Capítulo 3
O Doutor Morte
Ana-Lucia sentiu o corpo inteiro entrar em combustão quando os braços de Lorde Sawyer envolveram seu corpo, amparando-a para que ela não caísse no chão.
- Desculpe, não quis assustá-la.- disse ele, gentil, colocando-a de pé, recostando-a contra a parede.
Ela tentou dizer alguma coisa, mas o olhar do Duqye era tão penetrante que Ana sentiu a garganta seca. Jamais tinha visto olhos como os dele. Ele mirou os olhos dela, bem fundo, como se pudesse enxergar-lhe a alma. Depois seus olhos brilhantes deslizaram pelo rosto dela, fitando-lhe a boca como se a estivesse beijando, umedecendo os próprios lábios de um jeito sensual e fazendo Ana-Lucia desejar sentir os lábios dele junto aos seus.
O olhar dele desceu mais, e atrevido se fixou nos seios dela, cujos mamilos ameaçavam atravessar o tecido fino da camisola.
- A senhorita está com frio?- ele perguntou e Ana-Lucia tratou de recompor-se, cobrindo-se com o xale.
- Não, Vossa Graça.
- Ah, então a senhorita fala?- debochou ele. – Por um momento pensei que teria que lidar com uma preceptora muda. Como meus filhos poderiam aprender desta maneira?
- Perdoe-me, Vossa Graça. Não quis insultá-lo.- disse ela.
- Não estou zangado, senhorita, apenas curioso.- disse ele, acrescentando com um sorriso perigoso: - Está com medo de mim?
Dessa vez ela o encarou com firmeza, embora seu estômago estivesse dando voltas e voltas, denunciando a apreensão que ela sentia diante dele.
- Por que eu deveria ter medo do senhor?
Ele deu uma risada de puro escárnio, um riso que eriçou os pêlos da nuca de Ana. Mas não era medo que ela estava sentindo. Era um sentimento que não conseguia definir.
- Tem razão.- disse ele. – Por que deveria ter medo?
Ana-Lucia estava sentindo-se embaraçada com a maneira como ele olhava para ela. Como se estivesse sendo avaliada. Já tinha visto esse olhar no Marquês de Blevins e também em Fred Winsfield, mas apesar da natureza lasciva do olhar do Duque de Sawyer, Ana percebeu que não ficava zangada com isso. Na verdade o olhar dele a deixava alvoroçada. Uma verdadeira revolução estava acontecendo em seu corpo durante aquele breve instante e a beleza do duque era uma coisa incrível. Como alguém poderia ser capaz de chamá-lo de Doutor Morte? Todo vestido de negro com os longos cabelos loiros a roçar-lhe o rosto, ele poderia ser chamado de Anjo da Morte porque Ana sentia que de fato desfaleceria na presença dele.
- Eu preciso voltar para o meu quarto, Vossa Graça. Podemos conversar em momento mais oportuno.- ela obrigou-se a sair do transe, mas ainda fitando o rosto aristocrático do Duque que tinha a barba por fazer, o que lhe conferia um ar de vilão que estava mexendo com os brios da preceptora. – Perdoe-me por tê-lo importunado. Não acontecerá de novo.
Puxando com força as pontas do xale para cobrir-lhe a camisola, Ana-Lucia virou-se para retornar aos seus aposentos, porém ainda podia sentir o olhar de Lorde Sawyer sobre si. Tentou ignorar esse fato e seguiu em frente, mas a voz aveludada de seu novo patrão a fez retornar quando ele disse:
- Srta. Cortez, eu acabo de retornar de um exaustivo trabalho e ainda não comi nada...
- O senhor gostaria que eu acordasse a Rose?- ela indagou. – Eu poderia fazê-lo, Vossa Graça, mas ainda não sei onde ficam as dependências dos empregados, ainda não tive tempo de conhecer todo o castelo.
- Tenho certeza que a Sra. Hawkins já mostrou à senhorita os lugares mais importantes que deve conhecer. Mas não, não quero que vá acordar Rose. O que estou dizendo é que gostaria de companhia para uma refeição e como a senhorita está acordada poderia juntar-se a mim?
Era uma pergunta, mas que sem dúvida não deixava margem para recusas.
- Por favor?- ele acrescentou como se só naquele momento tivesse percebido que se esquecera da polidez.
- Não estou vestida adequadamente para comer com o senhor, Vossa Graça.- ela respondeu.
- Acredite, milady, seus trajes são perfeitos para me acompanhar em uma rápida refeição.- mais uma vez ele deu um daqueles olhares a ela. Do jeito que a fitava, parecia que ela seria a refeição. Pelo menos foi assim que se sentiu. – Me acompanhe até a cozinha, por favor?
Ele ofereceu-lhe o braço educadamente e Ana-Lucia não teve escolha senão aceitá-lo. Não aborreceria o patrão em seu primeiro encontro com ele. Mas ao mesmo tempo, ela não conseguia deixar de pensar no pouco que sabia sobre ele. Cassidy fora enfática ao afirmar que o duque só desejava uma coisa de suas criadas. Mas o que seria?
A sensação do braço dela apoiado ao dele era intensa. Um gesto tão banal que ela já tinha realizado tantas vezes na Mansão Winfield quando algum cavalheiro nos bailes oferecidos por seu pai a tirava para dançar em cortesia ao Duque de Timberland; todos eles fingindo que ela não era uma filha bastarda. Mas com o Duque de Sawyer era bem diferente. Tocar o braço dele, mesmo protegido pelo casaco negro era mais agradável do que tocar o braço de qualquer outro homem e essa constatação deixou Ana-Lucia assustada.
Ele a conduziu por um corredor mais estreito do que os que ela vira anteriormente. Desceram três lances de escada e rapidamente estavam na cozinha. Era um atalho muito útil. Por que a Sra. Hawkins a ensinara a chegar à cozinha pelo caminho mais difícil?
- Sente-se!- disse ele quando adentraram a ampla cozinha. Mais uma vez seu tom de voz era imperioso.
Ana ia puxar uma cadeira, mas o duque a puxou para ela como um perfeito cavalheiro. Isso era estranho. Por que um nobre trataria sua empregada com tanta cordialidade?
- O que gostaria de comer, Srta. Cortez?
- Eu?- ela questionou. – Mas o senhor...
Ele tirou uma chave do bolso da capa e destrancou a despensa, dizendo:
- Parece que estamos com sorte. Temos bolo de nozes, leite de cabra, mel, morango e creme de claras e açúcar. Acho que devíamos provar um pouco de tudo!
Sorrindo para exibir os dois pequenos furinhos que tinha de cada lado do rosto, Lorde Sawyer colocou os quitutes sobre a mesa e em seguida pegou dois pratos e copos de porcelana, postando-os ao lado da comida. Em seguida, ele serviu leite de cabra para os dois e perguntou a Ana:
- A senhorita aprecia o mel?
- Sim.- ela respondeu, mas não demais. Creio que se não tivermos cuidado, o mel adocica demais a boca.
Ele sorriu outra vez e tirando uma colher pequena de prata de uma gaveta adicionou uma quantidade generosa de mel ao copo dele, dizendo:
- Pois eu gosto que me adoce a boca, Srta. Cortez, especialmente com mel. Não há iguaria melhor no mundo para mim.
Ana-Lucia notou que a frase dele era ambígua, mas não conseguiu captar o real significado do que ele queria dizer. Ele adoçou o copo dela também, mas com uma quantidade bem menor de mel e entregou o copo a ela.
- Obrigada.- disse ela.
Ele serviu um pedaço de bolo de nozes para ela e acrescentou por sua própria conta uma pequena quantidade de creme de claras açucarado. Ana adorava esse creme, mas imaginava que ele não teria como saber disso.
- Fiquei imaginando se a senhorita viria mesmo quando mandei Eloise enviar-lhe a carta.
- Eloise?- o nome era desconhecido a Ana.
- Sim, Eloise Hawkins.
- Oh!- Ana exclamou estranhando a intimidade do Duque de Sawyer em chamar a governanta pelo primeiro nome. – Por que pensou que eu não viria?
- Porque a senhorita é muito jovem.- respondeu ele bebericando o leite e obviamente se comprazendo com o sabor do mel. – Hummm, isso está ótimo!- disse ele.
- O fato de eu ser jovem fez o senhor pensar isso?- indagou ela. – Penso que idade não é pré-requisito para se avaliar a personalidade de alguém. O senhor é jovem também.
- Sou mais velho do que pareço.- ele respondeu.
Ana levou mais um pedaço de bolo à sua boca e não percebeu que um pouco de creme se espalhou sobre seu queixo.
- Senhorita Cortez?- disse ele.
Ela ergueu o rosto e o fitou.
- Está suja aqui... – ele falou num tom de voz tão baixo que ela mal pôde ouvir. Ela fez menção de limpar o queixo com um lenço que estava sobre a mesa, porém ele foi mais rápido e antes que ela pudesse fazer qualquer coisa a respeito, Ana sentiu os lábios do Duque em seu queixo, lambendo o creme espalhado.
O coração de Ana-Lucia disparou dentro do peito num misto de susto e excitação. O que seu novo patrão tinha acabado de fazer com ela? Mas antes que ela pudesse dizer ou fazer qualquer coisa a respeito, o som de passos vindos do lado oposto a mesa onde estavam sentados fez com que Lorde Sawyer se afastasse dela de imediato.
- Boa noite, Vossa Graça. Boa noite, Srta. Cortez.- a voz azeda da Sra. Hawkins reverberou pelo silêncio da cozinha.
- Sofrendo de insônia outra vez, Eloise?- o duque perguntou num tom de voz seco, parecia irritado com a chegada repentina da governanta.
- Na verdade não, Vossa Graça.- ela respondeu. – Eu apenas despertei com o som do piano e imaginei que o senhor viria até a cozinha comer alguma coisa. Pensei em preparar-lhe algo.
- Como pode ver, consegui me arranjar sem problemas por aqui e a Srta. Cortez fez a gentileza de me acompanhar nesta pequena refeição.
- Sofrendo de insônia, Srta. Cortez?- dessa vez a pergunta foi feita pela Sra. Hawkins a Ana-Lucia. A única coisa que denunciava seu desagrado em vê-la ali tão tarde da noite acompanhada pelo patrão era o seu cenho levemente franzido.
- O piano também me acordou, Sra. Hawkins.- Ana respondeu sem se deixar intimidar pela governanta.
- Acho que o senhor deveria controlar seus impulsos musicais durante a madrugada Vossa Graça ou poderá causar insônia em todos nós.
Ana-Lucia engoliu em seco, pensando no quanto a governanta tinha sido ousada ao falar daquele jeito com o duque e pensou que ele fosse brigar com a criada por sua impertinência, mas ele limitou-se a sorrir de modo debochado antes de dizer:
- O que seria de mim sem seus sermões, Eloise?
Ana estava se sentindo muito desconfortável ali, de madrugada comendo com seu patrão na cozinha e usando trajes inadequados. Certamente isso não era bom para a sua reputação. Além do mais, ela não sabia que tipo de relação havia entre o duque e a governanta, e com certeza não isso não era da sua conta.
- Ë muito tarde.- ela disse de repente. – Ë melhor eu voltar para os meus aposentos.
- Obrigado pela companhia, Srta. Cortez. Eu apreciei muito.
O tom de voz que o Duque usara para dizer que tinha apreciado a companhia dela no mínimo soara indecente, não só aos ouvidos dela, mas também aos ouvidos da Sra. Hawkins que torceu o nariz para Ana-Lucia e praticamente a expulsou de volta para seus aposentos.
- Acho mesmo que é melhor a senhorita voltar para sua cama.
Ana retomou sua lamparina e fez uma mesura educada para o Duque.
- Tem certeza que sabe como retornar aos seus aposentos?- ele perguntou.
- Sim, senhor, obrigada. Eu aprendo depressa.- ela respondeu e finalmente se retirou da cozinha.
Assim que se viu a sós com a governanta, Lorde Sawyer disse:
- Não entendo por que você omitiu de mim o fato dela ser uma mulher tão bela?
- Porque eu o criei e o conheço o bastante para saber que não dispensaria um rabo de saia.
Ele riu amargurado.
- Pode ser, Eloise, mas sabe muito bem que meu coração pertenceu a uma única mulher que não está mais entre nós. Jamais amarei outra!
- Não vai precisar amar esta menina para desgraçá-la!- Eloise advertiu.
- E o que a faz pensar que eu faria mal a ela? Acha que só faço o mal para as mulheres?
- Não acredito que ela irá pensar que o que deseja fazer com ela seria um mal.
- Já chega, Eloise! Às vezes você se esquece de qual é o seu lugar nesta casa!
- Você bebeu, não bebeu?- ela indagou, mas já sabia a resposta.
- Bebo sempre, Eloise.- ele respondeu. – Agora vou para os meus aposentos sonhar com as deliciosas ancas da senhorita Cortez.
- Não seja vulgar, James!- ela advertiu e ele riu erguendo-se da cadeira.
- Boa noite, Eloise. Tenha bons sonhos se puder neste castelo de trevas!- acrescentou ele deixando-a sozinha na cozinha.
Sim, Eloise estava certa desde o princípio. A chegada de Ana-Lucia Cortez ao castelo de Graves já estava trazendo problemas.
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No dia seguinte, quando Ana-Lucia levou Albert e Nicole para mais um passeio pelos jardins, ela não viu Lorde Sawyer em nenhuma parte do castelo. Ainda se sentia estranhamente perturbada por seu encontro com ele. Na verdade era como se nenhum dos acontecimentos da última madrugada tivesse realmente ocorrido. O Duque de Sawyer estava mais para um espectro do que para um ser real.
- Você falou com seu pai hoje, Albert?- Ana indagou de repente, curiosa.
- Sim.- respondeu o menino, brincando de pular num pé só em meio ao gramado. – Ele foi ao meu quarto bem cedinho me dar um beijo de bom dia.
- Que bom.- Ana comentou.
- E ele também me contou que conversou com a senhorita ontem à noite.
- Contou?- ela ficou surpresa.
- Ele me perguntou se eu estava gostando das aulas e eu disse pra ele que a senhorita é a melhor preceptora que já tive.
- Mas estou aqui há apenas dois dias, Albert.
- Mas é o suficiente pra mim e eu também disse pro meu pai que não gostava das outras duas. Foi por isso que elas morreram.- o menino completou e Ana sentiu novamente aquele arrepio estranho na espinha. O que Albert estava querendo dizer? Que Lorde Sawyer tinha decidido dar fim à vida das duas preceptoras anteriores só porque o menino não gostava delas?
- O meu pai sempre diz que faria qualquer coisa por mim e pela Nicole e que é pra eu nunca duvidar disso.- Albert acrescentou com confiança.
Durante o resto do passeio, Ana-Lucia ficou com as palavras de Albert em sua mente tentando desvendar o enigma que era Lorde Sawyer. Mesmo o tendo conhecido na noite anterior ela sentia que ainda estava longe de descobrir quem ele era e ao mesmo tempo se perguntava por que isso era tão importante. Era sua empregada e estava ali para cuidar das crianças, nada mais do que isso. Mas simplesmente não conseguia conter a curiosidade. Nenhum homem lhe tinha chamado a atenção daquela maneira em toda a sua vida.
Ela passeou com as crianças até bem próximo do labirinto dessa vez e sentiu vontade de entrar lá, mas notou que Albert ficava apreensivo naquele lugar e hesitava em prosseguir. O garoto a tinha advertido que era perigoso entrar lá no dia anterior, mas isso só fizera aumentar a curiosidade de Ana-Lucia.
- Por acaso não está pensando em entrar no labirinto, está, senhorita Cortez?- indagou uma voz masculina atrás de Ana e por uma fração de segundo ela imaginou que seria o duque, mas o sotaque acentuado denunciava o dono da voz.
- Sr. Sayid?- disse ela voltando-se para ele.
- O tempo está fechando outra vez, é melhor a senhorita voltar para o castelo com as crianças.
- O que tem no labirinto?- ela teve que perguntar.
- Com todo o respeito, Senhorita Cortez, nada necessário ao seu trabalho no castelo.- respondeu ele e fez um gesto indicando o caminho para que ela retornasse ao castelo.
Ana sentiu a brisa mudando de temperatura e protegeu Nicole com a manta antes de segurar gentilmente a mão de Albert para fazerem o caminho de volta.
- A senhorita não tem medo do labirinto, Srta. Cortez?- perguntou Albert como se lhe adivinhasse os pensamentos.
- Não, querido.- respondeu ela. – A única coisa a se temer em um labirinto é não encontrar a saída.
Na verdade, Ana tinha mais medo era de Lorde Sawyer e seu comportamento provocante. Ela ainda não tinha se esquecido do beijo ousado que ele dera em seu queixo sujo de chantilly na noite anterior. Só de pensar nisso seu corpo inteiro se agitava.
Naquele dia, como no anterior, Ana-Lucia cuidou de suas tarefas junto às crianças. Deu aulas para Albert e fez questão de banhar, alimentar e fazer Nicole dormir, dispensando um pouco os serviços de Alex.
No final da tarde, Albert estava jogando xadrez com Alex na sala de estudos e Nicole ainda dormia. Ana-Lucia olhou pela janela e notou que o tempo tinha melhorado. Estava frio, mas não chovia. Observou o labirinto mais uma vez à distancia e notou que havia algo no final dele, uma estranha elevação que parecia ser uma porta embutida entre as plantas. Ana pensou um pouco. Se queria mesmo explorar o tal labirinto, talvez aquele fosse o momento.
- Alex, você poderia olhar um pouco as crianças enquanto eu vou respirar um pouco de ar puro lá fora?
- Sim, senhorita.- respondeu Alex. – Mas aonde pretende ir?
- Apenas aos jardins. Quem sabe olhar o mar quebrando nas pedras lá embaixo. Deve ser uma bela visão.
- Só tome cuidado, senhorita.- disse Alex. – Não chegue muito perto do abismo, se olhar muito para o mar pode ser tentada a cair lá embaixo.
- Por que diz isso?- indagou Ana.
- Porque foi assim que a segunda preceptora morreu.- respondeu a babá, sombria.
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Ao deixar o castelo para ir aos jardins novamente, Ana-Lucia pensou que era muito mais fácil se perder dentro da gigantesca construção de pedra do que no labirinto no qual ela pretendia entrar. O castelo era enorme, cheio de escadarias e paredes que pareciam mudar de lugar a cada vez que Ana se movia, mas por fim ela conseguiu chegar ao salão principal e atravessar as portas de cedro rumo aos jardins.
O ar estava mais frio do que ela imaginara e Ana arrependeu-se de não ter trazido sua capa consigo. Mas daria muito trabalho retornar ao castelo e ir buscá-la, por isso ela seguiu em frente tendo o cuidado de não encharcar a barra de seu vestido lilás na grama molhada.
Ela atravessou os jardins até a entrada do labirinto e ao chegar lá observou a extensão dos corredores naturais esculpidos ao longo dos tempos pelas árvores e trepadeiras. Ainda não eram nem cinco horas da tarde, mas dentro do labirinto estava escuro como se já fosse noite.
Ana-Lucia sentiu o ar pesado quando uma lufada de vento vinda de dentro do labirinto ergueu-lhe levemente as saias. Ela apertou os braços ao redor do peito, segurando seu xale para manter-se aquecida e estranhou a repentina invasão daquela corrente de ar vinda das profundezas do labirinto. Não era natural que o ar gélido conseguisse penetrar com tanta facilidade os intrincados galhos e folhas da trepadeira que formavam as paredes do labirinto. Mas aquilo não a impediu de continuar e Ana deu um passo a frente. Ela estava muito curiosa sobre a porta que vira de longe através da janela do castelo.
Seguindo seus instintos, ela caminhou por entre os sinuosos corredores de folhas verdes, visualizando em sua mente o caminho até a porta secreta que desejava tanto encontrar. Mas à medida que ia caminhando, os corredores pareciam querer se fechar ao redor dela. Ana respirou fundo, tentando conter a sensação claustrofóbica que ameaçava invadi-la e seguiu em frente. Porém, quanto mais fundo ela se embrenhava no labirinto, mas fria a temperatura se tornava e logo ela estava tremendo e apertando os lábios de frio.
Deu mais algumas voltas e percebendo que não iria mais agüentar a frieza do lugar e que não chegaria nunca ao final daquele labirinto, resolveu voltar. No entanto, entrar no labirinto era obviamente mais fácil do que sair. Ana rodou incontáveis vezes indo parar no mesmo lugar e nunca chegava à saída. Era estranho porque quando criança costumava brincar em labirintos e jamais se perdera. Mas aquele labirinto era diferente. O pior labirinto em que já estivera.
Sentindo a cabeça rodar a cada vez que entrava em um novo corredor e não encontrava a saída, Ana começou a entrar em desespero. Seus dentes batiam um no outro de tanto frio que sentia. Foi então que ela sentiu o sangue gelar dentro das veias quando uma voz surgiu do nada, como um trovão no ar, indagando em ameaça:
- Quem está aí?
- Oh!- Ana exclamou esfregando uma mão na outra, tentando produzir calor. Mesmo usando luvas, suas mãos pareciam estar congeladas dentro do cetim.
- Quem está aí?- a voz repetiu em um tom ainda mais ameaçador.
Ana-Lucia nunca sentira tanto medo em sua vida. Sua única reação foi a mais natural possível: correr. Correu o mais rápido que pôde como se algum perseguidor estivesse em seu encalce, sentindo o vento frio se transformar em pequeninas gotas de chuva que doíam ao encostar em sua pele. Logo as lágrimas de medo e desespero tomaram seus olhos e Ana continuou encurralada dentro daquele labirinto, sem encontrar saída. Naquele momento sentiu um terrível arrependimento por ter deixado sua mãe em Londres. Queria muito poder correr dali para a segurança materna. Sentir os braços carinhosos da mãe ao redor de si e ouvi-la sussurrar em seu ouvido que tudo ia ficar bem. Mas nada disso ia acontecer porque jamais encontraria a saída daquele lugar.
- Ei!- ela ouviu novamente a voz, mas dessa vez parecia mais perto. E ela gritou, bem alto. Suas cordas vocais emitindo um aterrador som de susto. – Calma!- ela ouviu a voz dizer novamente e seu coração parecia querer sair pela boca. Albert tinha dito que ela não deveria ter ido ao labirinto. Devia tê-lo escutado. Ouviu som de passos amassando folhas e gravetos no chão, vindos em sua direção e voltou a correr, mas tropeçou em um graveto maior no caminho e torceu o tornozelo, caindo com força no chão e batendo os quadris.
- Ahhhhhhh!- ela gritou de dor e começou a soluçar baixinho. Os passos se aproximaram mais e ela gritou: - Fica longe de mim seja lá quem for!
- Senhorita Cortez!- a voz de Lorde Sawyer ecoou pelo labirinto. – O que está fazendo aqui?
- Vossa Graça?- ela indagou embaraçada por ter gritado com o patrão daquele jeito. Os olhos dela estavam cheios de lágrimas e ela queria continuar gritando por causa da dor que sentia no tornozelo.
- Eu não quis assustá-la.- disse ele. – Mas a senhorita não deveria estar aqui.
- Foi o senhor...quem falou comigo?- ela perguntou, trêmula vendo-o retirar a capa preta e envolver no corpo dela.
- Você está congelando, moça.- ele disse tentando agasalhá-la o melhor possível com sua capa sem se dar ao trabalho de responder a pergunta dela. – O que estava pensando quando veio até aqui?
Ana gemeu de frio, se encolhendo contra a capa do duque, buscando calor.
- Machucou-se?- ele perguntou.
- Acho que torci o tornozelo.- ela respondeu e então assustou-se quando o viu começar a erguer suas saias.
- O que o senhor está fazendo?
- Preciso ver o quanto seu tornozelo está machucado.
- Mas Vossa Graça...
Ele sorriu malicioso e disse:
- O que? A senhorita tem medo de que eu manche sua reputação se ver seus tornozelos? Não se preocupe. Eu sou médico, além disso, qualquer coisa que fizermos ficará no mais absoluto sigilo.- acrescentou erguendo-a em seus braços. – Segure no meu pescoço, vou tirá-la daqui e então eu vou examinar com muita atenção o seu tornozelo, senhorita Cortez. Cada pedacinho dele!
Ana-Lucia ouviu a malícia nas palavras do duque e sentiu vontade de gritar outra vez, não sabia se de medo ou de excitação por estar nos braços do Doutor. Morte.
Continua...
