o refeitório da Audácia no café da manhã. Tinham tido apoio de alguns membros da própria facção. A maior parte das pessoas da facção estavam lá naquela manhã e agora eram mantidos reféns. As entradas do Complexo havia sido explodidas e lacradas e a entrada principal do Complexo estava pegando fogo.
Fui informado de que uma parte do grupo de atacantes estava vasculhando o complexo em busca de algo eu tinha certeza do que estavam procurando. O acesso para o arsenal.
Imediatamente, me pus a caminho do complexo da Audácia pensando no que poderia estar acontecendo, pensando se já tinham cumprido o plano de exterminar a facção, se tinham capturado ela... Mas estava confiante que não. Eu havia tido uma ideia depois que Tris me contara sobre o plano de Evelyn de invadir a Audácia e saquear o arsenal, eu colocara essa ideia em prática na noite anterior e estava confiante que eles não achariam as armas tão facilmente.
Mas, quando finalmente cheguei em frente ao Complexo e vi a fumaça que saía em alguns pontos, percebi que fora um erro deixá-lo. Meu contingente quase todo estava lá dentro. Eu e Max mandamos uma comunicação para todos os membros que estivessem fora do complexo e que não estavam mantidos como refém, seria nosso único exército para enfrentar aquela situação.
Max me avisou que o grupo de Evelyn havia tomado todas as entradas, que não havia como entrarmos. Mas um lampejo me fez lembrar de uma entrada que talvez eles tivessem esquecido, a mesma que até tinham usado uma vez.
TRIS
Caminhei devagar pelos corredores de paredes transparentes. Não havia movimento nas esteiras de trabalho da linha de produção que ficava do outro lado. O galpão parecia vazio. Eu sabia que estava exposta naquele corredor de paredes transparentes, mas achei que talvez tivesse uma chance se chegasse ao arsenal e descobrisse o que estava acontecendo.
Quando cheguei em frente a entrada do arsenal que certa vez fora aberta pela leitura da retina de Eric, eu não precisei me preocupar em como abri-la, pois a mesma estava escancarada. E quando vi o corpo de Nicole no chão próximo ao portal, percebi que tinham a usado para abri-lo.
Uma poça de sangue estava junto a seu corpo. Abaixei-me e toquei-lhe o pulso no pescoço, não havia vida ali. Ela estava morta.
— Parada aí, Careta! – escutei uma arma sendo destrava atrás de mim.
Levantei as mãos e virei meu rosto devagar, a arma de Eric prontamente escondida em meu casaco.
Nita estava atrás de mim. Havia resquícios de sangue por sua blusa branca e por seu colete de couro. Não parecia mistério quem tinha matado Nicole.
— Levante-se agora! – ela mandou e eu fui levantando devagar, torcendo que ela não visse minha arma, mas não adiantou.
— A arma! Jogue-a pra mim!
Eu peguei a arma que estava em meu colete e joguei-a no chão.
Nita agachou-e a apanhou sem parar de mirar na minha direção.
— O que vai fazer agora, Nita? – indaguei encarando-a frente à frente.
— Eu poderia matar você... – ela disse com um sorriso sádico. – Mas tem outra pessoa que está mais interessada. Vamos!
Dizendo isso, ela me puxou pelo braço e me levou para o interior do arsenal.
ERIC
Consegui juntar um grupo razoável. Havia ao menos uns trinta membros da Audácia que estavam fora do Complexo e tinham alguns que estavam lá dentro escondidos e estavam nos passavam informações.
Juntamos todas as armas que conseguimos reunir e partimos para o alto do prédio que dava acesso à rede.
Para nossa sorte, eles haviam esquecido de vigiar aquela entrada e no momento seguinte em que chegamos lá, eu me vi caindo por aquele buraco, por sete andares como já tinha feito tantas vezes antes.
Quando estávamos todos lá embaixo, nós nos separamos em dois grupos.
Um grupo foi com Max tentar liberar as entradas, e meu grupo ia em busca de Quatro, onde quer que ele estivesse, eu sabia que encontraria Tris. E eu tinha uma vaga ideia sobre o lugar para onde ele estaria interessado em entrar.
TRIS
Quando entramos no arsenal, para minha surpresa, o mesmo estava diferente da última vez em que eu estivera lá.
O arsenal estava vazio. Não tinha uma arma sequer lá dentro.
Quatro estava de costas e olhava anormalmente calmo para as prateleiras vazias.
— Quatro, - Nita chamou após entrar comigo a sua frente. – encontrei alguém na entrada do arsenal. Talvez lhe interesse...
Ele girou devagar e no instante seguinte, seus olhos negros estavam me analisando.
E pareciam faiscar.
— Careta...
Ele me chamou pelo apelido que não me chamava há muitos anos. Aproximou-se de mim em passos lentos.
— Você pode me dizer o que aconteceu aqui? – indagou com suavidade próximo ao meu rosto. – Onde estão todas as armas da cidade?
— Não faço ideia, Tobias. – Eu disse levantando a cabeça e olhando nos olhos dele.
— Mas nós dois sabemos quem deve saber, não é? – ele indagou sarcástico.
— Não faço ideia. – repliquei mesmo sabendo a quem ele se referia.
— Quem mais? – ele continuou. – Seu amante, é claro. Ele deve ter mudado todas as armas de lugar... Agora precisamos descobrir onde as colocou.
— Quatro, - Nita falou impaciente. – Você disse que ia matá-la quando a encontrasse. Não podia fazer isso logo?
— NÃO SEJA BURRA, NITA! – Tobias gritou de forma furiosa para a mulher que estava as minhas costas. – Eu não vou matar ela. Não quando ela é a chave pra Eric me dizer onde as armas estão. Só nos resta encontrá-lo, agora.
— Não precisa me procurar, Quatro. – eu ouvi a voz de Eric e virei o rosto para vê-lo na entrada do arsenal. – Eu estou aqui.
Tobias imediatamente fez o que fizera no dia de nosso encontro na roda gigante, puxou-me e me colocou em sua frente como escudo, além de novamente apontar uma arma para mim.
— Eric, tenho que lhe cumprimentá-lo, - Tobias falou quando Eric entrou no arsenal. – foi uma jogada de mestre esconder as armas... mas agora preciso saber onde elas estão.
— Mas é claro que não vou te dizer, Quatro. E por que não larga, Tris? Você não acha que já colocou ela sob a mira de uma arma por vezes demais?
— Ela própria se colocou nessa situação. Ao se confraternizar com o inimigo...
— Eric, não diga onde as armas estão! – falei com desespero, fazendo-o me olhar pela primeira vez naquele dia. Ele me encarou seriamente e o encarei de volta.
— Você devia estar do meu lado... – Tobias me falou com a voz carregada de ressentimento.
— Estou do lado da minha cidade e da minha facção, Tobias.
— Então estamos em lados diferentes... – ele me falou e depois voltou-se para Eric. – Então, vai me contar?
Eric ia responder algo, quando vi alguém aproximando-se por trás dele. Eu ainda gritei seu nome, mas foi tarde demais. Evelyn o atingiu com um cassetete na nuca e Eric caiu desacordado.
— Pronto, agora você pode interrogá-lo quando ele acordar. – Evelyn disse fazendo pouco caso para o corpo desacordado de Eric no chão.
Tobias não me soltou, mas abaixou a arma que estava mirando na minha cabeça.
— Amarrem-no naquela cadeira, - ele mandou para dois capangas que vieram com Evellyn.
Enquanto sua mãe cuidava de amarrar o corpo desacordado de Eric junto com os outros, Tobias ainda me mantinha presa sob seus braços.
— Agora já pode matá-la, Tobias. – Nita disse mais uma vez aproximando-se de nós dois.
— Nita, Cale-se. – Tobias replicou impaciente.
— Você não vai matá-la, não é? – Nita indagou como quem faz uma descoberta. – VOCÊ NUNCA TEVE A INTENÇÃO DE MATÁ-LA! – ela gritou descontrolada, quase às lágrimas. – Você quer é ficar com ela, Tobias! Mesmo ela tendo te trocado pelo inimigo dela, mesmo ela estando grávida de outro!
— Nita, já basta! – Tobias falou em um tom perigoso. – Saia daqui! Vá checar como estão os reféns no refeitório, e me deixe em paz!
Nita parecia que ia dizer algo, mas respirou fundo e se calou. Eu podia sentir seu olhar de ódio sobre mim. Ela parecia estar fazendo muito esforço para se controlar.
— Isso não vai ficar assim... – resmungou dando as costas e saindo devagar.
Tobias bufou, me levou até uma outra cadeira que estava próxima aquela onde Eric estava amarrado.
— Você vai ficar quieta aqui, está bem? – ele disse ao amarrar meus pulsos na cadeira com faixas de pano.
Na outra cadeira, Evelyn já estava reanimando Eric, que abriu os olhos lentamente.
Quando viu que Eric estava acordado, Tobias me deixou e foi até ele, mirando a arma na sua cabeça.
— Me diga onde estão as armas, ou eu mato você. – Tobias ameaçou assim que teve a atenção de Eric.
Eric, inacreditavelmente, abriu um sorriso .
— Você vai me matar de qualquer jeito, não é mesmo? – constatou. - Então por que eu te contaria?
— Esqueceu dela? – Evelyn falou, ela estava ao meu lado e agora apontava sua arma para mim.
Eric me olhou e seu sorriso foi se apagando aos poucos. Evelyn percebeu isso.
— Ah, tudo bem... – ele disse baixando a cabeça, em seguida levantando-a e olhando para Tobias. - Se eu contar Quatro, você me mata, mas não mata ela, está bem?
— Eric não faça isso... – eu pedi quase às lágrimas.
— Não se preocupe, baby... – ele falou olhando em minha direção.
— Conte logo! – Tobias interrompeu observando que eu e Eric nos encarávamos.
— Tudo bem, Quatro. As armas, estão acima de você.
Evelyn e Tobias olharam para o teto alto do galpão. Eu também olhei e vi que eles olhavam para um grande alçapão lá em cima. Aparentemente, era um depósito oculto para as armas.
E também havia passarelas. Passarelas que vinha de portas que ficavam no alto, e essas passarelas estavam apinhadas pelos membros da Audácia armados. E eles apontavam suas armas para Evelyn e Tobias.
— Se eles nos atingirem, matamos você e sua amante antes. – Evelyn falou para Eric, embora parecendo um pouco assustada.
— Para matar eles, você vai precisar vê-los, Evelyn. – eu ouvi a voz de Max. Ele estava em uma das passarelas e tinha um interruptor na mão. Ao dizer isso, apertou o interruptor e uma bomba de fumaça explodiu dentro do arsenal.
Evelyn ainda teve tempo de mirar em Max, mas antes que ela atirasse, Max a matou com um tiro perfeito na cabeça.
E então tudo ficou branco.
Ouvi muitos passos surgindo de várias direções a nosso redor, também ouvi muitos tiros, senti mãos que arrancaram minhas amarras da cadeira e me puxavam para longe dali.
Eu tossia e quase não consegui respirar no meio de toda a fumaça. Escutei mais gritos e mais tiros e não conseguia entender o que poderia estar acontecendo, a fumaça me fez perder a consciência antes disso.
Quando abri meus olhos novamente, eu ainda estava no arsenal.
Eu me sentei e olhei ao redor. Havia muitos corpos pelo chão. Inclusiva o corpo de Evellyn, que jazia em um canto do outro lado do arsenal vazio.
Tudo parecia calmo e todos os homens ali reunidos estavam parados e observavam uma cena que se desenrolava no centro do galpão.
Tobias estava ajoelhado, tinha as mãos algemadas nas costas. Eric estava de pé a sua frente e apontava-lhe uma arma.
— Quatro, esse é seu julgamento. – Eric sentenciou muito sério encarando Quatro. – Quer colocar algo em sua defesa?
— Foda-se, - Tobias replicou.
— Você é acusado de alta traição à sua facção e sua cidade, - Eric continuou ignorando o xingamento. - de ter colaborado para um plano que pretendia acabar com o sistema de facções, de uma ação que matou dezenas de pessoas no aeroporto O'Hare e da invasão do complexo da Audácia. Você sabe qual a pena pra isso?
— Eric, vamos, acabe logo com isso. – Tobias respondeu sem reação. – Eu sou culpado e não me arrependo de nada. Talvez... de uma coisa. – ele disse e olhou em minha direção. – Me perdoe por ter lhe abandonado, Tris. – falou me olhando. – E por ter feito mal a você.
Eu não disse nada, apenas o encarei. Ele me olhou profundamente, depois desviou o olhar e voltou a olhar para Eric.
— Vamos! Pode cumprir sua sentença. – disse corajoso, - A morte não é um dos meus quatro medos. Mas, só uma coisa, Eric: saiba que a diferença entre nós dois é que eu consigo conviver com a culpa. E você, consegue?
— Consigo. – Eric replicou de imediato. – Eu consigo.
Eric destravou a arma e preparou-se para atirar. Eu fechei os olhos, e esperei pelo tiro que não veio.
Quando abri os olhos, vi que Eric tinha abaixado a arma. Eric simplesmente abaixou a arma.
— Mas, eu não sou como você. – ele disse dando as costas a Tobias. – É melhor que você viva, e aprenda a conviver com todo o mal que você fez.
E foi quando Eric se afastou de Tobias que eu ouvi o tiro.
Tobias caiu no chão instantaneamente. Acertado na cabeça, um filete de sangue escorrendo. Os olhos na minha direção. Completamente sem vida. Eu gritei seu nome.
Então, levantei o olhar para ver quem o atingira. E vi o olhar insano de Nita, ela ainda empunhava a arma que tinha atingido Tobias e a mirava na minha direção.
Eu não pude dizer nada, e tudo aconteceu de uma forma muito lenta quando vi sua arma disparar.
Uma grande força me jogou contra a parede e queimou meu peito e minha cabeça. Eu senti gosto de sangue na minha boca e ainda ouvi Eric gritar meu nome, e vi quando ele atirou em Nita que caiu muito rápido.
Então, eu senti os braços de Eric abraçando meu corpo enquanto tudo ficava mais escuro. Eu queria falar, mas não saía nenhuma voz. Eu não queria que tudo ficasse escuro, não queria deixá-lo, não queria deixar meu filho não nascido. Eu queria ficar.
Mas então, tudo escureceu completamente e a última coisa que senti foi o calor dos braços de Eric.
