Divergente não me pertence.
EPÍLOGO
Seven years later
"Por isso todo mundo passa e quem nunca passou, vai passar.
Já to dizendo aos meus amigos: – Calma que eu não vou pirar.
- Já pirei.
Me apaixonei perdidamente,
E o que eu sei, é que daqui pra frente..."
Era hora do jantar e Tris mexia no seu prato quase intocado na mesa do refeitório da Audácia. Ao seu lado, Jai limpava com ferocidade seu prato de comida grande demais para uma criança de apenas sete anos.
Ela pensava sobre a notícia que recebera naquela tarde e ainda não conseguia definir como se sentia a respeito disso, sua confusão de pensamentos e sentimentos estava lhe tirando a fome.
E foi por isso que Tris não percebeu de imediato o pequeno alvoroço que se formara quando Eric irrompera no refeitório da Audácia. Ela apenas notara que seu companheiro chegara ao refeitório quando Jai saltou do banco ao seu lado e foi correndo ao encontro do pai.
Eric pegou o menino nos braços e o levantou, sorriu e disse algo carinhosamente para o filho. O pequeno garoto loiro tinha um sorriso que preenchia a face inteira. Era a miniatura perfeita do pai, tanto na aparência como na personalidade. Quando Jai foi colocado no chão por Eric, ele pegou a mão do menino e veio com ele até a mesa onde Tris já os aguardava, agora olhando-os.
Eric cruzou o salão encarando-a e Tris, mesmo angustiada pela notícia que recebera, sentiu-se muito feliz em tê-lo de volta. Eric havia partido há cerca de quinze dias para comandar algumas operações depois do muro, e estivera instalado no antigo aeroporto O'Hare por aquele tempo. Nos últimos anos, o líder da Audácia tinha ido inúmeras vezes comandar missões na margem através do O'Hare que agora era uma base de proteção para a cidade.
Eric ainda vestia suas roupas militares e trazia uma bolsa grande de viagem pendurada em um dos ombros. E estava maravilhoso. Em todos aqueles anos de convivência, Tris nunca tinha deixado de apreciar o quanto seu companheiro era bonito e o quanto ficava sexy naqueles uniformes. A idade só fizera bem a Eric Coulter e agora com vinte nove anos, ele era um dos homens mais bonitos da facção e Tris sabia o quanto as mulheres suspiravam por ele e o quanto deveriam ter odiado o momento em que ele chegou ao seu lado e abaixou-se para beijá-la ternamente nos lábios e falar-lhe ao ouvido em seguida.
— Estava com saudades...— ele sussurrou de forma quase inaudível ao ouvido dela que continuava sentada à mesa, estática. – Mais tarde vou lhe recompensar pela minha ausência... estou ansioso... – prometeu antes de lhe lançar aquele sorriso incrivelmente sexy e indecente que tinha vários significados.
Dizendo isso, ele beijou novamente a bochecha da esposa e se afastou. Eric raramente fazia as refeições junto com a família, pois era protocolo estar na mesa dos líderes e apenas quando não tinham nada de importante para discutir e se Max estivesse de muito bom humor, ele deixava o líder mais jovem ficar junto à família. Nos últimos anos, Eric vinha sendo cotado para substituir Max em sua aposentadoria, o que havia tornado as cobranças muita maiores em cima do loiro.
Tris já havia aprendido a tirar a situação de letra. Afinal, ela nunca estava sozinha na hora das refeições. Christina, Will e a pequena Zöe sempre estavam por lá, além de seus outros amigos com suas respectivas famílias. E quando eles não estavam, como naquele dia, ela sempre tinha Jai pra ficar do seu lado e fazer o papel perfeito de pequena miniatura de Eric.
Assim, quando terminou o jantar, Tris seguiu para casa acompanhada de Jai, o pequeno também estava acostumado a rotina diferente de seu pai.
— Jai, vá tomar banho, escovar os dentes e fazer sua lição de casa. – Tris agachou-se e disse ao filho quando chegaram a seu apartamento pouco depois.
— Ô mãe! Queria ver o papai quando ele chegar... – o pequeno pediu fazendo beicinho.
— Seu pai pode demorar. – ela respondeu carinhosa, porém firme. – Mas ele vai lá no seu quarto quando chegar... Prometo.
— Sei não... Quando papai chegar, ele começa a agarrar a senhora, e não se lembra mais de mim... – o menino disse com mal humor.
— JAI! – Tris ralhou escandalizada com a percepção aguçada do menino.
Jai percebeu a encrenca e saiu correndo e rindo para o banheiro.
Tris levantou-se ainda pensando no pequeno milagre que Jai era e em como ela só conseguia amá-lo cada vez mais. E agora ela tinha outro milagre a caminho, mas não sabia como seria dessa vez.
Com esses pensamentos ela foi até cozinha e começara a arrumar a pequena bagunça que fizera à tarde quando estivera preparando um bolo de chocolate da Audácia junto com Jai. E enquanto ela guardava no armário acima de sua cabeça potes de farinha de trigo e açúcar, não percebeu quando seu companheiro entrara pela porta da frente.
Eric chegou sorrateiramente pela cozinha e agarrou Tris pela cintura, ficando às costas dela. O quadril muito encostado nela a fazia perceber o quanto ele estava excitado.
— Ei, baby... – disse ao ouvido dela. – Onde está Jai? – perguntou beijando-lhe o pescoço.
Tris arrepiou-se com aqueles beijos em um de seus pontos mais sensíveis. Eric conhecia todos.
— Foi tomar banho... – respondeu subitamente nervosa, as mãos de Eric sobre seu abdômen a deixaram inquieta, como se ele fosse descobrir o que estava ali.
— Será que tem um tempinho pra gente? – ele perguntou de um jeito manhoso.
— Melhor não, Eric. – Tris falou se desvencilhando do abraço do companheiro. – Jai quer lhe ver. Ele está em expectativa. Até fez um desenho pra lhe mostrar...
Eric suspirou de frustração, mas nada disse, dificilmente ele negava algo quando o assunto era o filho.
— Bem, então vou vê-lo logo. – decidiu. – Ainda preciso sair novamente, tenho que ver algumas coisas com Max.
— Então, você não vai ficar aqui essa noite? – Tris perguntou meio decepcionada, meio aliviada.
— Vai ser rápido com Max. – ele alegou se afastando. – E eu posso encontrar você no fosso mais tarde... Gostaria de lhe embriagar essa noite. – insinuou com uma piscadela sem vergonha.
— Mas e o Jai? – Tris falou meio receosa dos planos do companheiro.
— Não se preocupe. Já resolvi tudo. Tori vem buscar Jai daqui a pouco, já falei com ela. – Eric disse se afastando para o quarto de Jai. - Ele vai dormir lá e vamos ter a noite só pra nós dois. Não é ótimo?
Ele sorriu e, sem perceber a apreensão de Tris, entrou no quarto do filho.
Tris encostou-se na bancada de forma pensativa. Olhava para a pequena caixa dentro de sua bolsa que estava ali. Ela não tinha tanta certeza se a noite seria ótima, pois estava muito apreensiva sobre o final daquele dia.
Já passava das vinte e três horas quando Tris chegou ao fosso acompanhada por Christina e Will. Olhou no entorno e não encontrou Eric, então ficou jogando conversa fora com os amigos e fingindo beber, jogando a bebida que colocavam no seu copo abismo abaixo quando ninguém estava olhando.
Em dado momento, enquanto dançava sozinha uma música sutil que a banda tocava, sentiu-se novamente agarrada. Ela conhecia aquelas mãos grandes em seu quadril e aquela boca que beijava-lhe o pescoço. Ela virou-se e agarrou Eric, ele a puxou e logo estavam beijando-se recostados em uma parede em um canto mais escuro. As mãos de seu companheiro percorriam seu corpo sem nenhum pudor e sem se importar com quem, por acaso, estivesse olhando-os.
— Ora, por favor, vocês são casados, se comportem como tal!
O casal se afastou quando ouviram a voz de Max. O líder estava acompanhado da esposa e parecia estar achando muito divertido flagrar o casal mais jovem se agarrando.
Eric soltou Tris, mas manteve um braço em torno da cintura dela.
— Nós não somos casados, Max. Esqueceu? – Eric disse em tom de brincadeira. – Talvez seja isso que mantenha a magia da coisa. - brincou. - Ei, vou pegar uma bebida pra gente. – ele falou voltando-se para Tris.
Tris assentiu e ficou conversando com Max enquanto Eric saía, em pouco tempo ele voltou com dois copos grandes.
Ela aceitou com um pouco de receio, beber estava fora de cogitação àquela noite, mas como dizer isso para Eric sem ter que explicar o por quê?
Ele conversou um pouco com Max e outros conhecidos enquanto Tris fingia que bebericava. Mas não demorou muito para que Eric pedisse licença ao grupo e levasse Tris por entre as pessoas, até que chegaram ao elevador.
— Não estou mais a fim de ser sociável hoje, - ele disse quando o elevador abriu. – Quero ficar a sós com você.
Então, quando estavam sozinhos no elevador, Eric agarrou a esposa e beijou-a profundamente como já fizera tantas vezes ali, pois eles gostavam de se agarrar em lugares diferentes. Naqueles sete anos, já haviam transado por todo o Complexo da Audácia, talvez por toda a cidade.
Tris tentou corresponder e ser levada pelo beijo, como também já fizera tantas vezes, mas não conseguiu se concentrar de fato. Estava tensa o tempo todo.
Em um determinado momento, antes de o elevador chegar ao seu andar, Eric parou de beijá-la.
— Tris, o que está acontecendo? – ele perguntou muito sério.
— Nada. – ela desconversou.
— Está acontecendo algo. – ele falou em tom de constatação. – Desde que cheguei você só me repele, não me dá atenção e não me beija direito. Em todo tempo que estamos juntos você nunca me repeliu...
— Não é nada, Eric. – ela disse fracamente.
— Claro que é, Tris, você não recusa sexo nem quando está zangada comigo... – ele relembrou um fato que era verídico.
Tris suspirou, não adiantava mentir pra quem lhe conhecia como ninguém.
— Sim, tem uma coisa, - ela confessou. – Acho que precisamos conversar.
O semblante de Eric endureceu. Nesse momento, a porta do elevador abriu.
— Está bem. – ele disse sério e saiu na frente como não era seu costume. Tris o seguiu e rapidamente chegaram a seu apartamento.
Quando entraram, Eric ligou o abajur da sala e sentou-se no sofá. Agora ele que parecia tenso. Tris ficou de pé na frente dele.
— Então... – ele começou. – O que foi?
Ela foi até sua bolsa que estava sobre o balcão da cozinha. Já tinha planejado como contar, não conseguiria com palavras, então tinha pensado numa forma.
Em silêncio, Tris pegou uma pequena caixa preta de dentro de sua bolsa e voltou à sala. Sentou-se sobre o tapete em frente à mesa de centro. Eric estava do outro lado. Ela pôs a pequena caixa no centro da mesa e retirou sua tampa.
Eric olhou o objeto com atenção por um momento. Reclinou-se sobre a mesa e pegou o pequeno par de sapatinhos pretos de bebê.
— O que significa isso? – ele indagou incrédulo levantando os sapatinhos a altura de seus olhos.
— Justamente o que você imagina. – Tris disse receosa.
Eric não disse mais nada. Observou os sapatinhos por um momento mortalmente calado. Depois devolveu-os a caixa e olhou para Tris.
— Nós não tínhamos combinado isso... – disse muito sério.
— Eu sei... – Tris respondeu apreensiva. – Não fiz de propósito. Eu tomei aquele remédio pra minha infecção de garganta mês passado e Sue disse que poderia alterar o efeito dos anticoncepcionais, mas a chance era pequena...
— Então por que você não me avisou? – ele perguntou parecendo conter-se. – A gente teria se prevenido de outras formas...
— Como eu disse, eu não achei que fosse alterar o efeito.
— Mas alterou... – ele disse levantando-se sem olhá-la.
— Me perdoe, Eric... – ela insistiu ainda sentada sobre o tapete.
— Não foi isso que combinamos... – ele repetiu ainda sem olhá-la. – Você continua irresponsável, Tris! – praticamente gritou com raiva. - A gente tem que se contorcer pra conseguir cuidar do Jai... Você acha que já não temos responsabilidades demais sobre a gente? E aí você vai e arranja mais uma, mesmo a gente tendo um acordo? Você me enganou, foi isso que você fez! – acusou.
— Eu não te enganei, Eric! Não fiz de propósito! Eu sei que temos muitas responsabilidades... Mas eu não sabia... – ela retrucou levantando-se, sendo tomada por um leve desespero.
Eric se afastou e caminhou em direção à porta.
— Pra onde você vai? – ela perguntou angustiada vendo ele se afastar.
— Eu preciso sair. – ele disse sem olhá-la e saiu batendo a porta atrás de si.
Tris não foi atrás dele e quando adormeceu tarde da noite, Eric ainda não tinha voltado pra casa.
Ela foi acordada por Jai na manhã seguinte.
— Oi mamãe! – o pequeno falou feliz pulando sobre a mãe.
— Oi meu amor... – ela disse sonolenta olhando o filho.
— Mãe, por que o papai está dormindo no sofá? – Jai perguntou inocentemente.
Tris ficou atônita, então ele tinha voltado pra casa, mas não tinha ido ficar com ela. Tris sentiu uma pontada de tristeza.
— Acho que ele estava com calor, meu amor. – mentiu rapidamente.
— Ah... – o pequeno disse parecendo entender.
— Filho, vá pegar suas coisas. – ela disse tendo uma ideia. – Vamos passar o dia na casa da tia Chris.
— Ah, que legal! – o menino disse contente saindo da cama. – Vou poder pegar a Zöe! Ela vive dizendo que corre mais rápido do que eu, mas é mentira...
Jai saiu do quarto muito contente. Tris levantou-se e se arrumou, colocou algumas coisas na bolsa protelando o momento que teria de ir à sala. Quando finalmente foi até lá, encontrou Eric deitado no sofá da sala ainda dormindo. Uma garrafa de bebida quase vazia estava no chão ao lado do sofá.
Ela pegou Jai e saiu com o filho antes que Eric acordasse, rabiscou um bilhete e pôs sobre a mesa de centro, antes de sair.
Fomos para a casa de Christina.
Era domingo e Tris acreditava que a qualquer momento do dia, Eric apareceria no apartamento de Christina para buscá-los como era costume ele fazer. Contudo, o dia passou e Eric não apareceu por lá e Tris passou o dia ajudando a amiga a organizar o apartamento para onde acabara de se mudar.
— Tris, é melhor me dizer o que está acontecendo. – Christina indagou quando Jai fora brincar no quarto de Zöe.
— Estou grávida, Chris. – ela revelou sem rodeios.
— Que notícia maravilhosa! – Christina exclamou abraçando a amiga. – Já estava na hora de Jai ganhar um irmãozinho!
— Eric reagiu muito mal à notícia. – ela comentou tirando o sorriso de Christina. – A gente tinha combinado que não teríamos outro filho, pois mal temos tempo de dar atenção pro Jai, principalmente ele... Só que eu cometi um vacilo mês passado, e agora ele está zangado.
— E você quer ter essa criança? – Christina indagou séria.
— Claro! – Tris rebateu. – Só de imaginar outra coisa linda como o Jai na minha vida...
— Então, qual o estresse? – Christina questionou. – Pelas leis da facção, a decisão a é sua. Você pode ter esse filho mesmo que o Eric não queira. Ele vai acabar cedendo e sendo razoável, você vai ver...
— Tomara, Chris... Eric pode ser muito cabeça dura às vezes... mas eu espero que ele aceite, pois do contrário, não vou hesitar em deixar pelo meus filhos. – Tris encerrou com convicção.
Quando Tris voltou para casa com Jai naquele domingo a noite, Eric não estava. Assim como não estava sua bolsa de viagem. Nesse momento, Tris percebeu que as coisas poderiam ser mais sérias do que ela pensava.
Eric estava se isolando e isso não era nada bom. Isso por que, o líder da Audácia tinha um temperamento explosivo muito conhecido na facção, mas nos sete anos em que convivera com ele, esse temperamento nunca tinha se estendido para dentro do apartamento deles, pois quando Eric tinha algum conflito com Tris, ao invés de ele bater de frente com ela, ele se distanciava. E Tris sabia que aquela era forma dele protegê-los de uma explosão de fúria. Então, se ele estava distante, devia estar realmente furioso.
Foi somente na manhã seguinte, quando estava em seu plantão na sala de monitoramento que Tris recebera uma mensagem de Scarlet, a assistente de Eric, dizendo que o chefe havia partido novamente para o O'Hare e que não mencionara quando voltaria. Tris ficou muito angustiada com aquela atitude do companheiro, mas se ele não a queria por perto, ela que não o procuraria. Decidiu que não faria contato até que ele tivesse iniciativa de fazê-lo.
Eric estava há dois dias no O'Hare. Sua presença não era extremamente necessária no antigo aeroporto naquela semana, mas ele preferira se manter lá enquanto pensava na situação que estava lhe tirando do sério.
Aquela tarde, após chegar de uma vistoria à Margem, Eric recebeu uma chamada de Max na tela comunicadora.
— Eric?
— Estou aqui, Max. – ele respondeu ficando em frente à tela comunicadora.
— Então, quando você estará de volta? Estou precisando de você aqui...
— Ainda tenho umas coisas pra resolver por aqui.
— Essas coisas não poderiam ser delegadas a outras pessoas? – ele questionou.
— Prefiro que não.
— Eric, o que está acontecendo? – Max falou impaciente. – Você sabia que sua esposa passou mal hoje no trabalho?
O coração de Eric descompassou um pouco, mas ele preferiu não deixar isso transparecer para Max.
— Ela não é minha esposa, nós não somos casados, você sabe.
— Ah, que besteira! Você sabe o que ela tem, não sabe? – Max interrogou.
— Claro que sei e tô muito puto com isso. – confessou socando a mesa em que se recostara.
— Tris me disse que não tem a menor intenção de interromper essa gestação. – Max disse sério. – Então é bom você se acostumar.
— Ela sabia que eu não queria outro filho... – Eric disse com raiva. – Isso quebra todo o meu planejamento.
— Nem tudo na vida precisa ser planejado, Eric. – Max disse com paciência e Eric ouvia emburrado. – Reviravoltas acontecem... Você prefere perder sua mulher por causa disso? Quer ter um filho que sabe que você não o quis? Isso depois de tudo que vocês passaram pra conseguir ficar juntos? Que idiotice! E mais, você acha mesmo que se Tris deixar você, ela vai ficar solteira muito tempo? Eu creio que não... – o outro líder concluiu com uma risada.
Eric, porém, ao invés de ser convencido pelas palavras de Max, ficou muito mais irritado com tudo que ouvira, principalmente pela última parte e por saber que tudo era verdade.
— Me deixe pensar, Max. – ele concluiu. – quando eu souber o que vou fazer entro em contato.
E quando Eric desligou a tela comunicadora, as palavras de Max ainda ecoavam em sua cabeça.
Passou-se uma semana quando Tris estava no refeitório da Audácia jantando com Jai e foi abordada por Tori.
— Tris, Eric voltou. Pediu para eu cuidar de Jai. – ela falou séria ao se aproximar da mesa de forma que Jai não as ouvisse. – E quer que você o encontre no escritório dele. Agora.
Tris hesitou. Estivera se preparando todos aqueles dias para aquela conversa, seu posicionamento estava muito bem definido, mas sabia que poderia ser muito doloroso.
Ela explicou para Jai que ele dormiria na casa da madrinha e seguiu rumo ao escritório de Eric. As pernas pesando uma tonelada.
Tris bateu na porta do escritório. Àquela hora, a assistente de Eric não estava mais lá. Ela escutou a voz distante dele mandando-a entrar. Hesitou por um instante, entrando em seguida.
Quando adentrou a sala, Tris percebeu que apenas a lareira a iluminava. Eric estava sentado à sua mesa, tinha os cotovelos apoiados sobre a mesma e mantinha os dedos das mãos entrelaçados.
— O que você queria comigo? – Tris falou na defensiva aproximando-se e sentando-se na cadeira em frente à mesa. Parecia que tinham voltado sete anos e ela ainda era a assistente dele.
— Nós temos coisas pra decidir... – Eric respondeu sem alterar a expressão de impessoalidade.
— Não me venha com essa Eric Coulter! – Tris falou muito brava, mandando a cautela ás favas. – Você saiu de casa há mais de uma semana e nem se dignou a entrar em contato comigo ou com nosso filho...
— Você também não entrou em contato comigo... – ele rebateu muito calmo o que deixou Tris ainda mais irritada.
— Depois da forma que você saiu de casa aquele dia? – ela ironizou. – Eu não arriscaria uma explosão de fúria sua...
— Você está me acusando injustamente. Quando foi que eu fiz mal a você ou a Jai, Tris Prior?
— Você esqueceu Eaton. – ela rebateu só para provocá-lo. – Meu nome completo é Tris Prior Eaton. Esqueceu?
— Ah, por favor... – ele disse levantando-se e batendo na mesa. – Você faz isso de propósito, né?
— Quando você merece, – ela ironizou. – faço sim.
Eric levantou-se, deu a volta na mesa e postou-se atrás da cadeira de Tris.
— Sempre indomável...
Tris olhou para trás e, inacreditavelmente, Eric estava rindo.
— Como é? – ela indagou achando que ele estava brincando com a cara dela.
— Você, baby. – ele falou aproximando-se e agachando-se para ficar cara a cara com ela. – Você tem esse dom de me deixar fora do sério...
Dizendo isso, ele tocou com o dedo em uma das bochechas de Tris. E ela sentiu-se corar como uma menininha.
— Eu estava confuso. – ele continuou em um tom confessional, pouco comum de Eric. – E fiquei furioso. Tris, eu não quero ser pros meus filhos o que os meus pais foram pra mim! A gente mal tem tempo de dar atenção ao Jai! E você sabe que as coisas só vão piorar quando eu ocupar o lugar de Max... Não quero que meus filhos se mudem pra outra facção por que não sentem que tem um lar...
Tris ficou muito surpresa com as palavras de Eric que pareciam de uma sinceridade imensa. Então ela finalmente entendeu que ele não estava sendo mesquinho em não querer ter outro filho, ele queria apenas ter certeza que seria um bom pai.
— Eric, mas esse fardo não é só seu... Eu estou dividindo essa responsabilidade com você todos esses anos. Temos criado Jai muito bem! Eu sinto muito pelo aconteceu, meu amor, mas agora, pelo menos pra mim, só resta seguir em frente e assumir essa nova responsabilidade.
Eric levantou-se sem dizer mais nada. Foi até uma das estantes e voltou segurando uma caixa, colocou-a sobre a mesa.
— Eu também vou assumir essa responsabilidade, baby. – ele disse abrindo a caixa. – e me perdoe por tudo...
Tris ficou emocionada quando pegou o conteúdo da caixa. Era um pequeno macacão de bebê, era preto e tinha o símbolo da Audácia pintado na parte da frente. Seus olhos marejaram e ela levantou-se e abraçou o companheiro, beijando-o apaixonadamente em seguida.
Eric retribuiu o beijo, mas o interrompeu antes que as coisas fossem longe demais.
— Vamos com calma, - ele disse em tom de brincadeira afastando-se da companheira. – Ainda temos algumas coisas pra decidir essa noite.
— Temos? – Tris indagou aturdida.
— Nossa situação. – Eric recomeçou. – A gente sempre pensou que deveríamos resolver nossa situação quando o momento ideal chegasse, e eu acho que é esse.
— Ainda não entendi onde você quer chegar...
— Tris, eu quero que você seja minha esposa. De verdade. – ele falou meio deslocado, mas confiante. – Pra valer.
Tris ficou meio atônita, ela esperava muitos finais para aquela conversa com Eric, mas não aquele.
— Nós esperamos sete anos... – Eric continuou. - Acho que a carência desse negócio já acabou... E acho que você já pagou qualquer dívida que tivesse com o Quatro. E então, aceita ser a Sra. Tris Coulter?
— Eu topo. – ela respondeu após um instante, após pensar em como seria impossível recusar depois de tudo.
— Topa? – Eric fingiu indignação. – Só isso?
— O que você queria que eu dissesse? – Tris falou sorrindo – "Eric, meu amor, aceito, estou lisonjeada e muito feliz." – brincou.
— É por aí... – ele disse, beijando-a em seguida.
Beijaram-se apaixonadamente e fizeram amor ali mesmo. Dormiram juntos no antigo divã do escritório de Eric.
Quase uma década após sua primeira cerimônia de união estável na Audácia, Tris sentia novamente aquele frio na barriga e aquela fraqueza nas pernas se instalar em seu corpo no momento que chegou ao fosso para encontrar o futuro marido junto ao juiz da Franqueza que iria celebrar a união estável dos dois.
Assim como da primeira vez, todos os seus amigos estavam ali. Ela vestia um vestido cor de pérola com rendas pretas no busto e nos detalhes. Usava novamente um pequeno véu negro que caia-lhe pelos cabelos.
Tris caminhou pelo tapete negro até o pequeno púlpito onde Eric a esperava. Jai segurava firmemente em uma de suas mãos e era quem conduzia a mãe. Ela podia sentir todos os olhares em cima dela, assim como da primeira vez, mas dessa vez ela não sentia mais tanto medo. Estava mais confiante. Era mãe. Era uma mulher. Não era mais uma menina de dezoito anos. E estava prestes a casar com o pai de seus filhos, que já demonstrara tantas vezes, que era um companheiro pro que desse e viesse.
Ela apertou mais forte a mão de Jai e sorriu para o companheiro que a esperava no final do caminho.
Eric, por sua vez, também estava nervoso. Olhava para Tris e não parava de lembrar-se daquela noite quase uma década antes. A noite em que ele estava no exato local onde Max e os outros líderes se encontravam naquele momento, o lugar que ficavam para prestigiar as uniões da Audácia. Ele lembrava perfeitamente do dia do casamento de Tris e Quatro. Lembrou-se de toda a inveja que sentiu àquele dia. De como queria ser ele a estar ali. E agora ele estava. E estranhamente, ele agradeceu a Quatro naquele momento por isso.
Seus pensamentos sobre isso fugiram no momento em que Tris e Jai chegaram frente a frente com ele, e depois de cumprimentar o filho, ele beijou a fronte da companheira e a conduziu até o celebrante.
Naquele dia, foi nos braços dele que Tris saiu dali.
Poucos meses depois, a pequena Shai nascia. E a família Coulter estava completa, como Eric sempre desejara e ele logo se tornou o líder principal da Audácia, e conduziu a facção de forma justa. E Tris estava tranquila, cercada pelos que amava e assumindo o posto de seu antigo amor na sala de monitoramento, lá ela sentia que Tobias sempre estaria por perto, lhe dando coragem.
Assim, Eric e Tris, por mais infactível que fosse, terminaram como companheiros.
E, pra sempre, eles salvaram um ao outro.
"...Vai ser nossa cidade, nosso telefone,
nosso endereço, nosso apartamento...
Sabe aquela igreja? Tô aqui na frente,
Imaginando chuva de arroz na gente..."
Da música Chuva de arroz by Luan Santana
