Capítulo 4
Educação Sentimental
Quando o Duque de Ford adentrou o Castelo de Graves carregando a nova preceptora nos braços, os empregados ficaram em polvorosa. Pareciam muito assustados e olhavam para Ana-Lucia como se ela estivesse prestes a morrer de alguma moléstia terrível. À medida em que o Lorde caminhava pelo amplo salão de recepção do castelo, os criados davam passagem murmurando expressões ininteligíveis de receio entre eles. Ana se encolheu nos braços de Sawyer. Todos pareciam temer o soberano daquele lugar.
- Por que estão me olhando desse jeito?- ele gritou, enfurecido. – Charlotte! Cassidy!- ele chamou as criadas que vieram depressa. Ana achou isso estranho. Nem tinha notado que ambas estavam entre os empregados do salão.
- Sim, Vossa Graça?- disse Cassidy fazendo uma mesura. Charlotte apenas se curvou, mas nada disse.
- A Srta. Cortez se machucou.- ele explicou. – Estou levando-a para seus aposentos. Quero que levem baldes de água morna, toalhas limpas e ungüento lá pra cima agora mesmo e alguém descubra onde diabos a Sra. Hawkins se meteu!
Ele subiu as escadas com ela nos braços sem dizer uma palavra. Ana também não ousou dizer nada. De um jeito estranho se sentia muito segura nos braços dele. Ele a estava carregando desde o labirinto e sua respiração não se alterara nenhuma vez. Na verdade, parecia que não estava sendo nenhum esforço para ele carregá-la.
Dentro dos aposentos dela, ele a colocou com cuidado sobre a cama. Ana ainda sentia o tornozelo latejar de dor, mas não se queixava. As criadas entraram logo em seguida e junto com elas veio a ranzinza Sra. Hawkins.
- O que aconteceu, Vossa Graça?- ela perguntou olhando para Ana.
- A Srta. Cortez machucou o tornozelo.- ele respondeu.
- Fazendo o quê?- Eloise deu um olhar desconfiado a Ana-Lucia ao perguntar.
- Não faça insinuações desnecessárias, Eloise.- Sawyer advertiu. Ele olhou para Charlotte e Cassidy e ordenou: - Quero que tirem as meias dela e se houver ferimentos, lavem com água e glicerina. Muito cuidado ao fazerem isso. Aumentem o fogo da lareira, a senhorita Cortez está congelando. Quanto terminarem cubram-na com um cobertor bem quente, eu virei em seguida para examinar o ferimento dela.
- Espero que sob minha supervisão.- Eloise resmungou.
- Já teve sua oportunidade de supervisionar, Eloise.- respondeu Sawyer sem se deixar intimidar por ela.
- No que você se meteu, menina?- a Sra. Hawkins perguntou com expressão zangada, olhando para Ana-Lucia.
- Eu tropecei e torci o tornozelo.- Ana tentou explicar enquanto as criadas erguiam suas saias e anáguas, e tiravam suas meias para lavar o ferimento. – Ai!- ela se queixou quando Cassidy puxou a meia de seda rasgada sem nenhum cuidado.
- Onde você estava quando isso aconteceu?- perguntou Eloise.
- Passeando pelo jardim.- Ana-Lucia mentiu. Pelo tom que a Sra. Hawkins estava usando com ela, a governanta não gostaria nada de saber que ela estivera vagando pela zona proibida. – Eu estava voltando para o castelo quando tropecei no caminho. Vossa Graça me encontrou e trouxe-me para cá.
- Oh, Deus!- Charlotte exclamou observando o ferimento na perna de Ana. Havia sangue escorrendo de um corte e uma enorme mancha arroxeada no tornozelo. – Isso está bem feio! Será que é infeccioso Sra. Hawkins?- a criada indagou. – O patrão sempre diz que...
- Não diga bobagens, menina!- disse Eloise verificando o ferimento de Ana-Lucia. – Isso não passa de um pequeno corte e uma luxação! Agora terminem de tirar as roupas molhadas da Srta. Cortez ou ela poderá ficar resfriada e desse jeito não irá nem poder chegar perto das crianças! Vamos, andem logo com isso!
Cassidy e Charlotte terminaram de retirar as roupas molhadas de Ana e as substituíram por um camisolão de algodão, deixando de lado adereços como luvas e meias. Pouco tempo depois, o duque bateu à porta, parecendo impaciente.
- Já terminaram com a senhorita Cortez?- indagou.
Eloise colocou dois cobertores sobre o corpo trêmulo de Ana-Lucia e respondeu ao patrão:
- Sim, Vossa Graça. Ela está aquecida e o ferimento já está limpo.
Ana-Lucia sentia a pele latejar no local do corte que tinha sido lavado com água e sabão. Ela estranhara que as criadas tivessem aplicado sabão em seu ferimento. Nunca vira ninguém fazer isso em toda a sua vida, nem mesmo no ambulatório médico onde costumava levar sua mãe quando ela tinha crises fortes de tosse hemorrágica. O médico apenas lavava suas mãos com água antes e depois de examinar sua mãe, ás vezes até dispensava a água, apenas esfregava as mãos em uma toalha de linho.
Lorde Sawyer voltou a entrar no quarto, trazia consigo uma panela de água fervente e alguns instrumentos cirúrgicos que Ana nunca vira antes. Seu estômago se contraiu ao ver aquelas coisas. Por que ele precisaria disso para examiná-la?
- Agora saiam! Eu vou examinar a Srta. Cortez!- disse ele.
- Eu vou ficar e ajudá-lo!- se pronunciou a Sra. Hawkins.
- Não vou precisar de sua ajuda, Eloise. Pode se retirar. Se eu precisar de algo tocarei a sineta.
A Sra. Hawkins deixou o quarto a contragosto junto com as criadas.
- Espero que o senhor saiba o que está fazendo!- disse ela.
- Eu sempre sei!- respondeu ele.
Quando as três mulheres saíram, Sawyer trancou a porta e voltou sua atenção para Ana. Era impressão dela ou os olhos azuis dele tinham se alterado para um tom mais escuro e brilhavam perigosamente?
- O ferimento não foi grave, Vossa Graça.- disse ela sem tirar seus olhos dos dele. – As criadas já o lavaram, com sabão inclusive, embora eu tenha estranhado tal procedimento.
- Srta. Cortez se existe uma coisa que eu aprendi em meus anos de experiência como médico foi que o motivo das doenças se proliferarem é a falta de limpeza da população. Quando nos machucamos...- ele começou a explicar. –... nossa pele que é uma espécie de tecido muito fino e vulnerável se rompe, e nossa carne fica exposta aos milhares de germes que existem no ar, água e solo. Lavar o ferimento com sabão é uma forma de evitar que esses germes se proliferem sobre a ferida e causem infecção, o que geraria gangrena que consumiria o ferida rapidamente e faria com que sua perna se tornasse inutilizável em pouco tempo.
Ele esperava que Ana-Lucia tremesse àquelas palavras, mas ela simplesmente balançou a cabeça e disse:
- Eu nunca tinha pensado nisso. Acho que o senhor tem razão.
Ele deu uma risada amarga.
- Nossa! È a primeira vez que ouço alguém dizer que tenho razão. Até que gosto de como isso soa, mas não se iluda comigo, senhorita!
O duque se sentou na cama e ergueu a ponta do cobertor que cobria as pernas de Ana. Ela se retesou sob os lençóis.
- Talvez fosse melhor se o senhor chamasse uma das criadas de volta antes de me examinar, Vossa Graça. Não estou decente por baixo das cobertas e minha meias foram removidas...
Sawyer sorriu malicioso e disse:
- Senhorita, se está preocupada com que eu faça alguma coisa que possa comprometer sua reputação está indo pelo caminho errado ao mencionar a ausência de suas meias. Portanto, fique quieta e me deixe fazer o meu trabalho.
Ele ergueu ainda mais o cobertor e visualizou a renda do camisolão que Ana vestia. Ela acompanhou o movimento dos dedos dele ao erguer a barra da camisola e examinar seus pés. Ana prendeu a respiração. Os dedos dele eram longos e seu toque tão suave que era quase como se não a estivesse tocando. Sawyer admirou os pés dela. Eram pequenos e delicados com unhas rosadas. Os dedões eram gordinhos como os dos pés de um bebê.
Devagar, ele escorregou o dedo indicador pela superfície macia da palma do pé direito dela e Ana-Lucia estremeceu.
- Doi?- ele indagou.
Ela balançou a cabeça negativamente, mas não pronunciou palavra. O dedo dele deslizou para cima e para baixo, bem no centro do pé dela e Ana mordeu o lábio inferior.
- E agora? Doi?
- Não, senhor.- ela finalmente respondeu. – È meu tornozelo que está doendo, não meus pés. Creio que o que o senhor está fazendo não é nada apropriado...
- Realmente não é apropriado, senhorita. Mas a senhorita não sente certo fascínio pelo inapropriado?- dizendo isso, ele fez um movimento circular com a ponta do indicador em um ponto sensível na palma do pé dela e Ana sentiu um arrepio subir por suas coxas e esquentá-la numa região tão íntima que ela sentiu-se corar.
Então ele a encarou com aqueles olhos azuis profundos como o oceano bravio, que se estendia para além das paredes de pedra do Castelo de Graves e retirou o dedo do ponto sensível que a provocava. Ana sentiu uma frustração inexplicável, mas nada disse.
- Já vi que seus pés não foram afetados pela queda, senhorita. Permita-me agora examinar seu tornozelo.- ele ergueu a barra da camisola dela até os joelhos e visualizou pernas roliças e bem feitas, com tornozelos bem torneados. O sangue tinha voltado a escorrer do corte e estava começando a secar e criar uma crosta escura. Ele franziu o cenho e pegou um vidro cheio de iodo que estava entre as coisas que ele tinha trazido para o quarto ainda há pouco. Embebeu uma tira de linho no iodo amarelado e disse: - Vai doer um pouco.
Ana assentiu e ele passou o pano bem devagar pelo ferimento, removendo a crosta de sangue. Ela sentiu o ferimento queimar e gemeu baixinho, mas não fez maiores queixas.
- Boa menina.- disse o lorde com sua voz grave e macia.
- Está muito ruim?- ela perguntou. – Sua criada disse que poderia ser infeccioso.- Ana comentou, embora não soubesse muito bem do que estava falando, apenas repetia o que Charlotte dissera.
- Qual criada?- ele indagou com a sobrancelha levantada.
- Charlotte.- Ana respondeu.
A resposta pareceu deixá-lo zangado tal foi o grunhido que ele deu antes de começar a andar de um lado para o outro do quarto balançando sua capa escura.
- Eu o aborreci, Vossa Graça?- Ana indagou, insegura.
Ele voltou-se para ela.
- Se Charlotte ou qualquer outra criada nesta casa mencionar qualquer coisa desse tipo à senhorita outra vez, eu juro que vou cortar a língua dela e exibir aos demais empregados.
- Oh!- Ana exclamou, assustada. – Não faça isso, Lorde Sawyer! Ela não disse nada demais
Ele voltou a sentar-se na cama com ela e a examinar o tornozelo machucado. Ficou calado por um bom tempo limpando o corte, depois deu um pequeno ponto com uma agulha esterilizada e cobriu o ferimento com uma tira de tecido e ataduras. Ana ficou observando os movimentos rápidos, porém cuidadosos dele sem dizer palavra. Por fim, ele pegou o ungüento e melou os dedos na mistura. Ana estava acostumada com os ungüentos malcheirosos que havia na botica da mansão de seu pai em Londres, mas aquele ungüento era diferente, tinha um cheiro suave e agradável.
- O que é isso?- ela indagou curiosa.
- Aloe vera e hortelã.- ele respondeu. Vai ajudar a diminuir o inchaço em seu tornozelo, mas terá que ficar na cama por pelo menos uns dois dias e evitar longas caminhadas por mais alguns cinco.
- Foi tão grave assim?
- Tem sorte de não haver trincado o osso. Eu soube disso quando toquei seu pé.
- O senhor é um médico muito talentoso.- disse Ana com inegável admiração.
- Apenas fiz o que era preciso.- ele respondeu com certa rispidez, porém seu gesto seguinte não tinha nada de ríspido. Pelo contrário, era delicado e surpreendentemente sensual. Ele se abaixou e tocou com os lábios toda a extensão do tornozelo inchado dela, beijando-o suavemente.
- Ahhh... – um murmúrio escapou dos lábios de Ana e então ele lambuzou o machucado com o ungüento cheiroso, voltando a cobrir as pernas dela com o camisolão e o cobertor em seguida.
O Duque levantou-se da cama e encheu uma colher com um líquido marrom, se aproximando de Ana com a colher estendida.
- O que é isso?
- Tome!- ele ordenou.
- Eu não...
Ele ergueu o queixo dela e posicionou a colher de modo que Ana ingerisse todo o líquido. Era muito amargo e ela fez uma careta.
- O que me deu para tomar, Vossa Graça?
O lorde não respondeu, mas mesmo que o tivesse feito, Ana não teria conseguido ouvir a resposta, pois no instante seguinte ela sentiu as pálpebras pesadas e uma estranha sensação de sonolência que a fez dormir antes que pudesse se dar conta disso. Quando o corpo de Ana bateu pesado contra o travesseiro, Sawyer a segurou com cuidado e ajeitou-lhe a cabeça sobre o travesseiro, não resistindo ao impulso de tocar-lhe os cabelos negros nem que fosse por apenas alguns segundos.
- Durma bem, senhorita Cortez.- ele sussurrou, deixando o quarto.
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A garganta estava seca quando Ana-Lucia despertou. A luz do sol entrava pela janela e irritava-lhe os olhos. Ela os esfregou instintivamente e sentou-se na cama, afastando os cobertores. Ouviu o som de talheres sendo postos à mesa e focalizou Cassidy servindo uma bandeja sobre uma mesa com rodinhas perto de sua cama.
A criada notou que ela estava acordada e aproximou a mesa ainda mais da cama.
- Deseja almoçar, Srta. Cortez?
- Almoçar? Que horas são?- ela não se lembrava a que horas tinha ido dormir.
- Sim, senhorita. Já passam de duas da tarde.
- Por quanto tempo eu dormi?- Ana perguntou, confusa.
- A senhorita dormiu desde que Lorde Sawyer veio examiná-la.- Cassidy respondeu polidamente, mas não havia gentileza nenhuma em sua voz.
- Onde está Vossa Graça?- Ana perguntou.
Cassidy franziu o cenho, com raiva.
- O duque viajou esta manhã. Mas não fique triste, ele sempre faz isso depois de conversar em particular com suas empregadas!
- Como é que é?- Ana retrucou, já estava cansada da hostilidade de Cassidy e de seus maus modos.
- Lorde Sawyer costuma viajar depois que consegue o que quer com as empregadas.- Cassidy explicou como se Ana não tivesse entendido da primeira vez.
- Você está insinuando que eu fui violada pelo meu patrão enquanto dormia?- Ana perguntou com preocupação e raiva na voz.
A Sra. Hawkins entrou no quarto nesse exato momento. Trazia uma pequena bandeja com um copo de água e dois pedaços de algo pequeno e branco que Ana não consegiu definir o que era.
- Cassidy, você já pode ir! Volte depois para pegar a bandeja do almoço da Srta. Cortez.- Eloise instruiu.
- Sim, senhora.- disse Cassidy deixando o quarto.
- Bom dia, Sra. Hawkins- disse Ana tentando se acalmar após seu rompante de fúria. Seu tornozelo machucado começou a latejar.
- Srta. Cortez, eu vou lhe fazer uma pergunta e quero que seja totalmente honesta comigo.
Ana nada disse, mas prestou muita atenção a Sra. Hawkins.
- Você ainda é casta?
- Como?- Ana retrucou.
- Quero saber se ainda é virgem, menina!
- Por que eu teria que responder isso pra senhora?
- Acabou de acusar seu patrão de estupro, portanto eu preciso saber!
- Eu não o acusei!- Ana defendeu-se. – Foi Cassidy quem disse isso e eu só estava tentando compreender o que está acontecendo! Eu só me lembro de tomar um remédio amargo, mais nada além disso!
- Não respondeu à minha pergunta.- Eloise insistiu.
- Eu sou virgem!- Ana respondeu. – Nunca estive com um homem antes!
- Se é assim, sua virtude continua intacta. O duque cuidou de sua perna machucada, lhe deu láudano dissolvido em sódio para que a senhorita dormisse e depois pediu-me que ficasse à cabeceira de sua cama e foi o que eu fiz. Então, quando eu contei a ele que a senhorita estava bem, ele partiu para uma viagem importante de negócios em Londres. Agora por favor, coma seu almoço e tome estas pílulas para a dor. Tenho certeza que o efeito do láudano já deve estar passando.
Eloise pôs a bandeja com o remédio junto com a bandeja do almoço e já ia saindo do quarto quando Ana a chamou e disse:
- Obrigada por me contar tudo isso. Eu estava realmente confusa.
- Não me agradeça, apenas ouça meu conselho. Lorde Sawyer nunca violentaria você, ele não precisaria fazer isso para conseguir o que quer, portanto fique longe dele!
Ana enterrou a cabeça no travesseiro assim que a governanta saiu do quarto. Talvez devesse seguir o conselho dela, mas o duque tinha sido tão atencioso quando a carregara nos braços do labirinto até o castelo e depois a tocando daquela maneira tão íntima que lhe provocara sensações indescritíveis. Não conseguia parar de pensar nele. Quanto tempo duraria aquela viagem dele, afinal? Seu coração ansiava por vê-lo de novo.
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Alguns dias se passaram e Ana-Lucia pôde finalmente sair da cama. Albert ficou feliz ao ver a preceptora de pé depois de tanto tempo. Ele contou a ela que Nicole chorava muito querendo a companhia dela e que ele teve de consolá-la. Ana sorriu, sabia que ele próprio chorara também, mas não admitiria porque se considerava um garoto crescido.
Mesmo tendo conseguido se levantar da cama, Ana precisou da ajuda de uma bengala para se locomover pelo castelo por mais alguns dias e enquanto estivesse utilizando a bengala, não poderia descer escadas. Isso era muito entediante. Depois das lições de Albert ou de brincar um pouco com Nicole, não restava muita coisa para ela fazer.
Por isso, em uma dessas tardes chatas após o almoço, Ana-Lucia aproveitou a quietude dos corredores para explorar o castelo. Havia muitas portas nas quais ela ainda não tinha entrado e Ana esperava que alguma dessas portas estivessem abertas. Arrastando sua perna machucada com a ajuda da bengala, ela conseguiu caminhar pelo corredor e testar as diversas portas. A maioria delas estava trancada, mas havia uma aberta no final do corredor, antes das escadas.
Sorrindo excitada com sua descoberta, Ana-Lucia entrou naquele aposento desconhecido. Era uma ampla sala toda pintada de cor de rosa, com sofás amarelos, cheios de babados. Definitivamente era um cômodo feminino. Deveria ter pertencido à esposa do duque, Lady Evangeline.
Ana sentou-se em um dos sofás e remexeu na cômoda de pinho que havia na sala. Algumas gavetas estavam trancadas, outras abertas. Em uma dessas gavetas, ela encontrou um livro em capa vermelha de veludo.
"O Jardim das Delícias!"- Ana leu o título do livro em letras douradas. Virou a capa e corou até a raiz dos cabelos ao ver a figura desenhada de um homem e uma mulher completamente nus se olhando com adoração, as pernas entrelaçadas.
- Mas o que é isso?- perguntou a si mesma um pouco alto demais.
- Quem está aí?- indagou uma voz vinda de um cômodo anexo àquela sala que Ana-Lucia não tinha notado ainda.
Ela apressou-se em esconder o livro no avental do vestido. Não era Lorde Sawyer, disso Ana tinha certeza. A voz não era grave e profunda como a de seu duque.
"Seu?"- Ana indagou a si mesma em pensamento. Como poderia estar se referindo ao duque como "Seu?" Só podia estar ficando maluca.
- Quem está aí?- a voz repetiu e então o dono dela se mostrou. – Oh, olá!- disse o rapaz, muito embaraçado ao ver Ana no cômodo. Desculpe, eu pensei que fosse Charlotte... – ele gaguejou. – Ela disse que viria limpar este cômodo hoje!
- Olá!- Ana respondeu, ainda mantendo o livro que tinha descoberto atrás das costas. – Nunca vi o senhor antes. Eu sou...
- A Srta. Cortez!- disse o rapaz. – Todos nos castelo sabem quem é a senhorita.
- Mesmo?
- Perdão, eu não me apresentei ainda.- disse ele com a voz atrapalhada. Ana sentiu vontade de rir do jeito dele. – Eu sou Daniel Faraday. Sou o secretário de Lorde Sawyer.
- Muito prazer, Sr. Faraday.- disse Ana. – Então Lorde Sawyer já está de volta?- ela indagou esperançosa. Se o secretário dele estava no castelo, isso só podia significar que ele tinha voltado.
- Bem, ele retornou de Londres, mas não está em Graves. Lorde Sawyer está na vila. Ele tinha alguns assuntos para tratar por lá.
- E quando ele volta?
- Não sei dizer ao certo, Srta. Cortez. Lorde Sawyer é imprevisível.
- Bem, foi um prazer conhecê-lo. Mas eu preciso ir agora antes que a senhora Hawkins me encontre perambulando pelo castelo. Sei que ela não gosta que eu faça isso, mas esta sala é linda.
- Não se preocupe com minha mãe, ela está apenas cumprindo as ordens do duque.
- Oh!- Ana exclamou, surpresa. – Então a Sra. Hawkins é sua mãe?
- Sim. Ela pode parecer um tanto intragável às vezes, mas é uma boa mulher.- ele disse com bondade na voz.
- Sei disso.- respondeu Ana com um sorriso. Tinha gostado do rapaz. Ele era muito mais simpático que sua mãe.
Ela se despediu de Daniel e voltou aos seus aposentos. Estava ansiosa para ler o livro que tinha encontrado. Já estava quase na hora do chá e Albert provavelmente viria chamá-la para tomar chá com ele.
Uma vez em seus aposentos, Ana-Lucia fechou a porta e com uma excitação que ela não conseguia conter, iniciou a leitura da primeira página do livro:
"Capítulo 1- Provando do fruto proibido"
Continua...
