Capítulo 6- Fora da realidade

Que som era aquele que vinha de tão longe? Seria o vento batendo contra as janelas? Mas as janelas estavam fechadas porque os pequenos flocos de neve tinham começado a cair e a grama verde estava coberta com um lindo tapete branco.

Ana-Lucia gostava da neve. Parecia fofa como algodão ou como as nuvens do céu em um dia quente, mas quando sua mãozinha a tocava, esta se dissolvia e virava água. E Ana ria toda vez que isso acontecia. Tinha quatro anos e o mundo era um lugar novo e repleto de possibilidades.

- Estou com frio, mamãe.- ela queixou-se abraçando seu pequeno corpo enquanto observava Raquel acender a lareira do quarto.

- Vai ficar quentinha logo.- disse Raquel falando com doçura à sua menina.

- Por que o arco-íris some quando a neve chega?- Ana perguntou sentando-se em sua pequena cadeira de balanço.

Raquel sorriu.

- Pequena Ana, sempre fazendo tantas perguntas.

- O Duque de Timberlake disse que é porque as fadas estão dormindo. São elas que pintam o arco-íris no céu?

- Se ele disse então é verdade.- concordou Raquel, terminando de arrumar a lenha que agora queimava na lareira. – Venha aqui, pequena, mamãe vai esquentá-la!

Sorrindo, Ana pulou para o colo aconchegante da mãe que a abraçou com ternura.

- Mamãe?

- O quê?

- Ainda estou com frio.- respondeu Ana franzindo o cenho e Raquel deu uma gargalhada.

O som estranho continuava ao longe. Era como notas repetitivas tocadas em um piano.

- Estou com frio...ainda estou com frio... – Ana sussurrou.

- Beba isso!- disse uma voz masculina baixa e grave. Seu tom era firme.

- Quem está tocando piano?- ela perguntou, confusa, mas não conseguiu dizer mais nada porque em seguida sentiu um gosto amargo em seus lábios e um líquido quente penetrando em sua boca e deslizando até sua garganta, aquecendo-a. Mas a sensação não era nada agradável.

Ana-Lucia tossiu e sentiu uma mão grande, batendo de leve em suas costas. Puxou uma respiração e sentiu o peito dolorido. Abriu os olhos. Estava deitada em uma cama grande de dossel, com cortinas de tecido transparente, havia algumas velas queimando na mesa de cabeceira. Tinha dezoito anos e sua mãe não estava ali.

De repente, a confusão se desfez e ela recordou-se de tudo. Do passeio noturno à

cavalo com o Duque de Ford, do vento frio às suas costas, do abismo assustador, das ondas quebrando na praia e da sensação de não conseguir respirar e oh, dos lábios do lorde nos dela, beijando-a. Sua face tingiu-se de escarlate imediatamente.

O duque a fitou com um sorriso malicioso e disse:

- Pelo menos a cor voltou ao seu rosto, senhorita Cortez. Malditos espartilhos!

Ela arregalou os olhos negros e baixou o olhar para si. A parte de cima de seu austero vestido cinza estava desabotoada e abaixada até a cintura. Havia completa ausência do espartilho e tudo o que separava sua pele nua dos olhos apreciativos de Lorde Sawyer era o camisolão rendado. Ana sabia que deveria estar usando pelo menos um corpete por cima, mas sua situação financeira em Londres não lhe permitia comprar mais do que o indispensável em roupas. Naquele momento, ela temeu que o patrão estivesse imaginando que ela era uma devassa por não se vestir da forma adequada que as mulheres decentes deveriam se vestir.

- Onde está o meu... – Ana indagou pelo espartilho, cheia de pudores enquanto cobria o corpo exposto com os braços.

- Espartilho?- Sawyer retrucou e pegou a peça que estava em cima da cômoda ao lado da cama. O espartilho estava destruído. As barbatanas cortadas, os laços desfiados.

- Oh, meu Deus!- Ana exclamou lamentando a destruição de seu único espartilho. Ela tinha bordado e vendido três colchas de cama para a dona de uma pensão em Londres para conseguir o dinheiro para comprá-lo. Seus dedos tinham ficado machucados por causa das horas seguidas de dedicação para terminar o bordado mais depressa. – Está arruinado!

- Não precisa se lamentar, senhorita Cortez.- disse ele. – Posso comprar-lhe outros espartilhos se estiver disposta a se suicidar. – acrescentou o lorde com sarcástica morbidez.

- O senhor sempre costuma ser tão sarcástico, Vossa Graça?- disse Ana, apertando ainda mais os braços ao redor dos seios para se cobrir do olhar perscrutador dele.

- Me perdoe pelo sarcasmo.- falou ele. – Mas seu espartilho estava tão apertado que a senhorita sufocou nos meus braços, tive que arrancá-lo de seu corpo para que tornasse a respirar.

- O senhor arrancou o espartilho de meu corpo com as unhas, milorde?- Ana-Lucia sabia que não deveria provocá-lo, mas era quase irresistível não fazê-lo.

- Não.- retorquiu ele. – Usei um canivete suíço.

- Carrega canivetes suíços quando sai para cavalgar à luz do luar com as preceptoras de seus filhos?

Ele se ergueu da cama e sorriu ao responder:

- Sempre carrego meu canivete suíço comigo e respondendo à sua segunda pergunta, senhorita Cortez, você é a primeira preceptora de meus filhos que levo para passear ao luar.

Ana fitou os olhos dele. Ele estava outra vez com aquele brilho perigoso no olhar que a fazia queimar e querer cumprir cada ordem silenciosa daqueles olhos azuis. Lembrava-se do beijo com tanta nitidez. O duque a teria mesmo beijado?

- Espartilhos são objetos muito perigosos, senhorita Cortez.- ele continuou falando. – A senhorita sabia que tipos de males eles trazem às mulheres? São tão perigosos quanto as sangrias.

- Sangrias salvam vidas.- disse Ana-Lucia repetindo o que aprendera ao longo de sua vida. O médico que atendia sua mãe vez por outra costumava sangrá-la no braço para limpar as impurezas do sangue causadas pela doença. –Além disso, por que um espartilho poderia ser perigoso?

- Senhorita, as únicas funções do espartilho são fazer com que os seios das mulheres se pareçam maiores do que realmente o são... – ele fitou o corpo de Ana e ela sentiu as faces queimarem. – Comprimir-lhes as cinturas para que se pareçam com vespas e empinar os quadris. Esse pequeno capricho da vaidade feminina dificulta a respiração, faz mal à coluna, deforma os órgãos internos e pode causar abortos...

- Oh!- Ana levou uma das mãos à boca, assustada. – O senhor tem certeza disso?

- Quer prova maior do que o seu desmaio mais cedo?

- Mas eu o já tinha usado antes, não entendo por que...

- Estava apertado demais.- ele garantiu. – Por isso o destruí com meu canivete. Agora por favor, perdoe a minha revolta, mas a senhorita poderia ter morrido sufocada apenas por estar usando esse espartilho que agora tem em mãos.

Ana olhou para a peça que segurava e esqueceu-se de cobrir-se. O Duque fitou os seios pequenos dela dentro do camisolão, as pontas dos mamilos estavam eretas, ele não sabia se era por causa do frio, inquietação ou excitação. Aquela mulher o provocava demais.

- Entenda senhorita Cortez, que uma moça jovem e de beleza genuína como a senhorita não precisa de tais artifícios.

- O senhor é muito galante, mas está dizendo tolices.- disse Ana.

- Acha que eu não a apreciaria?- ele provocou.

Dessa vez, quando ela o fitou de volta, seu olhar era desafiador. Mas uma vez sua mente lembrou-lhe que não devia provocar ou ceder às provocações do duque, mas era mais forte do que ela.

- Duvido muito disso. Vossa Graça é um homem vivido e deve conhecer as mulheres mais belas da Corte, por que apreciaria uma simples empregada?

- Senhorita... – ele começou a dizer enquanto sentava-se novamente na cama e dessa vez bem perto dela, perto o bastante para fazer o coração de Ana acelerar e seu estômago se contrair num espasmo de ansiedade repentino. – Se a senhorita me deixar vê-la... – o dedo longo dele escorregou de leve pelo ombro dela, fazendo menção de deslizar a alça do camisolão íntimo para baixo. - ...verá o quanto a aprecio.

Os olhos de Ana-Lucia se arregalaram em choque e ultraje:

- O senhor está me pedindo que me dispa diante do senhor, Vossa Graça?

Ele riu baixinho e disse:

- Se a senhorita interpretou o que eu disse desta forma...

- Eu deveria esbofeteá-lo agora mesmo!- disse ela, atrevida.

- E o que a impede de fazê-lo?- provocou ele. Ana não respondeu, ele continuou: - Percebe que estando nós dois sozinhos aqui, longe das convenções sociais, a senhorita e eu não passamos de um homem e uma mulher?

Ana-Lucia sentiu o pulso acelerar, ele estava muito próximo dela. Tão próximo que quase podia sentir o gosto dos lábios dele. Mais uma vez a dúvida a assolou. Teria sido mesmo beijada pelo Duque à beira do precipício? As palavras do estranho livro que encontrara voltaram à mente dela naquele momento:

"No beijo, ambos precisam estar envolvidos. Homem e mulher. Quando o homem toca os lábios da mulher com a ponta de sua língua, ela abre sua boca para ele e deixa que ele sinta seu hálito, que ele busque seu interior, que ele prove de sua saliva. As línguas se tocam e se roçam, bem devagar a princípio..."

Ela não percebeu, mas a partir daquele momento, as palavras do livro e seus próprios instintos passaram a guiá-la. Os olhos do duque eram como a abóbada azul do céu e a chamavam para ele. Sawyer estendeu sua mão e seus dedos tocaram os lábios dela, suavemente, sentindo-lhes a maciez e a umidade. O coração de Ana estava tão agitado que ela achou que explodiria a qualquer momento.

O Lorde aproximou mais o rosto do dela, sem parar de fitá-la e num gesto sensual e ao mesmo tempo gentil, ele tocou os lábios rubros dela com a ponta de sua língua. Ana-Lucia fechou os olhos e separou os lábios para ele, sentindo o hálito morno e agradável do duque. Estranhamente tinha cheiro de hortelã, tão diferente do garoto da padaria de anos atrás.

Ela quis provar da saliva dele, como dizia no livro e estendeu sua língua ousadamente para fora da boca, para encontrar a dele. Ouviu o Duque soltar um estranho grunhido antes de segurá-la pela nuca e penetrar sua boca com a língua dele.

- Hummm... – dessa vez foi Ana quem gemeu entre surpresa e extasiada.

"As línguas se tocam e se roçam...bem devagar a princípio..."

Ana recordou-se e passou sua língua pela dele num delicado movimento. Sawyer correspondeu à entrega dela e repetiu o mesmo movimento com sua própria língua, brincando com a língua dela. A sensação era deliciosa para ambos.

De alguma maneira, as mãos de Ana foram parar no peito musculoso dele, traçando um caminho invisível pela camisa engomada de linho e algodão. Ele era todo quente. Não frio como imaginara a princípio em seus tolos devaneios de virgem. As mãos grandes dele envolveram seus seios como conchas e Ana parou de beijá-lo no mesmo momento ao senti-las.

- Vossa Graça... – murmurou envergonhada e confusa. Mas ele continuou tocando-a, sua mão direita apalpando o seio dela.

- Beije-me, senhorita Cortez!- disse ele com firmeza e ela voltou a devorar os lábios dele, como se estivesse faminta. Agora o corpo inteiro dela estava quente, tão quente quanto o dele, o frio passara por completo, sendo substituído por um calor lascivo.

Os dedos dele seguraram ambas as alças do camisolão íntimo dela e as desceram até que o tecido macio escorregasse para a cintura dela. O rosto de Ana tingiu-se de vermelho e ela tentou cobrir-se, tímida.

- Me deixe vê-la!- ele ordenou e Ana abaixou os braços ao lado do corpo, sentindo-se zonza e impotente diante de toda aquela sedução.

O duque se afastou para vê-la melhor. Ela era pequena e delicada. A pele nua debaixo das camadas de roupa era morena e brilhava à luz das velas acesas no quarto. Ana observou os olhos do duque e não soube decifrar o que diziam. Ele olhava intensamente para ela e seu olhar era de completa admiração.

- És tão bela... – ele sussurrou.

Ele deu um pequeno beijo nos lábios dela e passou suas mãos em ambos os seios de Ana-Lucia. Toda a percepção do ambiente ao seu redor foi consumida quando Ana sentiu as mãos do duque em sua carne nua. Não havia mais o patrão e a empregada, não havia senso de decoro ou preocupação com as convenções sociais, havia apenas um homem e uma mulher que desejavam a mesma coisa, embora Ana não soubesse ainda como satisfazer o que seu corpo exigia.

As sensações eram novas, extasiantes e angustiantes ao mesmo tempo. Ana sentia os bicos de seus seios doerem de tão rígidos, a pele formigava ao redor dos dedos masculinos que brincavam com seus mamilos. Os lábios dele a beijaram no queixo e no pescoço.

- Sua pele é tão macia... – ele elogiou.

A única resposta dela foi um choramingo de prazer quando a boca de Sawyer encontrou o seio dela e depois, um longo gemido quando ele começou a sugar o bico. Ela deixou as mãos caírem ao seu lado, agarrando o travesseiro. Então, ela deixou sair palavras que nunca pensou teria coragem de dizer a ele:

- Oh, eu sabia que seria maravilhoso...estou sentindo tanto prazer...eu o quero tanto Vossa Graça...desde a primeira vez...

O seio dela nos lábios dele era como uma fruta doce e suculenta, ele não conseguia parar de acariciá-la, mas ao ouvir as palavras apaixonadas que escaparam dela, sua consciência gritou em sua mente: "Ela é uma moça pura, intocada, a virgem que toma conta de seus filhos, como pode querer deflorá-la? Em que tipo de monstro você se transformou?"

As palavras de sua consciência tomaram Sawyer como se ele tivesse levado uma surra. Soltou o corpo dela imediatamente. Ana estava tão absorta no prazer que sentia que caiu para trás, tombando contra o colchão macio da cama. O Duque olhou para ela e dessa vez havia fúria em seu olhar. Sentia raiva de si mesmo por não poder resistir a ela desde o momento em que seus olhos pousaram sobre a nova preceptora. E agora ela estava ali deitada na cama dele, seminua, os lábios vermelhos e inchados por seus beijos, os olhos negros ansiando por mais e ele queria tanto dar mais a ela. Mas era um erro. Não podia deixar aquilo acontecer.

- Saia!- disse de repente.

- O que foi milorde? Eu o desagradei?- ela indagou sentando-se na cama, mas sem se preocupar em cobrir os adoráveis seios que o estavam enlouquecendo.

- Saia!- ele repetiu com raiva. – Agora mesmo!- sua voz era como o rugido de um leão.

Trêmula e confusa, Ana-Lucia sentou-se na cama e puxou o camisolão de volta para cima, recolocando seu vestido no lugar da melhor maneira que pôde. Quando ela se levantou da cama, ainda claramente descomposta, ele disse antes que ela deixasse o quarto:

- Não deve me tentar desse jeito outra vez, senhorita Cortez ou terei que despedi-la, está me ouvindo?

Ela balançou a cabeça negativamente e mordeu o lábio inferior. Uma fúria sem tamanho a invadiu.

- Nunca mais fale assim comigo, me entendeu, Vossa Graça? Sou sua empregada, não sua escrava!

Ele deu uma risada de escárnio diante do tom ameaçador das palavras dela.

- Estava louca para que eu a possuísse. Louca para que eu a deflorasse...

A fúria de Ana-Lucia assumiu um nível extremo. Sentiu a mesma raiva que sentira quando o depravado do Marquês propôs que ela fosse sua amante. Ela não pensou nas conseqüências de seus atos quando sua mão se ergueu para estapear o rosto do Duque, mas o braço dele a segurou antes que o fizesse.

- Tenha muito cuidado com o que faz, senhorita. Agora saia daqui!

Com os olhos rasos de água, Ana-Lucia deixou aqueles aposentos, apenas para se ver em um corredor completamente escuro em que nunca tinha estado antes. Estava muito frio e ela abraçou o próprio corpo tentando aquecer-se. Atarantada, começou a caminhar em frente, tateando as paredes de pedra, tentando encontrar o caminho de volta para seus aposentos, mas o bico de sua botina de couro topou com um pedaço de carpete vermelho engelhado no chão e ela caiu para frente, se apoiando nas próprias mãos para não machucar o rosto de encontro ao soalho.

Suas mãos tocaram um líquido viscoso e liguento. Ana levou suas mãos até próximo do nariz e sentiu cheiro de sangue fresco. Um grito de horror escapou-lhe da garganta e reverberou pelas paredes antigas do castelo.

Ela se ergueu do chão depressa e ouviu passos atrás de si. Sua pulsação aumentou e ela estava prestes a sair correndo sem rumo pela escuridão quando ouviu a voz familiar e seca de Eloise Hawkins atrás dela.

- O que está fazendo aqui, senhorita Cortez?

- Eu... – Ana balbuciou, assustada.

- Eu vou levá-la agora mesmo para os seus aposentos.- Eloise carregava uma vela nas mãos. – Me acompanhe, por favor.

- Tem sangue no chão!- Ana disse com revolta apontando o carpete manchado e suas mãos sujas de sangue.

Eloise não pareceu nem um pouco abalada com isso, apenas usou a vela para iluminar melhor o carpete e seu cenho franziu-se ao ver um corvo morto próximo à janela que Ana não tinha notado que estava aberta porque estava escuro. Deveria ter sido por isso que sentiu tanto frio ao sair dos aposentos em que estivera com Lorde Sawyer.

- Acontece o tempo todo.- explicou Eloise. – Esta janela está com a tranca quebrada. Mandarei Sayid dar uma olhada nisso. Agora vamos. Eu a levarei ao seu quarto. Cassidy deve ter posto água fresca lá e você poderá lavar suas mãos.

Ana-Lucia a seguiu sem dizer palavra. Eloise a deixou na porta do quarto e foi embora. O corredor em que estavam ficava um andar acima do andar em que ela estava hospedada. Sozinha no quarto, Ana lavou suas mãos. Depois tirou toda a roupa, deitando-se apenas de camisolão e calçola na cama. O choro veio convulsivo, angustiado. Não podia acreditar no que tinha acontecido entre ela e o Duque de Sawyer. Ela não sabia, mas alguém a espreitava e ouviu seus lamentos até o momento em que Ana-Lucia adormeceu.

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Mais um dia começava e a preceptora sabia que teria de encarar o duque novamente. Como será que ele se comportaria quando a visse depois do que tinha acontecido na noite anterior entre eles?

Ana-Lucia corava só de lembrar o quanto tinha sido inadequado e também o quanto tinha sido bom. Ela sentira um prazer indescritível ao beijá-lo como no livro, ao sentir as mãos dele em seus seios, os lábios dele em seus mamilos sensíveis. Ela jamais imaginara que um homem e uma mulher pudessem trocar carícias como aquelas. Sua curiosidade aguçara-se ainda mais. A mãe nunca conversara com ela a respeito das intimidades entre homem e mulher. Uma vez, Ana escutou uma conversa das criadas na cozinha da mansão do Duque de Timberlake. Uma delas narrava para a outra seu encontro com um homem inesquecível e chegou a mencionar que o tal cavalheiro lhe desamarrara os laços da blusa. Ana ficou ansiosa para saber o que ele teria feito após isso, mas sua tia chamou a criada em questão e ela ficou sem saber a resposta para sua pergunta por muito tempo até a última noite.

Ser acariciada pelo Duque de Sawyer tinha sido uma experiência única que Ana-Lucia queria demais repetir, porém, depois da reação do lorde, ela não acreditava que isso voltaria a acontecer. Ele pareceu tão envolvido quanto ela naquele momento, mas algo aconteceu para fazê-lo parar e deixá-lo tão zangado a ponto de ofendê-la.

Ele a acusou de tê-lo tentado. Mas Ana não fazia a menor ideia de como poderia ter feito isso. Sabia que o tinha provocado com palavras, mas o que ele quis dizer com tentação? Ana-Lucia só conseguia compreender um tipo de tentação, a que estava sentindo pelo patrão desde o primeiro momento em que o vira.

Queria estar nos braços dele de novo, beijá-lo e ser tocada por ele mesmo sabendo que estava errado. Será que ele cumpriria mesmo sua palavra e a despediria se ela se aproximasse dele quando estivessem sozinhos e o beijasse? Por que o desagradara na noite anterior? Ela queria entender isso. Tinha feito tudo como o livro ensinara.

Quando deixou seus pensamentos sobre o acontecimento da noite de lado e levantou-se da cama, Cassidy apareceu junto com outra criada trazendo água para a higiene matinal de Ana. Ela recusou a ajuda da criada e vestiu-se sozinha. Dispensou o espartilho lembrando-se do que o Duque lhe dissera na noite anterior a respeito dos malefícios daquela peça de roupa. Colocou apenas a calçola, o camisolão fino, a anágua, o corpete não muito apertado e um de seus vestidos simples.

Olhou-se no espelho e pensou em prender os cabelos. Mas então lembrou-se de que Albert os preferia soltos, e também se lembrou do que Cassidy dissera. Sawyer também deveria gostar de seus cabelos soltos e ela queria agradá-lo. De alguma maneira queria trazer à tona o homem impulsivo que conhecera na noite anterior, o mesmo que foi capaz de beijá-la e tocá-la sem nenhum pudor ou preocupação. O homem, não o patrão.

Ansiosa para vê-lo novamente e medir sua reação diante dela, Ana-Lucia foi buscar Albert para o desjejum. Durante o caminho para o salão de refeições, ela indagou ao menino:

- Viu seu pai hoje?

O menino assentiu com a cabeça.

- Sim, senhorita Cortez. Ele foi até o meu quarto como todas as manhãs. Mas hoje foi muito cedo e me acordou. – o garoto bocejou. – Ainda estou com sono.

- Você poderá dormir um pouco depois das lições de hoje. Não se preocupe.

- O meu pai estava zangado hoje.- adicionou Albert.

- Por que você diz isso?

- Ele estava franzindo a testa assim... – mostrou o menino imitando a expressão do pai com tal destreza que fez Ana-Lucia rir. – Então eu perguntei a ele por que estava zangado.

- E o que ele respondeu?- Ana indagou, curiosa.

- Ele disse que a vida tinha um jeito estranho de fazer acontecer as coisas.- respondeu o menino dando de ombros. – Não entendi nada do que ele disse.

- Tudo bem, querido.- disse Ana, sorrindo.

- Acho que meu pai continua triste.- Albert comentou.

- Seu pai vai ficar bem.- falou ela.

- Ele ficaria bem mais depressa se casasse com a senhorita.

- Albert!- Ana exclamou. – Eu já disse a você que estou aqui apenas como sua preceptora e de sua irmã. Não vim me candidatar à noiva de seu pai.

- Pois deveria.- insistiu o menino. – A Sra. Hawkins diz que ninguém vai querer se casar com meu pai porque ele é diferente.

- Como assim diferente?- Ana retrucou.

O garoto deu de ombros outra vez.

- Ela diz isso, mas acha que Kate se casaria com ele.

- Quem é Kate?- Ana perguntou e tomou um grande susto quando a Sra. Hawkins surgiu de repente diante dela e Albert, dizendo:

- Estão atrasados para o desjejum. Lorde Sawyer já está esperando!

Ana-Lucia não se deu ao trabalho de perguntar como Eloise conseguia aparecer e desaparecer naquele castelo sem deixar rastro algum. Se havia algum tipo de magia sobre aquilo, Ana não gostaria de saber de que tipo era.

Ela apressou-se e desceu o último lance de escadas com Albert rumo ao salão de refeições. O Duque estava lá e lia as notícias do parlamento no Times. Ao ouvir os passos dela e do filho se aproximando, ele deixou o jornal de lado e sorriu para o menino ao vê-los.

- Papai!- Albert gritou correndo para o colo dele.

- Albert, comporte-se como um rapazinho!- exigiu a Sra. Hawkins, mas Sawyer disse a ela:

- Deixe-o, Eloise. Eu não me importo que meu filho haja desta maneira, a não ser que a senhorita Cortez desaprove o comportamento dele como educadora. O que me diz disso, Srta. Cortez?

- Acho o comportamento dele perfeitamente normal para a idade dele, Vossa Graça.

- Vossa Graça?- ele retrucou, debochado. – Creio que em virtude dos acontecimentos de ontem não precisa mais me tratar com tanta formalidade, senhorita.

- Creio que seu título pede esse tratamento, Vossa Graça.- ela acrescentou, corando porque ele tinha mencionada a noite anterior.

- Não estamos em Londres, senhorita. Por isso dispenso toda essa formalidade.- disse ele pedindo à Albert que tomasse seu lugar à mesa ao lado dele. – Pode me chamar de Sawyer.

Ana sentou-se de frente para ele e o encarou. Ao vê-lo assim, à luz do dia, o desejo começou a incomodá-la e ela quis estar sozinha com ele novamente, mas sabia que agora isso seria praticamente impossível.

Ela reparou que ele não ousava fitá-la enquanto comiam, parecia estranhamente perturbado com algo. Era óbvio que aquele comportamento tinha a ver com a noite anterior. Ele conversou muito pouco durante a refeição matinal, quando o fazia suas palavras eram dirigidas apenas ao filho. Isso deixou Ana-Lucia chateada e preocupada sobre o que o duque poderia estar pensando a respeito do comportamento dela na noite passada. Por acaso estaria julgando-a leviana?

Eles estavam no meio da refeição quando Sayid entrou de repente. Sawyer largou a colher de mingau no prato e olhou para ele. O empregado foi rápido e objetivo.

- Jonathan Jenkins está morto, Vossa Graça.

Um sorriso formou-se nos lábios dele, o que fez com que Ana-Lucia sentisse um arrepio de horror na espinha.

- Diga-me Sayid, a morte dele foi rápida?

- Lenta e dolorosa, milorde.- respondeu Sayid.

Sawyer ergueu-se de pronto da cadeira e disse ao empregado:

- O que vão fazer com o corpo?

- Querem enterrá-lo no cemitério da vila, senhor.

O duque balançou a cabeça negativamente e disse:

- De jeito nenhum, aquele cadáver é meu!

Ana-Lucia ficou indignada por Lorde Sawyer dizer uma coisa daquelas na frente do filho dele. Seus olhos miraram o patrão, em choque, mas o pequeno Albert parecia imperturbável enquanto comia suas torradas com queijo.

- Meu filho, papai precisa ir. Nos vemos depois, está certo?- disse ele a Albert com voz carinhosa, sobrepondo-se ao tom sombrio que ele usara para falar do cadáver do infeliz Jonathan Jenkins.

- Sim, papai.- disse Albert sorrindo e abraçando o duque.

- Dê mais um beijinho na sua irmã por mim, está bem?- ele sussurrou para o menino que assentiu. – Ah, e... – ele acrescentou, mas Ana-Lucia não conseguiu ouvir o que ele dizia dessa vez, mas foi algo que fez o menino dar uma risadinha.

- Perdoe-me por sair assim, senhorita Cortez, mas o dever me chama.

- Dever?- retrucou Ana. – Mas segundo o Sr. Sayid, o Sr. Jonathan Jenkins está morto. Eu sei que o senhor é médico, mas o que poderia fazer por ele?

- Muitas coisas que provavelmente a senhorita não seria capaz de compreender.

- Por que não experimenta me contar?- contestou ela, erguendo-se da cadeira.

Lorde Sawyer ergueu uma sobrancelha e deu a ela um olhar maldoso.

- Melhor esquecer isso, senhorita. Não é uma história bonita.

Ana-Lucia deu dois passos na direção dele, surpreendendo-o quando disse:

- Precisa mesmo de cadáveres, Vossa Graça? Qual o significado disso?

Logo após ter insistido na pergunta, Ana-Lucia arrependeu-se de tê-lo feito. O olhar feroz do duque que ela agora começava a conhecer muito bem se formou e por um momento ela achou que ele fosse lançar-se sobre ela e machucá-la. Mas ele manteve-se parado e calmo no mesmo lugar ao dizer:

- Sayid, por favor, leve o Albert um instante aos estábulos enquanto dou uma palavrinha com a senhorita Cortez. Eu o encontrarei lá daqui a pouco.

- Mas o Albert precisa fazer suas lições agora, Vossa Graça.- Ana lembrou, mas sua voz estava ligeiramente trêmula.

Ele ignorou por completo a negativa dela e Sayid apressou-se em levar o menino para fora. Colocou-o sobre os ombros e brincou com ele, afastando-se dos dois. Quando ficaram a sós, Sawyer disse à preceptora com fúria na voz:

- Nunca mais fale nesse tom comigo na frente do meu filho, me entendeu?

- Perdoe-me, Vossa Graça.- disse ela. – Mas como educadora achei inadequado que o senhor flasse sobre cadáveres na frente do menino.

O duque se aproximou dela com os olhos faiscando. Ana deu alguns passos atrás, mas ele cobriu a distância em segundos, segurando-a pela cintura e puxando-a contra o corpo musculoso dele. Ana deixou sair um ruído de surpresa e exasperação. Ele era tão alto e ameaçador com aqueles longos cabelos e a capa negra. Então por que ela não estava com medo? Seu corpo tremia, mas não era de medo. Sentia o calor dos braços dele ao redor de si e tudo o que queria era aconchegar-se mais.

- Eu sei o que devo ou não devo dizer na frente do meu filho.- ele sussurrou muito próximo aos lábios dela. – Prometa que nunca mais me desafiará na presença dele ou de qualquer outros dos meus empregados!

- Não posso prometer isso, Vossa Graça.- Ana disse, mesmo sabendo que não deveria fazer isso. Mas ele não tinha o direito de subjugá-la daquela maneira, de deixá-la tão zonza de desejo, seu corpo derretia nos braços dele naquele momento.

Sawyer notou que a respiração dela estava alterada e sorrindo com malícia, indagou:

- Está com medo de mim, senhorita?

- Não... – ela respondeu com segurança e isso pareceu perturbá-lo ainda mais.

- Maldita mulher!- ele resmungou roçando seus lábios nos dela e então os beijando selvagemente, mordiscando-os e lambendo-os. Ana suspirou e envolveu seus braços ao redor do corpo dele, deixando-os ainda mais grudados. – Eu a quero...eu a quero... – ele murmurava entre os beijos que Ana correspondia com ardor.

Foi apenas o som de passos se aproximando no corredor, que Lorde Sawyer conseguiu captar ainda à distância que fez com que eles se separassem ambos aos arquejos. Ainda ficaram se olhando por alguns instantes, até que Diana, a criada, apareceu no salão de jantar. Ela estava vindo recolher a louça suja e limpar a mesa. Ao ver o patrão, ela se retesou e dando um passo atrás, disse:

- Perdoe-me, Vossa Graça. Pensei que o senhor já tivesse terminando o desjejum.

- Está tudo bem, Diana.- disse ele. – Eu já terminei.- ele fez uma mesura para Ana-Lucia e disse com sua fria educação: - Se me dá licença, senhorita Cortez.

- Tem toda, Vossa Graça.- Ana respondeu com formalidade.

- Mandarei Albert de volta em seguida.- ele acrescentou e deixou o salão a passos rápidos, sua capa negra farfalhando às costas dele.

- A senhorita está bem?- indagou Diana assim que o patrão deixou-as a sós.

- Sim.- Ana respondeu. – Por que pergunta?

- É que a senhorita me parece um pouco corada.- disse a criada. – O duque disse algo que a perturbou?

Ana-Lucia ficou intrigada com a pergunta.

- Por que ele faria isso?

Diana deu de ombros.

- Não sei...ouvi dizer que o duque pode ser muito perturbador às vezes. Sinto isso só de olhar para ele...

- Tem medo dele?- Ana perguntou.

A criada assentiu.

- As pessoas na vila dizem que ele é maligno, que Lorde Sawyer coleciona ossos e faz feitiços.

- Se tem medo dele, Diana, então por que continua trabalhando no castelo dele?

- Preciso do emprego, senhorita. Eu e meu marido somos pobres e temos três crianças pequenas para alimentar. O duque pode ser esquisito, mas ele é muito generoso, me paga um bom salário e sempre manda presentes para as crianças.

- Então não deveria ter medo dele.

- A senhorita passa mais tempo com ele do que todos nós, com exceção da Sra. Hawkins que o conhece desde criança. Não tem medo dele como o resto de nós? As outras preceptoras o temiam.

- Não tenho motivos para ter medo dele.- Ana respondeu com segurança.

E de fato ela não o temia. O que sentia por ele era muito diferente de temor. O Duque de Ford a intrigava e agora que já tinha experimentado dos beijos e carícias dele passara a desejá-lo com um ardor que beirava a insanidade.

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Depois do confronto que eles tiveram no salão de jantar, uma semana inteira passou-se e Ana-Lucia não viu mais o duque. Ela o esperava ansiosamente na hora das refeições, procurava-o pelo jardim, por várias vezes pensou em embrenhar-se novamente no labirinto para ver se o encontrava, mas acabava desistindo da ideia por conta do que havia lhe acontecido da última vez em que estivera lá.

Toda aquela espera era dolorosa e angustiante, e ao mesmo tempo ela se perguntava o que faria ou diria quando o visse de novo. Teria coragem de dizer a ele o quanto sentira sua falta? Em sua mente alimentava pensamentos românticos a respeito do patrão. Imaginava-se passeando com ele de braços dados ou cavalgando ao luar novamente. Pensava ainda nos lábios dele tomando os seus, a língua dele provocando-a, sua boca beijando seus seios. Jamais se esqueceria do que tinha desfrutado com ele.

Sentia-se estúpida por pensar tanto nele, por desejar algo que nunca teria. Ele fora claro quando dissera que a despediria se ela o tentasse outra vez, se fizesse qualquer movimento em direção a ele. Mas não tinha sido ele quem a beijara? Das duas vezes? Por que o duque a culpava pelo que tinha acontecido se ele era o principal culpado?

"Oh Ana, esqueça!"- ela disse a si mesma em pensamento. Um homem com um título de nobreza do porte dele jamais se casaria com uma moça sem títulos. Não importava que fosse filha de um Duque. Era ilegítima e nada poderia mudar isso. O pai não a reconhecera nem em seu leito de morte.

Era mais uma manhã chuvosa em Graves. Albert estava jogando xadrez com Alex enquanto Ana ninava a pequena Nicole perto da janela. John Locke, o mordomo bateu à porta da sala de estudos e ela autorizou que ele entrasse.

- Srta. Cortez, o mensageiro acabou de trazer essa carta de Londres para a senhorita.

Ana ergueu-se com a nenê da poltrona e caminhou até o mordomo, retirando a carta das mãos dele.

- Obrigada, Sr. Locke.

O homem assentiu friamente com um movimento da cabeça e retirou-se. Ana-Lucia checou a carta. Era de sua mãe. Sorriu contente. Estava ansiosa por notícias dela.

- Alex, você pode olhar as crianças enquanto leio minha carta?- ela indagou a babá, entregando Nicole para ela. A menina choramingou, queria ficar nos braços de Ana, já estava muito apegada a ela.

- Sim, senhorita Cortez.- respondeu Alex segurando Nicole e balançando-a para que ela se acalmasse.

- Eu volto logo, querida.- Ana prometeu ao bebê, beijando a mãozinha da menina. – Comporte-se, Albert!- ela acrescentou e o garoto sorriu para ela.

Ana-Lucia deixou a sala de estudos e caminhou pelo longo corredor rumo ao seu quarto, querendo privacidade e calma para ler sua carta. O que ela não teria se a lesse junto das crianças.

Ela já estava quase chegando à escada que levava direto aos seus aposentos quando ouviu passos atrás de si. A Sra. Hawkins provavelmente. Desde o episódio com o corvo morto que Ana parara de se assustar com pessoas surgindo de repente atrás dela.

Porém, ela não estava preparada para a visão que teria. Por pouco não deixou a preciosa carta de sua mãe cair de suas mãos quando se viu diante da jovem mulher de longos cabelos vermelhos, olhos verdes, vestido púrpura, capa de seda e chapéu de pena de pavão. Lady Evangeline Ford. Era impossível, mas Ana-Lucia tinha certeza de que era ela. Sua única reação foi um grito agudo de pavor.

Continua...