Capítulo 5- Provocação
"Quando um homem toca uma mulher, as carícias devem ser lentas e o olhar intenso. Isso vai deixá-la na expectativa do que está por vir. Ele deve tocá-la como se estivesse tocando um afinado violino, passando os dedos pelas cordas até ouvi-la sibilar, e então ela se abrirá como a uma flor, desejando que o homem prove de seu néctar."
Ana-Lucia abaixou o livro sobre o colo por alguns instantes e pensou sobre o que tinha acabado de ler. Desde que iniciara a leitura daquele livro, que encontrara no antigo cômodo que pertencera à falecida esposa de Lorde Sawyer que ela não conseguia parar de ler. As páginas com seu conteúdo misterioso e rebuscado, as gravuras que o ilustravam e a ambigüidade contida nas palavras impressas a deixavam ansiosa, ofegante e úmida. Sensações até pouco tempo totalmente desconhecidas para Ana.
Antes de encontrar aquele livro, ela jamais imaginara que pudessem existir coisas daquele tipo e ainda estava no capítulo 4. Leria muito mais se pudesse passar mais tempo sozinha, mas desde que ela se recuperara do tornozelo, e deixara a bengala de lado, Albert e Nicole tomavam a maior parte de seu tempo. Mas Ana sabia que tinha de ser assim, afinal aquele era o seu trabalho. Fora para isso que Lorde Sawyer a chamara até o seu castelo.
No entanto, ela não conseguia livrar-se do fascínio que aquela leitura estava tendo sobre ela. Inevitavelmente quando estava lendo ou observando alguma gravura exposta no livro, Ana pensava sobre Lorde Sawyer e imaginava se ele costumava fazer com a esposa as lições que o livro mencionava, o chamado passo a passo para a felicidade no amor.
Ana comparava as coisas que lia no livro com as coisas que tinha aprendido com sua mãe sobre as relações entre homens e mulheres. O decoro estava acima de tudo. Homens e mulheres nunca deveriam ficar a sós, ou o demônio começaria a trabalhar na mente da mulher para que tentasse o homem, e o homem sucumbiria como Adão fez com Eva quando ela pediu a ele que provasse do fruto proibido.
Mas o livro dizia outras coisas sobre o fruto proibido. Dizia que quanto mais proibido fosse, melhor seria o prazer. Ana gostaria de entender a que tipo de prazer o livro se referia. E então havia um capítulo inteiro sobre beijos. O beijo era o prelúdio de tudo, dizia o livro. A partir do beijo é que se iniciava a conexão entre os corpos.
Ela já tinha beijado uma única vez. Mas não se lembrava de ter sentido nenhuma conexão com o homem que lhe roubara o beijo. Sua mãe tinha pedido a ela que fosse até a padaria buscar um galão de leite. Estava acostumada a esse tipo de tarefas e não se importou em fazê-lo. O filho do padeiro era um rapaz da idade dela, que na época contava quinze anos. Ele era gentil, tinha um sorriso bondoso e um bonito par de olhos verdes. Ana gostava dele e sentia uma estranha inquietação na boca do estômago cada vez que o via.
Pois neste dia, era ele quem estava reparando a padaria do pai. Não havia outros clientes lá dentro. A velha senhora que fazia os serviços gerais tinha acabado de sair e era surda como uma porta. Pietro, esse era o nome dele, vira Ana-Lucia entrar balançando o galão vazio de leite de um lado para o outro. Ele a cumprimentou com aquele sorriso tão lindo e Ana o cumprimentou de volta, pedindo a ele que fosse buscar o leite.
Pietro a atendeu e afastou-se por poucos minutos para ir encher o galão com leite fresco no depósito. Mas quando ele voltou e Ana estendeu-lhe as moedas para pagar pelo leite, o rapaz balançou o dedo indicador para ela e disse:
- Não, Srta. Cortez. Hoje não poderá pagar-me com moedas.
- E como devo te pagar então?- ela indagou, inocente.
- Terás que me pagar com um beijo.- ele respondeu.
- Um beijo?- ela retrucou, incrédula.
- Sim.- afirmou ele.
Ana-Lucia ficou assustada, sem saber como agir e disse com sinceridade:
- Eu não sei como beijar, de fato nunca o fiz.
- Mas eu posso ensiná-la.- garantiu Pietro saindo detrás do balcão da padaria e se aproximando dela. Ana deu um passo atrás.
- Não tenha medo, senhorita Ana. Apenas fique parada!- ele pediu em seu habitual modo gentil de falar, mas dessa vez Ana sentiu que havia algo mais na voz dele, que aquele pedido tinha soado mais como uma ordem.
No momento seguinte, os lábios dele se colavam aos dela. Lábios pegajosos, Ana acabou por concluir. Os lábios dela ficaram parados enquanto ele passava sua boca na dela, molhando-a com sua saliva. Ela não gostou disso. Pietro já tinha bigode e os pêlos ásperos machucavam seus lábios superiores e a faziam sentir-se incomodada.
- Pare!- ela disse por fim colocando as moedas para pagar o leite nas mãos dele e deixando a padaria depressa. Jamais voltou ao lugar novamente.
Mas os beijos que o livro mencionava pareciam ter outro sabor e Ana sentiu-se tentada a prová-los, mesmo que no final terminasse frustrada ao descobrir que todos os beijos no mundo eram iguais aos beijos de Pietro.
Ela recostou seu corpo contra uma almofada na poltrona que costumava usar para ler na sala de estudos e continuou a leitura:
"O homem sabe o que a mulher deseja, mas precisa continuar deixando-a em expectativa, pois assim, a vontade dela irá aumentar. O néctar se expandirá e ele poderá tomá-la sem dores."
- O que isso quer dizer?- Ana indagou a si mesma e tomou um susto ao ver Albert diante dela, segurando nas mãos uma folha de papel com um desenho feito com nanquim e colorido com tinta óleo.
- O que está lendo, senhorita Cortez?- o menino indagou.
- Nada de importante.- Ana-Lucia respondeu escondendo o livro ao lado da poltrona e amaldiçoando a si mesma por ter se esquecido de que Albert estava na sala de estudos com ela, desenhando.
- Quer ver o desenho que eu fiz?- ele indagou, empolgado.
- Quero sim!- Ana pegou o desenho das mãos dele. – O que foi que você fez?
Ela começou a examinar o desenho. Sem dúvida o menino tinha retratado o castelo de Graves em seus rabiscos infantis. Havia também o verde dos jardins, uma linha mais escura que mostrava o labirinto, uma mancha azul que significava o oceano e o abismo diante dele. Em frente ao castelo ele havia desenhado a si mesmo, um risco marrom com um chapéu de lã, ao lado dele estava o pai, Ana pôde perceber pela capa preta que o menino tinha desenhado ao redor dele.
Sorriu ao reconhecer a si mesma ao lado do duque, num vestido verde, carregando nos braços um pequeno embrulho que deveria ser a irmãzinha dele.
- Você me desenhou, Albert! Que gentil.
- Eu a desenhei ao lado de meu pai porque gostaria que a senhorita ficasse ao lado dele como uma esposa.
- Oh, não diga bobagens, querido. Sou apenas sua preceptora.- Ana explicou. – Se seu pai quiser se casar novamente escolherá alguém da mesma classe social que ele.
- O que é uma classe social?- Albert indagou.
- Bem, talvez devesse perguntar ao seu pai.
- Acho que vou perguntar a Sra. Hawkins.- disse ele. – Ela parece entender de classes sociais porque o meu pai entende mais de gente morta.
- Não diga isso, Albert!
- Mas é verdade, senhorita Ana.
Ana-Lucia ignorou o arrepio que sentiu quando Albert disse aquilo e voltou sua atenção novamente para o desenho que tinha nas mãos.
- Muito bem? E quem é essa aqui?- ela indagou apontando para uma figura de mulher em um vestido rosa, mas estava pintada em cores tão claras que Ana mal pôde discernir que se tratava de mais uma pessoa no desenho. A mulher estava meio que inserida entre ela e o duque.
- Essa é a mulher que mora na torre mais alta.
- E quem é essa mulher?- Ana indagou.
Albert deu de ombros.
- Não sei quem ela é! Só sei que ela mora na torre e que ela não gosta da senhorita.
- Por que ela não gosta de mim?
- Porque meu pai gosta da senhorita.
- Seu pai lhe disse isso?
- Não, foi a mulher. Ela ainda me disse que não gostava das minhas outras preceptoras. Que foi por isso que elas morreram. Tiveram o que mereceram.
- Albert, por que... – Ana começou a dizer tentando entender da onde o menino tirava todas aquelas conclusões, mas a entrada da Sra. Hawkins na sala de estudos interrompeu o que ela ia dizer.
- O almoço está servido!- Eloise anunciou. – Imaginei que já que está sem a bengala, a senhorita gostaria de comer com Albert no salão de refeições. Seria bom que a senhorita descesse e exercitasse as pernas. Já está há muitos dias aqui em cima.
- Obrigada, Sra. Hawkins. – Ana-Lucia agradeceu usando o desenho de Albert para encobrir a capa do livro que estava lendo. Seu tornozelo ainda latejava um pouco, mas já estava bem melhor.
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A enorme mesa de carvalho, com exatos vinte e dois lugares, estava posta apenas para duas pessoas. A criada que se chamava Diana estava servindo o almoço quando Ana-Lucia e Albert tomaram seus lugares um de frente para o outro, no canto direito da mesa. A refeição era simples, porém de muito bom gosto. Sopa fria de pepino, carne de vitela fatiada, salada de aspargos e arroz.
- Onde está Alex?- Ana indagou a Diana quando a criada começou a servir o prato de Albert que torceu o nariz para a salada de aspargos.
- Não quero isso, Diana!- disse o menino, voluntarioso, mas Diana fingiu não escutá-lo enquanto o servia, ao invés disso respondeu a pergunta de Ana.
- Ela está com Nicole, senhorita. Pedi a Charlotte que levasse o almoço para ela nos aposentos das crianças.
- Que pena! Gostaria que ela tivesse descido para almoçar conosco.- disse Ana. – Não gostaria de sentar-se e almoçar conosco, Diana? È que essa mesa parece tão grande apenas comigo e Albert aqui.
- Bem, senhorita, eu... – começou a dizer a criada, mas a Sra. Hawkins apareceu carregando uma bandeja com vinho de pêssego e suco de amoras para o menino.
- Pode voltar para a cozinha, Diana. Obrigada.
A moça fez uma reverência e retirou-se. Assim que ela saiu, Eloise colocou a bandeja sobre a mesa e disse a Ana:
- Não é permitido que criadas sentem-se à mesa dos patrões. Pensei que a senhorita entendesse alguma coisa de etiqueta.
- Oh, sim. Eu entendo de etiqueta, Sra. Hawkins. Minha tia, a irmã do duque fez questão de me fazer compreender muitas coisas. Portanto, sei muito bem que eu também sou uma criada nesse castelo. Se eu posso comer à mesa do senhor, pensei que Diana também poderia.
Eloise olhou sério para ela. Albert prestava atenção à discussão das duas, mas nada dizia.
- A senhorita não é uma criada de cozinha. É uma preceptora e tenho ordens expressas de Lorde Sawyer para tratá-la como tal.
- A senhora não parece muito feliz em cumprir as ordens de Lorde Sawyer no que diz respeito a mim.
- Não estou aqui para ser feliz, senhorita. Apenas cumpro ordens como deve ser. Aceita vinho de pêssego? Garanto que o sabor é muito aprazível. Está na adega de milorde há cinco anos.
Ana-Lucia estendeu seu cálice a ela e Eloise a serviu.
- Então a senhorita é filha de um duque? Não me lembro de ter lido nada a respeito em suas qualificações. Se trabalha como preceptora, isso significa que...
- Sim, exatamente isso que está pensando, Sra. Hawkins.- Ana respondeu porque sabia muito bem que a conclusão da frase. - Não mencionei porque não faria diferença.- Ana afirmou e Eloise franziu o cenho, mostrando-se desconfiada. Mas não fez mais perguntas, apenas comunicou:
- Sua Graça deseja jantar com a senhorita esta noite para falar sobre o progresso de Albert nos estudos.
- Ele já retornou da vila?- Ana quis saber. Já fazia vários dias que ela havia conhecido o secretário dele, e mesmo o rapaz tendo afirmado que ele se encontrava na vila, ela não vira mais o Lorde desde então, desde que ele cuidara do ferimento em seu tornozelo.
- Como vou saber?- Eloise retrucou. – Ele vai aonde quer e faz o que bem entende. - Ana-Lucia ficou intrigada com as palavras da governanta. Ela parecia magoada com o duque. – Ele apenas mandou-me uma mensagem ordenando que a avisasse sobre o jantar e que estivesse pronta às oito horas da noite em ponto.
- Meu pai já retornou da vila porque ele falou comigo esta manhã em meu leito.- contou Albert sentindo-se importante porque o pai o procurara, mas não falara com Eloise, apenas escrevera-lhe uma mensagem. A Sra. Hawkins ignorou as palavras do menino.
- Obrigada pela mensagem, Sra. Hawkins.- Ana-Lucia agradeceu polidamente, imaginando que Eloise fosse fazer uma reverência e se retirar como sempre, mas a velha senhora acrescentou com ar muito sério:
- Por favor, Srta. Cortez, vista-se com decoro para o jantar e prenda seus cabelos. Uma mulher de respeito não anda por aí com os cachos ao vento. Com licença!
Ana ficou embaraçada com as palavras da governanta, sabia que ela estava certa, mas usava os cabelos soltos a pedido de Albert.
- Gosto dos seus cabelos soltos, senhorita.- o menino falou com ar galanteador e naquele momento pareceu-se muito com seu pai. Ana-Lucia riu e estendeu sua mão para bagunçar os cabelos castanhos dele.
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Naquela tarde, Ana-Lucia retomou o capítulo do livro que falava sobre beijos. Com a tarde de folga, ela foi para o jardim e sentou-se debaixo de um enorme caramanchão com o livro no colo. Precisava de ar puro depois de tantos dias trancafiada no castelo e também gostaria de se distrair e esquecer a ansiedade que sentia sobre o jantar com Lorde Sawyer à noite.
Ele só queria falar sobre o desempenho do filho nas aulas, muito natural. Mas Ana acabou fantasiando que o duque gostaria de muito mais. Que ele desejava vê-la tanto quanto ela desejava vê-lo. Que ele sentira sua falta.
- Como eu sou boba!- Ana comentou consigo e voltou à leitura de seu livro, relendo uma passagem interessante:
"No beijo, ambos precisam estar envolvidos. Homem e mulher. Quando o homem toca os lábios da mulher com a ponta de sua língua, ela abre sua boca para ele e deixa que ele sinta seu hálito, que ele busque seu interior, que ele prove de sua saliva. As línguas se tocam e se roçam, bem devagar a princípio...
- Deus!- Ana exclamou sentindo-se afogueada e fechou o livro, recostando seu corpo contra a árvore. Fechou os olhos e imaginou Lorde Sawyer vindo ao seu encontro em sua capa negra esvoaçante, os longos cabelos loiros presos em uma elegante trança, o sorriso maldoso e sensual a brincar-lhe nos lábios.
Ela estava sozinha no jardim, como agora, debaixo do caramanchão. Completamente indefesa. E ele vinha, envolvia os braços ao redor de seu corpo como se ela lhe pertencesse. Apertava sua cintura com força e colava sua boca à dela, roubando-lhe o ar. Ana sentia a língua macia dele roçando na sua e ele sussurrava em seu ouvido:
- Quero provar seu néctar...Ana...
Ana abriu os olhos, o rosto corado com aquele pensamento mundano e lascivo. Seu corpo tremia de desejo, seus seios estavam doloridos e sentia-se queimar entre as coxas.
- Por Deus, o que mamãe pensaria de mim?- falou consigo e de repente lembrou-se que já estava no Castelo de Graves há pouco mais de um mês e não havia escrito uma carta sequer para sua mãe. Ela deveria estar muito preocupada, e não apenas isso, estava doente e Ana nem se preocupara em procurar saber notícias dela.
No mesmo momento, ela retirou do avental preso ao vestido uma folha de papel e um lápis que sempre carregava consigo para anotar coisas importantes sobre o livro que estava lendo. Por sorte, a leitura vinha sendo tão envolvente que ela se esquecera por completo de anotar alguma coisa e a folha estava em branco. Resolveu escrever a carta para sua mãe.
Graves, 25 de março de 1870.
Minha querida mãe,
Sinto muito por não ter escrito antes, mas estive ocupada tentando me ambientar ao meu novo lar. Como a senhora está de saúde? Espero que bem melhor. Antes de partir, eu pedi ao padre Lawrence que cuidasse da senhora e deixei o endereço de Graves para que ele me escrevesse, mas ainda não recebi nenhuma carta dele. Estou preocupada.
Quanto a mim, encontro-me bem. As crianças das quais estou cuidado são lindas. Albert e Nicole. Albert já é um rapazinho de cinco anos, mas a pequena Nikki tem apenas alguns meses. É muito triste que tenham perdido a mãe em tão tenra idade.
Meu patrão, o Duque de Sawyer é um homem misterioso. Mas parece amar aos filhos acima de tudo. Creio que é o mais importante. Eu quase não o vejo, ele está sempre fora do castelo a negócios. É médico. Profissão um tanto incomum para um nobre, não acha?
O castelo de Graves é bonito, mas sombrio. Não de um jeito ruim. Mamãe, eu, não sei como explicar. Mas esse lugar me assusta e me fascina ao mesmo tempo.
Espero receber notícias suas logo. Voltarei a escrever novamente.
Com amor, Ana-Lucia.
Ao finalizar a carta, Ana-Lucia dobrou a folha de papel e guardou junto com o lápis de volta em seu avental. Agora precisava lacrar a carta com seu carimbo para correspondências que havia deixado na sala de estudos. O carimbo tinha sido presente do padre Lawrence em seu aniversário de 18 anos. Muito útil já que estando tão longe de Londres precisaria enviar muitas cartas.
Ergueu-se do chão e alisou a saia, colocando o livro debaixo do braço. Teria que perguntar a Sra. Hawkins quando as correspondências do castelo eram levadas à vila para que fossem enviadas.
Já estava fazendo o caminho de volta na trilha de pedrinhas brancas que se enveredava pelo jardim e levava à imponente porta do castelo quando viu Sayid caminhando na direção do labirinto carregando algo muito pesado sobre os ombros. Ficou curiosa e foi até ele. O empregado pareceu não prestar atenção à presença dela até que Ana estivesse bem perto.
- Boa tarde, Sr. Sayid.- ela disse amavelmente.
Ele voltou-se para olhar para ela e mesmo com o peso que tinha nos ombros, fez-lhe uma reverência.
- Boa tarde, Srta. Cortez.
- Eu posso ajudá-lo? Isso parece muito pesado.- ela comentou prestando mais atenção ao pacote que ele carregava. Era algo muito grande, quase como o tamanho do corpo de um homem e estava envolvido em um saco de sarrapilha, aparentemente manchado de sangue.
- Não preciso de ajuda, senhorita.- respondeu ele, substituindo a gentileza pela rispidez. – É melhor que a senhorita volte para o castelo. Ouvi dizer que se machucou no labirinto. Vossa Graça não gostaria nada se a senhorita entrasse lá outra vez.
- O que carrega no saco?- a curiosidade de Ana foi mais forte.
- É um porco.- ele respondeu, parecendo muito ansioso para sair dali.
- Um porco? Parece muito grande para ser um porco.
- Os porcos por aqui tendem a crescer bastante. Talvez a senhorita queira fazer uma visita ao estábulo para ver os animais do castelo, em outra oportunidade é claro.
- Seria muito interessante.- Ana respondeu.
- Tenha uma boa tarde, Srta. Cortez.- disse Sayid antes de se afastar depressa em direção à trilha que levava ao labirinto.
Ana-Lucia ficou parada no lugar, seguindo-o com os olhos até que ele desaparecesse dentro do labirinto. Por que Sayid precisava levar um porco morto ao labirinto? Acaso havia alguma coisa lá além de grama e trepadeiras? E o que será que existia atrás daquela porta secreta no final da trilha?
Uma brisa fria trazida pelo mar fez com que Ana envolvesse os braços ao redor do próprio corpo. Graves, não importava se o tempo estava claro, era sempre frio, mesmo com todas as lareiras acesas dentro do castelo. Erguendo a barra da saia, Ana caminhou de volta para a imponente construção de pedra.
Encontrou o mordomo no salão de entrada e sorriu diante da coincidência feliz.
- Sr. Locke?- ela o chamou. Desde que se mudara para o castelo, vira o mordomo cerca de três vezes. O lugar era tão grande que ela poderia passar dias sem ver alguns dos empregados com exceção da Sra. Hawkins que parecia estar sempre vigiando seus passos e Cassidy, que mesmo com evidente contragosto, cumpria suas funções de camareira por ordens do patrão.
- Boa tarde, Srta. Cortez.- disse o mordomo, polido.
- Sr. Locke, eu tenho uma carta que precisa ser enviada à minha mãe em Londres. Só preciso lacrá-la. Gostaria de saber em que dias as correspondências de Graves são levadas até a vila.
- Duas vezes por semana, senhorita. Às segundas e quintas feiras. Amanhã mesmo Toby irá fazer compras para o patrão na vila.- explicou ele. Toby era um garoto que deveria ter três anos menos que ela. Franzino e de aparência apática. Era ele quem costumava fazer as compras no castelo, às vezes Rose e Diana o acompanhavam.
- Está certo. Obrigada, senhor Locke. Lacrarei a carta e entregarei a Sra. Hawkins para que entregue a Toby.
- Se precisar de algum artigo da vila é só entregar sua lista a Sra. Hawkins também, senhorita. Ordens de Vossa Graça.- acrescentou o mordomo com olhar malicioso.
Ana-Lucia não entendeu a insinuação dele, mas também não fez perguntas. Ao invés disso, subiu as escadas em direção aos seus aposentos. No caminho para lá, ficou imaginando se Lorde Sawyer não vagava pelo castelo em passagens secretas, vigiando através de frestas nas paredes de pedra tudo que acontecia em Graves. Imaginou se ele a observava dar aulas ao filho dele, ou se ele a via acalentando Nicole no quarto das crianças ou ainda se ele velava seu sono ou a observava se banhar.
- Quantos pensamentos impróprios, Ana-Lucia!- ela ralhou consigo mesma e decidiu que naquela noite antes de dormir rezaria um terço inteiro como penitência por seus pensamentos pecaminosos.
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Estava chovendo quando o Duque de Sawyer chegou ao castelo e desmontou seu garanhão branco com manchas cor de caramelo, que ele carinhosamente chamava de Chocolate desde que Albert mencionara que as machas no pelo do cavalo se assemelhavam à chocolate.
Os pingos gélidos encharcavam sua capa negra. Mas ele sabia que a chuva pararia logo, podia sentir o vento levando as nuvens ameaçadoras para longe de Graves. Quando ele desmontou, seu cavalariço veio depressa pegar o cavalo.
- Boa noite, Vossa Graça.- saudou o rapaz de maneira subserviente.
- Boa noite, Philip.
- Devo levar Chocolate aos estábulos, milorde?
- Não, ainda não. Quero que o leve apenas até a maloca, deixe que ele descanse, dê água e aveia para ele e depois o traga de volta junto com a égua Marjolaine, devidamente selada e com os pedais na altura de uma mulher.
- Pretende cavalgar ainda esta noite, milorde?- indagou o cavalariço.
- O que te parece?- Sawyer retrucou sem muita paciência subindo os degraus de pedra até a entrada do castelo.
A porta foi aberta pelo mordomo antes que ele tocasse na aldrava. Assim que o duque adentrou o salão principal, Locke tirou-lhe o casaco e segurou as luvas negras que ele lhe estendia imediatamente.
- Como foi na vila, Vossa Graça?- Locke indagou.
- Como sempre.- respondeu ele lacônico. – E meus filhos?
- Devem estar nos aposentos deles com Alex, milorde.
- E a Srta. Cortez?
- Agora mesmo Cassidy subiu para ajudá-la a se vestir para o jantar, milorde.
O duque sorriu satisfeito.
- Muito bem, diga ao meu pajem que prepare meu banho e roupas limpas, imediatamente. Estou subindo para meus aposentos.
- Sim, Vossa Graça.- respondeu o mordomo com uma reverência, se retirando imediatamente para obedecer as ordens do patrão.
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Em seus aposentos, Ana-Lucia prendia a respiração enquanto Cassidy apertava os laços de seu espartilho. O vestido recatado, de cor chumbo e com babados na saia estava sobre a cama, pronto para ser vestido. Ana sentia que a criada tinha um prazer quase sádico em ver seu sofrimento enquanto apertava cada vez mais as fitas da vestimenta íntima, como se estivesse tentando matá-la asfixiada.
- Não precisa apertar mais!- disse Ana. – Já está bom assim, Cassidy. Obrigada.
- Me perdoe, senhorita.- retrucou a criada com petulância. – Mas as mulheres de respeito costumam usar o espartilho mais apertado do que isso. A Duquesa de Sawyer, Lady Evangeline o usava dessa forma.
- Então ela deve ter sido uma mulher guerreira.- Ana comentou tentando ser agradável. – Por que isso aqui não é fácil.
- Ela era uma dama de verdade.- disse Cassidy mantendo seu nariz empinado.
Ana tentou não se aborrecer com os comentários da criada.
- Pegue o vestido, por favor.- pediu e Cassidy trouxe o vestido até ela, ajudando Ana a passá-lo por cima da cabeça. Depois se pôs a abotoar os diminutos botões da parte de trás.
- Como gostaria que eu arrumasse seus cabelos, senhorita?- Cassidy perguntou, mas não havia nenhum traço de gentileza em sua voz.
- A Sra. Hawkins aconselhou-me a prendê-los.- Ana respondeu. – Você poderia fazer uma trança e depois colocá-lo para cima num coque de duas voltas, o que acha?
- Acho que é o penteado errado para jantar com Vossa Graça. Assim como este vestido. Milorde não gosta...
- Ele não gosta do quê?- Ana questionou com as sobrancelhas levantadas.
- Que suas convidadas se vistam com tanto decoro. Ele sempre preferiu a vestimenta das mulheres de taverna.
- Vossa Graça costuma trazer mulheres de taverna para jantar com ele em seu castelo?- Ana perguntou, incrédula.
- Depois da morte de Lady Evangeline, oh sim, senhorita! E faz isso com uma certa freqüência devo dizer-lhe. Portanto, não se iluda com Lorde Sawyer apenas porque ele a convidou para jantar esta noite.
- Não que isso seja da sua conta, Cassidy.- disse Ana. – Mas o único interesse do Duque em mim é a educação dos filhos dele.
- Se a senhorita diz...
- Agora, por favor, arrume meus cabelos. Não quero deixar Vossa Graça zangada me atrasando para o jantar com ele.
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Quando o relógio bateu as oito badaladas indicando que eram oito da noite em ponto, Ana-Lucia terminava de descer as escadas para o salão de refeições. Seu coração estava aos pulos porque iria rever Lorde Sawyer.
Caminhou pelo hall que levava ao imponente salão quando sentiu que havia alguém às suas costas. O espartilho apertado estava dificultando-lhe a respiração e Ana lutou por ar quando sentiu o cheiro familiar do Duque de Sawyer atrás dela. Era uma mistura estranha de éter e almíscar, mas ela sabia apreciar esse cheiro. O cheiro de um médico que lidava com poções e emplastros, mas também o cheiro atrativo de um homem.
- Boa noite, senhorita Cortez.- a voz dele junto ao seu ouvido era grave e profunda. Ana-Lucia quase teve uma vertigem, outra vez. – Aprecio sua pontualidade.
- Boa noite, Vossa Graça.- ela o saudou, tentando parecer o mais controlada possível. – O senhor fez boa viagem?
Ele saiu de trás dela e colocou-se ao seu lado, oferecendo-lhe o braço para que a conduzisse para o salão de refeições. Ana fitou os olhos azuis vibrantes dele antes de aceitar seu braço e aguardar pacientemente a resposta dele à sua pergunta. Ela ficava impressionada com o que conseguia ler nos olhos dele, embora não compreendesse o significado de toda aquela profundidade.
- A viagem foi maçante como sempre.- respondeu ele quando ela aceitou seu braço. – Detesto ir à Londres.
- Sim, a Sra. Hawkins contou-me que milorde estava em Londres.- ela comentou enquanto caminhavam no mesmo passo rumo ao salão de refeições, embora Ana tivesse que se esforçar para acompanhar os passos duplos dados pelas longas pernas dele.
- Em Londres e outros lugares também.- disse ele antes de mudar de assunto. – Como está seu tornozelo?
- Muito melhor, obrigada.- Ana respondeu.
Quando eles chegaram ao salão de refeições, a prataria já estava arrumada e reluzia sobre a mesa. O mordomo, a criada Diana e a Sra. Hawkins estavam de pé ao lado da mesa numa postura que mostrava que estavam prontos a atender as necessidades do patrão a qualquer momento.
- Boa noite, Vossa Graça.- Locke e Diana disseram praticamente em uníssono. Eloise porém fez apenas uma reverência ao lorde.
Sawyer indicou um lugar à mesa para que Ana se sentasse e ela já ia puxando a cadeira para fazê-lo quando ele a impediu com um toque suave, mas incisivo em seu braço, arredando a cadeira para que ela se sentasse em seguida. Eloise revirou os olhos diante daquele gesto, pensando consigo que Lorde Sawyer estava indo longe demais em seus caprichos ao ficar fazendo galanteios para uma simples preceptora.
Após ajudar Ana a se sentar, ele tomou seu lugar de frente para ela assim que o mordomo puxou a cadeira para que ele se sentasse. Ana sabia que estava agindo como uma tola, mas não conseguia esconder seu fascínio pelo patrão. Naquela noite ele se vestia de preto, como sempre, mas estava sem a sua inseparável capa e suas luvas negras. Ela admirou as mãos grandes dele, cobertas com uma penugem dourada que ia até quase os dedos longos. Ana sentiu vontade de tocar aqueles pelos e sentir-lhes a maciez. Como das outras vezes em que o vira, seu rosto mostrava apenas alguns sinais da barba. Ele não usava barba longa como era o costume. Deveria se barbear quase todos os dias.
- Podem servir o jantar.- ordenou o duque. – E depois deixem-nos a sós!
Locke e Diana fizeram uma reverência retirando-se imediatamente do recinto. A Sra. Hawkins, porém ficou lá e ainda atreveu-se a perguntar:
- Vossa Graça não gostaria que eu me sentasse à mesa com vocês?
- E por que eu haveria de querer?- ele retrucou, lançando à governanta um olhar fulminante.
- Não vejo necessidade de o senhor conversar a sós com a preceptora.- Eloise inquiriu deixando Ana chocada com o atrevimento dela para com seu patrão. Ela imaginou que o duque fosse ficar furioso, mas ele a surpreendeu com uma sonora gargalhada.
- Oh, Eloise! Diabos! Deixe-me em paz, mulher! Ainda sei me comportar. Agora, por favor, vá embora e peça aos criados que apressem em trazer o jantar porque estou faminto.
Eloise resmungou alguma coisa em um idioma que Ana-Lucia não pôde entender e então se foi. Assim que ela saiu, Sawyer disse a ela:
- Eloise é metade escocesa e quando está zangada xinga em escocês.- ele parecia divertido sobre isso e Ana-Lucia sorriu. O riso dele era um bálsamo para seus ouvidos.
- Ela não parece gostar de nos ver juntos.- disse Ana.
- Como se eu me importasse com a opinião de alguém além da minha.- comentou ele, presunçoso.
Os criados logo adentraram o salão todo iluminado por velas, trazendo enormes bandejas de prata com comida que poderia ser consumida por um batalhão. Era realmente um exagero tudo aquilo para apenas duas pessoas.
A entrada foi uma sopa cremosa de frutos do mar que Ana-Lucia apreciou bastante. Em seguida, os criados trouxeram a variedade de pratos principais. Cinco para ser exato. Carneiro cozido com molho pardo e especiarias, vários frangos assados com trigo e manteiga, arroz branco, batatas assadas, rabanetes com pimentão e um enorme porco assado com maçãs ao redor.
- Porco?- Ana indagou lembrando-se de seu encontro com Sayid mais cedo.
- Não gosta de carne de porco?- perguntou o Duque.
- Sim, Vossa Graça, eu aprecio a carne de porco. Apenas me lembrei de que vi o Sr. Sayid esta tarde carregando um enorme porco para dentro do labirinto.
- Mesmo?- Sawyer não parecia surpreso com o comentário dela. – Fique tranqüila, Srta. Cortez, provavelmente não se tratava do mesmo porco que vamos comer agora.
Ana resolveu ficar com a boca fechada. O Duque parecia estar se divertindo às custas dela e ela não estava gostando disso. Lembrou-se do que Cassidy havia lhe dito sobre o hábito dele de trazer mulheres para o castelo para se divertir. Ficou apreensiva, mas não deu ao patrão nenhum sinal disso.
Eles passaram algum tempo comendo em silêncio. Ana sentia o olhar invasivo do duque sobre ela, como se estivesse pesando e medindo cada detalhe de seu rosto e de seu corpo. Fingiu não perceber, mas aquele olhar dele trazia aqueles sentimentos estranhos e conflitantes dela à tona e ao lembrar-se de algumas passagens do livro, Ana corou, pois desejava imensamente poder experimentar um pouco do que lera com o duque.
- A senhorita está bem?- ele indagou, parecendo genuinamente preocupado ao vê-la com as faces avermelhadas.
- Eu estou bem.- Ana respondeu, mas não estava. Seu coração batia acelerado, seu corpo estava inquieto e o espartilho apertava tanto que ela precisava puxar o ar para conseguir respirar. De repente, tinha ficado muito quente no salão de refeições.
- Fale-me sobre o aprendizado de Albert.- ele pediu em seguida e Ana pôs-se a discorrer sobre o quanto Albert era inteligente e sobre o quanto ele estava avançando nas lições.
Sawyer ficou satisfeito ao ouvir aquilo, mas não foi nenhuma surpresa para ele. Seu filho era inteligente, ele sabia. Mas era bom saber que ele estava aprendendo tanto porque gostava da nova preceptora. O menino andara intragável com as duas anteriores, não gostara delas de jeito nenhum.
Quando eles finalizaram a sobremesa, torta de amoras com recheio de geléia de cereja, Lorde Sawyer disse a Ana:
- A chuva já estava passando quando cheguei ao castelo. Esta noite é lua cheia, o céu está claro e a brisa agradável. Gostaria de cavalgar comigo?
- Cavalgar com o senhor?- ela parecia um pouco perturbada com o convite. Seus seios apertados no espartilho subiam e desciam. Sawyer gostaria que ela não tivesse se vestido com tanto recato. Os longos cílios dela bateram várias vezes contra os olhos quando ela piscou tentando assimilar o convite dele.
- Sim, cavalgar comigo à luz do luar.
- Não sei se isso seria muito apropriado, Vossa Graça...
Ele riu gostosamente e Ana-Lucia estremeceu.
- Senhorita, eu sou o Senhor desse castelo e eu digo o que é apropriado ou não. Venha comigo e vamos cavalgar. Já mandei o cavalariço selar uma égua mansa para a senhorita. Já cavalgou antes?
Ana ficou embaraçada com a pergunta, mas respondeu:
- Na casa de meu pai havia uma jumenta e eu gostava de montá-la, mas nunca montei um cavalo de raça.
- Jumentas e cavalos de raça são a mesma coisa quando se trata de montar, senhorita. Apenas os cavalos de raça não costumam empacar como as mulas, eles se aborrecem e atiram o cavaleiro ao chão sem cerimônias. Vamos?- ele chamou estendendo sua mão para ela.
Ana-Lucia aceitou a mão dele. O duque nunca lhe dava escolha.
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Marjolaine, a égua que Lorde Sawyer escolhera para Ana-Lucia montar era mansa e doce como ele lhe dissera. Ana gostara muito dela porque lhe lembrava de alguma forma Judith, a jumenta que costumava montar para passear na propriedade rural do pai em Herdforshire nas poucas vezes em que esteve lá.
Sawyer tinha razão, a lua estava linda e imponente no céu, iluminando tudo ao redor com seu brilho. O vento batia agradável em seu rosto e Ana sorriu trotando devagar ao lado do garanhão que o patrão montava. Experimentou uma estranha paz de espírito naquele momento, embora o espartilho apertado continuasse incomodando.
- Fale-me sobre Graves, Vossa Graça. Quando o castelo foi construído?
- Ah, esse castelo é muito antigo. Foi construído em 1420. Um dos mais fieis guerreiros do rei Henrique V, chamado Miro de St. Claire foi presenteado com a propriedade ao se casar.
- E por que o castelo foi chamado de Graves? Parece-me um nome um tanto sombrio para um lugar tão belo.
- As coisas naquela época eram bem mais complicadas do que agora.- ele explicou. – Houve muitas invasões e muitas mortes. O castelo que na época se chamava Fortaleza de St. Claire passou quase um século abandonado. As pessoas tinham medo de vir para cá, diziam que o lugar era amaldiçoado e mal-assombrado. Mas então, meu ancestral, o primeiro Duque de Sawyer veio para cá e reergueu este castelo tornando-o mais parecido com o que é hoje. Mas as pessoas já o chamavam de Castelo de Graves antes e o nome perdurou.
- Então milorde é o...
- Décimo segundo Duque de Sawyer. Meu ancestral veio da Irlanda quando o rei da Inglaterra deu estas terras para ele. Ninguém as queria por causa das lendas. Quando chegou à Inglaterra, ele conheceu sua esposa. Ela foi preceptora dos filhos dele.
- Ele deixou a mulher para ficar com a preceptora?
- Na verdade ele já era casado, mas a esposa dele morreu. Caiu no abismo.
- Que história terrível!- Ana exclamou, impressionada.
Sawyer segurou as rédeas da égua dela e conduziu o animal, juntamente com o seu para uma trilha que se afastava do castelo e seguia para o despenhadeiro. Ana podia sentir o cheiro do mar mais perto.
- Sim, é uma história terrível.- concordou ele. – Mas perfeitamente plausível. As pessoas podem cair no abismo se não forem cuidadosas o bastante. É como se o abismo as induzisse a se atirar.
- Vossa Graça, para onde estamos indo?- Ana indagou de repente, ficando preocupada com a trilha que estavam seguindo e com as palavras dele sobre o abismo. Não conseguia se esquecer naquele momento do que tinha ouvido a respeito dele. O fascínio estava cedendo lugar ao medo. As outras preceptoras estavam mortas e agora ele a conduzia para longe do castelo, rumo ao abismo. Seus olhos azuis estavam frios e a capa negra que ele vestira para cavalgar flutuava acima de seus ombros.
Ana sentia sua própria capa de lã branca pairar ao redor de seu corpo como uma frágil proteção contra os avanços daquele homem tão poderoso que poderia fazer o que quisesse com ela, uma vez que já estavam longe do castelo e ela longe de sua cidade natal, de sua mãe que era sua única família.
- Lorde Sawyer, por favor... – ela sussurrou, suas mãos estavam ficando enregeladas devido ao medo. Mas o lorde deu um sorriso maldoso e falou:
- Só estamos dando um passeio, Srta. Cortez. Voltaremos logo ao castelo. Quero que veja a lua diante do abismo. É uma beleza que chega a ser assustadora.
Os cavalos seguiram pela trilha escura que se enveredava por um pequeno bosque de pinheiros que terminava nas rochas que davam para o abismo escuro. Ana pôde ouvir o quebrantar das ondas na praia lá embaixo e sentir o vento forte às suas costas. Como o Duque dissera a lua brilhava majestosa no céu sem nuvens. Parecia tão perto da beirada do abismo que passava a sensação de que poderia ser tocada com a ponta dos dedos caso alguém conseguisse esticar o braço tão alto.
- Vamos ver mais de perto.- Sawyer sugeriu e Ana-Lucia se retesou em cima da égua.
- Não, Vossa Graça...
- Não tenho medo.- ele sussurrou e ergueu os braços, retirando-a do cavalo pela cintura e descendo-a até o chão sem nenhuma dificuldade.
Ana estava com tanto medo de se aproximar do precipício que segurou forte na mão enluvada de Lorde Sawyer enquanto o acompanhava a passos trôpegos, subindo pelas pedras até a beira do abismo.
Quando chegaram bem perto, ela ficou parada como uma estátua e olhou para baixo. A visão era de tirar o fôlego. O abismo era tão profundo que parecia não ter fim, porém era possível ver o movimento das águas batendo contra as pedras e ouvir o canto das ondas do mar.
- O que achou?- ele indagou ainda segurando a mão dela.
- É terrivelmente assustador.- Ana respondeu com sinceridade. – Mas belo ao mesmo tempo.
Ele a envolveu pela cintura e disse:
- Cuidado, não se aproxime demais. Se lembre que eu disse que o abismo chama!
A cintura de Ana era tão esguia que o braço dele podia dar uma volta completa nela. Seus quadris, porém eram cheios e largos, ele podia perceber mesmo diante de todas aquelas saias que ela vestia e das anquinhas. O corpo de Ana-Lucia era como um violino. Lorde Sawyer estava cada vez mais tentado por ela e há muito tempo uma mulher não lhe chamava tanto a atenção. Todas as damas da sociedade com quem conversava ou dançava nos bailes que tia Prudence, a Marquesa de Forrester o obrigava a ir eram enfadonhas, entediantes. Mas sua nova preceptora parecia ter sangue quente correndo em suas veias. A maneira como ela olhava para ele cada vez que se encontravam faziam-no imaginar que tipo de mulher ela seria, até onde ela seria capaz de chegar.
Ana abandonou a visão do abismo e voltou seus olhos para o duque tentando entender o que ele pretendia ao tê-la levado até ali.
- Vossa Graça, é melhor voltarmos agora. Milorde está comprometendo a minha reputação ao me trazer aqui.
Ele ignorou as palavras dela e observou mais uma vez naquela noite o peito dela subir e descer, como se ela estivesse lutando para respirar. As bochechas dela estavam coradas e seus lábios carnudos, úmidos e entreabertos como um convite silencioso.
- Por que prendeu seus cabelos esta noite, senhorita?- ele roçou seus dedos suavemente pelos cabelos dela e pôs-se a tirar os grampos um por um até que a trança dela escorregasse para suas costas.
- Milorde... – Ana sussurrou, sentindo seu corpo sem forças. O ar parecia querer lhe escapar completamente dos pulmões.
- Seus lábios são como uma amora recém colhida, senhorita. Úmidos e vermelhos. Tem ideia do quanto quero beijá-la agora? Do quanto desejo provar sua boca tentadora e me fartar com teu sabor?
- Beijar?- foi a última coisa que Ana disse antes de sentir os lábios mornos do duque contra os seus, beijando tão suavemente. As pernas ficaram bambas de repente e Ana teve abrir a boca para respirar, seus pulmões queimavam. – Ahhh... – ela gemeu suavemente quando a ponta da língua de Sawyer tocou a dela e Ana viu tudo escurecer por completo. A luz da lua sumiu, pairava em seus ouvidos apenas o som das ondas quebrando lá embaixo. Não conseguia respirar e desmaiou nos braços do duque.
Continua...
