Capítulo 2- A nova preceptora

Os grampos de cabelo no coque formal estavam apertados, mas Ana-Lucia não se importou quando se mirou diante do espelho e se viu impecável para o seu primeiro dia de trabalho no castelo de Graves. Depois de uma noite mal dormida, o mínimo que podia fazer era levantar cedo, se vestir com decoro e esmero e o mais importante, mostrar competência.

Assim que ela terminou de abotoar os botões de seu vestido de cor sóbria, abotoado até o pescoço, ouviu batidas na porta. Era a Sra. Hawkins.

- Pode entrar.- Ana-Lucia autorizou.

A porta se abriu e a governanta surgiu diante dela com a mesma expressão azeda da noite anterior.

- Bom dia, Srta. Cortez.

- Bom dia, Sra. Hawkins.- respondeu Ana, sorrindo, mas a mulher não lhe devolveu o sorriso. – Vim buscá-la para o café da manhã. Vou ensinar-lhe o caminho da cozinha somente desta vez. Tenho muitos afazeres e não posso vir buscá-la todas as manhãs.

- Compreendo.- disse Ana-Lucia, tentando não se deixar levar pelo azedume da mulher. – Eu conheci Alex noite passada quando fui ver as crianças.- Ana informou quando elas deixaram o quarto e caminharam pelo corredor. Mesmo à luz do dia o castelo parecia sombrio com suas cortinas cerradas e os corredores permanentemente escuros.

A governanta pareceu ignorar o comentário de Ana-Lucia, mas ela continuou falando assim mesmo.

- Ela me disse que as duas últimas preceptoras que trabalharam aqui no castelo, morreram. O que aconteceu com elas?

Dessa vez a governanta pareceu prestar muita atenção ao que Ana dissera. Parou antes que elas descessem as escadas para o andar inferior e disse:

- Pensei ter sido clara sobre a senhorita se limitar a fazer o seu trabalho por aqui.

- Sra. Hawkins, creio que tenho o direito de saber do que as antigas preceptoras morreram já que vou assumir o posto delas de agora em diante.- retrucou Ana-Lucia.

- A senhorita aceitou o emprego porque quis. È livre para ir embora à hora que quiser. Aliás, se quiser que eu mande chamar o Sayid para levá-la à vila onde a senhorita pode pegar um coche de aluguel e voltar para Londres...

- Não estou dizendo que vou embora, Sra. Hawkins. Acabei de chegar aqui e sequer conheci meu empregador. Espero poder conhecê-lo em breve. Gostaria que dissesse isso a ele. Agora, onde fica a cozinha?

xxxxxxxxxxxxxx

Eloise Hawkins estava furiosa com a petulância da nova preceptora contratada por Lorde Sawyer. Ela conseguiu conviver com as enxaquecas da Sra. Webster e com as crises de choro da Srta. Mellville. Mas a petulância e a ousadia da Srta. Cortez, ela não iria aturar. Pensou seriamente em abandoná-la nas escadarias para que encontrasse o caminho para a cozinha, sozinha, mas resolveu cumprir seu papel porque sabia que o duque desaprovaria seu comportamento. Na verdade conseguia imaginá-lo fazendo escárnio dela, dizendo-lhe que estava com ciúmes da nova preceptora. Ao contrário das outras, esta era bonita, muito bonita e jovem também. Eloise podia pressentir problemas chegando ao castelo.

Ana-Lucia jamais encontraria a cozinha sozinha pela primeira vez. O castelo de Graves era um intrincado sistema de corredores, salões e escadas. A cozinha ficava atrás do salão principal. Era preciso se descer uma escada forrada com tapete de veludo vermelho que dava para uma aconchegante sala de refeições. No corredor ao lado havia uma porta que levava para a cozinha. A Sra. Hawkins conduziu Ana-Lucia por ela.

Ao entrar no aposento, Ana viu alguns dos empregados do castelo tomando o café da manhã. Nenhum deles se dignou a erguer-se para cumprimentá-la.

- Bom dia.- Ana-Lucia arriscou dizer, mas apenas a cozinheira que vinha trazendo brioches recém- saídos do forno a cumprimentou.

- Bom dia, senhorita. Meu nome é Rose. Sou a cozinheira. – ela era uma mulher de sorriso aberto, dentes muito brancos, baixa estatura e jeito alegre. Depois de Alex ela era a segunda pessoa que a tratava com amabilidade.

- Muito prazer, Rose. Eu sou Ana-Lucia Cortez.

- A nova preceptora.- disse a gentil mulher. – Seja bem-vinda, querida.

Ana-Lucia tomou seu lugar junto aos outros empregados e desfrutou do delicioso café da manhã preparado por Rose. Ela sentiu vontade de fazer perguntas sobre o castelo, sua rotina e principalmente sobre o senhor do castelo que ela conhecera apenas pelo retrato na parede, mas os olhares de advertência da Sra. Hawkins a fizeram permanecer quieta saboreando sua refeição. Estava faminta porque não comia nada desde a viagem.

- E as crianças?- ela perguntou por fim quando terminou seu café da manhã.

- Alex está com elas na sala de estudos esperando por você. Ela levará Nicole enquanto você inicia as aulas com o Albert.

- São crianças lindas.- ela comentou. – Estou ansiosa para vê-los acordados.

- São dois anjinhos.- disse a Sra. Hawkins e esse foi o primeiro comentário amável que Ana-Luca ouviu a mulher fazer.

Ana despediu-se da cozinheira e acompanhou a Sra. Hawkins rumo à sala de estudos que ficava no terceiro andar. Era uma sala ampla com uma estante cheia de livros infantis, brinquedos, uma mesa de professor, quatro mesas de alunos e um quadro negro. Nas paredes havia vários cartazes com os dias da semana, a tabela periódica com os elementos químicos conhecidos entre outras coisas interessantes. Ana ficou satisfeita com a sala de aula.

Ao ver Ana-Lucia entrar na sala de estudos, o menino Albert foi se esconder atrás das saias de sua babá que segurava a irmãzinha dele no colo.

- Pare com isso, Albert!- ela ralhou afetuosamente. – Vá cumprimentar sua nova professora, a Srta. Cortez.

Ana-Lucia sorriu para o menino e fez uma reverência. O menino a fitou com interesse. Ele era uma criança muito bonita, de feições coradas e profundos olhos verdes. Tinha os cabelos castanhos e lisos e o nariz arrebitado salpicado de pequenas sardas.

- È um prazer conhecê-lo, Albert.- ela tentou se aproximar dele, mas o menino deu um passo atrás.

- Está tudo bem, Albert.- Alex encorajou.

- Não tem do que ter medo, Albert.- se pronunciou a Sra. Hawkins. – Vamos Alex, levar Nicole para tomar um pouco de sol na sacada. Deixemos Albert conhecendo melhor a Srta. Cortez.

- Não, por favor, Sra. Hawkins.- o pequeno Albert implorou, o que partiu o coração de Ana, mas a mulher não se deteve e puxando Alex pelo braço, as duas se retiraram da sala de estudos.

- Por que está com medo, Albert?- Ana perguntou quando se viu sozinha com a criança.

O menino pensou um pouco e respondeu com uma pergunta:

- A senhorita é má, Srta. Cortez?

- Má? - Ana retrucou.

- È, malvada.- explicou o menino. – A Sra. Webster não gostava de mim. Ela me colocava de castigo quase todo os dias, de joelhos em cima do milho.

- Eu sinto muito que isso tenha acontecido com você, Albert.

- Então quer dizer que a senhorita não vai fazer isso comigo?- perguntou o menino, esperançoso.

- É claro que não.- Ana respondeu com a voz doce, se abaixando e ficando na mesma altura que Albert. – Eu estou aqui para cuidar de você e não para maltratá-lo.

Ele franziu o cenho e disse com sinceridade:

- Não gosto do jeito como prende seus cabelos.

- Por que?- Ana ficou surpresa com o comentário.

- Porque só as preceptoras malvadas prendem o cabelo dessa maneira. Gosto de cabelos soltos, como o das princesas.

Ana-Lucia sorriu e soltou os grampos dos cabelos, um a um, colocando-os no bolso da saia do vestido. Quando terminou, seus longos cabelos cacheados que chegavam até a cintura estavam espalhados ao redor de seus ombros.

- Melhor assim?- ela indagou.

Albert finalmente abriu um enorme sorriso para Ana-Lucia.

- Eu não quis acreditar no meu pai quando ele me falou sobre você.

Ana ergueu uma sobrancelha.

- O que quer dizer com isso, querido?

- Meu pai me disse que a senhorita seria muito boa para mim. Como uma verdadeira mãe. E também disse que a senhorita era muito bonita.

Ela ficou muito intrigada com o comentário do garoto.

- Quando seu pai lhe disse isso, querido?

- Hoje de manhã bem cedo quando ele foi ao meu quarto.- respondeu Albert.

Ana sentiu um calafrio espontâneo na espinha. Como Lorde Sawyer poderia ter falado sobre ela para seu filho se eles ainda não tinham se conhecido? Teria a Sra. Hawkins comentado com ele alguma coisa? Era a única explicação, embora ela não pudesse acreditar que a Sra. Hawkins tivesse sido capaz de dizer alguma coisa boa sobre ela levando-se em consideração a forma como a velha governanta a vinha tratando.

De qualquer maneira, Ana-Lucia resolveu deixar isso de lado. Por hora, o que importava era que Albert estava se mostrando receptivo à chegada dela e ela não poderia desperdiçar essa chance de conquistar a confiança do menino.

- Certo, Albert. Mostre-me o que sua antiga professora estava lhe ensinando para que possamos começar.

Mais alegre então, Albert correu para uma das carteiras e retirou da gaveta de uma delas uma cartilha. Ana puxou uma cadeira e foi sentar-se ao lado dele. Eles passaram uma manhã muito agradável juntos. Ana notou que apesar do problema com as outras preceptoras, o garoto não estava atrasado nos estudos. Ele comentou com ela que seu pai costumava ensiná-lo para que ele não se atrasasse nas lições.

- Fale mais sobre seu pai, Albert.- disse Ana-Lucia após eles terminarem a lição daquela manhã.

O menino pensou um pouco e então respondeu:

- Meu pai é muito inteligente.

- Mesmo?- retrucou Ana. – O que ele faz?

- Ele cuida das pessoas.

- Cuida das pessoas? Como assim?

Albert deu de ombros e continuou falando sobre o pai:

- Ele gosta de cavalos e sempre me leva aos estábulos!

- Parece divertido.- comentou Ana.

- Sim.- concordou Albert. – Mas eu ouvi a Sra. Hawkins dizendo que meu pai gosta mais de mulheres do que de cavalos. Não entendi o que ela quis dizer.

- Decerto ela estava apenas brincando.- respondeu Ana, curiosa a respeito do porquê a Sra. Hawkins poderia ter dito algo assim.

- Não. A Sra. Hawkins não estava brincando, ela nunca brinca, senhorita. Mas eu acho que ela não devia dizer isso sobre o papai porque ele é um homem triste.

- Triste? Como assim?

- Eu já o vi chorar uma vez. É por causa da mamãe, sabia que ela morreu?

Ana assentiu.

- Sinto muito por isso, querido.

Albert deu de ombros e respondeu:

- Não tem problema, senhorita. Papai diz que a vida é assim, que as pessoas morrem.

xxxxxxxxxxxxxx

Depois da aula de Albert, seguida de uma hora de almoço na própria sala de estudos, acompanhada da babá e das duas crianças, Ana-Lucia teve permissão para ir aos jardins. Alex entregou-lhe Nicole e com a ajuda de Albert que já conhecia muito bem os jardins, eles caminharam no gramado verde por entre as roseiras e jasmins. O cenário era muito bonito, nem a névoa que pairava sobre o castelo de Graves conseguia apagar o colorido das flores, árvores e sebes.

- Veja Srta. Cortez é um coelho!- Albert apontou empolgado para um coelho branco que saltitava por entre os arbustos repletos de florzinhas e gramíneas. Pedacinhos de orvalho congelavam sobre o gramado devido à friagem, tornando o chão um tapete natural mesclado de verde e branco.

- Ele é lindo, não é?- disse Ana observando o gordo coelho branco se escondendo entre os arbustos enquanto ela embalava a pequena Nicole nos braços, envolta em uma grossa manta de lã. Albert correu atrás para pegá-lo.

- A Sra. Webster não gostava de coelhos.- informou Albert quando conseguiu pegar o bichinho e o trouxe para perto de Ana. – Ela dizia que eles fedem.

Ana riu e ajeitou o bebê no colo. Ela trazia consigo uma manta maior que estendeu sobre o chão com a ajuda de Albert para que eles se sentassem. Puxou as longas saias e sentou-se junto ao menino que já se sentara com o coelho. O movimento abrupto de suas mãos fez com que as saias se erguessem um pouco, revelando suas meias de lã pretas, mas Ana logo tratou de arrumar as saias no lugar. Foi nesse momento que ela teve uma estranha sensação de que estava sendo observada. Tentou enxergar além das árvores tentando descobrir a origem daquela sensação, mas não conseguiu ver nada e voltou sua atenção novamente para Albert.

- A Sra. Webster ficou muito tempo no castelo?- ela indagou.

- Ah não.- respondeu Albert brincando com o coelhinho. – Ela ficou pouco tempo e foi embora numa caixa de madeira.

Ana-Lucia mordeu o lábio inferior perguntando-se se a caixa de madeira a que Albert se referia se tratava de um caixão, mas não sabia como fazer essa pergunta a uma criança de cinco anos que tinha perdido a mãe há tão pouco tempo. Talvez fosse melhor não falar de caixão e coisas do tipo a ele. Seu pai poderia não gostar. Mas que espécie de homem era o pai de Albert e Nicole? Um homem que mandava preceptoras para casa dentro de um caixão?

De repente, um movimento abrupto entre as árvores chamou-lhe a atenção e Ana-Lucia viu um vulto que caminhava para o que parecia ser um enorme labirinto de arbustos. Albert estava concentrado no coelho e pareceu não seguir o olhar dela. Ela levantou-se e disse:

- Albert, aquilo lá é um labirinto?

O menino voltou-se para a direção onde ela olhava e estremeceu levemente antes de dizer:

- Nuca devo entrar naquele labirinto. È muito perigoso!

- Quem disse isso?

- Foi o Sr. Sayid quem disse. Porque a morte está lá!- respondeu Albert um pouco alarmado. - Prometa que não irá lá, Srta. Cortez. Por favor! Eu gostei da senhorita!- e dizendo isso, o menino agarrou-se às saias dela.

- Não se preocupe Albert! Eu não irei até lá e também jamais deixarei você e sua irmã.

Nicole escolheu este exato momento para choramingar e Ana-Lucia acalentou-a junto ao seio. É melhor voltarmos, o tempo está esfriando cada vez mais. Albert ajudou-a a recolher a manta e então segurou na mão dela. Antes que eles afastassem muito dos jardins, Ana relanceou um último olhar para o labirinto de arbustos e teve mais uma vez a nítida sensação de que alguém a observava.

xxxxxxxxxxxxxxx

Após Ana-Lucia retornar ao castelo com as crianças, a névoa em volta do castelo aumentou e à tarde choveu bastante. Uma chuva ininterrupta que só passou por volta das oito da noite. Mais uma vez ela teve sua refeição com as crianças na sala de estudo. A mesma criada que trouxera a comida de manhã trouxe-lhes o jantar. Ela entrou e saiu em silêncio, sequer cumprimentou Ana com um boa noite e Alex não pareceu se importar com isso.

Quando a criada se foi, Ana-Lucia perguntou o nome dela e Alex respondeu:

- Ela se chama Charlotte.

- Por que ela não fala comigo?- Ana perguntou porque estava se sentindo incomodada com o comportamento das pessoas naquele castelo em relação à ela.

- Porque você é bonita.- Alex respondeu sem delongas. – E o patrão gosta de moças bonitas.

- O que quer dizer com isso?

Nicole começou a chorar muito no colo de Alex e nada do que a babá fizesse parecia acalmá-la. Ana-Lucia então pegou a menina nos braços e a acalmou facilmente colocando-a no berço.

- Isso foi incrível!- comentou Alex. – Ela gostou de você e geralmente não gosta de ninguém.

Ana-Lucia sorriu.

- Fico feliz que as crianças tenham gostado de mim.

Depois de colocar Nicole no berço e ler um pouco para Albert, Ana-Lucia retornou aos seus aposentos e tomou um enorme susto ao perceber que havia alguém lá dentro. Seu coração disparou dentro do peito e ela gritou:

- Quem está aí?

- Não devia gritar desse jeito dentro do castelo!- reclamou uma voz feminina e Ana-Lucia viu que se tratava de uma criada. Uma que ela ainda não tinha visto.

- Me desculpe, eu me assustei. Não sabia que havia alguém aqui.

- Eu sou Cassidy.- a criada, que era muito bonita, respondeu mal-humorada. – Lorde Sawyer me designou para ser sua criada pessoal já que a senhorita não trouxe uma.

Ana-Lucia não gostou da forma como a criada pronunciou a palavra senhorita.

- Cassidy, eu agradeço, mas não preciso de uma criada. Posso me cuidar sozinha.

- Não é o que Vossa Graça pensa.- disse ela. – Ele me deu uma ordem e não vou desobedecê-lo, ninguém seria capaz! Mas apesar disso, eu queria que soubesse de uma coisa, senhorita.

Ana ouviu em silêncio e a criada falou enquanto terminava de trocar a roupa de cama.

- Não é porque Lorde Sawyer a considera e está lhe permitindo ter mordomias no castelo que a senhorita é melhor do que qualquer um de nós! A senhorita é uma criada e logo vai perceber o que duque espera de suas criadas!

Mais uma vez Ana-Lucia foi para a cama pensando em seu misterioso patrão e no que suas empregadas diziam sobre ele. Pensou nas palavras da Sra. Hawkins transmitidas por Albert e nas palavras de Cassidy que depois de todo seu discurso saiu perguntando se Ana ia precisar dela para aprontar-se para dormir. Obviamente, Ana-Lucia não aceitou nenhuma ajuda.

xxxxxxxxxxxxxxxx

O som do piano tocando era melódico, tranqüilo. Ana-Lucia podia imaginar dedos longos valsando sobre as teclas, Estaria sonhando outra vez? Abriu os olhos e viu que estava em seus aposentos, deitada na cama e coberta dos pés ä cabeça pelo cobertor de lã porque estava muito frio. Mas o som do piano continuava em alto e bom som. Não era um sonho então.

Ana sentou-se na cama e com a ajuda da luz da lamparina a óleo que queimava sobre o criado-mudo, que Cassidy tinha deixado acesa ao sair, ela ergueu-se da cama e calçou os chinelos, se arrepiando inteira por causa do frio apesar do fogo que crepitava na lareira.

Encontrou seu xale pendurado no cabideiro e agradeceu mentalmente por Cassidy tê-lo deixado lá para uma eventualidade como aquela. Ana não sabia por que, mas o som do piano a compelia a deixar o seu quarto e descobrir quem estava tocando. Era como se fosse um encantamento secreto.

Pegando a lamparina, Ana-Lucia abriu a porta de seus aposentos e se enveredou pelo corredor seguindo o som da música. No fundo se perguntava se estava mesmo sonhando ou acordada.

Ela caminhou pelo longo corredor, sempre se deixando guiar pelo som do piano até que chegou a um salão no segundo andar que ainda não tinha sido mostrado a ela. As portas estavam abertas de par em par e um espectro deslizava suas mãos grandes sobre as teclas do piano. Pelo menos foi isso que Ana pensou ao vê-lo pela primeira vez. Que ele era um espectro.

O homem parecia possuído por uma força maior enquanto tocava, sem desviar sua atenção das teclas um só minuto. Ele era exatamente como no retrato no corredor que dava para a sala de costura. Alto, intimidador, com longos cabelos loiros e lisos. Usava uma capa preta por cima das roupas.

Ana deu um passo à frente para vê-lo melhor, esquecendo-se que usava apenas seu xale por cima da camisola branca. Os cabelos estavam desalinhados e soltos, caindo sobre os ombros. Ela só queria ver-lhe os olhos e descobrir se eram tão lindos e brilhantes como no retrato, mas dar um passo a frente foi seu erro porque sem querer ela esbarrou em um vaso que ficava no canto do salão. O vaso se quebrou em mil pedacinhos e o homem parou de tocar o piano no mesmo instante.

Ele então se ergueu do piano e voltou-se para ela. Ana-Lucia se esqueceu de respirar. Os olhos dele eram os olhos mais bonitos que ela já vira. Azuis, cinzentos, ela não saberia dizer com certeza, não naquele momento. Mas de qualquer forma, aqueles olhos tinham uma coisa que a assustava, um sentimento que Ana não conseguia definir.

Lorde James Ford, o Duque de Sawyer aproximou-se de sua nova empregada e colocando-se na frente dela, a mediu de cima a baixo, fixando o olhar atrevido no contorno dos seios dela, cujos mamilos se ergueram majestosos ao olhar incisivo dele. Então o duque sorriu. Não era um sorriso gentil, parecia mais um sorriso de escárnio.

- A senhorita caiu da cama esta noite, Srta. Cortez?- a voz profunda dele perguntou e Ana-Lucia sentiu que se não se segurasse em algum lugar cairia ali mesmo na frente dele tal era a força de sua voz e o poder do seu olhar.

Continua...