Divergente não me pertence.

CAPÍTULO 21

Seja Corajoso - Parte II

"Você me salvou de todas as maneiras que alguém pode ser salvo."

do filme Titanic

ERIC

Eu não fora capaz de salvá-la.

Fiquei ali encharcado com seu sangue e abraçado a seu corpo desacordado por um tempo suficientemente grande para que Max se aproximasse e a tirasse de meus braços.

Ao contrário de mim, que não tinha lucidez para fazer nada, Max manteve cabeça no lugar e fez curativos compressivos nos lugares corretos.

— Ela ainda não está morta, Eric. REAJA! – ele gritou e foi a única coisa capaz de me tirar daquele torpor.

No dia em que fiz o corte na minha mão e joguei meu sangue sobre as chamas da Audácia, eu achei que nunca mais precisaria da Erudição para nada na minha vida. Nem mesmo fiquei grato quando passei alguns dias internado naquele hospital após levar um tiro de raspão, mas naquele dia eu soube o quanto eu precisava de minha antiga facção.

Eu estava novamente no hospital da Erudição. Estava sentado próximo as portas brancas e largas do centro cirúrgico. A equipe de emergência havia levado Tris para lá há algumas horas e depois disso não tive nenhum tipo de informação sobre o que estaria acontecendo lá dentro.

Eu apenas passava e repassava por minha mente um único pensamento: que eu não tinha conseguido salvá-la.

Talvez, se eu tivesse atirado em Quatro, Nita teria atirado em mim e Tris tivesse conseguido fugir. Ou talvez não... aquelas conjecturas não me levavam a lugar nenhum e não ajudavam minha tensão a se dissipar.

— Você precisa de um banho, cara. – olhei para o lado e vi o irmão magricela de Tris. Qual seria o nome dele mesmo? Eu não lembrava. Só sei que ele me oferecia um copo grande de café.

— Obrigado. – respondi pegando o copo e tomando um gole. – mas não vou sair daqui até saber o que aconteceu com ela.

— Eu sou Caleb, irmão da Tris. – ele apresentou-se enquanto sentava ao meu lado.

— Eu sei... – respondi. – E achei que você não se importasse com ela...

— Pois é, eu achei que você também não. – Caleb retorquiu em tom bem-humorado. – E mesmo assim você está aqui... – ele parou antes de continuar. - Sabe, eu nunca fui mesmo um bom irmão pra ela... – disse em um tom confessional.

— Eu também não fui um bom namorado... – confessei e ambos ficamos calados com nossos copos de café, admirando a parede imensamente branca a nossa frente.

Então, pelo que pareceram horas depois, um médico de roupas azuis saiu pela porta do Centro cirúrgico. Ele era alto, de meia idade e seus cabelos grisalhos que um dia foram loiros ficaram visíveis quando ele arrancou a touca e a máscara que usara na cirurgia. Ele me olhou como se não me reconhecesse, embora eu fosse seu filho.

— Como ela está? – Indaguei prontamente, naquela hora não me importava com ressentimentos antigos.

— Bem... Eric, - ele começou como se me analisasse, seus olhos me percorrendo de cima a baixo, sempre me julgando. - a moça levou um tiro na têmpora esquerda que, por uma sorte imensamente grande, se alojou entre o crânio e couro cabeludo, - ele disse de forma profissional. - mas o projétil foi removido sem danos ao cérebro. A outra bala perfurou o ápice de um pulmão, mas conseguimos drenar o sangue dos pulmões a tempo.

— Isso significa que ela está bem, não é mesmo, Brad? – perguntei com um certo desespero, chamando meu pai pelo primeiro nome, como eu fazia quando ainda morava com ele.

— A Srta. Prior ficará com um corte de cabelo bem mais curto que o habitual e passará uns dias com o tórax drenado, mas sobreviverá. – ele resumiu.

— E o bebê? – eu indaguei sabendo que ele aguardava aquela pergunta.

— É seu filho? – ele perguntou com insuspeita curiosidade.

— Claro... – respondi com uma certa dose de orgulho. – ele... ele sobreviveu?

— Sim. – meu pai respondeu me causando um imenso alívio. – Mas, nós ainda não sabemos como tudo isso afetará a criança. Sua namorada perdeu muito sangue e recebeu muitos medicamentos, mas por enquanto, está resistindo. Só nos resta esperar.

— Eu posso vê-la? – perguntei sabendo que minha angústia transparecia.

Ele ponderou por um momento. Eu nunca tinha conseguida nada fácil com Brad.

— Vou autorizar, - disse por fim. – Mas você não poderá se demorar e ela não vai estar acordada. – alertou.

Eu assenti, ele se afastou para sair pelo corredor, mas eu não me contive e o ressentimento acabou sendo maior.

— É uma surpresa você ter vindo operá-la. – eu disse sem me conter. – Você não veio nem quando eu estive internado aqui.

— Seu ferimento não era grave. O dela era. – ele respondeu me olhando. – Além do mais, ela é filha de um dos meus amigos mais antigos e agora está carregando meu neto...

Eu não disse nada. Antigamente teria rebatido de uma forma irônica, mas ele acabara de salvar a vida de Tris, então tinha algum crédito naquele momento. Eu me afastei para entrar na ala pós operatória, mas ele me chamou novamente.

— Ah, Eric.

— Sim... – perguntei voltando-me pra ele.

— Eu e sua mãe estamos orgulhosos de você.

Eu apenas assenti, novamente sem dizer nada e Brad saiu sem esperar qualquer resposta.

Aquilo era só mais uma coisa confusa em toda a confusão que tinha sido meu dia, e era algo que não parecia me importar tanto, apesar de eu ter sofrido por muitos anos pela indiferença dos meus pais. Naquele momento isso já não me importava e nem me feria, pois as minhas prioridades eram outras.

Minha prioridade não era mais minha família do passado, mas sim, minha família do futuro.

Quando entrei na ala pós operatória, encontrei um único leito ocupado. Tris estava nele. Muito mais pálida do que de costume e com a cabeça enfaixada. Estava assustadoramente inerte.

O ambiente estava muito silencioso e os únicos barulhos ouvidos eram dos bips do monitor cardíaco que mostrava seus sinais vitais.

Havia uma máscara de oxigênio cobrindo seu rosto, e a respiração dela era quase inexistente.

Eu me aproximei e tomei coragem suficiente para apertar-lhe a mão. Estava assustadoramente fria.

E eu nunca pedi nada antes na vida, mas naquele momento, eu pedi a ela que ficasse comigo. Ela era minha família.

Na minha ausência, foi Max quem cuidou do caos em que se transformou a Audácia após o ataque do bando de Evelyn e Tobias. Quando retornei ao Complexo aquela noite para tomar um banho, após ter sido praticamente obrigado por Natalie, as entradas haviam sido desobstruídas, o fogo da entrada principal havia sido controlado e os reféns libertados.

Tudo ainda parecia meio caótico quando caminhei pelos corredores até o meu apartamento, as pessoas me cumprimentavam pelo sucesso no resgate do complexo, mas eu não conseguia falar muita coisa e muito menos sorrir.

Max me encontrou em um corredor e me falou vagamente sobre o destino do corpo de Quatro e dos demais. Pedi a ele que o cremassem como da primeira vez, alguma coisa me dizia que seria o que ela pediria para que se fizesse.

Quando cheguei ao meu apartamento percebi-o insuportavelmente vazio e me senti insuportavelmente sozinho. Percebi que alguma coisa tinha mudado naqueles meses, alguma coisa me dizia que eu não saberia voltar para a minha velha vida, aquela que eu tinha antes de trazer a Careta pra perto de mim.

Agora, só me restava imaginar se ela, quando acordasse, se sentia dessa mesma forma.

Eu não estava com Tris quando ela acordou no dia seguinte. Eram seus pais quem estavam no quarto e eu, embora tivesse passado a noite sentado ao lado dela, tinha dado lugar aos pais dela pela manhã e fiquei no corredor, aguardando.

E agora que Caleb saíra do quarto e me dissera que ela acordara, eu não encontrava coragem para entrar lá e encará-la.

Fiquei olhando para a porta por longos minutos, até que a mesma foi aberta e Andrew e Natalie saíram.

— Ela quer ver você. – Natalie falou dando passagem para que eu entrasse.

Então, sem pensar muito, eu entrei.

Quando entrei, ela encontrava-se semi-sentada na cama.

Seu rosto não mudou de expressão quando seus olhos pousaram sobre mim e por um momento de pânico e loucura, imaginei que ela tivesse perdido a memória, mas isso não se confirmou, pois em seguida, ela falou comigo.

— Eric... – murmurou parecendo cansada.

Eu não disse nada, fui até ela e sentei na cadeira próximo a cama.

— Como se sente? – perguntei meio sem jeito.

— Como se eu tivesse sido baleada na cabeça... – ela disse devagar, mas de um jeito bem humorado.

Eu não pude deixar de sorrir.

— Você lembra do aconteceu? – perguntei mesmo sem saber se era a pergunta certa a fazer.

Ela apenas balançou a cabeça em um gesto afirmativo.

— Ele está morto, não está? – ela indagou receosa.

Dessa vez fui eu quem balançou a cabeça de forma afirmativa.

— Foi melhor assim... – ela falou com um suspiro. – Ele não era mais ele... e eu não queria que ele fizesse mal ao meu filho.

— Nosso, Tris. – eu a interrompi. – Nosso filho.

Os lábios dela formaram um quase sorriso.

— Acho que preciso te agradecer, Eric. – ela falou de repente, parecendo emocionada. – Agradecer de novo, por tudo. Por você ter me salvado tantas vezes, de tantas formas... E ainda ter salvo meu... nosso filho, - corrigiu-se - no final daquilo tudo.

Eu fiquei um pouco surpreso com aquela confissão dela e não soube muito bem como receber aquilo, antes dela, nunca alguém tinha me agradecido por eu ter feito alguma coisa. Ela estava me agradecendo pela segunda vez por salvá-la, mas eu sabia que não precisava.

— Você também me salvou. – Eu disse por fim, - e você não imagina o quanto...

Então peguei novamente na mão dela, dessa vez ela apertou a minha de volta e eu me senti estranho, talvez estivesse mais emocionado do que eu jamais estivera na vida.

— Eu ainda não sei como será daqui pra frente... – ela disse baixando a cabeça.

— Pois eu sei como eu quero que seja. – respondi resoluto levando uma mão ao queixo dela e levantando-o, a outra mão ainda firmemente presa a mão dela. – Eu quero você. – continuei olhando-a. – E quero nosso filho. E ninguém mais vai atrapalhar isso. Eu quero muito você, Tris Prior.

— Me quer mesmo eu estando careca? – ela brincou, referindo-se aos cabelos dela, parte deles foram raspados para a cirurgia de retirada da bala.

— Tem umas mulheres que usam uns lenços bacanas na Amizade. Posso conseguir alguns pra você... – eu respondi descontraído. – E depois, acho que você vai ficar bonita de cabelos curtos. Vai ficar menos parecida com uma careta...

Ela riu.

Começou devagar, depois evoluiu para um riso incontido que me fez rir junto com ela.

— É por essas coisas que eu amo você, Eric. – ela falou ainda rindo.

Quando eu ouvi aquilo fiquei sério, e ela também parou de rir imediatamente, um semblante preocupado tomando conta de seu rosto.

— Desculpe... – ela murmurou.

Eu fiquei calado por um instante. Depois disse o que eu queria dizer naquele momento.

— Eu também amo você, Careta.

Em seguida, a beijei nos lábios com suavidade.

Alguns meses depois...

TRIS

Jai nasceu exatos oito meses depois de eu deixar o hospital da Erudição em um fim de tarde de uma sexta feira modorrenta após arrancar gritos meus por quase doze horas.

Isso por que na Audácia os partos eram naturais e não havia intervenção cirúrgica ou anestesias, a não ser sob expresso risco de vida.

Eric não esteve comigo durante o processo. Ele estava trabalhando no antigo aeroporto O'Hare aquele dia, pois estava acontecendo o julgamento de alguns membros remanescentes do bando de Evelyn Eaton. Mas eu não estive sozinha. Além de Sue que fez meu parto e me encorajou a ter força nas horas piores, Christina esteve ao meu lado, embora parecendo apavorada demais pra dizer qualquer coisa e dizer para Will horas mais tarde que jamais teriam filhos.

Aquelas não foram, definitivamente, as melhores horas de minha vida, mas tudo foi recompensado quando segurei em meus braços pela primeira vez aquele que era a coisinha mais linda em que eu já havia tocado. Jai nascera muito grande e se podia ver a fina camada de fios dourados cobrindo sua cabeça, não sei se puxados de mim ou de Eric. Impossível dizer.

A expressão carrancuda com certeza herdara do pai, isso era incontestável, Christina assegurou firmemente quando o viu pela primeira vez.

Minha mãe e meu pai quebraram o protocolo e estiveram mais tarde na enfermaria da Audácia para conhecer seu pequeno neto. Meu pai parecia imensamente emocionado, embora nada tenha dito e minha mãe tinha os olhos molhados de lágrimas.

Sue teve que expulsar todos os meus amigos do quarto da enfermaria mais tarde aquela noite para que eu pudesse tentar dormir. Embora eu tenha conseguido muito pouco, mesmo cansada, eu não parava de olhar para Jai dentro de seu pequeno berço, tinha medo de dormir e quando acordar não o ver mais comigo.

Contudo, em algum momento minhas pálpebras devem ter se fechado, pois quando as abri, não sei quanto tempo mais tarde, Jai não estava mais em seu berço.

Eric estava de pé e andava pelo quarto segurando com muita perícia o pequeno pacotinho que deveria ser meu, ou melhor, nosso filho.

Ele parecia não perceber que eu havia acordado e ficou surpreso quando me viu observando-os.

— Você não se importa, não é? – ele indagou referindo-se ao fato de ele estar segurando Jai.

— Ele é tão seu quanto meu. – respondi sentindo uma ternura imensa ao ver aquela cena.

Eric sorriu, um sorriso sem vergonha que era típico dele, um sorriso que pouca gente conhecia e que poderia até ser considerado uma lenda urbana para a maioria dos integrantes da Audácia.

— Acho que ele se aquietou. – ele falou colocando Jai com cuidado novamente no berço. Eric parecia muito confortável com aquilo tudo, como se sempre tivesse sabido como ser pai. – Não queria que ele acordasse você... – falou ainda olhando para o filho.

— Vai ser uma coisa difícil de evitar de agora em diante... – comentei torcendo intimamente que ele se aproximasse mais, eu sentia falta dele, embora jamais fosse capaz de admitir em voz alta.

Ele pareceu ler meus pensamentos, pois veio até a cama e sentou ao meu lado ajeitando as costas em um travesseiro, acho que Sue não aprovaria, mas eu achei ótimo.

Eu descansei a cabeça no peito dele.

— Você imaginou que fôssemos terminar assim no dia em que viu uma Careta saltar do trem dos iniciandos? – perguntei em tom de brincadeira enquanto escutava o coração dele.

— Se alguém me dissesse, eu diria que era louco. – ele falou rindo enquanto acariciava meus cabelos curtos. – Talvez até tivesse dado um soco na pessoa que dissesse isso...

— Nossa, é um final tão ruim assim? – perguntei em falso tom de indignação.

— Não, Careta, esse é o melhor final que eu poderia ter.

Então Eric pegou em meu rosto e me beijou sob a meia luz da enfermaria enquanto Jai ressonava no pequeno berço ao nosso lado.

Estávamos felizes, estávamos salvos.

Era mesmo o melhor final possível.

NOTAS

"Chegamos ao fim do dia! Chegamos, quem diria?"

Não tive coragem de dar um final triste pra essa estória. A saga Divergente já tem um final tão triste, né? Merecemos dar felicidade a Tris ao menos nos Universos Alternativos.

Espere! essa estória ainda não terminou! Teremos outro capítulo ainda que será um epílogo grandão (que já escrevi) chamado "Seven Years Later"!

*Nomeei o pai de Eric como Brad, pois imaginei-o como Brad Pitt.

* Já o filho de Eric e Tris se chamou Jai em homenagem ao ator que faz Eric nos filmes da saga.

O que acharam? Comentem. Beijos a todos! =)